O mocassin servia a Cinderela? 水晶鞋与男人花

As versões francesa e alemã da história de Phyllis a montar o grande Aristóteles remontam ao séc. XIII, mas foi a versão em latim de John Herold – séc. XIV- que a celebrizou. Herold foi um monge dominicano que costumava coleccionar histórias para usar nos seus sermões como exemplos. De acordo com a sua versão, Aristóteles tinha avisado o seu discípulo Alexandre Magno para evitar contactos íntimos com a sua mulher Phyllis. Em vez disso, Alexandre deveria concentrar-se no estudo da Filosofia. Phyllis ficou muito perturbada por se sentir ignorada pelo marido. Ficou ainda mais zangada com Aristóteles e com as “orientações” do “velho sábio”.  Para se vingar, Phyllis começou a namoriscar o Filósofo e conseguiu seduzi-lo ao ponto de um dia o ter montado como a um cavalo, enquanto Alexandre os observava escondido atrás de uma porta. A cultura ocidental está inundada de histórias que revelam o medo da Mulher. Esse medo produziu inúmeros e inesquecíveis ícones femininos, revisitados incessantemente pela Arte e pela Poesia, como Eva, Dalila, Salomé, Medeia, entre muitas outras. As imagens destas mulheres resultam do “olhar masculino”, e Phyllis acabou por ser representada nua. A exigência do mercado de uma imagética profusa foi um motivo determinante para a repetição do tema, se não da ideologia.      

A série de fotografias experimentais da artista chinesa Pixy Yijun Liao, intitulada “Relações Experimentais”, acompanha a sua relação sentimental com o namorado japonês, cinco anos mais novo do que ela. Liao levou algum tempo a acostumar-se à ideia. A maior parte das mulheres chinesas cresce com certos pensamentos 1. Devem casar. 2. Devem casar com um homem mais velho, mais sensato e mais maduro, que as possa proteger e ser o seu guia. “Marido”, no chinês moderno e popular, escreve-se先生,que quer dizer “aquele que nasceu antes de mim”, “mestre”.  Depois de pesquisar uns sites chineses de encontros, deparei-me com umas instruções super aborrecidas sobre como encontrar um marido de elite.  Uma mulher de carreira com uma certa idade 剩女, é, não só um rótulo, como contém um estigma social e pode ser usado como um insulto.

Phyllis não foi a inspiração de Liao, tenho a certeza disso. Relações Experimentais subverte as expectativas do género e os papéis de poder no seu próprio contexto social, o que é muito significativo. Em poses estudadas, come papaia que colocou em cima do corpo nu do namorado, ou, completamente vestida, torce-lhe o mamilo, enquanto ele tem apenas vestidas umas cuecas. Também aparece montada às suas cavalitas, como uma criança nos ombros do pai. Fotografa-o a usar um vestido e ainda como um pedaço de sushi humano… A fotografia é uma arte visual e, para mim, o que importa é o visual. Será que a fotógrafa quis afirmar um “olhar feminino heterossexual”? Terá sido bem-sucedida?

PS: Ao pesquisar a história de Phyllis, deparei-me com uns posters feitos no início do séc. XX pela Donaldson Lithography Company, para serem usados por hipnotizadores e artistas de teatro nos seus espectáculos.

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