João Santos Filipe Eventos MancheteRota das Letras | Andreia Sofia Silva apresenta livro sobre censura em Macau Andreia Sofia Silva, que apresentou no domingo um livro sobre a censura do Estado Novo em Macau, considera que a imprensa local nunca foi “plenamente livre e isenta”, e que durante o Estado Novo os jornais de língua portuguesa eram desproporcionalmente atacados pela comissão de censura face às publicações em chinês A jornalista do HM Andreia Sofia Silva apresentou no domingo, no último dia de programação do festival literário Rota das Letras, o seu livro “O Lápis Vermelho – A Censura do Estado Novo à Imprensa de Macau”. Numa sessão apresentada por Frederico Rato, a autora realçou as formas distintas como a Comissão de Censura à Imprensa tratou com dois pesos e duas medidas os jornais em língua portuguesa e os jornais em chinês. “Descobri depois mais documentação da Comissão de Censura à Imprensa já com provas de que a imprensa chinesa teria ido, também, à censura, mas sem consequências”, explicou Andreia Sofia Silva à Lusa. “Percebi depois no decorrer da investigação que as diferenças de tratamento para com as duas imprensas, em português e chinês, foram muitas por parte das autoridades”, acrescentou. Entre os exemplos encontrados estão suspensões de jornais portugueses, incluindo O Clarim, da Igreja Católica. “Com frequência quase semanal o governador enviava os recortes de jornais censurados para o Ministério do Ultramar, em Lisboa, para que as autoridades na metrópole fossem informadas dos temas abordados pela imprensa”, explicou Silva. Nos arquivos, porém, não encontrou provas de procedimentos semelhantes relativamente à imprensa chinesa. Um exemplo foi o Ou Mun Iat Pou, ainda hoje o maior jornal de Macau, que em determinados períodos reproduziu notícias com os cortes impostos pela censura. Para Andreia Sofia Silva, esta diferença de tratamento reflecte as limitações da autoridade portuguesa em Macau, sobretudo perante a influência política de Pequim. A investigação desenvolvida ao longo de cinco anos conclui que a censura actuou de forma plena sobre a imprensa portuguesa em Macau, mas de forma limitada à imprensa chinesa, revelando fragilidades da administração colonial portuguesa. “Através da análise à censura do Estado Novo podemos percepcionar as fragilidades da administração portuguesa face às autoridades de Pequim, constituindo mais uma prova de que Portugal nunca exerceu autonomia plena sobre Macau”, disse. Antes e depois O trabalho de investigação da autora decorreu entre 2020 e Janeiro de 2025, com base sobretudo na documentação da Comissão de Censura à Imprensa conservada no arquivo diplomático português. Andreia Sofia Silva lembra que, ao longo do século XX, os jornais foram também frequentemente utilizados como instrumentos políticos por diferentes forças. Segundo a autora, na imprensa portuguesa “havia uma defesa do império e da necessidade da Guerra Colonial”, enquanto na imprensa chinesa “surgiam notícias com foco nos movimentos de libertação”. Nos anos da Guerra Sino-Japonesa, por exemplo, a região funcionou como um espaço onde coexistiam várias correntes políticas. “A história traz-nos mensagens e reflexões relacionadas com as especificidades de Macau e das suas gentes, que podem ser lidas também à luz do panorama actual”, disse Silva. A investigadora considera que história da imprensa na cidade mostra que o exercício do jornalismo no território sempre esteve condicionado por factores políticos e sociais. “A imprensa de Macau nunca foi plenamente livre e isenta, por vários motivos e contextos históricos”, afirmou. Em Janeiro, o Governo anunciou o cancelamento do registo do jornal ‘online’ e publicação mensal impressa All About Macau, que em Outubro tinha anunciado o encerramento por “pressões crescentes”. A polícia deteve duas jornalistas do All About Macau em 17 de Abril de 2025, quando tentavam entrar no salão da Assembleia Legislativa para assistir à apresentação do programa político na área da Administração e Justiça, por “perturbação do funcionamento de órgãos da Região Administrativa Especial de Macau”. Apesar das mudanças ocorridas nas últimas décadas, Andreia Sofia Silva considera que o jornalismo no território continua a enfrentar desafios estruturais. “Assistimos hoje a um grande decréscimo de massa crítica e de opinião pública. Mas devo dizer que a sociedade de Macau nunca teve muito esse pendor”, concluiu.