Anabela Canas

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Mundo a mais que dispõe

Branca a página, cinzenta, soturna e desconfortável a disposição.

Um dia, dia um

E o dia, esse dia será um dia um. Como os outros, mas em tudo diferente. Antes que chegue um dia menos um.

Ideias de ver a deus

Fico aqui a pensar, agora que me sento finalmente aqui, junto às palavras. Elas a brincar em redor, umas, a seduzir-me, outras, a fugir, uma boa parte delas

Actualizar. Reiniciar.

Todos os dias em que nada lhe disse, nada lhe trouxe. Todos os dias, em que não me traz algo que ajude a desembrulhar as minhas questões para a vida.

Jantava com Poirot

Eu jantava com Poirot. Ontem morreu. Talvez jante de novo com ele hoje, ou um destes dias. É triste morrer uma personagem de ficção

Entre o instante e o tempo

Em tradução livre, como na vida. Sinto-lhe o olhar omnipresente e severo de sempre. Ali sobre a mesinha que ladeia a cama em que me esqueço de tudo

O lado B

Contemplava a cama desarranjada com um olhar diferente de outros dias.

Fico sempre um dia mais tarde

Está frio, dizia já. A antecipar, no sopé, a subida em crescendo difícil e a descida da temperatura

Deste interior não sai ninguém

Que importa se num tempo que não cruzou ali caminho nem pena nem espada. Pintar. Mas o que de um poeta diz, a vida de um poeta, e o que diz um poeta no que diz, o que diz no que não diz, talvez. O que se esconde no que esconde e naquele que o procura, a ele ou esconder.

De lugar em chamas

País, lugar em chamas. Sina de estação do corpo país lugar. Ou do corpo nem país nem lugar nem sina nem sinal.

Alquimia da dúvida

Há uma relação qualquer entre a coragem e a insegurança, que sempre me detém longamente.

E a natureza produz monstros

Como delírios líricos. Como poemas soturnos e assustadores. Emoções sem limite. Razão. Intenção. Só a inevitabilidade contida no seu natural ser assim. Grandiosa e...

Caligrafia do espanto

Veio de visita. Não sei se vai ficar. A máquina de escrever velhinha e amarelo banana.

Português suave

Devagar. O meu tempo precisa de vagar. A minha alma anseia vagar espaço. São assim os dias desta longa arrumação e nunca chegam.

A curva e o foco

O fascínio da geometria – volto a ele - e das suas formas e superfícies regradas. Puras. Os sólidos de revolução, fantasias intelectuais perfeitas e de vida expectável.

Nocturnos e diurnos

Às vezes penso que a vida não aparenta grandes mistérios, que não possam ser reflectidos nas ínfimas manifestações inconsequentes de momentos de uma noite ou um dia, sem espectadores prováveis ou pressentidos.

Lençóis de água

Como pessoas, dormem enroladas sobre si próprias, como bichos friorentos e mergulhadas fundo na massa espessa das roupas confusas e amorfas.

Uma sombra nas palavras luz

Eu queria falar do assombro. Mas entro em casa com a alma agitada por estes matizes de luz e sombra que as palavras não ajudam a acalmar

Meio da tarde, ponto nenhum

Meio da tarde, ponto nenhum no mapa conhecido. Tempo indefinido e pessoa vaga. A luz em tudo. É o que é mais do que em outros dias. A luz por excesso como uma camada espessa de silêncio

Pedra, papel, tesoura

Os passos ruinosos de insegurança lenta. Precaução. Ter que impor o avanço em caminho de nada

Outras margens

O que me faz falta às vezes é o nada fazer. Aqueles dias em que a actividade parece um atributo acessório da existência, que em nada tem a ver com uma qualquer natureza ontológica.

Mais infinito, menos infinito

Há dias em que tudo me é estranho. Para ser rigorosa, todos. Tudo me é exterior, incompatível. Como nos transplantes de órgãos. A compatibilidade do D.N.A. chega aí.

Branco-cinza. Cor de rosa

Há uma cidade submersa por detrás de cada frase. De cada pessoa. De cada paisagem estranha de sonho.

Sentido único

Nada a reler. Como se sempre uma leitura nova. Quanto muito na música, eternizar na repetição obsessiva uma mesma emoção a distender-se sem querer o abandono.