Língua | Crioulos de base portuguesa na Ásia resistem como “símbolos de identidade”

Hugo Cardoso, docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, chama a atenção para a importância da preservação dos crioulos de língua portuguesa na Ásia como “símbolos de identidade” das povoações. Falamos, por exemplo, dos modos de falar associados à presença do Cristianismo, como é o caso do “papiá kristáng”, em Singapura

Do ressurgimento em Singapura, ao isolamento na Índia, os crioulos de base portuguesa na Ásia sobrevivem hoje como uma língua simbólica das comunidades luso-asiáticas que recusam esquecer a sua identidade linguística, defendeu o linguista Hugo Cardoso.

Em entrevista à Lusa, o professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa explicou que, ao contrário do que aconteceu em África, os crioulos no continente asiático nunca “se chegaram a impor como língua de grande difusão”, enfrentando uma constante competição de línguas locais estabelecidas, como o malaio e o gujarati, e, durante o período colonial, competiam com o português.

“As línguas locais são línguas que estavam estabelecidíssimas muito antes sequer destas línguas crioulas se formarem. E, portanto, o crioulo nunca chegou a tomar o seu lugar”, sublinhou, acrescentando que as línguas ficaram circunscritas até e durante o período colonial e pós-colonial.

Em Singapura, o ‘papiá kristáng’ (língua cristã ou língua dos cristãos), que tem base lexical portuguesa, está a ser alvo de um processo de revitalização através do projecto ‘Kodrah Kristang’ (Acordar o Cristão), co-fundado pelo linguista Kevin Martens Wong.

Sobre esta língua neste local do mapa, Hugo Cardoso explicou que, no século XIX, “houve uma transferência de pessoas malacas [habitantes da cidade de Malaca, na Malásia] para Singapura, para trabalharem nas estruturas coloniais britânicas”, levando, assim, o ‘papiá kristáng’ para este país asiático, acabando depois por desaparecer da “comunidade luso-asiática de Singapura, mas nos últimos anos tem estado a ser reavivada, revitalizada”.

Segundo o especialista, a língua já não é vista como materna ou do dia a dia, mas sim como uma “língua simbólica da comunidade luso-asiática de Singapura”, sendo que o mesmo fenómeno de afirmação ocorre em Macau.

“A comunidade macaense, ao longo dos tempos, foi-se apercebendo de que o crioulo [patuá] era um activo importante da sua identidade e da sua especificidade por oposição à população portuguesa e chinesa, e a todos os outros grupos”, referiu, acrescentando que, nos dias de hoje, o patuá serve para constituir laços de solidariedade e “projectar essa identidade própria que não é portuguesa, não é chinesa, é muitas coisas misturadas”.

Esta resistência em Macau manifesta-se em peças de teatro anuais [com os Doci Papiaçam di Macau], projectos editoriais e aulas para aprender os “rudimentos” da língua.

Os casos da Índia

No oeste da Índia, em Diu e Damão, também se fala crioulos de base portuguesa, variedades linguísticas urbanas, e o cenário é de fragilidade devido à migração das comunidades, especificamente católicas e hindu-portuguesas, para Portugal ou para o Reino Unido, levando, assim, a um declínio do número de falantes.

Hugo Cardoso destacou ainda a existência de um território pouco estudado, o Dadrá e Nagar Aveli, no oeste da Índia e que foi administrado por Portugal, onde também se fala um crioulo que é “muito parecido com o crioulo de Damão”, algo que “nunca tinha sido recolhido” e que é quase ou nada estudado.

Mais a sul de Bombaim, na Índia, em Korlai, a língua sobreviveu graças ao isolamento geográfico após a queda da antiga cidade de Xaú no século XVIII.

“Esta é uma situação um bocadinho diferente de Diu e Damão, porque o crioulo ainda é falado aí, também está num processo de declínio, mas ainda é falado. E é falado, essencialmente, porque aquela comunidade esteve durante muito tempo praticamente isolada”, referiu.

O linguista também trabalha com uma das maiores línguas de base lexical portuguesa na região asiática, que se situa no Sri Lanka.

“O crioulo do Sri Lanka é falado por uma comunidade luso-asiática, que ali é conhecida pelo nome de ‘Burger’, em holandês significa cidadão, e eles são conhecidos como os ‘Burgers’ portugueses, e é falado por várias centenas de pessoas, sobretudo na costa oriental do Sri Lanka”, referiu.

Até ao século XIX, o crioulo do Sri Lanka era falado em toda a ilha, sendo “uma língua com uma difusão tão grande” que “começaram a ser produzidas obras sobre essa língua como, por exemplo, gramáticas, dicionários, traduções de textos bíblicos ou de textos litúrgicos, que estavam disponíveis na igreja”.

Apesar da riqueza histórica, o professor alertou para a falta de salvaguarda jurídica, lamentando que nos casos asiáticos as “línguas não têm um estatuto de proteção nos Estados onde são faladas” e notando que a valorização pública é apenas pontual.

Para Hugo Cardoso, a sobrevivência destes falares deve-se à memória colectiva das comunidades, que “entendem ter algum tipo de ligação ancestral a Portugal” e que utilizam a língua para preservar uma identidade luso-asiática única no mundo.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários