Ásia Central | Concluído primeiro túnel de ferrovia que contorna Rússia

O projecto completo deverá estar terminado em 2031, mas há quem aponte para a conclusão já em 2028

A China anunciou ontem a conclusão da perfuração do primeiro túnel da ferrovia China-Quirguistão-Uzbequistão, projecto estratégico que deverá criar a rota terrestre mais curta entre o país asiático, o Médio Oriente e a Europa.

O túnel, com 210 metros de extensão, é o primeiro a ser perfurado no troço quirguiz desde o início das obras em grande escala, em Junho de 2025, informou a televisão estatal chinesa CCTV. As obras no segmento localizado no Quirguistão estão agora 17 por cento concluídas, segundo a mesma fonte.

Com mais de 500 quilómetros de extensão, a ferrovia China-Quirguistão-Uzbequistão (CKU, na sigla em inglês) parte de Kashgar, na região chinesa de Xinjiang, atravessa as montanhas do Quirguistão e termina em Andijan, no Uzbequistão. Cerca de 305 quilómetros da linha atravessam território quirguiz.

Quando estiver concluída, a ferrovia deverá constituir a rota terrestre mais curta entre a China, o Médio Oriente e a Europa e reduzir em até oito dias o tempo de transporte face aos actuais serviços ferroviários de mercadorias China-Europa.

As três principais rotas ferroviárias que actualmente ligam a China à Europa atravessam a Rússia ou o Cazaquistão.

O projecto permitirá assim a Pequim diversificar as ligações comerciais terrestres e dispor de um corredor que contorna território russo, ao mesmo tempo que cria uma nova saída para as exportações da parte sul de Xinjiang.

Para o Quirguistão e o Uzbequistão, dois países sem acesso ao mar, a linha deverá proporcionar uma ligação terrestre direta aos mercados chinês e da região Ásia-Pacífico.

Em construção

Segundo a agência noticiosa oficial chinesa Xinhua, estão actualmente em construção 27 túneis, 43 pontes e 88 troços de plataforma ferroviária, além de 20 estações.

O Presidente chinês, Xi Jinping, realizou na semana passada uma visita de Estado ao Quirguistão, durante a qual Pequim e Bisqueque se comprometeram, numa declaração conjunta, a garantir o avanço sem entraves da construção da ferrovia.

O projecto, concebido em 1997 e integrado na iniciativa chinesa Uma Faixa, Uma Rota, esteve bloqueado durante décadas devido às dificuldades de engenharia associadas ao terreno montanhoso, divergências sobre a bitola da linha e questões geopolíticas.

O corredor permite contornar a Rússia, cuja influência tradicional na Ásia Central tem sido desafiada pela crescente presença económica chinesa na região. A invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, e as consequentes sanções ocidentais contribuíram também para reforçar a dependência económica de Moscovo em relação a Pequim. Para ultrapassar as divergências técnicas, o projeto adoptou uma solução com duas bitolas diferentes.

Um troço de 167,5 quilómetros entre a fronteira chinesa e Makmal, no Quirguistão, utilizará a bitola padrão usada na China, enquanto os quase 140 quilómetros restantes em direção ao Uzbequistão manterão a bitola larga herdada do período soviético. Makmal acolherá um centro de transbordo para permitir a transferência das mercadorias entre comboios das duas bitolas.

“A importância desta solução é que a bitola padrão da China entra pela primeira vez no coração da Ásia Central”, afirmou à CCTV Li Lifan, director do Centro de Estudos da Organização de Cooperação de Xangai da Academia de Ciências Sociais de Xangai.

China, Quirguistão, Uzbequistão e Rússia integram a Organização de Cooperação de Xangai (SCO), que assinalou na semana passada o 25.º aniversário durante uma cimeira de líderes realizada em Bisqueque.

O engenheiro-chefe do projecto, Xi Jihong, estimou que a ferrovia estará pronta para entrar em funcionamento em Junho de 2031. O Uzbequistão pretende, no entanto, acelerar os trabalhos. O vice-ministro dos Transportes uzbeque, Jasurbek Choriev, afirmou em Junho que o objectivo é concluir a linha já em 2028.

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