Comemorações agradaram a alguns fascistas

Há mais de 50 anos, o povo português, incluindo os “bufos” da PIDE/DGS, saiu à rua a comemorar o maior dom que um povo pode ter: a liberdade. Um golpe militar tinha acabado com uma ditadura política com mais de 40 anos. Os militares do Movimento das Forças Armadas (MFA) tinham conseguido derrubar um regime opressivo que levou anos a prender e a deportar quem defendia a liberdade, a democracia, o socialismo e o comunismo. Os tempos seguintes ao golpe militar foram conturbados porque logo nos apercebemos que esses militares também tinham as suas opções políticas e também começavam a fazer o jogo deste ou daquele partido político. Mário Soares e Álvaro Cunhal regressaram do exílio e no primeiro 1º de Maio a festa foi estrondosa e de uma união popular nunca vista. Com o decorrer do tempo fomos assistindo que as divergências entre os militares do MFA apoiadas por certos partidos raiavam o limite do radicalismo.

No dia 28 de Setembro de 1974 assistimos a uma tentativa de golpe de Estado protagonizada por sectores conservadores, liderada pelo Presidente da República, general António de Spínola e onde imperava na altura a chamada “maioria silenciosa” que tinha como objectivo travar o processo democrático, mas, essencialmente, controlar as decisões sobre a descolonização. O sector de esquerda do MFA conseguiu proibir uma manifestação de apoio a Spínola e recordamo-nos que foram colocadas barricadas nas entradas de Lisboa, a fim de impedir a entrada de apoiantes de Spínola. Como consequência foram presos vários organizadores da manifestação, o general Spínola demitiu-se de Presidente da República e o evento marcou a derrota da tentativa de viragem à direita e o reforço do controlo do MFA sobre o processo revolucionário. Primeira nota importante: nunca ao longo de mais de 50 anos de democracia, os democratas de esquerda comemoraram a vitória do 28 de Setembro de 1974.

Em 11 de Março de 1975 assistimos pessoalmente à tentativa de outro golpe de Estado, desta vez, comandado mesmo pelo general António de Spínola contra o governo da altura apoiado pelos militares de esquerda do MFA. A intentona iniciou-se com o bombardeamento ao Regimento de Artilharia Ligeira nº 1 (RAL 1) tendo sido morto um soldado que se encontrava deitado numa das casernas. Nos arquivos da RTP têm de estar as imagens da perfuração do telhado e o sangue na cama e no chão da caserna. O RAL 1 foi cercado por tropas para-quedistas, afectas a Spínola, e as negociações duraram quase todo o dia. A intentona viria a falhar por falta de apoio popular a Spínola e devido à resistência que se registou por parte dos militares do RAL 1 e de muitos populares. O fracasso da tentativa de golpe viria a provocar a fuga de Spínola para Espanha e depois para o Brasil. Segunda nota importante: os democratas de esquerda em mais de 50 anos de democracia nunca comemoraram a vitória sobre a intentona de interromper o processo revolucionário.

O Verão que se seguiu foi muito “quente” com várias disputas no seio do MFA e com os partidos de direita a agudizarem o confronto com o Partido Comunista e outros partidos de esquerda radical. Tudo viria a terminar em 25 de Novembro de 1975.

Nesse dia, os militares de esquerda do MFA ocuparam a RTP e o capitão Duran Clemente, ao usar da palavra directamente nos estúdios da televisão pública, foi interrompido de um momento para outro e a emissão passou a ser dirigida dos estúdios do Porto. Simultaneamente no quartel da Polícia Militar, os militares ali em serviço comandados pelo major Tomé viram-se confrontados pelos militares comandos da ala direita do MFA, comandados pelo capitão Jaime Neves e pelo major Ramalho Eanes. O tiroteio foi uma realidade. Morreram dois militares comandos e outros da Polícia Militar. No Palácio de Belém, onde residia o Presidente da República, general Costa Gomes, pediu-se a prisão do estratega do 25 de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho e a ilegalização do Partido Comunista. Ao fim da tarde, com as tropas dos Comandos a controlar todas as operações a seu favor, realizou-se uma reunião do MFA onde a ala moderada, liderada pelo major Melo Antunes, conseguiu que Otelo não fosse preso e que o Partido Comunista se mantivesse como um partido legal ao serviço da democracia. O 25 de Novembro, uma disputa política, mas essencialmente entre militares, foi de imediato anunciado como uma “heroica” reposição do estado democrático. Terceira nota importante: nunca em mais de 50 anos de democracia as forças políticas de direita se lembraram de comemorar oficialmente o 25 de Novembro de 1975.

Na semana passada, constatámos que o 25 de Novembro foi oficialmente comemorado com pompa e circunstância e, obviamente, com o apoio das forças políticas de direita e da extrema-direita, com a discordância do Partido Socialista e de outros partidos políticos de esquerda e, com a agravante, de se ter comemorado a data em plena Assembleia da República com a presença do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

A verdade, é que fomos testemunha de posições de indivíduos defensores de políticas fascistas e neonazis, afirmando que as comemorações do 25 de Novembro “eram muito mais importantes que as do 25 de Abril”. Já não temos quaisquer dúvidas que o sistema político em Portugal está em mudança. Uma mudança perigosa. Uma mudança em que os racistas, xenófobos e neonazis avançam com propostas no Parlamento que colhem o apoio do eleito Governo Montenegro que se anuncia democrático. Não, meus amigos. Temos de nos compenetrar que a mudança política a que assistimos poderá terminar numa ditadura disfarçada de democracia, onde as prisões e a falta de liberdade de imprensa serão uma realidade.

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