Anabela Canas

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De lugar em chamas

País, lugar em chamas. Sina de estação do corpo país lugar. Ou do corpo nem país nem lugar nem sina nem sinal.

Alquimia da dúvida

Há uma relação qualquer entre a coragem e a insegurança, que sempre me detém longamente.

E a natureza produz monstros

Como delírios líricos. Como poemas soturnos e assustadores. Emoções sem limite. Razão. Intenção. Só a inevitabilidade contida no seu natural ser assim. Grandiosa e...

Caligrafia do espanto

Veio de visita. Não sei se vai ficar. A máquina de escrever velhinha e amarelo banana.

Português suave

Devagar. O meu tempo precisa de vagar. A minha alma anseia vagar espaço. São assim os dias desta longa arrumação e nunca chegam.

A curva e o foco

O fascínio da geometria – volto a ele - e das suas formas e superfícies regradas. Puras. Os sólidos de revolução, fantasias intelectuais perfeitas e de vida expectável.

Nocturnos e diurnos

Às vezes penso que a vida não aparenta grandes mistérios, que não possam ser reflectidos nas ínfimas manifestações inconsequentes de momentos de uma noite ou um dia, sem espectadores prováveis ou pressentidos.

Lençóis de água

Como pessoas, dormem enroladas sobre si próprias, como bichos friorentos e mergulhadas fundo na massa espessa das roupas confusas e amorfas.

Uma sombra nas palavras luz

Eu queria falar do assombro. Mas entro em casa com a alma agitada por estes matizes de luz e sombra que as palavras não ajudam a acalmar

Meio da tarde, ponto nenhum

Meio da tarde, ponto nenhum no mapa conhecido. Tempo indefinido e pessoa vaga. A luz em tudo. É o que é mais do que em outros dias. A luz por excesso como uma camada espessa de silêncio

Pedra, papel, tesoura

Os passos ruinosos de insegurança lenta. Precaução. Ter que impor o avanço em caminho de nada

Outras margens

O que me faz falta às vezes é o nada fazer. Aqueles dias em que a actividade parece um atributo acessório da existência, que em nada tem a ver com uma qualquer natureza ontológica.

Mais infinito, menos infinito

Há dias em que tudo me é estranho. Para ser rigorosa, todos. Tudo me é exterior, incompatível. Como nos transplantes de órgãos. A compatibilidade do D.N.A. chega aí.

Branco-cinza. Cor de rosa

Há uma cidade submersa por detrás de cada frase. De cada pessoa. De cada paisagem estranha de sonho.

Sentido único

Nada a reler. Como se sempre uma leitura nova. Quanto muito na música, eternizar na repetição obsessiva uma mesma emoção a distender-se sem querer o abandono.

Ora descrente

Como se acreditasse, só porque não faz mal. A inventar uma força para o feitiço. Descrente mas empenhada. À procura de algo que dizer por dentro. Ora. Talvez.

O coro e o ponto – Aqueles dias normais

Aqueles dias. Sim, aqueles que todos temos. Talvez. A cabeça a explodir de incompreensão e erro. Ou será o coração. Talvez.

O estranho lugar das palavras

Há dias em que de súbito acordo num momento qualquer do dia como se pela primeira vez. De novo, mas com uma sensação de estranheza desmesurada, e como se desentranhada à força e antes da hora, a um sono tumultuoso e insuficiente. Arrancada do lugar.

Dias de Oceania

Porque se arruma pelo som, no lugar da melancolia. No lugar escancarado - aqueles dias repentinos - como uma janela. Varrido de uma ventania.

Das paisagens vagas como vagas são

Imaginar que me detenho simplesmente num intervalo do tempo a olhar um destes objectos. Sempre os objectos-cenário. E um ser encenador.

Objecto de si

Uma pessoa viaja. Viaja-se ao fim do mundo e de si dia após dia. Um desfiar de ritmos registados no relógio meticulosamente e sem...

Objecto discreto

Há dias que são o diabo. Esse cão. Um fim de tarde quase quente a disfarçar a perspectiva de declínio desse Outono de um...

Nem pena nem paixão

Quando penso que há tanto lugar no mundo. Que ainda não se estragou tudo. Mas que estamos no bom caminho para isso, enrubescidos de vergonha mas irrascíveis de vontade e intensão egocêntrica. Apetece-me mais que muito mergulhar na micro planície calma.

Variável dominante

O que se é e não o que se faz, se diz. Essa realidade equívoca. Da obra e da representação. De si. Da imitação, de uma camada de sentido, sentida, eventualmente, mas uma segunda instância.