A véspera

A véspera

A véspera não é nunca apenas “ontem”. Uma véspera é uma forma diferente de olhar para o dia de amanhã. Pode ser cheio de esperança e vivido com expectativa, entusiasmo e excitação. Pode ser desesperante, triste, vivido a querer que não chegue o dia de amanhã. Em ambos os casos testemunha-se com evidência a deposição no dia seguinte, por vir. Não podemos deixar de considerar que todos os dias anteriores são véspera dos dias seguintes que virão amanhã. Mas não esse o sentido que se sublinha com a “véspera”. Invoquemos algumas vésperas importantes.
A véspera de ir de férias, a véspera do primeiro dia de aulas, a véspera de uma competição, a véspera de um exame académico ou médico, a véspera da chegada de alguém que vive longe, a véspera da partida para viver no estrangeiro, a véspera do primeiro dia de aulas, a véspera de um casamento e a véspera de um funeral. Todos os dias seguintes são marcados por uma importância significativa na nossa vida. Não aconteceram ainda, porque serão no dia seguinte, amanhã. E, contudo, estão já a implicar-nos neles. Envolvem-nos como uma atmosfera. Estão já a abrir avenidas para eles. Podemos reagir da mais variada forma: não dormimos ou dormimos. Há uma tensão que não nos deixa pensar noutro conteúdo senão no que virá com o dia seguinte.
A véspera desses dias seguintes faz deles dias mais significantes do que dias anteriores. Não pensamos nisso, mas habitualmente estamos depostos sempre num futuro mais ou menos próximo que vivemos com maior ou menor tensão. De outro modo, não íamos fazer café, não subiríamos ou desceríamos escadas, não entrávamos para dentro do carro nem saíamos dele, não aquecíamos antes de treinar, não nos preparávamos mentalmente para o que quer que fosse. O mesmo se passa com o início da semana, do mês, do ano, do quer que seja. Já nem nos lembramos mas há um querer que se abre à possibilidade de sermos diferentes de como somos. Ou pelo menos há esse projecto: deixar-se de… e passar a ser de outro modo. Deitar a “carga” navio fora para não naufragar ou então zarpar para outras paragens.
A véspera abre também uma janela para o dia seguinte. A importância do dia de seguinte é definida pela véspera. Não há importância dada ao dia seguinte se a véspera não se perfilar no horizonte. Entre nós agora e nós no dia seguinte há a véspera. A véspera dá a importância ao dia. Faz do dia seguinte não um dia qualquer mas um dia importante.
É o que acontece com a véspera de Natal. A véspera de um nascimento é a véspera de um acontecimento que não acaba com o dia, mas começa com esse dia. É o princípio de uma vida. Uma vida humana tem um “ser”, uma “actividade”, diferente dos outros seres. Ao começar, inicia-se um horizonte temporal, uma vida lúcida com expectativas, sonhos, aspirações, ambições, vontades e querer e lucidez.
Na véspera de Natal espera-se o dia, não um dia qualquer por mais importância que sejam todos os dias. Não é apenas de Jesus, menino, que se está à espera, como de um filho de uma rainha. Nem é o que se espera pelo nascimento de uma menina ou de menino que nas nossas famílias ou do próprio tem uma importância tal que muda toda a nossa vida.
A véspera de Natal é a véspera de uma outra vida, com um outro ser no tempo. Não se espera apenas um nascimento singularmente importante. Espera-se um nascimento que não terminará com a morte o percurso vital. Com o nascimento de Jesus todos sem excepção e sem nenhuma acepção pessoal seremos portadores da possibilidade que inscreve cada nova vida e cada instante dela na eternidade.
É uma véspera “e peras”.
E, contudo, lembramo-nos mais de natais passados do dos natais futuros. Talvez por isso os natais presentes sejam “mais um”. E não são, porque antecipam uma outra possibilidade. E a possibilidade de se perder essa possibilidade como véspera.

O Horto das Oliveiras

Ele levantou-se sob a folhagem cinzenta
completamente cinzenta e solta no horto das Oliveiras
E apoiou a fronte cheia de pó
no fundo das suas mãos quentes feitas de pó.

Depois de tudo:— ISTO. E ISTO era o fim.
Agora eu tenho de ir, enquanto cego,
e por que queres Tu que eu tenha de dizer
que Tu existes, quando eu próprio já não Te encontro.

Eu já não Te encontro. Não em mim, não.
Não, nos outros. Não, nesta pedra.
Eu já não Te encontro. Eu estou só.

Eu estou só com toda a amargura dos homens
que eu, através de Ti, comecei a aliviar,
Tu que não existes. Oh! inominável vergonha…

Mais tarde, conta-se, apareceu um anjo-.

Porquê um anjo? Ah! veio a noite
e folheou com indiferença as árvores.
Os pequenos sossegavam nos sonhos.
Porquê um anjo? Ah! veio a noite.

A noite que veio não era uma qualquer;
dessas que há às centenas.
Ali dormem cães e há pedras.
Ah! é uma noite triste, aquela
em que se espera até que seja de novo madrugada.

É que os anjos não se aproximam de tais camas,
e as noites não são nunca tão longas como aquela.
Os que se perderam a si largam tudo,
e são abandonados pelos pais
e excluídos do colo das mães.

(Rainer Maria Rilke, 1907. Trad. minha.)

19 Dez 2020

O primeiro dia de aulas

O primeiro dia de aulas” tem vários sentidos. Mas há o primeiro de todos, quando pela primeira de todas as vezes se vai à escola. É a primeira vez que “emigramos” e logo para um outro universo, afastados de toda a gente. É como deixar o planeta Terra para ir para uma outra galáxia longínqua. Nenhuma partida corresponderá à mesma metamorfose. Ou então talvez todas as partidas terão o primeiro dia de aulas como paradigma.

Somos obrigados a abandonar os nossos domínios que conhecemos desde que nascemos. A casa da infância é a casa em que nós vivemos até sair para “ir à escola” pela primeira vez. Essa casa não é um “espaço geométrico”. Situa-se num tempo. A casa da infância é uma extensão da barriga da nossa mãe, um interior absoluto sem exterior, porque não nos pertence o que vemos através da janela, a rua, os prédios, as árvores, o céu existem próximos e são-nos impermeáveis. A casa da infância é a nossa vida. Metamorfoseia-se ao longo do dia e das estações do ano.

O universo todo é a casa. O mundo todo é visto através das vidas das pessoas com quem vivemos pais, avós e irmãos se já tiverem nascido. No primeiro dia de aulas, o universo absoluto relativiza-se. A escola é a América ou Marte. Fica a poucos quilómetros de distância, mas existe numa dimensão completamente diferente daquela em que temos estado a existir. Acordam-nos nesse dia, vestem-nos, quando ainda mal acordamos, dão-nos o pequeno almoço e sentimos que tudo mudou também nas vidas das pessoas lá de casa. A avó sabe que não ficaremos a partilhar a vida com ela e a casa ficará vazia de nós, mas nós não o percebemos. Descemos as escadas do prédio como se fosse pela primeira vez com os nossos próprios pés, quando até então tínhamos descido ao colo do pai e flutuávamos no ar sem pisar o chão.

Conhecemos o condutor da carrinha da escola e a senhora que nos senta e os outros seres como nós, meninas e meninos que nunca tínhamos visto. Alguns tinham a cara contorcida do choro. Era uma experiência de espanto. Nunca tinha visto ninguém chorar sem razão aparente. Ninguém lhes tinha dado uma palmada ou gritado com eles. A dona Ludovica não fazia festas às crianças mas olhava para elas com um cabal entendimento da situação. Devia ser assim sempre todos os primeiros dias de aulas às nove da manhã com avé Marias a ecoar da igreja nas proximidades.

A sala de aulas estava cheia de criaturas com bibes e lanche. Alguns já lá estavam sem que se percebesse de onde vinham ou se não tinham lá estado desde sempre à nossa espera. Falávamos com quem íamos ter e outros ficavam à distância. Os lugares eram distribuídos sem qualquer lógica racional. Havia lápis de cera e plasticina. A educadora andava por todo lado. Havia lanche e almoço em refeitórios. Havia o recreio com cantos, o meio, aparelhos para brincar, um túnel que parecia a barriga de um dinossauro e era percorrido com a cabeça baixa. Havia baloiços e caixas de areia, cercas que dividiam a escola da rua, com pessoas do lado de fora.

As horas passavam e consoante as escolas inóspitas ou acolhedoras, assim também nós existíamos fora do mundo ou com direito de cidadania.

A casa a que regressamos à tarde não é já a mesma, nem a avó nem a mãe nem o pai. Compreendia-se melhor as saídas e vindas dos pais para o trabalho e quando chegavam ao fim do dia. Sair e não ficar é habitar os sítios. Não se deve ir para lado nenhum de onde não possamos sair. Quando se sai, é sem regressar. Podemos voltar aos sítios, mas é só geograficamente. Tudo muda em poucas horas, durante o primeiro dia de aulas. A diferença entre a casa de manhã e à tarde é total. A casa deixa de ser o nosso mundo.

No primeiro dia de aulas tudo vai a enterrar e tudo se inaugura. Nada fica como dantes. Somos emigrantes de nós próprios. Quem chega a casa não é o mesmo que saiu. Quando voltarmos a sair, haverá tristeza e alegria. Mas sem sairmos, não regressamos. Sair é já regressar, faz parte do movimento, da mudança, porque temos de passar para se chegar a si, talvez.

11 Set 2020

Assalto ao “Reichstag”

Berlim. 30 de Agosto de 2020. Uma manifestação contra as medidas sanitárias impostas pela Covid-19 reuniu facções da Afd (Alternativa para a Alemanha) de extrema-direita. “Horror – escalada de violência nas escadas do Reichstag” lê-se no site do canal ARD. Na página do FB da AfD, lê-se, porém: “Assalto ao parlamento (Sturm auf den Reichstag)”. O título no site da ARD foi, entretanto, corrigido para “Ataque ao coração da nossa democracia (Angriff auf das Herz unserer Demokratie)”. Um eufemismo tão grave não podia passar despercebido.

Há uma invisibilidade mais difícil de detectar do que todas as outras. É quando tudo se faz às claras. Os prestidigitadores, os mágicos, os desportistas exímios e como é óbvio os políticos mais hábeis são os grandes mestres da simulação e da camuflagem.

A finta consiste em dar a entender uma acção ou um movimento com um sentido contrário do que vai acontecer. Para simularmos é preciso sermos capazes de fazer crer ao outro que a nossa intenção está absolutamente expressa na nossa acção, no nosso movimento, na nossa palavra. O desportista finge que vai para um lado e vai para outro, que sobe e afinal desce. Dá a sensação que vai avançar e recua ou que vai recuar e avança. Adia até ao limite ou antecipa-se. O pugilista finge bater no rosto do adversário com uma mão para bater no tronco com a outra. O nosso olhar absorvido pelas mãos do mágico não tem folga para percebermos como tira o coelho da cartola. O que acontece na simulação, na finta, é trabalhado tecnicamente. Os diálogos de Platão desmascaram a sofística por ser isso mesmo que faz: prestidigitação. Mas é na vida que a dissimulação se forma. Esperamos que se deem coisas que não acontecem. Há outras que, contra a expectativa, acontecem mesmo. O próprio modo como as coisas se dão é diferente do modo como esperávamos que fossem. Há um jogo complexo entre o que achamos que está visível no horizonte e depois o que vem a acontecer. A invisibilidade mais difícil de detectar é a que se dá às claras. Podemos não querer acreditar no que estamos a ver, quando é isso mesmo que está a acontecer. O elemento fundamental da simulação é o tempo. O futuro iminente cria a pressão necessária para termos uma percepção errada do que está a acontecer. Tudo pode mudar para ficar na mesma. Tudo pode parecer que está na mesma e existe em metamorfose.

A verdade engana. O povo sabe do que está a falar. Um povo é levado pela verdade, sobretudo pelo poder eficaz com que as verdades são ditas. Elevamos quem nos diz as verdades mesmo que com a aura da impopularidade. Mas quais são as verdades que sempre foram ditas pelos demagogos.

A história repete-se quando o povo baixa a guarda. A frustração da desilusão faz baixar a guarda. Ergue-se o ideal de beleza, de triunfo, da juventude, e também o que é anómalo e anormal, o que não cabe dentro desses parâmetros. Nesse ideal de beleza, triunfo e juventude, da “beautiful people”, “jet set” internacional dos célebres e famosos desta vida, não cabem, por exemplo, os judeus ou os homossexuais (Otto Weininger, George L. Mosse), como se pode compreender pela história recente da Europa nem os negros em nenhum lado do ocidente. Mas não são apenas os descendentes da colonização os únicos “apetrechos dotados de alma” – na definição de escravos de Aristóteles – podem ser crianças, mulheres, todos aqueles a quem lembramos sempre que vieram à existência pela porta dos fundos.

Os migrantes para a extrema-direita não chegam do norte de África. Existem já nos seus países. São até cidadãos nacionais desses países. Tiveram foi o azar de não pertencerem à étnia da maioria, terem uma pele de cor diferente, outra religião e, quando não, orientações sexuais diferentes, a idade errada. A vida não é para miúdos nem para velhos.

O discurso da transparência não usará de subterfúgios. Dirá a verdade. Não poupará palavras na denúncia. Fundará um partido para defesa da “nova ordem” das coisas.

Quem manda no partido pode ser um ressentido ou não. Sabe, contudo, para quem fala. Apela ao ressentimento de que todos nós somos portadores e elege um bode expiatório. É que estar vivo é sentir-se ressentido, porque se queremos ter a possibilidade de ter tudo a que temos direito, por outro lado, houve sempre alguém que não nos deixou ter sucesso. Para o homem do ressentimento a força de bloqueio não é apenas quem detém privilégios, a gente bela, as pessoas de sucesso, os que triunfaram. São os outros como eu que estão a mais. O paradoxo é que todos sem excepção estão a mais se não forem os meus. Os outros não têm direito a nada.

O ressentimento pode adormecer mas é acordado. Os poderosos sempre souberam acicatar os ânimos. A Krypteia, a polícia secreta espartana, actuava como rito iniciático para os jovens. Abatiam hilotas (a casta dos escravos que trabalhavam a terra) em “raides”. Desde sempre soubemos espalhar o terror. Não pensava Calígula “odeiem-me à vontade desde que me temam (oderint dum metuant)”?

Às claras, alastram pela Europa, Portugal não é excepção, manifestações de apego à tradição e ao caracter puro, enraizado das etnias. A alemã AfD (Alternative für Deutschland) voltou a dar sentido às “Mahnwachen (vigílias)”, numa manipulação clara do descontentamento da população contra as medidas sanitárias provocadas pela Covid-19. As manifestações “contra” têm um sentido completamente novo, porque procuram negar a evidência da presença de um mal. Negar as medidas contra o Coronavírus é negar a existência do vírus, como negar as manifestações contra o racismo é negar o racismo. As manifestações destes partidos são anti-manifestações. Não são afirmações da realidade. São formas de perpetuação do escondimento da realidade.

Os novos demagogos não têm, como Giges, anéis que os tornam invisíveis. Não precisam deles já. Dizem tudo às claras. Quando o mal é dito às claras, já não estamos perante uma afirmação. Estamos perante uma ameaça, e há ameaças que devemos levar a sério.

4 Set 2020

O Anel de Giges

Conta Platão que um certo Giges tinha um anel com poderes extraordinários. Quando punha o anel ficava invisível. Se o tirava, podia ficar à vista de toda a gente. A experiência do pensamento leva Platão a considerar que se um justo pudesse usar esse anel, agiria de forma injusta. Tirava sem pagar o que lhe apetecesse, entrava na casa de quem quer que fosse e deitar-se-ia na cama de quem desejasse, as ruas estariam cheias de cadáveres das pessoas assassinadas por esse justo e as mulheres grávidas dele. Ele libertaria os seus amigos e meteria na prisão os seus inimigos. O justo não poderia ser já considerado justo.

Nem sequer poderia usar o nome “justo”. Todas as suas acções seriam injustas. Não esperaria pela calada da noite para praticar os seus actos. De dia ficava invisível. Não tinha de prestar contas a ninguém. Obteria sempre tudo o que lhe apetecesse ter. Não tinha de responder perante ninguém. De manhã à noite o sentido da sua vida seria o dos seus desejos e caprichos, imporia sempre a sua vontade, sem respeito por ninguém e ninguém saberia pôr-se no seu caminho. É uma tese de Sócrates que Platão quer ilustrar. Ser injusto é fazer triunfar a sua opinião de alguém sobre outrem, esteja ela ou não fundamentada. Ser injusto é fazer o que nos apetece, como se isso fosse ter muito poder. Ser injusto é usar o outro como objecto de desejo e das nossas vontades. Ao impor-se o injusto não apenas neutraliza o outro, subjuga-o, submete-o, sujeita-o, violenta-o.

Mas será que Giges ou quem tiver o anel fica invisível a si mesmo? Não se apercebe das suas acções? Não compreenderá o que é agir injustamente ou ser, mesmo que uma única vez, injusto? O pensamento na sua experiência tem de projectar a consequência possível de alguém ser injusto e fruir de todas as suas injustiças, mesmo quando achar que se sacrifica por um bem maior. Pode não ser sádico e sentir prazer sempre em ser injusto, mas nunca transformará a culpa que sente em remorso. Há-de repetir sempre o mal que faz. Nunca ser arrependerá ao ponto de arrepiar caminho. Há-de continuar a dizer o que lhe apetece, a impor a sua vontade, a fazer o que lhe apetece, a exercer a violência da mínima à máxima, física à psicológica. E servir-se-á, abusando dos outros todos ou só usando alguns.

Sob a capa do anonimato, torna-se invisível para todos os outros, para aqueles sobre quem exerce violência e aos eus próprios olhos não aparecerá como injusto, mas como alguém que forte, audaz, para quem os outros não são vítimas mas fracos. Se não for ele, serão outros a fazer o que ele tem de fazer. Continuará a tomar o que é seu sem qualquer direito a tomá-lo. Não lhe chamará roubo. Será reclamação do direito.

Continuará a entrar na casa de quem lhe apetecer e não será arrombamento mas outra coisa. Deitar-se-á com mulheres e homens porque lhe apetecerá e não será violação mas outra coisa. Matará e será execução. Meterá na prisão em nome de uma qualquer justiça. Soltará criminosos e não é por serem amigos, mas para se fazer justiça.

No exercício da violência, na expressão da vontade de poder, está a pequenez que Platão identifica. Fazer vingar a opinião não é saber. É fazer vingar a superstição pelo medo ou pelo terror ou por um qualquer sentimento a que se chamará amor mas não é amor a qualquer coisa que se chamará pátria mas não é pátria e concidadãos mas serão apenas parceiros de crime. E todos os que forem executados, todas mulheres e filhas violadas serão em nome do que é guerra, mas é outra coisa e se for guerra é em nome apenas de si, da afirmação de si, do próprio.

O injusto há-de prevalecer na sua opinião, condenando e absolvendo os seus, há-de extorquir, expulsar da cidade e matar, há-de violar, há-de fazer o que lhe apetecer.

O injusto será finalmente reduzido ao que é, um odre cheio de buracos, uma pipa gigantesca furada, sem nunca ficar cheia e quando fica cheia sem conseguir reter o que quer que seja. Todas as suas vontades são de tudo e nada. De manhã à noite, será escravo de si próprio e o próprio o que é: esse mesmo odre do tamanho do universo, um buraco negro, que aspira tudo, tudo traga e de nada se enche para todo o sempre.

Não sabemos se Giges, rei da Lídia terá tido esse anel. Se terá havido um único ou dois não pode ser a nossa dúvida.

Enquanto eu for injusto- perdoe-me o leitor falar eu agora na primeira pessoa do singular- ninguém há-se saber, no pensamento, mais do que em acto, quando em acto, é na realidade, a injustiça é bem escondida. Ou assim, acho.

Mas não nos enganemos.

O anel cai-nos do dedo, mesmo quando em nome da transparência defende o inominável, a injustiça.
É que mais vale sofrer a injustiça do que cometê-la. Ao sofrer-se, dói. Mas ao ser-se injusto, perde-se a humanidade. Convidamos a grande besta!

28 Ago 2020

Respiração

Para o pensamento arcaico a sede das emoções e da consciência era o diafragma (R. B. Onians 1951). Não era o coração. Muito menos o cérebro. Para os velhos estoicos, o “eu” estava localizado no externo, porque um grego gesticula como qualquer mediterrânico e toca com o dedo no externo quando diz eu ou bate com a mão violentamente no peito para se revelar corajoso. Para nós, contemporâneos, o coração está arraigado nos nossos idiomas. Aprendemos coisas “de cor”, usando a palavra latina no original para coração. Alguém tem bom coração. Há quem não tenha coração. Acedemos ao passado pela memória, mas quando queremos entrar por ele adentro é pela re-cor-dação, um modo de reverberar o coração. O coração bate rápido e depressa com medo e na excitação do amor. Cai-nos o coração ao chão, quando ficamos para morrer, pelo susto que apanhamos. O valente tem coração de leão. Os santos aproximavam-se do santo dos santos com o coração nas mãos, como oferta, símbolo vivo da vida. A simbologia do coração foi destruída (Sloterdjik 1988) com o advento da anatomia contemporânea. Passamos a falar de “máquina”. A metonímia faz perceber que o coração perdeu a riqueza semântica capaz de significar o aprender, o ficar em pânico, sentir-se apaixonado, lembrar-se do passado, ser corajoso, expor-se vulneravelmente à fé em Deus.

Agora, o batimento cardíaco, a pulsação, o ritmo, são interpretados de acordo com a metáfora da máquina como se o coração fosse um motor, com peças substituíveis. O próprio coração pode ser substituído. Não é pessoal nem intransmissível. Já não é pessoal. Lá não estou eu. Nem a quem pertenceu. Um dia poderá ser produzido por material ainda mais consistente do que a carne humana, talvez. Vemos o “coração” como objecto, tal como o coração é, sem aura pessoal, sem metáforas nem símbolos. O ganho claro e maravilhoso da ciência é a perda da metáfora. Onde estou eu senão no coração. A que chamo eu coração então?

Para o pensamento arcaico, era no diafragma que se situavam as emoções e a consciência. Não é metafórico também este pensamento? O que é que eles queriam dizer com isto? No oriente ainda há uma atenção dada à respiração completamente diferente da que lhe damos no ocidente. Os guerreiros árabes antes do combate estavam um dia inteiro a fazer colectivamente hiperventilação. Para se perceber o estado em que ficavam, experimentemos inspirar pela boca e expirar violentamente pelo nariz durante umas 20 vezes. Ficamos embriagados. A oxigenação transtorna. O sangue transforma-se. O batimento cardíaco altera-se. Se googlarmos “The Iceman”, verificamos que Wim Hof tem o mesmo método de respiração com preparação para mergulhar nas águas frígidas que congelariam qualquer um. A respiração Luta/Fuga (ofegante) dá lugar à respiração Sossego/Digestão. O controle da respiração tem de ser feito consoante a situação. Se um perigo nos aparecer não vamos querer respirar como o fazemos depois de um almoço tradicional de domingo ou a dormitar em frente à TV. Se quisermos adormecer, não vamos querer ter uma discussão acesa. Como inverter as respirações? O ponto é este. No controlo respiratório, na sua plasticidade, é possível alterar o estado de espírito.

A palavra para espírito em grego diz-se pneuma, sopro. A vida para os gregos era um sopro. Todas as formas de respiração não são interiores apenas. São o nosso contacto com o mundo exterior, com a atmosfera, com o ar que respiramos. O ar está em nós e fora de nós. Circula através de nós. Inspiramos oxigénio e libertamos óxido de carbono. A respiração tem uma inspiração que não pode ser infinita e uma expiração que não pode ser infinita. Se inspirarmos e não expirarmos ou se expirarmos e não inspirarmos, morremos. É simples.

Qualquer situação tem o seu modo passivo correspondente de respiração. Foi isso que o pensamento arcaico percebeu. No diafragma manifesta-se exteriormente o modo como alguém lida com a situação. Não há interior nem exterior. O ser humano é atmosférico. Há bafos de sorte e podemos ser bafejados. Há algo que “cheira” bem ou mal, que não nos cheira. Sopramos para arrefecer ou bafejamos para aquecer. A palavra para alma em grego, psychê, quer dizer refrescar, sopro vital, dentro de cada um de nós e a envolver-nos a todos nós. Respiramos de alívio, depois de termos ficado sem respirar. Caímos em situações de cortar a respiração. Expiram prazos. Nós próprios entre a primeira inspiração e a última expiração, datamos a entrada do espírito e a saída do espírito.

Deus, dizem, não se manifesta no trovão, nem na tempestade, nem no tremor de terra, nem no fogo, mas no “murmúrio de uma leve brisa”. (1 Reis 19:12).

24 Ago 2020

Tentações

Não, por hoje. Hoje, não. “Hoje” é muito tempo. Agora, neste instante, por exemplo, o não, não é bem não. Não estou a negar nada. Não me passaria pela cabeça negar o que quer que fosse. Não declino nada, porque nada me é proposto nem por mim. Não me dá para nada. Não tenho vontade disso agora. O tempo do não é o tempo do sim. O tempo da inclinação é o tempo da queda e da possibilidade de me agarra ao que for para não cair. Mas agora, “não” é uma palavra, não tem significado, não é uma intenção, não faz sentido, a minha vida não depende disso. Ah! “Não”, “não”. Falta o quero. Quero não querer. Mas não me dá vontade nenhuma de querer. Para dizer não a sério, com convicção, para mostrar personalidade e carácter, tenho de estar a lidar com a tentação. Tem de ser a hora do diabo. E o diabo não é horrível, nem feio, nem repulsivo. É exactamente o contrário. O diabólico é encantador. Reveste-se de diversas formas, arma-se em toda a gente que nos fascina e oferece-nos toda a ocasião de queda. Aí sim, temos tudo para cair, para dizer sim e outra vez.

Pode ser uma rendição triunfante, acompanhada com um “que se lixe!”. Pode inaugurar-se com pompas e circunstâncias: “estão abertas as hostilidades”. Pode ser sem querer. Foi e pronto. Pode ser contrariados, porque não fomos capazes de evitar e estávamos a ver onde íamos parar na loucura já do mundo que se estava a abrir. Aí, sim. O não faz sentido. É naquele instante da loucura. Breve, brevíssimo em que podemos dizer. Agora, não. Podemos dizer de nós para nós. Dura pouco tempo a dizer não. Muito menos tempo do que o tempo do dia a passar. Mas a rendição pode dar-se já neste instante. É agora que é preciso estar atento. Não é de fora, quando ninguém quer a coisa, quando nos propomos a não, que podemos dizer “hoje, não”. Temos de começar por um “agora, não”. E temos de tentar agarrar-nos como uma tábua de salvação ao “não”, mesmo que seja só da boca para fora e repeti-lo como um mantra. “Agora, não”. Acrescentar o “agora” ao “não”. E um “obrigado” antes de toda e qualquer explicação que não virá. O diabo encontra sempre alguém para nos oferecer o que nos quer dar, são sempre pessoas próximas e as mais insuspeitas ou então estranhos que por serem estranhos também são insuspeitos e a hora pode ser uma hora qualquer do dia. E quando é essa hora do dia é a sério. Vem com um cheiro de uma fragrância que nos deixa acesos, vem como os acordes de uma melodia, vem com uma memória de dentro da nossa cabeça. Vem de repente não se sabe de onde e dá-nos uma vontade absurda.Olha para o que nos deu e para o que nos dá e são sempre vontades insanas. Aí a resposta convicta: “Agora, não” pode vir com um “Obrigado”.

Tudo fica preso da tentação, da nossa inclinação, da nossa tendência. É só aquilo que há, no que pensamos é só nisso, em queda livre. É o caos. Tudo isso é um breve instante. Um brevíssimo instante. A insanidade é que a alteração da existência dá-se na realidade mais neutra que possa haver. Pode ser no trânsito, pode ser na sala de estar, pode ser no meio de uma qualquer actividade do quotidiano. E não menos insana é a possibilidade de lhe cedermos, de cairmos, de arriscarmos. Tudo tem estado aí e não é como se não víssemos que tem estado aí, todos os objectos da tentação estão lá e é como se estivessem tapados mas à vista de toda a gente.

O nosso olhar não é transparente a maior parte do tempo para as nossas inclinações e desejos. Mas também é verdade que não é para sempre que eles estão resolvidos e que é para todo o sempre que lhes estamos insensíveis. O debate pode ser menos frequente, as vontades podem dar-se com menos violência, o desejo pode não ser o mesmo e pode parecer que se ausentou e nós somos outros e ficamos diferentes. E vem como uma vaga, uma onda. E é a sério o que dizemos. Não é por um dia. Hoje, não. Só por hoje, é a eternidade. Tem de haver estratégias para adiar um pouco mais a vontade. Ainda não. Um pouco mais de tempo. Cinco minutos é muito tempo, exposto à vontade tremenda que me dá. Um minuto é insuportável. O poeta contava os minutos em colheres de chá. É ao segundo. Segundo a segundo, trava-se uma batalha tremenda.

Estar por cima e estar por baixo torna-nos grotesco. A reflexão cartesiana é originariamente desejo logo existo, mas sou eu que sinto a falta de mim com o meu desejo “matado”. Sou eu que tenho de matar o desejo com o objecto de desejo que eu projecto e que depende dessa projecção que me usa para existir. “Agora, não. Obrigado”. Ainda resisto. Agora, a escrever não faz sentido. Não me apetece nada, não sinto desejo de nada, nada me faz falta. Agora, não obrigado” pressupõe um querer. Agora, não quero. Mas o querer não está vivo, não está activo. Mas quando está é tremendo. Segundo a segundo: não, ainda. Quase a ceder, mas resisto ainda. Como é a súplica? Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. O mal é “isto”. “Isto” é um conteúdo diferente para cada pessoa e para a mesma pessoa pode ser diferente ao longo do tempo. Há pessoas que têm muitos “males”, estão mais expostos e são mais vulneráveis.

A multiplicação dos males acelera e alarga o campo de obsessão compulsiva. Os objectos podem não ser nocivos e podem ser tão nocivos que nos convertemos nos escravos desses mesmos desejos e impulsos, só tendo sossego na terra de ninguém, depois da vergonha de lhe termos cedido e quando ainda não estamos a combater pela nossa subsistência, como Santo António e os seus pecados. As faltas, os pecados, as obsessões, as ideias fixas, os desejos, os amores, são o que temos na nossa agenda. A nossa própria existência é propulsionada por um motivo e um objectivo que nos faz estender e ir por aí além, mas resulta de uma saudade de ser independente e autónomo, livre, a olhar para cima e para a frente e não, como os gregos diziam dos animais no prado, a olhar para baixo e a esgotar o horizonte com o tempo breve em que se engole o que há para devorar.

14 Ago 2020

Recaída

Os distúrbios que admitem uma possibilidade crónica de recaída estão bem caracterizados. As actividades que estão associadas a tais distúrbios são preferidas a qualquer outra actividade. Tais actividades persistem a despeito das péssimas consequências. Qualquer adicção é assim.

No limite, quem está agarrado a uma substância intoxicante prefere as actividades que a promovem e estão ligadas ao seu consumo do que qualquer outra actividade mesmo que no passado lhe tenha dado um grande prazer ou em si tenha um grande valor existencial. Um consumidor de heroína ou crack vai dar-se com outros consumidores e fazer o que eles fazem para arranjarem o produto, em vez de estar com a sua família de origem ou a família que criaram, vão dedicar-se de manhã à noite a tentar arranjar droga, antecipar o próximo transe ou a ressacar a pedrada em vez de trabalhar, praticar desporto, fazer o que quer que se possa fazer no dia a dia. Por outro lado, persistirá em levar a cabo o conjunto de actividades ligadas ao consumo, mesmo sabendo que põe a saúde e em última análise a vida em perigo.

Mas o que é a recaída? A recaída é a incapacidade de parar de tomar substâncias adictivas para sempre: drogas, álcool, nicotina. Note-se que é possível a abstinência e até por períodos longos de tempo. É até possível que um a adicto nunca mais volte a usar a sua substância de eleição do momento em que suspende a toma até ao final da vida. Mas a recaída é uma possibilidade que existe na vida de uma pessoa propensa ou talvez como se deva dizer com a doença da adicção. E mais. Quanto mais tiver passado tempo desde que deixou de consumir mais iminente está o tempo da recaída. Devemos olhar para a estatística como para uma possibilidade não como para uma realidade que vai fatidicamente acontecer. Como possibilidade dá que pensar. E faz sentido. Logo a seguir à abstinência, o consumidor está num momento revolucionário, está a lidar com várias dimensões da sua vida completamente novas. Provavelmente, está num ambiente diferente do da sua casa. Está numa clínica de desintoxicação. Tem uma agenda própria, com toma de ansiolíticos e se calhar anti-depressivos. Tudo é novo para ele. Tem terapia ocupacional. O corpo regenera e sente energias que nunca tinha sentido. Mas o quotidiano há-de instalar-se e com o quotidiano, virão ocasiões que farão criar situações propícias para a recaída. Tudo o que estiver ligado a stress e ansiedade mas também a prazer e euforia, na verdade, qualquer ocasião de alteração percepcionada relativamente ao estado normal será propícia à recaída. Vem uma vontade enorme de beber um shot da bebida de eleição, dar um cheiro, um shot, tomar um comprido, dar uma passa, seja o que for. Esta vontade não é uma escolha. Vem como uma vontade que dá ao consumidor e é avassaladora, incontrolável. Contudo, o que se passa a seguir é feito sob hipnose ou resulta da sua vontade?

É sob o estado hipnótico e contra a sua vontade que vai ao ATM para levantar dinheiro? Se não tiver dinheiro, vai pedir dinheiro aos seus amigos e familiares como? Para roubar tem de tomar medidas, fazer escolhas.

Tem de ir a sítios, executar tarefas. Depois, se não arranjar dinheiro, tem de vender os bens que roubou. Tem em todo o caso de levar o dinheiro ao locar onde compra droga ou fazer vir o dealer até si. Só no fim vai para um ambiente da sua escolha onde se sente em segurança para cheirar ou injectar-se. O alcoólico tem a tarefa mais facilitada, porque pode ter tudo em casa. Ainda que se estiver sob medicação, terá de esperar alguns dias para beber sem mal estar.

Mas a ânsia, a vontade tremenda, de consumir, ficar bêbedo ou pedrado não é uma escolha. E não tem que ver com prazer. Há uma diferença fundamental entre prazer e necessidade. Querer fumar um cigarro, para inalar a nicotina, é uma vontade desesperante e não tem que ver com prazer. Há prazer associado ao alívio sem dúvida, mas haverá mais prazer ou alívio?

Na psicologia da adicção, a recaída é uma inevitabilidade como possibilidade. O facto de uma pessoa recair efectivamente não é uma inevitabilidade. É difícil de saber se alguém terá o seu sistema, a sua existência, a vida do ponto de vista biológico, cerebral, somática, mental tão limpa como a tinha quando não tinha causado danos. Não se sabe se os danos são irreversíveis. Sabe-se, contudo, que a continuação é o estado de morbidez permanente e o lento suicídio.

Mesmo com o risco da recaída, não há outra possibilidade. Não é perdido por um, perdido por mil. A abstinência, a sobriedade, é a única possibilidade de regeneração do cérebro e assim do círculo vicioso que se criou para si próprio, em que o sentido da existência é a expectativa de uma subida do prazer, de uma ida às alturas, da euforia, mas só para uma queda inevitável. Quanto mais alta é a subida, de mais alto é a queda.

Sobe-se e desce-se muitas vezes, mas nunca se chega sequer à normalidade em que as pessoas normais se encontram. Está-se mesmo lá em baixo, com uma fasquia baixíssima, sem saber se haverá outro dia. O amor por uma substância é a loucura, nem sequer é estúpido. É suicida.

7 Ago 2020

Anhedonia II

Nietzsche diz que os orientais e os ocidentais têm dois tipos de narcóticos diferentes. Os chineses o ópio. Os europeus, o álcool. Nietzsche acentua a diferença mais na rapidez dos efeitos do que na consequência.

Hoje, não a diferença geográfica que N. traça não faz sentido. É interessante o critério que emprega. A rapidez dos efeitos e a duração da eficácia. Quando se fala de eficácia, é de alteração do estado de consciência. A alteração do estado da consciência transforma a biologia do nosso corpo, a psicologia dos nossos comportamentos, a própria forma da nossa existência. A dimensão em que passa a existir quem usa substâncias psicotrópicas é diferente da da realidade.

Desde a antiguidade que a lucidez “seca” é diferente da lucidez “molhada”, a vida sóbria e seca opõe-se e contrasta com a vida ébria e encharcada. A invasão do álcool, normalmente, do vinho foi estudada na antiguidade como uma forma de perceber como é que a melancolia, um líquido segregado pelo corpo humano pode afluir ao cérebro e transformar o modo de pensar, a forma de agir, a mentalidade e a própria existência das pessoas.

O uso de drogas, mas também o uso das diferenças bebidas, identificam diferentes personalidades. Pode haver quem “goste” de toda a espécie de substância de que se torna adicto, pode haver que tenha substâncias de eleição e não consuma nenhuma outra. Há bebedores que não se drogam. Há quem fume, por exemplo, erva e nunca beba álcool. Há sem dúvida quem nunca use nenhuma substância nem sequer alcoólica. Há também, ainda que mais raras, pessoas que usem mas não possam ser consideradas ou adictas ou alcoólicas. A adicção é uma doença. Desenvolve-se uma obsessão compulsiva por uma substância. O elemento comum, do ponto de vista neurofisiológico, é que ficamos “viciados” em dopamina. O nosso doce preferido na infância, a nossa comida preferida nos jantares com amigos, a nossa bebida de eleição, o rosto da atração erótica, seja o que for tem uma estimulação de dopamina. O que nós chamamos sex-appeall ou sexy, o que é atraente, o que é estimulante, excitante, segrega dopamina. É por isso que o nosso cão de estimação lá de casa rouba bolo de chocolate e não puré de brócolos.

Mas o que tem a narcose? O que tem a alteração da consciência? Para quê a alteração da consciência? Há uma procura clara dessa alteração. Ou por curiosidade ou para experimentar ou porque é uma possibilidade já dada na vida. O ser humano gosta da alteração. O ser humano não gosta de estar sempre na mesma. A mudança que se experimenta com a rapidez de um rastilho a queimar-se e com a influência de uma substância do mundo é que é diferente de uma experiência da mudança que se possa ter com a alteração de perspectiva e uma verdadeira mudança de vida. O que há nas drogas, no álcool, no café, no tabaco, no açúcar, na comida ingerida em excesso, é uma busca artificial da experiência rápida da mudança. A alteração pode dar-se mas de tal forma que se ultrapassa o ponto sem retorno. Ou seja, o que gostaríamos de ter era uma consciência ainda da alteração da consciência e não uma perda da consciência ou uma abertura a uma dimensão alucinante onde não existimos, agimos sem pensar, sem ver, como se tudo fosse um sonho, ao sabor dos caprichos, daquilo para o que nos dá, mas sem sermos nós próprios.

A outra alteração da consciência seria assim a da toxicidade para a sobriedade. Podíamos pensar que estávamos sempre inconscientes e ganharíamos consciência, que estávamos a dormir um sonho, a sonhar e acordávamos. Ou então podemos pensar que estamos numa situação que os teólogos descrevem como conversão, não víamos e passávamos a ver, não éramos e passávamos a ser.

Há uma enorme dificuldade em lidar com a luz, com o estado de vigília, com a consciência que ganhamos da situação em que nos encontramos. Uma das relações que se estabelece com a sobriedade é uma relação com a lucidez, com a possibilidade de ela não se apagar nunca. É difícil viver sem nunca apagar, sem nunca descansar. Viver com a lucidez é extraordinariamente difícil, mas é por isso que algumas pessoas usam drogas ou álcool, porque não aguentam a realidade. Mas a aproximação à lucidez e à sobriedade é uma forma complexa de aproximação à aurora, à madrugada, ao nascimento, ao princípio, à infância, à atmosfera disposicional em que a vida se bastava a si própria como as vibrações sonoras e a cadência temporal da vida.

Nietzsche falava dessa outra possibilidade da vida se encontrar com o êxtase, com uma embriaguez que se dá na sobriedade e na lucidez e ainda assim nos deixa fora de nós. Dentro de nós e fora de nós, com a possibilidade mais extrema e radical musical que é a do ser humano.

Virá sempre uma fragrância, um entardecer, um lugar à mesa em companhia de amigos em que o êxtase que queremos será aquele rápido e breve, como se não houvesse amanhã, mas a nossa aventura, a nossa demanda pela música será interrompida não se sabe por quanto tempo.

31 Jul 2020

Anhedonia I

O hedonismo é uma das ideologias de mais fácil adesão na existência humana. A palavra é deriva do adjectivo grego HEDYS, -EIA, Y e tem ainda repercussões na palavra latina SUAUUIS, -E e na inglesa SWEET. O hedonismo corresponde assim ao princípio de acordo com o qual orientamos a vida por uma procura do é doce, suave, dá prazer, satisfaz, gratifica. Por outro lado, rejeita-se toda a amargura, é causa de sofrimento, frustra. A equação existencial estaria matematicamente resolvida. Escolhe-se o prazer superlativo e rejeita-se o sofrimento, também, superlativo. Em caso e impossibilidade de escolha inequívoca, há matizes na teoria abarcante de todas as possibilidades de decisão. Pode escolher-se o menor sofrimento possível em vista de sofrimentos maiores tal como se pode rejeitar prazeres menores em vista de prazeres maiores. Mas a vida parece estar decidida. Em qualquer circunstância, escolhe-se sempre o prazer como um bem. Em qualquer circunstância também, rejeita-se sempre o sofrimento como um mal.

A figura do Hedonismo considerada por si não obtém um aplauso unânime e desde a antiguidade que não foi uma ideologia simpática. Antes pelo contrário. Numa primeira leitura de Platão, por exemplo, vemos os prazeres ligados ao corpo – os prazeres sensuais, sexuais, com a comida, bebida, em geral com todo e qualquer conteúdo do mundo – liminarmente excluídos. Platão não é anti prazer e se podemos dizer que é um asceta é apenas no sentido radical da palavra grega, de alguém que se dedica a exercícios espirituais e não quer ficar sob a alçada de nenhuma obsessão compulsiva. A verdadeira história contra o Hedonismo pode ser lida na acção que lhe é movida pela Igreja Católica como uma das faces da destruição. E não sem razão. Não podemos nunca ler superficialmente as coisas.

Temos de perguntar pelo sentido das experiências que as coisas têm nas nossas vidas e nas vidas das pessoas. Qual é o verdadeiro sentido do prazer? Qual é a dimensão do prazer na vida de uma pessoa e das pessoas que estão à sua volta? Quais são as consequências para as nossas vidas das escolhas que fazemos quando nos decidimos por viver uma vida dedicada ao prazer? O que é uma vida que rejeita liminarmente toda a espécie de sofrimento?

Por outro lado, temos de perguntar também o que leva alguém a atacar os prazeres. Naturalmente, ninguém sente desgosto com as coisas de que gosta. Por isso, atacar o prazer, aquilo de que naturalmente gosta, implica uma dimensão metafísica, um sentido que vai para além da experiência sensível que está a ser tida. O que levará alguém a condenar o “bem” que fazem os prazeres sensuais e que, dizemos, nos leva à loucura ou então à procriação e propagação da espécie, ao Cocktail de hormonas que permite identificar grupos de adolescentes nas praias, locais de lazer ao entardecer, nos cafés, bares e discotecas, ao facto de se apaixonarem e sentirem tensão erótica entre si? Por outro lado, parece já compreensível o que levará à condenação da ingestão de alteradores do estado da consciência que levam a experiências que são descritas pelos protagonistas dessas alterações de estado como viagens transcendentes. Como compreensível é o que levará à condenação do jogo, quando alguém sente o prazer enorme da antecipação da possibilidade enquanto antecipação, independentemente do resultado, da perda ou do ganho. Não fará também sentido condenar a ambição de poder e da luxúria que resulta do seu exercício?

Qualquer que seja o conteúdo de prazer, um único prazer, muitos prazeres, todos os prazeres possíveis e imaginários, há uma diferença entre o que cada um de nós é e o conteúdo específico desse prazer. O amante, o alcoólico, o cocainómano, o jogador, o tirano têm uma necessidade inalienável de coisas que não têm neles próprios. São atirados para outros amantes, para substâncias: bebida e cocaína, cartas e dados, outras pessoas, povos para poderem exercerem os comportamentos que os definem. As compulsões dependem de coisas existentes fora de si. Não há nenhuma possibilidade que exista neles mesmos que os satisfaça. Nunca conseguem estar neles. Não sabem conviver com eles. Nunca estão sossegados. Não sabem o que é a tranquilidade. Não conhecem a serenidade. Estão continuamente a antecipar o próximo momento de intoxicação ou a reagir à fúria do último momento. Existem entre amantes, entre bebedeiras, entre “cheiros”, entre apostas, entre violências. O espaço intermédio é o do vazio, o do arrependimento e remorso ou só o do tédio. Depois de esquecida ou superada “a última vez”, começam logo a preparar “a próxima”.

O hedonismo é a ideologia que confunde o BEM com o PRAZER. Que bem haverá numa vida que se confunde com a erradicação da ressaca ou que espera pela próxima embriaguez, mas nunca se encontra verdadeiramente consigo nunca?

24 Jul 2020

A porta giratória

Esta luz crua, este calor, transportam-me para a Praça de Londres. A viagem de Alcântara até lá não é longa. Mas teria de acrescentar uns 50 anos para a fazer. Havia um Hotel com portas giratórias que me fascinavam, quando era criança. Não sei bem se a luz e o calor eram o elemento comum.

Mas identifico-os como elementos da atmosfera em que estava mergulhado. Olhava para a porta giratória, entrava e saia por ela. Era dourada. Havia um porteiro que me conduzia na entrada e saída. Talvez fossem umas duas ou três vezes as que lá terei ido. A minha percepção do que se passou foi transformada pelo tempo. Muitas vezes tenho revisitações desses momentos em várias alturas do ano, em várias estações, em momentos diferentes da minha vida. O Hotel não existe, o porteiro fardado já terá morrido. Já nem sequer vou para aquela zona da cidade onde ia muitas vezes. Ia à Mexicana ter com o meu pai ou ao consultório da rua Guerra Junqueiro. Nem sempre ou quase nunca me lembrava do momento mágico da porta giratória diferente de todas as outras portas. A porta giratória faz-nos entrar para dentro ou sair para fora, mas temos de atenção, para não ficarmos do lado que não queremos. E há portas giratórias que temos de empurrar e outras que são mesmo mágicas, funcionando como se sentissem a nossa presença e deslocação. Mas é esta luz crua e este calor que me transportam para esse momento no tempo que muitas vezes revisito em aproximações de altura como se estivesse a produzir imagens num “Drone”. As minhas lembranças do passado não decalcam nunca as percepções, transformam-nas. Mesmo quando são reproduções do que se passou no plano do chão eu tenho muitos mais pontos de vista do que aqueles que efectivamente se fixaram na realidade. Se vi de frente, de certeza que imagino como é ver de um lado e de todos os lados, de cima e de baixo, de dentro e de fora. Mas imagino também a realidade como se voasse sobre ela. Agora faço todo o percurso do autocarro 756 a voar. Directo à Praça de Espanha que vejo lá em baixo com trânsito, voo sobre a João XXIII e curvo tenso sobre o que foi o cinema Londres e desço de pé sobre o local onde esteve o Hotel. É diferente o sítio onde agora chego e aquele de que me lembrava. Chego agora e é inverno. Tenho provavelmente trinta e muitos anos, quase quarenta. Não há luz crua nem calor. É já um momento melancólico da minha vida. Não há o esplendor inabalável da infância, cheia sempre de relva e beira-mar, relva e beira-mar, pinheiros, azul, que estão também nos edifícios da cidade, nos Hotéis da infância, nas portas giratórias que giram para entrar e sair, mas também só para girar sem ser para girar nem para sair. A essência de uma porta na infância, giratória ou não é diferente da essência de uma porta na idade adulta, tal como a essência de um Hotel é diferente na infância e na idade adulta. A porta giratória é só para girar. O Hotel é só para ter uma porta giratória, uma cidade inteira é só para ter a luz crua, e o sol, o calor. Na idade adulta, a porta é para entrar ou para vedar entrada, para sair ou expulsar. O hotel é para fazer o que se faz em Hotéis, dormir ou tudo o que se faz sem ser dormir, a cidade é tudo o que alberga o cansaço das pessoas que já não encontram nenhum emaravilhamento, para quem a luz crua implica um resguardo de óculos escuros, o calor é uma temperatura de que se gosta ou acha insuportável. Na palavra recordação há mais qualquer coisa do que memória ou lembrança. Tal como em acordar, vemos lá escondida a palavra coração. A palavra recordação exprime um acordar de novo. Não é uma memória. Não é de certeza uma memória intelectual ou das que se pode ter a olhar para fotografias ou das que nos lembram coisas ou pessoas.

Recordar é uma acção. Talvez por isso se diga que recordar é viver. Recordar não é viver menos ou o viver possível quando já não se vive. Quando dizemos que recordar é viver achamos que estamos acabados, já não vivemos e agora lembramo-nos do passado, passamos o tempo todo a vasculhar álbuns de fotografias, vídeos de crianças, baptizados e casamentos, férias ao estrangeiro, e eu sei lá o quê. Quando dizemos “recordar é viver” interpretamos mal o que o verbo diz. Não quer dizer que não seja o que se faz, quando se está acabado e há momentos em que nos sentimos acabados, não fazemos fé em nada, não acreditamos em nenhuma possibilidade ou até só que tudo é impossível, o que é uma tremenda possibilidade. Recordar é viver quer dizer: fazer de novo o que fizéramos mas de uma maneira completamente nova. Nenhuma lembrança repete a percepção, nenhuma memória é exactamente como foi na realidade, nenhum sentimento outrora é o mesmo agora. Recordar é possível a partir do coração que pulsa e nos sacode de novo e permite uma repetição, nunca mecânica, mas a partir do interior, de dentro para fora. Temos de aprender a ver e a escutar o que é que as visitações nos querem dizer, porque é que nos lembramos do calor e da luz, do princípio, da sorte que é termos sido principiantes. Temos de testemunhar essa sorte que foi um acaso e agora é inexorável.

17 Jul 2020

Um dia de cada vez

A vida da vida renova-se a cada instante. Não se sabe de onde vem nem para onde vai. Mas cada novo segundo esperado, expulsa o segundo presente, empurra-o para o passado há pouco. Olhem para o relógio. O modo como os segundos passam digitalmente. 4, 5, 6, 7. Quando está o 4, não está o 5.

Quando está o 5, não está o 6, e quando está o 6 não está o 7. A descrição pode inserir advérbios. O ponteiro dos segundos passa pelos algarismos na direcção determinada, no seu movimento próprio, com a sua velocidade. A vida é indicada na presença máxima, quando ponteiro e algarismo coincidem e perde vivacidade logo no instante seguinte ou ainda não ganhou vida, quando está a segundos de se concretizar.

Se assim é para os segundos, o que dizer dos dias? O dia de hoje é um enclave entre o dia de ontem e o dia de amanhã. A vida da vida no seu esplendor máximo atinge-se quando é dia, quando é o dia. Há dias felizes e dias tremendos. Não é a vivência psicológica dos dias. Um dia não acontece na mente, nem a todas as mentes. Acontece mesmo quando não estamos a dormir, quando submergimos, quando não tínhamos nascido, quando já tivermos morrido, a toda a humanidade por atacado a dormir e acordados, despertos ou intoxicados. E acontece num período de tempo. Podemos vivê-lo de diversas maneiras. Os dias passam de forma inexorável como os segundos que os perfazem. Amanhã está onde? Vem de onde para se tornar hoje?

Não vem do passado, de certeza. É o dia de hoje que vai para o passado. O amanhã vem do futuro e expulsa o hoje de hoje para se tornar hoje e o hoje de hoje converte-se em ontem e o ontem em anteontem. Mas hoje, ontem e amanhã não estão numa linha, de maneira alguma. Nem o hoje é igual em todas as suas partes.

O hoje tem muitas horas, muitos minutos e muitos segundos. Cada segundo é e não cheio de tempo. É escorradio, escapa. Ao escapar, o hoje transita para o sonho, perde o seu estatuto de actualidade. O amanhã não é ainda e não se sabe se será. Planeamos o amanhã que há ou não haverá, mas enquanto tal é um dia na nossa fantasia, que o digam todos os que não viveram para o testemunhar se pudessem falar. O amanhã é pura imaginação e o ontem não é senão um sonho. Só hoje há vida. A vida da vida é um dia. Mas os antigos também diziam que a vida era um só dia. Será o ontem o que havia antes de termos nascido? E o amanhã será a imaginação e a fantasia que representamos do que haverá depois de termos morrido? O que houve antes de termos nascido e o que haverá depois de termos morrido não é realidade, não é de certeza actualidade. Quantos dias houve que nos passaram ao lado? Quantas semanas? Quantos meses? Para onde foram todos os anos em que nós vivemos sem saber bem como a fazer não se sabe bem o quê? Para onde foram décadas da nossa existência? Olhamos bem para cada um dos dias? Olhamos bem um só instante que fosse durante um só dia para ver o que estava a acontecer? É que os outros estão a acontecer, os outros estão a ir-se, o tempo está a decorrer, de forma inexorável, o nosso tempo está a passar, a minha vida está a passar e posso correr o risco de ter vindo à existência do nada que foi a eternidade do passado e estar a ir para a eternidade do futuro, amanhã, mesmo daqui a nada. E não olhei bem para um só dia, a essência da vida da vida.

Olha para este dia, Porque é a vida,
A própria vida da vida.
No seu breve curso residem
Todas as realidades e todas as variedades da existência,
A bênção do crescimento,
O esplendor da acção, a glória do poder—

Porquanto ontem foi apenas um sonho, E amanhã é
Apenas a Visão, mas hoje, bem vivido,
Torna todo o ontem num sonho de felicidade e
Todo o amanhã numa visão de esperança.

Olha bem, portanto, para este dia.

Provérbio Sânscrito por Kalidasa,
Poeta Indiano e dramaturgo
Séc. V.

10 Jul 2020

Recordar é viver?

Ortega Y Gasset fala das alturas da vida para referir aquilo que nós designamos em Português para falar do tempo, quando dizemos: naquela altura. Quando dizemos naquela altura referimos um tempo passado. Como se constitui? É porque podemos circunscrevê-lo temporalmente como já passado, uma fase que já acabou: o liceu, uma relação amorosa, uma viagem, umas férias, uma época da vida que resulta da intercepção de diversas actividades e da ligação com diversas pessoas, momento histórico relevante? Como nos aparece? A qual dos eus aparece? A mim, mas a quem de mim? A mim como sou agora no presente? Ou sou eu quem lá vou? Encontramo-nos num qualquer ponto do tempo como se houvesse um compromisso, a meio caminho, a meio tempo? Como se dá essa visita? E para aparecer, está morto e enterrado para nós?

Percebemos que as disposições estão mortas, que não nos damos com determinadas pessoas, os estados de espírito mudam com a presença e ausência de pessoas, os momentos da vida trazem vibrações diferentes, já nem nos lembramos bem de como era nessa altura pelo menos não inteiramente. Há um “cheirinho” de como era então para nós. Abre-se-nos, revela-se-nos de como estávamos agora a um eu mais sóbrio ou diferente ou pelo menos a uma versão de nós que pode perceber a verdade dos acontecimentos. Haverá só uma verdade? A verdade? A quem aparece o passado que é exumado na vibração, ondulação, estado, espírito, sopro, anelo, modo, modulação, com a voz própria que tinha tido então. Como podemos escutá-lo musicalmente? Ou como mergulhamos? Dá-se esse mergulho na dimensão da época nessa altura não é apenas uma invocação representativa. Conseguimos ir lá pela disposição. É o elemento que faz a homogeneização, que faz o transporte, o elo comum, o transporte temporal faz-se no modo modulação vocalização. Não se faz de nenhum outro modo, descemos ou subimos, transitamos para essa época ou não através do modo maneira modulação ou não transitamos.

Como com as nossas próprias vidas, pode estar presente o espírito daquela época e somos assim transportados para lá ou vem até nós e modifica completamente a cidade inteira a nossa vida presente. A actualidade é a linha de surf ou o lençol de água com a temperatura e a corrente que nos leva e isola das outras linhas de água com temperaturas diferentes e correntes em direcções diferentes, mas estamos sempre inexoravelmente na constituição de um tempo unidirecional ainda que perdidos em diversas alturas que parecem descarrilar como carruagens de um mega comboio que embateu e vemos todas as épocas ao mesmo tempo sem perceber a sua repartição cronológica. Tal como o tempo das nossas vidas também não tem uma datação exacta a não ser grandes épocas: a infância, o princípio das nossas vidas, o princípio da juventude, a idade adulta ou então o tempo do trauma. A nossa vida distingue-se entre o tempo do trauma que é o que marca a iniciação trágica a que só sobrevive quem encontra uma possibilidade de superar ou então se afunda e vê apenas a possibilidade perdida do que poderia ter sido e não foi.

O dia de ontem está a uma altura mais baixa ou mais alta? O dia de amanhã está a um nível mais alto ou mais baixo do que o dia de hoje? Não estamos no tempo da superfície, estamos num tempo de profundidade ou de relação não compreensível com a superfície e com a profundidade.

Quando aparecem memórias de infância não as vemos como olhamos para postais com paisagens ou fotos com pessoas que já morreram. Ao aparecerem têm o poder daqueles aparelhos que agora inventaram com o poder de criar uma realidade virtual que fazem a pessoa que mete o capacete na cabeça com o ecrã incorporado mergulhar no oceano imaginário que está na sala de estar. O passado inteiro virtual tem um poder total sobre a nossa vida. Expulsa a situação presente. Lembra-nos as músicas que ouvíamos, o que fazíamos, as pessoas com quem nos dávamos, a malta do liceu, o ano escolar, a nossa casa de adolescentes. Tudo está organizado pela brisa marítima que efectivamente se faz sentir e quimicamente transforma todas as moléculas do meu ser mudando o meu corpo presente no meu corpo passado, ressuscitando o meu corpo passado no meu corpo presente, transfigurando a Terra e o Universo, fazendo-o ser como era. Recordar é viver?

3 Jul 2020

As alturas da vida I

“Não o tempo abstrato da cronologia, que é todo plano,
mas o tempo vital ou que cada geração chama o “nosso tempo” tem sempre uma certa altitude, sobe hoje acima de ontem, ou mantém o ritmo ou desce.” Ortega y Gasset

 

Representamos o tempo como uma linha recta, traçada no quadro da sala de aula. À esquerda fica o passado. À direita, o futuro. Mesmo ao meio, à nossa frente, o tempo presente. Como é que o agora não coincide com os nossos olhos, mas está ali à nossa frente no quadro, no ponto zero? Esta representação é a vários títulos ilusória.

Temos de mergulhar para dentro da linha. A linha geométrica não tem interior, mas tem de ter extensão. O tempo estende-se. Não me mexi desde que comecei a escrever estas linhas para além dos dedos. E, contudo, o tempo passou. Não precisamos de entrar para lado nenhum. Estamos já no lado de dentro do tempo. Entramos já desde sempre no movimento do tempo que se distende.

Se mergulharmos para a linha das abcissas, deixaria de haver lado esquerdo a prolongar-se imaginariamente para a eternidade no passado. Deixaria de haver lado direito, a prolongar-se para o futuro. Haveria, quando muito frente e trás, se fosse uma linha recta ou subidas e descidas sinuosas se representarmos a recta como um rio sinuoso, como o caudal rápido e fluído da corrente de um rio, mas sem sabermos bem onde está a foz e onde está a nascente.

Mantidas as regras, o que para nós está à esquerda, estaria atrás de nós, seria a nascente. O que para nós, ao olhar para o quadro, está à direita, o futuro, estaria à nossa frente. Podemos imaginar que a nascente tem o leito do rio mais estreito e que a foz o tem mais largo. Mas podemos imaginar que estamos na parte estreita do rio sem sabermos se estamos a descer para a foz ou a subir para a nascente. Não importa aqui saber se estamos virados para a nascente ou a montante para a nascente. A jusante ou a montante estamos lá dentro, vamos ao sabor da corrente ou debatemo-nos a nadar ou a navegar. O que importa é que estamos na recta, na linha e não estamos de fora a olhar para o que está traçado no quadro ou na nossa imaginação.

Mas a imagem não é adequada se pensarmos que estamos lá metidos de uma forma comprimida. A compressão no tempo é de uma outra ordem. A linha do rio é a vida toda. Quando estamos num espaço fechado e estreito como um saco-cama ou uma carruagem apinhada de gente ou quando estamos no cimo de uma montanha a céu aberto, estamos metidos na mesma recta do quadro, embora não o percebamos.

Quando estamos a olhar para as nuvens a passar lá em cima, muito altas, no céu, podemos imaginar que elas estão paradas e que somos nós que nos estamos a deslocar. Cada secção da linha é tão extensa que abrange o universo e assim não tem nem exterior nem interior, não tem limite. A sua dimensão é temporal. Tudo transcorre no interior. Não tem exterior.

Mas de onde vem o tempo, para onde vai? O trânsito do tempo, o seu caudal, o seu fluxo, a sua correnteza, as suas marés, são precisamente as fases, as épocas com diferentes alturas. Mas há uma estrutura ainda mais complexa. Estamos a ver tudo à superfície e estamos a boiar, por assim dizer, e a nossa relação com a água não é só a relação com a superfície. A superfície pressupõe camadas mais profundas até atingir o fundo. Há alturas, por isso dizemos que um rio é fundo, muito fundo ou pouco fundo. A navegação pressupõe diversas alturas e por isso é perigosa consoante a altura dos cascos e a natureza da navegação. É no mergulho e na profundidade que vemos diversas correntes tridimensionais com diversos lençóis de água e numa relação entre superfície e fundo, imersão e emersão, afundamento e naufrágio, vinda à superfície. A vida implica a compreensão desta representação de ir ao fundo das coisas que não é apenas uma ideia da espeleologia, mas do mergulho, formas de descida até ao fundo do mar e do rio. E subidas formas de emersão à superfície. Ficar escondido do inimigo, os submarinos, os homens rã, os tesouros, o mundo das sombras. O que está escondido no fundo do mar.

26 Jun 2020

O longínquo

O que depende de nós e o que não depende nós é um operador da ética antiga. A formulação encontra-se em Aristóteles já como termo técnico, mas são os estóicos, designadamente Epicteto. O que está de facto nas minhas mãos e o que não está? O que depende de mim e o que não depende de mim? Posso ou não posso, sou capaz ou não sou capaz? Consigo ou não consigo? Estas perguntas têm domínios de interrogação, objectos relativamente aos quais cada um de nós se pode comportar. Os horizontes podem alterar-se. Cada um de nós olha para campos de possibilidade que num dado momento da vida não são para nós, mas depois podem vir a ser. Esses mesmos campos de possibilidade deixam de o ser.

Qualquer que seja o motivo, há coisas que dependem de nós e outras que não dependem de nós. Há coisas que nos acontecem por acaso, por sorte ou por azar, por necessidade ou por acidente. Outras há que são o resultado da nossa vontade, do nosso trabalho, do nosso empenho, de querermos tê-las adquirido. Os antigos compreendiam claramente que há coisas que não podemos ter. Há coisas que não poderemos nunca ter. Mas não é por não podermos tê-las que não as desejamos. Temos um desejo imenso de eternidade.

Desejo não é apenas uma veleidade. Quer dizer uma falta que se sente. Imenso quer dizer incomensurável. Temos uma sempre quer consciente quer inconsciente uma falta desmesurada de eternidade. De um modo positivo, queremos viver para sempre, queremos que quem amamos vivesse para sempre. Ora isto não está nas nossas mãos. A mortalidade da alma constitui a nossa essência. Há filosofias que se edificam a partir deste facto não anulável, inexorável da existência humana. A religião promete a vida eterna depois desta vida neste mundo, sob cláusula da existência de Deus. Mas a própria ideia que nos é mais próxima e autêntica e genuinamente humana, a da liberdade depende da possibilidade não anulável, inexorável e implacável da morte. Se não está nas minhas mãos decidir poder não morrer, como posso ser livre? Posso escolher morrer já? E como posso saber se não era esse o momento que me estava destinado e o modo que estava traçado, coincidindo a minha vontade subjectiva com a oportunidade objectiva que a morte me apresentava na ocasião? Por outro lado, a nossa mente tem também a capacidade de tornar tudo impossível, quando transforma todos os objectos reais, possíveis até, susceptíveis de serem adquiridos por nós, em objectos simplesmente impossíveis. Qualquer objecto transformado em objecto impossível é desejado com aquela falta com que se deseja a imortalidade. Toda a impossibilidade que desejemos se transforma no objecto pelo qual nos apaixonamos, mas faz-nos amá-lo de um modo infeliz.

A ilusão projecta-se sobre um sem número de coisas, pessoas, actividades, sobre nós próprios, sobre as nossas relações com as coisas, sobre os nossos comportamentos, sobre as nossas versões pessoais, sobre o que nós queremos de nós próprios para o futuro e diz-nos que não, que é impossível, que não vamos lá chegar, que não é para nós. A ilusão da paixão faz-nos querer com paixão objectos impossíveis não antes sem os tornar impossíveis. O amor eterno mas infeliz do desejo do sonho de impossível transforma o real e o possível em impossível. Logo que o impossível se converte em possível— é possível que coisas impossíveis aconteçam— o amor eterno, o desejo de impossível, desfazem-se. O que é um sonho concreto senão a realidade? A realidade é o contrário do sonho não pode ser o sonho.

Mas os antigos tinham boas razões para falar no que depende de nós e no que não depende de nós. É que a liberdade não é uma ilusão. A morte é a chave da vida. A morte não fica fora da vida. Enquanto vivemos, a própria existência é a deposição continua no tempo da situação em que nos encontramos até ao último momento. A procura pelo sentido terá sempre de ser uma procura pela inteligibilidade que dê sentido à promessa do sonho, ao voo do desejo não do impossível mas do possível, à possibilidade que possibilita, ao amor que arranca a realidade que nos deixa inerte, inactivos, feridos, para morrer, e levanta, eleva, faz mexer, expande do sítio fechado da fronteira anatómica do corpo, para o vento que sopra, o mergulho atlântico, o vento norte, a atmosfera, a chuva cósmica, o raio solar, o longe, o mais longe, o longínquo.

12 Jun 2020

Na infância

A infância é fonte de doçura e melancolia. Havia uma fusão entre o cada um de nós e as pessoas e os lugares, uma integridade entre aqui perto e lá longe. Não porque não houvesse diferença entre próximo e distante, à superfície e no fundo do mar, mas porque tudo era tão estranho à superfície, na proximidade como era na profundeza e à distância. Cada um dos outros não era nunca um indivíduo, um sujeito, fulano, beltrano ou sicrano. Eram verdadeiras personagens reais com uma densidade disposicional que vibravam o seu ser em todo o nosso ser. Em nenhuma outra época da vida a música invade e alastra para todos os outros sentidos. O papão indefinido é o pior dos monstros porque não é definido com nenhum rosto, mas é em potência o mal que mete medo apenas por assustar. Mal nós sabíamos que já na infância encontraríamos todo o mal e todos os papões e que mais tarde na vida a distância entre o possível e o concreto é ténue, absolutamente ténue. O mal espreita-nos descaradamente invisível para nós. Está no nosso quarto, atrás de nós com o rosto pousado no nosso ombro ou a olhar-nos frente a frente com a sua testa encostada à nossa. O mal está nos becos, em ruas pouco iluminadas, mas está também nas praças públicas, na praia cheia de gente em Agosto, está na cidade inteira, no país. O mal pode ser o poder de fazer mal, causar dano, infligir dor, provocar sofrimento. O seu objectivo final é a destruição da essência da coisa que ataca. A essência do ser humano é a vida. É isso mesmo que quer atacar, se for lentamente, será lentamente, mas se tiver de ser rápido, quererá ter-nos a si por uns instantes. Mas o mal é sobretudo individual. Temos, cada um de nós um mal individual. Não falo apenas do mal que sabemos que podemos infligir a cada um de nós, tenhamos ou não a tendência para o masoquismo. Sabemos como todos temos um pouco de S&M em nós. Mas não é a essa que me refiro. É o mal que está a desdobrar-se de nós que nos olha a cada instante, que está connosco em cada momento, coincide com o nosso corpo, está continuamente a deixar-nos vulneráveis, expostos a si. Na verdade, o nosso nascimento é um triunfo sobre o mal, a nossa sobrevivência até agora, meus caros, é do outro mundo. O mal está contra, desde o princípio. O mal é o princípio fundamental da negação. Quando dizemos sim, diz não. Quando queremos, o mal quer mas quer que não. Quando alguém deseja, deseja também que nós desejemos, mas só para elevarmos a nossa fasquia às alturas do sonho para que a nossa frustração seja maior. Quanto maior é a altura a que o desejo nos eleva em voo, assim também o mal nos incute ímpeto, eleva com as asas de Icaro, leva a querer sempre mais e mais altura, mais e mais velocidade, a ter mais e mais extensão, mas só para nos precipitar no abismo que é o seu elemento, nos fazer cair continuamente, sem rede, não necessariamente para nos destruir, pelo menos não logo, mas mais tarde. Quando respiramos, o mal quer tirar-nos a respiração, quando vemos, quer cegar-nos, quando bate o coração, quer arrancar-nos, a pele que nos envolve é para ser arrancada e todos os ossos que nos mantêm é para serem partidos e desossados. O mal é o caos. O mal quer-nos para si, se for do Caos que nascemos como diziam os antigos. O caos não era só a desordem nem o desregramento sem lei. Era o abismo da negrura, situado nas profundezas. Ainda hoje dizemos que somos atraídos pelo abismo.

O caos é a desordem porque a noite escura da eternidade é informe. Ao adormecermos temos por vezes a sensação de queda, de que vamos cair. Ao perdermos a atenção, sentimo-nos fora. Ao perdermos a concentração, dá-se o desanuviamento. A morte é a grande noite que nos engolirá, a garganta do abismo que tudo está a engolir, o buraco negro que desde sempre nus suga na sua direcção. O mal é cada instante que se oblitera, que não volta mais. Nada nunca é ultrapassado. A vida é agora e não volta nunca mais. Talvez volte toda ela para ser repetida, mas é uma suposição metafísica.

Tenho sido atirado para dias da infância, dias das férias grandes do mundo. São na verdade dois momentos de dois dias de férias grandes diferentes que não consigo datar. Ou estou com outros miúdos a brincar, jogando um qualquer jogo colectivo, ou estou na praia. No primeiro momento, senti pela primeira vez o êxtase de estar vivo, tudo rodopiava numa dança extravagante e centrífuga que sacudia o meu corpo. Não era só bem-estar, nem apenas satisfação ou contentamento, nem alegria. Era êxtase, embriaguez. Estava completamente em mim e fora de mim. Era a vida a expandir-se por todas as minhas células com todos os seus átomos e moléculas, numa extravagância sem limites. Era a vida a apresentar-se. A deixar o seu cartão de visita. A dizer-me como era possível. No outro momento, estou na praia à tarde na hora do calor. Não está ninguém ou muito pouca gente. A areia escaldante e o rio com água transparente. Do cimo das dunas, olho a foz. É um vislumbre muito mais simbólico. Estes dois momentos surgem-me. São a euforia da infância. Não ordenam a desordem. São o que o universo dá a sentir quando traz cada ser da garganta abismal do caos para a luz, para a transparência.

Na euforia do encantamento daqueles dias em que me confundia com a totalidade, estava já presente a melancolia do princípio do fim. A euforia, a transparência, são o nascimento espiritual e ao mesmo tempo o princípio da precipitação, quando o espírito que sempre nega começa a actuar. Ou foi ele que nos fez nascer?

5 Jun 2020

Um sim um não

Ainda há quem disfarce mal o incómodo de não poder saudar o outro quando o vê. Diz olá com as duas mãos no ar. “Pronto. Já estamos cumprimentados”. Há uns meses havia beijos e abraços.

Agora, sideramos com o olhar os que ainda não desbloquearam mecanismos antigos e só os desculpamos porque sabemos que estiveram muito tempo sem ver ninguém. Afastamo-nos uns dos outros claramente.

Criamos uma bolha tensa, com vectores centrífugos, repulsivos. Sentimos o mesmo da parte dos outros, nas filas para entrar onde quer que seja, nos momentos em que nos distraímos a olhar para os preços das coisas nas prateleiras dos supermercados, a apalpar fruta ou quando vamos a algum sítio público pela primeira vez e ainda não sabemos quais são as regras específicas de entrada e ocupação desse espaço. É diferente ir a um restaurante, a um café, a uma clínica, a um supermercado, à praia, à beira rio. Há regras comuns mas também há depois regras específicas.

A distância que criamos uns dos outros metro e meio, dois metros ou três metros facilmente é estabelecida e reposta, quando perdida. É estranho ver as filas que os lisboetas fazem. Sempre foram muito ordeiros, muito mais do que os alemães, por exemplo, para entrar nos transportes públicos. Não acho que haja sequer fila para se entrar num autocarro na Alemanha. Basta um português distrair-se e meter-se na fila, e é logo vilipendiado como se a voz popular fosse a voz de um Deus homicida. Agora, a distância é respeitada.

Fazem-se filas nos passeios opostos àqueles em que estão situadas as entradas dos locais onde se quer ir. Na praia, sabemos como há muita gente que estende a toalha em cima dos outros e levam ao limite da paciência a noção de “gregário”. Agora, eu reajo mal já a três metros, como se criaturas antipáticas me estivesse a invadir a sala de estar.

O mais estranho de tudo é o modo como encontramos as salas dos restaurantes. As mesas não estão equipadas. A toalha branca com pratos, talheres, copos e guardanapos, inexistente deu lugar à mesa despida só com a sua cor castanha, o mais das vezes. As mesas separadas umas das outras à distância milimetricamente medida dá uma sensação inóspita de mesas vazias à espera de clientes que ainda não vieram e ainda não se sabe se chegarão, porque não se habituaram ainda a vir jantar fora. Mesa sim mesa não é o que há. Retiraram as mesas não e deixaram ficar as mesas sim. Cadeira sim, cadeira não, deixam sentar as pessoas nas cadeiras sim e não deixam sentar nas não. Mesmo que não haja a marcação a interditar sentar-se, uma sala esvaziada na metade da sua lotação, as mesas não equipadas para esperar pelos clientes, os empregados de máscara, tudo muda.

O que muda mesmo é a totalidade da apresentação. Não é apenas do outro que importa guardar as distâncias, como se fosse dos outros que esperássemos a agência patogénica, seres transmissores da Covid-19. Assim, guardaríamos activamente a distância por um resguardo contra um invasor. A questão inverte-se porque podemos ser nós mesmos portadores sem sintomas da doença. Quando pensamos nessa possibilidade, é óbvio que a atenção é redobrada. Guardamos a distância proactivamente, como se nós próprios fôssemos transmitir a doença, aos mais próximos e aos mais afastados. Ao ter sempre presente essa possibilidade, a atenção dada aos gestos mais simples do quotidiano ganha um sentido que estes não tinham, porque executá-los ou não os executar significa não ser agente do mal ou ser agente do mal, transmitir ou não transmitir a doença. A guarda fechada é eficaz mas é uma medida adhoc, está na expectativa, depende da realidade a que se está exposto. A compreensão da possibilidade de que se pode ser agente patogénico muda a nossa percepção da realidade a cada instante e não só a percepção, também insta à execução que põe em prática as medidas adoptadas.

Um sim, um não. É o que é, para já. O insólito e o sinistro dilui-se, se percebermos que era o que teríamos feito se a sala do restaurante fosse a nossa sala de jantar e estivéssemos à espera de convidados que pudéssemos vir a contagiar.

O nosso ser com os outros não é nunca só passivo, reactivo, é também activo, proactivo. No modo como os outros nos aparecem não há só percepção. Toda a percepção tem de estar associada a um cuidar do outro na relação consigo. Só assim também se percebe o descuido e a negligência.
Um sim, um não.

29 Mai 2020

2022 ano pós pandemia

Como vai ser agora a nossa vida? Estamos em negação a diversos níveis, embora “estejamos a portar-nos bem”. Encontramo-nos sob um leve, levíssimo, stress pós-traumático, porque, se, por um lado, começamos a sair de casa e procuramos reivindicar o tempo do quotidiano, por outro lado, existimos desajeitados com máscaras, luvas, distantes sociais, sem beijos, abraços ou apertos de mão. Quer dizer, o nosso tempo é o do cuidado e da preocupação, ao antecipar possíveis recidivas, novos planos de confinamento, caso pudessem ser postos em prática, com uma economia esfacelada e uma psicologia histérica.

A própria ideia de sucesso nestas circunstâncias, de superação o melhor possível de uma epidemia pandémica, é muito relativa. Custou vidas e a saúde a muita gente. Basta ver como as praias e os jardins infantis vão abrir para uso dos seus utentes para se perceber que podemos ter todas as dúvidas se não seria melhor mas era que se interditasse o seu uso até nova ordem do estado de coisas. Em todo o caso, a realidade abriu as suas portas sem que a sua chancela seja a do presente e meramente a da actualidade. A realidade está vista com o olhar retrospectivo que vem de um futuro ainda obscuro, pouco definido e com o enfoque na possibilidade de um novo surto a partir de onde nasça uma nova vaga pandémica.

Não estamos inteiramente livres para a realidade. A actualidade é vivida com os olhos postos no futuro.
A filosofia sempre nos ensinou isto, mas agora podemos “viver” na realidade o que acontece na dimensão filosófica. A actualidade realidade é negada pela actualidade do futuro. A possibilidade é mais poderosa do que a realidade. O mal possível que vem do futuro é mais poderoso do que o bem actual que existe no presente.

Estamos virados para o futuro mais ou menos próximo da realidade das nossas agendas. Percebemos que a nossa agenda entra concretamente pelos próximos meses. Temos percebido como entra nas próximas horas, dias e semanas, meses, mas quando pensamos em trimestres, semestres ou outras unidades de tempo como final do ano lectivo, férias grandes ou Verão, fim do ano civil, Natal e ano novo, tudo muda. Quando eventos como festivais, espectáculos de toda a espécie, encontros científicos internacionais, viagens de negócios, são adiados por um ano ou para 2022 estamos num adiamento complexo que permite perceber como estamos colectivamente depostos no futuro. Neste caso a nossa deposição no futuro é pelo adiamento.

Normalmente contamos com o futuro como se estivesse ligado já por associação com o presente. A ligação entre o presente e o futuro dá a sensação que o futuro está já garantido e na verdade a suspensão da possibilidade de futuro em bloco para toda a humanidade permite perceber como estamos depostos só numa possibilidade sem garantias do seu acontecer, de que venha a tornar-se realidade. A possibilidade mesmo que esteja a ser preparada com todas as garantias sérias pode esfumar-se como um sonho irreal. Neste caso temos um adiamento por meses, anos. É menos do que dois anos, mas de 2020 para 2022 dá um mal estar psicológico. Parece mesmo que estamos a adiar o futuro por dois anos. E acreditamos mesmo que entre nós e o evento futuro está a ser enxertada uma quantidade de tempo que vai ser ultrapassada e quando tiver sido ultrapassada, o futuro vai efectivamente acontecer, ligar-se ao presente, o presente vai ligar-se ao depois, ao momento seguinte. Entretanto, vamos ter de viver, com medidas profiláticas para não perder a saúde, restabelecer a saúde daqueles que a perderam, garantir a saúde da economia, cobrir as perdas, tentar recuperar os danos colaterais resultantes do confinamento. O tempo passa na mesma, mas aquele que importa, o nosso tempo com saúde, com possibilidades económicas e financeiras, com viagens, congressos, idas a espectáculos, casamentos, vindas de amigos e familiares, tudo fica em suspenso.

22 Mai 2020

O fim da quarentena?

A quarentena foi uma época das nossas vidas. Tem tudo idêntico a uma estadia numa qualquer estância onde se passa um tempo diferente do quotidiano. Estadias podem ser residências de artistas. Não são apenas os locais mas as temporadas que as pessoas passam nesses locais. As estâncias são balneares, termais, nas montanhas ou até hospitalares. A quarentena é um objecto temporal no sentido em que é uma temporada, uma estadia. Antigamente, passada nos navios, antes de se aportarem. A quarentena que vivemos teve a sua estância que é exactamente a mesma onde vivemos, ainda que tivesse havido pessoas que tivessem ido para casas umas das outras e ainda quem tivesse mudado de região. O que define a residência e a estância da quarentena é a temporada, o modo como se viveu a estadia na nossa residência domiciliária, na nossa estância existencial. Entrar em quarentena não coincidiu com o dia do seu decreto nem requereu obediência às determinações de comando. A população em bloco e de forma maciça com um único pensamento de preservação de si e dos seus, decidiu, numa expressão excepcional de vontade colectiva, querer entrar em quarentena. A decisão antecipava o perigo iminente do contágio e constituiu uma medida de segurança activa e de resistência contra o que muitos acharam que podia ser um suicídio colectivo ou da parte das autoridades um genocídio. Entrar em quarentena é abrir o horizonte da temporada em que o contacto entre uns e outros não é possível, se determina uma “distância social”, definem-se protocolos de higiene, não se pode sair à rua, vive-se em casa e a partir de casa. Basicamente, fechamo-nos fisicamente aos outros, não nos tocamos, não temos contacto, afastamo-nos o suficiente para permanecermos intocáveis pelas as nossas respirações. A vida é virada do avesso. O mundo inteiro que se estende até ao vasto cosmos, com fronteiras desconhecidas, é um interior onde não se pode ir. A casa é o nosso mundo, limitado, pequeno, estreito, mas onde cabe o mundo inteiro, onde se come, dorme, trabalha, ama, está só e acompanhado. Onde se é, onde se tem a existência. A casa vira-se do avesso e exterioriza-se.

O mundo implode na sua vastidão. Os outros todos desaparecem. Não há pessoas na rua. Só dentro de casa, mas isso é uma suspeita. Agora é como sempre. Sabemos o que sempre soubemos dos outros: nada.

Achamos que por os vermos sabemos das vidas deles. Agora que não os vemos sabemos que sabíamos antes o mesmo que sabemos agora.

Antecipamos o fim da quarentena, mas com tanto cuidado que não foi uma saída. A temporada da preocupação não findou. Temos ainda a preocupação das últimas horas, do último fim de semana, da última semana, do último mês e meio, do fim de Fevereiro atrás das costas, a fazer sombra sobre o nosso presente e a projectar-se nas próximas horas, dias e semanas. A temporada desta estadia não terminou completamente. A nossa residência não terminou completamente. O guião está a ser escrito com esforço, com tentativas de antevisão, procuramos todos os boletins de previsão e prognóstico, não antecipamos nada de bom, contamos com o pior. A tensão vibrante com a abertura escancarada da rua, da praça pública, do aperto de mão, abraço do- e beijo ao- outro não se dá ainda.

É ainda esta estadia, esta temporada estranha, nesta estância das nossas vidas tão conhecida, tão próxima, a nossa casa. A nossa casa, a minha casa passou finalmente a ser o meu mundo. O mundo é uma extensão implosiva que colapsa num movimento e deslocação centrípeto para dentro e para o meio da minha cabeça.
Tudo o que há é da minha cabeça, de alguma maneira (Aristóteles).

14 Mai 2020

Quarentena a dar que pensar

É inegável o misto de sentimentos com que a quarentena provocada pelo Corona vírus tem sido vivida. Há um estado alerta generalizado, nacional e internacional, à escala local, monitorizada pelo poder de uma câmara municipal, e à escala global. Importa a atenção dadas às notícias a nível global. Interessa-nos tanto o que se passa na avenida Marginal quanto o que se passa no parlamento europeu, em Wuhan como em Washington. O mundo é global e local, regional. Basta ver os boletins informativos para percebermos que a epidemia pandémica provocada pela Covid-19 tem consequências microcósmicas, nas casas de cada um, nas medidas que cada um adoptou para si a pensar nos outros. Não apenas nas novas medidas como distanciamento social medido ao centímetro, forma de tossir para o cotovelo, lavar as mãos amiúde, uso de luvas descartáveis, máscara. Mas todas as nossas acções, comportamentos, relação com os outros, explícita ou implicitamente estão envolvidos por um filtro ou ecrã total que erguemos entre nós e os outros, todas as coisas em que tocamos, peças de mobiliário, volante de automóveis, interruptores, electrodomésticos, etc., etc.. Mas também entre nós e nós adoptámos medidas assépticas. Lavamos as mãos, não levamos a mão à cara, não nos coçamos, esfregamos os olhos. Estamos vigilantes. Evitamos os outros como evitamos ir até à proximidade dos outros. Trabalhar a partir de casa, não ir à rua a não ser quando é estritamente necessário, não ver ninguém a não ser aqueles com quem partilhamos o quotidiano e sabemos que não poderíamos evitar terem sido para nós com nós para eles agentes recíprocos de contaminação.

Há, assim, uma camada virtual com consequências físicas a evitar o contacto directo, de proximidade, com o mundo na sua totalidade, com os outros principalmente e com as coisas em que os outros podem tocar.

Tornamo-nos solipsistas uns relativamente aos outros. Mas isso não quer dizer que não pensemos nos outros ou não falemos com eles por todos os meios que temos à nossa disposição. Falamos com amigos no estrangeiro com quem não falávamos há anos e amiúde com quem falamos raramente.

Há uma causa comum à sociedade. Há um envolvimento de toda a gente nesta causa comum a nível planetário. A alteração do modo como exercemos as nossas actividades, o fecho de algumas actividades e a abertura de outras, a transição do espaço aberto da rua para o espaço fechado da casa, o colapso do espaço físico real, a construção do espaço virtual: são algumas das acções que foram e têm sido levadas a cabo. O espaço físico e real é tão virtual como é físico e real o espaço em que abrimos o computador, a cadeira em que nos sentamos. Mas há uma diferença entre a vivência de espaços com o direito à reserva de admissão e sem essa reserva. Há uma diferença entre a interdição e o levantamento de interdições, entre proibição e não proibição. O que acontece é que a rua ficou fechada e a casa ficou a ser o sítio mais aberto que temos à nossa disposição. A casa não ficou aberta nem a nós, porque já dispúnhamos dela, nem aos outros que agora nem sequer cá podem vir.

O privado não se tornou público nem o público privado em geral. Sucede que muitas das situações em que nos encontramos passaram a ser controladas a partir de casa. O espaço público passou a ser partilhado virtualmente a partir da casa de cada um, e entramos no chating que foi inaugurado pelos voyeurs de pornografia e violência, youtubers, jogadores de jogos virtuais. O lazer, o brincar, o jogar, o que se faz para passar o tempo passou a ser a possibilidade estruturante das actividades sérias da vida. Por outro lado, há uma imposição de regime que resulta da disciplina. Procuramos ter uma vida mais saudável: fazer desporto, como se vai menos às compras, faz-se uma previsão e um cálculo diário do que se vai comer, temos cuidado com os mais velhos e com as crianças que vieram para ficar 24 horas por dia em casa.

Vivemos num esforço contínuo de antecipação, quantas pessoas adoeceram e quantas morreram, quantas se curaram e quantas se irão curar? Quando saímos da situação de emergência? Com que custos? Como vai ficar o desemprego? Como seremos abalados na nossa saúde física e financeira?

Existimos no modo de sobrevivência. Compreendemos ou ficamos sensibilizados para os níveis de stress em pessoas que são obrigadas a passar mais tempo juntas do que habitualmente. Muitas nem sequer estiveram alguma vez a sós consigo mesmas. Mas não pode haver uma tensão total para que de tão rígida fiquemos paralisados. A situação é crítica a diversos níveis. Não se sabe quando passa nem como passa. A indefinição não poderá manter-se para sempre. Mas não pode haver fuga para a frente em que se deite a perder tudo o que foi alcançado com a quarentena

Temos de guardar a calma. O impacto de totalidade implica uma reorientação, um redireccionamento, que levem a uma focagem que resulte de uma compreensão do que é importante e do que não é importante, se temos o que necessitamos ou não, se somos o que fazemos ou fazemos o que somos, se a vida é desperdiçada com o que não tem significado nem importância. Não estamos sozinhos. Temos as gerações passadas para nos ajudar com os relatos que nos deixaram, cartas endereçadas do passado para nós seus irmãos posteriores. Do mesmo modo a nossa responsabilidade é com os nossos contemporâneos, velhos, novos e os que estão ainda por nascer. Importa esgotar as possibilidades que são criadas na impossibilidade e no caos.

24 Abr 2020

Epidemia pandémica

Na raiz das palavras “pandemia” e “epidemia” está a palavra grega para “dêmos” que quer dizer originalmente “distrito”, “região”, “país”, mas ganha o sentido das, por extensão, do número de pessoas que habita esses locais, portanto, os habitantes, o povo. O verbo epidêmeô quer simplesmente “estar em casa” ou “viver no país”. Opõe-se me sentido ao verbo “apodêmeô” que quer dizer “estar ausente”, por exemplo, de visita ao estrangeiro, “não estar em casa”, “não estar no país”. O adjectivo “epidêmios”, na acepção contemporânea do termo, refere-se, assim, a uma doença que se fixa numa comunidade. A doença não ataca um indivíduo apenas, nem uma casa, como quando uma família fica “de molho”, porque um membro “apanhou” uma gripe e acabou por “pegar” todos os restantes elementos. Aqui a doença é uma entidade que existe fora de portas, é levada para casa, sem dúvida, mas é também exportada, existe nos lugares públicos, não “faz acepção de pessoas”, não segrega ninguém, nem velhos nem novos, nem mulheres nem homens. Atinge toda a gente. A doença é um “ser” à solta.

Não se sabe onde está. É um “agente secreto” com poder letal que tem de ser identificado, controlado, eliminado. Existe clandestinamente. Pode manifestar-se, acordar, dar a entender por manobras de distracção que vai deixar-se apanhar, para escapar no momento seguinte. Adormece e hiberna. Parece ter desaparecido. Às vezes parece submergir para sempre, porque não provoca baixas, mas volta sempre à superfície de maneiras insuspeitadas, com poder letal reforçado, capacidade de alastramento mais rápida do que a irradiação de infinitas bombas atómicas a deflagrarem, mas com um poder de destruição que avança em todas as direcções, do interior ínfimo de onde nasce e cresce para as zonas periféricas ainda no interior do corpo humano onde se aloja, para ser exportado para as pessoas disponíveis na proximidade a uma velocidade supersónica. O advérbio “pandêmi” que Tucídides usa para referir um exército que marcha com todo o seu poder, infantaria leve e pesada, cavalaria e naval, ao avançar com todo o seu contingente e tropas aliadas, progredindo “em bloco” ou “como um só corpo” é aplicado na epidemia pandémica para descrever uma doença com um poder de contaminação fulminante capaz de alastrar rapidamente a toda uma população. As descrições antigas de como a guerra se declara e acontece são em tudo semelhantes ao acometimento de uma doença. Em ambos os casos estamos perante um fenómeno de ataque, um acometimento.

17 Abr 2020

Como teriam sido as nossas vidas, se…

Pensamos muitas vezes no que teriam sidos as nossas vidas se os factos determinantes que vieram a definir-nos não tivessem acontecido. Pensamos também no que poderia haver de transformador se a história tivesse seguido cursos alternativos ou até um percurso exactamente contrário àquele que veio a seguir, se Hitler tivesse ganhado a guerra o que seria da Europa. O que se nos oferece para pensar tem a sua origem na nossa vida que corre paralela à da realidade, a vida na possibilidade. Alguns de nós conhecíamos bem esta dimensão mágica da vida: fantástica, cheia de imaginação, com personagens reais e criados nas nossas cabeças, se tivermos tido um sonho de infância. Houve tempos na nossa juventude, essa época fascinante das nossas vidas em que nem sequer podemos dizer que nos entregámos à ficção, porque, pura e simplesmente, o que havia de realidade era um engano. A época da vida que corresponde à juventude tem ainda a dimensão fantástica da infância, mas tem agora o vigor não anulável da tempestade e da paixão, é romântica ou apresenta uma qualquer variação do romantismo com os seus múltiplos objectos: uma outra criatura humana, um comprometimento político, um estilo de vida, uma definição, uma tendência, a fixação de uma inclinação num estilo. Na infância e na juventude o que nós pensamos, o que se nos oferece a pensar, não existe num plano diferente do plano da realidade. O que se passa na casa dos nossos amigos, na nossa rua, na escola, no clube e o que se passa no isolamento aparente do sonho a dormir à noite ou no sonho a dormir acordado é indistinto. A vida é fantasia, fascínio, encantamento. Pode ser, na verdade, maravilhoso como pode ser tremendo. É um mistério. E, contudo, não se percebe bem como ou quando se impõe a versão da verdade que chamos realidade, a realidade objectiva, a verdade pura e dura posta a descoberto nua e crua. Há uma diferença clara entre o mundo do fascínio da infância, apenas sonho, o mundo da juventude, só esperança, e o mundo adulto: pragmático, sem sonho, sem esperança. E, contudo, o mundo adulto não é um mundo à parte. É um mundo projectado por uma forma de pensamento, que reduz a fantasia à percepção, o sonho à realidade, a esperança no futuro à actualidade, sem conexão com o futuro.

Como seriam as nossas vidas se tivesse acontecido o que, pelo menos assim nos parece às vezes, queríamos tanto que nos tivesse acontecido: desfazer um não e fazer que sim, aproximar-nos em vez de nos afastarmos, quando tínhamos podido, ou no que não está nas nossas mãos: assistir ao rumo positivo das coisas, quando elas acabaram, não houve as negas que tivemos, não houve interdições, nem proibições, nem nada de negativo, não fomos nós que não conseguimos, que não chegamos a tempo, não foi o espaço que se fechou o tempo que não houve, alguém continuou nosso amigo e não houve mal entendidos, o amigo da infância não morreu num desastre de automóvel, os nossos pais são imortais. Como seriam as nossas vidas se não acontecesse o que está a acontecer, e o que está a acontecer é inexorável? Como seriam as vidas das crianças e dos jovens no Verão de 1914 antes de arrostarem com a carantonha feia e sinistra da guerra e que desfez infâncias e juventudes, pior: desfez futuros individuais e colectivos? Seria ainda possível deixar chegar o Verão de São Martinho a 1939 ao norte da Europa e assim ao Ocidente?

Pode a Europa deixar-se enredar na semântica das palavras e afundar-se no ocidente (a terra do sol poente)?
A nossa vida é o que é. Existe como realidade indelével. A resolução para o impasse está na infância e na juventude, se não foi extirpada a raiz onírica do pensamento. O pensamento cria esperança. A origem do pensamento é o futuro. A infância e a juventude estão próximas do princípio, mas o princípio vem do futuro.

Como os antigos tão bem perceberam, no princípio o que havia era já o fim e o tempo das nossas vidas passa em contagem decrescente. O princípio e tudo o que tem sido vivido está à nossa espera na hora da nossa morte, chegue essa hora quando chegar.

3 Abr 2020

Peste III

Os corpos dos mortos amontavam-se. Criaturas meio-mortas cambaleavam. Juntavam-se à volta de todos os fontanários. Os lugares sagrados encontravam-se pejados de cadáveres. À medida que a catástrofe passava todos os limites, os homens, sem saberem o que lhes ia acontecer, tornavam-se completamente indiferentes a tudo, fosse sagrado ou profano. (Tucídides H. 2, 52.3-4). Os homens atreviam-se, agora, a fazer às claras o que, anteriormente, procuravam fazer sem dar nas vistas. O rápido desaparecimento das pessoas e daquela maneira atroz, o prejuízo dos melhores e o benefício dos piores levava que tudo esbanjassem, sobretudo no que desse prazer. A riqueza era tida como coisa de um só dia. Perde-se a vergonha e a honra. A conduta tinha como única regra o gozo do presente. Apenas o gozo é honroso e útil.

O medo dos deuses e das leis dos homens não constituía limite algum ao modo de viver “Ninguém esperava viver o tempo suficiente para ser levado a julgamento por causa das suas ofensas, antes sentiam que uma pesada pena havia já sido lavrada contra todos eles, estando suspensa sobres as suas cabeças. Pelo que, antes que lhes caísse em cima, era justo que não pensassem noutras coisa senão em gozar a vida.”

Toda a especulação acerca da origem e das causas da doença, se é que é possível encontrar causas capazes de produzir tão grande devastação, é deixado ao cuidado de outros, leigos ou profissionais.

A descrição, identificação, isolamento e reconhecimento do decurso e história clínica da doença bem como dos seus sintomas tem como único objectivo a possibilidade de poderem ser reconhecidos, caso a doença volte a aparecer. É isso que Tucídides pretende.

Em causa está a possibilidade da prevenção, da profilaxia. Os indícios estão no passado. Mas são indícios no interior do horizonte humano. O seu rastreio é por mor do futuro. Não enquadra nenhum outro interesse senão esse. O estatuto ontológico da investigação não visa nenhuma apreensão do que se passou, mas o reconhecimento possível do que poderá vir a passar-se. É talvez o destino da res humana e da nossa condicio estender-nos entre o que se passou e o que poderá vir a passar-se. Mas se a causa fáctica se encontra objectivamente dada, é do futuro que ela abre. Talvez a causa final não esteja identificada. Mesmo com as 17 ocorrências do substantivo em Th.. Mas ela opera de modo tão fundamental que não permite por defeito de finitude o seu reconhecimento ou isolamento. Em causa não está nenhuma disputa de estilo literário, mesmo quando em causa estão formulações líricas, trágicas, técnicas. A narrativa não é um conto. O que se pretende é examinar com transparência o que terá acontecido, porque o que aconteceu será possivelmente o que poderá acontecer outras vezes no futuro, de acordo com a constituição humana. Tem em vista a utilidade. Não o prazer.”

O que Tucídides escreve é sempre por mor do futuro. É uma posse para a eternidade. As causas da Guerra terão de ser reconhecidas para a podermos evitar. Os sintomas da doença habilitar-nos-ão ao tratamento eventual ou à prevenção profilática.

Trad. David Martelo

27 Mar 2020

Peste II

A descrição da peste na História do Peloponeso é feita com a precisão de um cirurgião: os sintomas da doença, o modo como o mal alastra, como se dá o contágio, a infecção, como se verifica imunidade. A identificação de cada um destes dados surge num quadro geral de análise clínica se assim se pode dizer. O carácter geral da doença (eidos tês nosou) ultrapassava a descrição, logos, e o poder devastador atacava severamente a condição humana (anthrôpeia physis). O eidos tês nosou é descrito em vista das características gerais da doença (epi pan tèn idean). Tucídides relata o início do surto. Onde e quando teve o seu início. Parte do pressuposto evidente mas que não deixa de enunciar. A doença tal como a guerra tem um poder destrutivo para a condição humana. Descreve depois a forma como alastra.

Geograficamente onde teve início: nas regiões altas da Etiópia, sobranceiras ao Egipto. Daí desce para o Egipto e Líbia. Penetra na maior parte dos domínios do Rei. Surge abruptamente em Atenas, onde flagela primeiro a população do Piereu.

Num segundo nível de abordagem liga a pandemia à guerra. Provavelmente será uma das primeiras acções de guerra biológica relatadas.

Não se trata apenas de um surto de uma doença. É um surto provocado. Os verbos utilizados por T. são os mesmos que descrevem um ataque, um assalto. Uma forma de acometimento severo. As palavras com raiz em PIPT (πιπτ-) “cair” têm um uso médico. A personificação é expandida com o verbo: atingir, chegar.

A descrição exterior do percurso geográfico objectivo e da causa intrínseca da guerra biológica, não conseguem senão uma personificação. As causas de uma tal transformação com o poder de devastação total (dynamis eis to metastêsai) ou não são reconhecidas ou têm de ser procuradas de um outro modo completamente diferente. Os sintomas da doença terão de permitir um reconhecimento de um surto no futuro. Portanto, o sentido da descrição é a prevenção ou a cura. As notas fazem lembrar necessariamente a metodologia historiográfica a que se aludiu no início deste percurso.

Sintomas específicos:

Calor na cabeça. Inflamação dos olhos; inchaço na língua e garganta; hálito fétido (49.2). Rouquidão com tosse violenta e espirros; vómito da bílis (49.3:). Erupções da pele: úlceras pustulentas; hiperestesia total do corpo e inquietação; sede irresistível e desejo de mergulhar em água para aliviar o calor do corpo (49.4). Exaustão terminal, aparentemente produzida pro diarreia (49.6:). Perda dos dedos dos pés, da mão e genitais; destruição dos olhos; amnésia (49.8).

Traços gerais:

Os pássaros e os cães são infectados (50.1-2). Todos os tipos físicos são susceptíveis de contágio (51.3). Os sobreviventes adquirem uma imunidade específica (51.5).

Mas finalmente, dá-se o descalabro total das restrições sociais e morais (52-54).

Acresce à descrição, o testemunho pessoal de quem padeceu da mesma doença. O relator ficou doente e sobreviveu. Tucídides analisa de seguida a alteração convulsiva que o horizonte de sentido da vida experimenta ao ficar sem quotidiano. A população fica na circunstância complexa de viver toda ela ou sem futuro ou com os seus como vítimas da doença. O apocalipse que Tucídides descreve mostra a forma como cada um reage perante a morte. Mas a morte é experimentada na sua iminência de forma colectiva. A ameaça de morte iminente não é provocada pelo ferro e fogo, mas pela doença. O mundo às avessas que se experimenta colectivamente opera também de transmutação dos valores outrora expressa pela revisão do sentido habitual dos termos.

Tucídides procede com a descrição de sintomas no interior (ta entos) do corpo. Como se alguém estivesse numa consulta a dizer ao medico as suas queixas. Contrasta-os com o que se passa do interior do corpo para fora do corpo (to men ecsothen: 49, 5). A descrição faz-se de fora para dentro do corpo humano. Os sintomas evoluem da cabeça para o estômago e do estômago para as extremidades. Depois a descrição faz-se de dentro do corpo para o meio ambiente, contágio e infecção. (2, 49, 2: sem nenhuma razão aparente, mas de repente, a doença ataca quando as pessoas estão de boa saúde).

A dada altura, as aves de rapina deixaram de comer carne humana. Depois, desapareceram por completo. A atitude geral das pessoas perante a vida alterou-se completamente. Deu-se uma mudança de mentalidades, a dissolução do pacto social.

Quem vive paredes meias com sofrimento e morte, perda de entes queridos tem a sua vida oprimida pelo facto de se tratar da solidão de cada um espelhada na solidão do outro. O carácter comum da doença deixou todos sem excepção numa situação histérica sem precedentes, nec plus ultra.

20 Mar 2020

A peste I

A metamorfose da paz em guerra, a mudança de uma vida que corre bem para a impossibilidade de constituir um quotidiano não resulta apenas na violência extrema. Leva a uma alteração do próprio sentido e da sua compreensão. Até a correspondência das palavras às acções se altera convulsivamente.

Diz Tucídides nas suas Historias (3, 82.4): “A audácia selvagem” passou a ser considerada “coragem”, a hesitação, cobardia, a moderação, falta de virilidade, a consideração de todas as opções inépcia no agir, a conspiração, autodefesa, o extremismo, confiança; o intriguista, astuto. As associações não visavam o benefício, mas causar danos às existentes. A confiança fundava-se na cumplicidade decorrente dos crimes cometidos. A vingança superior à autodefesa. O cessar fogo valia enquanto o recurso à violência não fosse possível. Os patifes eram tidos por espertos e um bom homem estúpido. O orgulho em ser patife opunha-se à vergonha de ser-se bom.

A subtracção da possibilidade de uma quotidianeidade e do livre curso das vidas das pessoas em paz dá origem a uma inversão total no horizonte de sentido do modo como as pessoas são umas com as outras ou umas para as outras. Tucídides faz o diagnóstico da consequência da perda da base de confiança e possibilidade de entendimento em que haja uma quotidianeidade. Mas não faz apenas esse diagnóstico dos sintomas que são decorrentes de uma dada causa. Estalou a guerra civil. A sua pergunta é de segunda ordem. Qual é o motivo da deflagração de uma guerra.

“O fundamento de todas estas situações era o amor pelo poder que nasce na ganância e na ambição e as paixões que nascem quando os homens são lançados num combate.” (Th., H. 3. 83. 8).

Na raiz de todos os fenómenos que Tucidides elenca encontra-se a “natureza humana”. A ganância, a luxúria do poder, a ambição são os operadores categoriais que se salientam do plano de fundo: — O humano. É assim que Tucídides gosta de descrever os fenómenos: as primeiras ocorrências porque constituem a novidade. Mas está continuamente a detectar novas configurações num enquadramento “clínico”. Novas etologias para os sintomas.

A Guerra condiciona o humano. Mas o humano é condicionado pela pleonexia (ambição desmesurada, ganância). A ganância leva à transmutação total dos valores. Ou então à acentuação de um único modo de ser com eles. Querer ter tudo implica sempre um querer que os outros tenham nada. Elege cada pessoa como o “máximo” e todos os outros vêm por aí abaixo. O partido ou a facção é a hipostaziação do único que cada indivíduo é numa sociedade em que quem não é por si é contra si.

A descrição da peste tem um mesmo padrão.

Tucídides relata o início do surto. Onde e quando teve o seu início. Parte do pressuposto evidente mas que não deixa de enunciar. A doença tal como a guerra tem um poder destrutivo para a condição humana.

Descreve depois a forma como alastra. Geograficamente onde teve início: nas regiões altas da Etiópia, sobranceiras ao Egipto. Daí desce para o Egipto e Líbia. Penetra na maior parte dos domínios do Rei. Surge abruptamente em Atenas, onde flagela primeiro a população do Piereu.

[continua]

13 Mar 2020