VozesO príncipe da Dinamarca Amélia Vieira - 11 Fev 2026 Tempo imprevisível e estranho este nosso, mas encontra-se ainda ao nível da comédia com laivos escarlates de narrativa. Muito discursivo, inenarrável em seu afã de se querer justificar. Digamos que não sentimos confiança alguma nas ficcionadas interpretações que doutamente muitos e cada um desejam transmitir, nada que narre o género que teimam interpretar num abuso de poder para uma realidade não ficcionada. Existe sem dúvida uma paranoia de ficção na Europa que a torna agente de qualquer coisa que tende não só a correr mal, como a dilui-la, um enxaguar de nervosismo num secreto enlouquecimento reinante. Mas que fazem os mais indescritíveis? Jogam narrativamente como um gato de barriga cheia brinca com um rato: atormentando, e por fim deixando-o ir numa luta inglória. Hamlet surge na nossa linha do horizonte justamente para parar narrativas e mergulharmos na tragédia, géneros diferentes a que não se deve capitular em busca de novas reverberações, que eslavos e escandinavos parecem mais agrestes, mas suas lendas têm por vezes uma grande majestade poética. Hoje talvez disséssemos que poema é género inibidor face ao complexo esquema linguístico da inutilidade praguejante, mas é muito mais que isso, e dele se arqueiam ainda um rei de Tule, um mago Merlim, e um estranho rei Artur, saxão…celta. Que cessem portanto narradores e narrativas, que o género literário mudou. Do topo da Europa nasce agora uma possível ruptura, fatal, onde os deslumbrados destas sociedades mais a sul ficam narrando coisas sem nexo, e se todos estamos de acordo que nada disto tem sentido, rapidamente o inimigo mais temido se dissipa e o amigo mais querido passa a sobressalto. Numa certa perspectiva andamos todos fazendo de Polônios “adeus mísero tolo, intruso e temerário!” um sistema que se abastece de intenções sem capacidade alguma para vingar a morte de um pai.” L´oncle d´amerique” constrange nas reservas que tínhamos como alinhadas, e numa artificial manutenção fazemos coisas que só as famílias imaginam, matarem-se umas às outras, que dentro de cada uma se inutilizam barbaramente. A peça invernal vem testemunhar a existência de um fantasma, assassinado com veneno num ouvido, orelha, e seu filho o Príncipe Hamlet que reconhece nele o pai, e como todos os fantasmas são brancos talvez até fosse na Gronelândia, que o assassino era ainda irmão da vítima, o príncipe Cláudio. Uma bárbara assinatura que subsiste nas lendas e também no fraco imaginário que hoje é a Europa na senda narrativa do político e estratégico que começa a envenenar a acústica reinante. Ora, Hamlet segue as diretrizes de um fantasma, mas o destino revela-se bem mais fantasmagórico em suas definições, e se os pinguins estão distantes destas zonas brancas, há quem os veja para aquém do seu habitat – esses seres ternos como pombas e de lealdade incomum- e numa imensa e irreconhecível má narrativa encontramos agora a alma de Cláudio, o tio que nenhuma família deseja encontrar. O teatro da vida num áspero instante onde o louco diálogo não chega a ser sequer enumerado como farsa, será agora para qualquer ser falante um desafio. Ofélia também chora a morte do pai, é abandonada pelo primo amante, e toda a sua vida um drama tecido por homens, uma estranha condescendência impossível que faz destes seres condutores de desastres um frio de Inverno. Não é a sereia de Copenhaga, mas o Príncipe da Dinamarca pode ser ou não ser, a nossa mais próxima “narrativa”. Que o façam com respeito. Há quem diga que há mistérios ainda não decifrados nas calotes geladas. HAMLET Um assassino! Um infame! Um escravo que não vale a vigésima parte Dum décimo do vosso primeiro esposo! Um rei de comédia num papel vicioso! O ladrão do trono que foi a uma prateleira Roubar o diadema e o meteu no bolso Hamlet responde assim a sua mãe que casara com o assassino de seu pai. Donald, Bovino, não são nomes de príncipes.