Todos os dias morrem na estrada

Os condutores portugueses são considerados dos piores da Europa. As razões são múltiplas. Desde Janeiro, já morreram nas estradas portuguesas 300 pessoas. Os feridos são milhares. Estamos perante uma média de mais de uma pessoa que morre por dia nas estradas nacionais e autoestradas.

Este número é confrangedor porque os acidentes são diários e incluem motociclos. A GNR leva a cabo assiduamente campanhas de sensibilização e informação sobre o cumprimento do código da estrada. De nada servem essas campanhas. O mal tem início nas escolas de condução e nas mafias organizadas que conseguem vender licenças de condução sem que os condutores realizem exames. As escolas de condução, com excepção para a do Automóvel Clube de Portugal, limitam-se a levar os instruendos a percorrer as ruas onde já sabem que se vai realizar o exame.

Os futuros condutores tinham de aprender a controlar um carro a uma velocidade igual à que no futuro lhes é permitida. Numa auto-estrada a 120 km/h, em vias rápidas a 80 e a 100 km/h, em caso de problema repentino numa auto-estrada, 80 por cento dos condutores não sabem reduzir de 120 para 40 km/h manuseando competentemente a caixa de velocidades. E muito menos, não sabem que numa curva não se trava. A travagem é feita antes da curva e ao longo de uma curva tem de se manter uma aceleração controlada. Nada é ensinado em piso molhado. Os instruendos na sua maioria não sabem o que é um water planning e que, nesse caso, nem pensar pôr o pé no travão.

O que é que aprendem nas escolas de condução se depois aquilo a que assistimos é chocante. Raramente se vê um automobilista fazer pisca-pisca quando muda de faixa de rodagem ou vai virar à esquerda ou à direita. Constantemente observa-se um grande número de condutores a ultrapassar outro veículo onde na estrada encontra-se um risco contínuo, que proíbe terminantemente que seja pisado. Condutores que ultrapassam em lombas de estrada sem qualquer visão do que o trânsito contrário poderá trazer. Condutores que não fazem a mínima ideia de que nos semáforos o sinal amarelo é para abrandar e parar. O que vemos é centenas de condutores portugueses a passar o sinal vermelho.

A maioria dos condutores faz uma viagem e não se preocupa com a revisão do carro ou a calibragem dos pneus. Como é possível que seja concedida a carta de condução a um cidadão, sem que a entrega do documentos apenas seja concedida quando o futuro condutor apresentar o registo do carro que adquiriu e o respectivo seguro? Em muitas operações stop da GNR os militares detectam dezenas de condutores sem seguro obrigatório. E a falta de civismo leva muitos condutores a percorrer Portugal sem carta de condução.

Um outro aspecto que tem provocado dezenas de acidentes são os condutores que numa auto-estrada com três faixas de rodagem não respeitam o código e ao rolarem em velocidade reduzida serem obrigados a conduzir na faixa da direita. Não, antes pelo contrário, vão a 60 km/h na faixa do meio e a 80 km/h na faixa da esquerda. Mas, foi isto que aprenderam nas escolas de condução? Não acreditamos ou, então, os instrutores não mentalizaram os instruendos de que esse comportamento na estrada é grave e perigoso.

Por outro lado, temos agora incidentes graves nas ruas de Lisboa e Porto, porque a violência ao volante tem aumentado de uma maneira execrável. Condutores que apitam por tudo e nada. Ofendem o condutor da frente. Se se trata de uma mulher ao volante, o caso é indigno. Vociferam os impropérios mais rudes e insultam as condutoras com os palavrões mais graves. Esses, são os tais 80 por cento que nunca deviam ter tido carta de condução.

E mais: a tristeza de uma família que teve conhecimento que o seu idoso ou a sua criança foram atropelados numa passadeira de peões com a agravante de o condutor ter fugido. Há efectivamente razão para afirmar que em Portugal se conduz muito mal. E temos ainda a inconsciência de certos pais novos-ricos que ao menino de 21 anos oferecem um Ferrari e depois choram no velório porque o menino desfez o Ferrari contra uma árvore.

Não podemos deixar ainda de salientar o desrespeito da maioria dos condutores pelos ciclistas. O código da estrada obriga que a ultrapassagem a um ciclista seja efectuada com uma distância de 1,5 metros. Quase ninguém cumpre e os acidentes mortais de ciclistas têm sido uma constante lamentável.

Por seu turno, o maior “crime” que se verifica na condução automóvel actualmente são os condutores que vão ao volante a falar ao telemóvel ou a ler e a enviar mensagens. Essa distração tem provocado um número incalculável de acidentes.

As autoridades ligadas ao trânsito rodoviário têm a obrigação de mudar as regras com o intuito de diminuir o número de mortes nas estradas. Condutor que passa com o sinal vermelho; que não respeita uma passadeira de peões, atropela e foge; que ultrapassa numa estrada onde existe risco contínuo e os que rolam na faixa esquerda de uma auto-estrada a velocidade reduzida, a todos estes, tem de passar a ser-lhe retirada a carta de condução para sempre. Há mínimos exigíveis para se mudar o caos verificado nas nossas estradas e os agentes da Brigada de Trânsito não podem condescender em nada relativamente a condutores que apenas deviam andar de trotineta…

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