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Não é um desporto qualquer. Também não é uma corrida de barcos. São valores de união, companheirismo, sacrifício e trabalho de equipa. Desportistas e treinadores contam o que os move nas tão aclamadas Regatas dos Barcos-Dragão

As lendas são muitas, mas a que ouvimos vem da boca de Peter Tang, membro executivo da Associação Geral de Remo de Macau-China. “O grande poeta e ministro do rei de Chu foi destituído e exilado. Com a vergonha matou-se nas água do rio Miluo. As pessoas, que tanto gostavam dele começaram a bater em tambores para que os peixes não comessem o corpo do poeta, depois lançaram-se à agua com os barcos para alimentar os peixes com arroz enrolado em algas. Assim o corpo preservava-se”, explica, com ar de pouco convencido.
Há outra lendas, continua, que indicam que os barcos entraram no rio para tentar salvar o poeta e por isso se rema com tanto empenho. Há ainda, quem, atentamente a ouvir a história, intervenha e diga “o poeta era apaixonado pelo rei, era um amor impossível”.
No fundo não se sabe a origem, mas o quinto dia do quinto mês, de acordo com o calendário lunar chinês, é altura de comemorar o Festival dos Barcos-Dragão. Macau começou as sua regatas sem qualquer apoio, de forma voluntária, mas agora conta com o apoio do Governo. “Cada equipa tem direito a 10 mil patacas com a inscrição”, começa por explicar Peter Tang.
O Instituto do Desporto (ID) confirma, na sua página de internet, que “em Macau a actividade dos barcos-dragão era inicialmente organizada de forma voluntária por organizações não governamentais e não se realizava todos os anos de forma consecutiva”.
“Desde 1979, esta actividade passou a ser promovida de forma anual como uma regata internacional de barcos-dragão, para a qual equipas de diferentes países têm sido convidadas a participar neste que é um evento desportivo tradicional em Macau”, pode ainda ler-se.
Desde o estabelecimento da RAEM que a Regata Internacional de Barcos-Dragão de Macau é organizada em conjunto pelo ID e pela Associação de Barcos-Dragão de Macau, China.
“Não só os barcos-dragão a remos se tornaram num evento festivo muito popular durante o Festival de Barcos-Dragão de Macau, como também as Regatas Internacionais de Barcos-Dragão de Macau se tornaram num evento desportivo muito importante. O nível da competição tornou-se cada vez maior, contando cada vez com mais participantes, atraindo milhares de atletas chineses e estrangeiros que se reúnem todos os anos em Macau para participar neste grande evento. Desde 2001 que as categorias de homens e senhoras da Universidade Internacional de Estudantes de Barcos-Dragão passou a ser integrada na competição”, explica ainda o Governo.
No passado, as corridas foram realizadas quer na Baía da Praia Grande quer no Lago Sai Van. No entanto, desde a inauguração do Centro Náutico da Praia Grande, que este passou a ser um local ideal para a realização desta competição.

Lágrimas e suor

Estamos junto ao lago. Um lugar que sempre se apresenta calmo está cheio de vida. De um lado barcos pendurados. “Estes aqui são os mais pequenos, levam 12 pessoas, cinco para o lado direito, outros cinco a remar no lado esquerdo. Numa ponta a pessoa que bate no tambor e ao fundo a pessoa que guia, está ao leme”, continua a explicação enquanto percorremos o armazém provisório que acolhe todo o material.
O espaço está ainda carregado de máquina de musculação. Ao perceber as questões que nos surgiam, Peter Tang prontamente se explica. “Os atletas precisam de estar em forma, precisam de se preparar para a corrida. É preciso muita preparação física”, aponta.
De facto, logo à saída do armazém está um grupo de “mais ou menos 40 pessoas”, a ser fiel estão 44 atletas e um treinador. “Os barcos grandes levam 22 pessoas cada, dez para cada lado e os dois nas pontas. Não há equipas mistas, não aqui em Macau. Há equipas femininas e masculinas, até por uma questão de força física”, continua, enquanto nos encaminha para o local dos treinos.
Ao fundo ouvem-se gritos de incentivo e o rufar dos tambores. Ao pé de nós chega uma equipa feminina, representam o Galaxy, o ar é de satisfeitas, até porque o treino para a última corrida, já na próxima quinta-feira, correu muito bem.
Surgem felizes mas cansadas. “Isto exige muito de nós. Desta vez começamos os treinos só em Fevereiro, mas treinamos três a cinco vezes por semana. Temos de estar em forma”, partilha Wings, atleta.
Não é o primeiro ano que participa, e se a sorte o ditar também não será o último. “Nós ficamos muito mais unidas, para além do trabalho temos isto. Não é uma questão de ganhar, é de trabalho de equipa, de ajuda mútua, de exigir mais de nós, da nossa força”, conta-nos.

Somos um só

“Aqui não há classes sociais. Somos todos iguais. Não somos mais ou menos ricos que uns, não há pessoa pobres, nem há pessoas ricas. Não é esse o espírito das regatas”, interrompe Peter Tang.
Wings e as restantes membros da equipa não podiam estar mais de acordo. “Gostamos muito de estar aqui, gostamos de participar. Divertimo-nos muito”, acrescenta a atleta.
No fundo, não interessa ganhar ou perder. “Neste momento somos todos uma grande família”, frisa ainda o presidente da associação. Este é um festival espiritual de valores morais, embora o prémio final seja bem aliciante, é que a equipa vencedora, das 168 participantes – das quais 146 de Macau -, vai levar para casa 10 mil dólares americanos.

Água sagrada

“Mas não é pelo dinheiro”, apressa-se em esclarecer Peter Tang. Pelo menos para a cultura chinesa, sendo que na próxima quinta-feira irão estar em concurso equipa da Filipinas, Tailândia, São Francisco, Malásia, Hong Kong, entre outras.
As equipas, continua, nem sequer estão preocupada com o budget. “O subsídio dá para as despesas”, explica, frisando “participa-se por amor e não pelo dinheiro”.
Junto à água não se pode deixar de notar nos paus de incenso a queimar. “É para dar boa sorte”, adianta-se em explicações, acrescentando “que há a crença de que qualquer água que receba os barcos-dragão fica abençoada e vai trazer boa sorte a quem é molhado por ela”. Há quem até mergulhe, recorda, mas bastam alguns pingos para a sorte bater à nossa porta.
Francis ri ao ouvir a explicação da “água sagrada”. É membro da equipa que representa o empreendimento Macau Tower, da empresa Shun Tak. “Isto faz parte do programa adoptado pela empresa de actividades para os seus funcionários. Há três anos que criámos uma equipa e participamos. É óptimo, divertimo-nos imenso, mas só entra quem quer muito participar, quem se entrega muito à equipa”, conta. Não espera ganhar, espera divertir-se e sair “com os laços reforçados com os seus colegas de trabalho”.
Vincent participa nas corridas “há mais de dez anos”. Foi convidado para fazer uma equipa e agora “que já está velho” só a treina. “O mais importante é eles perceberem que uns sem os outros nada são. E isso só se consegue com muito empenho, muito espírito de equipa”, conta.

Tradição antiga

Os barcos são todos muito idênticos. “Esta quinta-feira só correm os grandes, os pequenos foram nas edições passadas”, reforça Peter Tang. Quando questionado sobre quem construía os barcos, o presidente da associação recorda um artesão “muito antigo” de Macau, que infelizmente “já não faz nenhum”. “O negócio era fraco aqui, porque agora os barcos já não são de madeira, são fibra. Vem tudo de fora”, conta.
Peter Tang mostra-se orgulho do trabalho realizado. “Este é um dos festivais mais importantes. São meses de empenho dos atletas, é muito suor, muita dedicação para uma sociedade que vibra com isto. É a nossa tradição, é amor à nossa cultura”, remata.

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