Perspectivas VozesA ordem e o caos não existem Jorge Rodrigues Simão - 2 Abr 2025 “Chaos is the domain of ignorance, the unexplored. Order, on the other hand, is like an explored territory, it’s the hierarchy, the organisation, the environment of mastery, in which you know and understand.” Jordan Peterson Existem interpretações. Muitas vezes instrumentais. A minha ordem é o teu caos e vice-versa. Os conflitos entre e dentro dos grupos humanos têm a ver com a distribuição desigual da ordem e da desordem. Nunca é óptimo. O resultado é uma instabilidade permanente enquanto houver vida na Terra. O oposto também é verdadeiro pois a guerra para acabar com todas as guerras é a guerra para acabar com o mundo. E da nossa espécie. Desde que, entretanto, inspirados por Elon Musk, não nos tenhamos implantado noutros planetas. Até meados do século XX, estas eram especulações ao serviço das idolatrias modernas que postulavam a possibilidade do impossível e refreavam a concretização do possível. Nunca definitivamente limitado. A partir de Hiroshima, sabemos que não há limite para a nossa capacidade de luta e de auto-destruição. Ao contrário das teorias que ansiavam pelo fim da história, hoje as práticas de redistribuição da ordem e do caos podem efectivamente acabar com ela. A vantagem dos outros animais sobre nós, sapientes, é que eles ousam o impossível. O que não os imuniza das nossas possíveis loucuras. Um pesadelo que pode ser alargado a toda a natureza, à qual recusamos pertencer porque afirmamos que ela nos pertence, permitindo-nos assim saqueá-la como seus autoproclamados senhores. É suficiente, cremos, para medir a arrogância dos poderes que disputam a supremacia no seu campeonato exclusivo. Esta corrida ao “Santo Graal” pode fazer-nos descarrilar para sempre. Deve haver loucura em tanto método. Robert Ardrey, etólogo, dramaturgo e inspirador da peça, “Star Spangled”, que estreou na Broadway em 1935, fixou que “a sociedade é um grupo de seres desiguais organizados tendo em vista a unidade de necessidades”. Retiramos a dolorosa conclusão de que a sociedade dos humanos não existe por falta de objectivos comuns. Ficaríamos muito gratos a quem pudesse provar que a nossa espécie persegue os mesmos objectivos, pelo que somos todos irmãos. Excluímos da competição a Inteligência Artificial (IA), cuja tendência para fazer batota é típica dos hiper-poderosos que tememos. Entretanto, somos chamados a interpretar. Em que ponto se situa a luta entre poderes para obter o melhor equilíbrio entre a ordem e o caos? Depende de como os competidores retratam para si o padrão ideal de tal mistura manipulável. Não há um “eu” absoluto seguro dos dois paradigmas, apenas ajustes mútuos provisórios. Dialéctica de gémeos siameses. Para que a ordem total seja igual ao caos total. Constrangimento do espelho. Os dois pólos são faces de Jano, deus romano das portas e das passagens, guardião dos limiares, do limite (substantivo e verbo). Nosso lar adoptivo. O caos é a ordem dinâmica do mundo. Incontrolável em categorias científicas porque agitado pela história. Ordenar o caos interno é uma tarefa a que se deve dedicar qualquer sociedade que queira ser um sujeito geopolítico. Para poder competir na conquista de espaços territoriais e espirituais, contados como Estados ou contestáveis. Nenhum sujeito soberano pode aspirar a dominar tudo e todos. Nem pode estabelecer-se acima da rede de conexões que informa qualquer sistema, do corpo humano ao social. A mente suprema da autoridade absoluta é uma ficção tragicómica. O patologista/filósofo Neil Theise adverte que “O cérebro está na rede e é actuado à medida que trabalha. Não é simplesmente a mente a escrutinar o resto do corpo a partir do seu trono no crânio”. Somos uma arquitectura de órgãos com funções específicas. Nenhum funciona sozinho. Todas as interacções são locais. Cada elemento do sistema complexo interage com todos os outros elementos graças a redes tecidas de ligações locais. Traduzido em geopolítica, ninguém pode exercer um domínio completo sobre a sua sociedade, e ainda menos sobre esse arquipélago composto de comunidades periféricas centradas no líder que quer ser um império. Um domínio que os cépticos incuráveis estendem a Deus. Se Ele existisse, teria de se limitar a si próprio para prover às suas criaturas numa expansão desenfreada, dedicada a destruir a Criação. Negaria assim a sua própria divindade. Ou exercê-la-ia numa escala reduzida. Se Deus existe, é um semideus. Parece-lhe familiar? Estamos a viver um excesso de caos produzido pela crise simultânea do “Número Um” e dos seus adversários.