Em Quanzhou 泉州, Zaiton, a Chincheo dos portugueses de quinhentos

“Jorge Mazcarenhas foy ter a huma cidade chamada Chincheo, em que lhe pareceo que avia mais rica gente que em Cantão.”

Fernão Lopes de Castanheda, História da Conquista da Índia, Livro IV, capítulo XLI.

“Chegados nós ao porto de Chinchéu, achámos aí três naus de portugueses que havia já um mês que eram chegadas (de Liampó) dos quais fomos muito bem recebidos e agasalhados com muita festa e contentamento e depois nos deram novas da terra, e da mercancia, e da paz e quietação do porto.”

Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, cap.57

“When the Portuguese, in the 16th century, recovered China to European knowledge, Zayton was no longer the great haven of foreign trade.”

Henry Yule, The Book of Marco Polo the Venetian, London, John Murray, 1874, capítulo LXXXII, II vol., pag 221, nota 2.

Entre os relatos dos nossos cronistas e aventureiros quinhentistas existe alguma confusão quanto à localização exacta do lugar que denominávamos Chincheo. O topónimo aparece associado ora a dois espaços diferentes mas próximos, as cidades de Quangzhou泉州 e Zhangzhou漳州 ou, por extensão, os chincheos serão os habitantes da actual província de Fujian, podendo Chincheo ser ainda o nome da própria província. Ora para Quangzhou, os dois caracteres 泉州– que soam como “chuanchou” em mandarim –, têm a leitura aproximada de “chinchew” na pronúncia local, no dialecto hokkien ou fulaohua福佬话, (a língua antiga de Fujian), um subgrupo do grande dialecto min do sul falado na província de Fujian. Do “Chinchew” ao Chincheo dos portugueses na China vai um curtíssimo passo. De resto, é curioso que, para além do mandarim, o dialecto mais falado em Taiwan, a Formosa, é exactamente o hokkien dado que parte da população da ilha é originária da região de Quangzhou, emigrada para Taiwan nos séculos XVIII e XIX.

Sem querer entrar em qualquer outra discussão, acredito que a cidade de Quangzhou, tal como a Liampó ou Ningbo宁波, na vizinha província de Zhejiang,[1] serão os grandes portos de comércio e abrigo dos portugueses da primeira metade do século XVI, ainda antes da fundação e fixação em Macau, que só acontecerá a partir de 1553/55, após os nossos marinheiros, mercadores e aventureiros terem sido expulsos destas duas cidades pelos chineses devido ao facto de serem estrangeiros e de haverem assumido comportamentos de verdadeiros haitao海偷, os “piratas do mar” como os chineses nos chamavam. Basta ler a saga de António de Faria na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto para entender como comerciar mas também saquear, roubar, viver extremadamente fizeram parte dos quotidianos quinhentistas dos portugueses por terras da China. Tal e qual como entravam no dia a dia de outros povos, incluindo chineses.

Quangzhou ou Chincheo, ou se quisermos a Zaiton de Marco Polo que no seu livro a considera “hum dos dous melhores e mayores (portos de comércio) que som no mundo” foi um dos primeiros lugares das costas da China abertos à navegação, ponto de escala e muitas vezes de início do que se convencionou chamar a “rota da seda marítima”. Daqui partiu Marco Polo na sua longa viagem de regresso a Itália. Acredita-se que Zaiton, o nome em árabe de Quangzhou, – também associado a “azeitona” – deu origem às palavras “satin” em inglês e “cetim” em português, tudo relacionado com as muitas toneladas de seda que se exportaram pelo porto de Quangzhou.[1]

Nas dinastias Song e Yuan (de 960 a 1368), a cidade atingiu o zénite do seu desenvolvimento como o grande entreposto dos mares da Ásia. Foram mercadores muçulmanos, sobretudo persas – que desde o século IX davam corpo à expansão do Islão para o vasto Sudeste Asiático –, que se fixaram em Quangzhou onde se calcula terem chegado a atingir as 150 mil almas. Era tão forte o seu poder económico na cidade que, entre 1345 e 1365 foram objecto de uma brutal perseguição por parte dos poderes chineses, tendo havido milhares e milhares de mortos. No século XIV, Zaiton era também habitada por judeus, hinduístas e católicos, tendo o franciscano italiano Andrea da Perugia sido o primeiro bispo na cidade em 1332. O quarto bispo de Zaiton, o também franciscano Giacomo da Firenze, foi martirizado em 1363. Existiam então dezenas de mesquitas e três igrejas, tudo arrasado nas perseguições ocorridas nesses anos.

No Verão de 2013, eis-me em busca da cidade de Zaiton, Quangzhou, Chinchew ou Chincheo.

Setenta quilómetros de autocarro desde Xiamen e chego à cidade que me parece harmoniosa, bem distribuída pelo vale e pelas colinas que a circundam. Onde está o rio, onde fica o porto? Pergunto e vão-me dizendo que Quangzhou não tem porto de mar, apenas na foz do rio, diante das ilhas, existe um pequeno porto para barcos de pesca. Caminho quilómetros ao longo do rio Jinhe em direcção ao mar. O rio dificilmente é navegável, está tudo assoreado, a areia e a lama depositaram-se no leito outrora de águas profundas, a cidade actual vive quase de costas voltadas para o rio Jinhe e para o oceano. O grande porto de Zaiton, a mais que provável Chincheo dos portugueses na China, foi engolido pela lama, pelas areias depositadas no rio e, antes da sua embocadura, as águas quase desapareceram com o rolar dos séculos.

Apanho um táxi e digo à mulher motorista, uma senhora afável e simpática, que quero ir, sempre pela margem do rio, até à foz. São mais quatro ou cinco quilómetros, mas a condutora assevera-me que não existe nenhum grande porto, só uma aldeia de pescadores e barcos de pesca. Avançamos na estrada. Adivinho umas centenas de traineiras, todas azuis, made in China, atracadas lá mais à frente. Há mesmo um porto na foz do rio, igualmente com bancos e restingas, com muita areia e lama, é, porém, um porto diante do mar.

Saio do táxi e avanço para o cais, para os barcos de pesca alinhados junto ao molhe, entro na confusão de quem chega com peixe para descarregar e para vender. Mulheres carregam ao ombro baldes pesados de peixe suspensos na extremidade de varas de bambu, outras sentadas em banquinhos limpam caranguejos e ostras, outras ainda, de cabelo entrançado que dá a volta no alto da cabeça num puxo seguro por uma espécie de pauzinhos, acondicionam peixe solto e marisco que vendem em pequenos lotes. Há homens jogando weiqi, o xadrez chinês, e jogadores batendo sonoramente cartas no tampo de mesas improvisadas. Alguns pescadores, por certo cansados do mar, assistem sossegadamente ao bulício misturado com a calma desta gente da beira-mar.

Atravesso a rua, caminho para a aldeia ao lado que parece manter a traça de séculos passados. Casas baixas de madeira, algumas de um só sobrado, decrépitas e pobres. Ruas estreitas, bastante imundície, lojas pequenas, uma ou outra casa de comidas, quase só peixe e marisco, velhos plantados na soleira das casas, meninos saltitando alegres por vielas e becos. Estou na Quangzhou, na Chincheo de quinhentos. O porto e a cidade deveriam ser assim no século XVI e, ao regressar, comprovo, que não estou numa aldeia mas no prolongamento do próprio tecido urbano da velha Quangzhou. Quase adivinho Fernão Mendes Pinto à conversa com António de Faria, talvez o seu alter ego, num junco, ancorado na foz do rio Jinhe, aqui, cidade de Chincheo, ano de 1545.

No dia seguinte, visita ao Museu Marítimo de Quangzhou, ao encontro da história e das muitas navegações por estes mares de Fujian, sul da China.

Nas fundamentais fontes chinesas não existe quase nenhuma referência a Portugal e aos portugueses. Se fomos os primeiros a arribar a estas paragens, na ligação marítima entre a Europa e o Império do Meio concretizada em 1513 com a chegada de Jorge Álvares a Toumen, na actual Hong Kong, província de Guangdong, não fomos os pioneiros nas navegações ao longo das costas e na estadia na China. Nos séculos XIII e XIV, Marco Polo, os muçulmanos e os missionários franciscanos, todos jornadeando pela velha Zaiton, merecem as honras da exposição museológica, com a exposição de pedras e lápides recentemente descobertas com textos extensos em árabe e pedras tumulares com cruzes cristãs.

É interessante a mostra dos diferentes tipos de barcos que no passado se aventuraram por estes mares, desde os juncos de alto mar do almirante Zheng He (1377-1433) que com estes navios navegou até Mombaça em 1433, até às fustas e naus, estas sim ligadas a uma presença portuguesa. Destaque também para a figura patriótica de Zheng Chenggong (1624-1662) ou Koxinga, que de pirata passou a herói nacional após haver expulsado em 1661 os holandeses sedeados há 38 anos no Forte Zeelandia, em Taiwan, de onde controlavam a ilha Formosa.

Mesmo ao lado do Museu Marítimo situa-se um outro edifício de três andares, que funciona igualmente como uma espécie de museu, o Centro Cultural Islâmico onde se homenageia a comunidade muçulmana outrora residente em Zaiton/Quangzhou. À entrada deparamo-nos com uma estátua de Ibn Battuta (1304-1377), o grande viajante árabe natural de Tânger, logo ali abaixo do nosso Algarve, que no século XIV empreendeu uma longuíssima jornada até à China e nos deixou um fabuloso relato das suas viagens, algo semelhante ao “Livro de Marco Polo”. Battuta viveu durante um ano em Zaiton, exactamente em 1346. No jardim do Centro Cultural encontramos um cemitério destinado aos muçulmanos ilustres falecidos na cidade e vale também a pena visitar a grande mesquita de Qingjing, originalmente construída em 1009 pelos primeiros prosélitos do Islão e de que restam apenas ruínas restauradas, e um pórtico. Aproveitando o espaço adjacente a Qingjing, acabou de ser construída uma nova mesquita com dinheiros provenientes da Arábia Saudita, não muito grande, mas a testemunhar um longo passado de ligação e relacionamento, nem sempre afectuoso e pacífico, entre o Islão e a China.

Regressando aos nossos marinheiros de quinhentos será de recordar que os portugueses de então não eram muito dados a visitar mesquitas, pagodes, templos budistas ou taoistas. Mas em Quangzhou/Chincheo existia já, desde o ano 686, um magnífico conjunto de pavilhões e pagodes dedicados à veneração de Buda, o templo de Kaiyuan. Por volta do ano 1100, na dinastia Song (960-1279) chegou a ser habitado por mais de um milhar de monges. Hoje, no templo de Kaiyuan, destacam-se os dois lindíssimos pagodes de pedra, iguais, não muito altos, apenas cinco andares com as paredes revestidas por originais baixos-relevos, tudo datado do século XIII quando Zaiton ou Quangzhou era uma das grandes cidades da China.

Pouca gente a visitar Kaiyuan. O desdobrar do olhar, uma pequena reverência aos budas, recordar Portugal e os portugueses de antanho, e diluir-me na serenidade do dia.

6 Fev 2025

O Complexo de Marco Polo

[dropcap style=’circle’]C[/dropcap]omprei hoje na rua As Viagens de Marco Polo, que não relia há uma década. O que me recordou um conceito que criei para um artigo científico: o complexo de Marco Polo.
O Marco Polo, um aventureiro e navegador de Veneza, fez a mais espantosa viagem europeia do século XIII e viajou para o Oriente, tendo estado na China 20 anos. Foi tal a sua integração que foi embaixador do Imperador da china, gozando de prestígio e poder.
Regressado a Itália, com 41 anos, foi feito prisioneiro dos Genoveses, numa batalha. E na prisão encontrou o cronista Rustichello da Pisa, a quem relatou as suas viagens e os reinos do Oriente.
Só que o relato do veneziano era cru e de antemão jornalístico e destituído dos seres fabulosos, lendas e maravilhamentos que recheavam as crónicas da época. E Rustichello, para tornar o relato credível, acrescentou gordura “mitológica” ao que Marco Polo contara, fantasias comuns ao imaginário da época e que compusessem um certo “efeito de real”.
A esta necessidade de irreais para tornar um discurso verosímil é que eu chamei o Complexo de Marco Polo.
Sem adivinhar que no século XXI este modo patológico de ler a realidade se tornaria uma constante da paisagem política.
As fake news, na sua inversão da realidade, representam esta patologia investida de modo imperial.
O que evidentemente só acontece em períodos de mutação civilizacional, quando os valores antigos se diluem e os novos ainda não se firmaram.
Estado límbico em que assomam os oportunistas destituídos da qualidade maior dos verdadeiros líderes: a grandeza humana.
O poder tem muitos inquilinos, já a grandeza é habitada por poucos.
Grandeza: tinha-a o presidente Mujica do Uruguai, que podia ter comido, como os outros, no poleiro do poder e renunciou, optando por uma pobreza essencial, franciscana. Paradoxalmente pode assim ser generoso para com o seu povo, servindo-o e deixando-o melhor do que estava antes.
Também paradoxalmente, no cárcere, se apossou Mandela da sua nobreza. Em vez de alimentar o ressentimento e o ódio, Mandela adquiriu na relação com o seu carcereiro bóer as propriedades do perdão que o tornaram grande, porque aprendeu a pensar contra si mesmo e os primeiros impulsos.
No fim da vida apareceu uma biografia que lhe debotava a imagem; referia-se a um comportamento repreensível com as primeiras mulheres que amou, mas Mandela não usou do seu poder para abafar a revelação – que com certeza o incomodava – e com esse gesto quis demonstrar que mesmo os líderes são humanos e falíveis mas que o que importa é aquilo em que nos tornamos. Grandeza.
Grandeza teve Kofi Annan quando percebeu que a comunidade à qual tinha de dedicar a sua vida não era a ganense mas outra mais alargada, a da humanidade, e se tornou um líder da paz e um reconciliador que só falhou – como na Síria – quando não lhe deram os meios para isso. De resto, mesmo quando desautorizado, como na invasão do Iraque, era ele quem tinha razão.
E entre outras coisas deixou como legado o princípio da “responsabilidade de proteger”, o qual redefiniu durante algum tempo os rumos da diplomacia e da intervenção humanitária. Segundo esta ideia a opressão de um povo pelo seu governo é também uma ameaça à estabilidade dos outros países. Ideia de uma co-responsabilidade que, por egoísmo e cinismo da onda neo-liberal, infelizmente tem conhecido retrocessos.
Grandeza tinha Edward Said que mesmo confessando «ainda não fui capaz de compreender o que significa amar um país», dedicou décadas à causa palestiniana, embora sem ter abdicado um grama de espírito crítico.
Falta grandeza aos líderes políticos da actualidade – impreparados, falhos de energia, privilegiam os golpes de bastidores. A um bom adversário que os ajude a superarem-se e melhorar preferem não tê-lo; e confundem “maquilhagem” com comunicação.
Quando é assim é precisamente pela comunicação que tudo começa a patear. Como em Trump que já não comunica, agride e grunhe, à medida que lhe vão caindo as máscaras.
Que uma potencia mundial tenha como líder um homem que é um hipopótamo numa loja de loiças, de um capricho que só se conhece dos mais loucos dos Césares, seria da ordem do mistério não fora isso provar simplesmente que os povos não tiram lições da História, ou que pelo menos a experiencia humana só é reconhecida como tal se for incarnada – chegando através do exemplo alheio não é encarada devidamente dado que cada povo se julga portador de um destino de excepção.
Infere-se aqui outra norma atordoadora: cada país dispensa as lições da História e tem de passar pela provação do erro e de errar cega e voluntariamente, para se convencer a si mesmo de ter uma identidade que vale a pena, sacrificando tudo e todos. Cada povo cresce assim mais pelo bordo e a soma dos seus desastres do que como efeito de boas políticas de desenvolvimento. Há uma degradante atracção pela entropia na prática política quando se considera que uma má escolha é uma boa escolha apenas por ter sido uma escolha nossa.
Talvez porque o poder, violência física mesclada na violência simbólica, não sabe “unificar” senão enveredando pelo padrão da desordem. O dividir para reinar. Como é um padrão parece ser uma ortopedia racional: não é, é apenas o efeito do complexo de Marco Polo, que irrealiza de tal forma a realidade que até simula a verdade com uma mentira de grande aparato técnico.
Simultaneamente à perda de grandeza no universo da ética política, a este mergulho na insignificância que tudo relativiza no quotidiano, constatamos que o mal na sua suprema manifestação tradicional – o demoníaco – desapareceu. Ou é reificado, transformado em espectáculo, como na recente série televisiva Lucifer. Manifestação da loucura normal.
Entretanto, como dizia Popper é mais fácil falsear que verificar uma hipótese, para que não se quebrem as rotinas, o que Marco Polo aprendeu à sua custa quando viu na sua sombra um desvio de direcção.

 

23 Ago 2018