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Há locais cuja função inerente lhes confere a estranha propriedade de se situarem entre mundos. Os hotéis e os aeroportos são alguns exemplos possíveis desses lugares. Não se destinam a ser permanentemente utilizados ou habitados por quem os frequenta. São pontos de passagem, apeadeiros, horizontes provisórios entre locais de partida e locais de chegada.

Devido à sua natureza transitória, acabam frequentemente por revelar propriedades confessionais. Como o estranho que conhecemos num bar e a quem entregamos a guarda dos segredos que seríamos incapazes de confiar a família e amigos, estes pontos tangenciais tornam-se numa espécie de refúgio onde a vida, deixada à porta, pode ser observada de longe como se fôssemos espectadores desinteressados da sua ocorrência.

Os hotéis são intervalos habitáveis. Nunca se destinando a um uso permanente e desprovidos da familiaridade que até numa casa de férias se obtém passado pouco tempo, a impessoalidade dos quartos de hotel permite criar um enclave entre a vida e aquele que vive semelhante a um instante de silêncio numa cidade ruidosa. A ausência de marcas pessoais, de cheiros e a higienização permanente a que são submetidos os quartos retiram, de algum modo, aquilo que de humano perpassa uma casa. E essa ausência de roupagem humana e da vida a que isso corresponde transforma de facto o modo como olhamos para a nossa própria vida e, de algum modo, cria um espaço especular onde o olhar do sujeito, incapaz de se deter no somatório das coisas anónimas que compõem e pontuam o espaço, acaba por regressar ao ponto de partida e incidir sobre o próprio sujeito.

As estadias prolongadas nestes espaços intersticiais acabam por alterar a coloração da vida. Esta parece menos intensa do que é, menos real. Tal como um sonho, no qual tudo é idêntico à realidade e só se distingue desta última quando se acorda, a vida nos quartos de hotel parece-se em tudo com a vida fora deles. Mas quando o sujeito regressa a casa, o seu millieu devolve-lhe não somente a familiaridade mas também a inteireza da vida. Chegar a casa depois de uma longa estadia num hotel é, de algum modo, acordar. E acordar pode ser um alívio ou uma desilusão. Tudo depende do sonho e da realidade para onde o sujeito regressa.

Amiúde, todos precisamos de um sítio onde possamos deixar os problemas à porta como se deixam guarda-chuvas molhados à entrada de um café. Eles não desaparecem – nem os guarda-chuvas nem os problemas – mas a sua influência diminui consideravelmente e respirar volta a ser possível. Um sítio onde, afastados da azáfama de uma rotina que erroneamente acreditamos ter escolhido e que, na verdade, nos calhou, possamos fechar os olhos sem ser para dormir. Um sítio onde tenhamos um vislumbre de nós mesmos. E, por vezes, os quartos de hotel são esse sítio, esse monastério possível da pós-modernidade.

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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