Perspectivas VozesAs guerras mundiais não se planeiam Jorge Rodrigues Simão - 9 Set 2026 For folly is more often than not a child of power.” Barbara W. Tuchman, The March of Folly: From Troy to Vietnam (1984) Existe uma crença infantil, embora amplamente partilhada entre adultos com diplomas, cargos ministeriais e acesso privilegiado a briefings confidenciais, segundo a qual as guerras mundiais começam quando alguém decide formalmente que chegou o momento de iniciar uma guerra mundial. A ideia é tão cómoda quanto errada. Pressupõe que a História obedece a calendários, que os governantes dominam os acontecimentos e que os conflitos surgem segundo guiões racionalmente elaborados. Infelizmente para os optimistas profissionais, a História é menos organizada do que os comunicados oficiais e muito mais sarcástica do que os discursos dos estadistas. As guerras mundiais não se planeiam. Tornam-se mundiais. Crescem por acumulação, por sobreposição de crises, por encadeamento de erros e por sucessivas tentativas de resolver um problema através da criação de problemas maiores. São o equivalente geopolítico de um incêndio iniciado por uma vela esquecida, agravado por uma instalação eléctrica defeituosa e concluído com alguém a decidir apagar as chamas utilizando gasolina. Barbara Tuchman, na obra clássica “The Guns of August” (1962), demonstrou como a I Guerra Mundial não resultou de uma conspiração cuidadosamente delineada para destruir a Europa. Resultou antes da conjugação de alianças rígidas, mobilizações automáticas, cálculos errados e convicções excessivamente optimistas. Cada potência acreditava controlar a situação. Nenhuma a controlava. O resultado foi uma catástrofe à escala continental que rapidamente se transformou numa tragédia global. Décadas mais tarde, Christopher Clark, em “The Sleepwalkers: How Europe Went to War in 1914” (2012), aprofundou essa interpretação ao descrever as lideranças europeias como sonâmbulos avançando para o abismo. Não estavam inconscientes. Pelo contrário, estavam plenamente despertas. O problema era outro; viam apenas fragmentos da realidade e confundiam frequentemente os seus desejos com os factos. A observação permanece inquietantemente actual. Os conflitos contemporâneos surgem quase sempre envoltos em promessas de rapidez, precisão cirúrgica e objectivos limitados. Os decisores políticos asseguram que tudo está calculado. Os estrategas garantem que os riscos foram avaliados. Os comentadores televisivos distribuem certezas com a prodigalidade de quem oferece amostras grátis num supermercado. Depois a realidade intervém. A chamada “Grande Guerra” do nosso tempo não nasceu de uma única decisão nem de um único teatro operacional. É a fusão de várias crises que se alimentam mutuamente. O conflito na Ucrânia, as operações militares israelitas desencadeadas após o massacre de 7 de Outubro, a crescente tensão envolvendo o Irão e a rivalidade entre grandes potências configuram partes distintas de um mesmo fenómeno que é a deterioração progressiva da ordem internacional construída após a II Guerra Mundial. Aquilo que inicialmente eram operações supostamente limitadas transformaram-se em conflitos de duração indeterminada, dotados de dinâmica própria. Uma vez iniciados, passaram a produzir justificações para a sua continuação. Carl von Clausewitz advertia em “Da Guerra” que a primeira tarefa de qualquer líder consiste em compreender a natureza do conflito que pretende travar. O conselho permanece famoso sobretudo porque continua a ser ignorado com admirável consistência. Ao longo da História, inúmeros governos iniciaram campanhas militares convencidos de que bastariam algumas semanas para atingir os seus objectivos. Poucos anteciparam os anos de desgaste, os custos financeiros exorbitantes, as consequências imprevistas ou as transformações políticas internas geradas pelas próprias guerras. A diferença actual reside na ausência de uma autoridade reconhecida capaz de arbitrar disputas entre grandes actores internacionais. Durante décadas, os Estados Unidos desempenharam esse papel, ora com legitimidade, ora sem ela, mas quase sempre com capacidade efectiva para influenciar decisivamente os acontecimentos globais. Essa posição encontra-se hoje fragilizada. Washington continua a ser a principal potência militar do planeta, mas a sua capacidade de definir unilateralmente as regras do sistema internacional diminuiu consideravelmente. Paul Kennedy, em “The Rise and Fall of the Great Powers” (1987), descreveu o fenómeno através do conceito de sobre-extensão imperial. As grandes potências tendem a acumular responsabilidades, compromissos e conflitos para além dos recursos necessários para os sustentar indefinidamente. Quando essa discrepância se torna visível, os concorrentes começam a testar os limites da potência dominante. É precisamente nesse momento que as rivalidades aceleram. O problema não consiste apenas no aparecimento de novos centros de poder. Consiste na percepção de que a autoridade antiga deixou de ser incontestável. Na política internacional, as percepções possuem frequentemente mais importância do que os factos. Um Estado pode continuar poderoso e, ainda assim, parecer vulnerável. E basta parecer vulnerável para incentivar apostas que anteriormente seriam consideradas suicidas. A situação torna-se particularmente perigosa quando diferentes actores passam a encarar os seus conflitos como questões existenciais. Quando tudo é existencial, nada pode ser negociado. Quando cada recuo é interpretado como ameaça à sobrevivência nacional, o compromisso passa a ser visto como traição. Quando a política se converte numa luta entre absolutos morais, a diplomacia perde espaço. E quando a diplomacia desaparece, a guerra adquire uma autonomia assustadora. A este respeito, Tucídides continua a ser um dos observadores mais lúcidos da condição humana. Na “História da Guerra do Peloponeso”, mostrou como medo, interesse e ambição constituem os motores fundamentais dos conflitos entre potências. Passaram mais de dois milénios e meio desde então. Mudaram os uniformes, os sistemas políticos e as tecnologias. Os impulsos essenciais permanecem notavelmente semelhantes. O Médio Oriente oferece actualmente um exemplo quase pedagógico dessa realidade. A região transformou-se numa complexa teia de confrontos directos e indirectos, rivalidades históricas, tensões religiosas, disputas energéticas e cálculos estratégicos contraditórios. Cada intervenção produz consequências inesperadas. Cada tentativa de estabilização gera novas fontes de instabilidade. A ironia é quase perfeita. As guerras são frequentemente apresentadas como instrumentos destinados a aumentar a segurança. Porém, após décadas de campanhas militares sucessivas, a insegurança parece crescer mais rapidamente do que a segurança prometida. George Orwell, no ensaio “Politics and the English Language” (1946), denunciava o uso da linguagem política para tornar aceitável o inaceitável. O seu diagnóstico mantém uma actualidade desconfortável. Já não existem apenas guerras; existem operações especiais, acções preventivas, respostas proporcionais, missões de estabilização e intervenções defensivas. A nomenclatura muda com impressionante criatividade. Os cemitérios permanecem teimosamente tradicionais. Enquanto isso, as repercussões económicas dos conflitos alastram muito para além dos campos de batalha. Rotas marítimas vitais enfrentam perturbações constantes. Mercados energéticos tornam-se mais instáveis. Cadeias globais de abastecimento revelam fragilidades anteriormente ignoradas. A globalização, que durante anos foi apresentada como garantia automática de paz e prosperidade, descobre subitamente que depende de condições políticas e estratégicas que não controla. A Europa encontra-se particularmente exposta a esta realidade. Acostumada durante décadas a considerar a guerra um fenómeno distante, o continente confronta-se agora com a possibilidade de viver num ambiente internacional marcado por competição estratégica permanente. Dependente de energia importada, fortemente integrada no comércio global e politicamente fragmentada, enfrenta desafios para os quais as suas lideranças nem sempre parecem adequadamente preparadas. Raymond Aron advertia em “Paix et Guerre entre les Nations” (1962) que a paz não constitui o estado natural das relações internacionais. É uma construção política delicada, sustentada por equilíbrios frequentemente precários. Quando esses equilíbrios se degradam simultaneamente, os riscos multiplicam-se. É precisamente essa degradação que observamos. Nenhum dos principais actores internacionais afirma desejar uma guerra mundial. Nenhum proclama ambições apocalípticas. Nenhum apresenta programas oficiais para destruir a ordem global. E é precisamente por isso que a situação merece ser observada com atenção. Também em 1914 poucos sonhavam com quatro anos de carnificina industrializada. A convicção mais perigosa em política internacional é a certeza de que os acontecimentos permanecerão sob controlo apenas porque sempre estiveram. A História possui um perverso sentido de humor. Costuma desmentir esse tipo de confiança com impressionante regularidade. As guerras mundiais não surgem porque alguém as planeia meticulosamente. Surgem quando demasiados conflitos se tornam simultaneamente inseparáveis. Quando demasiadas potências consideram os seus objectivos inegociáveis. Quando o prestígio substitui a prudência. Quando o medo supera a racionalidade. E quando já ninguém possui autoridade suficiente para impor travões. Nessa altura, os líderes continuam a discursar sobre estabilidade, os especialistas continuam a falar de gestão de crises e os cidadãos continuam a acreditar que o pior ainda pode ser evitado. Até ao dia em que descobrem que o pior já começou há bastante tempo.