Crash

Tempo transfigurado. David Cronenberg já em 1996 nos mostrara uma estranha contaminação entre orgânico, humano e mecânico no campo da criação, este filme, que parte do romance de James Ballard, escritor inglês nascido em Xangai, precipitou logo interrogações fortes de uma era no seu limite pela mão do mestre do terror fantástico quando os seus instintos estavam certamente ao rubro fazendo da imagem do desastre uma via sem remição. São estes testemunhos que mais tarde podemos conjugar em dias assim, estes, que nos estão doendo como um membro amputado, reposto por uma “prótese” que faz com que todos coxeiem, que leis abissais não permitem equilíbrios. Nascemos de facto para enfrentar o impensável!

Preparados estávamos então para o previsível das coisas iguais – que, parecendo mudar, apenas se deslocam – e mesmo aí a fita do tempo cinematográfico deste feiticeiro escutava com os olhos a observância do recado, aquele dispositivo de segurança que deveria soltar-se. Já não estamos na dilatória mórbida desse prazer à Breton que nos seus conturbados automatismos psíquicos achava então que uma obra de arte até podia ser dar um tiro para trás e ver em quem aleatoriamente acertava – estranhos prazeres- têm as almas assassinas, Cronenberg, mostra-nos outra configuração do abismo.

O abismo pode ser tão fundo como os mais fundos desejos irrevelados, e se deste panegírico sair um deles, é porque está em fase de expansão como um vírus aquele desejo da lei manifestada que faz que se cumpra o arco da vertigem, assim como um barco que na fase oblíqua é sugado pela água, desaparecendo. Nenhum estado agudo se mantém para além de uma certa inclinação, e na sucção, a velocidade das estrelas. Nestes caminhos somos todos estrangeiros, peregrinos, somos a corrente aberta ao ilimitado, necessitamos dos códigos para não soçobrar aos dias que não resolvem já nada, mas que são ainda os membros fantasmas que carregam a nossa memória de outros porventura muito felizes. Vamos para a janela cantar, possivelmente até com aqueles que do canto nunca se abeiraram.

Os mamíferos que não bebem leite materno somos nós em grande escala na medida em que não temos mais nenhuma capacidade de sucção energética para abastecer a anatomia, mas o grande mal provocado a outros da mesma natureza deve ter feito um corredor de antecâmaras letais para o nosso prazeroso e entediante veículo da “felicidade” tão admoestado de canibalismos vários que as carcaças luziam pelo chão do mundo como se fossemos acessórios estimáveis. Se éramos muitos, também nos utilizámos bastante. Cada “membro” nosso era suporte de uma armação com toneladas de ferro que os dias laboriosos do capital multiplicaram em bichas de muitas cabeças galvanizadas pelo estertor das aglomerações; diria que há muito que já demos em doidos, mas pouco atentos aos sinais, passámo-los todos por entre gritantes evidências.

Dos enroscados membros, só faltou a Cronenberg enroscar cabeças! Mas não faltará o seu transplante numa antecâmara que prevê a viagem ao tempo da Revolução Francesa para ver como se encaixam tantos cérebros em corpos diferentes, sim, que a máquina do tempo está aí, e com ela adaptações formidáveis da plasticidade humana. – Reflexões de reclusos nesta hora bastarda em que nos dão a comer a intranquila paz dos segregados- Choque em cadeia faz um estigma gigantesco que será interrompido pela imprevisibilidade motora de cada paciente…podendo ser que morra, que se reerga, que seja assintomático, mas que desliza sem dúvida para a sua hora grave mesmo que fique intacto no meio dos escombros do “ferro-velho” do mundo.

Teríamos que recorrer ao mestre e pedir-lhe uma nova interpretação para comprovar a eficácia do domínio das provas, ou, tirar esta dura impressão de que não mais voltaremos a um qualquer lugar que julgáramos seguro, se estamos preparados, a carne, essa será sempre fraca. E frágil é aquela que chega à Europa! Essa a quem a mesma Europa “lavou as suas mãos” deixando-a a morrer às suas portas. Um Exterminador não é um terrorista, e essa diferença vamos ter de saber redimensionar para não morrermos inocentes dentro da própria malvadez, a pior espécie de inocência, aliás, e que os dias de reclusão possam parecer imposições do destino que pede agora a cada um que aborde as coisas por ângulos diferentes, e se não se pode fazer mais nada dentro deste estado confinado, ainda assim podemos saber perdoar-nos e agradecer uma vida que foi boa quantas vezes à custa de tantas que por serem mais frágeis são agora as mais ameaçadas.

28 Abr 2020