A normalidade

Na confusão dos dias, nas horas que se passam sempre da mesma maneira, é fácil esquecermo-nos de como esta terra é tão diferente de todas as outras. E de como esta terra se modificou. O nosso olhar está viciado, acostumámos os nossos sentidos ao que nos rodeia, deixámos de saber que as coisas podem ser diferentes. Que as coisas podem ter outros contornos, mais normais.

Foi assim que aconteceu. As ruas encheram-se de turistas e deixámos de passar por certas ruas, para evitar encontrões e pisadelas. Os pequenos restaurantes de sempre desapareceram e, hoje, mais não são do que notícias de jornais, guardadas no arquivo. Macau passou a ter o maior número de lojas de jóias por centímetro quadrado, o maior número de lojas de malas caras por rua. Como se vestíssemos carteiras e almoçássemos ouro e diamantes.

Deixámos de percorrer as ruas de antes e a cidade ficou mais pequena, ainda mais pequena. O que encontramos nas avenidas e becos e pátios não nos agrada, não nos sabe bem, pelo que a casa é a solução, é o sossego, desde que o vizinho não grite com a mulher ou bata com a porta ao final do dia.

Os números do PIB subiram, os números do PIB desceram, Macau é uma terra de imensa riqueza contada a patacas, mas de uma incrível pobreza no trato. Os velhinhos sorridentes dos mercados estão a desaparecer, escondidos pelas cabeças dos turistas que se fotografam, sorridentes, junto às coisas antigas do sítio onde podem ganhar milhões, para voltarem ricos a casa.

No meio de tudo isto, nós – e sobretudo o Governo – não demos conta de que o mundo evoluiu. É uma evolução já antiga, com provas dadas no resto do planeta que diz ser do primeiro mundo, por ter dinheiro para entrar nessa categoria. Macau parou num certo tempo, não sei bem qual porque não nasci nele, e justifica a pausa com questões de natureza cultural, desculpa aparentemente perfeita para que não se questionem as razões da paragem, do congelamento numa época que já não se usa. Arrepio-me de cada vez que um governante chama a cultura local à colação para justificar a inactividade, a incapacidade de mudança, a preguiça em não ajudar à evolução de que todos nós precisamos.

Há uns anos, fui insultada por várias pessoas por sugerir a uma mulher muito grávida que passasse à frente de uma longa fila para pagar a conta do telefone. Uns anos depois, um funcionário público que me atendeu, após uma hora de espera, sugeriu-me que, numa ocasião futura, deixasse o bebé que transportava comigo em casa ou, em alternativa, à porta do serviço público, junto ao segurança, qual animal de estimação.

Vivemos numa terra onde as salas de amamentação estão na ordem do dia. Vivemos numa terra onde os pais não têm direito a uns míseros dias por altura do nascimento dos filhos, onde as mães mal têm tempo para recuperar dos partos, onde a legislação não protege as mães trabalhadoras, onde o conceito de parentalidade ainda não entrou na ordem jurídica. É uma terra onde os patrões acham que ter filhos é uma questão pessoal e não entendem que é, essencialmente, uma questão de dimensão social.

Como vivemos numa terra onde as pessoas que aqui vivem pouco contam, nas mais pequenas coisas e nas grandes também, sugestões que venham de fora são encaradas com alguma estupefacção. Ontem, questionada sobre a criação de uma lei que garanta – pelo menos nos serviços públicos – a prioridade no atendimento a grávidas, mulheres com crianças de colo, portadores de deficiência e idosos com dificuldades de locomoção, a secretária para a Administração e Justiça não afastou totalmente a ideia, mas explicou aos ocidentais jornalistas que por aqui não há essa cultura. É mais ou menos o mesmo que dizer que, não havendo essa cultura, não há grande necessidade.

Acontece que as pessoas viajam, lêem, evoluem, amadurecem, envelhecem, sentem necessidades que, no atropelo dos dias, se tornam mais chatas, mais difíceis de gerir. A amamentação é um bom exemplo de que a sociedade muda mais depressa do que os nossos governantes, fracos no exercício da previsão política, são capazes de imaginar.

Mas depois fica tudo bem. Voltamos ao quotidiano certinho, ao casa-trabalho, trabalho-casa, evitamos as ruas de maior confusão e esquecemo-nos do quão longe anda a normalidade.

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