Via do MeioÀ descoberta das civilizações perdidas da Rota da Seda Julie Oyang - 8 Set 2026 Uma conversa electrizante entre Julie Oyang, o investigador independente Gong Bensong e Michael Du, presidente da Associação de Investigação das Civilizações Antigas da China Julie Oyang: Gong, passaste anos a segurar nas mãos fragmentos de mundos esquecidos. O que te mantém acordado à noite? Gong Bensong: O silêncio, Julie. Olho para a minha coleção e pergunto-me: por que razão nada disto foi encontrado pela arqueologia convencional? Essa pergunta perseguiu-me até às ruínas da cidade de Tangwang, em Tumshuq. Este foi um bastião da Rota da Seda — as tropas das dinastias Han e Tang marcharam por aqui outrora. Foi a capital do Reino de Weitou durante mil anos. Os nómadas esculpiram cenas de caça nas falésias. Os monges budistas esculpiram grutas segundo a tradição de Kizil. Depois, no início do século XX, surgiu Paul Pelliot — a saquear, a destruir e a enviar para França estátuas inteiras do Buda de Gandhara. Hoje, aquelas cabeças decepadas e aqueles murais roubados fitam os visitantes do Museu Guimet, em Paris. E ninguém no meu país sequer sabe que desapareceram. Julie: Isso é devastador. Então, foste tu próprio à procura de respostas? Gong: Tive de o fazer. Repetidamente — Tangwang, Bachu, Hotan. O que encontrei partiu-me o coração. As torres-faróis erguem-se como sentinelas solitárias no deserto. As ruínas dos templos desmoronam-se em pó. Fragmentos de cerâmica jazem espalhados como cartas esquecidas. E por todo o lado, a areia avança. Dentro de alguns anos, estes sítios simplesmente deixarão de existir. Não estamos apenas a perder pedras — estamos a perder a própria memória da civilização chinesa. Julie: Michael, passaste a tua carreira a proteger o património antigo da China. Como reages ao alarme lançado por Gong? Michael Du: Gong está a lançar um aviso que já não podemos ignorar. As Regiões Ocidentais eram o caldeirão cultural do mundo antigo — mas continuam a ser o ponto cego da arqueologia. A tragédia de Tangwang não é chinesa — é global. Cada artefacto em Paris é uma ferida. Mas o trabalho de Gong no terreno é exatamente o que precisamos para preencher o vazio deixado pelos atrasos institucionais. Julie: Gong, disseste-me que os aldeões locais te ajudaram. O que é que eles te mostraram? Gong: Tudo. Fragmentos de cerâmica, lâminas de pedra, pequenas esculturas — que datam desde o final do Neolítico até às dinastias Tang e Song. Não se trata de achados aleatórios. São a prova de que Hotan, Bachu e Tumshuq prosperaram durante milhares de anos. Tenho duas estatuetas de Wengzhong da dinastia Han, esculpidas em jade local, que são autênticas. Mas, sem proteção, estas pistas serão engolidas pelas dunas — e esquecidas para sempre. Julie: Michael, o que é que isto significa para a forma como vemos a China antiga? Michael Du: Isto reescreve a história. Durante demasiado tempo, olhámos para a história chinesa através da perspectiva das Planícies Centrais. Mas os 36 Reinos das Regiões Ocidentais não eram meros coadjuvantes — eram motores de intercâmbio. A Torre de Sinalização de Kuoxitunmu, os nichos budistas — não são ruínas. São testemunhos. Temos de apoiar guerreiros independentes como Gong antes que o deserto roube as provas para sempre. Julie: O tempo é curto. Qual é o plano de batalha? Gong: Três frentes. Primeira — resgate digital: digitalizar em 3D todas as ruínas expostas agora mesmo. Segunda — formar a população local para que se torne guardiã da sua própria história. Terceira — ultrapassar fronteiras para trazer de volta os artefactos saqueados, não como troféus, mas como parceiros na investigação. Michael Du: A nossa associação está pronta. Estamos a preparar expedições conjuntas com protocolos rigorosos para proteger cada camada de solo. O deserto não espera. Temos talvez dez anos. Julie: Última pergunta, Gong. Porque é que és tu? Porque é que isto é importante para um único homem? Gong: (longa pausa) Porque cada fragmento que apanho é uma voz. A voz de um pastor, de um monge, de um soldado, de um comerciante. Se eu não ouvir — se nós não ouvirmos — essa voz morre. E perdemos a verdade de que a China nunca nasceu de um único lugar. Foi tecida a partir de mil fios espalhados por mil desertos. Recuso-me a deixar que o último fio se parta em silêncio. Julie: Gong Bensong, Michael Du — obrigada por lutarem pelo nosso passado esquecido. Estaremos atentos.