Via do MeioQiu Jin Sara F. Costa - 9 Nov 2026 Tradução, notas e comentários – Sara F. Costa 秋日感別二章(其一) Qiūrì gǎnbié èr zhāng (qí yī) 昨宵猶是在親前, Zuóxiāo yóu shì zài qīn qián,今日相思隔楚天 1。 Jīnrì xiāngsī gé Chǔtiān. 獨上曝衣樓 2 上望, Dú shàng pùyī lóu shàng wàng, 一回屈指 3 一潸然。 Yī huí qūzhǐ yī shānrán. Despedida num dia de outono, I Ontem à noite, ainda junto dos meus, hoje, a saudade sob o longínquo céu de Chu1. Sozinha, subo à galeria das roupas ao sol2 e perscruto o longe. Dobro um dedo (3), as lágrimas correm. Notas ¹ Qīn (親) abrange os pais e os familiares próximos. Chǔtiān (楚天), «céu de Chu», é uma designação literária do céu meridional, formada a partir do antigo estado de Chu, que abrangia grande parte das atuais províncias de Hubei e Hunan. A abertura reúne assim a intimidade dos «meus» e uma vastidão geográfica que mede a separação. ² Pùyī (曝衣) significa expor a roupa ao sol. Pùyī lóu (曝衣樓) designa literalmente o piso alto ou a galeria onde se arejavam e secavam os tecidos. O espaço pertence ao quotidiano doméstico e oferece, pela sua altura, um lugar de onde o olhar procura quem partiu. ³ Qūzhǐ (屈指) significa contar dobrando os dedos, enquanto shānrán (潸然) descreve o correr das lá grimas. O fac-símile de 1910 e a edição de 1979 apresentam 屈指. Algumas transcrições digitais registam 彈指, «estalar os dedos» ou «num instante». A leitura mais antiga transforma a espera numa contagem corporal e sustenta a imagem do verso português. Comentário A primeira composição comprime uma grande mudança entre a noite anterior e o dia presente. A proximidade familiar pertence já ao passado. A manhã abre-se sob um céu distante, e a saudade recebe de imediato uma extensão geográfica. A palavra 親 reú ne os pais e o círculo íntimo. «Os meus» conserva essa amplitude afetiva. A separação atinge a casa inteira e deixa a voz poética entregue a um espaço onde a familiaridade perdeu a presença física. O céu de Chu situa a experiência no Sul e amplia a distância. A mesma abóbada cobre os lugares separados, embora pareça agora interpor-se entre eles. O céu torna-se uma medida da ausência. A galeria das roupas ao sol conduz o poema para o interior da vida doméstica. Os tecidos expostos guardam a sugestão dos corpos que os vestem. A voz poética sobe a um lugar comum da casa e converte-o num observatório da perda. O movimento ascendente concentra a solidão. Do alto, o olhar procura atravessar a paisagem, mas encontra apenas o longe. A altura oferece visão sem oferecer regresso. No último verso, o tempo passa para os dedos. Cada gesto de contar torna a espera concreta e desperta novamente as lágrimas. O corpo mede aquilo que o calendário deixa abstrato. As duas ocorrências de 一, «um» ou «uma vez», dão ao fecho um ritmo insistente. Um dedo dobra-se e uma nova onda de choro responde. A repetição aproxima a disciplina da contagem e a irrupção involuntária da emoção. A composição apresenta quatro versos de sete caracteres. Qiá n (前), tiā n (天) e rá n (然), no final do primeiro, segundo e quarto versos, pertencem ao grupo rimático tradicional Xiā n (先). A rima une a antiga proximidade, o céu que separa e as lágrimas finais. O poema deixa a figura num ponto elevado da casa, suspensa entre a memória da véspera e a duração da ausência. A roupa recebe o sol. O olhar permanece voltado para uma distância que os dedos tentam contar. Referências Qiu Jin (秋瑾). Qiū nǚshì yígǎo (秋女士遺稿) [Manuscritos póstumos da Senhora Qiu]. Organização de Gong Baoquan. Xiuguang She, 1910. Qiu Jin (秋瑾). Qiū Jǐn jí (秋瑾集) [Obras reunidas de Qiu Jin]. Shanghai Guji Chubanshe, 1979. Liu, S. [劉四平 Liú Sìpíng]. (2007). Qiū Jǐn de jìndài xīnxíng nǚxìng lúnlǐ sīxiǎng yǔ shíjiàn (秋瑾的近代新型女性倫理思想與實踐) [O pensamento e a prá tica é tica de Qiu Jin como nova mulher moderna]. Lúnlǐxué Yánjiū (倫理學研究), 5, 94–97. Ministério da Educação de Taiwan. Chóngbiān Guóyǔ Cídiǎn Xiūdìngběn (重編國語辭典修訂本) [Dicionário Revisto de Mandarim], entradas Chǔtiān (楚天), pùyī (曝衣), qūzhǐ (屈指) e shānrán (潸然). Wang Li (王力). Shīcí gélǜ (詩詞格律) [Prosódia da poesia clássica e da poesia cí]. Zhonghua Shuju, 1977. 秋日感別二章(其二) Qiūrì gǎnbié èr zhāng (qí èr) 已是秋來無限愁, Yǐ shì qiū lái wúxiàn chóu, 那禁 1 秋裏送離舟? Nǎ jīn qiūlǐ sòng lízhōu?欲將滿眼汪洋淚, Yù jiāng mǎnyǎn wāngyáng lèi, 並入湘江 2 一處流。 Bìng rù Xiāng Jiāng yī chù liú. Despedida num dia de outono, II Chega o outono com uma tristeza sem margens, como suportar1, no coração, a barca da despedida? Quisera verter o oceano que me enche os olhos e uni-lo às águas do Xiang2, numa só corrente. Notas ¹ Nǎ jīn (那禁) significa «como suportar» ou «como resistir». 那 possui aqui valor interrogativo, equivalente a 哪, e 禁lê -se jīn, «aguentar». O fac-sí mile conserva 那禁 , enquanto algumas transcriçõ es modernizam a expressã o para 哪禁. ² O rio Xiang (湘江) atravessa Hunan e desagua no lago Dongting. A tradiçã o literá ria associa estas á guas à s divindades de Xiāng Jūn (湘君) e Xiāng Fūrén (湘夫人), cantadas nos Nove Cantos do Chǔcí (楚辭). A lenda de Ehuang e Nü ying acrescentou ao rio uma memó ria de separaçã o e lá grimas. A corrente escolhida para receber o choro possui, por isso, uma ressonâ ncia antiga. Comentário A segunda composição transfere a despedida para a água. O outono envolve o barco antes da partida e o rio oferece às lágrimas uma direção. A paisagem inteira participa do afastamento. O primeiro verso apresenta uma tristeza sem margens. O advé rbio 已, «já », sugere uma dor instalada antes de o barco partir. A despedida chega a uma estaçã o interior que se encontrava pronta para recebê -la. A pergunta do segundo verso exprime o limite da resistência. O outono repete-se dentro da própria frase e envolve a barca numa atmosfera de declínio. A partida adquire a cor da estação. A barca concentra o movimento que a figura em terra contempla. O casco segue a corrente e leva consigo a pessoa ausente. O olhar permanece na margem, preso ao instante em que a distância começa. Nos dois versos finais, o corpo produz a sua pró pria paisagem. 汪洋, «vastidã o de á guas», transforma os olhos num oceano. A hipé rbole oferece grandeza fí sica a uma emoçã o que já excedeu o espaço í ntimo. O rio Xiang recebe esse oceano interior. As lágrimas entram na geografia de Chu e juntam-se a uma tradição de despedidas, divindades fluviais e mulheres que choram os ausentes. A água guarda uma memória anterior à cena e amplia o seu eco. As duas composições formam um díptico de movimentos distintos. A primeira sobe à galeria e conta a distância nos dedos. A segunda acompanha horizontalmente a barca e deixa o choro seguir o rio. A vertical da espera abre-se depois na corrente da separação. A composiçã o apresenta quatro versos de sete caracteres. Chó u (愁), zhō u (舟) e liú (流), no final do primeiro, segundo e quarto versos, pertencem ao grupo rimá tico tradicional Yó u (尤). A rima faz passar a tristeza para a barca e da barca para o rio. O fecho reúne as águas dos olhos e as águas do Xiang. A despedida deixa de caber no corpo e procura no rio uma forma de continuar. A corrente leva consigo aquilo que a margem já não consegue reter. Referências Qiu Jin (秋瑾). Qiū nǚshì yígǎo (秋女士遺稿) [Manuscritos póstumos da Senhora Qiu]. Organização de Gong Baoquan. Xiuguang She, 1910. Qiu Jin (秋瑾). Qiū Jǐn jí (秋瑾集) [Obras reunidas de Qiu Jin]. Shanghai Guji Chubanshe, 1979. Liu, S. [劉四平 Liú Sìpíng]. (2007). Qiū Jǐn de jìndài xīnxíng nǚxìng lúnlǐ sīxiǎng yǔ shíjiàn (秋瑾的近代新型女性倫理思想與實踐) [O pensamento e a prá tica é tica de Qiu Jin como nova mulher moderna]. Lúnlǐxué Yánjiū (倫理學研究), 5, 94–97. Qu Yuan (屈原). Chǔcí (楚辭) [Elegias de Chu], Jiǔgē (九歌) [Nove Cantos], poemas Xiāng Jūn (湘君) e Xiāng Fūrén (湘夫人). Ministério da Educação de Taiwan. Chóngbiān Guóyǔ Cídiǎn Xiūdìngběn (重編國語辭典修訂本) [Dicionário Revisto de Mandarim], entradas Xiāngfēi (湘妃) e bānzhú (斑竹). Wang Li (王力). Shīcí gélǜ (詩詞格律) [Prosódia da poesia clássica e da poesia cí]. Zhonghua Shuju, 1977.