Grande Plano MancheteUSJ | Livro destaca panorama da filantropia em Macau Andreia Sofia Silva - 9 Fev 2026 Acaba de ser editado pela Universidade de São José o livro “Media, Art & Technology in the Nine Portuguese Speaking Cultures”. Um dos capítulos versa sobre a filantropia em Macau, o perfil discreto dos filantropos e o trabalho de entidades como a Fundação Rui Cunha, Banco Nacional Ultramarino e Fundação Oriente A Universidade de São José (USJ) acaba de editar o livro “Media, Art & Technology in the Nine Portuguese Speaking Cultures”, com edição do professor José Manuel Simões. Como o nome indica, a obra pretende traçar o panorama das artes, meios de comunicação social e cultura nos nove países e regiões de língua portuguesa, onde se inclui Macau. A RAEM está representada com um capítulo dedicado à filantropia, da autoria de Carmen Zita Monereo, aluna de pós-doutoramento da USJ, com o nome “The Impact of Corporate Philanthropy on Media, Art, and Technology in Macao / What do we know about Philanthropy in Macao? What is the relationship between Confucianism, Philanthropy, Media, and strategic communication?”. “A Carmen tem desenvolvido um estudo sobre filantropia em Macau, sendo um trabalho um pouco diferente dos restantes”, começou por dizer ao HM José Manuel Simões. “Trata-se de um trabalho que dá o seu contributo na análise daquilo que é o espectro dos filantropos em Macau, traçando depois um estudo sobre a Fundação Rui Cunha, o Banco Nacional Ultramarino, a Fundação Oriente. Ela olha para o que é a filantropia corporativa e os impactos que tem na sociedade através de uma análise dos meios de comunicação social, mas também da arte e da tecnologia em Macau. Ou seja, ela questiona o que sabemos sobre filantropia em Macau e qual a relação existente entre o Confucionismo, a filantropia, os media e a comunicação estratégica.” José Manuel Simões acrescenta que um dos pontos inovadores neste capítulo é o perfil discreto dos filantropos. “Um aspecto curioso é que, ao contrário dos filantropos da Europa e dos Estados Unidos, que gostam imenso de aparecer nos rankings, em Macau há uma maior discrição e perfil discreto destas pessoas ligadas à filantropia, e isso tem a ver com a própria cultura.” Acrescenta o editor da obra que “no campo das ciências da comunicação [em Macau] a filantropia tem vindo a ganhar uma importância muito grande como instrumento de comunicação”, e que o trabalho de Carmen Zita Monereo “identifica os valores de uma cultura organizacional que é capaz de gerar fluxos de comunicação propícios à inovação através dessa actividade filantrópica”. O livro, que está disponível gratuitamente em versão digital, “procura traçar laços de união entre vários vectores, e um deles é as nove culturas de língua portuguesa”, sem esquecer Macau “enquanto plataforma de ligação entre a China e os países de língua portuguesa”. Segundo José Manuel Simões, trata-se de um livro “cuja investigação foi desenvolvida procurando adoptar uma abordagem multidisciplinar”, tendo “um carácter académico, mas, ao mesmo tempo, pretende ter uma linguagem simples e acessível”. O bom exemplo de Cabo Verde Com edição bilingue, o livro apresenta “um espectro bastante abrangente” de temas, contendo um artigo da autoria de José Manuel Simões sobre São Tomé e Príncipe, intitulado “Digital Media Contribution to Entrepreneurship and Development in São Tomé and Príncipe”. Segue-se um artigo sobre o panorama educativo em Angola e o uso de inteligência artificial (IA), da autoria de Wilson Gomes Caldeira, intitulado “Angola’s higher education system: An analysis of the opportunities and challenges presented by Artificial Intelligence”. No caso de Cabo Verde, Silvino Lopes Évora explora as ideias de comunicação social em conjugação com a IA, em “Artificial Intelligence, newsroom culture, and journalism: From international spectrum to experiences in Cape Verde”. “Cabo Verde é um bom exemplo do desenvolvimento dos media em África e o texto de Silvino Évora trabalha sobre a componente da IA nos media e como ela se está a inserir. [O texto analisa também] quais as possibilidades de uso da IA e como a ética pode vigiar e apoiar a IA e, ao mesmo tempo, o jornalismo”, acrescenta José Manuel Simões. O livro editado pela USJ explora também, no capítulo “The media system as a leverage for democratic development in East Timor”, de Paulo Faustino e Rui Alexandre Novais, as ligações entre o jornalismo e as memórias históricas do processo de independência. O editor do livro explica a “componente mais histórica quanto ao papel de remissão que os jornalistas ainda hoje têm para quase preservar a memória daqueles que morreram em prol da independência do país”. “O jornalismo tem uma importância enorme em Timor, houve gente e jornalistas que morreram. Isso é muito pouco falado e nesse estudo há uma conclusão interessante, de que essas pessoas, ao morrerem em nome da liberdade de expressão, deixaram um lugar muito importante em Timor-Leste que ainda hoje vigora, procurando-se preservar a memória através da vigilância sobre os outros poderes.” Desta forma, “Timor-Leste é quase um exemplo de como o jornalismo deve actuar enquanto vigilante dos outros poderes, o que não acontece nos outros quadrantes”. José Manuel Simões destaca o caso da Guiné-Bissau, “onde os jornalistas são chamados de bocas de aluguer”. “Eles não sabem a diferença entre o que é propaganda, relações públicas, marketing e jornalismo, porque estão condicionados por um salário baixíssimo. Escrevem o que pedem a troco de um envelope com algum dinheiro lá dentro, e isso faz com que a profissão [de jornalista] esteja muito fragilizada na Guiné Bissau”, frisou. Uma língua de união Segundo José Manuel Simões, o livro pretende unir “estes quadrantes das culturas portuguesas”, sendo que a edição em inglês visa chegar às comunidades anglo-saxónicas, “para que saibam da existência destas culturas”. “Há quem não concorde comigo quanto à ideia de que a língua portuguesa é uma língua de união, não só entre os povos de língua portuguesa, mas mesmo dentro de cada país. Temos o caso de Timor-Leste, que só na ilha de Ataúro, que é pequeníssima, com 500 mil habitantes, tem 40 dialectos, um em cada aldeia. Ali, o que é que a língua portuguesa faz? Une estas pessoas, porque apesar de haver a diferença entre os que falam e dos que aprenderam português, em Timor-Leste, hoje, os idosos falam português e os jovens também, mas há a faixa etária que vai dos 25 aos 50, que não fala. Mas, por ser uma língua de aprendizagem, por ser oficial, por ter livros, uma memória, o português une todas essas etnias e dialectos, e tem um valor comum. Este livro deixa transparecer isso, do facto de a língua portuguesa ser a língua-mãe de toda a gente”, esclarece. José Manuel Simões não esquece o trabalho que a CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, tem feito nesse sentido. “A CPLP tinha uma ideia maravilhosa de nos unir através da língua, mas a CPLP tem feito um trabalho vago, exíguo e pouco visível. Aliás, muito pouca gente tem feito um trabalho digno de criar laços entre as novas culturas de língua portuguesa. Neste sentido, este livro vem preencher uma lacuna e traz novos dados sobre estas novas culturas, com esta dinâmica tecnológica e inovadora”, isto relativamente aos códigos QR para todos os capítulos do livro. Cada código dá acesso a um vídeo que resume o trabalho do autor em cada capítulo. Em termos globais, “Media, Art & Technology in the Nine Portuguese Speaking Cultures” quer ser abrangente em áreas como a tecnologia, arte, cultura e comunicação social. Há, porém, “um denominador comum, criando-se, curiosamente, uma certa harmonia, mesmo com focos diferentes, e acaba por abranger, de forma directa e indirecta, o espectro da comunicação social”, remata.