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Elisabela Larrea é uma jovem de Macau, filha de mãe macaense de sétima geração e de pai  basco. As deambulações do pai, jogador de Pelota Basca, fizeram que nascesse em Milão. Elisabela escreve e fala cantonense, mandarim, inglês e português. Faz parte do Grupo de Ópera Chinesa Au Kuan Cheong, interessa-se por Naam Yam (som do sul), ópera chinesa  e patois de Macau e venera e respeita o seu sifu chinês. O grupo dramático chinês de que é membro tem planos de levar à cena uma peça adaptada de um conto do livro Cheong Sam de Deolinda da Conceição.

Do avô materno, Vicente Honório Gomes Eusébio, ouviu histórias da Macau antiga. A avó, Maria Eusébio, era excelente cozinheira, passando-lhe o gosto pela gastronomia local.

A jovem Elisabela prepara, de momento, o seu doutoramento em comunicação intercultural na Universidade de Macau, cujo tema central recai sobre o teatro creoulo Macaense. Entretanto, do seu curriculum já constam dois importantes trabalhos:

Identidade Macaense na rede global: desempenho da identidade macaense na Internet. Documento de conferência apresentado no simpósio internacional sobre identidade nacional e futuras relações através do Estreito, em  Macau,R.A.E.M., China, de 2008, e

O Macaense na Rede Global: um estudo de desempenho da identidade cultural macaense pós-colonial, sua Tese de Mestrado apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanidades da Universidade de Macau, também de 2008.

Elisabela Larrea é discreta e conhecê-la é descobrir um tesouro de interesses que merece ser revelado.

Depois desta sua breve apresentação, como definiria ser Macaense?

Em minha modesta opinião, é identificarmo-nos orgulhosamente com a identidade Macaense, com a sua cultura e modo de vida. Há diferentes leituras do que é ser Macaense: através de ligações genealógicas, outras pelo uso da língua, porém, em última análise, o critério consistente destes argumentos é a ligação a Macau, isto é, a identificação de Macau como o lugar das suas raízes. Somos filhos da terra, pertencemos a este solo. Somos a mistura de diferentes culturas e origens, com uma  singular cultura crioula muito nossa.  A identidade Macaense é versátil, com mutações ao longo do tempo e envolvência social, contudo uma coisa permanece a mesma: Macau é a nossa casa.

 O que a fez escolher estudar chinês e inglês em alternativa ao português?

Essa foi uma decisão tomada pela minha mãe quando eu era pequena. Do seu ponto de vista, era que eu deveria aprender línguas que não podia aprender em casa. Ela fala português e cantonense, mas não sabe ler e escrever chinês. Assim, quis que eu aprendesse  chinês e inglês na escola, uma vez que eu poderia aprender português em casa. Fazia com que eu assistisse diariamente ao noticiário português e encorajou-me a terminar os meus dez níveis de estudo de língua portuguesa no IPOR. Acredito que é essencial para um macaense aprender português para compreender e conhecer melhor as nossas raízes culturais e história, embora a nossa prática seja a de uma cultura portuguesa oriental.

Fala do seu avô com especial afecto. De que forma a sua influência pesou nas suas?

O meu avô adorava livros. As imagens que tenho dele são principalmente dele a ler um livro ou o jornal na sala de jantar, ou segurando uma National Geographic no seu quarto. O avô gostava de guardar recortes de jornais e registar ocorrências aleatórias em vários cadernos. Aleatórias no sentido de que podem ser o registo do boletim meteorológico do dia, os benefícios de certas vitaminas ou citações de figuras políticas. Guardei apenas um ou dois desses cadernos, mas que me permitem ter um vislumbre do passado. Ele gostava de passear pelas ruas de Macau com sua pequena sacola, onde guardava os óculos, um lápis, um jornal e um papel em branco. O seu amor à sua terra natal e o seu gosto pelo conhecimento levaram-me a decidir dedicar-me à preservação e promoção da nossa cultura.

Com um background tão enraizado na cultura macaense, como é que a música Naam Yam entrou na sua vida?

Acredito que foi o destino que me levou ao Naam Yam. O meu primeiro encontro com a ópera chinesa deu-se quando ainda muito jovem. A minha avó levou-me a assistir a apresentações em Cheok Chai Yuen (Bairro da Horta da Mitra). Conheci há alguns anos Ho Chi Fong, um dedicado estudante do Professor de Naamyam, o Mestre Au Kuan Cheong.  Como local, não deveria perder qualquer oportunidade de saber mais sobre o nosso património intangível. As actuações e a personalidade do mestre Au Kuan Cheong fascinaram-me; a sua tranquilidade, humildade e carácter apaixonado serviram-me de modelo. Eu estava entusiasmada em poder aprender com ele. Outro motivo pessoal para ter querido aprender Naamyam foi a memória dos momentos passados com a minha avó e Macau antigo. É que durante as performances, sinto como que passo por uma porta do tempo e me conecto com o passado.

Falando da sua investigação sobre a cultura e identidade macaense, quer partilhar as conclusões do estudo acerca do desempenho da identidade cultural macaense no período pós-transição?

Não cheguei a conclusões, mas antes a uma constatação: a identidade macaense é versátil, depende do ambiente social e político envolvente. Somos filhos da terra, pertencentes a esta pequena terra, independentemente da soberania. No entanto, estamos sendo diluídos e engolidos culturalmente devido a factores como a globalização, emigração, mudanças demográficas, medidas administrativas, etc. A definição de Macaense no período de pré-transição não pode agora não ser aplicável. Por exemplo, os critérios convencionais que determinam a identidade macaense através do uso da língua portuguesa como língua matricial. Não há dúvida que os jovens macaenses têm um certo nível de proficiência em português, mas é esta a sua língua primeira? Outro exemplo será o critério de sangue. A segunda ou terceira geração podem não ter qualquer herança portuguesa, mas têm um sobrenome português, identificam-se como macaenses e seguem o modo de viver macaense, não serão eles também macaenses? Eu acredito que enquanto guardarmos a nossa identidade macaense, ninguém no-la pode tirar, a menos que optemos por a abandonar.

Enquadra-se  na definição que enunciou?

Acredito que não existe uma só definição para a identidade macaense. Tem havido muitas discussões entre a comunidade, eu só me vejo como uma simples macaense apaixonada por Macau.

Considera-se uma ponte entre comunidades?

Macau sempre foi um cadinho de culturas, juntando culturas diferentes e produzindo uma outra, singular. Acredito que cada um de nós pode ser uma ponte entre diferentes comunidades se escolhermos essa via, dedicando tempo e esforço para nos entendermos e nos respeitarmos mutuamente. Podemos atravessar os limites se estivermos dispostos a partilhar, ou seja, não apenas a ouvir e aprender, mas também a contar e a compartilhar. Se queremos que outras comunidades conheçam a cultura macaense, temos de falar sobre ela. Essa responsabilidade é nossa.

Acha que a população de Macau está a passar por uma crise de identidade? Se sim, porquê?

Eu diria que a crise de identidade está acontecendo em todas as comunidades, especialmente devido à forte influência da tecnologia e da globalização. A gastronomia  é um exemplo. A gastronomia permite transmitir práticas, valores e cultura tradicionais, o que tem uma influência significativa na construção da identidade. No entanto, a geração mais jovem de diferentes países opta pelo fast food global, reduzindo assim a oportunidade de construir a sua própria identidade cultural. Hoje, muitas pessoas optam por um modo de vida mais conveniente e fácil, e a cultura tradicional exige o contrário. Manter a cultura tradicional exige que dê do seu tempo, exige paciência, devoção e dedicação. O conforto e comodismo leva as pessoas a esquecerem a beleza do artesanato, o respeito pela cultura, valores e arte tradicionais. E essas “escolhas fáceis” levam gradualmente à crise da identidade, e temos que ter a iniciativa de lutar contra isso. Dá um grande consolo que muitos locais se esforcem por preservar a sabedoria de seus mais velhos, buscando manter a cultura tradicional dando assim continuidade à sua identidade cultural.

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