Zaratrustra

Nós deixamos quase sempre a nossa pátria por volta dos trinta anos, ou seja, deixamos a vida primeira rumo à nossa própria identidade, vamos para a nossa montanha e daí recomeçamos qualquer coisa de inaugural que tem a ver com o ciclo de Saturno simbolicamente referenciado como a morte do pai. São vinte e oito anos este ciclo, mas trinta anos é a sua consumação talvez mais precisa. A vida que se deseja liberta deve ter nesta altura todas as prerrogativas que a façam manter-se livre, autónoma, e quiçá até esquecida da natureza primeira. Por estes anos não só a morte do pai é um imperativo como o amor vindouro um vasto sortilégio.

Comecemos então a labuta para subir a montanha, a solidão que percorreria muito mais tarde Moisés, e ainda mais tarde Jesus, trilhando os caminhos do Bode. O pai das religiões monoteístas imprimiu este tema da montanha como se de uma profecia eterna se tratasse, e assim se quedou intacta até aos dias de hoje como se o caminho que rasura o sopé da primeira condição desaparecesse bem alto entre as nuvens que o solo não vê. A Pérsia está repleta dos melhores poetas que o mundo viu, e tanto foi assim, que nos confins distantes do seu império eles oravam a eles como se identidades sagradas se tratassem. Ao tempo de Ciro o Grande. O que andam os bárbaros a fazer nesta terra puxada a cavalos de fina raça, em completa oposição ao blasfemo oratório de uma Casa Branca em torno do chefe? É uma heresia e também um erro de cálculo gigantesco, e o facto de se aqui chegar desta maneira revela o abismo no qual andamos metidos.

E Zaratustra, depois de uma década passada na montanha, chega à idade de quarenta anos, o temível numérico que desenvolve quarentenas, quaresmas e travessias, é um homem nascido de si e da sua solidão guiando o ciclo do sol antes que a noite total se implementasse (são ainda os velhos cultos de Mitra alinhados com a lonjura da sua existência) e ei-lo então no caminho inverso. Vai descendo, um Moisés futuro em estupefação com o que o espera cá em baixo, e um anjo o questiona;- vais ter com os homens? Não te esqueças de levar o chicote- Por essa altura é apoiado por uma rainha e um seu governante se faz adepto do Zoroastrismo, a sua missão tomava outra década e deu-lhe o destino então setenta e sete anos e quarenta dias. Muitos creem que ele já tinha existido há seis mil antes atrás muito antes da invasão de Xerxes à Grécia, mas seja como for, nada se perde por um milénio a mais ou um milénio a menos nesta prodigiosa fase da civilização. Este ritmo do descer e subir já tinha sido aplacado para dar a Jacob um sonho, e depois lutar com um anjo onde viria a ficar cocho, mas de Zoroastro ninguém mencionou nenhuma alucinação nem um mínimo sinal de que tivesse sido manco.

No Zaratustra de Nietzsche há um poema evocativo que nos interpela na voz grave da consciência: / escreve com o teu sangue que jamais amei aqueles que o fazem ociosamente…/vede como me sinto livre, vede como me sinto leve/ Vede voo, vede sobrevoou… Vede! Há em mim um deus que dança.

Andamos ameaçados com terceiras, quartas e quintas guerras mundiais, estamos espiritualmente em guerra, quem retomar o caminho das montanhas que pergunte o que significa matar anciãos de longas barbas, que o fim de tudo começa com outras guerrilhas onde passamos incólumes como se nada de extraordinário estivesse a acontecer. O feitiço do feiticeiro que mata meninas com o urro inicial deixando as listas de canibais ao deus dará, numa arrepiante manifestação ressuscitada de Baal.

Zaratustra ainda existe para nos lembrar da fronteira entre o homem e a besta, foi convocado à luz da nossa humanidade para pôr também fim a todos os cultos sacrificiais, e foi um pai de Abraão na sequência de acabar de vez com o massacre dos inocentes. Um poeta persa disse que os homens opõem resistência às coisas porque eles não as conhecem, Abu Hamid al- Ghasali, o que inspirou Saint- Exupéry a dizer outra; os homens amam a Terra porque esta lhes resiste.

O que poderemos nós fazer no meio de tudo isto, e quem nos virá libertar destes “salvíficos”? Tu conheces o tempo, vem salvar-nos.

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