USAID | Recuo dos EUA criou situações humanitárias trágicas

O antigo dirigente de Hong Kong e actual vice-presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, Leung Chun-ying, critica o súbito abandono americano de organizações humanitárias e reafirma o compromisso da China na ajuda global aos países mais necessitados

Vitor Quintã, agência Lusa

Leung Chun-ying, antigo líder do Governo de Hong Kong, disse à Lusa que o encerramento da agência de ajuda internacional dos Estados Unidos (EUA) aumentou a necessidade de assistência humanitária no mundo, criando situações “de partir o coração”.

Em Julho, Washington anunciou o fim das operações da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês), afectando dezenas de países que dependiam dessa assistência. “Estamos realmente tristes por ver países que dependiam da assistência dos EUA a serem apanhados de surpresa”, disse, em entrevista à agência Lusa, o presidente da fundação GX, que opera em 10 países.

O desmantelamento da USAID, que por si só representava 42 por cento da ajuda humanitária em todo o mundo, começou em Fevereiro de 2025, pouco depois de Donald Trump regressar à presidência dos EUA. “Os EUA não os avisaram com antecedência suficiente, pelo que estes países não estavam preparados”, lamentou Leung, que liderou o Governo da região chinesa entre 2012 e 2017.

Moçambique foi o Estado de língua portuguesa que mais ajuda recebeu da USAID em 2023, totalizando 664,1 mil milhões de dólares, seguido de Angola, Brasil e Timor-Leste. “Quando alguém está doente, precisa de tratamento imediato. Mas quando os médicos não têm os recursos necessários, é uma situação muito triste, de partir o coração, realmente”, lamentou Leung Chun-ying.

“Em alguns países, devido à retirada repentina dos norte-americanos, até falta o paracetamol, um simples analgésico”, sublinhou o antigo político. Outros doadores ocidentais tradicionais também seguiram o exemplo dos EUA e reduziram as contribuições.

“As necessidades aumentaram. Mas esta mensagem não foi realmente transmitida às pessoas, porque há muitas coisas a acontecer ao mesmo tempo no mundo”, lamentou Leung. “A comunicação social tem estado muito ocupada com as notícias do dia-a-dia. Mas as necessidades são enormes”, referiu o vice-presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês.

Compromisso chinês

O responsável sublinhou que “a China já declarou publicamente que fará mais para demonstrar o seu compromisso como um dos maiores países do mundo”, mas defendeu que “isso não deve recair sobre os ombros de um só país”.

Em 07 de Janeiro, Donald Trump retirou os EUA de 66 organizações internacionais, 31 delas ligadas às Nações Unidas, já depois de cortado o financiamento à Organização Mundial da Saúde (OMS).

Leung Chun-ying recordou que, em Maio, a China prometeu dar mais 500 milhões de dólares à OMS nos próximos cinco anos, para mitigar o impacto da saída dos EUA. “A China apoia o sistema da ONU. A ONU não é perfeita, mas também não é substituível. Continuamos a depender da ONU e das agências da ONU, incluindo a OMS”, referiu o dirigente.

Questionado sobre o possível impacto do Conselho da Paz, criado por Donald Trump, que avisou que pode tornar a ONU obsoleta, Leung Chun-ying disse apenas que este novo órgão “ainda está em formação”.

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