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Não acreditem se alguém insistir na naturalidade da maternidade. Se Freud referia-se aos impulsos sexuais da forma enfatizada como o fazia, era porque acreditava numa perspectiva de ser humano onde o sexo é a actividade biologicamente determinada mais importante. O sexo leva à gestação e a gestação traz-nos, depois de uns ideais nove meses, um bebé. Todos estes passos são naturais, o que levou a crer que tudo o que venha para além disso também será normal, fácil e natural. Ser-se mãe (ou pai) está de facto associado a complexas formas hormonais de vinculação, mas isso não é evidência de absolutamente nada. Não torna nada ‘natural’ só porque falamos de formas de activação fisiológica.
Pensemos nas mães, por exemplo, quando se tornam responsáveis pelo bem-estar de um bebé que se desenvolveu dentro de si durante uns bons largos meses – nem sempre sentem as suas emoções alinhadas com a expectativa do que é ser uma (boa) mãe. O susto que não será quando se apercebem nos tempos conturbados que ainda virão. As dores de parto são simplesmente o fim da gestação, mas o início de tudo. Dores de peito, bebés que não param de chorar, ou que têm preguiça de mamar! Noites sem dormir que pioram o desespero de tentar fazer as coisas bem feitas enquanto completamente exaustas. Suponho que já tenham ouvido falar das famosas depressões pós-parto, resultantes de uma predisposição hormonal para a tristeza acompanhada da sensação de podermos estar a falhar como mães. A nossa cabeça entra em curto circuito quando nos pressionamos ao limite para ser aquilo que não podemos: não podemos ser mães geneticamente programadas e preparadas para tudo.
O lado negro da maternidade está um tanto ou quanto envolvido em tabu. Como entendemos as mulheres naturalmente cuidadoras e maternais, é muito estranho pensarmos que existem mulheres arrependidas por terem filhos, ou que, de forma ainda mais dramática, tenham fantasias homicidas. As dificuldades emocionais que muitas mulheres têm que ultrapassar quando se vêem com filhos nos braços não são do conhecimento geral. Estas dificuldades são vistas como atípicas – mas contribuem para um entendimento da maternidade de uma forma mais inteira, mais complexa, mais real. Percebemos melhor que não basta ligar os fusíveis para o mecanismo maternal funcionar, é preciso tempo e alguma esperança de que estamos a fazer o melhor que podemos.
E mais – fala-se no relógio biológico que todas as mulheres sentem em alguma altura das suas vidas, o desespero do corpo de não ter sido fecundado e não ter gerado vida. Dizem as vozes mais experientes que lá para os 30 e poucos que o tic-tac não nos deixará em paz (e vai nos pôr a babar sempre que virmos as bochechas redondinhas daqueles seres humanos pequeninos e amorosos). Ser mulher também é sonhar em ter filhos e ter uma família, mas não conseguirmos. Este é o (ainda outro) lado negro da maternidade: estarmos convencidas que estamos neste mundo para procriar e não estarmos biologicamente preparadas para o fazer. O útero prega-nos partidas e priva-nos desta possibilidade – há mulheres que nem útero têm! Percebem o drama? Brincámos com bonecas toda a infância para não poder ter um filho de verdade. Para além de uma sentida desilusão pessoal, a sociedade também não é muito simpática para com as mulheres inférteis. No pior dos casos tratam-nos como se fossemos defeituosas ou incompletas.
Talvez esta tentativa de complexificar a maternidade tenha saído mais dramática do que desejaria. Simplesmente tento reforçar uma perspectiva mais abrangente de certos fenómenos que estão intimamente relacionados com expectativas de género, que prendem os movimentos das mulheres que fazem o melhor que podem nas condições que nos são oferecidas. Há mulheres que não foram feitas para ser mães e que o são. Há mulheres que até seriam umas mães porreiras e não querem sê-lo. Há mulheres que não podem ser mães biológicas, mas que ainda assim conseguem ser mães de crianças com quem criam laços fortes de vinculação. Há mulheres que deprimem assim que vêem o seu bebé, há outras mulheres que se apaixonam perdidamente. Não nascemos mulheres para naturalmente tornarmo-nos mães. Aprendemos.

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