Abstinência

Diz o dicionário que abstinência é a nossa deliberada decisão de não nos envolvermos numa actividade ao mesmo tempo que temos um desejo tremendo de praticá-la, tipo comer uma fatia de bolo de 2000 calorias. Abstinência sexual não é diferente, apesar de ser muitas vezes confundida com virgindade. Há um episódio genial do Seinfeld (essa grande série sobre o nada) que explora as potencialidades de duas personagens por não se envolverem na actividade sexual durante um longo período de tempo. De uma forma caricaturizada e brincando com os estereótipos de género, o homem torna-se num génio intelectual, porque finalmente se viu livre da distracção que o sexo trazia para a sua vida, e a mulher estupidificou por completo, porque usava o sexo como clareador da mente. Um exagero de descrição que traz a curiosidade de perceber qual é o mal e/ou bem da abstinência sexual.
Abstinência sexual faz-me lembrar o uso de cuecas de ferro trancadas por uma fechadura. Mas de uma forma mais simples, pratica-se abstinência com um simples ‘não quero’ envolver-me com os órgãos sexuais de outrem. Pode ser uma abstinência deliberada ou uma abstinência imposta (como eu gosto de chamar). Porque a ausência sexual nem sempre é uma decisão, mas um acumular de circunstâncias que torna o não-envolvimento sexual inevitável, em certos momentos das nossas vidas.
Até que ponto o sexo é uma obrigatoriedade humana é uma pergunta difícil de responder. Bem, para quem quer ter filhos, convém. Quando se está numa relação amorosa/sexual onde normalmente sexo faz parte do ‘pacote’ relacional, também convém. Freud diria de peito aberto que quem não tem orgasmos vai desenvolver sérios problemas psicológicos, e por isso todo o imaginário psicoanalítico, que já é tão parte da cultura popular, vem trazer a ideia de repressão e violência quando não vemos as nossas necessidades sexuais satisfeitas. Há mesmo uma preocupação genuína, principalmente entre os homens, que o não uso do seu órgão sexual irá atrofiar os testículos, os fazedores de esperma. Por isso, no espectro das decisões sexuais no mundo ocidental temos de tudo, desde os que se recusam aos que acreditam ser absolutamente necessário.
Não nos envolvermos em sexo não é condenável, nem uma ideia ridícula. Se pensarmos no admirável mundo do sexo como um todo, com os seus preconceitos e doenças/infecções sexualmente transmissíveis, cedo se percebe que não praticá-lo com quem não se conhece muito bem não é uma ideia absurda. Mas a abstinência sexual é o que afinal? Será que se refere somente a sexo vaginal? Ou aos outros sexos incluídos? E a masturbação? É de longa ou curta duração? Em casos de celibato religioso encontramos obviamente uma doutrina para o seu significado. Em contextos contraceptivos fala-se em abstinência relacionada com a penetração vaginal, principalmente entre as camadas mais jovens, porque há uma preocupação acrescida de gravidez na adolescência.
Mas tentar explicar estas malhas da abstinência sexual é expor a vida social que o sexo desenvolve na esfera pública, quase como se tivesse vida própria de pressupostos já definidos. A abstinência que não seja praticada porque se considera a melhor forma de prevenir o que quer que seja, porque há formas alternativas diversas. Ou por outra, que seja utilizada pelo pessoal que está informado sobre tudo o que é possível de ser utilizado no mercado vigente. É totalmente OK, foder se tivermos toda a informação necessária e é totalmente OK não querer foder, quando se tem toda a informação necessária.
Pior são aqueles que são levados a uma abstinência motivada pela falta de parceiro. O sexo, por isso, não possui as características de um direito biológico como comer ou beber porque depende da outra pessoa querer também e é óbvio que não se pode obrigar ninguém. A actividade sexual exige um louco exercício social em tempos que se prega individualismo puro. Os eremitas não são grandes candidatos para o sexo, por exemplo. Por isso a abstinência talvez faça mais sentido a quem tenha desdém pelo sentido social da humanidade. Para todos os outros, que o sexo seja compreendido como é: de uma difícil percepção social mas de um livre arbítrio inerente. Desenvolve-se a experiência individual com ou sem sexo, como se queira.

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