Casa de Macau | A vida de Gonzaga Gomes nos livros e a ligação à União Nacional

Foi na Casa de Macau em Lisboa, esta terça-feira, que se recordou o professor, sinólogo, jornalista e tradutor Luís Gonzaga Gomes, que deixou uma extensa obra em português sobre Macau e, sobretudo, sobre os chineses. Jorge Rangel lembrou a sua ligação à União Nacional e histórias de infância com esta figura histórica, enquanto António Aresta, autor e ex-docente, defendeu a reedição total da obra completa desta personalidade macaense

Fotos: Armando Cardoso

Depois de Luís Gonzaga Gomes, falecido em 1976, ter sido lembrado na última edição do Festival Literário Rota das Letras, foi a vez de a Casa de Macau em Lisboa lhe prestar homenagem por ocasião dos 50 anos da morte desta personalidade macaense ligada às artes, letras e música, que deixou vasta obra e procurou aprofundar as relações entre chineses e portugueses, traduzindo muitas coisas do chinês ou escrevendo sobre a cultura do país do Meio. Luís Gonzaga Gomes dá mesmo nome a uma escola, a Escola Secundária Luso-Chinesa Luís Gonzaga Gomes.

A sessão na Casa de Macau contou com Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM), que recordou histórias de infância com Gonzaga Gomes: primeiro a ter aulas de violino ainda criança na sua casa, bem perto da zona do Tap Seac; e depois como seu aluno no liceu.

“Ele tinha uma irmã, Margarida Gomes, que foi minha professora de violino. Eu morava num edifício onde fica agora o Arquivo Histórico de Macau, era ali a casa dos meus avós. Treinava quatro vezes por semana, todas as tardes, e era ainda um miúdo quando, com sete ou oito anos, ia com o meu violino, que pesava bastante. Ia para um bairro muito simpático, com oito vivendas, e numa destas estava Luís Gonzaga Gomes com a irmã, ele solteirão, ela solteirona.”

As conversas entre o pequeno Rangel e Gonzaga Gomes aconteciam enquanto o primeiro esperava pela lição, onde levaria com a varinha nos dedos sempre que se enganava nas notas musicais. “Era uma figura notável desde miúdo. Aprendi muito com o Gonzaga Gomes. Foi um privilégio notável”, adiantou Jorge Rangel.

Nos tempos em que se podia jogar à bola junto ao Tap Seac, “onde, de vez em quando, passava um carro”, Jorge Rangel cresceu e recorda destes tempos um Gonzaga Gomes “fechado, reservado, que só se abria quando confiava no seu interlocutor”.

“Admirava a sua colecção de arte chinesa, a sua colecção de música. Tinha uma sala só para ouvir música, o que era raro na altura, ter tanta música em casa. Ele tinha um ouvido extraordinário e conversávamos muito sobre arte chinesa, música e a memória de Macau.”

Apesar de só ter o equivalente ao nono ano dos liceus, Luís Gonzaga Gomes foi professor do liceu, tendo dado aulas a Jorge Rangel. Novamente a relação, já na qualidade de professor-aluno, floresceu nos corredores da escola, por onde a conversa floresceu.

“O Gonzaga Gomes tinha habilitações formais ao que hoje é 9.º ano. Era um ‘self made man’, um homem que estudou muito. Leu muito, e com estas habilitações foi professor de liceu”, disse. Jorge Rangel deixou Macau no seu sétimo ano para estudar fora e, quando regressou, já Luís Gonzaga Gomes estava no fim da vida. Mantiveram correspondência.

A ligação “natural” à União Nacional

O presidente do IIM não deixou de destacar, na sessão, a ligação de Gonzaga Gomes à União Nacional, partido único do regime do Estado Novo, que vigorou em Portugal entre 1933 e 1974 e, por extensão, a todas as colónias.

“[Gonzaga Gomes] só me falou com muito entusiasmo da sua ligação ao Rotary Clube de Macau, o que é curioso, porque ele não se meteu muito na política, embora tenha sido vogal na União Nacional. Não há que ocultar estas coisas e ele assumiu, com toda a convicção, a sua participação em tudo.”

Jorge Rangel destaca, aliás, que apoiar o regime salazarista e, depois, marcelista fazia parte de ser macaense, do sentido de pertença a Portugal.

“Ele não tinha complexo nenhum e assumiu tudo com a maior abertura. É um aspecto que vale a pena referir e acentuar, porque vejo algumas biografias dele que, sem razão, tentam ocultar alguns aspectos que hoje seriam menos compreensíveis.”

Assim, na visão de Jorge Rangel, “há um tempo de Portugal que passou, são tempos diferentes”. “Para as pessoas que estavam em Macau, naquele tempo, tudo o que eram instituições de Portugal eram valorizadas, e os dirigentes políticos eram respeitados tal como eram. Era assim que, em Macau, sentíamos Portugal”, acrescentou.

Jorge Rangel deu mesmo o exemplo da sua pertença à Mocidade Portuguesa, a que “pertenceu muito activamente”. “Desde miúdos que nos era incutida esta ideia de que Portugal era representado por senhores maiores, mortos ou vivos, e representado por instituições ligadas ao Estado, que já existiram e que continuavam a existir, e foi assim até 1974. Não há que ocultar nada sem nenhum receio e com toda a convicção aquilo em que acreditámos nos nossos anos de juventude.”

Neste contexto, “Luís Gonzaga Gomes habituou-se a ver Portugal à distância, mas sentiu tudo, com toda a sua multiplicidade, no pensamento e sentimento, sempre ligado a Portugal, apesar de ser um grande promotor da relação luso-chinesa”.

Reedição necessária

António Aresta, antigo docente de Filosofia em Macau e autor de diversas obras sobre Macau, nomeadamente “Figuras de Jade”, que já vai no quarto volume, falou de Gonzaga Gomes como alguém muito focado no estudo, trabalho e pensamento, a quem sobrou pouco tempo para períodos de lazer. “Luís Gonzaga Gomes é uma personalidade que me fascina, uma pessoa misteriosa”, disse o autor de “uma pequena biografia sobre o seu pai, Joaquim Gomes, professor primário que era uma pessoa exuberante, um bom vivão”.

O filho saiu bem mais discreto. “Parece que Gonzaga Gomes não herdou esta faceta de bom vivão do pai, tendo ficado uma pessoa muito austera, muito fechada em si mesma, estudiosa, uma personalidade que dá gosto de estudar. Pergunto se ele teve tempo para viver, pois só estudou.”

Porém, o trabalho intenso de Gonzaga Gomes “não o fechou do espaço de sociabilidade com as comunidades macaense e portuguesa”, pois “pertenceu a todas e mais algumas associações de Macau, como clubes ou círculos culturais”. António Aresta deixou ainda um repto: a reedição da obra completa de Luís Gonzaga Gomes. “Era preciso planear a organização da sua obra completa, pois temos edições avulso, já esgotadas.”

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