O Regresso Impossível

Manuel Afonso Costa -
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Ferreira, Vergílio, Para Sempre, Lisboa, Bertrand, Lisboa, 1991.
Descritores: Romance, Balanço Existencial, Memória, 306 p.:21 cm, ISBN: 972-25-0268-9

Vergílio Ferreira nasceu na aldeia de Melo, no Distrito da Guarda a 28 de janeiro de 1916 e faleceu em Lisboa no dia 1 de Março de 1996. Formou-se na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em Filologia Românica. Em 1942 começou a sua carreira como professor de Português, Latim e Grego. Em 1953 publicou a sua primeira colecção de contos, “A Face Sangrenta”. Em 1959 publicou a “Aparição”, livro com o qual ganhou o Prémio “Camilo Castelo Branco” da Sociedade Portuguesa de Escritores. Em 1984, foi eleito sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras. As suas obras vão do neo-realismo ao existencialismo. Considera-se geralmente que o romance Mudança assinala justamente a mudança de uma fase para outra. Na fase final da sua carreira pode-se dizer que Vergílio Ferreira tocou as fronteiras de um puro niilismo. Em 1992 foi eleito para a Academia das Ciências de Lisboa e além disso, recebeu o Prémio Camões, no mesmo ano. Obras principais: Mudança (1949), Manhã Submersa (1954), Aparição (1959), Para Sempre (1983), Até ao Fim (1987), Em Nome da Terra (1990) e “Na tua Face” (1993). O autor faleceu em 1996, em Lisboa. Deixou uma obra incompleta, Cartas a Sandra, que foi publicada após a sua morte. A partir de 1980 e até 1994 foram sendo publicados os seus diários, com a designação de Conta Corrente. Deve ainda salientar-se a publicação do conjunto de ensaios intitulado O Espaço do Invisível entre 1965 e 1987.
O romance está centrado na reflexão da personagem principal, Paulo, que acaba de se aposentar. É por aí que o romance começa e é em torno da memória de Paulo que tudo gira. Uma memória por vezes caótica e aparentemente desordenada. Mas o narrador é paciente, as personagens é que por vezes não são. Paulo encontra-se só, neste fim de linha, e por isso as suas memórias são por vezes amargas e quase sempre desencantadas. Agora, acabada a vida activa, Paulo tem todo o tempo do mundo para recordar Sandra, a mulher da sua vida, a mulher que, tudo leva a crer, sempre amou. Contudo perdeu-a. Neste romance o sentimento de perda é avassalador. Na vida tudo se perde, o autor sabe-o muito bem, tudo se perde, até a própria vida. Sandra que morreu de cancro, a filha que não morreu, mas foi morrendo, mergulhada no mundo decrépito da droga; “um abismo afinal homólogo do abismo das sepulturas”. Depois passa também pelo romance a sua mãe que perdeu durante a sua difícil infância. Como consequência das perdas, há uma melancolia que corre pelas páginas do romance sem contemplações. 131016p14t1
A verdade é que tudo chega ao fim e esse fim é o desmentido brutal das ilusões que a vida engendra, as promessas de que a vida é fértil, pois é essa a sua natureza, contudo inexoravelmente as ilusões falecem, as promessas definham e no fim o fim chega sempre carregado de solidão, de uma tristeza sem remédio, de um pessimismo amargo. As próprias memórias adquirem um sabor a esterilidade, a algo que se não cumpriu.
Para Sempre é um livro sem piedade, sem paliativos, sem esperança, um livro pessimista, que nos rouba as últimas ilusões, e as rouba todas, salvo talvez as ilusões literárias, pois este livro mostra o poder fabuloso da escrita. Para sempre cultiva uma ironia desencantada, tão lúcida que nos procura interiormente e esburaca, e corrói e chega a provocar lágrimas redentoras.
Em Para Sempre Paulo regressa? Primeira questão pertinente. Resposta possível e desarmante: Paulo não regressa, pois não há regresso. Nunca há regresso. Em que direcção vai Paulo quando parece que regressa sem regressar de facto. Vai em direcção ao Fim. Só há uma direcção. A vida é vectorial. Os designados regressos são fictícios, são completamente ilusórios. Paulo vai para o futuro mas escolhe um lugar do passado. Em boa verdade até o lugar não é do passado, mas do futuro. Não existem lugares do passado. Esses lugares só foram do passado quando nós estávamos lá nesse passado que jamais regressa e a que jamais podemos regressar. O único passado aparece em súbitas explosões provocadas e aparece sob a forma de peças de um conjunto que já não é possível reconstituir ou refazer como um todo coerente. A própria narrativa está condenada ao malogro. Mas o mais interessante e até compensador intelectualmente é esse malogro. No malogro da tentativa se esgota a dimensão lúdica da narrativa. E quanto mais artificial e até irónico é o modo como o narrador convoca as peças do puzzle de que necessita momentaneamente para dar ao exercício da memória ordem, consistência real e verosimilhança, mais gozo dá porque o exercício mostra o seu falhanço; a narratividade é o exercício que inventaria perspectivas falhadas, tentativas para dar existência a pedaços vazios de tempo. É claro que momentaneamente o espaço parece habitado e um tempo hipostasiado parece decorrer e ocupar esse espaço como se fosse tempo, como o tempo decorre (decorria) quando ainda é (era) tempo no seu tempo próprio de ser; e só o é uma vez. O Tempo só é tempo uma vez, cada vez se percebe melhor a profundidade do apotegma heraclitiano, para lá da superficialidade em que o uso transforma todo o pensamento. O tempo só é tempo durante aquele momento mágico de o ser… depois parece existir uma outra vez quando rememorado, mas rapidamente se esvazia e mostra que foi irreal pois aquele momento existiu agora numa outra dimensão… a da memória. Este texto é penoso para mim porque assisto dentro de mim a uma mutação estrutural relativamente ao papel da memória e portanto à relação entre presente, passado e futuro. Houve um tempo em que eu cheguei a pensar que toda a nossa vida residia no passado pelo que tinha tendência a valorizar a memória que pode presentificar todo esse passado em que a vida se imobilizou como uma pedra num charco de lodo. O presente estaria sempre a transformar-se em passado ao ser vivido e a anunciar um futuro de que nunca sabemos nada. Mas tudo mudou. Hoje, para mim só conta o momento que passa, como no carpe diem horaciano ou no Eclesiastes (Coélet), além de que o que já passou, está definitivamente inerte pois a memória é impotente para lhe dar vida, ou trazê-lo ao teatro vivo; o mais que pode é convocar um fantasma, um espectro, um simulacro mesmo e é uma mentira a vida que se lhe atribui. Os grandes sentimentos de alegria e de dor, de prazer e felicidade ou sofrimento não são rememorados senão enquanto os factos que os justificaram, mas as sensações e as emoções sentidas, não o serão jamais, felizmente umas, infelizmente outras.
Por isso o Para Sempre não passa de uma farsa, mas de uma farsa sublime. É para mim o melhor romance português do século XX, mesmo melhor que o Finisterra, mas toda a sua genialidade reside no seu falhanço existencial quase da ordem do naive, no seu malogro monumental, na expectativa insensata, na ilusão da imortalidade. Desde o Para Sempre que Vergílio Ferreira se tornou num Demiurgo e até num Deus ex-machina completamente falhado; e tenho para mim que nunca a narratividade literária foi tão alto para se estatelar de forma tão aparatosa.
Se não é sobre o regresso, Para Sempre é sobre o quê? Já sabemos que é sobre a memória e nesse plano uma tentativa de reconstituição. Até aí não haveria pecado algum. Reconstituir é legítimo, a reconstituição é pacífica, pode estar mais perto ou mais longe da verdade mas isso só resulta de deficiências gnoseológicas, da ordem do acerto ou do erro e isso nunca envolve juizos morais, mas provavelmente, e isso é humano, o autor, que não é um narrador omnisciente mas que é o autor personagem não pode errar, pelo menos não pode errar deliberadamente e de modo grosseiro. Ele não quer apenas reconstituir, ele quer recuperar. Ele quer o impossível. Esse querer o impossível tanto pode ser perdoável como não, …
Convenhamos! Paulo sabe ao que vai, sabe de que é que se aproxima, sabe o que o espera, …as rememorações são fait divers ou esforços titânicos para dar sentido. A rendição não deveria estar já a montante, o autor através do seu fluxo de consciência quererá resistir ainda ou quererá sobretudo mostrar-nos a nós e só a nós a redundância e o absurdo. Parece por vezes que quer ajustar contas como se só ele tivesse adquirido a lucidez do trágico e então traz até nós os mortos para os matar com uma compaixão redobrada, como se isso fizesse diferença, como se a violência e o absurdo fossem menores filtrados à luz de uma metalinguagem filosófica que confere ao inelutável uma outra interpretação e este segundo lance hermenêutico suavizasse e pudesse haver um conforto no reconforto desta metanarrativa preparada e menos abrupta…

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