Medicina preventiva

O rosto é o espelho por onde os mestres conseguem ver o que se passa no interior do corpo e nas plantas dos pés situam-se as zonas correspondentes a todos os órgãos e vísceras, a porta directa para com massagens preventivas e terapêuticas activar a circulação da energia e restabelecer o equilíbrio energético do corpo.

Basta a mente estar doente, logo o corpo o denota e vice-versa. Nessa balança, um corpo protegido por boa saúde [pela prática de algumas antigas terapias referidas no último artigo] tem capacidade para internamente o próprio organismo activar os ingredientes, deslocando-os para fortalecer e regular o destabilizado, até o equilibrar.

O bom médico ajuda as pessoas a prevenir as doenças ainda antes destas aparecerem. As doenças só existem quando o corpo está instável e enfraquecido, pois se forte e nutrido, mesmo os vírus não têm lugar para entrar no organismo. Daí, na Medicina Tradicional refere-se não haver doenças, mas apenas doentes e, como medicina preventiva, ao entender pelos sinais da face as queixas do corpo, revitaliza pressionando determinados pontos a desobstruir os meridianos por onde circula a energia vital Qi.

Os alimentos que ingerimos e o ar que respiramos são os ingredientes a estimular a saúde do Corpo, cuja terapia do canto o purifica ao criar ondas de vibrações que em ressonância o sintonizam com o som da Natureza.

Actualmente ocorre o que há dez mil anos aconteceu com a Revolução Agrícola, a qualidade nutricional da maior parte dos alimentos reduziu-se e para compensar os valores existentes nos ingredientes (sais minerais, proteínas, vitaminas) de há pouco mais de quarenta anos é necessário comer uma maior quantidade. Como o remédio está nos alimentos que ingerimos e a qualidade deles falhou, desmoronou-se a via natural da terra ao desaparecerem os produtos alimentícios maturados pela Natureza que nutriam o corpo pelos sentidos, dando-lhe um bem-estar físico, psíquico, mental e espiritual. Osmose perdida pela industrialização e essa falha de nutrientes é agora por produção de laboratório substituída por fármacos, suplementos e medicamentos, a dar ao corpo as necessidades que já não consegue dos alimentos extrair e sintetizar.

A vida desregulada, sem cumprir os horários de repouso para o corpo e uma deficiente alimentação, leva a duração da vida humana a decair e se o nosso corpo esteve preparado para atingir os 120 anos, agora essa esperança vem diminuindo devido aos maus alimentos consumidos, ao ar poluído que respiramos, aos estragos feitos por excessos e bebidas frias ingeridas. Aliada à notória falta de qualidade do não se querer saber e isso deve-se ao desregular de quem pelas partes (os especialistas) pretende fazer o todo. Não sendo o fluxo da circulação de energia suficiente, ou estando bloqueada no organismo, os humanos rompendo o equilíbrio adoecem.

O horário do corpo

Com dois conceitos se explica a lei natural que rege e dá ordem ao Universo: a Teoria do movimento das compensações entre yin (receptivo) e yang (activo) e a Teoria dos Cinco Elementos (Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água), a base da composição de todas as coisas.

“Na Natureza, yin yang manifestam-se através dos Cinco Elementos”. A Teoria dos Cinco Elementos conjugada com a teoria dialéctica do Yin e Yang e dos 8 Trigramas, na qual o Universo é uno e a sua ordem é regida por yang, a simbolizar o princípio masculino, e yin, o princípio feminino, tendo cada um dentro de si um ponto do outro, não entrando em conflito, mas complementando-se, representa a ligação do Ser ao Céu (10 Tian Gan 天干). Estas leis servem para disciplinas como Astronomia, Medicina, Climatologia, Cronobiologia (estudo dos ritmos biológicos), Meteorologia e todas as que trazem a gramática definida no Todo infinito, a espelhar na Terra a Geometria do Céu.

“Segundo a Filosofia do Dao: . Desta lei resultam dois ciclos de funcionamento que regem e determinam a relação de interdependência dos Cinco Elementos: Ciclo de Criação e Ciclo de Dominação.” Retirado do livro Espiral da Vida escrito por Cristina Rocha Leiria e Helena Bessac, edição do Centro Ecuménico Kun Iam de Macau e ICM, e nele seguimos usando as suas informações. Sendo o Corpo uma unidade, sabe-se sobre os cinco órgãos do corpo humano no Ciclo de Criação e no Ciclo de Dominação que: O fígado (Madeira) complementa o coração (Fogo) e opõem-se ao baço/pâncreas (Terra). O coração (Fogo) ajuda o baço/pâncreas (Terra) e perturba os pulmões (Metal). O baço/pâncreas (Terra) complementa os pulmões (Metal) e opõem-se aos rins (Água). Os pulmões (Metal) ajudam os rins (Água) e opõem-se ao fígado (Madeira). Os rins (Água) complementam o fígado (Madeira) e perturbam o coração (Fogo).

Logo, para tratar do corpo é importante conhecer o horário biológico diário dos períodos de hiperactividade energética dos meridianos a tonificar os órgãos e vísceras, regenerando-os e nutrindo-os de energia. Refere Francisco Costa Silva, “O ritmo do dia e da noite, nictemera, ou ritmo circadiano, faz parte da cronobiologia e estuda os ritmos biológicos e as variações fisiológicas do organismo em função das horas do dia. Em Medicina Tradicional Chinesa, cada ciclo biológico é constituído por doze horas”, os 12 shichen que compunham o dia na dinastia Ming. Daí, a divisão do dia por os 12 ramos terrestres (12 Di Zhi 地支) corresponde: o primeiro, entre as 23 h e a 1 da manhã (Zi Shi, hora do Rato), período de actividade do meridiano Dan da Vesícula Biliar, víscera yang; o segundo, entre a 1h-3h (Chou Shi, hora do Búfalo), período para restabelecer Ganqi, a energia do Fígado, órgão yin; o terceiro, entre as 3h e as 5h (Yin Shi, hora do Tigre) a trabalhar durante o sono o Pulmão, víscera yang, abastecendo a energia pulmonar Feiqi; o quarto, 5h-7h (Mao Shi, hora do Coelho) a regenerar Dachangqi, energia do Intestino Grosso, víscera yang; o quinto, 7h-9h (Chen Shi, hora do Dragão) restabelece Weiqi, a energia do Estômago, órgão yin; o sexto, 9h-11h (Si Shi, hora do Serpente) trabalha Piqi, a energia do Baço, órgão yin; o sétimo, 11h-13h (Wu Shi, hora do Cavalo) trabalha Xinqi, a energia do Coração, órgão yin; o oitavo, 13h-15h (Wei Shi, hora do Cabra) de máxima energia no meridiano Xiaochang do Intestino Delgado, víscera yang; o nono, 15h-17h (Shen Shi, hora do Macaco) trabalha Pangguangjing, o meridiano da Bexiga, víscera yang; o décimo 17h-19h (You Shi, hora do Galo) trata os Rins, órgão yin, restabelecendo a energia renal Shenqi; o décimo primeiro 19h-21h (Xu Shi, hora do Cão) trabalha Xinbaoqi, energia do Pericárdio (Governador do Coração), órgão yin; e o décimo segundo, 21h-23h (Hai Shi, hora do Porco) a activar Sanjiaojing, o meridiano do Triplo Aquecedor, víscera yang, que regula a qualidade de energia da respiração e da nutrição e a eliminação de excreções e secreções.

Com atenção ao horário em que ocorre a perturbação no corpo entende-se qual o sistema disfuncional e assim, advertido, procure ajuda.
Boa Saúde.

2 Mar 2021

Corpo e caminho

 

(regresso à meada de ouro – ao fio, ao itinerário dourado)

1O corpo humano, de cima para baixo não termina nos pés, mas no solo, no caminho que está por baixo. A anatomia humana é, pois, isto: em cima não termina na cabeça, mas sim no céu. Em baixo, não termina nos pés, mas sim no solo.

Um novo caminho é assim uma forma de cada homem mudar de anatomia. Muda de vida, muda de caminho.

2Todo o caminho existe enquanto chão que serve de suporte e se mantém por ali. Mas como mostrar o caminho que se fez num determinado momento?

Como transformar numa forma concreta e material o esforço de uma caminhada?

Este foi o caminho que eu fiz, diria alguém se conseguisse pegar na estrada que percorreu. Mas é difícil pôr na mão o chão inteiro.

3E a imagem é esta (numa ficção, num sonho): levas ao colo, transportas nos braços, não uma criança ou um objecto, mas o itinerário que acabaste de fazer.

Este é o caminho que fiz, aqui to deixo, ofereço-to.

E quando se faz um percurso, os pés traçam algo de novo no chão; avançar é uma forma física de iluminar; avançar é iluminar o exterior com os músculos. Um corpo que atravessa um caminho é uma luz temporária que ali vai. Respeitemos essa luz; uma forma modesta de ouro.

4Uma outra história que se conta é que num certo lugar sagrado da antiguidade, alguns caminhos, pelo meio da floresta, eram tão fortes que quem avançava por eles, durante dias, desaparecia literalmente aos poucos: desfazia-se de cima para baixo no próprio caminho; era um corpo humano que se transformava em estrada. E aquilo que assustava alguns, aqueles que pensavam em raptos e em tragédias semelhantes – os homens desaparecerem naquela estrada! – alimentava a imaginação de outros. É uma forma de oração amorosa, pensavam os segundos: transforma-se o caminhante no seu caminho¸ transforma-se o amante na coisa amada.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

24 Abr 2020

Testículos

Os tomates, bolas, ovos – para fazer uso da gíria global – produzem esperma e testosterona, as substâncias mais masculinas do universo. Eu nunca tive a experiência de ter testículos por razões óbvias. Mas digamos que tive curiosidade em perceber mais e melhor acerca deste par de ‘esferas’ que andam penduradas nas virilhas de metade da população. Claro que este interesse não veio do nada – parece que saiu um estudo que mostra que os testículos têm bactérias (daquelas boas, como a vagina as tem) e que uma grande variedade de bactérias pode estar de alguma forma relacionada com fertilidade e com uma boa contagem de espermatozoides – em contraste com outros testículos com menor variedade de bactérias e que apresentavam uma contagem menor. Apesar da investigação estar ainda numa fase inicial, parece que estão a desenvolver alguma terapêutica medicamentosa de forma a trazer estas ‘saudáveis’ bactérias ao sistema masculino e promover a produção de esperma. Apercebi-me que a partir daí pouco mais sei sobre testículos e os cuidados a ter em relação a eles. Conhecer duas pessoas que sobreviveram a cancro nos testículos também me ajudou a perceber que, como aspirante a terapeuta sexual, o meu conhecimento acerca de testículos é estupidamente limitado,  dos pénis é que ainda se vai sabendo um pouco mais.

O meu primeiro passo foi procurar na Internet o que é que há para saber sobre as gónadas masculinas, e qual foi o meu espanto ao ver que a informação é demasiadamente confusa. Só aparecem aqueles sites com ar duvidoso em que é necessário fechar anúncios atrás de anúncios para ter acesso ao conteúdo que estou a procura. Que depois dão dicas como esticar o escroto e pôr os testículos em água quente – e isso parece-me uma péssima ideia. Todos nós sabemos que os testículos quanto mais fresquinhos, soltos e airosos, melhor.

De bem verdade que as gónadas masculinas precisam de cuidados especiais. Já verificaram os vossos testículos hoje? Estão com boa cor, um bom formato, um bom tamanho? Não quero de todo incentivar a paranóia dos testículos em ninguém, mas digamos que problemas nos testículos são relativamente comuns e não há nada como estarmos atentos e apostarmos na prevenção. Vai de problemas simples a outros mais graves e particularmente dolorosos (como torção testicular que, como o nome indica, é quando os testículos se torcem um no outro). O cancro nos testículos é o pior cenário, mas é mais facilmente resolvido quanto mais cedo for encontrado. Assim sendo, surpreendeu-me que formas de auto-examinação dos testículos não fossem mais vulgarmente disseminadas (tal como acontece com a apalpação mamária) – é que até para encontrar isso na Internet não foi fácil. Talvez seja estigma, preconceito ou vergonha que justifiquem a pouca atenção testicular na contemporaneidade. Ou se calhar é medo,  ninguém quer encarar a possibilidade de poder ficar sem testículos – porque os nossos indicadores anatómicos interessam-nos, e à forma como vivemos a nossa identidade de género. Mas parece que estamos perante um fantasma de contornos preocupantes onde só temos a masculinidade hegemónica a quem culpar. Aquela que diz que um homem tem que ter tomates para encarar a vida, por isso não encara os ditos de todo. Os tomates, bolas ou ovos, esses que são socialmente construídos como sinal de força, de coragem e de virilidade, mas que na verdade são de grande fragilidade e delicadeza. Os ovinhos da fertilidade que pendurados com os seus ambientes bacteriológicos e os seus formatos curiosos – a propósito, é normal o testículo direito ser ligeiramente maior que o esquerdo, e é normal o esquerdo estar mais pendurado que o outro – precisam de uma contínua atenção.

25 Jul 2018