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Já velho sentado numa cadeira à beira do jardim. Tenho os óculos postos mas os olhos fechados. E durmo. Durmo.

Estou sempre a dormir. Mas abri os olhos. Levanto-me.

No sonho de onde acordo era ainda jovem.

Havia biquinis a destapar raparigas que mergulhavam em conjunto na água do rio.

Ainda era garboso. Mesmo sem o ter sido, pensava que o havia sido.

Mas quando se olha para raparigas em grupo a mergulhar as águas do rio, não se pode pronunciar palavra alguma. Não se pode visar nenhuma em particular.

A acústica da palavra apaga o sortilégio idílico do que acontece: “raparigas em grupo”.

“Um grupo de raparigas” é uma existência metafísica e só existe para um sujeito transcendental. Um sujeito para quem nada mais existe a não ser raparigas no Verão de biquinis, em grupo, a comer gelados, a criar a existência do sol e do rio e do Atlântico.

Eu, velho, ando com passos curtos.

Quando me acenam, transformo o rosto como posso para fazer um sorriso que me deforma a cara toda já deformada.

Atrás das lentes estão ainda os olhos. Havia pouco tempo e estavam fechados.

Em todo aquele sofrimento, havia uma nuvem em redor daquele corpo estropiado pelo Alzheimer.

Do canto do olho caiam penduradas pelas pálpebras raparigas em grupo, destapadas por biquinis, para dentro do rio, transparente e quente à luz do sol.

Eu velho sento-me de novo na cadeirinha à espera de poder adormecer e peço a quem puder que não me acorde ou então que me deixe dormir o tempo suficiente para não ter medo de acordar.

As raparigas aos gritos correm para a beira mar e mergulham para aflorarem a superfície da água com os cabelos corridos a terminarem no rio.

Vejo o meu pai com morfina e tento adivinhar-lhe os sonhos.

“Lembro-me dos teus dedos a cheirar a tabaco. No teu colo ouvia Frank Sinatra. Um dia dei-te um tiro com uma pistola de brincar. Fizeste-te morto. E fiquei angustiado. Oxalá tivesses sobrevivido agora, como na altura. Perdias-te na cidade. Ia atrás de ti. E sempre soube que chegaras a casa quando eu te procurava. Decidimos que só sairias comigo. Assim foi. Falavas de como não vias e do dinheiro que precisavas e levantavas às centenas. Não tinhas medo e era eu quem tinha medo. Desculpa, pai. Tinha medo por mim. Não era por ti. Andy Williams estava sempre no teu tom e na tua atmosfera. Os livros que perdeste por os teres emprestado a amigos já mortos seriam para mim. Mas falavas-me deles como da tua irmã perdida para a morte.

Quando chegava da faculdade, estavas de roupão e agasalhado. E às vezes dizias que estavas farto, farto do corpo velho. Levava-te, então, ao rio e bebíamos uma cerveja. Olhavas ainda para as miúdas e sobretudo para as crianças. Desculpa-me: nunca fui corajoso como tu, não acredito como tu na pátria, na mãe, nos filhos e no teu querido Partido Comunista como dizias: “o meu querido Partido Comunista”, como se fosse a tua igreja, a tua religião. Tu que, quando a tua mãe morreu, apoiado na janela, gritaste à minha frente: “Deus é um cabrão”!

 

Nunca tive a tua coragem. Mas tu tiveste o meu amor. Quando o teu melhor amigo morreu, choraste. Disseste: “está acabado”. Pedi-te para sobreviveres. Querias falar comigo e falámos. Daquela senhora que te queria mas era velha demais. Pedi-te para não morreres. Disse-te que eu e o mano não éramos, juntos, metade do homem que eras. Disseste-me que éramos. E quando querias meter-nos medo dizias que o pai do Presidente Kennedy lhe dizia: “não há número dois”!”

 

Ainda vejo já velho o meu pai e o meu avô, como se fossem agora meus irmãos. Eu já da idade deles e eles da minha idade.

E os três olhamos para a sombra das jovens raparigas em flor. Ainda haverá nelas qualquer coisa que nos fará apaixonar, mas já são filhas e netas e é difícil perceber as mulheres futuras nelas.

É nelas que ressuscitamos.

Esqueci-me do ano e do dia. Vivo ainda com a mãe. Nunca saí de casa, como queria Píndaro.

Na Rua da Horta Seca passam raparigas. E fazem a sombra, o santo espírito.

Queria que soubesses que tenho os mesmos amigos que tu e que não acredito em Deus.

Mas acredito que vou ter contigo.

E voltaremos ao Tejo que tanto amavas.

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