Hoje Macau Grande PlanoEstudo | Quase 80 milhões de mulheres podem enfrentar infertilidade em 2036 Um estudo concluiu que o número de mulheres dos 35 aos 49 anos a sofrer de infertilidade em todo o mundo vai aumentar quase 50 por cento na próxima década e atingir 79,6 milhões em 2026. As conclusões foram apresentadas na terça-feira pela Universidade de Hong Kong (HKU, na sigla em inglês), que coliderou a investigação com académicos da China continental, Singapura e Reino Unido. Os investigadores analisaram uma base de dados global de saúde que abrange 204 países e territórios entre 1990 e 2023, examinaram as tendências de longo prazo e utilizaram modelos de previsão. A infertilidade, definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a incapacidade de alcançar uma gravidez clínica após 12 meses, afecta entre 8 por cento a 12 por cento dos casais em idade reprodutiva em todo o mundo. Mas o estudo, financiado por instituições chinesas e publicado na revista científica Lancet em Julho, concluiu que a infertilidade está gradualmente a tornar-se um problema maior nas economias mais desenvolvidas. Os investigadores lembraram que cada vez mais mulheres adiam planos para ter filhos, em parte devido às “transições socioeconómicas aceleradas”. Ainda assim, o relatório adiantou que a Europa Ocidental, incluindo Portugal, teve uma taxa de prevalência de infertilidade de 2.807 casos por 100 mil mulheres em 2023, menos de metade da média global: 6.001 casos. “A infertilidade em idade materna avançada não é apenas uma questão clínica”, disse Queenie Li Lingjun, professora associada do departamento de obstetrícia e ginecologia da Escola de Medicina Clínica da HKU. “Está intimamente ligada ao bem-estar familiar, à autonomia reprodutiva, ao planeamento da força de trabalho e ao desenvolvimento social a longo prazo”, sublinhou Li, citada pelo jornal de Hong Kong South Ching Morning Post. Urgente reagir O estudo considerou que a infertilidade “acarreta sofrimento psicológico substancial, dificuldades financeiras e estigma social, o que pode prejudicar a estabilidade conjugal e o bem-estar familiar”. Com a aceleração do envelhecimento populacional, a infertilidade tornou-se também “um grave problema de saúde pública, com implicações económicas significativas para as mulheres, as famílias e os sistemas de saúde”. “O aumento dos custos de tratamento e as perdas de produtividade ressaltam a urgência de respostas integradas de políticas de saúde e económicas”, referiram os autores. “É essencial que adoptemos medidas de saúde pública mais precoces e direccionadas para lidar com as consequências do adiamento da maternidade na saúde reprodutiva”, disse Li. A investigadora acrescentou que as conclusões apoiam uma abordagem mais abrangente, incluindo políticas que apoiem melhor as mulheres e as famílias na elaboração de planos e na tomada de decisões informadas.
Tânia dos Santos Sexanálise VozesCongelar óvulos e o direito à fertilidade Em Dezembro 2022 a Jennifer Aniston, numa entrevista muito honesta, falou sobre a dificuldade em engravidar. O insucesso de todo o processo pô-la a pensar nos ‘ses’ da sua vida. Um desses ‘ses’ teria envolvido congelar os óvulos quando era mais nova. Um conselho que ela tentou passar à audiência da sua entrevista. “Façam o favor a si próprias: congelem os vossos óvulos.” Nas redes sociais começou-se a discutir isso. Imediatamente fui falar com uma amiga que estava a passar por um processo de inseminação artificial. Ela disse-me que aconselharia também a todas as mulheres que conhece. O procedimento exige a estimulação de produção de ovócitos, a sua remoção e o congelamento. O processo pode ser doloroso e ter alguns efeitos secundários, mas garante óvulos saudáveis numa fase posterior de vida. Há uns 10 anos só um grupo muito estrito de mulheres é que fazia este procedimento: mulheres a lutar contra doença oncológica. Mas os números são claros de outras motivações que se insurgem. Chama-se congelamento de óvulos social para aquelas pessoas que decidem fazê-lo por razões sociais. Que razões sociais são essas? As mulheres fazem-no porque prevêem que pode ser importante nos seus planos de vida. A mulher nasce com uma quantidade definida de óvulos. Inicialmente, de forma gradual, a reserva começa a reduzir. Mas a partir dos 35 anos há uma aceleração deste processo. Assim, bem informadas, as mulheres decidem congelar óvulos nos 20, ou no início dos 30. Para a mulher dita moderna esta é uma forma de planeamento e controlo da maternidade. A mulher moderna sabe que a estabilidade financeira e emocional só chegará depois dos 35. Também sabe que encontrar uma parceira ou parceiro ideal pode ser um processo lento e moroso. Mas a mulher moderna precisa de ter muito dinheiro para ser assim organizada – uns quantos milhares para assegurar a apólice de seguro da maternidade. Há custos associados à remoção, congelamento e armazenamento. Dado o seu caracter social, é um procedimento não comparticipado. Apesar de ser visto como uma ferramenta de empoderamento das mulheres, para investir nas suas carreiras e conseguir ser mães em diferentes fases de vida, o empoderamento só é acessível a algumas. Para além do mais, há quem discuta que o seguro não é tão seguro assim. O congelamento dos óvulos é uma oportunidade, não é um embrião. Por mais que as celebridades e as amigas aconselhem, há que pensar no grande esquema das coisas. Uma narrativa desta natureza assume que a fertilidade é um problema individual a necessitar de soluções individuais, que só um grupo da população consegue garantir. As condições de trabalho, de estabilidade profissional e financeira que possa garantir o bem-estar de uma criança, vem cada vez mais tarde, e isso não é da responsabilidade de cada uma. Este mecanismo de empoderamento precisa também de refletir sobre os ambientes propícios à fertilidade e à maternidade. Não vos custará muito verificar as fracas políticas de apoio à natalidade que não têm a consideração o tempo ou a exigência financeira que é ter uma criança. Se a decisão de ter uma criança é adiada, muitas vezes não é por capricho, é por necessidade. O direito à fertilidade precisa de ser amplamente considerado nas suas formas multi-facetadas. A possibilidade de escolha de uma maternidade tardia é, claro, maravilhosa. É possível manter essa possibilidade em aberto para quem tenha os recursos para fazê-lo. Mas não deixa de ser uma estratégia que é individual e elitista. O reconhecimento que este é um procedimento de empoderamento, também precisa de vir acompanhado de uma consciência dos contextos em que esse direito à fertilidade é continuamente retirado e descurado.