Uma despedida

De repente ela encosta a boca ao teu ombro. Os lábios abertos pousados no ombro. A mão toca no troço interior e escorre na liquidez do olhar. Um olhar enxuto. Abraçam-se. Ela tinha há minutos aberto uma melancia e sabia agora na língua a essa melancia muito doce. Serpenteiam-se de bruços com as tuas mãos por baixo das costas dela, numa assimetria de unhas que ignora o movimento dos pés e dos joelhos que se entrelaçam com a ira. Depois explode um vagar que atinge o calor da pele recortado nos lençóis. Nesse lance, ou nessa convulsão, a tua cabeça mergulha entre as coxas dela, abre-as com as mãos e o rasgo e a incursão da língua penumbram nos lírios. Um dos braços estreita um beijo fugaz, como se fosse espiga levantada pelos olhos fechados, mas ainda a sulcar um ou outro silêncio. Há como que um torrão de barro a desfazer-se nessa picada que ocupa o corpo a corpo. Uma melancolia por dissecar. Subitamente a voz eleva-se. Um gemido rude de gavinhas até que ela te traz de novo à boca e o aflora em preâmbulos sucessivos.  Do arroubo separa-se uma nuvem e ficam os dois sentados a encarar o sumiço com que os dedos levemente se tocam. Uma saudade da saudade ou um sínodo quase final apenas para arrolar o suor.

Ela despia-se rapidamente sem se dar ao corpo ainda solto dentro do vestido, maciço, incandescente. E tu num curso giratório segredaste o alarido ou o resquício surdo e ela sorriu com a pele quase absoluta. Reentraste assim com os dedos na raiz dos cabelos dela e, logo a seguir, percorreste a cintura como uma luz que se afunda até ao sangue. Ela mastigou o polegar enquanto tu te arrastaste para essa omissão macia no meio das coxas. A boca continuou aberta pelo sopro que era a água turva, a avidez. Deixaste a mão aberta até lhe atingir a profundidade das costas. Ela desejava enlaçar com as pernas todo o ócio desses dias sem fim numa única lufada. Numa única seda. Num único revólver. Fervia de tanto crispar. Resvalaste ao longo das axilas com os lábios dela já molhados. Pediu-te que a tomasses pelo pescoço, que lhe bebesses as mamas e que te viesses.

Fechou ainda os olhos e logo tocou na cavidade com que a olhavas para dentro dela, ao mesmo tempo que lhe engolias a ostra emaciada com excessiva lentidão. Fizeste-o com aquela dicção do rosto que coagula no tempo e ela ficou ilesa, refractária. Deitada de lado só já com as pestanas a compor o fim da tarde que se ouvia vindo do mar.

Beijas-lhe, beijas-lhe outra vez os pés num rompante e ela eleva-se sobre o sofá. Ampara-te no peito e antecipa o formigueiro a penetrar o veludo liso das virilhas onde as tuas mãos se estreitam em forma de casulo. Ela respira a incitar com as palmas das mãos muito abertas e é nesse momento preciso que lhe voltas a sondar os seios como se pegasses nas vísceras e logo despertas para a voz amotinada que pareceria sair de outra noite e de outro flanco. Sempre, sempre a ofegar. Sem hesitar, ela avança com a cabeça para surrar esse calor, prende-te a cintura e deseja tê-lo inteiro, teso e espesso dentro da boca. Deseja tê-lo intacto a esbarrar contra o céu da boca. Fecha os lábios cheios de carne e em círculos continuados reclina as costas, apoiando-se nos joelhos.

Travaste-a pelas ancas, depois nas nádegas enquanto ela, oblíqua, comprimia as pernas a rastejar contra os braços do sofá. Um soluço acirrou o breve sufoco ao jeito de um poente que rompe o desgosto de teres de a deixar já amanhã. Nada é eterno. Mas ela insiste e torna a curvar o dorso para deglutir a luz amarelada das persianas. Nesse desfalecimento, fixaste-lhe as pálpebras e o suor a lamber-lhe as linhas muito planas da testa.

Com os cabelos a cobrirem o rosto, caiu então pela pequena morte igual a uma única bala dividida pelos dois. Voltaste ainda a entrar dentro dela numa derradeira fúria, uma demora rápida até te vires em pedra, no osso. Ela olhou-te então do interior do grande estuário, como se o encanto e a danação fossem o mesmo e longo gemido para poder finalmente lavrar as horas.

Era o último dia, era ainda a grande janela, a grande sacada. Ficaste a observar o reposteiro que imitava a brisa, que devagar a possuía. Permaneceram os dois como duas esfinges a olhar para a janela aberta de par em par. A janela que dá para o mar. No amor não há despedida.

2 Dez 2021

Uma simples brecha

É certo que não existe hospitalidade na leitura do mundo. O sentido é um curto-circuito que apenas esporadicamente se transforma em explosão. Todavia, para compreender o que se avizinha – ou o que estará por vir -, a tentação manda que se procure sempre uma luz sob a qual persistirá a mais estranha das obscuridades. Foi o que me aconteceu ao seguir os sublinhados da minha leitura, há alguns anos, do romance Túnel de Ernesto Sabato.

O livro não se inicia em estado de clímax, como é evidente. Afinal, mais do que permitir ao leitor cair imerso e desamparado no vórtice da cena, o autor limita-se a dar voz ao protagonista para que anuncie o que é decisivo na narrativa: “Bastará dizer que sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou Maria Iribarne”. O jogo parece ficar todo à mostra, poderá pensar-se, mas não é isso que realmente acontece. Até porque um clímax coloca em jogo actos, factos e situações, enquanto a tensão criada pela declaração de Castel apenas gera um estado de alerta. Mas um alerta que cativa e que conduzirá o leitor a ter que virar a página. A mestria começa justamente aí.

O enredo abre-se depois do mesmo modo que se abre um desdobrável: no dia da inauguração do Salão da Primavera de Buenos Aires de 1946, uma mulher fica muito tempo parada diante de um quadro do próprio Castel. A figuração impunha, em primeiro plano, uma cena onde contracenavam mãe e filho, uma imagem levemente desfocada sobre o seu realismo momentâneo. Mas o que acaba por cativar Maria Iribarne – a anónima visitante do salão –, alheada das vozes circundantes e do solilóquio dos críticos, é um detalhe do quadro a que fica intensamente presa durante minutos e minutos. Como se um pormenor da pintura – era uma simples janela – pudesse isolar-se do mundo inteiro, tornando-se numa espécie de luz ao fundo do túnel de toda a criação, de toda a imaginação, de todos os textos.

Este facto viria a mudar a vida de Castel. A partir da timidez e silêncio em que se resguardava, seguiu obsessivamente o fascínio da mulher pelo detalhe do seu quadro. Vira-a ao longe no Salão durante minutos – uma eternidade –, até que Maria Iribarne abandonou a exposição: “Durante os meses que se seguiram, só pensei nela, na possibilidade de a voltar a ver. E de certo modo só a pintei a ela. Foi como se a pequena cena da janela começasse a crescer e a invadir toda a tela e toda a minha obra”. O ponto de partida de O Túnel de Sabato (1948) é tão simples quanto admirável. Uma mudança radical a partir de um aceno breve e aparentemente sem peso. Mas o suficiente para carburar uma trama intensa.

O relato tornar-se-á permeável às coincidências e a uma série de contingências algo inesperadas. O suficiente para que ambos se encontrem e para que o voyeurismo de Castel se torne doentio. Cada vez mais abismado. A atracção acabará por tornar-se fatal. Há cartas, telefonemas, idas de comboio à casa de campo de Maria Iribarne. E há sobretudo o ciúme e a conjectura fantasmática que farão da saga aventurosa uma tragédia à procura do seu sentido.

É claro que de um grande ponto de partida nem sempre se deduz o que é esperado, sobretudo quando o leitor já sabe aquilo que o espera. Raramente as expectativas e o peso bruto dos factos pactuam. E a regra parece cumprir-se neste romance de Sabato: “Quando me entreguei, na esquadra, eram quase seis horas./ Através da janelita do meu calabouço, vi como nascia um novo dia, como um céu sem nuvens. Pensei que muitos homens e mulheres começariam a acordar e logo tomariam o pequeno-almoço e leriam o jornal e iriam ao emprego, ou dariam de comer aos filhos e ao gato, ou comentariam o filme da noite anterior/ Senti que uma caverna negra ia aumentando dentro do meu corpo”.

Mas o que interessará a potencialidade da narrativa e até o modo como o inimaginável se debruça sobre a enseada do imaginável? Afinal, a literatura mais não visa do que uma brecha. Um clarão capaz de tornar o olhar numa súbita visão. Ainda que muitíssimo breve. A janela de Maria Iribane teve efectivamente esse condão.

 

18 Nov 2021

Ela e a ausência

O que muitas vezes acontece não é história que se relate ponto por ponto, mas também não é coisa que se confunda com o simples passar do tempo. O que acontece é, quase sempre, uma infinidade sem meta ou talvez um dia que tivesse começado pelo meio.

Ela senta-se no baloiço, sobrecarrega-o com o corpo, oscila as pernas para a frente e deixa depois cair a cabeça para trás. Parece uma planta carnívora a abandonar bruscamente o seu estado vegetal. O jardim ao fundo termina sobre um fosso onde há cisnes e folhas mortas a velejar na água escura.

Ainda não a consegues ver. O busto oitocentista encobre a zona dos baloiços. Só sabes que não há crianças a correr, nem tão-pouco aquele tremor que vive de urgências fictícias. A calma profunda passa por saber que aquilo que ocupa o tempo é privarmo-nos dele. Um certo alheamento, por outras palavras, que não esconde a floresta densa que somos e o amor que guardamos numa arca muito bem escondida.

Quando a viste de perfil e ao longe, com as pernas esticadas e o pescoço a reerguer-se, percebeste que ela nada te iria dizer. Excepção para a nulidade com que se revolvem as frases ou com que se revolve a terra à procura de uma pedra raríssima. Há sempre esperança, diz-se em certa filosofia.

Sentas-te no banco de pedra que tem vários azulejos partidos. Conta-los um a um, são trinta e dois. Consegues vê-la a partir daí e ela, depois de ter de novo levantado a cabeça, avistar-te-á, se for essa a sua vontade. Terá que fazer um pequeno esforço, inclinar ligeiramente o rosto para o lado direito. Se estiver em recolhimento, tratar-te-á como uma porção de nada. Mas fê-lo, fê-lo a custo e tu reparaste. Coisa de segundos. Não poderias suplicar-lhe que regressasse ao início, quer dizer, àquele ponto imaginário em que vocês os dois se teriam conhecido há muito tempo, de tal modo que agora poderiam estar prestes a reencontrar-se. Era falso, nunca se tinham deparado um com o outro. Era a primeira vez.

Sempre que ela movia a vasta cabeleira, distinguias as alças transparentes que lhe envolviam os ombros e logo insinuavas em desvario que era altura de se dirigirem um ao outro para festejar os anos que haviam injustamente defraudado. Estavas a passar-te, como é evidente. Os teus pensamentos eram extravagantes, mas, por outro lado, é verdade que nunca na vida tinhas sentido pensamentos tão estranhamente reais. Por isso te levantaste e dirigiste a tua pequena sombra até ao baloiço onde ela se recostava.

Foi nessa altura que surgiu a imensa nuvem esverdeada de pássaros. Seriam estorninhos. Eram milhares e milhares e cobriram tudo. O lajeado da fonte, o busto, as argilas do parque infantil abandonado, os bancos, o fontanário, os muretes do jardim, o fosso, o coreto, os ramos das árvores e os canteiros. Tinham bico avermelhado e as penas levemente escurecidas na extremidade das asas. Todo o espaço à vossa volta se converteu numa chiada contínua, num estrilo que bramia por dentro das argamassas mais espessas. Diz-se que os contentores do porto por vezes se abrem. Desta vez foi uma estranha clareira do céu que raiou de ponta a ponta.

Ficaste na frente dela, mas ela não te encarou. Como se nada se passasse, voltou a balancear as pernas para o lado da frente e baixou de novo a cabeça para trás. O baloiço rangeu levemente com o peso, enquanto, à volta dos vossos corpos, a quantidade de aves era tal que dir-se-ia terem quase cegado a luz do início da tarde. A dada altura, só se ouviam penas a bater e a chilreada impregnara-se em todos os poros do planeta.

Dois ou três minutos depois, os estorninhos levantaram voo ao mesmo tempo. Formaram no ar uma espiral gigante que se movia nas extremidades e que logo se reequilibrava. Um assombro que cobriu toda a parte norte da cidade.

Baixas a cabeça lentamente para, de novo, observares a mulher que se sentava no baloiço com as pernas para a frente e os cabelos caídos para trás. Abriste os olhos e verificaste que o baloiço estava vazio. É verdade: a mulher não existia. E o baloiço não passava da projecção vertical de um conjunto de trepadeiras que submergia todo o relvado até ao canteiro circular do busto oitocentista. E pensaste para ti em silêncio: a ausência é a origem da história, de todas as histórias. Regressar é ofício de sangue.
Os grandes dias iniciam-se verdadeiramente pelo meio.

4 Nov 2021

A americana

Tens dezoito anos e já percebeste que os jardins são iguais em todas as cidades. Viste a mesma estação de caminhos de ferro em todo o lado, viste o mesmo alinhamento de árvores nas alamedas em todo o lado, viste os mesmos bolbos raquidianos em todo o lado. Concluis que não existe um lugar que seja o teu. O mundo é uma paragem distante e a vida pouco ou nada te restitui. Tropeças mais nas ideias do que em ti próprio.

Restam-te os vinte metros quadrados do teu quarto. É a essa nave espacial a que pertences. Nela evaporas toda a cidade de Paris a bordo das cartas de Mário de Sá Carneiro. Nela bebes chá de frutas comprado numa loja de estrada em Badajoz. Nela traças a circum-navegação que te permite idolatrar seja quem for, ainda que não haja vivalma por quem possas morrer de desgosto.

Pensarás: A consciência de si própria nunca é actual. O que vem até mim – o que vejo e o que lembro – desaparece e esvai-se em cada instante. É como se o leme do barco existisse fora do barco e me lançasse a sós, metros e metros à frente da proa, no meio do oceano alteroso. Esse barco é afinal o curso da vida (repetes para ti próprio em surdina): um continente adiado, sempre meio perdido.

Adorarias apagar-te, fazer dos dias uma subtração. Sempre que sais de casa, fixas os olhos nas linhas imprecisas do asfalto. O teu corpo modificou-se e as vozes que nele e dele irradiam atropelam-se. Não imaginas sequer o que te falta, porque, muito provavelmente, viver é estar em falta. Quer olhes de baixo ou por cima para essa fonte rodeada de vasos, quer a olhes do interior onde cai a água ou de fora por onde agora passam os carros, é sempre a mesma fonte que tu observas. Mas nunca a abarcas na totalidade. A transcendência é apenas uma palavra que te segreda que tudo à tua volta está desconectado. Por isso sentes a vida como uma quebra e não sabes sequer como a exprimir com a tua boca. O medo não tem biologia, nem compleição. O medo é não poder convidar ninguém, não incitar a carne, não intimar o escuro.

Pensarás: Aquilo que nos espera é o oco profundo de um saguão, onde por vezes há pássaros escondidos que redemoinham a claridade. E assim foi.

Num fim de tarde uma americana apontou para o mapa e fez-te uma pergunta. Nesse tempo não havia americanos à procura de torsos e de talhes romanos. Quando muito, um simca chambord com franceses nos meses de verão ou os vates ingleses que começavam a escorchar os algarves. Foi uma raridade própria dos módulos lunares poderes seguir os passos dessa americana que tinha deixado os pais no parque de campismo e que navegava à vista pelas calçadas da cidade. Repartiram idiomas ou arquipélagos breves construídos nas tuas recentes viagens, já que o liceu e os primeiro anos da faculdade apenas te tinham cedido advérbios. A americana vertia linhas enxutas, o olhar azul bebé e um rosto seco de amêndoa, mas estava arrebatada com os ocres dos rodapés e com o calígrafo que exibias no teu jeito de andar.

Pensarás: Dizer o coração nas mãos é uma invenção da linguagem. Uma locução, uma frase, uma metáfora, não sei. Mas a invenção inundou a realidade da palma das mãos, suou-as e transformou-as numa espécie de bambu à chuva. Eis que a quiromancia não passa, afinal, de um deserto. Cada destino terá a sua linha, mas agora a linha é a que cada um dos dois pisa. O andamento, a lentidão, talvez o coração seja uma cidade para desencarnar distâncias. Respirei fundo o meu pensamento, confesso.

Ela queria perceber o sorriso das gárgulas, os ângulos dos relógios solares, a idade precisa dos primeiros arcos góticos, a dimensão da ladeira por onde antes passavam os reis, os caminhos da judiaria, enfim, o fado.

E de certeza que te quis perceber a ti que tinhas uma palavra para tudo, nem que fosse por causa do entrelaçado com que versavas os gestos rápidos, fugidios. Entraram no pátio do palácio e desceram até aos confins da muralha. Aí permaneceram do mesmo modo que se atinge uma derradeira finisterra e pela frente nada mais se vislumbra, a não ser o mar. Mas nesse molhe de proximidades havia cedros, a lateral de uma igreja, duas ogivas e, ao fundo, o horizonte a fazer de torno compressor.

Pensarás: Ela tem uma perna ligeiramente à frente da outra. A saia é comprida, leve com cores de tijolo e folhas de jarro estampadas. Está tudo ali.

Na tua frente e depois a teu lado, a escassos centímetros, a americana está imersa na tua presença. Ela quase que plana no fundo do lago por onde cresce a pulsação. Mas tu não sabes onde colocar os braços e pressentes que a cabeça corrupia. Uma penumbra de fim de inverno galga o plano da noite. Sim, anoiteceu repentinamente e a rua, o passeio, os terraços, o paço, as janelas, os arcos, tudo está fechado, vazio, desabitado. Esta urgência dos corpos parece ter sido concebida para que os dois fossem um único estilhaço a vibrar no crepúsculo. Não sei se hesitas, nem sei se ela espera que tu deixes de hesitar. O sexo é o magistério que corta, que transborda. Bastaria o mais leve indício, o golpe. Fosse o que fosse que se evadisse do mundo.

Pensarás: que partido tiraste, anos mais tarde, das leituras de John Ruskin? Em jovem apaixonou-se pelo jacente do túmulo de uma mulher que em vida se chamou Ilaria di Caretto. O brilho dos lábios, a liquidez oval do rosto e a lascívia com que as mãos se abriam na pedra perseguiram-no a vida toda. O casamento com Effie Gray seria anulado por nunca ter havido consumação e nos poemas, dedicados à adolescente por quem se apaixonou já em velho (Rose la Touche), era ainda à escultura de Ilaria que o esteta romântico verdadeiramente se dirigia.

21 Out 2021

As escarpas

Existe nas casas uma certa conformidade. Aqueles dois sofás sempre ali estiveram encostados um ao outro. O espaço que ocupam foi o mesmo em muitas casas, dando a ver os seus braços metálicos recurvados sobre a ondulação suave da pele onde recebiam os corpos. Reentras na sala e observa-los agora completamente nus, sem o resfolegar das molas que é próprio dos animais sem couraça, nem cascos. São dois deuses inertes que prefiguram na tua frente o cansaço, a repetição do cansaço. Estás de pé em cima do tapete, no momento em que desvias o olhar para a varanda e, logo a seguir, para o ajardinado.
 
Sobre a relva, evitando as roseiras que caem pelas traves de madeira, vês um homem e uma mulher. Estão ao longe, mas desarmam os gestos e as palavras com relativa facilidade. Dois seres físicos que recebem centelhas de luz, moléculas que lhes sulcam os ouvidos e as extremidades dos membros. Respondem espalhando círculos de ar que se entranham na paisagem, geometrias flutuantes que sobem lá de baixo até à varanda onde já te encostaste, de costas para os dois sofás. Ela relembra a roupa demasiadamente branca da cama naquele verão. Ele diz que há sentimentos que não são captados pela acção da consciência. Como que provêm de uma atmosfera longínqua e, de um momento para o outro, habitam-nos sem pedir qualquer licença.
 
Ficas combalido ao olhar para os teus dois sofás. O que eles sabem excede-te. Muitas gerações e talvez provações. E, no entanto, silenciam tudo na sua forma cristalina, igual a si mesma. Os objectos percorrem a alma do mundo e atam-se aos factos em bruto que são parte íntima do tempo irreversível. Lembras-te do dia de Setembro em que foi pela primeira vez. O tapete é azul, um azul vulcânico saído do mar. Uma frase arrastada pela lava nocturna que acende nos teus olhos a impaciência de não esquecer. Voltas a encarar o homem e a mulher. Eles sabem que não é o desejo que os explica, talvez a tristeza, talvez a grande música.
 
As roseiras que pendem sobre o cenário são também elas secretas como o rumor que vem do fundo da voz dela. Avisa que o amor é apenas uma palavra, uma palavra que não tem parte de trás. Ele discorda e imita as asas de um avião sem mexer uma única parte do seu corpo. Fica imóvel, mas a voar. Ela adoraria penetrar nessa turbulência, embora o faça sem dar por isso. Quando sorriem revêem a sonoridade dos sinos da igreja que agita esta área ascendente da cidade. Nessa altura dão as mãos, ainda que se toquem apenas no olhar para que aquilo que se esconde possa aparecer. Tudo é qualquer coisa antes de uma palavra. Apesar de o pronome indefinido não ser rigorosamente sinónimo de amor. 
 
Os objectos da casa interrompem o dia-a-dia. Não é o caso apenas do tapete e dos sofás. São as mesas, as cristaleiras, os candeeiros, os armários, a ventoinha, os espelhos, as fotografias, as estantes e os livros. Sim, os livros. Todo o recheio entre paredes parece conspirar contra ti nessa manhã de início de Outono. Continuas de pé sem saber se já é hora para sair de casa. O relógio é um daqueles livros fechados, impenetrável. Um bálsamo secreto. Nada na vida é imune a interrupções, sabe-lo bem. No famoso Banquete de Platão, entre as intervenções de Pausânias e do médico Erixímaco, Aristófanes tem um ataque soluços e interrompe toda a discussão sobre o Eros que estava em curso. A sua intervenção – que colocará no debate a espécie dos andróginos – é adiada. Por que motivo terá Platão interrompido a narrativa com o registo de um simples ataque de soluços? Ninguém sabe.
 
Lá fora, o recheio é construído por canteiros geométricos, uma fonte minúscula, vestígios de um parque infantil. E rosas, muitas rosas que interrompem toda a superfície do dia. Ele ama-a no fundo dos seus rios mais duradouros. Ama-a desesperadamente, tal como ela o ama. Continuam a perguntar por aquele verão de que ela relembrara a roupa demasiadamente branca. Uma única flor é qualquer coisa antes de todas as palavras. Apenas tu os observas como quem admira duas ilhas geladas muito ao longe, no meio da densidade negra do oceano. A esperança vive nas camadas mais finas daquelas escarpas.

30 Set 2021

A memória de Yokohama – III

A mulher abriu a porta envidraçada da varanda e deu ordens para que parassem com tudo. Fê-lo com um gesto brusco. Os braços cruzaram-se por três vezes no ar, como se estivessem na pista em frente de um avião. No terraço, um dos agentes cumpriu a ordem e disse com o megafone: “Podem parar. Digam aos figurantes que parem a operação. Acabou a experiência”.

Os cientistas entraram de rompante no quarto. Envolveram silenciosamente a mulher e ouviram-na, enquanto passava as mãos pelo corpo inerte de Laurentino: “Meus senhores, a mais longa fase do projecto acabou neste momento. Como sabem, estamos face a uma experiência sem precedentes.”. A mulher abriu depois o peito de Laurentino, premindo na ondulação junto ao externo e continuou: “há três anos apenas, era difícil imaginar que esta mistura de circuitos, cabos, fibras conectoras, chips e sobretudo os quinhentos biliões de conexões interneuronais pudessem ser programados desta maneira”.

A mulher, afinal a directora do projecto há quase dois anos, falava com entusiasmo para os cientistas que enchiam o quarto do hotel da Fortaleza do Guincho e, num aceno rápido, acabou por abrir uma das válvulas do dorso e retirou o mais esperado dos artefactos, parecia uma caixa de fósforos com um cilindro em miniatura na parte inferior. E disse, com gravidade, a voz metálica e cheia de eco: “É a caixa azul do nosso robô!”. “Podemos finalmente ver as imagens que foram produzidas na mente do Laurentino?”, perguntou um dos assistentes.
“Claro”, concordou a mulher.

A pouco e pouco, os cientistas foram-se sentando como podiam e onde havia lugar. Sobre o tapete, na cama ou no rebordo da lareira. Não havia tempo a perder. Até que as primeiras imagens apareceram no terminal que estava ligado à minúscula caixa azul. Eram imagens às vezes sobrepostas e quase sempre alagadas por uma espécie de esquadria de cores fortes que distorcia os contornos precisos das figuras. Mas, a certa altura, as imagens tornaram-se mais nítidas: eram os chapéus quase brancos dos músicos da banda, era a imensa calote de betão a crescer entre penhascos, era um javali na sua última investida, eram as águas escurecidas da barragem, era o nariz arredondado de um judeu que não tinha nome judaico e da sua bela Clara, eram as três estrelas cadentes vistas da Tower Two, eram imagens de desejo pela mulher que contava histórias a Laurentino no avião, era o portão a deslizar sobre os carris negros da fundição, era um TIR gigante a atropelar um de dois namorados que iam de mão dada, eram fotogramas do filme L´Age d´Or de Buñuel, era o descampado aragonês, eram as chamas do World Trade Center observadas dos telhados do Soho, eram as árvores do terreiro da antiga fundição e era ainda o quarto de hotel a que um dia haviam chegado: ela deitada na chaise longue e ele na cama com os pés sobre a colcha onde está estampado um brasão e um pássaro com as asas em fogo.

No tecto, viam-se diagonais esculpidas a tijolo cru encimadas por uma folha de parreira aberta de par em par. E os últimos registos eram parapentes, nuvens esparsas, beduínos e tuaregues irados, móveis cobertos por lençóis brancos, um velho com ar de profeta, uma recta sem fim, aves gigantes sobre pranchas de surf, uma cidade cheia de zigurates, risos indistintos, rochas escuras sob águas verdes vagas muito claras e fogo, apenas fogo e mais fogo a sobrevoar o mar.

No final, segundos antes de acabar a gravação, revia-se a mulher a cair para o chão após a invasão da polícia. E, logo a seguir, já morta e inanimada, percebia-se que ela não passava de um robô, enquanto Laurentino ria a sonhar-lhe as entranhas, as mil simulações e a secreta fortaleza dos circuitos.

Num derradeiro ápice, como se olhasse para cima na direcção da estrela da manhã, Laurentino viu ainda um imenso trono de barro. E sentado nesse trono estava deus de barba por fazer e a rir às gargalhadas com ar matreiro. Juntava as mãos uma na outra, ajudado por milhares de cabos ligados a circuitos high tech, à imagem da escultura viva do artista Stelios Arcadiou, mais conhecido por Stelarc, The Third Hand, a tal que tanto o impressionara, precisamente há um ano, em Yokohama.

16 Set 2021

A memória de Yokohama – II

Lembrava-se de ter levado a mulher para as imediações da falésia de xisto escuro. Lembrava-se de descer de jipe até às águas escurecidas da barragem. lembrava-se de ver a silhueta da imensa calote esférica perdida entre arames farpados, vigias e um rebordo infindável de amieiros e pinheiros mansos. Laurentino lembrava-se que havia festa e fogo de artifício na aldeia e que a banda tocava música cigana húngara sob sombras avermelhadas de poeira.

Laurentino lembrava-se de ter levado a mulher para dentro do átrio onde se erguia o antigo armazém da fundição. Laurentino lembrava-se de ter passado a correr com a mulher pelo cedro libanês que tinha ramos de bruxa e pela alfarrobeira imobilizada num repto da natureza. Laurentino lembrava-se de que tinham os dois passado pelas ruínas da vagoneta e do torno, para depois entrarem finalmente no armazém. O portão deslizou sobre carris negros e ouviu-se um som metálico e seco, um bramido pálido e oco. A mulher sentou-se no chão a um canto e tentou respirar fundo. Chorou depois compulsivamente e apenas dizia e repetia: “Eu sei coisas a mais. Eu sei coisas a mais. Eles vão matar-me. Ou uns ou outros. Ou uns ou os outros”.

Lembrava-se de ter saído até ao cais, enquanto a mulher dormia no interior de um vestíbulo abandonado da fundição como se estivesse calafetada e defendida pela escuridão. Laurentino lembrava-se de ver dois carros pretos a estacionarem ao pé do cais de onde saíram vários homens de cabelo rapado que telecomunicavam entre si. A banda tocava com vivacidade meteórica e os chapéus dos músicos pareciam tendas de linho expostas à poeira avermelhada do Negueve. A pequena multidão acercava-se das barracas de comes e bebes, dos cachorros de peluche, dos ursos de focinho branco, dos palhaços ruidosos, das tendas de tiro, das tabernas improvisadas e do homem-estátua que mais parecia um bobo convulsivo esboroado em aguarela ocre e azulada. E, nessa altura, mais por intuição do que por temor, Laurentino regressou subitamente à fundição atravessando um caminho secreto e remoto que conhecia do tempo das brincadeiras de criança.

Tudo havia sido preparado.

Lembrava-se, por fim, de ter colocado a mulher dentro de um tapete turco. Por cima do rolo improvisado, encheu o jipe de latas, restos de cadeiras, dossiês comidos pelo bicho, hastes de candeeiro, jarros, molduras de fotografia, zincogravuras, cortinados, roldanas, ferramentas carregadas de ácido e um ou outro varão de cobre. Vestiu um fato de macaco a cheirar a podre e saiu da aldeia em direcção às alturas.

Lembrava-se agora de circundar mais uma vez estas estradas muito íngremes. Levava o coração a ribombar, a tremer e revia assim a vertigem dos vales fendidos pela corrosão dos glaciares. Por trás, nada. Nem viatura, nem vivalma, nem sinal de perseguição. A fuga parecia perfeita. A mulher mal conseguia respirar e o tempo passava, lento e perigoso, como leme de veleiro no meio de súbita tempestade. Laurentino lembrava-se de ter andado quatro dias e quatro noites sem parar, a não ser para comprar gasóleo, água e bolachas de água e sal. E foi já num país que parecia Espanha, num descampado tipo aragonês, que Laurentino se lembra de ter livrado o carro de tanta porcaria.

A mulher, completamente tonta e inundada por ansiolíticos, sentou-se a seu lado e não disse água vai água vem durante várias horas.

Lembrava-se de ter chegado a uma terra cheia de praias onde não havia mais estradas por onde seguir para poente. Apenas o mar e nada mais. Uma terra de fins onde quase toda a gente se conhecia. Uma terra de toldos brancos, uma terra de linhas de comboio entre canaviais e marquises de alumínio, uma terra de areais e alicerces esventrados e balaustradas opulentas entre bustos de leão em cerâmica clara. Uma bela terra cheia de fadários e oliveiras. E ao fim dessa longa tarde, por fim, entrou no hotel que era uma dourada Fortaleza no Guincho. O hotel mais ocidental da Europa. E cada um dormiu onze horas bem contadas.

Lembrava-se de ter acordado às duas da tarde desse décimo primeiro dia de Junho. Quando regressou ao quarto, já a mulher tinha saído do longo banho de imersão. E foi nessa altura que ela, com a toalha em jeito de turbante na cabeça, premiu o botão da televisão. Segundos depois, não mais do que isso, a programação normal era interrompida e as imagens mostravam a imensa bola de fogo que irrompia pelos vales e falésias de xisto escuro onde Laurentino tinha nascido.

“Tudo leva a crer que um ataque terrorista fez explodir a maior central nuclear da Europa”, dizia-se na televisão com voz pouco convicta. Quase ao mesmo tempo, Laurentino abriu a vidraça das janelas e viu a polícia especial por todo o lado. Pareciam astronautas munidos de bastões eléctricos e viseiras violetas escuras. Avançavam pelas escarpas ou pela falésia que desce sobre o mar em plano inclinado, cercavam as dunas e as duas praias. Entravam nas varandas e subiam já ao terraço. As sirenes dispararam por todo o lado e, sem que nada o fizesse prever, envolveram a tranquilíssima fortaleza do Guincho.

Ouviu-se nessa altura um disparo e Laurentino não se lembra de mais nada.

(continua)

3 Set 2021

Da discrição

Visitei o Brasil em 2014. Enfim, visitei o Brasil é manifestamente exagerado; estive lá quinze dias e vi um pouco do Rio de Janeiro e um pouco de São Paulo. O Brasil é um continente, é uma escala a que não estamos de todo habituados – resta saber se é possível uma pessoa habituar-se a uma experiência de território como o Brasil, a China ou a Rússia.

Como todos os portugueses que visitam o Brasil pela primeira vez, eu ia carregadinho de preconceitos e de medo. A América do Sul é geralmente bastante mais violenta do que Portugal. Uma pessoa que veja um par de documentários sobre o Rio de Janeiro fica imediatamente em alerta. Os meus amigos brasileiros, em chegando a Lisboa, levavam umas boas três semanas a perder os hábitos de segurança do Rio. Queria muito conhecer «a cidade maravilhosa», mas ia cheio de miúfa.

Levei roupa velha, discreta. Uns calções horríveis que nunca uso a não ser nas poucas vezes que vou à praia. Umas t-shirts rotas para as quais ninguém olharia duas vezes. Umas sapatilhas de boca aberta para calçar à noite e umas havaianas para usar de dia. Nota: eu odeio chinelos e calções de qualquer espécie. Custa-me disfarçar o desprezo e o asco que sinto quando os meus amigos aparecerem nesses preparos. Um homem não usa chinelos e/ou calções. É indigno.

Passadas poucas horas de estarmos no Rio, as minhas havaianas deram de si. Foram provavelmente vítimas da secura acumulada no bas-fond do meu roupeiro e da minha inépcia a andar com elas. Tinha de comprar outras; a ideia que me tinha sido veiculada pelos meus amigos brasileiros era a de passar o mais incógnito possível; nunca parecer um gringo endinheirado. Blend in. E isso implicava usar uma t-shirt discreta, uns calções de banho e umas havaianas.

Muito a contragosto, fui a uma daquelas lojas gigantes de havaianas. Era tão grande e tinha tantos chinelos à mostra que mais parecia um museu ou o guarda-fato do Quaresma. Era daqueles sítios onde não me apetecia passar mais de dois minutos, mas que, por ter as paredes repletas de coisas, dificultava tanto a escolha que acabei por me decidir por um par de chinelos relativamente brancos e sóbrios apenas meia hora depois de lá ter entrado. Felizmente o sítio tinha ar condicionado. Era fevereiro no Rio e estava muito calor.

As havaianas são umas coisas horríveis de se enfiar no pé. Além de grotescamente feias, são desconfortáveis, sobretudo para quem ainda não ganhou um calo interdigital que amorteça as agressões daquele plástico cheio de fome de carne humana. Turistar longas distâncias com aquilo é uma provação a que só um idiota se submete. De cada vez que parava para me sentar num banquinho via a cara dos meus amigos brasileiros, muito compadecidos, a repetirem como num coro grego o quão necessário era aquele sofrimento por este afastar outros, esses sim muito mais fundos e prolongados.

Chegada a noite, nem tive coragem de trocar de calçado. Embora nunca o fosse admitir, estava demasiado calor para usar sapatos fechados. Além disso, aqueles chinelos eram bastante mais discretos que os meus ténis Adidas amarelos. Ou assim pensava eu.

Quando o sol se pôs dei por mim a ser mais mirado na rua do que era previsto. As crianças apontavam para mim, falavam com o adulto que as levava pela mão e riam-se. Os adultos por sua vez, miravam-me e abanavam a cabeça em jeito de desaprovação. As havaianas baratas e «discretas» que tinha adquirido umas horas antes tinham um revestimento de tinta fluorescente que, de dia, as tornava bastante sóbrias, de facto, mas que, de noite, as fazia brilhar num tom amarelo-esverdeado visível a uma distância considerável.

Eu pensava que ninguém lhes pegava na loja por serem brancas e relativamente inócuas. Afinal a razão era outra. Mas, como o corno, o turista é sempre o último a saber.

31 Ago 2021

A memória de Yokohama – I

Lembrava-se do labirinto de veredas e caminhos, dos vales profundos e das sombras avermelhadas da poeira que se iam instilando nos chapéus quase brancos dos músicos da banda. A paisagem era pele macia de mulher vivida, cheia de sulcos e sedas, cheia de vestígios e volúpia de noites intemporais. A paisagem era música ágil e ondulante que tanto soava e calava cada despique mais impetuoso como fazia delirar o mais bizarro dezedor de versos e pragas. Enfim, a paisagem era de grão puro, luzidio, uma verdadeira obra de glaciares.

Lembrava-se das árvores do terreiro da antiga fundição, uma alfarrobeira deitada ao vento, uma folhagem de feição talhada pelo esquecimento, uma copa desenhada pelos anjos a pensar na futura melancolia dos guindastes e de outros corpos de aço. E ao pé do poço de águas férreas havia ainda o cedro gigante, uma ramagem de estiletes densos, uma vassoura de bruxas a acenar na direcção das nuvens, um lamento de invernias envolto por trepadeiras selvagens e pelo uivo sem eco dos lobos.

Lembrava-se de ver, há muitos anos, a imensa calote de betão a crescer entre penhascos e a massa húmida dos pinheiros. Parecia uma esfera de luz apoiada sobre ogivas metálicas com a magia daqueles arco-íris de trezentos e sessenta graus que se formam nos desfiladeiros da serra. À volta havia bandos de jovens vestidos de gabardina amarela, ramos de flor na mão, letras inflamadas e violas adormecidas nas mochilas que faziam coro grego de protesto face a este soberbo leviatã onde, um dia, os núcleos dos átomos haviam de ser cotejados. A imensa construção projectava-se para além da barragem e dava à região um raro vigor de alma material, um rosto porventura excessivo e uma panóplia variadíssima de habitações pré-fabricadas onde centenas de operários vindos de muito longe entravam e saíam do formigueiro da terra.

Lembrava-se da falésia de xisto escuro que descia a pique entre nascentes e juncos. Era um precipício criado por blocos de granito tão soltos quanto a velada gaguez da mulher que o avistara, há dias, no check-in do aeroporto. Tinha sobrancelhas grossas, o rosto esguio, cabelos encaracolados, os dedos finos e não deixava de evocar estas fragas desenhadas pelo abismo onde luziam os sinais mais simples dos deuses.

Lembrava-se de ouvir os sinos ao vento, eram campainhas que estavam presas aos ramos da indolente alfarrobeira e do espesso cedro libanês e que ressoavam ante a presença da lua nova e dos vendavais que redemoinhavam entre os muros do átrio onde havia argolas para burros, restos de um torno metálico coberto por uma camada de ferrugem esverdeada e uns tantos vasos esvaziados, embora pejados pela memória dos gerânios e das folhas enroscadas dos gladíolos.

Lembrava-se das águas escurecidas da barragem, desse verde vago de correntes brevíssimas onde o ofício dos remos e os braços abertos dos remadores limavam a sede do tempo. Visto do alto do precipício, era um movimento lento, vagaroso, bastante sincopado. Era como a miniatura de um limbo que progredia do paraíso esquecido até à sombria mansidão que rodeava o pequeno cais da aldeia. Aí, sobre o que sobrava do velho coreto, estava perfilada a banda de uniformes brancos como se fosse um insecto minúsculo cheio de tentáculos esponjosos e envolvido pela espessa poeira avermelhada do fundo da terra.

Lembrava-se ainda da história que a mulher lhe contara. Era um homem que tinha mandado matar o próprio filho, depois de ter feito o mesmo à mãe, uma médica ruiva que pouco exercera e que vivia há alguns anos numa ilha meio despovoada do Fleuve Saint Laurent. Parece que a amante desse homem sem nome sobreviveu a toda esta mortandade mitológica e acabou por se isolar no sul de Marrocos onde inventou, talvez por expiação, uma novíssima vida. E parece que o homem sem nome ainda continua a monte no planeta, talvez em Kandaar, algures no Golfo Pérsico ou no Sudão. Talvez mesmo no inferno. Talvez, quem sabe, diluído nas letras secretas de uma cartilha que terá no altíssimo um presumido autor de luxo.

Lembrava-se tão bem da mulher de sobrancelhas grossas, rosto esguio, cabelos muito encaracolados e dedos tingidos pelo sigilo dos antigos gelos. Depois do avião levantar, a mulher sentou-se a seu lado por mero acaso e contou-lhe a história toda, porque, dizia, não era capaz de calar o que a vida nela decidira guardar. Eram coisas a mais e, desse por onde desse, alguém teria que as ouvir. E Laurentino foi à casa de banho e pensou que estava nos fogos do Arsenal veneziano onde Dante sonhou o seu abnegado inferno, mas viu-se foi quase acossado pela perseguição da amazona que entrou no cubículo e trancou a porta por dentro atrás de si. Garantiu-lhe que era tudo verdade verdadinha e que estivera mesmo com a amante do homem sem nome, no sul de Marrocos, num antigo hotel colonial onde se preparavam coisas muito estranhas. E que, logo que o avião aterrasse, ela mesmo seria alvejada.

Lembrava-se tão bem de ver a mulher a beber uísque e mais uísque no resto das horas da viagem e de alguma santa turbulência aeronáutica. De vez em quando, interrompia o olhar de Nefertiti alheada e tensa para repetir ao ouvido de Laurentino que teria já poucas horas de vida, a não ser que alguém, fosse quem fosse, se dispusesse a ajudá-la. A agitação aumentou, logo que a aterragem foi anunciada e as luzinhas de emergência obrigaram a recolocar os cintos de segurança.

26 Ago 2021

A caixa dos morcegos

Viaja sobre um dos dezasseis decks do navio e tem a impressão de que a vista lhe treme ao jeito dos ritmos secretos que empurram as velas dos barcos pintados por Seurat. 
A máquina gigante, espécie de maquete em miniatura de Manhattan, flutua dentro de uma esmeralda: é essa a sensação de poder aspirar o ar todo do oceano que logo se encrespa nas vagas e nos redemoinhos do horizonte. O mesmo torvelim se passa no fundo do bule cheio de chá de valeriana e nos dedos que avançam sobre o tampo da mesa. Ela segue-lhe as falanges com a astúcia das felinas dengosas que farejam as sardinheiras saídas dos vasos. Até que as mãos se encontraram, simulando o rasto das diligências que se cruzam nos westerns. O pó é uma parte da memória que se abate sobre a clarividência, é verdade. Mas aconteceu. 
 Antes ele falara-lhe longamente dos Novos Aerólitos, um livro seu publicado em 1996 pela Elsafira Lusitana. Era estranho voltar a ouvir a sua própria voz a soletrar o que sempre repetira nas aulas. Mas “o que eram afinal os aerólitos?” – perguntava ela. “Corpos sólidos, sim, atraídos pela gravidade, sim, e que ficam incandescentes devido ao atrito do ar, originando fenómenos luminosos curiosos”. Na altura, ele escolheu este termo, o aerólito, para tentar traduzir “uma das ideias centrais do nosso tempo” – e dizia-o com ar grave – “a ideia de instantaneidade”. 
Tinha passado férias em Saint-Nazaire, na foz do Loire, quando a ideia lhe sorriu. Diz que se lembrou de uma promessa em jeito de brincadeira que um amigo lhe fizera (“quando for agora à Dinamarca, trago-te uma dessas cervejas da Páscoa de que tanto gostas”) e, de repente, fez-se luz. Tinha na sua frente uma ponte suspensa e uma mão cheia de passadiços normalmente usados para a pesca. Atravessavam-no homens de boné com iscos, canastras, canas telescópicas e uma solidão de fazer cintilar a maresia (dando a impressão das miragens que imitam os foles no ir e vir dos seus assombros). E foi deste modo que aquela memória, vinda do nada, lhe bateu à porta. Ali, a uns quantos quilómetros de Nantes, recostado nas traves do ancoradouro.
 E aconteceu. Os dedos tocaram-se com o calafrio a disfarçar as linhas da mão que resvalam em desfolhada: espigas para um lado e o rosto para o outro lado a corar, embora, logo a seguir, ele tenha regressado ao livro para atear as lembranças que ligavam a foz do Loire a uma viagem à Dinamarca que nunca se chegara se realizar. 
 Lembra-se de tudo isso como se fosse hoje. Com andar de pinguim, continua a explorar o deck, caminhando em estibordo na direcção da popa. Um cruzeiro é uma excomunhão voluntária, mas sem qualquer dor: a vida é embrulhada, durante uma série de dias, por um grande ginásio e toda a gente sorri a fingir que levita e que é eterno. 
 
E de quando em quando, lá vinha de novo o chá de valeriana e o bule com os tons azulados de Delft e as mãos que se estavam agora a tocar. O que se passa e o que passou são um único instante a instigar e a hipnotizar a duração. Ela tinha o rosto geométrico tipo sacerdotisa de Baco e umas sobrancelhas com a inflorescência de cicatriz antiga. A ligeireza vinha-lhe do queixo fino que mantinha coloração roxa (como se habitasse sempre numa manhã seca e fria de inverno). 
 
Enquanto sua colega na universidade, raramente lhe dera atenção ao longo daqueles corredores percorridos por azulejos cheios de jograis e de céus barrocos (amamentados pelas dorsais das funcionárias que eram gárgulas de mau olhado). Foi de facto em Saint-Nazaire que a ideia do livro apareceu. Surgiu todo escrito, como numa revelação, e, talvez por isso, ele tivesse abandonado rapidamente o ancoradouro, percebendo que, entre a encenação do mundo e as pegadas que ia deixando no areal, sobrava pouco, muito pouco (via o mar, e o mar era sempre o mar, independentemente do que lhe iria na cabeça). 
 
“A instantaneidade e a promessa?”. “Sim”. “E qual é a relação, afinal?” – perguntava ela. A ideia era simples, mas o livro não lhe conseguiu dar forma como devia ser. Uma década mais tarde, ele sentiu necessidade de escrever um artigo que tentou sintetizar tudo de um modo mais claro. Intitulou-o Genuflexão diante de um deus sem divindade e foi publicado em Inglês numa revista de Albany. Depois virou-se, meio alarmado, para ela e repetiu com lentidão: “Ilusões, ilusões, meras ilusões”. Conversa lacreada.
 

 
Foi há quase trinta anos que passei as férias em Saint-Nazaire, na foz do Loire, e lembro-me de que me sentia agitado. O mais fidedigno dos cansaços pertence àquela família de ócios que se arma em complacente: a liberdade reduzida apenas a ser livre sem que os limites (que afinal a definem) se tornem claros. A bruma a recobrir o fim do dia. Ao entrar no autocarro, no início da viagem de regresso, relembrei o meu corpo em câmara lenta a percorrer as salas de aulas e eu sabia que, naquele momento, as mais diversas substâncias orgânicas, além dos iões e da água, passavam de célula para célula, rasgando fronteiras. Passavam através de pontes ditas citoplasmáticas.
 
E ela logo me encostou o pé debaixo da mesa e sorria bem menos corada do que há uma hora. O caminho para a velhice é um cruzeiro de gladiadores no meio de um oceano furioso e eu, pelo meu lado, sentia-me estranhamente tranquilo, quando comecei, a pouco e pouco, a tentar explicar: “No mundo das religiões do livro, da tradição hebraica à cristã e depois à islâmica, desde o segundo milénio a.C. que a vida é explicada em função de uma promessa que visa um mundo perfeito (redenção religiosa para uns, redenção ideológica para outros, conforme as épocas e os lugares). E sempre houve dois tipos de postura nestas culturas: uma postura de paciência (aguardar o cumprimento da promessa com a devida resignação) e uma postura de impaciência, baseada na exigência do cumprimento instantâneo (hoje, agora e aqui) do prometido mundo perfeito. A história está cheia deste tipo de movimentos. Radicalismos religiosos e ideológicos já no mundo moderno”. 
 
No dia em que abri a caixa de cartolina e larguei os morcegos no ar em pleno conselho científico – foi na altura um verdadeiro escândalo -, ela foi a única colega a abordar-me para me felicitar pelo boicote simbólico. O que não pôde compreender é que o meu gesto fora tudo menos simbólico. Eu já deitava a universidade pela boca e nem me dava conta disso. Estava a lembrar-me desta fase recente da minha vida, quando vi terra ao longe. 
 
De repente, o deck encheu-se de gente eufórica, fora de si: corpos de popelina a tornarem-se esguios numa voragem com as cores de El Greco, braços no ar sob a forma de mastros que se esfumavam numa farinha colorida, mastigável. Fiquei estático no meio desta humanidade de manequins e, ao mesmo tempo, a insinuar-me cada vez mais ao corpo dela que encostara, entretanto, as suas pernas às minhas. Respondi-lhe que sim: os radicalismos desejam que as visões prometidas aconteçam na realidade e no imediato. Terra à vista, terra a conquistar. E o mais curioso é que a tecnologia ofereceu tudo isso como presente ao mundo. Pelo menos, fê-lo através de simulações. Pergunto eu: para que interessam as religiões e as ideologias, se os aparelhos tecnológicos nos dão hoje instantaneamente (e com prazer imediato) o que mais desejamos? Não, não nos dão o paraíso, mas dão-nos a sensação de que tudo está ao nosso alcance. Deste modo, a velha promessa cumpre-se, ainda que não se cumpra o que ela prometia. 
 
Regressámos ao mundo dos místicos, ainda que o nosso deus seja um simples botão que separa o ‘on’ do ‘off’. Lentamente, a instantaneidade – que dantes era uma trave mestra reivindicativa – passou, no nosso tempo, a ser a grande divindade oculta. O aerólito por excelência. E foi após esta divagação que tudo aconteceu, sem que eu alguma vez chegasse a entender o quer dizer “tudo aconteceu”. À minha frente, já distinguia os contornos de Chipre. Tremiam por dentro como eu, isto é: tremiam com a mesma cadência que incita o movimento das velas pintadas por Seurat.

12 Ago 2021

Trevo

Toda a vila se deixou cercar por arranha-céus, hematomas que rasgam as paisagens húmidas atravessadas pelo grande aqueduto. Na montra da praça, há um Cristo deitado de barriga para o ar que se mostra particularmente atento às prateleiras de cima onde as bonecas surgem alinhadas com folhos brancos, chapéus de chita e os lábios muito marcados em tons de vermelho vivo. A homeostase perfeita para uma vila com o nome de Belas.

O taxista continua no seu posto sentado ao volante. Olha vagamente para as portadas azuis da casa de saúde ou para o avarandado do café. Por vezes, vira a cabeça na direcção do parque infantil que continua deserto. O locutor da rádio garante que a mudança de dígito irá dar origem, dentro de dias, a um crash global. Este Millenium Bug, tal como o designa, já foi tratado por uma revista americana com o título “banho de sangue”. O medo não tem paisagem, é um buraco onde o teatro de sombras encena as peças mais improváveis com algum selo de verdade. O taxista viu crescer o seu próprio teatro ao rubro, a ponto de se imaginar a arder numa vala comum. O dia não promete bonança, pensou. Foi quando o telefone da praça tocou e o carro partiu para mais uma breve viagem.

O tempo dos clientes é um tempo proscrito. Voa como quem esvazia um balão que não pára de crescer. Até que o automóvel acaba por chamar a si as atenções e a estação de serviço interrompe todas as caminhadas. O taxista propõe-se encher o depósito como sempre, mas, desta vez, vê andar na sua direcção uma mulher de abas largas. Por trás das lentes grossas dos óculos que ostentam aros de chifre, os olhos desmaiam tons marinhos, à medida que a voz cresce naquele afã dos foguetes de arraial que falham na subida.

A mulher parece ter ressuscitado no momento em que encarou de frente o taxista que mantém ainda na mão o tubo negro por onde escorre o gasóleo. Jura que o conhece há muito tempo e repete-o com um ar ao mesmo tempo vitorioso e furioso. O taxista não tem sequer tempo para insistir que se deverá tratar de um engano. Indiferente, ela continua a jorrar palavras e lembra o clima tropical, as azáfamas debaixo do calor, aquilo era outro mundo, não era?

Lembro-me de o ver todas as manhãs com camisa branca a distribuir envelopes porta a porta. Por vezes parava e olhava para cima como se uma nuvem apenas feita para si lhe tivesse sido prometida. Nunca me passou pela cabeça investigar qual seria o seu emprego, mas cruzava-me sempre consigo na mesma estrada de terra batida, aquela terra barrenta cheia de sapos, lembra-se?

O taxista enche o depósito e continua com a longa mangueira na mão, incomodado por ter que interromper os seus habituais gestos mecânicos. À sua frente, a mulher devora as palavras e o relato torna-se de repente tão bizarro como a própria situação em que decorre. Poucas vezes o encontrava durante a tarde, mas havia aquele café entre os coqueiros do vale, isso mesmo, o Majestoso, onde o via por vezes com uma cerveja morna pela frente e o bloco-notas que ia enchendo entre um ou outro olhar na direcção da esplanada. Sempre o achei um solitário. Mas, minha senhora, eu nunca saí daqui da minha terra, está enganada com a pessoa, não sou eu certamente.

É o senhor, sim, eu não me costumo confundir. Nunca. Houve uma altura em que comecei a ter sonhos estranhos consigo, tenho que lho dizer. Via-o a bater à porta da minha casa com as palmas das mãos cheias de cavalos marinhos. Via-o a atravessar-se-me em frente como se levitasse diante da sacada do meu quarto. Via-o a contar-me que já vivera várias vidas, cada uma delas em seu continente e sempre, sempre com um fim trágico, terrível. E numa dessas vidas tinha sido taxista. Não me diga que não! Abruptamente, a mulher como que crepita em estado de pânico. O silvo da voz acende-lhe o rosto. Sua de ponta a ponta com os braços arqueados no ar, cabelos desordenados, o olhar em vaga a bulir com a pontaria de um lança-chamas.

O taxista, inquieto, tenta dar a cena por terminada, dirigindo-se com passo acelerado na direcção da caixa de pagamento. Gestos rápidos de ciclope. À volta, um pequeno grupo de pessoas junta-se em semi-círculo para bisbilhotar o inesperado turbilhão. A mulher grita, irada. A tarde sai das suas raízes como um relâmpago a alçar o piso molhado e escorregadio, por causa das nuvens rápidas e das manchas de óleo. O táxi parte com os pneus de trás a derraparem, enquanto a mulher, impassível, continua a vociferar, a bradar, deambulando entre as bombas de gasolina com o coração, distante do corpo e de tudo, a ribombar. Cada paisagem é uma fuga na direcção do animal que por dentro atiça a sua própria tempestade.

Noite caída. O taxista entra em casa, um modesto cruzamento de duas assoalhadas. Olha obstinadamente para o relógio, abre a televisão e o pequeno móvel do bar, levanta a cortina do aquário e contempla o movimento dos cavalos marinhos. No telejornal fala-se do Millenium Bug, mas o taxista não é capaz de pôr de lado a imagem de Cristo deitado de costas a espiar as bonecas que o lojista carregou de batom vermelho. Com o indicador, levanta a manga da camisa e torna a fitar o relógio, impaciente. Desdobra um dos jornais da semana passada, ao mesmo tempo que assobia a tónica dos acossados que desconhecem o que é descansar ao fim do dia. Olha mais uma e outra vez para o relógio até que batem finalmente à porta. É ela.

A mulher entra em silêncio. É o taxista quem reabre a sorvedouro. Ela acede de imediato, sentando-se na mesa de apoio com as pernas muito brancas a espantar os relances da casa: Ah sim, se me lembro de o ver, manhã atrás de manhã, com a camisa branca toda aberta a entregar os envelopes nas caixas de correio do pobre bairro. Desculpe, minha senhora, está mesmo enganada eu não sou essa pessoa. Ai é, é! Tantas vezes que o segui até ao Majestoso com um desejo enorme de tentar perceber o que escrevinhava nesse bloco-notas de capa azulada. Mas eu nunca… e não foi só isso, a partir de certa altura, via-o em sonhos a ameaçar-me com os seus cavalos marinhos, via-o diante da minha janela deitado sobre um tapete aos quadrados, enfim, via-o a contar-me as suas várias vidas e em todas elas eu e o senhor éramos levados a arder para mesma vala comum. Ah!

Belas anoitece cercada por arranha-céus, hematomas que rasgam os medos em fuga como se cada novo aqueduto fosse um animal gigante a atiçar a sua própria intempérie.

29 Jul 2021

A fenda

O homem conhecia como poucos a diferença que existe entre um submundo, mesmo se branco e polido, e o mundo com o seu esplendor das coisas ditas reais, claras e correntes. Uma cidade levanta-se ao fim de muitos séculos a esgrimir a pedra. Uma pedreira explora-se durante poucas décadas também a esgrimir a pedra, mas logo é abandonada. Uma cavidade que se deita contando apenas consigo ao invés de uma cidade que se avoluma em altura e que conta – de modo indefectível – com quem a perfilha, com quem nela reside e assim se imagina a defender-se do caos.

O homem caminhava todos os dias para o fundo da antiga pedreira onde não havia ninguém. Fazia disso uma missão, uma prédica ou um sermão a sós que resgatava do eco em cadeia que advinha das profundidades, sempre que se movia com a presteza de um felino. Levava consigo vários cadernos e enchia as folhas com traços que reproduziam os vestígios da violência com que os blocos de mármore tinham sido atingidos durante anos. Poliedros incompletos, rectas quebradas, rectângulos fugidios, extractos lascados, cubos torcidos, triângulos dobrados, texturas fendidas, curvas desfeitas, linhas pendidas, pontos soltos e arestas arruinadas. No fundo de tudo, uma água verde, vagamente turquesa ao centro, definia a alma da imensa cúpula invertida.

Meses e meses de prospecção e de desenhos fizeram com que o homem percebesse que esta ferida gigante se movia. Era um tectonismo lento que emprestava ao vale da pedreira uma locomoção de carrossel, uma suave translação.

Quando chegava a casa, revia a evolução dos desenhos em certas secções e tornava-se claro que os traçados reflectiam um movimento circular. Numa mesma parede – que descia a mais de cem metros até à base, – os mesmos contornos ora se concentravam numa dada direcção, ora irradiavam, ora evidenciavam estranhos paralelismos. O homem tomou a sério estes avisos e agiu em conformidade como se fosse uma prece plagiada. Reuniu amigos há muito tempo afastados, dispersou pensamentos terríveis, mas manteve-se sempre distante do mundo como se ambos fossem rasgos paralelos. Até que, um dia, descobriu a fenda e se maravilhou.

Entrou pela estreita fenda com dificuldade, pois foi preciso entrar de lado com os membros afastados e a cabeça inclinada copiando a pena de pavão de Krishna. Sem que o pudesse prever, viu-se subitamente no fundo de um mar de água muito densa e foi preciso nadar até à superfície para poder voltar a respirar. Pelo meio desvendou um navio afundado, preso entre rochas, taludes e algas de cor azulada. Regressou para rever a embarcação e imediatamente descortinou o estranho habitáculo. Atravessou as portadas hidráulicas, penetrou na câmara pressurizada e sentiu o que seria a gravidade zero. Deslizou ainda pelo ar, flutuou como uma raia e na sua frente sonhou ter visto uma mulher louca, parecida com lady Macbeth no início do quinto acto quando não pára de repetir que “o inferno é sombrio”.

Ele e a mulher sonhada regressaram à pedreira. O perpétuo retorno é sempre o regresso a uma morada diferente. De tanta silenciosa translação, a pedreira já desabara e nela haviam ficado retidas várias pessoas que confraternizavam.

Ter-se-ão salvado, soube-se mais tarde. Mas a mulher sonhada não arredou pé das suas falas e repetiu que, se tudo se tivesse passado em cena, fosse no teatro ou em filme, de certeza que haveria mortos, muitos mortos. E riu-se para que o eco soçobrasse e inundasse todo aquele firmamento de pedra falante. O homem ficou para sempre com essa falha: bastar-lhe-ia apenas pensar em regressar à velha pedreira dos arredores da vila, e logo aquele riso maldito lhe enchia a cabeça como se fosse um entulho metálico a explodir nas membranas do tímpano. O inferno nem sempre é sombrio.

23 Jul 2021

No limite da sombra

Um episódio é o mundo reduzir-se a si naquele meio metro quadrado em que a mulher permanece sentada com as costas apoiadas nas tiras esverdeadas dos ferros que atravessam a ponte. Um dia sem fim para aparar a ferrugem com uma cerveja na mão e duas garrafas já vazias perto dos artelhos. Os transeuntes passam e olham-na como se olha para uma escrava, faltaria apenas tomá-la pelas mãos e convertê-la em cinzas. Durante os largos meses em que navega pela cidade, sem casa nem dinheiro, também se sente por vezes uma rainha: caminha então pelo meio da rua e desvia-se dos eléctricos apenas no derradeiro instante, para depois se rir do fácies rochoso e franzido dos motoristas.

Viver na errância é suplantar o espaço, encontrar locais onde interinamente parar para depois se deslocar a partir dessas âncoras, nas mais diversas direcções e em ritmo de vaivém. Ao fim de dois meses, o mapa descrito pelos passos da mulher é parecido a um fole que se vai avolumando. Desenha-o com o pé na terra batida do jardim como se fosse uma nuvem que tivesse sido assoprada, cada vez com mais fôlego, nas últimas horas do dia da criação do mundo. Perceber a geografia fora das rotinas que se tornam normais é perceber-se a si, na medida em que uma pessoa é também um fole secreto que se alarga, que se desmonta.

Um dia, a mulher voltou a rir do rosto assustado do motorista do eléctrico e, ainda que sem grande motivação, seguiu na direcção do fim da linha. Foram quilómetros de um rumo magnetizado, as passadas sem a audácia do costume, um trajecto que lhe aparecia de forma indiferente. A certa altura a linha do eléctrico 3 terminou, mas uma outra prolongou-a. A mulher perseguiu essa outra linha e ganhou subitamente um novo alento. Após uma hora e meia de andamento, a vegetação selvagem já cobria os carris e, num terreiro onde os flamingos experimentavam os refluxos da vazante, a força da natureza descarnava-os por completo. Foi aí que a mulher encontrou a rulote abandonada e, numa cartolina que substituía os vidros partidos de uma das janelas, pôde ver o desenho.

Era uma esfera com duas enormes saliências, uma para cima e outra para baixo. O hemisfério do norte, chamemos-lhe assim, aparecia dominado por uma montanha ladeada nas vertentes por dois rios, enquanto o inverso, chamemos-lhe o hemisfério do sul, era todo um vasto oceano com uma única ilha, de onde despontava uma outra montanha, precisamente nos antípodas da do hemisfério norte. Dentro desta podia observar-se um túnel escavado em forma de cone invertido e logo dividido por nove círculos descendentes, o último dos quais tocava no centro do mundo, a “morada do diabo”. A partir daí um segundo túnel ascendia por dentro da montanha do hemisfério do sul, através de outros nove círculos que iam crescendo cada vez com mais luminosidade. No topo, o céu era pintado com aguarela de “azul cristalino”. O desenho estava assinado, no cume dessa luz branca e celestial, com letras de criança. Traços largos e redondos que davam a ver o nome que era também o da mulher vagante: Beatriz.

Três meses mais tarde, a mulher encontrou emprego num bar. Servia cervejas, cortava o pão e o fiambre, lavava os pratos e os talheres. Não tinha lido um único livro na vida, era esse o seu livro. Os clientes viam-na com a enorme tatuagem de uma rosa a meio da testa e, quando dela se despediam, o sorriso do adeus parecia distanciar o rosto como se regressasse à sua secreta fonte que pronunciava o mundo com palavras doces (“e quella, sí lontana/ come parea, sorrise e riguardommi;/ poi si tornò a l´etterna fontana” – “tão longe a sua fronte/ quanto ela parecia, riu e olhou-me;/ e depois regressou à eterna fonte”). O emprego durou muito pouco, mas o suficiente para que, todos os meses, ela pudesse acorrer ao serviço público que se ocupava dos desempregados. Viver na errância é sair de cena, despedir-se das altas montanhas que cumprem a rotina dos dias, vestir a pele da actriz que segue, sem ser vista, pelo limite da sombra.

15 Jul 2021

Cortejo

Levanta-se diante da janela e do outro lado os flocos de neve têm a dimensão de mastros de alto bordo, galeões orbiculares a caírem sem cessar do céu avermelhado. A rua desvanece-se e nas fachadas aparecem rostos apertados entre as cortinas a contemplarem o rasto que o início da noite lhes devolve. As lanternas dos candeeiros baloiçam fortemente, uma delas solta-se dos fios e despenha-se.

O rosto que aparece na janela da frente pertence a Erik que não desiste de procurar o local exacto onde a lanterna terá caído. Em vão. Hoje, todo prédio que se desmoronasse esvair-se-ia e com ele toda a história, toda a memória.

Apesar disso, Erik lembrar-se-á estranhamente do verão passado. Uma mulher, um pinhal e aquelas imagens sem figuras que descem por dentro de cada floco de neve. Erik amou-a de tal forma que se apoderou de todos os seus esquecimentos. Só ele tem acesso a todos os factos, situações, objectos, pessoas, paisagens, esquinas ou palavras que ela, um dia, esqueceu.

A noite é de um temporal tão ameaçador que, não obstante, desperta em Erik a vontade de percorrer os dois mil quilómetros que o separam dessa mulher. A silhueta que na fachada da frente observa os passos do jovem holandês volta a sentar-se, mas sem nunca abandonar a tempestade que enche a escuridão do céu de lés a lés com flocos maiores do que telhas, centelhas esbranquiçadas que despregam a construção da noite. Sobre a mesa coloca um plástico azul cortado à medida e é nos limites desta capa – tão parecida com um oceano domesticado – que seguirá os percursos de Erik. O tempo que irá passar é o das formigas que reatam sempre o mesmo trajecto, sem que, pelo menos aparentemente, o questionem.

O mais grave de tudo é que, entre o muito que sabe, Erik está agora ciente de que ela o esqueceu. Também ele faz parte da longa lista de esquecimentos dessa mulher, chamemos-lhe Laura. O esquecimento é um potente glaciar que não escorre do mesmo modo ao longo do seu curso. Por isso Erik parte em viagem para tentar alterar a ordem das coisas. Surge agora numa praia a calcorrear a beira-mar em passo largo, cada pegada é um véu que se rompe ou o corpo ideal que avidamente procura. Junto à arriba que avança em desfiladeiro até ao pequeno cabo, vê desenhados na areia os contornos precisos de Laura: os cabelos gravados em espinha sobre os volteios da cintura e o vinco que define a boca virado para os pés que deslizam sobre a sua própria invisibilidade. Toda a imagem contradita a sua enorme presença.

Com a máquina de escrever assente no plástico azul, a silhueta hesita entre seguir a tempestade que ainda se abate sobre a janela ou tocar com os dedos nas assimetrias do teclado. Em ambos os planos, Erik cansa-se de procurar a sua amada e, numa das muitas noites da sua demorada estadia em Portugal, sonha com um sem número de figuras – iguais à que viu desenhadas na areia – a desembarcarem na praia. Entre elas distingue-se um rei com a cabeça cheia de grinaldas que se diz hermafrodita. Tal como Laura, esse excêntrico rei anda lentamente e de cabeça baixa como que à procura de algum sinal, primeiro na areia e depois já em terra firme. Talvez a atenção o atraia às flores amarelas do centauro das areias, aos goivos violetas das dunas ou apenas às orquídeas silvestres que são brancas como a neve do grande temporal.

Sem conseguir deter a roda do mundo, Erik regressa. Chegado aos Pirinéus, já a meio da viagem, olha na direcção daquele litoral distante e, pela primeira vez, desvenda o corpo concreto de Laura. Traz um vestido preto e em vez de cabeça tem um vaso onde alguém pintou um rei amarrado ao mastro duma barca a ouvir duas sereias que tocam a mesma lira. De cada lado do rei, um animal marinho faz sombra sobre a paisagem aquática do fundo. O vaso não permite ver os demais tripulantes, apenas o castelo da proa e o vasto oceano plastificado a recortar o horizonte do mundo que agora tem a forma de uma mesa ainda virada para o grande nevão. Todo o esquecimento contradita uma ausência maior.

8 Jul 2021

A noiva

O outono veio corromper o sufoco. A terra estava cansada e o dia caiu dentro da noite, tal como um rosto se pode converter numa árvore em estado de iniciação. O problema é saber encontrá-la, perceber que é essa a nossa própria árvore e não outra. Foi esse o início da caminhada do arqueólogo que quase mastigava a terra como forma de a saber sagrada. 
 
Havia também um louco nas redondezas, um desses loucos que vagueiam em todas as cidades. Este tinha a particularidade de vestir sempre uma gabardina que não possuía botões. Escapava-se às muralhas da cidade que a isolavam do universo e atrevia-se também à floresta cerrada, embora fosse de serrania baixa, mas sempre pejada de altos sobreiros, oliveiras, azinheiras e um interminável novelo de silvas e de décimas ocultas por pronunciar. 
 
O louco espiava o arqueólogo e ambos colocavam as mãos nas rochas graníticas, nos trilhos criados por ribanceiras ancestrais e nos alinhamentos suspeitos de ter ali existido vida noutros tempos. Um e outro falavam com os mortos e os mortos acenavam como só eles conseguem fazer: esboçando no céu os atalhos que se secundam no chão do mundo.
 
O fotógrafo chegou ao local vindo de muito longe. Apaixonou-se logo por uma actriz que, tal como ele dizia, circulava sempre no limite da sombra. Tinha o carisma de saber sorrir em contraluz. Eram agora quatro a indagar os segredos da grande mata. Cada um desejava encontrar a sua árvore, mas mal se conheciam, razão por que percorriam veredas diferentes, vielas de mato quase sem saída, caminhos deligados e obscuros. 
 
Quem os juntou foi uma poeta revoltada que tinha morrido há algumas décadas. Ao fim da tarde, escrevia no céu os traçados certos, ainda que fosse preciso compreender os sinais, domesticá-los, persegui-los tal como se assedia um javali ferido e foragido. E os quatro, o arqueólogo, a actriz, o louco e o fotógrafo, repetiam-lhe efusivamente os versos e passaram a sentar-se à mesma mesa e a beber dos mesmos jarros, logo que reentravam na cidade.
 
A amizade é uma superfície que se ergue debaixo do solo, embora cresça com relativa lentidão, movendo as pás e as mós invisíveis do seu próprio moinho, mas quando o pão se reparte, eis que cada um dos novos amigos pareceria ter encontrado a árvore que lhe estava destinada. Agora perambulavam juntos pela cidade, embora o louco, a quem nunca ninguém perguntara o nome, caminhasse sempre uns cinco metros atrás. O fotógrafo marcava o território com a leica ao passo que o arqueólogo sondava o purgatório, ou seja, a montanha invertida que replicaria em profundidade a elevação onde a urbe se tinha soerguido ao longo dos séculos. Os dois acreditavam que os sortilégios se agarram com a mão, enquanto a actriz decorava palavras de Strindberg e estava plenamente convencida de que a única coisa tangível que existia no cosmos era o seu corpo.
 
Muito cedo, raiava ainda a madrugada, houve um dia em que uma nuvem de pássaros se imobilizou por cima da catedral. E o louco – que viu o acontecido – disse que dentro daquela nuvem de penas estava o pensamento da poeta. O mais perfeito dos casulos aéreos. O arqueólogo, a actriz e o fotógrafo desestimaram a voz do homem, para quem as casas dos botões da sua gabardina eram versos por escrever. No entanto, todos desconheciam que a cidade tinha um segredo: adoraria viver a sós, sem qualquer habitante a habitá-la, a vivê-la, a desflorá-la. Terá sido sempre esse o seu desígnio e apenas o fotógrafo o intuiu, pois, nas fotografias que tirava, raramente aparecia o que antes havia focado. Registavam-se sempre grandes surpresas. As pessoas desapareciam. Talvez a cidade acolhesse agora melhor o pensamento da poeta – ainda que sob a estranha forma de uma nuvem – do que antes tolerara a sua presença física. 
 
Nessa mesma tarde regressaram à floresta e perderam-se uns dos outros. Cada um procurou a sua árvore ao longo de horas e horas. Horas que se fizeram dias e dias que se fizeram meses. O trabalho do fotógrafo foi de longe o mais lento. É sempre difícil encontrar as imagens certas. Bem mais do que determinar a posição exacta no palco, bem mais do que as sondagens que definem o ponto preciso de uma escavação e bem mais do que elevar o zénite da loucura. Mas depois de ter fotografado a maioria das árvores, em quatro delas a revelação deu a ver, não os troncos, as folhagens e a geometria das copas, mas os rostos dos quatro exploradores desta terra a que os antepassados chamavam sempre noiva.
 
Por terem descoberto as suas próprias árvores, os quatro regressaram à cidade para festejar. Passaram pelas gárgulas e pelas muralhas e não desvendaram vivalma. A cidade encontrava-se desabitada, vazia, sem um único ser vivo a calcorrear pelos passeios ou a povoar as casas. Um tempo sem começo é um tempo que sempre existiu: sem origens, sem contagens estéreis, sem história pensada ou mesmo cumprida. Deveria ser esse o caso, acenou o louco. O arqueólogo não o acompanhou na subida ao terraço da catedral. Preferiu escavar um túnel com o objectivo de encontrar o outro lado da cidade, agora adormecida. O fotógrafo e a actriz continuaram abraçados na grande praça como se a sua calçada fosse uma cama sempre por fazer. E ali ficaram até hoje deliciadamente a foder.

1 Jul 2021

As saudades sem mundo

O homem move o polegar e o indicador da mão direita. Fá-lo em círculos sucessivos que fazem lembrar a espuma a explodir na rebentação das ondas. Não retira os dedos do botão do rádio, atento ao ruído que se ouve entre as raras estações muito distantes que se captam. O número de decibéis varia, as interferências sucedem-se e a distorção altera a forma do sinal.

O homem sabe por experiência própria que o ruído é branco quando se torna constante em todas as frequências. Talvez a largura de banda se revele insuficiente ou tudo não passe de desvanecimento, o que acontece quando a propagação dos sinais se faz por múltiplos percursos. Estranhas amplitudes de uma noite quase sem fim. Nos dedos da mão esquerda, a cinza do cigarro morre e cai para o chão sem que o homem dê conta. A frequência perde-se outra e outra uma vez.

O Diderot avança pelo meio do oceano com a atroada das comunicações a balbuciar estes sons ora compassados, ora estridentes. Lê-los é desobedecer, perceber que funcionam como um cosmos desintegrado, entender que as quebras da emissão são o convite para conquistar uma armada distante que nunca se rende. O homem sabe disso e espelha-o com um sorriso cáustico, pois tudo ali, na exiguidade da cabine, se oculta em surdina sob o peso das vibrações convertidas numa cadeia de obscuros rugidos metálicos.

Outro cigarro se acende para que a cinza volte a morrer e o fumo penetre nas vigias circulares de onde se avista a proa a afastar-se da linha do vento. O futuro é um nó que se desata, um amanhã infiel, uma invasão que resiste a qualquer ordem. A linguagem indecifrável do rádio é uma espécie de voz do futuro e nem o próprio homem, tão batido por estes ofícios de escuta, imagina que há uma mulher no mundo que, daqui a quatro décadas, se entregará à tarefa de averiguar as origens desta viagem.

Essa mulher existe antes ainda de ter nascido, tão desejada ela é, e, nos compartimentos a estibordo, a futura mãe dilui-se no sonho de sonhar com o homem que dorme a seu lado no beliche e que a foi buscar a Vancouver. Também ele sonha e, talvez por ter incorporado há dias e dias o ruído roufenho do rádio como pano de fundo (o Diderot já desceu o Pacífico desde o Canadá, atravessou o canal do Panamá e entrou depois no Atlântico a caminho da Europa), associa o burburinho não apenas a uma metáfora do futuro, mas também do passado e visiona a filha imaginária à procura do rasto desta viagem que nunca terá existido. Refira-se, de qualquer modo, que os sonhos têm uma apetência igual a todas as grandes histórias: eclipsam-se no bulício que as perfaz e destina.

De manhã, o ar fresco invadiu o convés e o jovem casal sentou-se a observar o horizonte hoje completamente limpo de nuvens. Um e outro no ponto de abalo que é a marca de um início de vida. Ela a regressar à Europa, agora que a guerra terminou há quase dois anos, e a lembrar-se da fuga ao nazismo num dos últimos navios americanos que partiu de Roterdão. Ele que nunca a esqueceu desde os tempos em que se conheceram numa festa em Leiden.

É certo que não existe hospitalidade na leitura do mundo. O sentido é um curto-circuito que apenas esporadicamente se transforma em explosão. Todavia, para compreender o que se avizinha – ou o que estará por vir – a tentação manda que se procure sempre uma luz sob a qual persiste a mais estranha das obscuridades. Há exemplos que falam por si. No ano de 2017, em entrevista à neta do homem que continua a tentar sintonizar o rádio, Steiner contou algo que se passou ao mesmo tempo que esta viagem do Diderot decorria. Começou por revelar que fora visitar o pai a Nova Iorque e que lhe deu conta de duas boas propostas de universidades americanas de topo. O pai de Steiner já bastante doente, reflectiu e comentou: “Só tu podes decidir. Mas se deixares a Europa, Hitler terá ganho”. Steiner ligou imediatamente à mulher e foi muito assertivo: “Não suportaria sentir de novo o desprezo contido nessa frase do meu pai. Seja o que for que tivermos que fazer, regressamos à Europa.”.

No caso de Steiner, o regresso à Europa teve a carga e o sentido de uma vida que jamais se submete. O mesmo aconteceu com os nossos dois viajantes do Diderot. Dois dias depois, chegou via rádio a autorização para o desvio de rota. Tratava-se de fazer escala em Lisboa antes da chegada prevista para Southampton. Foi aí que tudo se reiniciou. A filha do casal, Cláudia, viria a nascer em Tomar no ano seguinte, em 1948. Passou parte importante da vida a dar a volta ao mundo e a pesquisar todos os vestígios da sua família materna. Tudo desapareceu à excepção de uns primos distantes que conheceu em Limoges. Eram as saudades à procura do seu mundo, pois a ausência merece um lugar em tudo igual à presença.

Pelo seu lado, o homem do rádio nunca deixou de mover o polegar e o indicador em rotações continuadas que sempre associou à espuma da rebentação das ondas. O pai de Cláudia acompanhou-o durante inúmeras horas ao longo da viagem e, até ao fim da vida, manteve nos ouvidos aquele sussurro fanhoso e martelado. Era não apenas uma metáfora física do futuro e do passado, mas igualmente de um tempo para o qual não existem denominações, nem um nó-górdio possível. Um tempo estrangeiro, um tempo de extravios, um tempo de ruídos brancos em todas as frequências.

“Outro cigarro se acende para que a cinza volte a morrer e o fumo penetre nas vigias circulares de onde se avista a proa a afastar-se da linha do vento. O futuro é um nó que se desata, um amanhã infiel, uma invasão que resiste a qualquer ordem.”

24 Jun 2021

I am a cowboy

Por razões muito pessoais tenho tido mais tempo para ver televisão e, sem quase dar por isso, eis que, sobretudo em Maio, devorei western atrás de western como nunca antes acontecera.

Este facto fez-me regressar às minhas aulas de filmologia e ao momento em que a produtora Bison, no final da primeira década do século passado, se instalou na Califórnia – à boleia das experiências de William Selig – tendo aí encontrado todas as características do que viria a ser a épica norte-americana. Em poucos meses produziu mais de duas centenas de filmes, alguns filmados num único dia geralmente com realização de Charles French. Paisagens, cenários e figurantes naturais, entre os quais convém destacar as tribos Cahuenga e Cherokee, contribuíram para que a pequena aldeia de Hollywood se transfigurasse e nela aparecessem protagonistas, como Thomas Ince e William Hart, que emprestaram ao género uma desgarrada fotogenia. Depois da primeira grande guerra mundial, o epicentro do cinema deslocou-se da Europa para a América e os westerns tornaram-se rapidamente numa gesta universal, de que John Ford foi um cultor único até ao fim dos anos sessenta (tendo até as vanguardas europeias da época revisto na sua obra a graça do chamado “cinema de autor”).

Por vezes interrogo-me sobre o papel da violência que atravessa os westerns. Ela faz parte íntima do género, mas, apesar da sua predominância, nada a torna mais implacável do que a que grassa no quotidiano da nossa actual experiência da imagem.

A violência do western desenvolve-se num tipo de lógica de “gag” porque corresponde quase sempre a lances ficcionais que desarrumam uma certa expectativa de normalidade. Tudo nessa violência tende para o exagero, ou seja, para a hipérbole. Até o modo desabrido com que as vítimas dos sucessivos tiroteios voam ao caírem por terra espelha bem o espírito pioneiro do “wrestling”.

A violência que perpassa nos terminais de imagem do nosso tempo – que já interiorizámos e a que já nos habituámos – é dominada por um apelo muito mais cru, directo e cruel, pois tende a colar-se ao horizonte do que consideramos ser a normalidade (ver os rockets no médio-oriente ou ver uma série em que uma cidade inteira explode é, hoje e dia, digerido no sofá como se fosse quase a mesma coisa).

Existe uma segunda característica da violência dos westerns que a torna relativamente inocente. Trata-se do formato – ou do jogo – que a prefigura e cujo contexto distingue, de um lado, um domínio selvagem (onde se insere a paisagem por domesticar, assim como os índios autóctones que a habitam e a alma bravia dos vilões que a fustigam e exploram) e, do outro lado, um domínio da lei (onde se inserem os heróis solitários na representação de uma idealidade ou então os “sherifs” na representação de uma ideia de estado). Esta oposição de base é sempre vivida em pequenas localidades de desenho efémero, todas com seu o “saloon” enquanto ponto de encontro entre uma relativa estabilidade e a iminência dos forasteiros desordeiros que a virão pôr em causa.

Na maior parte das séries que hoje visionamos nos canais de “streaming” ou na tv clássica, a violência surge, ao invés, fora de qualquer contexto (ou de qualquer jogo narrativo pré-definido) e, por isso, dá à carne e ao sangue um tipo de verossimilhança muitíssimo distinta, porque tendencialmente hiper-real e dissociada de uma clara empatia de jogo.

A violência dos westerns tem muito que ver com a violência algo gratuita que se lê nas páginas da Ilíada e que, neste último caso, chega a cansar (tantos são os combates corpo a corpo que por vezes se diluem na recorrência retórica). O que une ambos os registos é a necessidade de vincar a origem duma história e o seu fulcro inevitavelmente heróico.

A épica rasga a vida para a colocar sob perspectiva e, por essa razão, chama a si um ritual de violência, independentemente da sua verossimilhança. Muito diferente de um ritual de violência – criado por irrealidades que metaforizam um desejo de superação – é o verdadeiro culto da violência da nossa era que mistura realidade com ficção, contextos com factos e a força do hábito e da repetição com a (mais suprema) indiferença. Se um ritual tende a projectar e a socializar um determinado mundo nas experiências individuais, a virtualização do mundo hipnotiza, adormece e gera um perigoso sentido de depreciação.

Ver westerns tem sido par mim uma forma de decantar e de purgar tudo aquilo que a tecnologia e a aparente pluralidade da rede nos coloca – a todos – diante dos olhos.

17 Jun 2021

Uma proposta política

O que se escreve só torna presente uma ínfima parte do que se pretende dizer e do que se vaticina ao ler. Todo o mundo é um texto em forma de material circulante e dele voltamos a dizer o detalhe e lemos a insignificância. Voltar a dizer o detalhe é, por exemplo, escrever uma obra de referência (‘A República’ de Platão para muitas pessoas). Ler a insignificância é, por exemplo, desvendar o que pode dar sentido a grande parte de uma vida (‘A Bíblia’ para muitas pessoas). O que sobra não é só o que escapa, pois o que escapa é fruto do acaso e o que sobra é fruto do infinito, ou seja, melhor dito, das infinitas possibilidades de que nos apropriamos apenas de partes ínfimas.

O que está ausente não se torna em acto visível diante de nós, mas persiste: existe por si. O Oceano Pacífico, as últimas palavras de Séneca ou uma das muitas crateras da lua não estão ‘aqui a acontecer’ comigo neste momento, mas é-me admitido registá-los em texto. Tudo o que não disse – e a que não me referi – enquanto levei a cabo este brevíssimo registo é aquilo que sobra; no fundo é quase a existência inteira e plena do mundo. E o que me escapou, por acasos existenciais da cronologia ou das exiguidades do espaço, é o que me impede de estar agora mesmo de pé na lua, em animada conversa com Séneca, e, ao mesmo tempo, a apontar para o maior dos oceanos do nosso planeta.
 
Todas as culturas do planeta se assemelham a filmes, cujas montagens apenas fizeram constar nas imagens alguns aspectos muito bem seleccionados. Poderá pensar-se, sem que venha mal nenhum ao mundo, que o essencial ficou sempre de fora.
 
Aquilo que existe não se cinge, pois, apenas à sequência e à simultaneidade da presença (isto é: do que se apresenta diante de nós como algo concreto e presente). Essa é a ilusão de todas as culturas milenarmente baseadas na ideia de um dogma fixo ou de um livro – que tudo revelaria -, mas também na ideia de uma unidade primordial ou ainda na convicção estrita de finalidade, aliada ou à eficácia, ou então à metáfora do ser (porque todos os seres são mortais). Mas mesmo que nos circunscrevamos a um mundo que se vê a si mesmo como uma série – ou como um imenso vitral – de presenças materiais (onde se inclui o que pensamos), eis que a tentação de as modular com regras de fundo parece ser superior às nossas próprias forças. Caracterizar historicamente a natureza do mundo escatológico ou do mundo ideológico e de todos os seus mapas e itinerários restritivos é vermo-nos numa prisão ou, se se preferir, num aprisionamento total do sentido.
 
A pergunta que se coloca será, pois, a seguinte: como lidar com um mundo em que a presença e a ausência nos mereçam a mesma acuidade e em que a felicidade passe, também, por libertar o sentido (e a fruição da vida) de sistemas que tendem quase sempre a fechar-se? Não haverá respostas definitivas, mas poderão precisar-se alguns caminhos a ter em conta. Por exemplo: valorizar o que não sou, o que (já) não tenho e tudo aquilo de que – em geral – não se fala; ler o mundo como uma pluralidade dispersa que encontrará por si mesma as suas próprias posições e não como uma assunção imediata (aquilo que, logo num primeiro momento, parece dar sentido ao que vivemos); ter na imaginação – e na dimensão inter-maginativa – um aliado e uma autonomia que ampliem a realidade e que resistam a todas as tentativas de a definir e de a delimitar; ou ainda: desvalorizar a agenda, a repetição de slogans e de ideologemas, a provisoriedade da rede, o habitus e a propagação dos fluxos, os modos da moda, as linguagens-tipo, os dogmas, as cartilhas e as hipnoses socialmente dirigidas. 
 
Trata-se, ao fim e ao cabo, de uma ampla proposta de resistência política no sentido mais nobre do termo. Trata-se, enfim, de uma proposta bem menos utópica do que se possa julgar. Aquilo que é político define-se pelo agir livre de todos numa comunidade (e a comunidade hoje é, também, inevitavelmente, o mundo e não apenas a geografia onde nos demoramos). Infelizmente a ‘coisa política’ do nosso dia-a-dia continua, na sua larguíssima maioria, a seguir o formato dicotómico que é próprio das trincheiras pré-definidas e em que o discurso de ambos os lados é previsível, ou seja, já está escrito e enunciado antes de ser accionado e dito (neste ponto, direitas e esquerdas rivalizam). É óbvio que este modelo esgota, cansa os alicerces da democracia e provoca um niilismo de quem facilmente desiste e se entrega ou à passividade das ‘palavras de ordem’ fáceis (que se repetem na efemeridade da agenda e nas linguagens miméticas em rede) ou ao discurso populista que simula um ‘estar contra tudo e contra nada’, mas que é perigosamente violento e vazio por excelência. 
 
Reatar o político, na sua exigência de fundo, é tarefa que visa conquistar uma autonomia radical (conseguir pensar por si próprio e não por guiões através dos quais somos pensados), estimar a individualidade (e isso implica dar atenção ao que nos realiza já no presente e não numa meta distante, tal como acontece com o amor, com a criação artística ou com o pensamento), interiorizar um renovado culto da liberdade (focado também naquilo que ainda não é presente, por exemplo as decisivas equidades de género) e incentivar um respeito pró-activo, quer pelo ‘outro’ – onde se inclui o que geralmente traduzimos por “natureza” e o que nela habita -, quer pela igualdade de oportunidades de todos sem excepção (ainda que a percepção que nos é dada pelos media sugira que meio mundo à nossa volta é formado por ‘figuras ausentes’, como se parte do ‘todo’ não pertencesse a este planeta e à nossa ‘vidinha’). Reatar o político é ser um outro, sendo – implacavelmente – o próprio.

10 Jun 2021

A fisionomia desaparecida

Ele anda muito devagar enquanto enrola o cigarro. Nas águas desenham-se aqui e ali círculos turvos e objectos perdidos – cruzetas, sacos, jornais e até uma luva com os dedos abertos -, embora o olhar persiga a folhagem dos amieiros de fruto negro que ladeiam a rua.

De repente, parte desse homem como que se dilui no papel que acolhe as onças do tabaco e uma outra parte mergulha nos frutos esféricos do amieiro. Foi como se bipartisse a desatenção e, não obstante, o corpo continua a andar, indiferente, mecânico, incólume a tudo, mas com a consciência de que a vida foi sempre a correr. Uma maratona demasiado tépida.

Parar subitamente e rever-se dentro da mortalha – estranho nome, esse – e do sabor acre dos frutos que se assemelham a pequenas pinhas ovóides tornou-se num verdadeiro desafio. Foi quando se virou de costas para o canal e viu a mulher.

No outro lado do passeio, ela empurra o carro do bebé e guarda do homem uma imagem meramente periférica. Não o encara sequer. Cada um no seu flanco da rua e apenas o chiar das pequenas rodas suspende a presença do asfalto ainda molhado.

A mulher caminha ao jeito de uma máquina de traço ocasional com pequenas mãos de bailarina. Como se ela fosse o duplo da música que lhe dá o ritmo certo à proporção das pernas e ao andar.

De um momento para o outro, ela mergulha na sensação de que ouve flautas ao longe. Uma espécie de anunciação num adro vazio onde o tempo, a pouco e pouco, poderia recomeçar a partir do zero. Foi quando se virou de costas para as janelas e para as tijoleiras da fachada e viu o homem.

Ele era incapaz de polir os seus sentimentos imóveis, vivia da rigidez que reavia da tristeza, mas o olhar, aquele olhar da mulher que avançava desenvolto de tanta solidão, definiu-lhe por dentro uma cratera que não ainda conhecia. A mulher tentou-o como nunca antes havia acontecido.

A mulher empurrava o mundo inteiro e, no entanto, o carro do bebé estava vazio. Para ela, este caminho diário era uma floresta proibida, quase fechada, e, apesar disso, o olhar do homem como que o lavrou em profundidade, ao ponto de ter pressentido que era ele quem a impelia em movimento. Foi deste modo que se sentiu tentada como antes nunca tinha acontecido.

Voltaram a olhar-se. O tempo. O homem e a mulher observam-se. Ainda o tempo.
Com dimensões diferentes as mãos do homem e da mulher são rigorosamente iguais, todas em forma de bandeira com os dedos juntos e sem flexão. O perfil e a forma do nariz dão a ver cópias quase precisas. Os olhares traçam em simetria uma brancura prestes a ser preenchida e repetem essa intenção inicial do mesmo modo no homem e na mulher.

Ela abre-se num estuário magnífico ao pau que o homem transforma em pedra. A afluência, para trás e para a frente ou levemente circular, permite ao infinito o seu sumo de possibilidades.

Ela pronuncia em voz baixa que os ombros são aquela parte que nos frutos se alarga das sépalas até à polpa. Ele responde que a bacia é o tratado que o corpo assina com a imagem secreta de um equador. Riem os dois. Ela volta a dizer que a cintura resolve em forma de golfo todas as peças da intimidade. Como se essa reentrância ditasse um ou outro verso em sânscrito. Ele abriu muito os olhos e ela imitou-o com a firmeza de uma flauta.

O homem e a mulher são iguais, nada os separa. A mesma ondulação nos braços, a mesma forma do queixo, a mesma fisionomia a arquear o fim do dia.

Ela abre as pernas ao jeito de um compasso, levanta-as no ar e junta a sola das sandálias ao tecto onde está colado um planisfério cheio de cores. Ele está dentro dela e ela está com o corpo todo a atravessar os trópicos, depois o Ártico, depois ainda o abismo que se perde na densidade dos oceanos.

O tempo naufraga e ele volta a fumar enquanto a mulher puxa o carro de bebé para junto da cama, dentro do qual permanecem os objectos que ela recolheu: cruzetas, sacos, jornais e a luva azulada com os dedos agora fechados em forma de bandeira.

O homem e a mulher encostam os lábios e trocam os frutos do amieiro. São viscosos e alternam a cor escura do castanho com o rosa-violáceo. O homem e a mulher são iguais, serão irmãos certamente.

É a partir deles os dois que vai nascer a memória daquela parcela de uma rua que não pertence a nenhuma cidade, a nenhum planisfério, a nenhum dia. A realidade é uma fisionomia sempre desaparecida.

3 Jun 2021

Conto de natal por ser Maio

Não é uma mulher que glorifique as mulheres. Nem é uma mulher que escreva sobre mulheres por estar na moda. É apenas uma mulher, mas sem a senha da virgem Maria que, como se sabe, foi contrariada pelo destino.
 
O sinal repete a forma duma espada curva de gume único. É o mesmo sinal que desenha a sombra na testa da mulher. Algumas alvenarias decompostas por trás, a maior parte invadidas pelo cheiro intenso das amoras negras. A voz grave traz consigo a ameaça. O peso do caos.
 
A alcatifa azul que aparece tantas vezes em sonhos sai do quarto e penetra no pomar até à estrada. Nas bermas de areia solta, a mulher come rapidamente os últimos gomos da laranja como quem salta pela janela. Um equilíbrio interrompido no centro do corpo. 
 
O autocarro avança a estalar os metais. É manhã cedo. A mulher diz muitas palavras sobre aquele suspiro que apenas se escuta no fundo do cesto de verga, embora as mãos apertem as asas do cesto com tenacidade de guerreira. Diz o mesmo dessa tarde que parece ter-se apoderado de todas as tardes anteriores. 
 
O corpo flanqueia ilhas invisíveis e os braços espreguiçam-se para tactear essa possibilidade. O passado é apenas feito de luz e o que se sabe são os músculos agora a desafiar as suas discretas extremidades.
 
Os recantos da mata são os recantos dos humanos, talvez mesmo os mais antigos. Refúgio ou reentrância para que os braços longilíneos sejam riscados pela mulher sobre a pedra. Até que abre o saco numa das clareiras do jardim, hesita, mas acaba por deixá-lo ali entregue à sua sorte.

Há lagos com cisnes e choupos à volta que são mulheres, mas só ela abandonou o filho num presépio natural. Lagos que levantam reflexos para esquecer a escuridão, lagos que inventam mapas volúveis para aprender a falar. De cada vez que lá passava, a mulher transformava-se numa ramagem e, vista de cima, caberia ao longo pescoço do cisne pensar o significado dessa ramagem.

Um menino igual a Jesus sai do saco e faz-se gente. Ele sabe que as grandes mansardas foram concebidas para os sótãos que se perfilam no topo das cidades. É num desses torreões que a mulher vive, já que o seu ofício passa por esquecer a terra e as suas armadorias desconhecidas. Só ela sabe quantas são as escritas, as quilhas e também os mastros enterrados no fundo da duração.

Ela ama Botticelli por causa dos cabelos de Vénus. Ama com a língua todas as outras mulheres. A luz é o defeito da grande noite que precede o nascimento, mesmo o de Vénus por ter escolhido a concha para desafiar a obscuridade. Jesus é um bebé abandonado que cisma com hortências a falar em voz baixa.

O bebé, depois rapaz e depois homem vê deus nas duas hortências que se debatem com aquele verde das pequenas vagas. Na realidade vê deus no seu próprio bosque, um deus selvagem que lhe levanta a cegueira na direcção de algumas das madressilvas menos acessíveis à mão.
 
Nos dias em que não regressa a casa, a mulher entrega-se a imersões profundas e prolongadas com breves aparições à superfície para respirar. E arrepende-se fortemente. Transforma-se então numa mariposa como se o movimento ondulatório dos golfinhos fosse o seu. Por vezes, quando coloca o pé num dos extremos desse percurso, grita. Um grito que dá a ouvir o mais claro batimento do mundo.
 
Também ela se decompõe em várias partes à imagem daquelas estrelas cadentes com rasto luminoso que dividem o céu em dois numa fracção de segundo. Quem a olhe vê um ponto branco a subir a rua apenas para ir comprar pão.
 
A mulher mantém muitos címbalos dentro do pensamento. São meios globos que repercutem nas nuvens ideias ainda inabitadas. Quando as fixa na memória, volta a arrumar todos os lugares por onde nunca chegou a passar. Foi numa dessas tardes que regressou à mata. Tarde demais.
 
O autocarro deixou de estalar os metais. Será essa a sensação de uma chegada, mas uma chegada em vão. A mulher diria o mesmo do xilofone que pára por instantes de tocar. A pausa que se cria é tão parecida com uma encosta que abruptamente se precipita sobre o mar. Com uma perna de cada lado desse mar, a mulher faz da gestação um par de andas que se movem por si. Nada as fará chegar a lado nenhum. E o que terá sido feito do saco?
 
Responde a voz que fala por dentro da mulher. Diz que a insónia é uma das mais raras gazuas, porque entra por todas as portas, infiltra-se em todas as camadas da pele e penetra em todos os continentes. A mulher conhece esta outra voz como mais ninguém, porque vive dentro e fora da insónia ao mesmo tempo e apenas os animais corpulentos lhe conseguem tatuar as entranhas.
 
A alcatifa azul que aparece regularmente em sonhos é um mar impiedoso a bater nas arribas. Lê sempre em voz alta o mesmo livro escrito no areal, às vezes ascende pelas escarpas e projecta-se no céu da boca da mulher que aprendeu a cantar o cheiro das amoras negras. O bebé que se fez homem confunde-se hoje com esse cheiro que canta. A mulher não o reconheceu, nem nunca o reconhecerá.
 
É verdade que a beleza é uma forma de evasão que se aproxima do caos, ainda que sem essa ideia de peso. O que torna leve a percepção do caos e da beleza, uma e outra partos tão profundamente incertos, é o facto de a intimidade não ter voz. O que não significa que não a procure fora de si em certos andamentos da natureza. É por isso que a mulher continua abraçada à sua árvore.
 
A viagem desacerta o local de partida, mas afasta-o definitivamente do esquecimento. Há troncos de palmeiras que convivem com a maré baixa e esta é a imagem que melhor marca a distância. Um continente inteiro pode escapar ao corpo que o visita. Razão por que o local de partida não viaja, embora empreste a si mesmo o mais apurado dos viajantes. A distância é a medida criada por esse empréstimo quase invisível.
 
A mulher regressa ocasionalmente ao lugar de origem, mas nada aí a prende, a não ser o homem sentado que há muito perdeu a cabeça. O sinal desenhado no pescoço repete a forma duma espada curva de gume único. 
 
A mulher que nunca reconheceu o filho enterrou-o sem saber de quem se trataria.
 
A mulher que se mata sem o saber acorda sempre à mesma hora e leva todos os dias aquele saco de serapilheira para a mata, antes de chegar ao emprego. Jura que o saco suspira e que a mata é um presépio com um burro, uma vaca e três reis magos. 
 

27 Mai 2021

Aprender a andar na minha Holanda

A minha primeira perdição foi a fotografia aérea que dava a ver um dique com mais de trinta quilómetros no meio do mar. Constava de um dos livros de geografia que guardo ainda do liceu.

O dique, de nome Afsluitdijk, liga ainda hoje o norte da Holanda à Frísia e divide em dois o antigo Mar do Sul (Zuiderzee) que, há dois mil anos, era uma espécie de lago com origem num braço do rio Reno. A construção teve lugar entre 1920 e 1933 e passou a separar o novo mar interior, o Mar de IJssel, do Mar frísio (Waddenzee) que flanqueia as ilhas de Texel a Ameland. 

A palavra “perdição” é ambígua por natureza. Tanto se refere a uma pessoa ou coisa que desperta uma paixão irresistível por outrem como se refere a vício e até a condenação eterna. Por outro lado, designa ainda a figura da errância (uma pessoa perde-se, um pensamento perde-se, um mar perde-se, etc.). A palavra “perdição” ensina de facto a andar em muitas direcções. Por vezes ensina mesmo a voar.

E foi a voar muitas vezes sobre a Holanda que revisitei o abstracionismo geométrico de Piet Mondrian e as suas teosofias coloridas. Os campos, desenhados por polders de cromatismo sempre diferenciado e recortados por moinhos e canais, ilustram com concreta nitidez aquilo que é o neoplasticismo assim como o rasgo dos artistas que, a par de Mondrian, souberam cativar esta arte das raras proporções, casos de Theo Van Doesburg, Vilmos Huszar, Gerrit Rietveld, Georges Vantongerloo ou de Jan Wils. A paisagem é, de facto, uma enciclopédia de grande limpidez – que alimenta a errância, o vício e a própria paixão – e que sabe transformar o que parece abstracto em tangível, quase palpável.

Foi então que percebi que a minha Holanda é uma ilha. Incorporei-a, tal como a floresta incorpora a sua água, muito antes de ter conhecido o país com o mesmo nome. A minha Holanda é um conceito para a vida, um segundo perfil ou mesmo um contorno que me acompanha. Tudo começou no meu livro de geografia na pré-adolescência e, mais tarde, quando os aviões me levaram a sobrevoar (em ponte aérea de vários anos) o pequeno país onde haveria de viver durante uma década. O acaso e o fascínio atraem o nomadismo interior (a errância) e sabem convertê-lo em sedentarismo. 

O acaso tem o vigor das eclusas. São elas que permitem à água movimentar-se entre os diques sem que expluda para fora das margens. Pelo seu lado, o acaso permite que certas vivências aparentemente secundárias se esqueçam para que, depois, uma delas emerja e nos dê a sensação de uma coincidência ou até de uma surpresa. A minha Holanda começou por ser um puro acaso e, depois, porque nunca dele me esqueci, cresceu até se transformar num modo de me sentir em casa.

Sentir-me em casa foi-se tornando, ao longo dos anos, numa forma de realização que, hoje em dia, nada tem que ver com a geografia. Trata-se sobretudo de um território interior que foge aos encargos da confissão (malabarismo da cultura católica que transforma as pessoas em ecos palavrosos) e que desenha – com a geometria fina de um Mondrian amestrado – uma fronteira entre as correrias e as agendas correntes do mundo e o lugar onde eu sou.

Esta forma de liberdade é a minha Holanda. Ela advém de uma ideia de espaço que equilibra a água e a terra com as suas eclusas existenciais e que faz do tempo o sentimento misto próprio de uma perdição. Bem sei que o tempo é a passagem que funda o existir dos humanos no seu estado de devir e de transformação, mas o espaço, esse, é o esteio essencial que permite ao corpo sentir o seu peso sobre a superfície do planeta. 

Sentir a solidez do próprio corpo a vincar a terra é a comoção mais importante de uma vivência privada. Cada passo dado é sempre a metáfora da respiração toda de uma vida. E foi precisamente nesta minha Holanda interior que eu aprendi – e que ainda hoje aprendo – a andar.

20 Mai 2021

O leme secreto

Num dos muitos inspirados serões da rue du château em Paris – corriam os anos vinte do homónimo século – Marcel Duchamp, Jacques Prévert e Yves Tanguy inventarem o chamado “cadáver esquisito”. Cada um escreveu uma sequência de palavras, antes de enrolar a folha e passar ao outro. Resultado: um enunciado em que se perdia a noção de autor – anátema que perseguiu boa parte das teorias do século XX -, em que se parodiava a noção de controlo e em que, finalmente, se atingia uma expressão de desejado vínculo espontâneo. Poucos dias se passaram e Yves Tanguy com a ajuda de André Masson transpuseram a ideia para imagens. 
 
Seis décadas depois, conheceste em Amesterdão um artista polaco chamado Henryk Gajewsky que te convidou a participar num projecto intitulado “networking”. A ideia baseava-se numa gravação em cassete que rodava entre as moradas de vários artistas. Cada um gravava o que achava por bem – voz, leituras, sons de paisagens, misturas, ecos, palavras, narrativas curtas, devaneios, etc. – e enviava ao seguinte que constava da lista. O trajecto, sempre inacabado, viria depois a ser exposto com apoio de material visual (lembras-te de um violoncelo em que o arco tinha luz e de uma miscelânea final que faria lembrar um desengonçado concerto da Meredith Monk). 
 
No caso do cadáver esquisito, o diagnóstico situava os males da modernidade (imposição de alto controlo a partir das máquinas, da violência, da velocidade e das linguagens técnicas) e virava-se contra eles ao jeito fugidio de todas as vanguardas da época. No caso do networking de Gajewsky, a acção enfatizava bem mais a ininterrupta interacção em rede e menos os efeitos da linguagem, entendidos como arma fosse contra o que fosse. O resultado era e foi, neste último caso, uma surpresa sem carga de manifesto, mas tão-só de júbilo estético. E isto apesar de Gajewsky ser, na altura, estávamos nos derradeiros anos da guerra fria, um exilado político. 
 
Os dois casos aqui evocados ilustram dois modos de nomadismo que marcaram o século XX. Um primeiro instrumental e contestatário e um segundo essencialmente paródico (e capaz de assimilar e de truncar tudo o que as vanguardas haviam produzido até ao final dos anos setenta). A identidade do século XX como que avançou de múltiplas resistências a poderes muito claros (violentíssimos e verticais) para a era do paradoxo – que chega até aos dias de hoje – em que os poderes se diluem e avolumam, organizando-se também eles em rede. 
 
Tens razão quando afirmas que o poder é, hoje em dia, uma espécie de polifonia: um vasto conjunto de vozes que irrompe de todo o lado, não se detectando, na maior parte das vezes, de onde provém e para onde segue. É uma toada que desejaria subjugar ou imobilizar tudo o que mexe e que se impregna em todos nós, pobres mortais. Como escreveu Barthes, na sua famosa Lição (1977), é discurso de poder todo aquele “que engendra a culpa e, por conseguinte, a culpabilidade daquele que o ouve”. Os poderes fazem parte da teia humana. Eles são o grande parasita do maior predador do planeta, o que quer dizer que passaram a estar muito para além das galáxias políticas e das (muitas) redomas dos costumes. Até estas linhas, dirás tu a sorrir, serão um pequeno apêndice de poder. 
 
Hoje tudo se tornou em cadáver esquisito: as imagens que se atropelam na net, a informação e as suas “fake news”, o constante palimpsesto publicitário e até mesmo as contaminações pandémicas. E a arte passou a ser – sei que é o que pensas – uma recolecção em viagem que procura atravessar e radiografar estes vaivéns sem fim, tentando que as suas marcas falem por si. E o que restará, por fim, à literatura? Dirás: ser o leme secreto que há-de incitar os resíduos de todas estas vastas operações a reorganizarem-se no seu próprio silêncio.

13 Mai 2021

Conjecturar vidas nos retratos

Um retrato trabalha em três frentes. Por um lado, investe na contenção da sequência temporal. Por outro lado, empresta vida a uma figura que se realizará através de um contorno inanimado. Por fim, propõe, no âmbito dessa construção (ou desse contratempo formal), a medida irreal que é dada, na dimensão linguística, à palavra eternidade. Esta tensão entre a duração segmentada e a promessa de abolição do tempo permite avaliar a sinopse de uma vida, como se um simples instantâneo pudesse decompor todas as intensidades e olhares que a comprimem.

Contar uma vida através dum retrato é uma caminhada entre a imagem e o poder da conjectura. Peirce reviu no conceito de “abduction” todo o imenso poder da conjectura. Para o autor, a conjectura é uma actividade humana da “thirdness”, o que significa que antecipa, prevê, constrói e projecta para o futuro a partir do que lhe é dado (e é, também, uma categoria que, como o autor sublinhou, está ligada ao “interpretante”, ou seja, encontra-se directamente conectada com o processar ilimitado das imagens que constituem, em cada instante, a encenação da consciência).

O poder de conjecturar não é apenas um poder de antecipação, ele é igualmente um poder de natureza poética, pois está ao seu alcance conceber o que antes nunca foi criado. Este lado criativo da ‘poiesis’ assegura a projecção de figurações originais e modelares sem tradução nas palavras. Trata-se de um misto de intuição e de previsão de algo que parece dado ou até óbvio. A conjectura é, pois, uma arte alheia à sintaxe conceptual e, por isso mesmo, capaz de trabalhar com hipóteses mais idealizadas do que racionalizadas. 
 
Todo este poder de organização, ao mesmo tempo sensorial, torna-se, a certa altura, metonímico, o que quer dizer que, devido aos efeitos da contiguidade, acabarão por criar-se na mente do observador diversas séries de realidades que decorrem das primeiras instruções geradas pela conjectura. Ou seja: o olhar coloca em movimento um leque vasto de informações que depois se aprofundam e detalham.

Este aprofundar conduz ao traçar de uma narrativa (mais circular do que linear) que, através de um processo poético-alegórico, nos acaba por sugerir algumas das intensidades chave da vida do retratado. Tal como Fernando Gil escreveu, “a conjectura constitui uma prática de liberdade. Ao fabricá-la o espírito manifesta-se – cito agora um filósofo, Fichte – como agilidade pura. A mente desarrima-se da tradição que a condiciona e enforma, para a sobrevoar e jogar a desarticulá-la”. Por outras palavras ainda: a conjectura “representa um momento breve de felicidade, entre o inconforto da situação cognitiva que a ela conduziu e a certeza antecipada que a sua comprovação evidenciará incompletudes”. Seja como for, a ausência de conjectura atrai desenganos, senão mesmo patologias.
 
Um exemplo curioso: em A carta roubada de Edgar A. Poe, o investigador policial Dupin procura no hotel onde habita o ministro D um importante documento desaparecido. Procura em cada milímetro sem se preocupar em estabelecer uma ordem prévia, como se procedesse a um inventário e não a uma selecção (“Vasculhámos o edifício inteiro, quarto por quarto, dedicando as noites de toda uma semana a cada um deles. Examinámos os móveis de cada aposento. Abrimos todas as gavetas possíveis” (…) “Nem a quinquagésima parte de uma linha nos passaria despercebida. Depois das mesas de trabalho, examinámos as cadeiras. As almofadas foram submetidas ao teste das agulhas. Removemos a parte superior das mesas…”). Pouco ou nada interessa o desenlace, embora, o ministro D ignorasse até ao fim o desaparecimento da carta e tivesse continuado a agir como se os segredos nela contidos ainda estivessem na sua posse. A ausência total de conjectura anda, deste modo, de mão dada com o desengano (o ministro D permanecia completamente nu na governação e no país, mas imaginava estar vestido a rigor).

Olhar um quadro e conjecturar é um ofício da poética e também um ofício mental. Um casamento arrebatado que, em princípio, habita todos os humanos com a devida naturalidade, embora com excepção para quem é polícia, sobretudo se tiver sido criado pela pena de Edgar A. Poe. Há lições que não se devem esquecer.


GIL, Fernando. Mediações- Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa. 2001, p. 286.
PEIRCE, Charles S.., Collected Papers of Charles Sanders Peirce, Vol II, The Belknap Press of Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts. 1978, pp.p. 211-213 (§8.313 e §8.315).
POE, Edgar A. A carta roubada. Editorial Presença. Lisboa. 2003 (1844).

6 Mai 2021

Media zero

Hans Enzensberger defendeu há mais de trinta anos que a televisão é o “media zero” por excelência. Isto significa que ela se limita a indicar-nos se o aparelho está ligado ou desligado. Estando ligado, haverá imagens a percorrer o ecrã, sons que explodem ao mesmo tempo, cores e vozes a coroar o folclore tele-transmitido. Se se desliga a televisão, essa ‘coisa’ não se produz. O “media zero” gera a indiferença à distância e é criado todos os dias para que esse efeito se materialize. 
 
O que o “media zero” leva a cabo é preencher o tédio, simular apogeus sensoriais e oferecer uma companhia fantasmática a quem tem a televisão sempre ligada em casa. Trata-se de uma espécie de filme de terror disfarçado de pombinha branca magnética dentro do qual a larga maioria da população vive diariamente. Imaginar que se vence a doença contemporânea do stress implica, hoje em dia, sofá e “media zero”, ou seja: pretender o mais possível desistir de ser e anestesiar-se diante deste novo altar composto por pixels (a santidade dos dias de hoje).
 
O “media zero” cria essa ‘coisa’ (que liga os humanos à máquina) como se fosse uma penumbra que nos empresta graciosamente um estado de coma suportável. E não é apenas um apanágio da televisão. Uma boa parte das marcas e dos registos do nosso tempo são ritualizados em modo de “media zero” (a maioria das músicas que ocasionalmente se escutam – e não é apenas nos aeroportos ou nos centros comerciais – limita-se a informar-nos de que há música no ar – geralmente percussão e batida sem silêncio – ou de que, ao invés, não há qualquer música no ar).
 
Na era dos grandes clímax, a relação com a transcendência permitia perceber o humano como parte indiscutível de uma entidade superior. O natal, a páscoa e o pentecostes eram, por isso mesmo, fontes de comunhão partilhadas socialmente com avidez e entrega. O mesmo se dirá de outro tipo de clímax históricos (muitos deles ideológicos e com origem no século XIX), na medida em que fomentaram o mesmo enlevo de partilha com algo absoluto, ideal e indiscutível. Muitos vestígios rituais que continuam presentes na nossa cronologia anual decorrem destas fantasias de apogeu (são vários os feriados nacionais que as reflectem).
 
Na sociedade em que vivemos, entregue ao fluxo hipnótico dos zappings e à cegueira do consumo de bens (sobretudo tecnológicos) em desfavor de um ‘ethos’ social, todos estes rituais, sejam de origem religiosa, ideológica ou outra – caso do chamado dia dos namorados, por exemplo -, surgem perante nós à moda do “media zero”. Passamos por eles como um comboio que pára em estações que são sempre iguais e que terão sido mais sonhadas do que reais. E o fundamental – em todas essas estações – é fazer uma ‘selfie’ (individual ou da tribo) e aspirar fundo o tempo com mímicas digitais como se fosse um ‘shot’ que convida a um estado de êxtase instantâneo e imediato para logo de seguida se apagar. 
 
Ao fim e ao cabo, o significado do natal, do 5 de Outubro, da páscoa ou do primeiro de maio é praticamente nulo, pois o que povoa esses dias não é nada que alimente uma sede intrínseca de apogeu ou de realização interiormente motivada, mas tão-só o fluxo da pombinha magnética que entra e sai do shopping, tal como se entra e sai do ecrã televisivo. A diferença entre haver natal e não haver natal é apenas térmica e memorial, ou seja: mero espasmo do que passámos, há poucas décadas, a designar por “férias”; um agosto mais pequeno e mais frio com prendinhas, iluminação eléctrica nas cidades e chatices nos casais, nos pais e nos avós – e outros velhos – friamente atirados para a prateleira dos lares (é até explicável como estes tempos paradoxalmente “livres” correspondem a um cume de violência dentro das famílias). 
 
O calendário é, nesta nossa época acelerada, um recheio de companhias fantasmáticas. As datas e as “celebrações” são parte de um pano de fundo tendencialmente indiferente. Ninguém hoje pensa no futuro de ouro da humanidade, nem nada hoje atrai mais as ‘massas populares’ do que uma saudável amnésia colectiva (e da própria história). O presente e o imediato tornaram-se rei, o agora-aqui sem continuidade impera por toda a parte e a instantaneidade tecnológica veio para dar corpo a esta saga que é a nossa. Acresça-se à urgência deste ‘já-patológico’ a simulação anestesiada da eterna juventude (que passa pelo fluxo dos ginásios e das próteses ciber-estéticas). Fora deste presente eterno, tudo o que venha de longe é inevitavelmente vivido ao jeito de um filme igual a si mesmo e que repete sempre as mesmas figuras, “tipos” e imagens.
 
Tal como nos dizia Enzensberger, basta-nos saber se esse filme está agora a acontecer ou não. E esse saber – que é uma filosofia de nulidade branca sobre o branco – constitui o mais elevado e assumido culto do “media zero”. Por isso mesmo, desejo-vos a todos um bom natal!
 
*Em Português de Portugal, ao contrário do Português do Brasil (que usa “mídia” numa adaptação fonética do Inglês), a palavra “media” não tem o acento agudo que é, normalmente, próprio de uma falsa esdrúxula (como acontece com “média” no sentido de “média aritmética”, “média de vida”, “média harmónica” ou de “fazer/tirar a média”, etc.). Por diferenciação, “media”, enquanto substantivo masculino e plural (do lat. media ‘meios’), surge em Português como uma excepção e deve ser sempre assim registado – apenas “media” –, embora a sílaba tónica recaia, tal como em “média” (no sentido de “média aritmética”), na primeira sílaba.

20 Dez 2020