Ordenhar com amor uma vaca da Frísia

Existem coisas terríveis no planeta azul, é verdade. A amostra e o armazém confundem-se: jaíres que amam a estabilidade das ditaduras, sanguinários sauditas à solta e, virando a página, milhões e milhões de refugiados a errarem na parte sul do Sudão, nas Américas ou no Mediterrâneo. E dias há em que a televisão nos dá a ver inundações e tsunamis, mas há sempre vozes ventríloquas a papagaiar que tudo se passa lá muito ao longe.

As coisas terríveis têm a mania de acontecer na outra margem. Como se existisse um rio entre nós e a realidade, interrompido apenas quando sobre a nossa cabeça se abate uma gigantesca bigorna de aço. Se acordássemos do choque, essas vozes persistiriam. Cair uma bigorna na cabeça de alguém é sempre um pára-arranca a deambular lá muito ao longe. Nem seria preciso citar Napoleão a acossar pirâmides do Egipto, para concluir que os humanos gostam de imaginar os longes (‘longes bem longínquos’ onde tudo arde), adoram lucubrar sobre episódios terríveis e até se deram ao trabalho de inventar o teatro e a própria palavra “catarse”.

Colocando de lado por instantes o ‘coiso’ do Brasil, os tsunamis e os ventríloquos, é coisa corrente no dia-a-dia que as grandes e pequenas monstruosidades andam geralmente camufladas. Atravessamos a rua no fim da tarde de uma sexta-feira amena e temos aquela sensação na boca de estar a solfejar “Amor, I love you” de Marisa Monte, ou então vemo-nos a apanhar da calçada uma folha de plátano com toda a ternura, antes de teclar um coração no iphone. Depois, encaramos as nuvens paradas e concluímos que a vida é bela, cheia daquela harmonia dos verões da infância, lânguida de ardores (dos que antecedem os arsénicos de Emma Bovary). Poderemos até abraçar um peru ainda vivo ou ordenhar com amor uma vaca da Frísia e dizer que o natal é quando a alma de Mahatma Gandhi quiser.

Então porquê as monstruosidades camufladas? Não, não é por paixão carnavalesca. Talvez seja, na mesma ordem de ideias que levou Polonius a questionar Hamlet – “Will you walk out of the air, my lord?”, por causa daquele grau de suspeita que permite deduzir que ‘eles andam aí’. Por vezes nem precisam do ar que respiram. Sobrevivem ao jeito da melanina que protege do sol os mais apetecidos recessos cutâneos. ‘Eles andam aí’, pequenos e grandes, e comportam-se com tique de máscara mal colocada, fazendo lembrar osgas, louva-a-deus, cavalos-marinhos, sapos, lagartas, girafas, aranhas e corujas que sabem confundir-se com o pano de fundo da natureza onde se acoitam, sejam florestas, desertos ou corais. Só que, de um momento para o outro, aparece quase sempre quem os detecte. Coisa de sortudo e não de pobre diabo.

Pobre diabo é uma designação feliz, sim. Dizem que os pobres diabos são tão leves que sobem ao reino dos céus como sumaúma. E podem inesperadamente ser muitos, muitos milhões. Por exemplo: já experimentou, caro leitor, telefonar para Meo a perguntar por que razão a factura mensal aumentou de repente (e sem qualquer razão)? A voz gravada há-de desafiar a sua paciência celestial durante 40 minutos e depois você desiste por ter compromissos marcados. Já experimentou, caro leitor, ir às finanças anular um pagamento que teve como base o lapso de um funcionário? Há-de conseguir a validação dos dados, sim, mas, logo a seguir, terá que subir à secção das dívidas e vão dizer-lhe, a esfregar as mãos feitas de sumaúma: “a intervenção humana está feita, mas o sistema tem os seus timings próprios e, por isso, vai ter que pagar (e com juros), caso contrário haverá penhora das contas bancárias”. De um momento para o outro, os predadores confundem-se com as osgas, as louva-a-deus, os cavalos-marinhos, as aranhas, etc, etc, e não com o pobre diabo que se lembrou de ir resolver umas coisinhas correntes, no fim de uma amena tarde de sexta-feira, quando na esplanada do bairro toda a gente cantava em uníssono “Amor, I love you”. Há alegorias que valem mais pela amostra do que pelo armazém.

Seja qual for a escala do desvelo, caro leitor, confesso que não há gramática que resista a uma bela bigorna a perfurar o tálamo ou às pirâmides de gizé a mangarem com a estatura de Napoleão, pois tudo se passará inevitavelmente do outro lado, na outra margem, no silêncio de Polonius. O pessoal vê sites e notícias sobre os jaíres pistoleiros e as novas “invasões bárbaras”, o pessoal vê crianças mortas nas praias e ouve a nova geração de políticos da Hungria, da Polónia ou de Itália e, a caminho do ginásio ou de regresso das finanças, vai pondo uns likes na atmosfera. E com os phones cada vez mais enterrados nos ouvidos, a maior parte do pessoal continuará a ouvir sem parar os anjinhos ventríloquos e natalícios a fazerem de coro grego: ‘Let it be’, ‘No pasa nada’, ‘Baby It’ll be alright’ e outros hits tipo rap evangélico. Tal como Camus escreveu no romance A Peste: “…o flagelo reunia todas as suas forças para as lançar sobre a cidade e se apoderar dela definitivamente” (1). Já faltou mais.


(1) Camus, A. A Peste, Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p.156.

8 Nov 2018

As varreduras

Varrem e varrem – ad eternum – e nesse gesto dactilografam as manhãs. Nenhum povo varre tanto desde O Outono do Patriarca, de Garcia Marquéz, como o povo moçambicano.

Pianíssimo num repertório monocórdico, interminável. Ruge-ruge em surdina, como uma nuvem de mosquitos enredada nas micaias.

É incalculável o apego colocado na mão que abraçaa cintura da vassoura e lhe comanda a dança, o desenho das parábolas ou de outras figuras geométricas na varredura – embora nem sempre se conjugue o tanto que foi varridocom o que haveria a varrer.

Ainda a alba se espreguiçae assoma aquele arrumo ou raspagemfugida à insonorização da noite; furtiva, antes de ser um mantoe do som das cerdas -nas placas de cimento,à diante dos portões,das portas, dos túneis, dos degraus,em redor da caldeira das figueiras-da-índia -,do seu raspar, se elevar acima do passodos guardas, cobrindo a cidadede uma redoma sem nome.

Varrem, varrem, varrem – escavam uma fonte? Num frenesim que fosforesce na mais inexplicável mansidão.

Terá sido a noite a levedurade uma culpa que anseiam agora apagar,extinguir, sem deixar rasto -amortalhada no ar?

Maputo não desperta, Maputo varre-se para debaixo de um tapete inexistente até à madrugada seguinte quando os guardas, unânimes no hipnotismo da sua insónia, repegam na vassoura.

Quatro horas depois, no bulício, já a urbe se enovela em babugem e lixo e voltou aos ritmos do desconcerto e à intimorata prioridade aos chapas, enquanto se ouvem ao longe as goteiras do impasse e fungos nascem à sombra dos ”works in regress” da política.

Mas volta a chegar a noite; cansados de frango, de xima, da matapa, de esmolas, do calor brutal dentro dos chapas, do uísque martelado, vem a noite sem aplausos, envolta na dor que se sente pelo demente que se arma em chefe. E a quietude impõe-se como baforadas de cego, arcando os desejos de um milagre impossível.

O vento encostado ao escuro tubula, sonda a ferrugem dos fusos horários, ou cai a chuva num alarde de praga.

Raramente, contudo, mesmo em corda, a chuva ultrapassa o dealbar da alba, e aí, parecendo nascer directamente das axilas de todos os anjos caídos,recomeça o ruge-rugedas vassouras, alastram-se as cerdase o seu vaivém, fazendo-se uno, espesso,contínuo,  como se a madrugadanão passasse do sonho intempestivo de milhões de limpa-chaminés.

Embora o como eles varrem, o que varrem, o quanto varrem –  buscam afanosamente o bíblico buraco da agulha? – raramente se ajuste ao que haveria de ser varrido.

Nenhum povo varre tanto desde O Outono do Patriarca, de Garcia Marquéz, como o povo moçambicano. Julgava eu, até este domingo vinte e oito ter visto a varredura que correu no Brasil.

Vão agora ser varridas, de lés a lés, as instituições do estado brasileiro. Tudo o que cheirar a lula – canetas, contratos, funcionários, directores, subsídios e expedientes de coitadismos -, vai ser varrido e substituído por chocos, mais redondos e de tinta preta como as falanges direitistas.

Vai ser varrida a Amazónia, para dar lugar às manadas de bois.

Vai ser varrida a preguiça dos indígenas e quilombolas, depois os próprios índios; as onças, as anacondas e piranhas serão esquartejadas e amontoadas no bojo de grandes betoneiras eléctricas para o fabrico das rações para os bois.

Os peixes-boi, tão ternos, irão ser varridos para as piscinas das esposas dos grandes diplomatas dos países latino-americanos “sem viés ideológico”, homens imensamente ocupados em rápidas de xadrez e leituras do Levítico.

Os botos da Amazónia (os seus golfinhos) irão ser varridos para dentro dos selos comemorativos do complexo de campos de golfe que o amigo Trump irá fazer depois de resgatar da selvática floresta os arredores de Manaus.

Vão ser varridos os homossexuais, que irão conhecer as provações que Job não teve.

Vão agora ser varridas, de lés a lés, as instituições do estado brasileiro. Tudo o que cheirar a lula – canetas, contratos, funcionários, directores, subsídios e expedientes de coitadismos -, vai ser varrido e substituído por chocos, mais redondos e de tinta preta como as falanges direitistas

Vão ser varridos os morros onde se acumulam as favelas, ou melhor terraplanados, e a nuvem de coca que se adensar sobre os escombros será aproveitada para melhorar os records de todas as modalidades desportivas, catapultando o Brasil para a elite do desporto.

Vão ser varridos para o Atlântico todos os remédios que não sejam placebo, porque na terra do Corcovado homens não têm fracalhadas.

Vão ser varridas todas as ex-criaturas humanas que não cerrem as pálpebras, devotamente, para rezar o Padre Nosso com o seu presidente.

Fora com os depravados, Chico Buarque, Caetano, Gil, e Jó Soares, varridos para Cuba.

Varridas serão as pistolas de plástico das crianças e substituídas por verdadeiras, com balas de borracha até aos dezasseis anos e, após, de aço; para usarem em legítima defesa.

Varridas também as cotas raciais na universidade, até porque os negros serão convertidos em varredores – os melhores do mundo.

Teses universitárias que se debrucem sobre Drummond ou Villa-Lobos serão varridas, doravante só interessa o conhecimento aplicado: como transformar o bafo de onça em sabonete ou introduzir o sincronismo das bailarinas do Bolshoi em relógios de quartzo.

Varrida a educação sexual das escolas, substituída pelas prenhezes prematuras e as ladainhas do Círio de Nazaré!

Bom, nem tudo será mau nesta varredura:  o candidato eleito prometeu ainda que vai procurar “relações com países que possam agregar valor económico e tecnológico aos produtos brasileiros” e isto pode ser um “negoçião” para Moçambique, se quiser exportar milhares de cerdas – que a oportunidade não se malogre.

2 Nov 2018