Ai Portugal VozesInconsciência total André Namora - 23 Fev 2026 19 mortos na sequência das intempéries registadas em Portugal durante duas semanas. 19? É verdade, infelizmente registaram-se na semana passada mais duas mortes por inconsciência total. No segundo dia da tempestade Kristin as águas do rio Mondego começaram a subir e adivinhava-se o pior. O caudal do rio começou a alagar vários terrenos e a invadir diversas estradas. O senhor Venâncio e a dona Fátima, moradores perto de Soure, no concelho de Montemor-o-Velho, resolveram pegar no seu Citroen e ir a Coimbra a uma consulta médica, quando as autoridades municipais já começavam a avisar para que as pessoas não saíssem de casa. Era uma terça-feira e à tarde a Protecção Civil anunciou que se encontravam várias estradas regionais encerradas ao trânsito por causa das cheias que estavam a progredir devido ao aumento do caudal do rio Mondego. O senhor Venâncio de 68 anos e sua mulher de 65 terminaram a consulta hospitalar em Coimbra e resolveram regressar a casa. Ainda jantaram na cidade dos estudantes em casa de um familiar, mas não quiseram pernoitar na casa onde estavam ou gastar 70 ou 80 euros num quarto de hotel. Resolveram mesmo regressar a casa, apesar de terem terminado de ver na televisão durante o jantar que as estradas ao redor de Montemor-o-Velho estavam perigosas. Aí foram eles. A dada altura, o senhor Venâncio telefonou a um amigo dizendo que não estava a orientar-se muito bem sobre o caminho a tomar e que a estrada onde estava não lhe era conhecida. O amigo entendeu que o senhor Venâncio estaria perdido, porque nem sequer deveria estar ao volante devido a ter tido ultimamente algumas perturbações mentais que poderiam indicar algum tipo de demência. A inconsciência total do senhor Venâncio fez que entrasse numa estrada que já estava coberta de água e o carro resvalou para um arrozal que já estava completamente inundado. As horas passaram e a filha do casal começou a ficar preocupada, os telemóveis dos pais não respondiam e resolveu dar o alerta às autoridades policiais. A partir daí e durante quase uma semana os canais de televisão só noticiavam que um casal estava desaparecido. As buscas foram incessantes. Um esforço enorme de mergulhadores e de patrulhas marítimas, de bombeiros e de militares da GNR. Passados dias e depois do nível das águas começar a baixar uns caminhantes avistaram o tejadilho de um carro imerso no arrozal e alertaram as autoridades. A confirmação entristeceu profundamente a população de Varride, onde o senhor Venâncio e a dona Fátima residiam. Os seus corpos estavam no interior do Citroen e o número de vítimas das cheias cifrava-se em 19. Agora, é tempo de reconstrução em várias zonas afectadas, especialmente em Leiria e na Marinha Grande. No debate na Assembleia da República com a presença do Governo, o primeiro-ministro anunciou todo o apoio às vítimas da calamidade, apesar de ainda haver muita gente que não recebeu apoio governamental e que ficou sem nada nos últimos incêndios. Uma nota importante: o trabalho exemplar da presidente da Câmara Municipal de Coimbra. Ana Abrunhosa recebeu os maiores encómios de todos os quadrantes, excepto do partido Chega, porque Abrunhosa não foi populista e demagoga. O distrito de Leiria foi a zona mais afectada pelas tempestades e onde se verifica maior destruição, onde caíram entre cinco e oito milhões de árvores, mas podemos anunciar em primeira mão que a edilidade leiriense convidou já uma personalidade que deixou um vasto e louvável trabalho na arborização de Macau enquanto viveu na antiga colónia portuguesa. O engenheiro António Paula Saraiva foi convidado a estudar a reconstrução do principal jardim em frente à Câmara Municipal e onde quase todas as árvores caíram devido às fortes rajadas de vento. António Saraiva já visitou o local e prontificou-se de imediato a estudar a reconstrução arbórea do jardim leiriense. Um aplauso para este técnico excepcional, que apesar de reformado prontificou-se logo a cooperar para o bem-estar dos leirienses que gostam de frequentar o seu principal jardim. A reconstrução das zonas destruídas será um trabalho árduo e dispendioso. Poderá ultrapassar os 10 mil milhões de euros, mas como disse Luís Montenegro no Parlamento, terá de ser uma reconstrução levada a cabo por todos os portugueses. O país continua, a vida não para, mas desejamos que as promessas não falhem, como se tem registado em outros casos. Portugal foi notícia pelas piores razões contempladas por fenómenos naturais, mas que Portugal volte a ser notícia quando puder anunciar ao mundo que os portugueses atingidos por uma calamidade voltaram à sua vida normal.