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The cannon shot *oil on canvas *78.5 x 67 cm *ca. 1680 *signed : W. v. Velde J.

“A China iria fazer face, nos meados do século XVI, a um grave perigo vindo do mar; os ataques dos piratas japoneses, conhecidos pelo nome de Wokou (…), atingem a sua maior intensidade entre 1540 e 1565, e o período mais crítico situa-se nos anos 1553-1555, logo após os mais perigosos ataques dos Mongóis comandados por Altan Khan”, segundo Jacques Grenet, que refere a seguir, “O termo Wokou não deve ser tomado num sentido estrito, apesar de a maioria dos efectivos da pirataria ter sido constituído por Japoneses, dos finais do século XIV a princípios de XVI. Em verdade, é um pessoal cosmopolita, com actividades muito diversas, que se designa pelo termo geral de piratas: entre eles, encontram-se rônin (uma espécie de cavaleiros mercenários), dependentes dos daimyô Matsudaira, e antigos comerciantes e marinheiros das costas chinesas. Um dos chefes do Wokou nos meados do século XVI era um Chinês originário do Anhui chamado Wang Zhi. Grande negociante, ao mesmo tempo que pirata, faz comércio com o Japão, Luçon, Vietname, Sião e Malaca, entregando-se ao contrabando de enxofre, utilizado no fabrico de explosivos, de seda e de brocados. Instalado nas ilhas do Sul de Kyûshû, é tão temido que é conhecido pela alcunha de ‘rei que depura os mares’. Atraído ardilosamente a Hangzhou, aqui foi executado em 1557”. Por essa altura a pirataria estava sobretudo associada ao contrabando e já, muito antes, o terceiro imperador da dinastia Ming, Yong Le (1403-1424) para suster os ataques dos wokou tinha regulamentado as embaixadas japonesas; uma por cada dez anos e composta por dois barcos e 300 pessoas. Mas tal era o valor que os japoneses nutriam pelos preciosos produtos chineses, assim como a cultura que deles colhiam há mais de um milénio, que esse decénio custava a passar. Por vezes, nas embaixadas oficiais vinham mais barcos e tripulantes, outras enviadas antecipadamente eram recambiadas sem comerciar e daí a pirataria ressurgir, pois no mar se fazia o trato. Como refere Jacques Grenet, as “relações entre os Ming e o Japão iriam quebrar-se a partir de 1522, ano em que o governo central, perante a recrudescência dos ataques dos piratas, decidiu pôr termo à atitude de tolerância que tinha adoptado durante a maior parte do século XV. No ano seguinte, estala em Ningbo uma disputa entre duas embaixadas japonesas, ambas pretendendo ser consideradas como oficiais. Aquela a quem as autoridades chinesas recusam o reconhecimento do seu carácter oficial pilha a cidade e as desordens encorajam os partidários de uma atitude firme. Em 1530, os japoneses deixam de ser autorizados a enviar embaixadas a Ningbo. Desde então, a pirataria faz rápidos progressos e o seu recrudescimento alarga-se à própria China. As principais bases dos piratas situam-se nas ilhas Zhoushan (Chusan), a nordeste das costas do Zhejiang, na região de Xiamen (Amoy) e de Quanzhou, na de Chaozhou, no Nordeste do Guangdong, bem como nas ilhas do Sul do arquipélago nipónico. Todas as costas chinesas são devastadas desde o Norte do Shandong até ao Oeste do Guangdong, alongando-se as devastações uma centena de quilómetros pelo interior das terras”.

Ajuda portuguesa contra os piratas

“A defesa das costas é tão precária que a administração se vê obrigada a requisitar barcos de pesca. A contra-ofensiva só se começa a organizar depois das grandes devastações e massacres dos anos 1553-1555”, segundo Grenet que refere, o General Hu Zongxian restabeleceu a ordem na costa de Zhejiang em 1556 e no ano seguinte na da província de Fujian. Mas deve-se sobretudo a Yu Dayou (?-1587) e Qi Jiguang (1528-1587), no decurso dos anos 1560-1570 terem as costas ficado mais ou menos limpas de piratas.
Jin Guo Ping, em Combates a Piratas e a Fixação Portuguesa em Macau, refere ter havido seis situações, entre 1547 e 1568, “que a pirataria levou os chineses a solicitar ajuda portuguesa, mas o factor ‘mais decisivo’ para aceitar o estabelecimento português de Macau foi a aquisição de âmbar cinzento”. Macau passou a ser a nova porta da China para o exterior, pois o anterior entreposto chinês mais ocidental desde 1433 era Malaca, então sobre governação do Sultão e em 1511 ocupada pelos portugueses. De Malaca, entraram os portugueses pelo Pacífico e apoiando-se da rede comercial explorada por mercadores do Sudeste Asiático, encontram-se a navegar de ilha em ilha em ‘veniaga’ ao longo da costa chinesa, até que lhes foi permitido fixarem-se em Macau. Situada numa pequena península no Sul da grande ilha de Hianshan, ou Hueng Chan (hoje Zhongshan), tornou-se Macau então a porta de entrada dos produtos estrangeiros e dos novos conhecimentos científicos provenientes da Europa.
Segundo Bento de França, nos finais de 1556 navegava por aquelas costas um terrível pirata, Chan-si-lau a quem os portugueses, para agradar ao mandarim local, deram caça e acabaram com o seu reinado. Já Victor F. S. Sit refere, “Fernão Mendes Pinto acredita que foi em 1557, após terem ajudado as autoridades de Guangdong na supressão do grande corsário Ahmah, que os portugueses solicitaram à China a permissão do seu estabelecimento em Macau. Foi nesse ano que os portugueses construíram pela primeira vez casas de habitação em Macau. Nos três anos anteriores a essa data, só puderam erguer cabanas provisórias exclusivamente para fins comerciais. Foi também nesse ano que o governo chinês enviou para Macau três altos funcionário, subordinados ao Sub-Comissário para a Defesa Marítima. Eram respectivamente o Superintendente de Macau (Ti-diao), com responsabilidades na administração, justiça e relações externas de Macau, o comissário para o combate à Pirataria (Bei-wo), encarregue também das patrulhas marítimas, e o Inspector de Segurança Pública (Xun-ji)”.

Chapas de agradecimento

Outro momento grave em que os chineses se viram forçados a pedir ajuda aos portugueses ocorreu em Abril de 1564 e a resolução de tão grave perturbação, criada pela rebelião interna na marinha imperial estacionada em Zhelin nos arredores de Cantão, coube à conjugação de esforços das autoridades militares de Guangdong e artilharia naval dos portugueses de Macau. A vitória sobre os rebeldes foi alcançada a 7 de Outubro em juncos chineses onde embarcaram soldados portugueses e ocorreu o combate em Dongguan. Episódio conhecido por Tropas Amotinadas em Zhelin. Por essa ajuda, no ano seguinte, os portugueses foram “brindados com chapas de um dos mandarins, aparentemente reconhecendo apenas os seus bons serviços e prometendo intercessão junto do Imperador para que fosse autorizada a entrada na China da missão diplomática de Diogo Pereira/Gil de Góis (1563-1565) e ainda, cumulativamente, terá sido dada à cidade, uma outra chapa, a título de recompensa, isentando-a do pagamento dos direitos alfandegários desse mesmo ano de 1565”, segundo Jorge dos Santos Alves em Os Primórdios do Estabelecimento dos Portugueses em Macau e esclarece Beatriz Basto da Silva, “os portugueses de Macau recebem um agradecimento formal pela ajuda prestada na luta contra a rebelião de 1564, mas não se livram de pagar 20.000 taéis de prata pela ancoragem dos seus navios, nem do foro do chão pelo uso da terra e do porto de Macau, que já vinha de 1559/1560 (500 taéis só para o foro). Recebem ainda a promessa de, caso cumpram os direitos alfandegários, não lhes serem ‘tolhidos’ os mantimentos, antes ‘dobrados’. Trata-se do fecho e abertura das Portas do Cerco”.
No entanto, “Yu Dayou, Comandante Regional de Guangdong, a despeito de ter recebido apoio naval dos portugueses, apercebendo-se do poder da sua artilharia, escreve (em 1565) e é de parecer que se deve acabar com a instalação dos portugueses em Haojing/Macau. Diz que os estrangeiros foram tolerados mas percebe-se que os considera um perigo para a zona, especialmente para Cantão, e sugere que sejam banidos por forças chinesas do mar e da terra. Não é, no entanto, opinião unânime, já que o cantonense Huo Yuhsia é contrário à via militar e adepto da harmonia comercial desde que devidamente controlada”, (Cfr. Fok Kai Cheong – Estudos sobre a Instalação dos Portugueses em Macau), segundo Beatriz Basto da Silva e com ela seguindo, também Wu Guifang (fonte expressa em Wu Zhiliang, Segredos…) nesse ano “escreveu à Corte de Pequim sobre a ambição que os bárbaros do reino Folangi têm de querer estatuto de tributários da China, mas com isenção de impostos, o que não está na sua mão, pelo que pede despacho. O assunto é premente, porque o comércio vem aliviar muito as despesas; os direitos comerciais são um rendimento a observar e “os bárbaros, quando revoltados, tornam-se perigosos”.

Capitão-mor Tristão Vaz da Veiga

O contrabando confundia-se com a pirataria do litoral, quando em 1567 o governo imperial levantou a proibição de os chineses navegarem e fazerem comércio marítimo por conta própria. E continuando pela Cronologia da História de Macau de Beatriz Basto da Silva, em Julho de 1568 “A pirataria ataca directamente as águas de Cantão. Tristão Vaz da Veiga, vindo da viagem ao Japão e Capitão-mor de Macau, domina-os; pouco depois socorre os mandarins cantonenses a seu pedido…” Já Gonçalo Mesquitela esclarece ter Tristão Vaz da Veiga recusado a oferta de D. Catarina pelos brilhantes serviços na Índia da capitania de Chaul, e em 1564 foram-lhe concedidas duas viagens à China e ao Japão, sendo ele Capitão-mor da primeira viagem Macau-Nagasaki. Essa viagem realizou-se entre 1566 e 1567 e no regresso do “Japão foi obrigado a invernar em Macau. Estava assim no porto do Nome de Deus, onde os portugueses estão na China em 12 de Junho de 1568, quando um pirata poderoso pretendeu atacar a cidade com cem velas, três a quatro mil homens e mil e quinhentas espingardas. O capitão-mor atacou-os, quando os piratas desembarcaram e repeliu-os quatro vezes. Acometida a nau, defendeu-a durante três dias, mas também os repeliu. Perdeu catorze defensores, entre os quais três portugueses, e contou cinquenta feridos. Depois de oito dias de luta, os mandarins de Cantão mandaram chapas a Tristão Vaz e ao pirata para acertarem pazes entre eles. O pirata foi para a ilha de Lamau conferenciar com os mandarins, entreteve-os com delongas e entretanto atacava Cantão, onde destruiu embarcações e os arrabaldes. Os portugueses prepararam-se para o novo ataque que esperavam sobre Macau. Construíram-se então as primeiras muralhas de defesa, até aí impedidas pelos mandarins, os quais, agora, perante as circunstâncias, não se opunham”. (…) “Durante a construção, outro pirata devastou a costa perto de Macau, pelo que os mandarins de Cantão pediram a Tristão Vaz que os combatesse, mandando-lhe alguns navios para isso. Além de que impediam a chegada de mantimentos a Macau. O capitão-mor embarcou, em quatro deles cinquenta portugueses, alguns cristãos chineses e escravos. Dos vinte e três navios dos piratas, onze foram tomados com muita gente e munições, fugindo os restantes”.
Nos anos que se seguem, até 1570, segundo Beatriz Basto da Silva, “os piratas assolam de novo. Guangdong pede auxílio às forças militares de Macau e é um mercador rico, morador, que envia dois navios armados à sua custa; trata-se de Bartolomeu Vaz Ladeiro que tem um consórcio familiar com os sobrinhos Vicente Ladeiro e Sebastião Jorge e é um grande apoiante da Companhia de Jesus. A China posiciona-se como se esta ajuda defensiva do litoral do sul fosse uma obrigação de lealdade dos estrangeiros residentes”.
Tristão Vaz da Veiga, um dos primeiros habitantes de Macau, vai pela segunda vez como Capitão-mor da Viagem ao Japão, a de 1570-1571.

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