Um troféu imaginário

Já foi bastante mais novo e bastante mais estúpido. Felizmente, e na maioria dos casos, a idade tende a corrigir – ainda que desigualmente – ambos atributos. Quando tinha cerca de catorze anos, por exemplo, eu e um amigo meu descobrimos um cemitério abandonado, mesmo ao lado de uma igreja, onde se conseguia aceder trepando umas rochas que davam acesso a um dos muros do cemitério. De cima do muro avistavam-se jazigos de família, já muito degradados, as pedras tumulares pontuando o recinto como dentes incertos e estragados numa boca que se abre para um sorriso e o matagal viçoso envolvendo quase tudo num abraço cujo desleixo humano de décadas acabara por se tornar o melhor adubo possível. Da primeira vez que lá fomos, não ousamos entrar. Percebemos rapidamente que não seria difícil; uma amendoeira ladeando a parte de dentro de um dos muros dava um bom escadote. Do lado de fora do cemitério, uma inscrição ininteligível para adolescentes imortais: «Como tu és eu já fui / Como eu sou tu hás-de ser / Lembra-te / Hás-de morrer.»

Combinámos imediatamente regressar na noite seguinte devidamente equipados. Lanternas, facas de mato como as que víramos no Rambo e uma máquina fotográfica Nikon EM, herança paterna, para registar adequadamente a proeza. Uma ida a um cemitério abandonado, de noite, era coisa para engordar a nossa esquálida popularidade. Pelo menos junto dos geeks com que nos dávamos.

Como prevíramos, descer foi tão fácil como subir. A natureza, retomando conta do espaço, fornecia-nos os pontos de apoio necessários para que os nossos corpos magros e ágeis (há de facto vantagens físicas inegáveis na juventude) não encontrassem qualquer dificuldade em galgar os ramos que davam para o recinto. Lá dentro, tudo se complicava. Eu tenho pavor a aranhas e o meu amigo detestava ratos. Tínhamos a certeza de que havia ambos em abundância naquele lugar – afinal, onde se haviam de reunir os nossos terrores primordiais senão num cemitério?

Fomos muito devagarinho caminhando entre as pedras tumulares e lendo as suas inscrições. A maior parte eram de pessoas que haviam vivido no século XIX. Pessoas que, salvo raras excepções, tinham vivido muito pouco tempo.

Lembro-me de fazer contas e de pensar que o meu pai, nos sessenta e tais, já tinha vivido mais tempo do que a maior parte da gente ali enterrada. Lembro-me também de pensar que muitas daquelas pessoas nunca tinham visto luz eléctrica ou um automóvel. Uma pequena travessia no espaço, uma grande viagem no tempo.

Eu pedia ao meu amigo para apontar a lanterna para tal e tal sítio para eu ter luz suficiente para fotografar. Tinha um rolo novinho de trinta e seis fotos. Não tínhamos dado mais de uma dúzia de passos e já ia a meio. Tudo era fascinante.

O João decidiu que devíamos entrar num dos jazigos. Para mim, aquilo já era demais. Uma coisa é passear no bairro onde as pessoas moram; outra, bem diferente, é entrar-lhes em casa. Mas o João estava determinado. Não tinha decidido ir ali para ver de perto aquilo que já conseguia ver lá de cima do muro. Ainda tentei convencê-lo a voltar noutro dia, a fazer a coisa de modo gradual. Nada. Estava irredutível.

Nem todos os jazigos estavam abertos mas encontrámos um – por sorte, logo o maior – que o estava. Lá dentro, uma espécie de beliche de cada lado da parede e quatro caixões, três deles fechados. Daquele que estava aberto pendia uma mão – o que restava dela. Uma mão que no fundo era apenas a estrutura óssea da mão, aquilo que restava de um corpo depois da bicheza se ter encarregado de o limpar. A mão estava dentro de uma luva delicada, feita de um tecido que nos parecia tule ou renda miudinha – a capacidade de dois rapazes de catorze anos de identificar tecidos é, como se sabe, bastante diminuta. No dedo anelar, um anel.

Esgotei o que faltava do rolo a documentar aquele insólito em jeito de prémio: não só entráramos no cemitério como tínhamos tido contacto com um morto. Um daqueles a sério, não dos que se vêm nos velórios.

O João quis ficar com o anel como recordação. Achei péssima ideia. Aquele anel já era uma recordação e não era a nossa recordação. De certeza que existiam leis dos homens e regras divinas que desaconselhavam fortemente ficar com as coisas que os mortos levam para a tumba. Mas o João já se estava a ver a contar a história da nossa proeza e a exibir o troféu arvorado em cereja no topo do bolo. Eu não estava de todo convencido (e as doenças? E a fúria divina? E as dúzias de maldições em que justissimamente incorremos?)

Mal tocou no tampo do caixão semiaberto este caiu, separando sem esforço a mão do resto da frágil assemblagem de ossos em que uma pessoa se torna. A mão caiu no chão, o barulho assustou-nos. Os cães da vizinhança ladraram e corremos dali para fora como dois ladroecos apanhados em flagrante.

Sem o anel-troféu, o João rematava sempre a história dessa noite – que repetiu vezes sem conta anos a fio – realçando o carácter enigmático daquele súbito movimento do tampo do caixão. «Era como se o caixão a estivesse a proteger, porque nem lhe tocámos». Era mentira, claro. Mas sem o anel, que podíamos fazer?

9 Jul 2021

Pensar a vida

As cidades, por maiores que sejam, acabam por se dividir em pequenos bairros, por vezes não maiores que duas ou três ruas, nos quais toda a gente – para o bem e para o mal – se conhece. Isso não acontece na suburbia porque a suburbia não foi, de raiz, pensada para ser assim; não foi, aliás, pensada. A suburbia é um polvilhado difuso de blocos de apartamentos que aparecem onde quer que haja espaço e ligações à cidade que a alimenta. É uma necessidade habitacional criada pelas oportunidades de emprego intensivo e mal pago que a cidade oferece. Essa oferta não inclui, claro está, direito de habitação ou usufruto. A cidade, para aqueles que a frequentam na perspectiva única de formiga obreira, empurra para fora de si à tarde aquilo que, pela manhã, convoca e abraça.

E a vida dos bairros da cidade pode ser mais ou menos a mesma anos a fio. Duas pastelarias razoáveis – uma com o café mais barato do que na outra mas mal servida de bolos –, uma funerária onde amolece amarelada, na montra, uma Nossa Senhora sem protector solar, uma loja de fotografias involuntariamente transformada em museu-galeria do bairro, por onde as pessoas passam, apontando: «olha, que é feito desta?», uma lavandaria onde a mitralhada da rua vai beber café na máquina de venda automática – porque é mais barato – e na qual a turistada vem lavar e secar a roupa, tasquinhas de bêbedos intemporais, tasquinhas de carapauzinhos fritos com arroz de tomate, tasquinhas de bola, minis e tremoços com balcões altos onde a dona, nos dias de mais algazarra, se pendura, furibunda, alçando-se naquela voz de atrair morcegos, de tão aguda: «mas vocês pensam que estão em casa???»

Estes bairros correspondem a ciclos de vida na cidade. E estes ciclos existem desde sempre (ou, pelo menos, desde que há cidades e desde que há bairros). As pessoas nascem e morrem, os negócios aparecem e desaparecem consoante as necessidades das pessoas e os avanços tecnológicos, as fachadas vão levando umas obras a ver se a coisa se segura, o recheio das casas vai mudando. É todo um ecossistema urbano no qual as pessoas modificam e são modificadas por aquilo que os rodeia.

Esse ecossistema, em grande parte de lisboa histórica, estava em claro declínio. Nalguns casos, estava mesmo moribundo. A casualidade de termos sido descobertos como destino turístico bom e barato revitalizou grande parte desses bairros, embora o tenha feito ao modo da erva daninha, reclamando espaço apenas para si e sufocando o que crescia, a custo, a seu redor. Os edifícios cai-não-cai já não caem; pelo contrário, têm bom aspecto. Mas são enclaves de turistas onde os moradores só entram, no máximo, para limpar e fazer camas. Nada do que foi recuperado na cidade o foi pensando nas pessoas que nela habitam. Estas são, no limite, figurantes com interesse zoológico, adereços para esconder o plástico que vai corroendo e substituindo, todos os dias um pouco mais, a vida.

Esta interrupção impensada e involuntária causada pela pandemia devia pôr as boas alminhas que nos governam a pensar no modelo de cidade que propuseram como necessidade pós-troika. Por essa Europa fora não faltam exemplos de sítios que o turismo descobriu e rapidamente consumiu na ânsia de tudo ver e catalogar sem realmente se imiscuir. O teste de fogo são estas autárquicas que se avizinham e o Verão de 2022. Até ver, business as usual.

18 Jun 2021

O segredo do cool

Esta crónica terá provavelmente o tom de uma reflexão de velho. Um tipo chega a uma determinada idade e o mundo que parecia mais ou menos compreendido começa a deixar de o ser. À medida que os mais jovens vão redefinindo aquilo que é «cool», rejeitando no processo os ícones da cultura popular e as múltiplas modas que um sujeito adoptou ou viu florescer à sua volta, o mundo torna-se menos simpático, dado que basicamente nos mostra na rua, nos cafés, no cinema, nas revistas de actualidade, na roupa que as pessoas vestem e um pouco por toda a parte, que a não só as nossas noções de arrojo estético e de beleza vão sendo substituídas por outras, como nos esfrega na cara a fatuidade da nossa contribuição para a grande passerelle da humanidade e, no processo, a nossa própria efemeridade, que tanto nos esforçamos por disfarçar, adornando-a com o pouco que cada um de nós aprendeu ou foi possuindo.

As redes sociais vieram redefinir essa noção de ícone que, há apenas duas décadas, pertencia quase exclusivamente à indústria do entretenimento. «Cool» era ser parecido com uma estrela de cinema ou da música, vestir-se como eles, fumar como eles, viver no limite do perigo e com um pé na decadência, se possível, como eles. «Cool» era uma daquelas propriedades subtis, difíceis de precisar de um ponto vista objectivo mas absolutamente evidentes ao contacto. «Cool» era qualquer coisa que os outros tinham e que nós, o resto, se esforçava por copiar ou a passar a vida fingindo não se lhe dar qualquer importância. «Cool» tinha um rosto. Melhor: tinha alguns rostos. Era uma espécie de caleidoscópio que o tempo girava para, como na frase do romance de Tomaso di Lampedusa: «tudo mudar para tudo ficar como estava».

Como muita coisa desde o advento da Internet e das redes sociais, o «cool» democratizou-se. Deixou de pertencer com exclusividade aos actores e cantores deste mundo (apesar do finca-pé que estes fazem na tentativa de segurar o manto do rei que se afastando) e começou a aparecer um pouco por toda a parte. Os «influencers», palavra que me custa tanto a dizer como a grafar tornaram-se um porta-estandarte do «cool» contemporâneo. Através das suas publicações, sobretudo no Instagram, cativam a atenção de milhões de pessoas que, embasbacadas em frente aos ecrãs dos seus telemóveis, sonham com passar férias onde aquela foto foi tirada, sonham com ter aqueles lábios, aquelas sobrancelhas (um dos maiores e para mim mais incompreensíveis fenómenos do «cool» dos últimos anos: a estética da sobrancelha), aquele corpo. «Cool» é, em grande parte, sonhar. Sonhar com poder, com a forma de poder mais imediata que existe, que é aquela que radica na beleza: o poder que se tem só por se aparecer. Ser «cool» é ganhar mesmo antes de o jogo começar, apenas por comparência.

Pelo que é muito natural que a beleza – e o «cool» – seja sobretudo pertença dos mais jovens. Como uma tocha olímpica, aqueles que vão perdendo a juventude ou a sua aura vão passando à geração seguinte (embora muito relutantemente) o fardo de alumiar.

Com a democratização do «cool» sucede um fenómeno mais ou menos semelhante ao das «start-ups» e do empreendedorismo. Toda a gente acha que ser «cool» é possível. Há cursos de Instagram. De selfies. Cada um dos aspirantes ao «cool» devota uma boa parte do seu tempo a escolher ângulos favoráveis para as fotos, a estudar onde, dentro das suas possibilidades económicas, consegue passar férias e causar inveja e/ou admiração aos seus seguidores. Mas há um contra-senso lógico nisto tudo. Por definição, ser «cool» está reservado a poucos. É um dos pilares da noção. Se toda a gente pode ser «cool», ninguém, por definição, o será verdadeiramente. É como ser herói, ou maluco.

O resultado é que cada página de Instagram de uma determinada faixa etária se parece com todas (salvo raras excepções) as páginas de Instagram daquela faixa etária. Toda a gente copia as poses, os trejeitos físicos, as expressões faciais de toda gente. A coisa não lhe cai a máscara ou acaba por efeito de um particular fenómeno de reforço em cadeia. Cada um vai mostrando o seu apreço em termos hiperbólicos pelo outro na esperança que o outro o retribua. Criam-se assim milhões de câmaras de eco do «cool» mediante as quais as pessoas que nelas habitam se vêem todos os dias diante de um simpático espelho de feira. É um círculo vicioso – e viciante. Um sujeito mente todos os dias na apreciação que faz dos outros – e sabe que está a fazê-lo – mas acredita que apreciação que os outros fazem dele é real. E leva isto a sério. E perde imenso tempo com isto. E entretanto envelhece. E é substituído.

11 Jun 2021

Culpa ensolarada

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que senti um ataque de pânico. Tinha acabado de subir os três andares do prédio da minha namorada e na parte comum do andar desenhava-se uma espécie de óculo oval que dava para ao exterior. Lembro-me de me encostar ao pequeno muro e olhar pelo vão, lá para baixo, fixamente, e de me ocorrer a ideia de que afinal talvez fosse melhor estar morto do que estar vivo. Desatei num pranto, solucei, tive a sensação de, como um peixe, me estar a afogar em terra. Um ataque de pânico é como ter a morte a bater à porta; quando finalmente atendemos, não está lá ninguém.

Nos dias seguintes fiz uma espécie de curso intensivo da doença mental. Na minha família toda a gente tem uma componente ansiogénica e depressiva acentuada. Cada um deles, da minha mãe às minhas irmãs, se apressou a dar-me dicas de como controlar a respiração, de o que fazer acaso o fenómeno ocorresse no trabalho ou nas aulas (eu tinha, à altura, dezoito anos), de o que tomar e como. Cada um deles me trazia, em segredo, na concha da mão, uma lamela da sua droga preferida e indicações passadas em surdina: «quando isso começar a dar-te, metes dois destes debaixo da língua, corres para a casa de banho e encharcas o rosto em água até ficares mais calmo». Senti-me como se tivesse nascido para aquela família pela segunda vez. Ou como numa espécie de crisma para maluquinhos.

Pese a boa vontade de todos eles, a coisa não melhorou muito. Eu, que tinha assistido boa parte da minha vida ao deglutir desesperado das minhas irmãs e mãe de todo o tipo de calmantes e antidepressivos sem grandes melhorias evidentes, estava céptico em relação aos benefícios reais da medicação. Os psiquiatras e psicólogos também não eram figuras pelas quais nutrisse grande estima. Enfim, para além da solidão em que um sujeito se enfia quando se descobre diferente (seja que diferença for) acrescentava-se ainda a desconfiança em relação à eficácia ou bondade de tudo quanto de algum modo podia mitigar essa diferença ou a solidão que dela decorria.

A minha namorada pouca paciência teve para os meus achaques (tinha também dezoito anos, não estava propriamente preparada ou motivada para uma temporada de enfermagem na ala psiquiátrica – mais a mais, era Verão). Acabei por ir tomando umas coisas ao sabor dos sintomas, sem compromisso. Quando estava mais instável, tomava. Quando me sentia melhor, deixava, até porque me apetecia beber uns copos e tinha medo de que a mistura de álcool e antidepressivos me arranjasse uma vaga no hospital psiquiátrico de Faro para fazer parte da exposição permanente.

Só comecei a melhorar quando levei a coisa com a seriedade que esta merecia. Quando tomei os comprimidos a tempo e horas e confiei o suficiente num médico para respeitar o diagnóstico traçado e terapêutica proposta. Tem sido um carrossel com o qual me tenho habituado – cada vez melhor – a viver.

Passados muitos anos sobre aquele garoto efemeramente suicida, percebo que o que realmente me afligiu naquele Verão atípico foi ter entrado nele em contraciclo disposicional. Explico-me: eu não tinha qualquer razão para estar deprimido; pelo contrário. Apaixonara-me recentemente, era correspondido e eu e ela andávamos de scooter a desbravar praias nos dias em que não trabalhávamos e a torrar o dinheiro das gorjetas em jantares opíparos. Não é possível – ou permitido – ser infeliz nesta situação, pensava eu, quanto mais deprimido. Eu próprio não tinha – não tive – grande paciência para os achaques daquele rapaz.

De cada vez que hoje em dia me sinto mais chocho naqueles dias de Primavera em que o mundo parece novamente fazer sentido, penso naquele garoto assustado, a sentir-se culpado por ser diferente, por não corresponder ao que dele esperavam, por não saber sequer aproveitar a bonança da natureza e saber ser feliz. Penso nele e vingo-me com um dia cinzentão na cama, a mandar foder aquela gente toda que, à altura, não soube ou não quis fazer melhor. Eu incluído.

5 Jun 2021

A miúda mais bonita da turma

Já não me lembro se foi no sexto ou no sétimo ano que dei conta de que existiam mulheres e que isso não me era indiferente. Com doze ou treze anos, o sexo era a penúltima das minhas preocupações. O sexo era, aliás, um abstracto mais ou menos curioso que correspondia a conversas que os mais velhos – ou os mais afoitos – tinham. O meu interesse pelas raparigas adveio antes do meu interesse por sexo. Ou, como dizia o Santo Agostinho das Confissões a respeito de assuntos mais nobres, «eu já amava antes de saber amar».

Baixinho, tímido e basicamente amaldiçoado pelo facto de a minha mãe insistir em ser ela a escolher-me a roupa, poucos argumentos tinha para que uma rapariga tivesse qualquer interesse extracurricular em falar comigo. As pessoas com quem me dava, aliás, eram os proscritos do continente inacessível da popularidade, aqueles que faziam um grupo de não serem aceites em grupo nenhum. E, tirando a questão feminina, era um grupo bem mais interessante do que o dos aspirantes a motários ou a delinquentes (mas muito menos sexy, obviamente).

Quando a Luísa, provavelmente a miúda mais bonita da turma, meteu conversa comigo acerca do quão violentos os rapazes podiam ser nas suas brincadeiras, senti-me, pela primeira vez na vida, especial. Outra humanidade, à margem dos penteados decalcados da Bravo e das calças da Chevignon, era possível. Eu sempre achara que a Luísa, a interessar-se por alguém, iria naturalmente sucumbir ao charme do Ivan, um latagão magríssimo de metro e setenta (eu olhava para ele de baixo para cima sem nunca ousar dirigir-lhe uma palavra) com um mullet cujos caracóis loiros faziam inveja a qualquer querubim do renascimento. Eles eram o par perfeito. Com o seu aspecto irrepreensivelmente nórdico, contrastavam de tal modo com o nosso ar marroquino de algarvios queimados do sol que não acabarem juntos era uma ideia que roçava o pecado.

Quando a Luísa me convidou para ir ao cinema com ela, ver o Robocop, devo ter demorado uns bons dois minutos até lhe dizer, muito baixinho, que sim. Já era difícil acreditar que a Luísa pudesse achar em mim qualquer interesse que justificasse uma troca breve de palavras, mas convidar-me para o cinema tinha laivos de história para um daqueles defuntos jornais de notícias do bizarro e do além. Pedi emprestado umas calças de fato de treino a um amigo mais atreito à questão da moda e aperaltei-me com pude. Duas gotas do Old Spice do meu pai atrás das orelhas completaram a minha transformação. Às 19:15 estava à porta do café na baixa onde tínhamos combinado encontrar-nos. Era verão e a íamos à sessão das 20:30, pelo que pelas minhas contas, a nervoseira resultante de uma hora a tentar não fazer figuras de urso diante da Luísa dava para ensopar duas vezes a roupa impecavelmente passada a ferro que vestia naquele dia.

Passou-se o tempo, muito devagar, e a Luísa não apareceu. Tão desanimado quanto estranhamente aliviado, dirigi-me para o cinema. Era o universo a retomar o seu curso natural, pensei. Na bilheteira, vejo a Luísa e ainda pensei em gritar-lhe do outro lado da rua. Ainda bem que não o fiz. Ela estava com o Ivan. Ele, naturalmente imune ao embaraço, não parava de lhe contar o que eu imaginava serem, pelo riso dela, as melhores piadas do mundo. Eu, por dentro, desmoronei de amores pela primeira vez.

Fiquei sentado duas filas por detrás deles. O Ivan, alto, fez-me pelo menos metade do filme com aqueles caracóis que me pareciam cada vez mais ridículos a cada minuto que passava. Do nada, saquei da pastilha corpulenta que mastigava há horas (preceitos para o hálito, conselho do amigo das calças) e atirei-a de modo a que fizesse ninho no cabelo do Ivan.

Se estiveres aí desse lado, meu querido, aceita as minhas tardias desculpas. Sim, fui eu. Sim, tu não tinhas culpa nenhuma de seres insuportavelmente bonito. Espero-te bem. Lamento teres tido que rapar esses gloriosos caracóis. Ah, e lamento pela Luísa. Afinal preferia morenos. Tans pis.

28 Mai 2021

Temos de falar sobre isto

Com mais de cem anos de prática de ciência a sério no lombo, já era tempo de falarmos mais seriamente das charlatanices que vamos aceitando porque erradamente, lhes atribuímos uma inocente função paliativa. Sim, eu sei o que é olhar nos olhos de uma pessoa cuja réstia de esperança ficou no chão do consultório do oncologista. Eu sei o que é perceber subitamente a radical impotência das palavras e dos gestos perante o mais absurdo desespero: «mas eu sinto-me bem… Como é que é possível que isto esteja a acontecer quando eu me sinto tão bem, é só uma dor aqui junto às costelas, mas nem é nada de mais…»

A medicina tem de lidar muitas vezes com a questão do fim de vida. Nem sempre o faz bem, muito especialmente em Portugal e nos países onde existe uma forte tradição de a família se substituir ao doente quando um diagnóstico é especialmente difícil. Mas tem de lidar com isso; não pode dizer «olhe, não perca a esperança porque pode acontecer um milagre». Não digo que milagres não aconteçam. Mas um milagre, do ponto de vista da medicina, é apenas um fenómeno para o qual ainda não temos uma explicação adequada. É qualquer coisa ao modo da Terceira Lei de Clarke: «qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.»

Quando a medicina capitula, consciente dos seus limites tecnológicos e éticos (sim, há uma ética em comunicar o fim, uma ética sobre a qual se funda, aliás, todo o edifício do que deve ser o comportamento adequado de um médico) entra então sorrateiramente a chamada «terapia alternativa». Normalmente, não promete a cura. Regra geral, as terapias alternativas são astutas em relação ao que oferecem (até porque a única coisa que têm, de facto, para oferecer, está do lado do paciente e reside na capacidade que este tem de ser sugestionado). Não podem oferecer uma cura, pelo menos ao modo da medicina, porque não a têm. Pelo que têm de percorrer caminhos tão alternativos como o adjectivo que as qualifica. Na maior parte das vezes, dizem-se preventivas: nesse aspecto são uma espécie de «medicina» no sentido grego da palavra: uma forma de vida cujo objectivo fundamental é preservar a saúde e impedir a doença. Mas quem muitas vezes lá chega já está para lá desse pináculo. Precisa de soluções. Não podendo prometer curar o cancro (e, ainda assim, alguns têm o descaramento moral de o fazer, sendo essa forma de exploração da fragilidade alheia um dos rostos mais asquerosos da ganância humana) advogam toda uma panóplia de mezinhas para «tornar a vida mais confortável», «ajudar com os efeitos secundários», «lidar com a dor» e, com alguma esperança (quase sempre albardada no lombo do paciente que «tem de ter fé no poder se curar!», recaindo sobre este o motivo do sucesso ou insucesso da terapia), «prolongar a vida» ou mesmo «ousar o milagre», coisa que dizem quase em surdina, acendendo assim uma luzinha na consciência do desesperado sem se comprometerem em demasia.

Dir-me-ão «mas que mal tem? as pessoas precisam de esperança!» Não. O que as pessoas precisam, e essa é uma comodidade relativamente em desuso nesta época, mal-grado os nossos avanços tecnológicos e a nosso orgulho na modernidade, que usamos como um brinco de pérola à orelha, é da verdade. Da radical e muitas vezes dolorosa verdade. Porque essa é que nos permite traçar um caminho exequível com o pouco tempo que nos resta. Sim, estamos todos a prazo. Muitas vezes, o prazo chega anuncia-se mais cedo e nesse tempo, nesse pouquíssimo tempo que nos resta, precisamos de estar atentos àquilo que de facto nos pode iluminar, mesmo que por breves segundos apenas, o rosto. Não precisamos de todo daqueles que antes mesmo de nos termos findado já nos vêm somente como carniça, caveiras sorridentes para onde riem enquanto nos metem as mãos nos bolsos.

24 Mai 2021

Os homens que abrem caminho

Tinha dezasseis anos quando o meu pai morreu. Tinha dezasseis anos e alguma esperança de que o meu mundo estivesse finalmente a melhorar. Chegado de França com dez anos e portador de uma infância basicamente infeliz, Portugal constituía-se como um reduto possível de familiaridade no qual eu conseguiria limar os aspectos mais anti-sociais da minha personalidade e, finalmente, fazer amigos. Não foi de todo assim. Fui recebido com a estranheza a que os imigrantes são normalmente votados. Trazia ainda muita França em mim. Não era só o meu mau-jeito social que tinha de desbastar, era também a minha roupagem gaulesa, os meus modos demasiado reservados, algumas palavras que teimavam em não sair em português.

O facto de ter uma consola (ainda que pré-histórica) e um zx spectrum a cassetes ajudou a levar alguns amigos a casa. Pela primeira vez na minha vida, os miúdos não me viam apenas como o nerd sem jeito para jogar à bola ou andar de skate e cujo passatempo era falar apaixonadamente de astronomia e ficção científica. Eu era, ao lado disso, um nerd com brinquedos fixes. Numa altura em que Portugal corria já sem fôlego atrás de uma Europa orgulhosa da sua abundância, ter brinquedos fixes era um atributo social nada despiciendo.

Pouco a pouco, fui sendo convidado para aniversários, matinés com banda sonora de Europe regadas a sumol de ananás e idas à praia quando o sol algarvio começava a despontar. Passei de ser tolerado a ser aceite. Para um solitário como eu, que já tinha feito contas à vida e ao futuro e que aspirava socialmente, no máximo, a não morrer virgem aos quarenta e poucos, nada mau.

Quando o meu pai morreu, eu tinha acabado de experimentar a adolescência na sua componente de excessos irresponsáveis. Era quarta-feira de cinzas e eu estava de ressaca. Tinha saído na sexta, no sábado, na segunda e na terça e em cada um desses dias eu tinha bebido mais do aquilo a que estava habituado. Pela primeira vez na minha vida, tinha contacto, ainda que muito difusamente, com o conceito de ressaca. Pela primeira vez na minha vida, percebia o significado de «dia seguinte».

O meu pai morreu em casa, nos meus braços. Demasiado repentino, demasiado cedo. Tínhamos finalmente descoberto o filão de uma linguagem comum. Já não passávamos um pelo outro no corredor como dois estranhos que se cruzam numa estação de comboios. Vê-lo partir assim, antes de ser possível recuperar as centenas de abraços que não demos e todas as ideias que não trocamos, arrancou um bom pedaço de mim. O edifício não cai apenas porque se vota parte dele ao abandono e se cola o restante com cuspo.

Há uns dias morreu-me um amigo, o Cândido. Tive a sorte de conhecer e o azar de não o ter conhecido há muito mais tempo. Era um homem maior do que o corpo que habitava (e não era nada pobre em corpo, diga-se de passagem) e morreu cedo. Teve a sageza de privilegiar sempre na sua vida a generosidade e o acto de distribuir o que fosse com as mãos abertas em flor. Era uma espécie de líder tribal que conseguia congregar à sua volta novos e velhos, família e amigos, conhecidos e desconhecidos com uma autoridade natural que decorria de uma espécie de budismo heterodoxo, súmula escolhida a dedo daquilo que a vida lhe tinha posto diante em cada momento. Actor portentoso, talvez a Comunidade do Pacheco tenha sido o texto que mais prazer lhe deu levar a cena. Não por acaso: se há uma palavra que o Cândido abraçaria com aqueles braços capazes de envolver o mundo e o levar ao peito seria essa mesmo. Comunidade. À Blau, à Marta e ao Ivo, o meu abraço possível. Até já, camarada, e quando estiveres com o meu pai diz-lhe que já faltou mais.

14 Mai 2021

Uma alegoria

Uma alegoria

Bukowski correspondeu-se com Barbara Frye – a sua primeira mulher, pelo menos de papel passado – durante algum tempo antes de se conhecerem em pessoa. Ela era editora da revista de poesia Harlequin, sediada no Texas, uma das muitas publicações independentes, na América dos anos cinquenta e sessenta, cuja vocação principal era a descobrirem e dar voz aos poetas que de outro meio contavam apenas com edições de autor e um público especializado mas muito restrito – a maior parte estava nessa situação.
Bukowski escapara à morte por um triz, em 1955, quando uma úlcera hemorrágica o atirou para as urgências dos desvalidos do Hospital de Los Angeles. Precisou de inúmeras transfusões de sangue e, como não tinha seguro, estava dependente de ter crédito de sangue no hospital; não tinha. Acabou por ser o crédito de que o seu pai dispunha que o salvou – tendo em conta o quanto odiava e desprezava o seu pai não deixa de ser uma cruel ironia ter sido ele a salvá-lo, mesmo que de forma mediada.
Não tinha ainda publicado poesia. A sua primeira plaquete acaba por sair em 1960 com o título «Flower, Fist and Bestial Wail». Sem poder beber – como estava habituado a beber – atira-se a entupir as caixas de correio das dezenas de revistas especializadas em poesia nos Estados Unidos com poemas seus e, não raras vezes, longos lamentos acerca do seu génio não reconhecido. Numa das cartas, para um editor literário do Novo México, Judson Crews, escreve «ou publica estes poemas ou suicido-me». Judson for lesto a devolvê-los.
Quando Barbara acede a publicar os seus poemas na Harlequin, tecendo-lhes e a Bukowski rasgados elogios – diz considerá-lo o maior poeta da língua inglesa desde William Blake –, estabelece-se imediatamente uma relação. Rapidamente o plano profissional dá lugar à troca de entusiasmos e queixumes. Ela lamenta-se repetidamente de poder nunca vir a casar, visto ter uma deformidade física que afasta os homens – faltavam-lhe duas vértebras no pescoço; além de não conseguir virar a cabeça, dava a sensação, a quem a via, de que ela estava sempre de ombros encolhidos.
Cansado daquela ladainha, e de certo modo familiarizado com a noção ser preterido pelo aspecto, Bukowski certa noite escreve-lhe uma carta (provavelmente bêbedo) em que lhe garante não ser por meras duas vértebras a menos que Barbara iria ficar solteira. Ela era uma rapariga simpática e inteligente e, afiança, ele próprio casaria com ela se ela assim o quisesse – o equivalente dos anos cinquenta, hoje em dia, às mensagens de Facebook depois de uma noite de Incógnito.
Passados uns dias e esquecido do conteúdo da missiva que enviara, recebe uma carta de Barbara na qual ela diz aceitar o seu pedido, assim como algumas fotografias dela própria. Aí sim, Bukowski assustou-se.
Ainda assim, combinam encontrar-se em Los Angeles; ele fica de esperá-la na estação rodoviária. Mas Bukowski tem um plano: coloca-se num sítio pouco visível de onde pode vê-la sair do autocarro à socapa. Acaso ela lhe pareça tão terrivelmente disforme como ele a antecipa, pisgar-se-á dali como se nunca tivesse lá estado. As desculpas ficarão para depois. Mais vale perder a oportunidade de publicar numa revista do que hipotecar o já de si precário futuro, pensa.
Quando a avista, pensa «olha, acho que é possível». Passado algum tempo, casam em Las Vegas. O casamento, repleto das atribulações típicas da vida de Bukowski, dura apenas dois anos. Barbara Frye morre em circunstâncias misteriosas, na Índia, em 1984.
2020 é capaz de ser a Barbara Frye das nossas vidas.

19 Dez 2020

O CEO desejável

Por vezes acontecer nascer no seio de uma família perfeitamente banal um bebé que não ri. É a todos os níveis uma experiência desconcertante, mormente porque acontece sobretudo em famílias pobres (apenas por razões estatísticas: há mais pobres e estes tendem a procriar mais) e, como se sabe, o riso é dos poucos luxos acessíveis aos remediados.
Na família não falta quem tente fazer rir a criança. Pai e mãe revezam-se diante do berço e retiram à vez da pilha de brinquedos que a família reuniu o macaquinho risonho a que o pequeno Joaquim não resistia, a Fada do Arco-Íris que era a preferida da Matilde e o palhaço do McDonald’s numa versão joint venture Kinder surpresa que despontava sempre no pequeno e roliço Joãozinho um riso de buda satisfeito, dado fazê-lo lembrar-se das batatas fritas que o tio Franco lhe dava para às mãos à socapa quando em dia de fast food. Nada. O pequeno é um júri dos Ídolos em dia de fraca fornada.
Claro que há sempre aquele tio capaz de fazer rir uma convenção de ressacados que exclama: “vocês não têm jeito nenhum! Saiam daí! Deixem-me trabalhar!” e diante da criança como de um público exigente desmultiplica-se em macaquices e em chalaças e passados apenas quinze minutos toda a gente no quarto ri a bom rir. Menos o miúdo. O miúdo olha para o tio como um pinguim para uma torradeira.
A situação torna-se obviamente motivo de conversa. Nunca nos jantares de família, claro. Muito menos nas festas de aniversário. O pobre, como se sabe, tem uma relação complicada com a verdade. Não é que ele não perceba perfeitamente. Mas evita dizer aquilo que se fosse ele a ouvir o poderia magoar. A força do pobre é o número, e o número não se obtém alienando a própria família. Por isso o pobre nunca fala abertamente na cozinha onde reúne à volta de uns camarões pré-cozidos ou na sala onde celebra a inútil mas pioneira licenciatura em sociologia do Pedro. As conversas do pobre são conversas de corredor, e é nos corredores das casas das famílias onde o pobre convive que este expressa a sua preocupação. “Uma moça minha amiga que trabalha na Escola diz-me que só pode ser autismo”. “Mas o menino fala”, atravessa-se uma prima. “O autismo é muito mais complicado do que aquilo que se vê nos filmes”. “Pois, pois”, diz alguém em surdina (os pobres sussurram tanto quanto gritam, desconhecendo o registo médio).
Há um dia em que estão todos à mesa no contexto de uma celebração qualquer e, enquanto uns falam distraidamente e outros só têm olhos para o prato à sua frente, a pequena Maria, com três anos apenas, espeta um garfo na mão do pequeno Vicente, mais velho que ela um mês. Segue-se a confusão previsível: correrias à casa de banho com toalhas ensopadas em sangue e acusações de má educação de parte a parte. A única coisa que destoa da algazarra confusa é o riso do pequeno Martim. O pequeno Martin, pela primeira vez, ri.
Ora isto acontecendo numa família sem visão de futuro poderia ser desastroso, sobretudo para a criança, condenada desde logo ao isolamento e à desconfiança perenes. Mas o pai do pequeno Martim, ávido consumidor de documentários de todo o tipo, percebe numa repentina epifania estar diante de um futuro gestor.
A criança é incentivada a ter boas notas, sobretudo a disciplinas científicas. O pai lê-lhe capítulos de livros de empreendedores para o adormecer. Aos treze anos oferecem-lhe um portátil em segunda mão onde está instalado apenas o Excel (com a esperança de que este dure mais do que os dois hámsteres que o Martim sacrificou ao altar da curiosidade infantil – a versão oficial da família).
Com dezasseis anos o já-não-tão-pequeno Martim domina a língua críptica dos gestores de activos e entretém-se nos encontros de família a ridicularizar os que desconhecem o cálculo de juros. O pai, à distância e do canto do olho, sorri um sorriso de orgulho. “Este já se escapou do subúrbio”, pensa.
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11 Set 2020

O pobre desejável

Como é que se faz um pobre? Parece simples, até porque pululam receitas um pouco por todo o lado, mas fazer um pobre exige cada vez mais cuidados. Não é qualquer pobre que serve à manutenção da ordem social. Um pobre demasiado pobre poderá tentar colmatar as suas necessidades mais básicas por via de uma marginalidade intermitente, i.e., não lhe será alheia a noção de furto em caso de fome, por exemplo. A sua energia intelectual concentrar-se-á na elaboração de planos que lhe permitam sobreviver. Pouco se importará com a lei e a noção de justiça desde que não seja apanhado. A sua argúcia nunca deixará de ser uma argúcia de desenrascado e os constrangimentos que possa sentir por estar entre a sociedade e as suas regras e o outro lado onde impera a necessidade mais animal nunca serão suficientes para sentir uma vergonha autêntica, uma vergonha social capaz de lhe refrear o ímpeto criminal. A necessidade falará sempre mais alto. A consciência nunca terá a força da fome. Um pobre assim, para além de contribuir muito pouco do ponto de vista fiscal – pois a sua sobrevivência implica furtar-se tanto quanto possível a todo e qualquer imposto – não é fiável. É capaz de votar da forma correcta desde que lhe façam promessas adequadas – mesmo que irrealistas e cronicamente incumpridas – mas não é leal. A qualquer momento é capaz de entregar o seu voto a um populista qualquer porque este lhe propõe a revolução – mesmo que não dessa revolução não se anteveja qualquer mudança no seu estado de pobreza. Um pobre deste tipo não é fiável; por razões óbvias, não tem ideologia.

Fazer um pobre implica algum contra-senso, pois o pobre é tanto melhor quanto mais se investir nele. Há que limar-lhe com precisão as necessidades fundamentais. É importante que não passe fome, pelo menos aquela fome que implica um défice calórico de tal ordem que o desejo se converte em desespero. O seu desejo deve ser moderado. Deve-lhe ser garantida a possibilidade de comer um bife de vez em quando. De jantar fora em dias de festa. De provar uma ou duas vezes na vida os acepipes acessíveis apenas às pessoas que não padecem de pobreza. A sua satisfação deve ser cuidadosamente contrariada pelo seu desejo de mais e melhor. Só assim é possível inculcar-lhe de forma permanente o conceito de esforço. Mas mais importante do que o esforço é a inveja. O pobre deve invejar tudo quanto esteja imediatamente acima dele. Mas não pode ser uma inveja cega; esta deve vir acompanhada de uma noção clara de merecimento. No seu espírito de pobre tem de se ir sedimentando a ideia de que o sucesso alheio é justo e, de algum modo e através do esforço, atingível. Um pobre tem de sonhar que pode deixar de o ser. Um pobre sem sonhos é um pobre conformado, preguiçoso, exangue do voluntarismo necessário para produzir mais. Apesar de pacífico e obediente, um pobre assim não cumpre o seu potencial.

É absolutamente necessário providenciar-lhe meios para arrendar ou comprar uma casa, mesmo que seja apenas uma gaveta minúscula num arrabalde distante. Os pobres sem meios acabam por ir parar à rua e são, para além de um problema de higiene pública, uma visão aborrecida e desagradável. Outros ainda constroem autênticos enxames de tijolo e chapa de zinco – por vezes nas zonas com melhor vista e mais potencial imobiliário – e depois é praticamente impossível tirá-los de lá. Nesses ambientes infectos gera-se todo o tipo de problemas e vícios decorrentes da pobreza organizada: crime, tráfico e consumo de drogas, doenças contagiosas, etc. Um pobre tem de ter um tecto a que chame seu. Tem de estar convencido de que esse tecto, mesmo que na orla mais longínqua da sociedade, faz parte dela.

Quanto à bebida, a fórmula é amplamente conhecida. É necessário censurar publicamente a ingestão exagerada de álcool não fazendo porém qualquer oposição legislativa à sua disponibilidade. Um pobre com inveja tem tendência a afogar as mágoas pelo menos semanalmente. É deixar. Apesar dos pequenos desacatos que possa causar, a garantia de uma ressaca em que toda a culpa do seu estado miserável recai sobre ele como um piano de cauda é absolutamente desejável. A culpa gera vergonha e a vergonha gera obediência. A longo prazo, o pobre é até capaz de se convencer de que é responsável pelo mundo que habita. Um pobre convertido a esta ideia é de uma lealdade incorruptível. É este o pobre desejável.
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4 Set 2020

A evolução às bolinhas

A história da nossa evolução enquanto espécie está fundamentalmente ligada a uma característica específica do humano a que comummente chamamos inteligência. No reino animal a que pertencemos, não somos os mais fortes, os mais altos, os mais velozes ou os mais ágeis. Não temos a visão mais aguda ou a audição mais apurada. Fisicamente e descontando a postura vertical e o polegar oponível, não apresentamos nenhuma característica que nos separe de forma radical dos restantes animais. Pelo contrário. Em termos físicos – e até genéticos – somos muito semelhantes aos chimpanzés, por exemplo.

É difícil (e não cabe de todo no espaço de uma crónica) definir inteligência. Como inúmeros conceitos com os quais operamos quotidianamente, o significado de inteligência recai sob o paradoxo agostiniano da definição de tempo: “se ninguém me perguntar o que é, eu sei; se me perguntarem, eu não sei”. A linguagem – porventura a mais emblemática das conquistas da inteligência – não é transparente para si própria. Mas funciona (mais ou menos, mas essa é outra conversa).

Tomemos da inteligência apenas um dos seus componentes mais simples: a capacidade de resolver um determinado problema. Este pode ser o acto de abrir um coco (ou um crânio) com recurso a uma pedra ou o de postular a equação pela qual se rege a força da gravidade. A inteligência visa tudo. É uma forma peculiar de desocultamento progressivo da realidade e a pedra basilar do nosso vasto domínio enquanto espécie. É graças a ela que o macaco relativamente imberbe que somos se tornou o predador incontestado de todos os restantes animais, da terra e dos seus recursos (e aqui cabe tanto orgulho quanto vergonha).

De um ponto de vista evolutivo, a inteligência é o meio pelo qual acedemos ao trono deste ínfimo recanto do universo, para o qual espreitamos com a curiosidade de um recém-nascido incapaz chegar aos brinquedos pendurados sobre o berço. Estatisticamente, a inteligência (ou pelo menos o QI, a sua medida) tem vindo a aumentar desde que começámos, no Séc. XX, a aferi-la globalmente. Parece haver razões contextuais para isso, nomeadamente o aumento da qualidade de vida por vida da medicina e da nutrição (é sabido que um estômago vazio pensa pior). Neste momento da nossa história enquanto espécie, há autores que defendem que nos próximos cem anos ela continuará a aumentar de forma continuada e outros que dizem exactamente o contrário, ou seja, que chegámos a um ponto de inflexão e que daqui para diante seremos – como dizer – cada vez mais estúpidos. Isto por que, de um ponto de vista evolutivo, a inteligência deixou de ser o factor capaz de fazer a diferença entre a sobrevivência e o seu oposto. Resumindo: o macaco imberbe cansou de ser esperto.

Se olharmos à nossa volta – e sem necessitarmos de ser excessivamente dramáticos, até porque a maior parte dos indicadores de qualidade de vida nos colocam numa posição mais confortável do que aquela em que estávamos no século passado – não é difícil verificar – e até é relativamente corriqueiro – que esta “capacidade de resolver problemas” não é a principal forma pela qual as pessoas asseguram a sua sobrevivência. A sobrevivência parece depender sobretudo do país em que se nasce; da cidade, do bairro, da língua, da cor da pele, da família em que se nasce. Até por que – em havendo dinheiro – a resolução de muitos dos problemas práticos da vida pode ser banalmente adquirida. A sobrevivência não depende tanto da capacidade do humano de resolver o mundo em seu redor (até porque este já se encontra a esse nível e na sua maior parte, resolvido) mas das posses que abrem ou fecham as diversas possibilidades que o mundo – como num cardápio – oferece.

A possibilidade de um decréscimo global da inteligência coloca outros problemas. Embora sejamos a espécie regente do burgo, a nossa sobrevivência a longo prazo não está de todo assegurada. Talvez o facto de sermos cada vez mais e possivelmente cada vez mais estúpidos não seja uma vantagem. E, na verdade, talvez não haja nada a fazer em relação a isso.

28 Ago 2020

Estágio para a morte

Quando era criança, só os velhos morriam. Era uma coisa natural, eram velhos. Às vezes era até uma coisa bondosa: depois de anos a sofrerem avcs até perderem o mais básico controlo dos seus corpos ou carcomidos pelo cancro, o acontecimento da morte acabava por ser o momento pelo qual uma luta inglória e injusta encontrava finalmente o seu fim. Embora ninguém o dissesse abertamente, sob pena de censura social, era um alívio para quem ficava.

A morte, quando eu era criança, ainda estava em processo de mudança para os lares de terceira idade e era-nos mais próxima. Aparecia nos velhos com a boca ao lado, vítimas das tromboses que agora inspiram outro cuidado hospitalar e um desfecho bastante menos incapacitante. Aparecia nas estradas secundárias portuguesas, repletas de carros em terceira mão (antes do dinheiro da Europa) e de condutores incapazes de recusar o quinto digestivo e agarrados à ideia de que o cinto de segurança era uma mariquice passageira. A morte, apesar de não vir por mim, andava muito mais na rua.

Neste jogo em que participamos simplesmente por assistir à passagem do tempo vemos a morte acercar-se todos os dias cada vez mais. Toda a gente conhece as regras: à medida que o tempo decorre, as hipóteses diminuem. Não dá para protelar nem desistir. Desistir é, aliás, entregar o jogo e antecipar o desfecho.

Mas a morte está muito diferente. A massificação dos lares de terceira idade transformou a experiência da morte para a família dos velhos e moribundos. Há quarenta anos não havia tantos lares; as famílias eram ainda mais remediadas do que agora. Na maior parte dos casos, os velhos eram cuidados em casa até chegar a sua hora. Não subjazia a este hábito nenhum princípio humanitário: apenas não havia dinheiro para ser de outro modo.

A omnipresença dos lares e a imperiosa necessidade do trabalho feminino (eram as mulheres e as crianças sob supervisão das mulheres que cuidavam do acamado) acabaram por introduzir uma espécie de estágio para a morte. Já é muito raro os velhos passarem os últimos anos das suas vidas em casa ou na casa dos seus filhos, cuidados por estes. E, provavelmente – não tenho números, apenas a evidência anedótica de estar atento ao que me rodeia – cada vez mais cedo. A morte vai acontecendo cada vez mais longe: na cama do lar, no leito do hospital.
Teoricamente, não tenho nada contra o conceito dos lares. Até sei – todos sabemos, pelas migalhas de notícias cândidas que intervalam os desastres em série que são os o grosso dos telejornais – de histórias enternecedoras de velhos que foram para lares e que se apaixonaram e tiveram direito a uma última e inesperada volta no carrossel antes de serem expulsos da feira.

A especificidade desta pandemia global – cuja mortalidade é directamente proporcional à idade de quem vai infectando – revelou sem margem para grandes dúvidas aquilo que todos sabíamos sem o querermos admitir: que a maior parte dos lares, dos mais baratos aos mais caros, são verdadeiros entrepostos de corpos frágeis e mal cuidados alternando períodos semi-comatosos resultantes da sobremedicação com intervalos de rara lucidez desesperada. Não há nada de bondoso no lar, nada que o redima. Os velhos são postos lá para morrer e tudo corre contra eles.
Os filhos lá vão cuidando das suas vidas, uns visitam os pais nos lares, outros só lhes ligam de duas em duas semanas, outro nem isso. Até um dia chegar a notícia da morte. E porque os filhos são pais e os pais têm filhos e o tempo passa, de espectadores mais ou menos interessados acabamos por passar todos a utentes.

14 Ago 2020

Um segundo na história do universo

Poder-se-ia dizer que nascemos entubados, porque este pequeno passeio a que damos o nome de vida, a nível cósmico, não chega a ser um piscar de olhos. Para complicar mais, nascemos nus – em todos os sentidos. Ao contrário dos bichos que legam aprendizagem por via da hereditariedade, o humano aparece no mundo absolutamente desprovido de qualquer competência. É puro acontecimento de curiosidade. Essa plasticidade primordial é na verdade a sua grande vantagem evolutiva e, e simultaneamente, um dos focos fundamentais de ansiedade do sujeito, pois quanto mais história da espécie vai ficando para trás, mais há para aprender e o dispositivo pelo qual se dá essa aprendizagem é basicamente o mesmo há milénios. O cérebro não acompanha em termos evolutivos a sedimentação acumulativa do saber. É como escavar uma mina cada vez maior com a mesma colher com que se começou a fazer um buraco na terra.

A sobrevivência da espécie tal como a conhecemos implica a sobrevivência de um grande número de indivíduos e dos suportes de conhecimento adquiridos ao longo dos séculos. Acaso um cataclismo varresse o planeta e levasse com ele, para além da maior parte da humanidade, tudo quanto esta se socorre para não estar constantemente a reinventar a roda, outra espécie de humano surgiria, condenado – como está desde sempre – a resolver progressivamente a natureza que o rodeia. Desta feita, sem consulta aos manuais. Todo o básico da física, biologia, química e restantes áreas do saber teriam de ser redescobertos. A notícia feliz – a haver uma –, é que o conhecimento – pelo menos científico – parece ser unívoco e as suas conquistas parecem resistir ao tempo.

Para os gregos antigos, o humano é uma criatura que caminha de costas para o futuro com os olhos postos no passado. Criatura às arrecuas, condenado a desconhecer o sítio para onde caminha e impedido de voltar para trás nos seus passos. E ainda assim, mal-grado a sua aparente insignificância na ordem geral das coisas, cada sujeito comporta em si a possibilidade de mudar tudo. O conhecimento é a tentativa e erro de muitos consagrado no acerto de um. Formiguinhas laboriosas, cada uma com a sua pequena colher, procurando fendas nas rochas para se abrigarem. Cada descoberta individual beneficia toda a humanidade. Do mesmo modo, cada descoberta individual pode condená-la.

Temos a responsabilidade de proteger o nosso património de adquiridos. De cuidar do edifício que começou a ser construído muito antes de nascermos e que continuará a ser edificado muito depois de já termos desaparecido. E essa responsabilidade não se limita a preservar o conhecimento e as suas formas de transmissão do olvido mas também – e cada vez mais – dos ataques do achismo pandémico que o século XXI tem vindo a revelar. Não, a terra não é plana. As vacinas não provocam autismo. Não há nenhuma conspiração mundial que se interesse por tudo quanto fazes e dizes.

Nos últimos cem anos temos estado a assistir a dois movimentos inteiramente distintos: por um lado, a indústria do entretenimento de massas tem vindo a promover uma imbecilização crescente nos conteúdos que produz. Por outra parte, o conhecimento científico tornou-se tão complexo e especializado que para se falar sobre determinado assunto com propriedade é necessária uma precisão subatómica e uma vida dedicada a áreas cada vez mais reduzidas e precisas em âmbito.

Essas duas culturas totalmente distintas chocam quotidianamente. Não são aldeias vizinhas, são continentes distintos com linguagens mutualmente ininteligíveis. Os efeitos desses choques sentem-se de forma cada vez mais profunda, seja nas políticas de saúde ou energéticas, seja no modo como as pessoas se arriscam a contrariar tudo quanto não compreendem, confundido uma pueril revolta adolescente com um acto de liberdade. A humanidade, quando não acha perigos com que se entreter, inventa-os. E este, ao contrário do meteorito possível ou do desastre climático, está em cada um de nós.

7 Ago 2020

A Joana

Tirando os obscenamente ricos cujos investimentos e negócios os impossibilitam de não fazer dinheiro, mesmo que amarrados a uma cadeira até ao final das suas vidas, muito pouca gente ficou melhor do que estava com a pandemia e respectivo confinamento. Uma das raras excepções terão sido os animais de estimação. Estes, habituados a estar em casa à espera de que o dono regresse do trabalho, viram-se subitamente brindados com a presença ininterrupta dos seus cuidadores. Em boa verdade, estando juntos fizemos caminhos opostos: quanto mais confinámos, mais eles desconfinaram.

Eu tenho bichos desde que me lembro. O meu pai era caçador e sempre tivemos cães. Recordo-me com especial carinho de um casal de Épagneul Breton a que o meu pai chamou Tarzan e Chita. A fêmea ficava em casa durante o dia e o macho ia com ele para o trabalho. O meu pai foi telhador durante algum tempo, em França. O cão subia as escadas e andaimes para estar perto dele enquanto este trabalhava. Mas não conseguia descer. O meu pai tinha de o trazer às costas. Lembro-me de uma fotografia documentando esse pequeno número de circo amador. Ter-se-á perdido numa das muitas mudanças de casa.

Para infelicidade e incompreensão do meu pai, que fora educado para ver nos bichos um valor equivalente ao seu uso, eu queria um gato. Os cães eram muito grandes para mim; muito apegadiços, muito desprovidos da noção de espaço pessoal. E, muito especialmente depois de lhes chover em cima, cheiravam mal. Os gatos pareciam-me mais simpáticos do ponto de vista social, na medida em que porventura eram mais parecidos comigo nesse aspecto: prezavam e exigiam algum distanciamento e, ao contrário dos cães, eram parcimoniosos na distribuição do amor. O meu pai acedeu. A contragosto, deu-me um gato. O Sr. Sardinha.

Quando entrei no curso de filosofia, bastos anos mais tarde, uma colega de casa reuniu-nos para nos perguntar se nos importávamos que ela adoptasse uma gatinha. Que seria ela a cuidar da comida, da areia e de toda as coisas práticas relativas ao bicho, que a educaria tanto quanto possível para não destruir a pouca mobília que tínhamos; que não nos preocupássemos: os gatos passam praticamente desapercebidos, dizia-nos. Eu disse logo que sim. Desde que regressara de França com dez anos que não tinha um gato (o meu pai teve paciência para uma excepção, o Sr. Sardinha, e durou até numa viagem para Portugal ele mijar o carro todo e o meu pai amaldiçoá-lo até à quinta geração de descendentes).

Recebemos a pequena bichana com o entusiasmo da novidade. A Inês, consciente da diplomacia necessária para dirimir os pequenos conflitos capazes de surgir numa casa na qual as pessoas não estão ligadas por laços familiares, insistia noite após noite para que a gatinha dormisse no quarto dela. Mas esta miava e miava e passado algum tempo a Inês tinha de lhe abrir a porta. A gata vinha ter comigo e dormia na minha cama.

Uma semana volvida sobre este ritual diário, a Inês confidenciou-me: eu acho que ela te adoptou. Eu acenei silenciosamente que sim com a cabeça e o assunto da paternidade ficou encerrado ali. A gata mudara de mãos sem mudar de casa.

Chamei-lhe Joana e viveu comigo dezasseis anos mais. A única ninhada que teve, de um gato mais afoito que conseguiu entrar em casa pela janela, teve-a em cima de mim, estando eu a dormir. Viu-me acabar o curso de Filosofia. Viu nascer o meu filho Guilherme, de quem cuidava como se fosse filho dela: quando este acordava choramingando vinha-nos chamar. Dormia ao lado do berço dele. Dediquei-lhe um livro – Dez razões para aspirar a ser gato. Foi o bicho mais extraordinário que tive oportunidade de conhecer. Salvou-me mais de um milhão de vezes. É para ela que escrevo hoje.

17 Jul 2020

O dia da grande dança

Já se passou muito tempo e isso nota-se. Sobretudo à noite, quando algumas pessoas vagueiam pelas ruas meio perdidas, perscrutando numa incredulidade que se renova a cada olhar a porta teimosamente fechada do bar onde, noite fora, diluíam às feridas no álcool até da dor restar apenas uma vaga memória a que regressariam somente no dia seguinte. Estranho paradoxo destes estranhos tempos: o álcool nas mãos impede a propagação do vírus; no bucho, fomenta-a.

Também eu sinto falta da amizade desordeira e de regá-la até a algazarra ganhar um sentido a que apenas os iniciados têm acesso. A normalidade, ou o que quer que isto seja, voltou manca de onde quer que tenha estado. Embora tenhamos regressado ao dia-a-dia e às suas coisas, falta-lhes densidade e, sobretudo, diversidade. Esta normalidade é como entrar a medo na casa recém-assaltada e reparar que está tudo mais ou menos no sítio menos o que era essencial para dispersar temporariamente as tragédias que se vão acumulando.

Na rua organizam-se como se pode pequenos convívios. Os minimercados indianos, obrigados a fechar às oito da noite, mantêm a porta encostada depois da hora e pela frincha vão passando garrafas de cerveja que as pessoas recebem num murmúrio agradecido. Há uma certa clandestinidade em quase tudo: nas pessoas que se juntam em número maior do que o permitido ou o aconselhado para jantar em casa de alguém, naqueles procuram um restaurante que lhes venda umas médias porque o indiano da rua já foi ou tem medo de ser multado por estar aberto depois da hora a que estava obrigado a encerrar. Beber depois das oito da noite tornou-se um acto discretamente revolucionário.

Dançar é ainda mais difícil. As discotecas serão provavelmente os últimos sítios a abrir. Nota-se um pouco por todo o lado a ressaca dessa pouca catarse a que nos habituámos. Eu vejo a dança a insinuar-se no quotidiano das pessoas e nos seus gestos mais simples. Vejo-a na forma como as mãos se movimentam a entregar dinheiro e a receber troco; vejo-a na maneira como as pessoas abanam quase imperceptivelmente a cabeça ao som dos ritmos do trânsito na paragem do autocarro; vejo-a quando as pessoas, depois de meia dúzia de cervejas, fecham os olhos e batem compassadamente com a ponta do pé no chão, atentos à música que só eles ouvem. Há pessoas para quem a dança é uma coisa estranha que acontece nos outros. E há pessoas que precisam de dançar até deixar no chão da pista o rebanho de demónios variáveis que carregam diariamente às costas. Eu preciso dançar.

A nossa contemporaneidade, muito salubre e bem-comportada, propõe que possamos viver mais tempo e com melhor qualidade se evitarmos o excesso. Há toda uma ética da preservação ideal do indivíduo, da sua mente e do seu corpo, mediante a qual se desvaloriza quem preferiu os shots de tequila nocturnos aos batidos de açaí ao pequeno-almoço. O fumador é absolutamente desprezado. Para alguns, nem deveria merecer cuidados médicos quando na roleta do cancro lhe calhar garganta, boca ou pulmão. Eu bebo, e fumo, e danço. Provavelmente a minha passagem por aqui será mais breve do que a do meu compatriota vegano que mete no bucho seis horas de ginásio por semana. Dançar é o meu ginásio. O meu templo. Não sei quando acabará esta semi-vida a que estamos obrigados. Mas sei como se celebrará esse dia. A dançar.

10 Jul 2020

A história está cheia de homens

Há um aroma de fim do mundo neste 2020. É um ano que parece condensar em si tudo quanto de mau teria de ser distribuído por pelo menos meia dúzia de anos para ser razoavelmente normal. A grande anomalia negativa – uma pandemia de nome manso – tem vindo a fazer sobressair em cada um de nós os aspectos de personalidade que o dia-a-dia normalmente não exige. As circunstâncias excepcionais revelam as pessoas, sobretudo o seu aspecto moral, e a ética é fundamentalmente imprevisível, por mais que à mesa do café se jurem as acções mais nobres.

Há quem ache que, passados três meses de semi-isolamento bem comportado, já chega. A economia está de rastos. A maior parte das pessoas está a ser obrigada a fazer contas à vida e a racionar (ainda mais) as despesas. Há obviamente uma casta de criaturas que passa por isto sem que as suas finanças sejam minimamente beliscadas. São aqueles cuja conchinha protectora lhes permite entrar e sair de casa pela garagem e ver da cidade apenas o que o percurso do costume lhes mostra através do vidro lateral do banco traseiro. Até nisso esta crise tem sido cruelmente reveladora: a maior parte de nós pode perder o pouco que constituiu como barreira para a indigência num espaço de meia dúzia de meses. Ter uma casa e comida na mesa é um trabalho a tempo inteiro. Não há anos sabáticos para o sobrevivente. Não há almoços grátis. O pouco que somos capazes de fazer numa alegria despreocupada surge nos breves intervalos da nossa fixação apreensiva no futuro e no que ele nos reserva.

Embora o Facebook seja território estupidamente fértil para toda a sorte de especialistas poliédricos – num dia as alterações climáticas, no outro a epidemiologia estatística – a verdade é que imediatamente por baixo de uma espuma muito superficial de dados e citações o que se salta à vista é uma ignorância confrangedora.

Uma ignorância como laivos de bully, que se defende da sua própria insegurança atacando em todas as direcções, como um bêbedo socando o ar em seu redor. Uma ignorância que acha os factos desinteressantes e as explicações insuficientes. Uma ignorância que se foca aquém ou além do que está a acontecer e não no que está a acontecer. Uma ignorância que atira para cima da mesa toda a espécie de conspirações descabeladas.

Uma ignorância que por detrás de qualquer acontecimento vê parte de um plano mais vasto de domínio, mentira e controlo. Não chega ser uma pandemia, foi criada. As máscaras não são apenas uma forma de determos a propagação do vírus, são uma forma de controlo. Um medicamento não é só um medicamento, é uma decisão política. E deste espartilho com que se vestem para interpretar o mundo, zangados e tristes, acusam os restantes de medo infundado.

Andámos séculos para conseguir expurgar da natureza Deus e o diabo e os seus inúmeros agentes. Newton ensinou-nos que as maçãs não caem por nos quererem dizer coisas, mas por causa da gravidade. A medicina contemporânea mostrou-nos que o desrespeito às leis de Deus não causa doenças; as bactérias e vírus sim.

Quanto tempo mais será preciso para desparasitar a realidade dos nossos medos subconscientes? Ou dar-se-á o caso de sermos estruturalmente incapazes de viver sem estarmos sempre a tentar encontrar, mesmo que o facto se apresente pornograficamente nu, o lado escondido das coisas?

3 Jul 2020

E tudo o vento levou

O fim da Segunda Grande Guerra e a queda do muro de Berlim pareciam anunciar uma era de paz e prosperidade global. Embora a guerra da Jugoslávia e as atrocidades cometidas nos Balcãs avivassem a memória recente nos quais a esperança era ténue e frágil, era uma situação de excepção e não a regra. O mundo ocidental parecia ter chegado ao fim de uma longa e penosa caminhada, ao longo da qual tinha largado a canga do imperialismo colonial e a apetência bélica. A própria União Europeia, titubeando aqui e ali mas basicamente certa da necessidade de transformar a Europa multicelular numa potência global capaz de se sentar à mesa com os adultos, era a prova de que se podia fazer algo do sangue derramado no passado que não fosse mais sangue.

Fast Forward até 2020: o Brexit é uma realidade inelutável, os nacionalismos grassam um pouco por todo o lado e tirando uma ou outra excepção, é nítida a falência dos partidos que construíram a Europa. O zeitgeist da época é profundamente anticientífico, as livrarias transformaram-se em bricabraques onde se vendem toda a sorte de compêndios esotéricos, guias de dietas e manuais de auto-ajuda e pululam as teorias da conspiração. A própria ciência tem de adoptar – de forma absolutamente contranatural – uma postura de permissividade face às múltiplas tontices infundadas que se vão sucedendo. Na maior parte dos países as terapias alternativas estão enquadradas legislativamente e configuram muitas vezes uma possibilidade complementar de tratamento no sistema de saúde pública, embora haja zero evidências da sua eficácia terapêutica.

As pessoas estão aparentemente fartas da civilização. Querem regressar a um estado de “harmonia com a natureza”. Fazem uma selecção do conhecimento disponível e privilegiam apenas aquele que se conforma com a sua visão do mundo. Recusam tudo o resto, rotulando-o de excesso civilizacional cujo propósito é afastar-nos da origem a que pertencemos. O tédio da civilização não é novo. Baudelaire escreve sobre a difícil relação do homem com a cidade moderna. O movimento New Age dos anos setenta constitui-se por via da recusa de tudo quanto era símbolo da supremacia americana. A humanidade burguesa comporta em si um adolescente irado e cheio de certezas negativas que nunca mais cresce e sai de casa.

O fenómeno das redes sociais acaba por ser o megafone de que toda a esta gente meio perdida precisava. Um tipo num arrabalde de Berlin percebe que espalhados por todo o planeta existem pessoas que, como ele, acreditam nos efeitos maléficos das vacinas. “Pessoas despertas”, como cada um dos maluquinhos conspirativos se auto-intitula. Todos aqueles que aceitam os fundamentos científicos que nos permitiram basicamente duplicar a esperança de vida no Séc. XX são “o gado”, a massa informe a caminhar autista para o matadouro do controlo que “eles”, os poderosos, instituíram. Estas pessoas, como é óbvio, não trabalham com lógica. A enciclopédia delas é o youtube. O critério de verdade é a conformidade com o que passaram a pensar. E tudo piora quando têm filhos e resolvem submetê-los a uma infância de acordo com as suas crenças.

Sou absolutamente a favor da liberdade de cada um pensar, escolher e agir de acordo com a sua consciência dentro de um quadro leis equilibradas e justas. Daí se impõe que não se possa proibir um cidadão de optar por resolver o seu divórcio mal digerido com o professor Karamba e não com um psicólogo. Mas não proibir não é o mesmo que incentivar. E o que o Estado tem feito, nomeadamente com o enquadramento legal das terapias alternativas e com a promoção académica das mesmas, é muito mais do que permitir. É conferir uma aura de legitimidade a saberes que se escusam a passar pelo crivo do método científico. É dar a medalha a quem atalhou a corrida.

12 Jun 2020

Ainda a ciência

É absolutamente inacreditável a velocidade a que o sentido ou o controlo podem resvalar. Sobretudo numa conversa. A certa altura fala-se da autonomia de Hong Kong face ao regime chinês e, não se sabe bem na arriba de que brisa, acabamos por desabar cabriolando no território fértil e caótico das teorias da conspiração. Eu adoro teorias da conspiração. Como adoro um grelhador no Verão ou uma série de pessoas: ao longe. Desde que possa usufruir descomprometidamente das últimas descobertas dos terraplanistas ou da confirmação de que na genealogia da coroa britânica há provas de existirem lagartos infiltrados, sou todo ouvidos. Para as teorias da conspiração terem piada, o assunto tem de comportar uma certa distância da vida e não ter o potencial de perturbar o já de si frágil dia-a-dia. Não pode ser sobre a conspiração dos produtores de OGMs para nos envenenar lentamente ou sobre o uso das vacinas para nos adoecer e controlar. Aí só dá vontade de esbofetear a pessoa até à lucidez. Perde metade da graça.

Para um optimista antropológico do século XIX, as teorias da conspiração actuais teriam ainda menos sentido do que têm para nós. De certo modo, a arte moderna e a sua propensão para cartografar e logo estourar com os limites preparou-nos para todo o tipo de frikalhada discursiva. Mas os antigos acreditavam na progressão da lucidez, pelo que não faria qualquer sentido para eles que em pleno século XXI e com toda a sorte de progressos científicos e tecnológicos nos alforges, nos andássemos a entreter a contestar as básicas leis da física. A pandemia actual teve o condão de semi-silenciar alguns dos disparates que compõem a constelação da crendice. Por um lado, concentrou o foco geral da atenção, normalmente incerto e titubeante como um bêbedo a tentar regressar a casa, num assunto específico de inegável importância; por outra parte, ficou inegavelmente demonstrada (mais uma vez) a indiscutível incapacidade de todos quanto gravitam em redor da ciência à cata das migalhas gordas do desespero em oferecer um contributo que fosse – nem que paliativo – para a solução deste estado-de-coisas. Se isto fosse um jogo de futebol, seria 12-0 para a ciência a cinco minutos do intervalo.

Claro que subsistem – subsistirão sempre – aqueles para quem nada do que possa ser conseguido pela ciência prova o que quer que seja. Porque a ciência acaba por ficar sempre “aquém” ou “além” do que realmente interessa e é arrogante a despedir o improvável. Porque a ciência abarca unicamente um pequeno enclave de um território muito mais vasto de possibilidades do humano. No fundo, porque a ciência ao exigir provas sólidas para qualquer teoria que vise explicar ao como e o porquê do mundo, acaba por estabelecer barreiras claras ao que pode ser considerado conhecimento e, deste modo, reduz o âmbito global do ser. O humano consegue pensar em mais coisas do que aquelas que há. E para muito humanos, o poder da ciência de delimitar e circunscrever o perímetro do discurso válido sobre o mundo, é de uma arrogância gnosiológica imperdoável. Porquê ficar pelo que se pode provar quando há tanto mais em que se pode pensar.

A inegável vantagem da ciência consiste na sua inesgotável capacidade para a revisão contínua. As explicações científicas são válidas e aceites até surgir explicações melhores. A gravidade de Newton não era fundamentalmente errada: apenas explicava menos do que explica Einstein ao debruçar-se sobre o mesmo fenómeno.

A ciência seria injusta se tivesse regras diferentes para a química e para a alquimia, para a acupunctura e para a anestesiologia, para a mezinhas das ervas e para a farmacologia. Não tem. Mas continua a haver quem não goste de jogar pelas regras.

29 Mai 2020

A normalidade

Lentamente, a coisa vai-se compondo. As pessoas saem de casa, primeiro muito a medo, de máscaras e luvas e com álcool suficiente nas malas tacarem fogo a um prédio. Passado algum tempo e porque somos criaturas de hábito fácil, vão deixando cair os acessórios de protecção, um a um, e porque o Verão já pisca o olho e a reclusão caseira já esfrangalhou a réstia de sanidade que vinha de origem, os abraços regressam e o viço vai regressando à plantinha desacostumada da luz e do calor. Lentamente, a normalidade.

Os nossos políticos, descalços do turismo que lhes permitiu sonhar com um aeroporto na margem sul onde aterrassem todos os dias estrangeiros de toda a sorte com os alforjes a bolçar guita, voltam a ter uma corzinha no rosto. Saem à rua e sorriem o sorriso dos visionários: o sonho comanda a vida e em cada esquina um turista abastado, em cada rosto os cifrões reflectidos nos olhos como nos desenhados animados da Disney onde entrasse o Tio Patinhas. Lentamente, a normalidade.

A normalidade acaba por estar para a crise como um buraco insalubre onde dormir está para viver na rua. É a merda a que nos habituámos. A cama de pregos a que chamamos conforto. Pelo que o regresso à normalidade no país da europa onde a taxa de esforço para conseguir meramente viver nos grandes centros urbanos é a maior da Europa devia ser tão saudada como o regresso da peste bubónica. A nossa normalidade antepandémica é acordar todos os dias no sufoco de sermos desapossados do modestíssimo objectivo de podermos habitar um cubículo na cidade onde escolhemos fazer vida e à qual os nossos pais chegaram vindos do êxodo físico e mental de uma ruralidade imposta por decreto. A nossa normalidade é vermos fugir por entre os dedos das mãos o pouquíssimo que conseguimos conquistar desde que o povo saiu à rua de cravo à lapela. A nossa normalidade é uma merda, tem sido uma merda, e deveríamos trocar o contentamento liliputiano de a ela regressar de braços esticados pela inflexibilidade de um “não” incondicional. Não. Não queremos voltar à normalidade, não queremos ser cúmplices do estado-de-coisas a que chegámos para o “bem maior” de uns poucos quantos que por fortuna ou merecimento se sabem aproveitar disto. Não pedimos desculpa pelo egoísmo. Foi a única coisa que nos deixaram crescer.

Lisboa desinquieta-se com a falta de gente a comprar patos de borracha, pastéis de bacalhau com queijo da serra e conservas psicadélicas. As consequências? Pela primeira vez em meia dúzia de anos, aparecem umas casas no mercado a preços quase comportáveis. Pela primeira vez em meia dúzia de anos, a banda sonora oficial de Lisboa, “a marcha do trólei”, deixou de se ouvir de cinco em cinco minutos. A inutilidade pornográfica dos coffe labs noruegueses e dos brunches eco-vego-paleolíticos salta tanto à vista que até faz doer os olhinhos. Pela primeira vez, a cidade parece minimamente habitável. Mas lá de cima garantem-nos que lentamente, a normalidade.

A máquina de propaganda da corja de malfeitores instalada no poder já arrancou. Acenam com a responsabilidade do povo português, com os excelentes resultados – um estatuto, no mínimo, discutível – do confinamento, com clean houses certificadas não se sabe bem como e com o rebuçadinho costumeiro das inúmeras coisas que Portugal tem para oferecer ao turista do primeiro mundo. “Voltem depressa, que temos saudades das vossas carteiras.” Lentamente, a normalidade.
Eu quero é que a normalidade se foda.

22 Mai 2020

A esperteza dos bichos

Nos anos oitenta e noventa o golfinho era o maior. A comunicação social, hiperbólica no seu entusiasmo, garantia-nos que os golfinhos só não nos tinham suplantando no domínio do planeta porque viviam no oceano e tinham corpos desprovidos da anatomia necessária para fabricar e manejar utensílios (a falta que um polegar oponível faz).

É verdade que os golfinhos têm um cérebro maior que o nosso, que são bichos extremamente sociais e capazes de empatia até para com animais de espécies diferentes e que, até ver, são os únicos animais – para além dos humanos – a ingerir drogas de forma recreativa (os golfinhos em grupo entretêm-se a mordiscar um peixe extremamente venenoso chamado baiacu, ingerindo apenas a quantidade de veneno suficiente para ficarem pedrados e passando-o depois a outro golfinho – nem é preciso substituir o peixe por uma ganza para a comparação ser estupidamente óbvia).

Para além disso, têm um sistema de comunicação extremamente complexo e, treinados, são capazes de escolher, através do uso da ecolocação e de um painel capaz de interpretar esses sinais, o que querem comer. “Hoje tem sido carapaus”, dizia uma bióloga numa entrevista, “mas há dias em que só pede polvo”. Dias de polvo. Quem nunca?

Hoje em dia, porém, os golfinhos deixaram de estar na moda. Nos anos noventa, eu achava – cavalgando a vaga de entusiasmo à volta dos golfinhos e da sua inteligência – que no dia em que conseguíssemos decifrar a linguagem deles, novos mundos se iriam abrir e muita coisa se resolveria. Em surdina garantiam-nos que os golfinhos eram portadores das peças do saber que nos faltavam para completar o puzzle da nossa interpretação do mundo. No divertido Hitchhiker’s guide to the galaxy do Douglas Adams, os golfinhos estão no segundo lugar do pódio dos animais mais inteligentes da terra (os ratos estão em primeiro; nós, em terceiro). Há filmes sobre a inteligência e empatia dos golfinhos. Há documentários suficientes para encher meia dúzia de discos rígidos. O que aconteceu então aos golfinhos para no séc. XXI deixarem de ser sexys?

A explicação mais imediata (e também a mais desinteressante) é a de que a ciência – e sobretudo a ciência extremamente promissora mas ainda imberbe – não é imune a modas. Os golfinhos tinham um potencial tremendo à primeira vista. As observações preliminares permitiam tecer toda a sorte de conjecturas sobre a amplitude das suas capacidades. Um pouco com as pessoas que vamos encontrando e que nos parecem gigantes até se revelarem modestamente humanas por via do contacto prolongado. Na óptica desta explicação, os golfinhos são apenas mais um mamífero giro que prometia muito.

Eu acho, no entanto, que a queda dos golfinhos do pedestal do nosso interesse não deriva propriamente da nossa avaliação errada das suas capacidades mas da inveja. Não da nossa inveja, atenção. Mas da inveja do restante mundo animal do interesse que nutrimos quase em exclusivo pelos golfinhos durante uma larga dezena de anos. Os bichos perceberam que tinham tudo a ganhar se demonstrassem competências capazes de despertar o nosso interesse. Os primatas já há muito o faziam, mas sofriam da síndrome de familiar menos dotado. Os golfinhos, por outra parte, são-nos tão distantes que qualquer manifestação de similaridade com as nossas competências (que julgamos sempre tão naturais quanto exclusivas) nos faz imediatamente verter uma pinguinha.

Então e os corvos, mentalmente equiparáveis ao uma criança de sete anos na sua habilidade para resolver problemas? E os polvos, peritos no uso instrumental de diversos objectos? E os papagaios, capazes de para além de falar, de aritmética simples?

Parece-me óbvio que esta bicharada se reuniu e, remodelando por completo o departamento de marketing, acabou por arranjar forma de dividir melhor o pódio. O segredo dos golfinhos continua a salvo.

15 Mai 2020

As pessoas de sucesso

As pessoas de sucesso fascinam-me, independentemente do mérito moral dos seus propósitos. O sucesso é-me naturalmente estranho, não tenho o talento ou as competências para lhe deitar a mão. As poucas coisas que me orgulho ter conseguido acabaram por ser o resultado de percursos irrepetíveis. Como num labirinto de que se sai sem se saber explicar como. As pessoas de sucesso têm um método, são obstinadas e as contrariedades com que se deparam motivam-nos em vez de os desanimar.

Para onde quer que olhem, vêem mais nítido e mais longe do que alguma vez conseguirei ver.
Quando aparece uma pessoa de sucesso na televisão fico a olhar fascinado para o ecrã, medindo-lhe os gestos e a voz, tentando perceber como o fazem. Nos dias de maior ressabianço, atribuo tudo à sorte; nos de maior fascínio, a qualidades sobre-humanas. As pessoas de sucesso não podem ter dentro os mil e um registos em permanente conflito que as pessoas normais têm. As pessoas de sucesso têm de ser bidimensionais.

Mas quando as ouço a falar ou leio o que dizem, não me parecem assim tão diferentes do resto dos humanos. Na maior parte das vezes até me parecem insuportavelmente banais. O que adensa o mistério: de que qualidade específica se alimenta o sucesso?

Uma coisa me parece evidente: as pessoas de sucesso olham para a meta do percurso onde se encontram e não para o chão e não reequacionam os seus objectivos à luz das contrariedades que lhes surgem pelo caminho. Não perdem o foco, por mais absurdo e inatingível que o objecto dos seus desejos nos pareça. As pessoas de sucesso são como algumas das personagens dos filmes da Disney: sonham alto e longe e a despeito da zombaria do olhar alheio acabam por encontrar o pote de ouro no fim do arco-íris.

As pessoas normais acabam por não estar talhadas para semelhantes feitos por serem absurdamente lógicas. Tacteiam o caminho que percorrem, medem os riscos, pesam prós e contras e decidem com base em parâmetros de segurança e de certeza. Cada situação com que se deparam obriga-os a mudar de curso.

Não são normalmente filhos da puta profissionais e não conseguem ser impiedosos para conseguirem o que querem. Os seus constrangimentos espartilham-nos. Para uma pessoa normal não vale tudo para conseguir o aumento, o posto ou a medalha. A lógica e o pudor moral pesam-lhes.

As pessoas de sucesso, nomeadamente no ambiente empresarial ou financeiro, parecem especialmente desprovidas de empatia. Não há outra forma de explicar a forma como conseguem dormir tranquilamente à noite sabendo que as decisões que tomam têm consequências gravosas – por vezes até mortais – para os seus semelhantes. Por outra parte, as pessoas de sucesso parecem ter uma visão bastante restrita do que podem ser os seus semelhantes: são aqueles que ocupam o planalto onde eles se encontram. Para cima disso estão os seus ídolos – pessoas com mais sucesso do que eles – e, para baixo, uma mole informe de gente que encaram como combustível para o seu sucesso.

O sucesso para ser resultado de uma lógica imoral e absurda: por um lado, tratar as pessoas como um meio para os seus propósitos e, por outra parte, ser irredutível à lógica das probabilidades. Nada, nem aqueles que os rodeiam nem a inflexibilidade do real se pode interpor entre aquilo que são e aquilo que querem ser. As pessoas de sucesso parecem ser especialmente dotadas para fazer da absoluta improbabilidade uma forma de vida bem-sucedida.

Nós, o lombo comunitário onde as pessoas de sucesso assentam pé para galgar os obstáculos no caminho do sucesso, somos como o Raposão do Eça: vergados pela realidade e o seu peso, não temos a ousadia de afirmar.

8 Mai 2020

Vidas de conveniência

Uma das coisas mais estúpidas que a Câmara de Lisboa fez no mandato deste médio-menos que por ora vai ao leme foi mexer no horário de funcionamento das lojas de conveniência, há coisa de três ou quatro anos, obrigando-as a fechar às 22:00 em vez das 24:00. Pensemos no conceito de conveniência e em como encurtar um horário de uma loja o pode servir. Let it sink.

Diz-se que foi para evitar que as pessoas bebessem na rua e por isso causassem desacatos. Para nos controlar. Para nosso próprio bem, claro. Pouco tempo depois de a câmara avançar com este horário o Minipreço passou a encerrar às 23:00. Um supermercado a fechar mais tarde do que uma loja de conveniência. Mais uma acha para a fogueira da óbvia necessidade de reformular o conceito de conveniência.

Adiante. Como os meus cinco leitores decerto já se aperceberam, a minha tolerância para com as políticas desta Câmara de Lisboa está ao nível da tolerância ao insulto racista.

Para mim e para muitos lisboetas, as lojas de conveniência, ou lojas dos indianos – como amiúde nos referimos a elas – são parte integrante da vida citadina e das rotinas que a compõem. São o tabaco a meio do dia, um snack a caminho de casa, uma garrafa de vinho para o jantar. Mas são também um pequeno grande mistério: não se percebe – ou pelo menos eu não percebo – como fazem dinheiro e – para mim o maior mistério de todos – não se antevê o que possam fazer as pessoas que lá trabalham quando não estão a trabalhar.

São Indianos. São paquistaneses. São muito semelhantes fisicamente e, do meu ponto vista ingénuo, vestem-se de forma muito parecida. Mas sob a aparente homogeneidade há decerto vida; uma vida, individual e indivisa, talhada milimetricamente à medida do corpo do seu utente. E não fazemos ideia – ou pelo menos eu não faço – do que consistem essas vidas, e os homens e mulheres por detrás do balcão ficam reduzidos à categoria de funções pelas quais o nosso dia calha a passar.

O facto de frequentemente terem dificuldades em exprimir-se em português decerto condicionará a forma como comunicamos. São uma comunidade relativamente fechada, dão-se maioritariamente uns com os outros e parece ser difícil encontrar intersecções de interesses que permitam desenvolver uma conversa e, a prazo, uma ligação para lá do âmbito e do registo da loja.

Na minha rua há uma média de uma loja de conveniência a cada quatro lojas. A não ser que não tenham Ventil, costumo ser fiel a uma, não por acaso a que fica mais perto da minha casa. Por vezes pergunto a um dos rapazes que lá passam dez ou doze por dia o que estão a ouvir ou o que estão a ver (quando não calham estarem numa chamada telefónica e trocarmos dinheiro e tabaco através de gestos). Às vezes respondem-me imperceptivelmente, de olhos postos no chão, e eu guardo o troco, finjo que me interesso fugazmente por uma mancha na parede e saio sorrindo e acenando. A maior parte das vezes e à maior parte das perguntas fico sem respostas.

Vejo-vos muitas vezes a falarem uns com os outros ali na rua. Em que língua falam? Falam todos a mesma língua?

Não perceber.
Mas uma vez por outra calhamos a entalhar mais de um minuto de conversa.
Falo bengali. Eles também.

Eu não sei nada de bengali. Assim como não sei nada ou praticamente nada destas pessoas que vieram para Portugal para terem uma oportunidade de viverem uma vida melhor. Mas de certo modo sinto a obrigação de me desviar do caminho paralelo e seguro que traçamos para não embater no desconhecido que são os outros – e, muito especialmente, os outros que mais contrastam connosco – e de me atrever a meter conversa, à espera de que de cada vez perca mais tempo na loja de conveniência só no paleio.

26 Abr 2020

A pós-normalidade

A normalidade parece corresponder a um conjunto de hábitos, uma espécie de teia inconspícua de sentidos a que Wittgenstein chamava “proposições empíricas fossilizadas”. O peso desta teia na determinação de inteligibilidade do que nos rodeia é inversamente proporcional à sua visibilidade imediata. Como dizia Giorgio Colli, “a natureza gosta de se esconder”.

A normalidade como um círculo: reconhecemo-nos “dentro” ou “fora” mas temos dificuldade em perceber a configuração dos seus limites. Mais: aquilo que à primeira vista nos parece anormal pode, com tempo e hábito, tornar-se normal e uma estrutura substitui a precedente.

A normalidade como um par de óculos complexos: uma série de filtros através dos quais estabeleço uma relação com o que está “lá fora”. A mudança de lentes corresponde à mudança na teia de sentidos pelos quais eu me atenho às coisas. Heidegger dizia “os óculos não estão na ponta do nariz, mas nas coisas”.

Nos últimos tempos e por motivos óbvios tenho pensado na normalidade concentracionária, aquela que subjaz a e configura os espaços prisionais. Os campos de concentração nazis são o exemplo clássico. Mas estes eram recortes dentro da realidade mais alargada e complexa do nazismo. Na China de Mao, todo o país era um espaço concentracionário: a liberdade individual não existia, nem na forma mais básica de liberdade de expressão.

As crises fomentam a insegurança e com isso alteram a nossa hierarquia de valores. Nas crises tendemos a negociar segurança por liberdade: entregamos poder ao estado em troca de protecção. Na China – a origem desta pandemia – o interesse do colectivo, do estado, é um valor que se sobrepõe ao interesse do indivíduo. No ocidente – independentemente do que acontece de facto – tendemos a pensar ao contrário: a primazia é o sujeito e o estado existe por causa dele e em função dele.

As transferências de poder decorrentes das diversas situações de emergência que têm sido decretadas têm – deveriam ter – um carácter transitório. Situações excepcionais requerem medidas excepcionais. O problema é que o poder cria habituação. E quem lhe toma o gosto tem tendência a não querer prescindir de o ter.

Um pouco por todo o lado os gigantes da tecnologia delineiam estratégias de acumulação de dados com o propósito de tornar mais eficaz a luta contra o vírus. O problema é que estas empresas sabem, melhor que ninguém, o valor da informação e não se ficam pelos dados estritamente necessários para de facto aperfeiçoar mecanismo de contenção da epidemia. É como a pesca por arrastão: tudo fica na rede. E a tendência é a de estreitar as malhas.

Uma das ideias circuladas consiste numa aplicação para determinar se o utilizador teve contacto com uma pessoa infectada. Tal supõe que todos os utilizadores têm os seus passos monitorizados a todos os instantes. É uma espécie de geografia global das populações. Uma Cambridge Analytica a esteróides. Não é difícil imaginar que, ao lado dos dados estritamente necessários para uma análise epidemiológica, flutuem uma torrente infinita de dados capazes de serem analisados numa perspectiva de marketing de consumo. E não parece improvável conceber que – apesar de todos os contractos e licenças de privacidade firmados – as empresas se aproveitarão de toda e qualquer brecha legal para traçar perfis cada vez mais completos dos sujeitos que instalem as aplicações “antivíricas”. Tudo para nosso bem, claro.

17 Abr 2020

Os precários do quotidiano

Esta quarentena está a ser, em termos gerais, uma espécie de micro-resolução de ano novo: toda a gente se desfez em promessas de ler os russos, de organizar o roupeiro de Inverno, de fazer exercício físico em casa. Na verdade e pelo que vejo um pouco por todo o lado, parecemos ter aprendido apenas duas coisas: olhar para um gráfico e fazer pão. Não serão competências despiciendas, mas não chegam para organizar uma feira de talentos.

A normalidade é um bem precário e um conceito que se recusa a sê-lo, na medida que não permite, ao contrário dos conceitos civilizados, uma cristalização inequívoca da sua identidade. A normalidade define-se normalmente pela sua ausência, por contraste. Temos um instinto bastante apurado para perceber quando algo ou alguém não é normal, mesmo sem conseguirmos explicar cabalmente a razão subjacente a esse instinto. É uma competência da ordem do corpo, ou melhor, da ordem do animal, do imediato. É também uma competência contextual: aquilo que é normal num determinado milieu não o é noutro.

Há muita gente que faz a sua vida num equilíbrio precário entre normalidade e diferença, numa espécie de zona cinzenta socialmente aceite por via de um pacto silencioso: desde que o sujeito seja minimamente funcional, pode ser excêntrico. E ser funcional parece resumir-se a ter dinheiro ou a ganhar dinheiro.

Funcionalidade é autonomia. E autonomia é dinheiro. De resto o sujeito pode acreditar que a terra é plana, que os vírus são na verdade perturbações do equilíbrio electromagnético do corpo ou que a rainha de Inglaterra é na verdade um lagarto. Desde que pague as contas e não seja ostensivamente incapaz de cumprir a lei, tudo bem. No caso de um sujeito multimilionário, a excentricidade não só é esperada como é, de certo modo, exigida.

Os custos de uma crise, seja ela esta, de saúde pública e intimamente radicada num medo primordial e profundo – a peste – ou seja uma guerra ou uma vaga de fome, são particularmente pesados para quem já trava diariamente uma batalha para se manter dentro dos limites da normalidade. As rotinas mudam. E as rotinas são em grande parte o esqueleto da normalidade. É alicerçado nas rotinas que o sujeito consegue domar, pelo menos em parte, uma realidade que à partida lhe é naturalmente inóspita. Rotina é controlo. Controlo é poder.

Aquém ou além das rotinas, a incerteza. Ora esta incerteza, tolerada com maior ou menor esforço nos sujeitos de raízes amplas e fundas, pode ser um obstáculo insuperável para quem domesticou o quotidiano com dificuldade. A fragilidade tende a assomar ao postigo mal os ventos mudam de direcção. A extravagância, sem dinheiro, é dificilmente suportável. As zonas cinzentas estreitam-se e a tolerância diminui. O sujeito para quem o mundo já era um problema dá por si ainda mais perdido. Mais a mais, numa crise deste tipo, com direito a possível perda de emprego e consequente rendimento, até os sujeitos equilibrados podem ver-se de repente sem chão. Imaginem os outros.

Neste momento complexo e incerto devíamos olhar para os que nos rodeiam e que amamos e aproveitar para os conhecer melhor. As fragilidades (e as forças) acabarão por vir à tona. Talvez as coisas corram bem ou razoavelmente bem e consigamos sair daqui inteiros. Mas em última análise levamo-nos a nós próprios e aos outros ao colo, pois é assim a estrutura da identidade do humano. É bom que nesta viagem tenhamos cuidado com as peças mais frágeis.

3 Abr 2020