Preguiça

Nós, portugueses, temos imenso jeito para a preguiça. Fosse a preguiça um desporto olímpico, e trazíamos sempre uma ou duas medalhas para casa. Só que a maioria dos desportos olímpicos implicam esforço físico, que é cansativo, e por isso raramente subimos ao pódio – dá-nos preguiça, enfim. Mais do que um desporto nacional praticado de norte a sul por anti-atletas de todas as idades e condição social, a preguiça é uma filosofia. Reparem na quantidade de provérbios que temos dedicados à preguiça: “Nascemos cansados e vivemos para trabalhar”; “Se o trabalho dá saúde, trabalhem os doentes”; “Se a preguiça é a mãe de todos os vícios, o trabalho é o pai dos calos”; ou a minha favorita, “Mais vale uma mão inchada que uma enxada na mão”, a conclusão de uma célebre anedota sobre alentejanos.

Por falar em alentejanos, estes são os supra-sumo da preguiça. Fosse a preguiça uma arte marcial, e eles eram cinturão preto em enésimo “dan”. Correcção: não seriam nada, pois para obter um cinturão preto é necessário competir, e isso é uma daquelas coisas que dá trabalho, e o trabalho é o maior inimigo da preguiça. Dizer que os alentejanos são especialmente preguiçosos, ao ponto de “acordarem mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada”, é uma presunção falaciosa. Quem são os restantes portugueses para chamar os alentejanos de preguiçosos? Diz o roto ao nu: porque não te vestes tu. Se os alentejanos são os campeões nacionais da preguiça, foi porque fizeram mais por isso. Ou antes, foram os que fizeram menos por isso. Não mexeram um dedo e ganharam um título. Temos muito a aprender com eles.

Falando a sério, os portugueses até não são tão preguiçosos como isso. Se não desse muito trabalho, até enumerava alguns povos mais preguiçosos que nós, mas estou com preguiça. Os nossos emigrantes, por exemplo, dão provas de valor lá fora, deixam-nos orgulhosos, são empreendedores, activos, trabalhadores, ou recorrendo novamente à sabedoria alentejana, são como o caracol: “aquele animal irrequieto”. O problema deve ser mesmo o nosso país, que nos torna preguiçoso. O que falta a Portugal em recursos naturais sobra em preguiça. Fosse a preguiça líquida e subterrânea, bastava fazer um buraco no chão e jorrava como petróleo. Quando o capataz da EDP encontra os operários a dormir no serviço, eles explicam-lhe que estavam a cavar uma vala para fazer passar os cabos, mas deram com um lençol de preguiça em bruto. Ficamos indefesos perante a fraqueza da preguiça, e a única forma de a combater é não reagir, virarmo-nos para o lado e dormir.

Não quer dizer que sejamos fracos, moles ou dorminhocos, nada disso. O que acontece é que preferimos guardar as energias para fazer coisas mais divertidas que trabalhar, como dançar, comer, beber e fazer todo o tipo de farra. Duas horas de trabalho podem parecer uma eternidade, mas doze horas de forrobodó passam tão depressa que até parecem cinco minutos. O mesmo tipo que está de baixa há um mês por causa de dores nas costas, passa a noite inteira aos pulos no arraial lá da vila. E depois? É preciso não confundir as coisas. Diz-se que esta “preguicite” – uma doença contagiosa – é típica dos países mais quentes, onde o calor, a comida, as mulheres de roupas leves convidam mais à cantoria e ao bailarico do que ao trabalho. É por isso que os países do norte da Europa e os norte-americanos trabalham tanto: não têm nada melhor para fazer.

Estes gajos são mesmo assim: quando acabam o seu trabalho e ainda lhes sobra tempo, vão buscar mais trabalho. Acabou o trabalho daquele dia, começam a fazer o trabalho do dia seguinte. É isto que eles chamam de “ética profissional”, mas nós chamamos de “obsessão”. Para nós chega a ser pecado começar a trabalhar nos primeiros trinta minutos depois de chegar ao serviço, enquanto eles mal chegam e já estão a velocidade de cruzeiro. Os últimos dez minutos do dia são reservados à contagem decrescente até à hora da saída, mas os tipos continuam a trabalhar a todo o vapor, como se estivessem a desarmadilhar uma bomba. Mas também, quem vai fazer um barbeque à chuva? Como é que se pode sambar na neve? E as mulheres, como é que exibem um decote ou se metem numa mini-saia com temperaturas de zero graus ou menos? Há economias em países quentes que são um sucesso, como a Austrália ou a Nova Zelândia, mas os seus colonizadores eram oriundos do norte da Europa – é genético. Podem ser ricos, mas são uns infelizes. Esquecem-se de viver, e no fundo até têm inveja de nós, os preguiçosos militantes. Em vez de nos andarem a cobrar a dívida, deviam antes pagar-nos mais, e agradecer. Porquê? Porque assim trabalham, são felizes assim, e pelo menos há alguém que se diverte.

19 Jul 2018

Madonna em Macau

O título pode parecer um pouco enganador, pois para quem tem interesse neste tipo de curiosidades, Madonna, a rainha da pop, já esteve em Macau. Foi em meados dos anos 80, durante as filmagens de “Shanghai Surprise”, ao lado do seu primeiro marido, Sean Penn. Este último protagonizou na altura um episódio caricato, quando pendurou pelo tornozelo um “paparazzi” (um jornalista local, muito conhecido na altura) do nono andar do antigo Hotel Central. Mas isto era outra Madonna.

A cantora tem sido notícia em Portugal desde que no ano passado decidiu ir viver para a Lisboa. Depois de uma série de não-notícias que serviram sobretudo para encher as páginas da imprensa cor-de-rosa e animar as redes sociais, eis que Madonna decide dar com um pano encharcado na visage dos alfacinhas, e adquire 15 parques de estacionamento na capital ao preço da uva mijona. Isto é um ultraje, para as pessoas que vivem na cidade, e pagam impostos, etc, etc, o costume. O edil lisboeta Fernando Medina, ele igualmente o alvo da ira dos seus munícipes, vem defender a decisão, recordando mais uma vez o contributo que a artista tem dado para a divulgação do nome de Portugal no mundo – ouviram bem? No mundo! Eu acho que sim mas penso que não, ou seja, nem a Madonna descobriu Portugal, nem quinze estacionamentos iam resolver o problema do parque automóvel em Lisboa. E como alguém escreveu a este respeito, e bem, “vocês pensam que são a Madonna”?

No entanto, esta notícia deixou-me a pensar: e se a Madonna fosse viver para Macau? Sim, imaginem que lhe apetecia ter voltado cá, mais de 30 anos depois do “Shanghai Surprise”, e que se apaixonava pelas Ruínas de S. Paulo. Ou sei lá, bebia a água do Lilau, a seguir caía das escadas do Quebra-Costas e ficava zuca, pronto. Usem a vossa imaginação. A questão dos estacionamentos ficava resolvida num ápice. “Ai a sra. Dona Madonna quer 15 parques? São 30 milhões de patacas – ou menos de 4 milhõezinhos de dólares, nós sabemos que a sra. tem. Passe bem and Macau welcomes you”. Até era um investimento bem jeitoso, este; quando a Madonna se fartasse de conduzir em Macau – e ia fartar-se depressa – podia revender os parques com lucro, a pobrezinha.

O resto da vida da Madonna em Macau não seria exactamente aquilo a que deve estar habituada. Os seus meninos podiam jogar à bola na mesma, mas o Benfica aqui é outro, e o Seixal chama-se “quintal desportivo do Estádio de Macau”, na Taipa. Ia ser bom também para a carreira da artista, que certamente encheria a Arena do Venetian as vezes que lhe apetecesse, trazendo imensa gente ao território. Só tem que rivalizar com outras divas do seu tempo, casos de Celine Dion ou Mariah Carey. Quanto à acomodação da Madonna, pensei na zona da Penha, mas depois os meninos dela lembram-se de andar por lá a atirar aviõezinhos de papel, e ainda se metem em algum sarilho. Se calhar o melhor mesmo é conceder o terreno da casamate, em Coloane, à Madonna, onde ela podia ser a própria, estão a ver, montada num cavalo branco de cabelos ao vento na praia de Hac-Sá? Fia-te no like a virgin e não corras, Madonna.

12 Jul 2018

Agir localmente, pensar no mundial

Que pena, a eliminação de Portugal do mundial de 2018, na Rússia, não foi? Mais um campeonato do mundo que se esfuma dos horizontes da nossa ambição. Quer dizer, deu para o que deu, e no fim perdemos com um adversário valoroso; o Uruguai é muito boa equipa, e faz lembrar a Itália, mas em bom. Antes desta partida ainda tivemos o França-Argentina, que se saldou numa vitória por 4-3 a favor dos gauleses. Tem sido um mundial muito emocionante, e até agora só uma partida terminou como começou, em zero-zero (o França-Dinamarca, na fase de grupos). Promete, o jogo entre os quartos-de-final amanhã em Novgorod, entre franceses e uruguaios.

Aproveitei as noites em branco do futebol para arejar, também, agora numa fase de pré-férias. Depois da derrota das cores nacionais, na madrugada de Domingo, fui ver o sol nascer ao Miradouro da Penha – não me perguntem porquê. Local aprazível, aquele. Localizado ao cimo da Colina da Penha, mesmo debaixo da ermida com o mesmo nome, é um lugar aberto, refrescante, com uma paisagem magnífica, com vista para o Lago e Ponte Nam Van, e a torre de Macau. Por volta das seis e picos dá para escutar um verdadeiro recital de música gentilmente chilreada pelos passarinhos. Um deleite. Contudo, e apesar de ser um local isolado, ao ar livre e fechado ao trânsito, não se pode lá fumar. Nem nos banquinhos muito catitas ali colocados dá para, como se diz em chinês, “conversar com o cigarro”. A estranha paranóia higienista que grassa em Macau, que leva a que se pintem “smoke free areas” à volta das paragens dos autocarros e esconda os cigarros nos supermercados, como se fosse material pornográfico, tem destas coisas.

Mas rola a bola, e no Domingo tivemos mais dois encontros dos oitavos-de-final do mundial, ambas decididas nos desempates dos pontapés da marca de grande penalidade. Melhores nesse particular estiveram a Rússia, que eliminaram a Espanha, levando “nuestros hermanos” a fazer o mesmo caminho de volta a casa que fizemos no dia anterior. Não estiveram muito bem para os pergaminhos que ostentam, para ser sincero. Mais tarde foi a vez da Croácia, uma das boas equipas em prova, fazer o mesmo com o reino da Dinamarca. Russos ou croatas, um deles, vão estar nas meias-finais. O que se pode considerar uma surpresa relativamente agradável.

Com tudo isto, entre o Sábado e o Domingo e os sonos que andam trocados, passou-me a lado uma (Grande! Enorme!) manifestação realizada no território, contra a construção de um crematório na ilha da Taipa, “onde vive muita gente” (a sério, isto foi usado como argumento). É um tema sensível, sem dúvida. Toda a gente quer o metro ligeiro, desde que ele não passe à sua porta, assim como toda a gente acha que um crematório é necessário, mas de preferência o mais longe possível. O que ninguém quer é ter pessoas a entrarem-lhes literalmente pela janela. Passo o apontamento de humor negro.

Chega a segunda-feira, voltamos às lides profissionais, mas lá se arranja maneira de dormir como se pode até à noite, hora dos jogos do mundial. E nesse dia tivemos o Brasil a vencer o México por 2-0, com o craque-malabarista-mergulhador Neymar a garantir que havia ali hora e meia bem passada. Mais tarde tivemos o Bélgica-Japão, e apesar dos belgas quase terem ficado com os olhos em bico (desculpem, a sério…), conseguiram ganhar com um golo no último minuto, consumando uma reviravolta espectacular. O escrete para mim é o grande favorito no jogo dos quartos, a mas a Bélgica é um osso duro de roer.

Ontem, e antes da dose dupla de futebol à noite, tivemos uma tragédia a assinalar. Em Macau, na zona norte da cidade, rebentou uma botija de gás num restaurante, causando uma vítima mortal, e ainda dois feridos. É muito triste, ainda mais tendo que em conta que a morte a lamentar foi a de alguém que fazia pela vida, numa cidade onde há cada vez menos espaço, e este vale cada vez mais (vale, mesmo?). Não surpreende portanto que não haja nem espaço para o gás respirar, quanto mais nós. Botijas umas em cima das outras, e pouco tijolo à sua volta.

E depois disto tivemos o Suécia-Suíça e o Inglaterra-Colômbia, com suecos e ingleses a garantirem cada um o seu bilhete para os quartos-de-final. Continuará a Suécia, uma equipa muito arrumadinha, por sinal, a surpreender? Ou “is it coming home?” – os ingleses e os aficionados do desporto-rei entendem esta, com toda a certeza. Com mais um Verão muito quente e molhado aqui em Macau e as tais férias que nunca mais chegam. Vai-nos valendo o mundial de futebol.

5 Jul 2018

Vingança               

Vingança, uma palavra forte. O próprio som da palavra dá a entender sangue, violência, tiros, cabeças cortadas, espadas atravessadas do abdómen às costas. Reparem na intensidade das palavras da família de “vingança”: vingativo, vingador, vingado. Convidam à poesia. É preciso não confundir a vingança com outras mariquices. Um tipo que dá um murro a outro que lhe bateu primeiro é uma simples retaliação. O indivíduo que atropela com o carro o filho mais novo do vizinho e lhe parte as pernas porque o outro lhe matou o gato é um ajuste de contas.

O gajo que denuncia às autoridades a plantação de “cannabis” do vizinho porque este teima em receber visitas e ficar a ouvir Bob Marley toda a noite é um “queixinhas”. O fulano que fura os pneus do carro do colega depois deste ter contado ao chefe que andava a roubar lapiseiras do escritório é uma “vingançazinha”, nem chega a ser vingança, e dificilmente o castigo corresponde ao crime – não chega para se ficar vingado.

Vingança que é vingança implica um longo período de angústia, de dor, de humilhação, seguido de outro não menos longo período de recuperação, planejamento e preparação ao nível do corpo e da mente. Quem planeia uma vingança nunca o faz para daqui a pouco, para amanhã ou dentro de semanas. É um processo que pode demorar meses, anos, toda a vida, e pode mesmo nunca chegar a ser realizado. É um peso que se carrega no peito, que nos assalta a cada minuto, a última coisa em que pensamos quando vamos dormir e a primeira quando acordamos. Dizer que se tem “sede de vingança” diz muito pouco sobre o que é realmente a vingança. Devia dizer-se “ter dores de dentes de vingança”.

O cenário típico de vingança é aquele que apreendemos dos filmes de acção, Imaginemos o Mesquita, um cidadão médio a quem a vida corre bem, casado e com dois filhos lindos, uma menina adolescente e um rapaz de dez anos. Um belo dia estão em casa a viver as suas vidas de família como outra qualquer, e são assaltados por um gangue de seis ou sete indivíduos, que lhe violam a mulher e lhe cortam a garganta, rebentam os miolos ao miúdo e raptam a filha, vendendo-a posteriormente à escravatura sexual. Mesquita tenta resistir, mas entre um tiro numa perna, duas ou três facadas nas costelas e a mesa de vidro da sala despaçada na tola, é deixado à beira da morte. Quando chega a polícia, muito depois dos bandidos se terem posto em fuga, encontra-o num estado lastimável, com o rosto feito numa papa Nestum.

Segue-se um longo período de recuperação para o Mesquita, com a imagem da violência a que foi sujeito gravado na retina. Já em plena forma, aprende uma arte marcial ou compra uma arma de grande calibre, e depois de saber para quem trabalham os assaltantes, e para quem trabalham estes, e finalmente para quem trabalham todos estes, chega ao topo da hierarquia, a um tal sr. X. Este sr. X é um respeitável elemento da sociedade, o mais generoso contribuente do último peditório para o combate à paralisia infantil, e principal patrocinador da reeleição do presidente da câmara. Apesar do seu aspecto diabólico e fortuna de origem duvidosa, normalmente obtida através do tráfico de droga ou de pessoas e complementado pela fuga ao fisco, é respeitado por todos os cidadãos da comunidade, e está acima de qualquer suspeita.

Depois de limpar o sebo a 40 ou 50 capangas do sr. X com muito má pontaria e pouco jeito para a porrada, com o grau de dificuldade a aumentar à medida que vai chegando ao seu objectivo, Mesquita chega finalmente ao tão desejado face-a-face com a sua nemesis. Depois de um diálogo completamente desnecessário, onde cada um deles podia ter aproveitado o tempo para matar o outro, dá-se o confronto final, e depois de um combate equilibrado mas com uma inclinação para o vitória do sr. X, Mesquita parece derrotado. Quando o seu inimigo se prepara para desferir o golpe final, dá-se um volte-face, Mesquita reúne o que lhe resta das forças e derrota o sr. X, que tem uma morte horrível e poética, de preferência acrescentada de uma “punch-frase” a condizer.

Já todos assistimos a filmes com um argumento mais ou menos semelhante a este, e até conseguimos imaginar Bruce Willis ou Mel Gibson no papel de Mesquita, e Kevin Spacey ou Gary Oldman no papel de sr. X. A TDM tem exibido nos últimos meses a novela portuguesa “Vingança” – o título diz tudo – e nela temos Diogo Morgado no papel de vingativo e Nicolau Breyner como o objecto da sua vingança.

O personagem de Diogo Morgado viu o pai ser morto a mando do personagem de Breyner, e ele próprio foi traído pelo filho deste, que o deixou dado como morto, a apodrecer numa prisão marroquina. A vingança é um dos ingredientes mais amargos da composição do género humano, uma comichão que só se alivia quando a vingança é finalmente concretizada. Só há uma coisa que me deixa incrédulo quando assisto aos filmes ou outras obras de ficção que falam de uma vingança. Quando alguém como o dr. X, com esqueletos no armário, fica finalmente face-a-face com o seu vingador, neste caso o Mesquita, diz sempre: “Mesquita…finalmente…estava à tua espera”. Estava à espera? Não acredito. No mundo real, o sr. X ficaria borrado de medo, isso sim.

28 Jun 2018

Angeles

A pouco mais de uma hora de avião de Macau fica o aeroporto de Clark, uma base militar norte-americana desactivada, a 80 km norte de Manila, na província de Pampanga. Uma curta viagem de dez minutos de carro leva-nos até Angeles City, uma cidade com pouco mais de 400 mil habitantes, que aproveitei para visitar durante o último fim-de-semana prolongado, do feriado do Barco Dragão.

A viagem faz-se num salto – é mesmo, o avião levanta, fica meia hora no ar, e começa a sua descida até ao arquipélago das Filipinas. A única semelhança que encontrei entre Angeles e Macau foi o clima; calor, com temperaturas acima dos 30 graus, muita humidade, e aguaceiros imprevisíveis, e por vezes fortes. O resto é o mundo completamente à parte daquele a que estamos aqui habituados.

Pode-se falar em duas cidades, quando se fala de Angeles. Uma parte como qualquer outra cidade moderna e de pendor urbano nas Filipinas, com comércio, serviços, centros comerciais e um povo que, como sabemos muito bem, vai fazendo pela vida com o pouco que tem. A outra parte é, para descrevê-la primeiro em poucas palavras, uma autêntica “Sodoma do Oriente”. É nessa parte que se encontram mais expatriados; alemães, americanos, australianos e outros “diabos brancos”, que ora procuram o local para diversão, ora o escolhem para passar a velhice. Sai mais barato que Miami ou Palma Mallorca, com toda a certeza. Por apenas uma nota de mil pesos (150 patacas), é possível comprar um momento de prazer. Obviamente que não faltavam os travestis (uma presença assaz constante), e até foi possível presenciar alguma prostituição infantil. Em Angeles consegue-se encontrar de tudo, 24 horas por dia.

Quem marca também uma presença forte em Angeles são os coreanos. Na avenida principal da área dos bares, a Walking Street, é possível encontrar resaurantes e cafés coreanos. Entrei num desses cafés com a esperança de comer um “halo-halo”, um tipo de sobremesa feita com gelado de inhame, e disseram-me que “só têm halo-halo coreano”. Seja lá o que isso for. A quantidade considerável de coreanos nesta área fez com que estes se misturassem com as mulheres locais, dando origem a um cruzamento a que chamam de “kopinos” ou “korinoy”. Calculam-se que hoje existam mais de 20 mil destes mestiços, com predominância na zona de Quezon City, em Metro Manila. Vi muitos coreanos, e nenhuma coreana. O mesmo pode-se dizer em relação aos outros estrangeiros. A cidade dos anjos não é para o sexo dito fraco.

É preciso ter um estômago forte, e de preferência deixar a moral em casa, quando se vai visitar Angeles City, através do aeroporto de Clark. Visito as Filipinas uma vez por ano, e encanta-me sempre o ar, a vida, a comida, a alegria daquele povo tão sofredor. São sempre momentos bem passados, a um preço convidativo. Depois é só procurar o nosso lugar, entre o imenso território que compreende milhares de ilhas, e onde habitam mais de 100 milhões de almas. Angeles é apenas o lado de fora.

21 Jun 2018

Em nome da bola

Arranca amanhã o mundial da Rússia 2018 em futebol, e para os adeptos do desporto-rei, esta é a nossa Meca, de quatro em quatro anos. Desta feita os jogos passam a um hora decente aqui no território; para os aficionados da bola residentes em Macau, jogos que acabam às três da madrugada são um bom negócio. Assinamos por baixo, e já.

Isto porque pela primeira vez – e graças à FIFA e os seus caminhos ínvios – a competição mais importante a nível de selecções se realiza na Rússia. Apesar de muita gente torcer o nariz ao país organizador, eu estive na Rússia há poucos meses, visitei o estádio Luzhni, onde vão decorrer o jogo inaugural e a final do torneio, e fiquei positivamente surpreendido com o que vi. Nota-se em toda a parte que o povo russo está entusiasmado, esmerou-se na recepção, e sabe receber muito bem. Muitas vezes caímos no erro de confundir os políticos e as políticas com as gentes. Eu estou confiante que em Julho este mundial vai ficar registado como “memorável”.

Antes de falar na selecção portuguesa, há que referir os favoritos. Considero que o Brasil é outra vez “o alvo a abater”, e a selecção da Alemanha apresenta-se a defender o título, e apesar de parecer menos forte que há quatro anos no Brasil, é sempre uma equipa a ter em conta. Por fora correm a França e a Argentina, enquanto a Bélgica e a Colômbia são considerados os “cavalos pretos”. A Espanha, para mim uma das grandes favoritas até agora, deparou-se mesmo há pouco com uma enorme contrariedade: o selecionador nacional, o nosso conhecido Julen Lopetegui, foi demitido do cargo, apenas a três dias do pontapé de saída, que será logo contra a selecção portuguesa. Falemos então dos nossos, de Portugal.

Eu estou tão confiante agora como estava há quatro anos, quando ficámos pela fase de grupos do mundial do Brasil, e como há dois anos, quando fomos ao europeu de França e levámos de lá o caneco.

Para mim é sempre indiferente, quer quanto às expectativas, quer quanto à prestação. Eu ainda sou de uma geração em que Portugal não se qualificava para nada, e desde 2000 temos estado em todas as competições internacionais. Um luxo para um país pequeno com dez milhões de habitantes, mas que no entanto tem também um coração do tamanho do mundo. Vamos lá, Portugal: se não for desta há sempre uma próxima vez. Mais noites perdidas pela frente e tudo em nome da bola.

14 Jun 2018

Gente de Jun(h)o

É nesta melancólica tarde chuvosa de quarta-feira, dia 6 de Junho, que me apetece dissertar sobre o dia de Portugal, que se assinala no próximo Domingo, e sobre a portugalidade em geral, e como a sentimos deste lado do mundo. E chuva é mesmo aquilo que nos espera neste mês de Junho; se os Waterboys uma vez escreveram que “December is the cruelest month”, e porque nunca passaram por um Junho em Macau.

Somos portugueses (somos!), e amamos Portugal (amamos!), assim como nos sentimos no direito, e na obrigação de sentir a dor que sente o nosso povo, lá a 10 mil quilómetros de distância, assim como partilhar das suas alegrias. O que é que nós somos? (portugueses!). Contudo, é difícil para nós exercer aqui a portugalidade. Não faltam as boas intenções, a palmadinha nas costas do compatriota (e aqui há-os de todas as origens), e o mais elementar protocolo, sempre com a empatia quer do governo local, quer das restantes comunidades, tanto lusófonas, como as de outras expatriados. E pronto, bate-se a pala, iça-se a bandeira, “toca suíno”, então o que nos faz falta?

É a tal da distância, sim. Que coisa de um raio. E o clima, não posso deixar de insistir. Uff. É frustrante realizar um arraial de S. João à chuva, com a dita a bater na fatia de pau onde jaz a sardinha. E que festa é esta, em que tem que se andar a tapar a sangria. Há uma expressão local (ou fui eu que inventei, que não me recordo) que diz que “o S. Pedro não colabora com o S. João”. Eu até achava giro, se não fosse tão trágico. Até a habitual “ida ao pastel”, na residência do cônsul-geral, no idílico Hotel Bela Vista, peca pela roupa colada ao corpo, do suor da humidade, e não raras vezes o tal S. Pedro decide também lançar uma descarga. Deve andar irritado com os dragões que vão deslizando estes fins-de-semana nos lagos Nam Van.

Estamos longe e temos saudades sim. Por muito que nos tentemos desligar, há sempre ali um bocado de nós, que ora já existia, ora desponta subitamente como o botão de uma linda flor. Fazem-nos falta as noites sem fim, o bradar dos tambores, a alegria das nossas gentes. Pouco depois disso estamos lá, é verdade (alguns de nós, os que insistem em ir…), e este 10 de Junho e todo o arraial que se segue são apenas os preliminares. Um feliz Dia de Portugal para todos.

 

PS: Queria aproveitar, porque ainda não o fiz, para mandar um grande abraço e um muito obrigado ao cônsul-geral de Portugal, Vítor Sereno, que se encontra prestes a terminar a sua missão no território. Muitas felicidades, é o que lhe desejo, esteja onde estiver. Touché-sai.

7 Jun 2018

Os nomes da morte

[dropcapstyle=’circle’] F [/dropcap] oi ontem (terça-feira) a votos a proposta de despenalização da Eutanásia, e tal como seria de esperar, foi rejeitada por cinco votos. É um tema sem dúvida fracturante – diria mais, uma das grandes questões dos nossos tempo – ao ponto de nem toda a gente gostar de lhe chamar “Eutanásia”. Há quem prefira “morte antecipada”, ou ainda “suicídio assistido”, mas chame-se o que lhe chamar, está intimamente ligado ao conceito da morte. É um dos seus muitos nomes. Portugal é ainda um país conservador, e sempre foi desconfiado das ideias mais progressistas. Vendo bem as coisas, preferimos que os outros avancem primeiro, e depois se gostamos do que vemos, avançamos também. Eu sou a favor do diploma que foi agora recusado, mas entendo e aceito que não exista uma preparação para ele. Falta um debate nacional mais alargado, usando um lugar comum. Com o que não posso mesmo estar de acordo é com alguns dos argumentos que foram utilizados para votar contra a proposta. Vamos por partes.

Consegue-se aceitar o argumento de que a despenalização da Eutanásia é para os profissionais de saúde, que actualmente incorrem do crime de homicídio caso ajudem um paciente a terminar com a vida, e alguns deles recusam-se a eutanasiar um ser humano. O senão é que esta despenalização não é para quem não aceita fazer Eutanásia a alguém, mas para quem tem uma outra perspectiva do tema, igualmente válida. Quem também se opôs com veemência foi o “lobby” dos opiáceos, reclamando que a Eutanásia levaria a um “desinvestimento na área da prestação de cuidados paliativos”. Não está em causa a utilidade – que é muita – deste tipo de assistência. Nunca esteve sequer em causa. Dos mais desonestos, houve quem estabelecesse um paralelo entre a Eutanásia e a eugenia nazi. Claro que este tipo de discurso populista desvirtua completamente todas as possibilidades de debate. Simpatizo com o receio de que a despenalização abriria portas a “qualquer uma” Eutanásia, alargando o seu âmbito inicial, mas isso seria não cumprir a lei. O que é sempre mau, em qualquer caso.

Depois há que atender à parte metafísica da Eutanásia. De todos os nomes que lhe dão, um dos que se vê menos é “morte com dignidade”. Aparentamente, a palavra “dignidade” é demasiado abstracto para legisladores e políticos. Preferem atender a outros mais terrenos, como o da “fé”, da “esperança”, da “vontade de Deus” ou de “milagres” – tudo designações usadas e abusadas durante o curto período de debate público que precedeu a votação. Entendo que “enquanto há vida, há esperança”, mas a lógica diz-nos também que enquanto há menos vida, vai havendo menos esperança. Lamento não se ter dado voz aos pacientes de doenças degenerativas, como a distrofia muscular ou a Alzheimer. Pessoas cujo calvário passa por primeiro não conseguir andar, depois engolir, e finalmente respirar. Assim, por esta ordem, e de forma irreversível; esta proposta de despenalização da Eutanásia foi feita para estas pessoas. E quem somos nós, aqui de pé e com saúde, a bradar a viva voz que eles não têm direito à sua dignidade? Espero que essa dignidade seja recuperada o mais rapidamente possível. Discuta-se, então.

 

31 Mai 2018

Sporting! Agora que tenho a vossa atenção…

Hoje decidi falar do Sporting, o tema quente do momento. Estava a pensar a guardar a minha costela de pseudo-jornalista desportivo para o mundial de futebol, que arranca no próximo mês na Rússia, mas é impossível ficar indiferente. Até porque o tema não se esgota dentro das quatro linhas. Falar hoje do futebol em Portugal no seu geral, e da situação do Sporting em particular tem muito mais que se lhe diga. Mesmo quem não percebe patavina do desporto-rei, tem certamente uma opinião formada sobre os últimos acontecimentos envolvendo o clube da capital, um dos ditos três grandes em Portugal. Tenho amigos sportinguistas, gente de bem, e tenho a certeza que se estiverem a ler estas linhas, vão ter em conta de que isto se trata de um artigo de opinião. Mais nada.

O problema, ou os problemas do Sporting, sobretudo os mais recentes, parecem orbitar todos em volta da mesma pessoa: o seu presidente, Bruno de Carvalho. Respeito a escolha do sportinguistas, que o elegeram por duas vezes, a última delas no ano passado, mas é difícil entender porque é que alguns deles ainda ficam do seu lado. Há um mês e meio Bruno de Carvalho criticou duramente a equipa de futebol após uma derrota em Madrid numa partida a contar para a Liga Europa, e após uma declaração conjunta de repúdio a essas declarações por parte dos jogadores, ameaçou suspender toda a equipa principal, chegando mesmo a colocar-se a hipótese do clube alinhar com as reservas – isto numa altura em que o Sporting ainda discutia o campeonato nacional. Os ânimos ficaram mais ou menos serenados até à semana passada, quando após uma derrota na última jornada da Liga, que relegou o Sporting para o 3º lugar da classificação final, um grupo de alegados adeptos leoninos invadiu as instalações do centro de estágio da equipa, em Alcochete, agredindo jogadores, equipa técnica e outros funcionários do clube. O caldo estava definitivamente entornado.

O caso extravazou para fora do mundo do futebol; afinal tratou-se de um ataque a profissionais, e pouco importa do quê, dentro do seu local de trabalho. É também uma questão de segurança, no fundo. O presidente Bruno de Carvalho começou, e mal, por desvalorizar o sucedido, e suspeita-se que os actos cometidos contra os jogadores e outro património do clube terá ocorrido com a sua anuência, o que é extremamente grave. Os atletas ameaçam agora com rescisões por justa causa, e para piorar a situação a equipa veio a perder na final da Taça de Portugal no último Domingo, frente ao Desp. das Aves. Foi a cereja no topo do bolo daquele que tem sido o “annus horribilis” do clube de Alvalade.

Estranhamente, Bruno de Carvalho não se demitiu, e tudo indica que não o fará de ânimo. Se o problema fosse com o treinador ou com um jogador, certamente que este já não estaria no Sporting. O caso, que em tudo se assemelha a uma novela mexicana, ou a um qualquer folhetim de pouca qualidade, tem tido todos os dias novos desenvolvimentos, e entre o tempo que escrevo estas linhas e amanhã, quando sairem nas páginas deste jornal, sabe-se lá o que mais terá acontecido.

O Sporting, quer se goste ou não, é uma instituição centenária, e que durante a sua longa história formou milhares de homens e mulheres, que se orgulharam e orgulham de vestir as suas cores. Os adeptos e simpatizantes do clube merecem muito mais do que Bruno de Carvalho lhes pode oferecer, que não é nada que se aproveite. Com o estado actual de coisas, nenhum atleta profissional no seu perfeito juízo ponderaria representar um clube que não lhe garantisse desde a primeira hora estabilidade. Os sportinguistas precisam de virar esta página negra do clube e recomeçar, enquanto é tempo. E com Bruno de Carvalho fora da equação, naturalmente.

24 Mai 2018

Imaculadas concepções         

I

Uma declaração que me deixou a pensar esta semana foi a da deputada e presidente da Associação Geral das Mulheres de Macau (AGM), que citada por um jornal da concorrência, terá dito qualquer coisa como: “Se uma mulher vai ter um bebé ela deveria saber se o consegue sustentar. Existem outros hospitais em Macau e estas mulheres [não residentes] podem sempre voltar para os seus países onde podem gozar benefícios. Além disso, uma grávida não está sozinha, ela tem um parceiro com que pode partilhar os custos”. Pode ser que tenha ficado qualquer coisa perdida na tradução, uma vez que estas declarações foram proferidas na língua chinesa, mas o essencial está lá. Isto veio a propósito do recente aumento do custo dos partos para as mulheres não-residentes, e apesar de eu não concordar com a ideia, consigo entender a estratégia e o contexto. O que aqui me causa arrepios é a forma. Em primeiro lugar, é mentira que em Macau existem “outros hospitais” – existem dois, que eu saiba, que realizam partos. E quanto à parte de mandar as pessoas para a terra delas dar à luz, prefiro não tecer comentários. Depois fico a pensar que a noção que a AGM tem dos mecanismos de reprodução humana são um tanto ou quanto bizarros. Desde quando é que um esperma sabe se o seu “boss” tem dinheiro ou não, ou um óvulo sabe se a sua proprietária é casada? Só posso depreender que uma mulher grávida que recorra à AGM leve com um seco “peça ajuda ao seu companheiro”. Nisso elas têm razão: os bebés não se fazem sozinhos. Alguma coisa sabem, pelo menos. É muito triste.

II

Falando agora de coisas agridoces. Realizou-se no último fim-de-semana em Lisboa o Festival da Eurovisão, que para mim é, como sabem, é uma grande coisa – já houve quem me tivesse chamado de “pimbalhão festivaleiro”, ao que só posso agradecer o elogio. Sinceramente não entendo como é que alguém pode ser averso a um evento que se realiza uma vez por ano, e não chateia ninguém, mas adiante. A imagem de Portugal saiu reforçada, graças a uma excelente organização e à forma sempre calorosa com que as gentes de Lisboa recebem os seus visitantes. Foi um investimento que valeu a pena, e para os fãs portugueses da Eurovisão, como eu, foi uma espécie de peregrinação a Meca. Mas não há bela sem senão, pois o vencedor foi a canção de Israel, no mesmo fim-de-semana em que o estado judaico comemorava os 70 anos da sua independência e a embaixada dos Estados Unidos se mudava para Jerusalém. Para piorar as coisas, deram-se confrontos entre o exército israelita e um grupo de manifestantes palestinianos que resultou em baixas significativas para estes últimos. Sem se saber bem como, todos estes ingredientes foram cozinhados numa indigesta omelete – e nada kosher, também. A canção de Israel ganhou porque era a favorita, e tinha tudo para ganhar. Apesar da lufada de ar fresco que foi Salvador Sobral no ano passado, e este ano termos uma senhora da Estónia a cantar ópera, o festival não é propriamente conhecido pela sua erudição. Só que teorias da conspiração não faltaram, desde que o resultado foi fabricado, até ao ponto de se sugerir que a realização do festival no próximo ano em Jerusalém é “uma provocação”. Israel já organizou duas vezes o festival, e foi sempre em Jerusalém. Haja dó. Quem fica mesmo a perder com isto é a artista, a Netta Barzilai, com quem dá para simpatizar e tudo. Coitada da Netta.

17 Mai 2018

O meu jardim             

Não vou falar da entrada de Portugal no Festival da Eurovisão este ano, “O Jardim”. Se bem que podia muito bem, e já agora vamos apoiar a nossa canção, cum camano, nem que seja abstendo-se de dizer mal. Adiante. Do que queria falar era do “jardim” onde moro, o meu edifício. Ao contrário do que acontece com a generalidade dos prédios de habitação em Portugal, que têm um número de polícia numa qualquer rua, avenida, praceta ou pátio, em Macau estes têm além do número um nome, e é pelo nome que são mais conhecidos.

O meu chama-se “Jardim Real”, e com toda a certeza que muitos dos leitores vivem também num “jardim” qualquer, apesar de às vezes não se ver no raio do prédio uma única flor. Ás vezes há uma planta no rés-do-chão, junto ao condomínio. Isto explica-se facilmente pelo facto da designação para “edifício” e “jardim” serem a mesma: “fa yuen” (花園) . Isto tem ainda outra história, mas fica para outra altura.

O meu “jardim” (portanto…) tem vinte andares, e vivo num dos mais altos. Não vou aqui dizer qual, porque parece mal, e ainda pensam que estou a convidar para uma visita domiciliária, mas todos os meus vizinhos sabem. Ser o único português a viver num destes “jardins” é o mesmo que ser um elefante cor-de-rosa. Toda a gente sabe onde moro, a composição de todo o meu agregado familiar, e chego mesmo a ter quem no elevador carregue no botão do meu andar, sem que eu lhe peça nada. A mais engraçada é a senhora do condomínio, que por vezes quando chego diz-me “a tua mulher já está em casa”.

Um dia destes o meu filho chegou perto da hora da almoço, e a senhora informou-o prontamente que “o teu pai saiu há cinco minutos”. E garanto que não pago extra de condomínio por este serviço de secretariado! Adorável é também quando ela nos vê a sair carregados de malas e pergunta “ah, vão viajar?”. Que perspicácia! Repito: é uma querida. Do que é me que estou a queixar, se tenho tratamento VIP? Deveria eu pavonear-me deste estatuto de ave rara, ou de último moicano? E será que sinto…tchan tchan tchan…”racismo”?!?! Não, nada disso, pode-se dizer que é um “choque cultural”, pronto. E é mesmo, apesar de também se poder dissertar muito sobre este assunto. Fica igualmente para outra altura.

Escusado será dizer é que não me resta senão ser discreto. Sim, tenho a certeza que se acontecer alguma coisa cá em casa, toda a gente fica a saber que foi na jaula do elefante rosa. Foi por esse motivo também que não exagerei nos festejos do título do FC Porto no último fim-de-semana, que marcou o regresso à normalidade e repôs alguma justiça no atribulado futebol português. Muitos tentam, mas só um é penta. Pois, mas então a conclusão. Ah sim, é uma maravilha viver aqui neste jardim sem flores, junto da gruta de Ali-Babá.

10 Mai 2018

A casa de papel de jornal

Estive um dia destes a seguir com atenção um pequeno debate nas redes sociais sobre o papel da imprensa em geral, e dos jornalistas em particular nos dias de hoje, na era da internet. Já sei que estou entrar por terrenos que não são os meus, e já agora aproveitava para deixar claro que não sou jornalista, nunca fui nem nunca tive a intenção de ser. Isto ainda parece fazer confusão a alguma boa gente, que assume (erradamente) que há quem queira ser uma “alternativa” ao jornalismo convencional. Essa alternativa não existe, e era exactamente esse o tópico mais quente da referida discussão: o ponto da situação actual do jornalismo.

Falava-se ali de um conceito muito lato e um tanto abstracto: a emergência dos “social media”; os blogues, o Facebook, o Twitter, etc. como uma alternativa à imprensa tradicional. Qualquer pessoa que frequenta as redes sociais sabe que nem toda a informação ali divulgada é para ser levada a sério. Das copiosas quantidades de imagem e texto que nos passa à frente dos olhos no ecrã do desktop (cada vez menos) ou do telemóvel (cada vez mais) há de tudo, desde informação credível, normalmente a mais básica, até às famosas “fake news”, passando por publicidade encapotada de notícia. Encontrar algum trigo no meio de tanto joio torna-se por vezes um caso sério.

A imprensa tradicional sofreu com o evento da internet da mesma forma que a correspondência postal sofreu com o aparecimento da e-mail. As pessoas deixaram simplesmente de comprar jornais – não deixaram, é verdade, mas a queda foi acentuada, e os jornais passaram a precisar de ir buscar outras formas de sobrevivência. Cada vez mais, e mais diversas. E começou a ser aqui que a opinião pública se começou a dividir, sobre o que é verdade e não é. Sobre quase toda a imprensa, quer a escrita, quer a audiovisual, recai um manto de suspeita; a que grupo pertence aquele determinado geral, quem são os accionistas de determinado canal de televisão, em suma, quem é quem e como pensa cada um, e se nos interessa o que eles nos têm para dizer. E é aqui que surgem os tais “social media”, a servirem malgas de desinformação quentinha, ao gosto de alguns, e repudiado por outros. Digamos que são a sopa de cação dos “mass media”. Há quem aprecie, e há quem não goste de vinagre.

A situação piorou especialmente depois da crise dos refugiados da Guerra da Síria, que serve muito bem de exemplo para ilustrar um mal que vai muito para além disso. A referida crise foi acompanhada de imagens horrendas do conflito na Síria, ao mesmo tempo que amiúde saíam vídeos horríveis da autoria do ISIS, onde se viam decapitações e outros actos de barbárie. Por um lado houve quem se preocupasse com a possibilidade das atrocidades poderem vir a ter lugar no Ocidente, que ia recebendo os refugiados vindos do palco do conflito. Por outro lado alguns “gigantes adormecidos”, ora a extrema-direita, ora o racismo clássico recalcado, viram aqui uma oportunidade para usar o medo como forma de chegar a mais público, e tentar convencer o maior número de gente possível de que ocorrem mirabolantes conspirações contra o lado bom (?) da humanidade. O motivo dos primeiros é perfeitamente atendível, e os dos segundos é atroz, mas no meio de tanta contra-informação, “fake news” e tudo mais, a retórica confunde-se. É mesmo preciso ter cuidado naquilo que se acredita, ou fazer um exame de consciência, sobre o que é realmente humano, e o que é – e foi – comprovadamente abjecto.

E onde entram os jornalistas propriamente ditos nesta história? Não entram, nem precisam de entrar. O papel deles é hoje mais importante que nunca. É ainda graças a eles, ora através das agências ou de alguma imprensa regional que ainda vamos sabendo a verdade. Alguma verdade, pelo menos. Os tais “social media” não existem, e se um dia vierem a existir, estão a ir pelo caminho errado. Eu não me acho invulnerável à falsa informação, e às vezes também deixo baixar a guarda e falha-me a atenção. Mas nunca é demais lembrar que também temos responsabilidades, e é conforme o que pensamos que é o melhor para nós e para os nossos que tomamos decisões. Convinha que de vez em quando também parássemos para pensar o que é melhor para todos.

3 Mai 2018

Aqui ao lado, mas tão longe

A ssisti no serão do último Sábado na TDM ao programa “Portugueses no estrangeiro”, que desta vez foi dedicado à comunidade portuguesa residente em Hong Kong. Veio mesmo a calhar, uma vez que nesse mesmo dia eu próprio tinha voltado do território vizinho, e fiquei com curioso em saber o que pensavam os meus compatriotas ali residentes daquela cidade tão fantástica, cosmopolita e multicultural. Não posso dizer que fiquei desiludido; a palavra adequada seria “perplexo”. Aqueles portugueses em Hong Kong são muito diferentes de nós daqui, deste lado do Rio das Pérolas. Não quero generalizar, uma vez que o programa incidiu apenas sobre o dia a dia de meia dúzia de entrevistados, mas que em comum tinham todos assim uma espécie de desprendimento ao local para onde foram residir. Pode-se mesmo dizer que estão em Hong Kong, sim, mas não com os dois pés.

Não ao sei ao certo quantos portugueses vivem em Hong Kong, mas os últimos dados a que tive acesso davam conta de “cerca de cinco mil” – mais do que em Macau, mas é preciso ter em conta que Hong Kong tem 7 milhões de habitantes. Estes portugueses são sobretudo pessoas que trabalham para empresas multinacionais, e foram colocados a trabalhar no sul da China, e é possível que existam outros que foram para ali à aventura, mas devem ser poucos, pois na apreciação que estes camaradas lusitanos fazem de Hong Kong, nota-se que é um lugar “longe demais” para o seu gosto. Dois deles foram bem claros nesse aspecto. Uma senhora diz que “gosta de Hong Kong”, mas “gostaria de ser colocada em Portugal, ou pelo menos na Europa, perto de Portugal”, terminando contudo por recordar “está bem em Hong Kong”. E melhor estaria, não fosse a enorme vontade que tem de desopilar dali para fora.

Em relação à questão da adaptação à cidade, à cultura e tudo mais, houve um testemunho em particular que me deixou siderado. Uma senhora que trabalha para uma empresa de estampagens (coisa que segundo ela tem imensa saída, pois os jovens de Hong Kong “são muito infantis”) descreve os honconguenses de uma forma que não estando de todo errada, é certamente bastante redutora. Em termos de aparência, “preferem o branco”, e as mulheres “colocam pó branco no rosto, nas sobrancelhas, e há um cosmético que serve para prender as pestanas e fazer os olhos parecem maiores”. Quanto ao vestuário “muito diversificado”, e em Hong Kong “podem andar na rua de pijama, se quiserem, que as pessoas aqui não olham uma para as outras”. E é isto. Repito, nada do que está ali é mentira, mas já li relatórios da Pide onde detectei mais calor humano. Não se pedia que fosse demonstrado entusiasmo, ou deslumbramento (e por um lado ainda bem que assim foi), mas um pouco mais de sensibilidade, quiçá? Tentar entender melhor as pessoas e o meio que as rodeia? Digo eu, e se calhar estou completamente equivocado.

Finalmente, aprendi ainda que há portugueses em Hong Kong que “recebem amigos de Macau” ao fim-de-semana, e num dos casos descritos, recebem-nos “semana sim, semana sim”. Sem dúvida, e aqui não há nada a apontar. Pudesse eu fazer o mesmo, e me desse vontade, também passava todos os fins-de-semana e feriados aqui ao lado. Em Hong Kong há aquele bichinho das grandes cidades que atrai as pessoas que, como eu, são apreciadores desse estilo de vida. Macau foi assim um bocadinho, em tempos, com as devidas distâncias, lógico. Cheguei a ficar com a sensação que podia ter continuado a ser, durante um instante, pouco depois da transferência de soberania. Entretanto fez-se uma limpeza, chegaram os casineiros do oeste, e passamos a ter uma cidade onde o entretenimento é pasteurizado, empacotado e esterilizado. Não trocaria Macau por Hong Kong para viver, nada disso, mas é bom saber que existe aqui este gigante ao lado. Para as pequenas grandes coisas.

19 Abr 2018

A Rússia com vida (e convida)

Como as pessoas que me seguem mais de perto, pelas redes sociais, já devem saber, passei o período de férias da Páscoa na Rússia, mais exactamente em Moscovo e S. Petersburgo, as duas maiores cidades do maior país do mundo em área. Além da vertente recreativa, naturalmente, aproveitei a viagem para fazer uma visita de estudo. Os nove dias – sete completos – que lá passei não fazem de mim um “especialista em Rússia”, mas deu para ter uma ideia de como vivem aquelas gentes, e a impressão com que fiquei foi bastante positiva. Pode-se mesmo dizer que excedeu as expectativas. Serviu sobretudo para derrubar alguns preconceitos que ainda persistem; de que a Rússia não é um país seguro, ou que o povo russo é hostil. Não foi à toa que muita gente franziu as sobrancelhas quando anunciei os meus planos de visitar aquele país.

O preconceito, ou as ideias feitas, existem sobretudo à custa de muita propaganda ocidental, nomeadamente a norte-americana. Através de filmes até relativamente recentes, do final do período da Guerra Fria, casos de “White Nights”, “Rambo II” ou “Rocky IV”, era transmitida a ideia de que os russos eram uns tipos frios, de mandíbula rígida, e que no caso do último filme que referi, apenas à custa de uns valentes sopapos seria possível derreter os seus gélidos corações. Não é em apenas vinte ou trinta anos que uma civilização se transforma, e o que encontrei na Rússia foi um povo afável, super educado, e bastante acessível. Em suma, andámos a ser este tempo todo enganados pelos enlatados do Tio Sam. Contudo, é mais que natural que este não seja um país “caliente”, onde os seus habitantes andam seminus e dançam a rumba. Afinal vive-se ali durante a maior parte do ano debaixo de temperaturas negativas, ou muito próximas dos zero graus.

Há um outro aspecto a ter em conta, que é a própria História do país, pintado na sua maior parte em tons de negro. Está ali um povo com uma cultura riquíssima, e que durante séculos esteve oprimido, ora pelo miserabilismo feudal dos czares, ora durante quase todo o século passado pelas excentricidades do socialismo, que terminou com a falência dessa ideologia. A nova Rússia, o país que Vladimir Putin fez renascer das cinzas, e que inexplicavelmente muitos temem ou olham com desconfiança, é um exemplo de modernidade, de classe e de organização, e que convida a visitar. Se é uma democracia? Existe um sistema, sim, que funciona e bem, e depois chamem-lhe o que quiserem.

Quem estiver interessado em ir à Rússia (e sei que as imagens e os relatos que fui partilhando durante a minha viagem aguçaram alguns apetites), posso garantir que vai ter uma experiência inesquecível. Para quem reside aqui em Macau e tem por hábito viajar nos períodos de férias, mesmo as mais curtas, pode ter a certeza que é uma viagem que fica em conta. Sai menos caro que duas idas à Tailândia. E fica a conhecer um novo velho país, com uma nova vida, e que convida a visitar. E do que está à espera?

12 Abr 2018

Bacalhau

Decidi no outro dia dispensar uma hora e meia do meu tempo para assistir ao filme “A Gaiola Dourada”, um retrato mais ou menos actual da emigração portuguesa em França. O filme não é recente, tem quase cinco anos, mas na altura passou-me ao lado – estando aqui no extremo oriente, é perfeitamente normal. Contudo, e desde que o filme estreou, não tenho parado de ler os maiores encómios a seu respeito.

Pessoas que dizem ter visto “quatro ou cinco vezes”, outras que, e passo a citar, “se mijaram a rir”, enfim, pensei que estava ali o “Citizen Kane” do cinema português, e eu arriscava-me a morrer estúpido se não visse “A Gaiola Dourada”. E assim, através do milagre do “streaming”, fui inteirar-me do que se tratava.
O filme é sofrível, e isto é o melhor que posso dizer dele. Não é um filme português; é uma produção francesa – 99% dos diálogos são na língua de Dumas – que conta com um elenco de actores portugueses e franceses.

Está muito longe de ser uma comédia; não me ri, nem sequer me deu vontade de sorrir, e muito menos me comoveu. Em causa não estão as (excelentes) interpretações dos seus actores principais, Joaquim D’Almeida e Rita Blanco (outra coisa não seria de esperar), ou sequer a realização do jovem Ruben Alves, ele próprio um luso-descendente. O problema é do próprio argumento, previsível e redutor. Todos temos mais ou menos uma ideia de que como é a vida da comunidade portuguesa em França, e o filme não nos traz nada de novo, ou de surpreendente.

O José trabalha na construção civil, a Maria é empregada de limpeza, sonham voltar a Portugal de vez depois de mais de 30 anos emigrados em França, os filhos estão relutantes, uma vez que já ali nasceram, sentem-se mais franceses que portugueses, etc. etc. etc.. Há uma cena perto do fim do filme, onde a patroa francesa de Maria chega a casa acompanhada de um painel de juízes de um concurso de jardinagem em que participa, e o casal português está em pleno jardim, no meio das rosas, a fazer uma sardinhada e a escutar o tema “Bacalhau à Portuguesa” de Quim Barreiros. Aliás, o “bacalhau” é um tema recorrente em todo o filme. Isto não só não tem graça, como chega a ser ofensivo; eu sou português, gosto do fiel amigo, mas não é por isso que sou um “comedor de bacalhau”.

Talvez eu não tenha a sensibilidade necessária para apreciar “A Gaiola Dourada”, para ver o filme repetidas vezes e rir-me até ficar à beira da apoplexia. Vivo em Macau há 25 anos, mas nunca me considerei um emigrante. Tal como muitos dos leitores que chegaram ainda durante o tempo da administração portuguesa, adquiri a residência poucos meses depois de chegar, não tive quaisquer problemas de adaptação, nem sequer ao idioma, sendo o português ainda hoje uma das línguas oficiais da RAEM.

Não deixo no entanto de ter simpatia pela comunidade portuguesa em países europeus como a França, a Bélgica ou a Suíça, e que ultimamente os portugueses nativos resolveram apelidar (depreciativamente) de “avecs”. Se eles têm uma vivenda na terrinha, são proprietários de terrenos no Douro vinhateiro, ou conduzem BMWs e Mercedes, certamente que foi à custa de muito esforço e sacrifício, fruto do seu trabalho, e mais nada.

Fico a aprender muito mais a respeito da actual diáspora portuguesa em programas como “Portugueses no mundo”, transmitido assiduamente pela RTPi, onde damos conta de compatriotas nossos que são empresários ou que exercem profissões liberais um pouco pelos quatro cantos do globo. Longe vão os tempos em que a emigração era apenas uma forma de fugir à pobreza.

Actualmente, temos uma massa de gente inteligente, qualificada e empreendedora que dignifica o nome de Portugal por esse mundo fora. Uma realidade que vai muito além daquilo que nos mostra “A Gaiola Dourada”, que repito, não é um mau filme, mas que deixa muito a desejar neste aspecto em particular. Não me faz sentir de todo representado.

29 Mar 2018

Da Rússia, com ardor

Tivemos eleições na Rússia no passado fim-de-semana, e como seria de esperar, o actual presidente e oligarca Vladimir Putin obteve uma vitória esmagadora. O sufrágio não foi o que pode propriamente chamar de um hino à democracia, tendo ficado marcado por inúmeras irregularidades, desde a captura de imagens dos boletins de voto, até à oferta de bilhetes para concertos aos eleitores, entre outros episódios que dariam água pela barba aqui ao nosso CCAC, em Macau.

Diria mais: que os faria corar de vergonha. É indiscutível que o povo russo está do lado de Putin, o seu novo homem forte depois de José Estaline, o único que cumpriu um mandato (?) mais longo que o actual presidente. Se em termos de popularidade não há nada a apontar, o mesmo não se pode dizer quanto à sua legitimidade; os rivais do presidente russo dignos desse nome foram sistematicamente eliminados, e ora estão detidos, ora no exílio, ora mortos.

A consolidação do poder da parte de Vladimir Putin na Rússia, e igualmente de Xi Jinping na China colocam-nos perante um novo paradigma, ao que não é alheia a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, há um ano e meio. As maiores potências do planeta voltam-se para dentro, procurando fazer valer os seus interesses num contexto internacional problemático, agravado pela guerra na Síria e pela situação delicada na península coreana, tudo ameaças consideráveis à paz e à estabilidade mundial. Tudo isto certamente que preocupa os amantes da liberdade e da democracia, e levanta sérias reservas quanto ao futuro, cada vez mais incerto.

A democracia directa, ou o conceito de “uma pessoa, um voto”, não agrada a todos, e mesmo nesta última semana os seus detractores tiveram acontecimentos a que podem facilmente apontar o dedo. Em França o ex-presidente Nicholas Sarkozy foi detido no âmbito de uma investigação sobre o financiamento da sua campanha em 2017 – quem diria. Mesmo em Portugal, o maior partido da oposição foi notícia pelos piores motivos, quando o seu recém apontado secretário-geral foi obrigado a deixar o cargo depois de (embaraçosas) revelações a respeito do seu currículo, que continha uma série de inverdades (para ser simpático), bem como dúvidas quanto à sua morada fiscal (outra vez, hoje sinto-me especialmente generoso). Não surpreende portanto que se venha assistindo a uma onda de populismo, e ao recrudescimento da extrema-direita na Europa. É realmente pena.

Eu acredito na democracia. Ainda acredito. Não vou baixar a cabeça, e prefiro pensar que isto não passa de uma fase. A própria espécie humana, disucutivelmente com mais defeitos que virtude, nunca conviveu muito bem com a diversidade de opinião, não é de hoje, e depois de duas lamentáveis guerras no século passado, convenceu-se de que se calhar seria melhor procurar um equilíbrio, um consenso entre todos os seus intervenientes, colocando de lado as diferenças. Já se percebeu e vai-se percebendo que cada vez mais que esta é uma tarefa complicada. Precisamos da classe política, não há que negá-lo, e precisamos de puxar por ela também. É urgente uma geração de homens e mulheres que sirvam antes de se servirem, a bem fa humanidade. E quer na Rússia, quer na China, esta pretensão vai ficando adiada. Por enquanto, apenas, esperamos todos.

22 Mar 2018

À Deriva (Na Sopa De Letras)

Confesso que esta semana, e pela primeira vez nos quase seis anos que levo desta humilde contribuição para o Hoje Macau, tenho dificuldade em escrever um artigo. Isto porque não quero dar a entender que tomo uma posição em detrimento de outra, que me estou a sentar no muro que separa os dois lados da contenda, ou que estou a tentar branquear alguma coisa. Nada disso, e longe de mim querer dar sermões de espécie alguma a alguém, ou ter o desplante de tentar explicar o que seja. Cada um pensa pela sua própria cabeça, tem interpretações diversas dos factos, e não quer dizer que nenhuma delas esteja completamente certa ou errada. É tudo uma questão de perspectiva, e é apenas isso que vou tentar aqui fazer. Analisar um caso actual de uma perspectiva. Não necessariamente a minha, mas, e repito, UMA perspectiva apenas.

O que se passou, afinal? O festival literário Rota das Letras, que este ano vai na sua 7ª edição, sofreu um duro revés depois de ter sido informado que não era garantida a entrada no território a três escritores convidados. Existe uma discussão paralela sobre a fonte dessa informação, ou de como foi obtida, mas não é disso que quero aqui falar. Os motivos da hipotética recusa prendem-se com “questões de segurança interna”, mais uma vez, ou trocando isto por miúdos, os escritores são considerados “persona non grata” pelo Governo Central, e sua vinda não seria “oportuna”, conforme a versão oficial. Jogando, e bem, pelo seguro, a organização do festival decidiu retirar o convite aos três escritores.

Claro que isto teve um grande impacto na comunidade literária e em toda a gente que se interessa pela cultura, e mais do que isso, pela apregoada liberdade garantida pelo segundo sistema. Escutei e li nestes últimos dias algumas opiniões sobre o assunto, e que vão desde a (atendível) indignação, até a um “erro de cálculo” da parte da organização do festival. Outra vez, não adiro a qualquer uma das posições, e já agora, da imprensa em língua chinesa nem uma palavra sobre o assunto. Tudo normal. A juntar a isto, tivemos na última semana a passagem da lei que torna o número de mandatos do presidente chinês ilimitado, e aqui ao lado em Hong Kong o grupo pró-democrata foi derrotado nas eleições intercalares. Ou seja, juntou-se o que é preciso para que caia já aqui o Carmo e a Trindade. Ou as Ruínas de S. Paulo e as Portas do Cerco, vá lá. Voltou-se a ouvir um certo discurso que já não se ouvia desde os anos anteriores a 1999. E tal como nessa altura, quando resolvi ficar em Macau, aliás, não estou optimista nem pessimista. Estou na espectativa. Não acredito no Diabo, e quanto ao resto, só posso dizer que não sou uma pessoa de fé. Sou agnóstico, lá está.

Hoje posso com alguma sobranceria dizer que passei a maior parte da minha vida em Macau, como alguns de vocês, compatriotas que vieram para estas paragens já na idade adulta, e foram ficando até os cabelos embranquecerem. Algo que me ajudou a fazer este sacrifício de estar tão longe da pátria-mãe foi entender, desde o primeiro minuto, que esta é uma realidade diferente da minha. Da nossa, de alguns que estarão a ler estas linhas, certamente. Estamos todos conscientes de que na China o registo em termos de liberdade de expressão e de outras liberdades individuais não é o melhor, mas também sabemos que a razão disto é puramente política. É a política daqui, de cá. Podemos não gostar dela, mas é a que há. É como as leis: não concordo com todas elas, mas não me passa pela cabeça não as cumprir, e o melhor que posso fazer é ficar o mais longe possível delas.

O próprio regime tem consciência de que isto é um problema. As últimas décadas fizeram emergir na China uma classe média educada, com poder de compra, e que certamente não olha com bons olhos para a censura dos conteúdos, assim como também não entende porque é que no seu país existem excepções a esta regra. Este é um mar atribulado onde o partido único não tem feito mais do que manter o barco à tona. É o mar revolto da política, e se algo que nunca mudou em cinco mil anos desta civilização é o facto de continuarem a existir duas facções; uma que detém o poder e o quer manter, e a outra que o quer tomar. E pela força, se necessário. Outra vez, sem estar a querer convencer ninguém do que deve pensar ou que posição tomar, só faço votos para que não aconteça um naufrágio. Era pena, até para nós, que aprendemos a amar esta terra e estas gentes.

15 Mar 2018

Humanidade VS. Realidade

Esta semana decidi abordar um tema actual e muito sensível, respeitante à situação dos trabalhadores não-residentes (TNR) em Macau, mas antes de começar, gostaria de deixar um ou outro aspecto bem claro, para que não haja lugar a qualquer mal entendido. Em primeiro lugar, considero que a discriminação que foi feita nas tarifas dos transportes públicos entre residentes e TNR é errada e injusta; segundo, considero a teoria, assaz difundida na opinião pública, de que que TNR são responsáveis pela inflação ou pelo aumento do preço do imobiliário, um discurso xenófobo, populista e demagogo. Tudo isso e mais o que quiserem. Ponto assente.

Em relação à mais recente polémica do aumento do preço dos partos em Macau para os não-residentes, em quase dez vezes mais, tem-se falado muito do coração, e não se tem atentido ao que é a realidade de Macau. Geográfica, económica, social, todas. É uma realidade realmente muito particular, única, se quiserem. Obviamente que é desumano negar ou dificultar o acesso de alguém à maternidade, mas nem sequer é disso que eu estou aqui a falar. Na prática, dotar os residentes e os não-residentes do mesmo acesso a cuidados de saúde, pré-natal, natal, qualquer um, leva a uma inevitável ruptura do prório sistema de saúde pública. É preciso não esquecer que existe ainda apenas 1 (um) hospital público em Macau, para mais de meio milhão de pessoas.

Depois tenho notado ainda uma notória confusão entre o conceito de humanidade e legalidade; o Governo pode demitir-se de prestar assistência de qualquer tipo aos TNR, mas se isso lhe “fica mal”, não tem nada de ilegal. O artigo 38 da Lei Básica é bem claro: “A liberdade de contrair casamento e o direito de constituir família e de livre procriação dos RESIDENTES DE MACAU são legalmente protegidos.”. Outro argumento que colhe a favor desta decisão é a opinião da maioria dos residentes de Macau. E não, não sou eu, mais o caro leitor e o resto da comunidade portuguesa radicada em Macau, “a maioria dos residentes”. A componente económica pesa, e bastante, para a grande maioria da população. E isto leva-nos ao que é, no fundo, o estatuto de TNR, ou vulgo “blue card”.

Tem-se tratado do tema dos TNR com um certo lirismo, mesmo que eu próprio partilhe às vezes desse sentimento. Mas do que se trata este título, afinal? São trabalhadores migrantes que estão na RAEM com um visto de trabalho, renovável ou não, e são da responsabilidade directa de privados, que os contratam através de um sistema de cotas. Na maioria dos casos, são pessoas que vêm para o território angariar divisas para mandar para os seus países de origem. Não são pessoas que vêm em busca do “mínimo de conforto”, ou morar numa habitação com espaço para escritório e uma sala ampla para receber os amigos ao fim-de-semana. Não vêm com o propósito de se integrar na sociedade local o mais rapidamente possível, nem esperam que toda a gente goste deles. É uma realidade que circula fora da nossa esfera de europeus sofisticados e humanistas. Nesta região da Ásia, este tipo de migração cifra-se na ordem dos milhões de pessoas. Nem todos os casos têm um final feliz.

Mas nem tudo está perdido, e parece que o secretário da tutela da saúde se vai reunir com associações de trabalhadores migrantes locais, de modo a negociar um acordo. Acho bem, que se premeie e dê benefícios a quem contribui para o desenvolvimento de Macau, seja ele de que origem for. Mas isso levaria-me a falar do que seria o ideal, e que há muito venho defendendo, que é um sistema em que os TNR pudessem obter residência depois de período de permanência legal e ininterrupta no território. Algo parecido com o que já acontece com os residentes não permanentes. E mais uma vez esbarramos com aquilo que gostávamos que fosse, e a realidade, que às vezes é dura.

8 Mar 2018

O factor Pi(çarra)

Está aí o Festival RTP da Canção, que teve as suas duas meias-finais nas últimas duas madrugadas de Domingo para segunda, a horas indecentes em Macau. O festival é daquelas coisas que ou se gosta, ou se detesta, e entre estes últimos há quem mesmo assim veja, para depois dizer horrores, e quem não veja mas diga mal na mesma. Importa mesmo é dizer mal, e chamar àquilo “foleiro”, e “pimbalheiro” – digam lá se é ou não é?

Este ano o certame tem um novo aliciante, pois o Festival da Eurovisão realiza-se este ano em Lisboa, pois como estão recordados, no ano passado Salvador Sobral foi a Kiev matar esse borrego do rebanho do nosso miserabilismo, e atreveu-se a ganhar a Eurovisão. Já no ano anterior a selecção de futebol foi a Paris conquistar o seu primeiro grande título internacional, e numa questão de meses os portugueses ficaram sem dois brinquedos para jogar às lamentações.

Pode ser que organizar o Festival da Eurovisão seja considerado para alguns uma coisa de somenos, ou até um despesismo desnecessário, uma coisa que sai “dos nossos impostos”, oh oh oh. Só que em termos de promoção internacional para o país, o festival tem que se lhe diga, pois é visto por 200 milhões de telespectadores em todo o mundo. Para que vejam que estou a falar a sério, o Festival da Eurovisão de 2012 foi realizado em Baku, capital do Azerbaijão, e graças a ele fiquei com a ideia de que aquele país era um paraíso na Terra. Adiante.

Uma vez que Portugal organiza pela primeira vez este evento sexagenário, o factor casa implica que a canção representante nacional passe directamente para a final de 12 de Maio, e se quisermos outro milagre de Fátima como em 2017, convém encontrar um digno sucessor para “Amar pelos dois”, o êxito que Salvador imortalizou, e deixou o cançonetisto nacional no topo do mundo. Do escrutínio propriamente dito, vi por alto algumas canções e alguns intérpretes, e comentários à parte, penso que é um ano com mais qualidade que o habitual. Uma colheita mais ou menos, digamos. Dá para gostar de algumas entradas, e nota-se que pela primeira vez em muitos anos há uma mão cheia de artistas interessados em ganhar o festival.

Polémicas, claro que não podiam faltar. Depois de um equívoco na votação da primeira meia-final, estava servido o aperitivo para o prato principal: a “barraca” da canção de Diogo Piçarra. O cantor que esteve em Macau no último Festival da Lusofonia, e provavelmente o artista de maior “pedigree” em competição, trouxe um tema simples, que obteve o maior parte dos votos tanto do júri, como do público. Só que a “Canção do Fim” de Piçarra era mesmo tão simples, que já existia. Primeiro apareceu uma versão da IURD, pasme-se, datada de 1979, e depois outras anteriores a essa, em línguas estrangeiras. Surgiram imediatamente acusações de plágio, mas eu não ia tão longe; o Diogo Piçarra é um compositor com provas dadas, e as comparações com Tony Carreira são no mínimo injustas. O que se passou foi que desta vez o Piçarra não tentou. Não estava para ali virado, pronto. Picasso, que também começa com “pi”, não ficou famoso a pintar quadros que já existiam.

Depois de dois dias de vendaval na imprensa e nas redes sociais, Piçarra fez o melhor que tinha a fazer, e retirou-se da corrida à Eurovisão, enumerando as suas razões numa nota publicada no Facebook. Palmas para ele, por não ser teimoso. Ficasse a canção no festival, e provavelmente ganhava, podendo mais tarde ser desqualificada na final, o que seria uma vergonha. E porque é que ia ganhar? Porque nós iamos votar nela, ora essa. Porque nos disseram para não votar, e isso era o que faltava! Somos mesmo assim, nada a fazer. Agora pelo amor do Buda, vejam lá se fazem alguma coisa de jeito em Maio, para que o mundo fique pelo menos com a impressão de que somos um país de gente simpática, bem disposta e de bem com a vida. Assim como o Azerbaijão, vá lá.

1 Mar 2018

Cozidos e mal amados

O chefe de cozinha português José Avillez foi recentemente agraciado com o “Grand Prix de L’Art de La Cuisine”, uma espécie de Oscar da gastronomia mundial, uma distinção que, à distância que estou e atendendo que estamos aqui a falar de cozinha, me deixa contente, por ele. Está de parabéns, portanto. Assim que o chefe ganhou o prémio, começou a circular pelas redes sociais uma imagem da sua interpretação do Cozido à Portuguesa, que é servido no seu restaurante “Belcanto”, em Lisboa, distinguido também ele com duas estrelas Michelin.

O Cozido em questão é composto por duas míseras cenourinhas, uma folha de couve, uma lâmina de nabo e cebola, e debaixo destas duas um pedaço de carne que mal dá para encher a cova de um dente. Tudo regado com o caldo do Cozido e servido com uma folha de hortelã. Caíu logo o Carmo e Trindade (que nem por acaso são ali perto), e o tribunal popular “online” determinou que aquilo “é um insulto”; questionou-se a competência do chefe Avillez, chamou-se de “parvos” aos gajos da Michelin, e enfim, choveram comentários do tipo “na tasca tal come-se melhor e mais barato”, ou “a minha Gertrudes faz um Cozido que se apresente”.

Muito bem, e tenho a certeza que o meu filho, que nem sabe acender os bicos do fogão cá de casa, confecionaria também ele um prato muito mais substancial, e nem é isso que está em causa. Contudo, e depois de tentar saber a causa das coisas, descobre-se que o tal Cozido do chefe Avillez faz parte de um menu de degustação. Repito, degustação. Quem for procurar o significado da palavra “degustar” no dicionário, vai encontrar a seguinte definição: “Provar ou tomar o gosto de algo; avaliar pelo paladar o sabor de”. Não seria degustação no caso do Cozido vir servido com chouriços e alheiras inteiras, chispes de porco, um arraial de batatona, couves do tamanho de uma bola de futebol, e tudo regado com vinhaça, como o meu povo gosta.

Neste caso o tal menu de degustação “Lisboa” (e recomendo sinceramente uma pesquisa na net) inclui um total de 12 pratos, e custa 300 euros. Não está ao alcance de todas as bolsas, é verdade, mas o chefe Avillez não está ali a enganar ninguém. Ah sim, e os 300 “paus” incluem “couverts”, água e café. É no fundo uma experiência gastronómica, e não um almoço de enfarta-brutos, e a julgar pelas (excelentes) avaliações nos Yelpers e Zomatos desta vida, tem muita qualidade. O povo pode escolher ir entupir as coronárias com o cozido da tal tasca da esquina, ou em alternativa usufruir da arte do melhor cozinheiro do mundo. E quando queremos “o melhor do mundo”, é óbvio que temos que pagar por isso.

É de estranhar a alergia que os portugueses têm ao sucesso dos seus compatriotas. Não há bolas de ouro que Cristiano Ronaldo possa ganhar que demova os seus “haters”, e até Salvador Sobral, que no ano passado teve o desplante de ganhar o Festival da Eurovisão, foi quase crucificado por ter proferido a palavra “peido” em determinada circunstância. Eu não quero acreditar que os portugueses são um povo invejoso, ou até mal amado, como sugere o título desta peça. Eu diria antes que é “desconfiado”. Sim, é isso, “o outro pensa que é melhor que eu”, ou “tem a mania que é esperto, mas a mim não me engana ele”. Pode ser que um dia passe, quando começar a ser normal termos os melhores do mundo em várias outras funções. Nunca perco a esperança que isto aconteça um dia. Sou mesmo um optimista inveterado.

PS: E parabéns ao chefe Avillez, de quem não tenho procuração passada para defender. É uma questão de justiça, apenas.

22 Fev 2018

A falha politológica

Muito se tem falado por aí da “falência da democracia” ou do seu fracasso. Engraçado e ao mesmo tempo trágico que se fale, se analisem as causas, façam-se as analogias históricas, retirem-se as devidas conclusões e, no fim, se encare o “fim da democracia” como uma inevitável fatalidade.

É pena que assim seja, uma vez que, e como disse o pensador, a democracia é o pior dos sistemas com excepção de todos os outros.

O que se passa é que ainda se confunde democracia com classe política. E Estado com Governo. Quando falha o Estado não falha este ou aquele Governo: falhamos todos nós, que somos o Estado. E falando de falhas, mas agora das geológicas, aquilo a que temos assistido nos últimos três ou quatro anos é uma intensa actividade sísmica na zona que é conhecida pela falha na placa tectónica da política – a falha politológica.

As frentes populistas a que temos assistido a sair agora da toca, anunciando o longo inverno da classe política convencional e a morte da democracia por holocausto nuclear, são agora as mesmas que eram antes, mas com outros temas. O avanço da tecnologia não foi acompanhado pela democracia, que assim não se dotou de um anti-vírus do populismo, e tem sido um derramar de infecções, umas atrás das outras, manifestadas através de meio cibernético, como não podia deixar de ser, e neste caso assumindo a forma de Facebooks e Twitters, os “transformers” da anti-democracia.

Aí encontramos todos os vírus que contaminam a democracia. De um lado os conspiracionistas, do outro os saudosistas. Os primeiros engendraram uma teoria da conspiração que passa por acreditar que uma tal “Nova Ordem Mundial” está a levar a cabo um plano, com a cumplicidade da classe política e económica dominante e do Vaticano (pasme-se), que passa pela “substituição populacional” ou ainda “genocídio branco”. Isto seria complicado de explicar aqui em poucas palavras, mas “in a nutshell” quer dizer que se eu optar por casar e ter filhos com uma pessoa de outra designação étnica que não a minha, estou a cometer “genocídio”. A sério, é isto mesmo e mais nada, e não se deixem convencer de outra coisa.

Os saudosistas, e destes tenho mesmo muita pena, são pessoas que descobriram finalmente que a democracia não foi feita para eles. Queriam uma placa dourada com o seu nome, descerrada com honras de pano de veludo vermelho, mas não deu. Daí que evoquem Salazar, o seu bom pastor, e recordem com saudades os tempos em que eram todos ovelhinhas no seu Presépio pobrezinho, coitadinho, que “nunca roubou”, sendo isto o melhor que se pode dizer dele. Os saudosistas que nasceram depois do 25 de Abril – data que desprezam sem saber nada dela – são simplesmente ignorantes. Não sabem do que falam.

No fundo e no fim de contas, o que está mal não é a democracia. É a falha politológica, a provocar todos estes abanões que nos fazem temer pela solidez das fundações da democracia. E para isto não há remédio, não sei, nem vou dizer a ninguém o quê ou como deve pensar. Passa tudo por um exame de consciência, mas se querem uma recomendação que não fica mal aceitar, aqui vai: leiam, analisem, duvidem, coloquem-se no lugar das pessoas, em suma, pensem.

8 Fev 2018

Areia Preta do Mar Dourado

Os meus afazeres do último Domingo de manhã levaram-me até à zona norte da cidade, mais precisamente à Areia Preta, onde já não ia há anos, literalmente. Recordo-me bem daquela zona de Macau do tempo em que cheguei, e já lá vai um quarto de século, e como tudo mudou, pelo Buda. Antes a Areia Preta resumia-se a algumas fábricas e prédios de habitação, que não sendo propriamente económica, era muito em conta. Na altura, por cerca de 150 mil patacas, podia-se adquirir uma fracção com dois quartos naquela zona, quantia com a qual hoje em dia não é possível sequer comprar um estacionamento de motociclo. Sim, há riscos pintados à volta de meia dúzia de metros quadrados de chão que custam milhões.

Hoje quase que dá para me perder na Areia Preta; antigamente existiam apenas os edifícios Hoi Pan, e Kam Hoi San, e pouco mais, e sempre achei piada que se chamasse “jardim” a um prédio que no máximo tinha uma planta dentro de um vaso lá em baixo, no condomínio. Os próprios nomes tinham o seu quê de irónico. “Kam Hoi San”, por exemplo, quer dizer “montanha do mar dourado”, nome dado a um bloco de habitação que deixava muito a dever à imaginação. Actualmente é ainda pior; temos autênticas caixas de fósforos elevadas a 50 ou mais andares, baptizados de “La Baie du Noble” (ulálá), “Crowne Palace”, ou ainda o infame “Pearl Horizon”, que nunca chegou a ser. Os proprietários do imóvel que ficou por construir julgaram estar a comprar uma “pérola”, mas ficaram a contemplar o “horizonte”. Daí o nome assentar-lhe que nem uma luva.

Mas ao deparar com esta selva de cimento, detenho-me a pensar: de onde surgiram estes autênticos monstros, como que da noite para dia, brotando que nem cogumelos? E a rapidez com que apareceram, deu para cumprir com todos os trâmites essenciais para que se garanta a sua qualidade? Quem investe naqueles favos, que chegam a custar a “módica” quantia de dez milhões de patacas a unidade? O circo está montado, é verdade, mas e o público? Parece que sim, que isto é um negócio tremendo, que obedece à velha máxima “if you build it, they will come”, e quem tem dado rios de dinheiro a ganhar a alguma boa gente. É a concretização da tal “montanha do mar dourado”, só que de concreto e betão armado. Às vezes em parvo.

Mas se por um lado a Areia Preta cresceu na horizontal, o facto de ainda ser uma das zonas menos caras da Península de Macau levou a que muito do comércio tradicional se mudasse para ali de armas e bagagens. Podemos encontrar ali uma diversidade de restaurantes e afins a preços razoáveis, mas a um esticão do centro da cidade, onde proliferam os casinos, os escritórios, os cosméticos e os cristais austríacos. Vale a pena visitar a zona norte da cidade, e redescobrir a Macau das pessoas, da gente. E é mesmo tanta, tanta gente, e tanta coisa, que se encontra ali, na Areia Preta.

 

1 Fev 2018

Bolas, Macau!

Arrancou no último fim-de-semana a edição 2018 do campeonato de futebol de onze de Macau, que tem sempre o seu quê de pitoresco, de diferente. A competição é disputada entre 10 equipas e a duas voltas, sendo que todos os jogos são realizados no mesmo estádio, na ilha Taipa, não existindo portanto um “factor casa”.

O jogo grande da ronda inaugural colocou frente a frente o campeão em título, o Benfica (que tal como o seu congénere lisboense procura este ano o pentacampeonato, e o Ka I, outro habitual candidato, com a vitória a sorrir aos encarnados por duas bolas a uma. Noutra partida com motivos de interesse, a formação do corpo da Polícia de Segurança Pública venceu a equipa dos Serviços de Alfândega por quatro golos sem resposta – um “derby” local, portanto. O resultado mais desnivelado deu-se o Chao Pak Kei e o Lai Chi, com os primeiros a golearem por um números que já não se usam (a não ser em Macau): 12-0. Isso mesmo, doze-zero, o que diz bem da diferença entre os dois conjuntos no que toca ao investimento feito para disputar o campeonato de Macau. E aqui no território tudo tem a ver com o investimento, em detrimento da formação.

Acompanho o campeonato local de forma paralela ao futebol “a sério”. A minha chegada a Macau coincidiu com a (curta) era do Negro Rubro, equipa que se sagrou campeã do território na época 1993/94, e que se reforçou com vários jogadores que alinhavam em divisões secundárias do futebol português. Esta é uma prática que hoje ainda subsiste, mas agora de uma forma mais profissional. Depois de uma “travessia do deserto” que foi o período de transição, nos últimos anos o “boom” da indústria do jogo, viu-se um exponencial crescimento no interesse pela liga de Macau. Todos os anos vão chegando atletas do país do futebol, o Brasil, e não só; a RAEM atrai outros estrangeiros (portugueses incluídos) que se empregam nos sectores liberais, que em alguns casos jogaram futebol federado nos seus países quando eram jovens, e que mesmo em regime de “part-time” vão dando um pezinho na liga. Isto contribui para que se eleve a qualidade do campeonato de Macau, “vero ma non troppo”.

O que separa Macau, um território com mais de meio milhão de habitantes, com a Islândia, que tem 332 mil e qualificou-se recentemente para o último mundial de futebol, é mais do que a localização geográfica. É a falta de um plano, de uma ideia, de uma orientação para o desporto local. O futebol ainda é tido como uma coisa pouco séria aqui em Macau, e a falta de escalões de formação – muito por culpa da associação de futebol local – leva a que os jovens talentos optem por investir na sua educação, em vez do futebol. Sim, há exemplos de relativo sucesso no desporto-rei vindos de Macau, mas contam-se pelos dedos de uma mão. Neste aspecto estamos muito degraus abaixo do que seria desejável. O futebol é, afinal, um negócio como qualquer outro.

Mas pronto, longe de mim querer menorizar o campeonato de Macau, que sofre de uma enorme falta de interesse da população. Bem hajam os carolas que ainda vão compondo, mesmo que de forma residual, as bancadas do estádio da MUST, onde não me incluo, por questões de tempo e de logística. E fica aqui o desejo para que seja tão difícil ao Benfica local chegar ao penta, como tem sido para a equipa-mãe em Portugal.

25 Jan 2018

Hollywood Ending

Detive-me no outro dia durante uma boa meia-hora a ler as acusações que recaem sobre o produtor de cinema Harvey Weinstein; um caso que tem feito correr muita tinta, e daí a curiosidade. O mais impressionante foi o testemunho das muitas actrizes, na altura quase todas jovens debutantes da indústria da sétima arte, e dos encontros “picantes” que tiveram com o empresário.

É evidente que estamos aqui perante um indivíduo que se aproveitou da sua situação de poder para satisfazer os seus instintos de predador sexual. Weinstein é uma pessoa desequilibrada e potencialmente perigosa, que calhou estar numa posição que lhe permitia levar adiante os seus intentos. Acontece na América, acontece em Portugal, acontece aqui e acontece em toda a parte. Em Hollywood tem mais “glamour”, tem mais “chispa”, e infelizmente tem servido de medida para rebaixar o debate no que concerne aos crimes de assédio e de abuso sexual. Ousou-se mesmo expandir o âmbito desse crime abominável que é a violação. Vamos por partes.

Depois do caso Weinstein, desatou-se numa autêntica “caça às bruxas”, com novas revelações de abusos, alguns recentes, muitos nem por isso, e que custou o emprego, a carreira e o bom nome a muita gente nos meios de Hollywood. Julgo que não se via nada assim desde os negros tempos do McCarthyismo e o seu “comité de actividades anti-americanas”, nos anos 50 do século transacto. Na semana passada chegou de França uma espécie de manifesto, assinado pela actriz Catherine Deneuve e outras 99 signatárias, pedindo um pouco de bom senso, e que se distinga afinal o que é um crime, daquilo que é apenas…um “galanteio” – digamos assim. A iniciativa de Deneuve foi criticada, e entendo porquê; também não concordo que um apalpão seja “uma coisa de nada”, mas no essencial, concordo com o que ela diz. É preciso ter em conta que Deneuve é uma diva, do tempo em que um desaforo ou um atrevimento se resolviam com um tabefe. Le temps ont changé, mon cher.

É que se realmente estamos aqui a falar de crimes, convém recorrer à jurisprudência; se alguém é acusado de um crime tem todo o direito a defender-se, e quem o acusa precisa de PROVAR o que diz. Sei, é um assunto muito delicado, onde existe uma tendência inata de dar crédito à palavra da vítima, mas também não existe vítima se não existe crime. Os crimes, todos eles, têm que ser provados, meus amigos. De outra forma é a anarquia, regressa a Santa Inquisição, volta a Stasi, a PIDE e os guardas-vermelhos, e é o fim da civilização como a conhecemos.

Na base de toda esta discussão está o consentimento – apesar de nem sempre se falar nele. Aqui a regra de ouro é a seguinte: não é não, e apenas não. Custa muito menos dizer “não” do que “gostava muito mas hoje não posso”, “queria mas tenho as batatas ao lume”, ou “olhe que o sr. engenheiro é casado”. “Não” é uma palavra com uma sílaba apenas, e qualquer avanço que seja feito a partir daí, é imediatamente tido como um abuso – um crime. Muito simples.

O que faz falta a muita gente é espreitar a página do Templo Satânico de Salem, Massachusetts (estou a falar a sério, vão espreitar na internet, se quiserem), onde o princípio fundamental é “o nosso corpo é a nossa propriedade privada, pessoal e inviolável”. Para quê ser simpático com potenciais predadores sexuais, quando basta dizer apenas “não”?

Há uns tempos escrevi no meu blogue, meio na brincadeira, que qualquer dia o consentimento tinha que ser dado na presença de um notário, para quem restassem dúvidas no caso de reconsiderações posteriores de uma das partes. A tecnologia antecipou-se e agora existe uma aplicação de telemóvel onde as duas partes “clicam” numa opção que lhes permite verificar no futuro que ambas consentiram ao acto que praticaram juntas. Ao ponto que isto chegou!

Este caso hollywoodesco não veio senão perpetuar, e mal, o velho conceito de que o sexo é algo que os homens procuram, e de que as mulheres precisam de se defender, como se fosse um castelo. A tal Revolução Sexual (sem aspas, porque aconteceu mesmo) foi feita para que se permitisse que duas pessoas que se acabaram de conhecer, ou que se conhecem mal, possam ter intimidade uma com a outra, de mútuo consentimento. Foi feita para os homens e para as mulheres. Para todos, sem excepção.

18 Jan 2018