Ai Portugal VozesNem no fascismo André Namora - 8 Jun 2026 Senhor primeiro-ministro, Luís Montenegro: que polícia é esta, a sua? Eu tenho a resposta. Uma polícia pior que aquela que existia no fascismo, no tempo de Salazar/Caetano. Infelizmente, saboreámos as bastonadas na polícia de choque em 1969 quando nos atrevemos a participar numa pequena manifestação, quando não havia liberdade de reunião e de manifestação. No entanto, poucos dias depois a polícia de choque recebeu indicações para se dirigir à cidade universitária de Lisboa e banir fortemente com um grupo de estudantes que estava num género de comício a falar mal da ditadura. O que vos posso dizer é que o comandante da polícia de choque mandou parar as viaturas policiais perto do hospital de Santa Maria e, como estava quase a anoitecer, não avançou mais e esperou que os jovens dispersassem. Não optou por violência, por bastonadas e por detenções. A Constituição que ainda temos é bem explícita em permitir a liberdade de reunião e manifestação. Mas, o que aconteceu em frente à Assembleia da República foi uma vergonha, apenas justificada para que Montenegro possa dizer em Bruxelas que tem uma polícia muito “eficiente” que prende quaisquer anarquistas. A central sindical CGTP promoveu uma greve geral e em várias cidades do país realizaram-se manifestações de protesto contra o pacote laboral que o Governo pretende implementar contra todos os direitos existentes dos trabalhadores. No final da manifestação, os dirigentes da CGTP e a maioria dos manifestantes dispersou. Na base da escadaria da Assembleia da República foram colocadas baias metálicas e tudo correu bem. A rua frontal à escadaria foi vedada ao trânsito. Tudo tinha corrido às mil maravilhas. Um grupo de jovens manteve-se a mais de cinquenta metros da escadaria e depois de cantar o Grândola, Vila Morena ficou na conversa bebendo umas cervejas. A dado momento, abriram a rua ao trânsito e os jovens não gostaram com receio de serem atropelados e tentaram impedir a passagem dos carros. Acto contínuo, apareceram polícias que começaram à bastonada aos jovens e a atirá-los para o chão. Um dos jovens atirou uma garrafa de cerveja contra os polícias. A repórter da CMTV dizia que eram “várias” garrafas e que feriram um polícia… Chegou a polícia de choque, talvez para mostrarem o novo equipamento e uns capacetes especiais e começou a desancar bastonadas e agressões aos jovens. Um espectáculo degradante quando atiraram para o chão puxada pelos cabelos uma moça que ficou de pernas ao léu até às cuecas e foi algemada. A polícia de choque continuou a intervir violentamente para retirar o grupo de jovens do local e começou um show policial nunca visto em democracia. Nem no tempo do fascismo. Pelas ruas circundantes os jovens eram perseguidos à bastonada. No entretanto, os jovens queimaram dois caixotes de lixo e um comentador do canal NOW dizia que os “muitos” caixotes de lixo queimados era um acto de anarquistas que podiam invadir o edifício da Assembleia da República… e a polícia de choque continuava a perseguir pelas ruas os jovens. Numa rua com escadaria até uma jovem aparentando ser menor, com a sua mochila escolar, foi atirada ao chão e outra foi ferozmente agredida à bastonada. O tal comentador nem sabe o que são anarquistas, porque se o fossem, o caso seria muito sério porque anarquistas experientes estariam nos terraços dos prédios a atirar coquetéis Molotov para cima dos polícias que ficariam queimados. Os polícias tinham-se metido mesmo na boca do lobo… A vergonhosa actuação da polícia de choque durou um tempo infindável escorraçando todos os jovens para muito longe do local onde tinha terminado a manifestação da CGTP. Com cerca de quarenta carrinhas policiais para cerca de três dezenas de jovens, a polícia apresentou o seu troféu: seis jovens detidos e que foram presentes a um juiz. Tudo inqualificável. Uma acção policial sem senso, sem lógica e sem democracia. Será este o futuro que espera ao povo? Uma polícia que não controla assaltos a ourivesarias, a restaurantes a casas de jogadores de futebol, a postos de combustível, mas que está pronta no imediato para agredir uns miúdos que não estavam a prejudicar ninguém? Não, senhor primeiro-ministro. O que aconteceu deve envergonhar o governo de um país dito democrático, apesar de haver gente que achou muito boa a intervenção policial. O nosso desprezo para essa gente. As imagens foram chocantes e repugnantes e o senhor Montenegro deve vê-las para refectir sobre o que se passou e que o show infeliz não se repita. Recorde-se, que eram cerca de 100 polícias para agredir 30 jovens. Uma realidade triste, que indignou qualquer democrata que se preze. Desta forma, já há quem acredite que a democracia pode ter os dias contados.