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1. A derrota nas recentes eleições legislativas na Venezuela do governo chavista de Nicolàs Maduro e a conquista de uma maioria absoluta no Parlamento pelas forças de oposição ao regime, organizadas à volta do Movimento de Unidade Democrática(MUD) revela que não é inevitável uma alternância bipolar entre o esquerdismo guevarista e o conservadorismo musculado. Uma terceira via, liberal e moderna, faz o seu caminho com Júlio Borges e o MUD, Juan Manuel Santos na Colômbia, Maurício Macri na Argentina e Horácio Cortes no Paraguai.
A iniciativa de ‘impeachement’ da presidente Dilma Rousseff do Brasil, já aceite pela Câmara de Deputados, conduzirá à criação de uma Comissão que avaliará as acusações que impendem sobre Dilma. Profundamente desacreditada perante o seu povo pelo desgoverno dos últimos anos, a antiga vice-presidente de Lula da Silva poderá, com alguma probabilidade, ver reduzido o tempo do seu segundo mandato. As forças da oposição creditam ter sido obtido por manipulação eleitoral, golpismo e alargada corrupção federal e a nível dos estados. A ser assim, o Brasil poderá ser o quarto país sul-americano a sair do bloco dos regimes de esquerda que aliam má-governação económica, corrupção generalizada, delapidação de recursos naturais e punição da classe média.
O esquerdismo latino-americano agrupa para além da Venezuela e do Brasil o regime castrista de Cuba, o nativismo de Evo Morales na Bolívia, e os regimes autoritários de Rafael Correa no Equador e Daniel Ortega na Nicarágua.

2. Na Europa, a vitória de Marina Le Pen nas eleições regionais francesas do passado fim-de-semana marcou o fecho de um ciclo de exclusão da direita nacionalista francesa do círculo de poder. Denota a identificação do eleitorado com as propostas da líder da Frente Nacional, quando se aproximam eleições presidenciais. Eleições que Marina Le Pen é uma das favoritas com o presidente da UMP, Nicolas Sarkozy. Rapidamente envilecida pelos órgãos de informação de esquerda e pelas redes sociais, a líder da Frente Nacional expressa o sentir de uma maioria crescente de eleitores que estão profundamente descontentes com o incompetente governo de François Hollande, na gestão da economia, na participação na União Europeia, e na defesa da segurança colectiva perante a ameaça permanente do terrorismo islamita. Em menos de um ano, os franceses foram flagelados por vários atentados e deram-se conta que a ameaça (consumada) à sua segurança não é externa mas interna. Ela advém de células de jihadistas simpatizantes do chamado Estado Islâmico que têm estado dissimuladas nas comunidades muçulmanas de França.
Não se trata, ao invés de uma opinião mil vezes multiplicada, de comunidades marginalizadas e socialmente desfavorecidas mas de elementos da classe média inteiramente integrados nas suas comunidades, dispondo de informação abundante e circulando abertamente, pelos favores de um sistema tolerante, entre Paris e os oásis terroristas no Médio Oriente. Núcleos reforçados por kamikazes que aportaram a França, no meio dos movimentos migratórios que passam pela Grécia e pelos países do Mediterrâneo, aproveitando uma política imprudente de ‘fronteiras abertas’.
A vitória de Le Pen não é, contudo, um caso ‘clínico’ que agitou as boas consciências dos eleitores franceses mas que passará. É o regresso em força de um nacionalismo europeu, populista, que sabe ler muito bem as premências mais graves dos cidadãos e projectá-las no discurso político. Nacionalismo que ataca a erosão de identidade nacional e dos valores tradicionais que têm origem na língua, nos costumes, da ética social enraizada, na prática religiosa em favor de culturas alienígenas que optam pela não assimilação e resistem à lógica de integração e acomodação.
O que coloca o velho problema dos limites da tolerância. O Estado de direito democrático não pode, sob pena de pôr em causa a sua própria sobrevivência, contemporizar com ataques sistemáticos à coesão social dos grupos, comunidades étnicas e concepções de vida e sociedade, que formam as comunidades políticas, na modernidade.

3. Trata-se se puxarmos a discussão a um nível filosófico do debate do paradoxo da tolerância tratada pelo filósofo austríaco Karl Popper em ‘A Sociedade Aberta e os seus Inimigos’. A tolerância ilimitada conduz ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada aos que não são tolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra os assaltos daqueles que são intolerantes então os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles. Isso significa, sempre citando Popper, que não se deve impedir a expressão de filosofias intolerantes, desde que as possamos contrariar com argumentos racionais e tê-las sob vigilância da opinião pública, a sua supressão será pouco prudente. Mas devemos reivindicar, em nome da tolerância o direito de as suprimir se necessário com o uso da força. Pode bem suceder que não estejam abertas a argumentar connosco com base em argumentos racionais, mas denunciem todos os argumentos. Podem proibir os seus seguidores de ouvir o argumento racional, acusando-o de ser enganoso e ensiná-los a responder com os punhos e as armas. Devemos reivindicar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar os intolerantes. Devemos afirmar que qualquer movimento que pregue a intolerância coloca-se à margem da lei e considerar crime o incitamento à intolerância e a perseguição, da mesma maneira que o fazemos quanto ao homicídio, sequestro e a reabilitação do tráfico de escravos.
O endeusamento pela esquerda do valor cardinal da igualdade tem favorecido expressões de extremismo niilista em nome do princípio da diferença, ao procurar fazer que se tenha o terrorismo como um facto socialmente aceitável. Que não é, já que visa a destruição da sociedade que toma como alvo.
O terrorismo tem prosperado em França por uma lógica de tolerância invertida. É por essa razão que os franceses dão agora a confiança política a Marina Le Pen, já que perceberam que ela poderá forçar a adopção de politicas clarificadores que outros acham desajustadas em nome de uma inclusão sem nexo.

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