Regresso ao futuro: o ano em retrospectiva

Para mim, 2017 foi como uma alucinação, passou como um comboio desenfreado que se precipita para um final em suspenso, de forma sistemática e implacável. Em Outubro, a imprensa estatal chinesa anunciou que a Corporação de Ferrovias da China (CFC) – que está a fazer um enorme esforço para exportar os seus comboios de alta velocidade, tecnologicamente muito avançados – vai receber 30 biliões de dólares para desenvolver a competitividade nos mercados estrangeiros.

O Export-Import Bank of China assinou um acordo de financiamento com a CFC no valor de 200 biliões de yuan (cerca de 30 biliões de dólares) para permitir a criação de uma estratégia de exportação de tecnologias de ponta ferroviárias. Mas, tanto quanto sabemos, as últimas notícias sobre a exportação de tecnologia de ponta ferroviária chinesa referiram-se à queda de uma ponte, entre Nairobi e Mombaça, cuja construção foi entregue à mal-afamada empresa China Road and Bridge Corporation. Aparentemente, o nosso mundo global está bem servido de ultra surrealismo.

A semana passada, o site noticioso Q Daily, de Xangai, publicou um inquérito com a seguinte questão “Qual foi o acontecimento do ano que mais transcendeu a sua compreensão?” A ideia, explicava o Q Daily, era permitir aos utilizadores escreverem sobre acontecimentos “mais estranhos e perturbadores do que a mais louca imaginação pode conceber”. O inquérito tornou-se imediatamente viral e atraiu perto de 20.000 participantes – a maior participação registada pelo site em iniciativas do género. Estes resultados foram obtidos antes do inquérito ser censurado, o que aconteceu menos de 24 horas após o lançamento.
No topo da nossa lista das preocupações vem o sentimento de profunda insegurança de quem tem de lidar com um Governo que oprime todas as classes sociais; operários, classe média, e mesmo a classe alta da China.
Por isso, sejamos apenas turistas, a bordo deste comboio de alta velocidade, e observemos algumas curiosidades locais através das janelas do delírio.

A expulsão dos migrantes em Pequim

Parecia uma cena de um filme de desastres naturais quando dezenas de milhares de pessoas foram forçadas a deixar as suas casas a meio da noite. As expulsões desencadearam uma onda de revolta popular e muita gente sentiu que que os trabalhadores migrantes estavam a ser usados como bode expiatório da sobrepovoação da capital chinesa. O termo “população periférica” invadiu a internet chinesa e foi usado como “atalho” para designar os preconceitos contra os migrantes—até os censores porem mãos à obra.

Censura

“Tudo o que não se pode publicar nos jornais é verdadeiro. Se não se pode transmitir na Televisão é porque a história é real. Se não se poder falar do assunto no Weibo é porque é uma critica válida,” escreveu o autor Wang Shuo.
O Governo proíbe os websites e fóruns que muito bem entende, independentemente do significado que têm para as pessoas. Qualquer que seja o negócio ou projecto, não existe se as políticas vigentes não o permitirem. Seja qual for a verdade ou o facto, não pode ser mencionado se as políticas vigentes não o permitirem.
A semana passada, no Sul da China, um homem apanhou uma pena de prisão de cinco anos e meio, e foi multado em 76.000 dólares americanos, por vender VPN (Virtual Private Network) a utilizadores de sites de Pequim que tinham sido censurados.

Maus tratos infantis – os escândalos

“Os infantários chineses estão cheios de demónios”, escrevem as pessoas na net. Em Novembro, uma cadeia de infantários chinesa, muito conceituada, foi acusada de maus tratos depois de alguns pais terem descoberto que as crianças tinham marcas de picadas de agulhas e que lhes tinham sido dados comprimidos não identificados. As autoridades censuraram os debates online sobre o incidente e mais tarde negaram que tenha havido quaisquer maus tratos.
Na China, cerca de 60 casos de maus tratos a crianças foram encobertos desde 2010, segundo o jornal de negócios chinês Caixin.

Câmaras de vigilância

A China possui a maior rede de câmaras de vigilância do mundo, com 179 milhões de unidades em funcionamento no país inteiro, prevendo-se que venham a ser instaladas durante os próximos três anos mais 400 milhões de unidades. Está também a ser criada uma base de dados gigantesca para reconhecimento facial, que permitirá identificar qualquer cidadão chinês em três segundos.
A plataforma Water Drop oferece imagens em tempo real, a partir de câmaras com objectivas de 360º, instaladas em locais como estúdios de yoga, restaurantes e jardins infantis. O Truman Show já não é só cinema.

A imagem de poder de Xi Jinping

A mão de ferro e o culto da personalidade de Xi tornaram-se mais visíveis a partir de Outubro, altura em que começou o seu segundo mandato de cinco anos como líder supremo da China, já com o terceiro mandato no horizonte.
A Nova dinastia de Grandes Líderes está a acontecer à escala global, a uma velocidade alucinante.

Bom 2018!

28 Dez 2017

Juventude cruel

Durante a minha recente visita à China, falei com o meu tio através do Wechat. Nessa altura, contou-me que está a escrever um livro sobre a sua juventude, passada no tempo da Revolução Cultural, e que considerava publicá-lo no estrangeiro se não fosse possível publicá-lo na China. Para nós, que vivemos fora da RPC, é difícil imaginar que uma época tão marcante da vida deste país possa ser censurada.

Nos últimos tempos o cinema chinês foi invadido por histórias românticas perpassadas pela nostalgia dos anos 90, no entanto, nunca os jovens apareceram retratados de forma tão pura, exaltada e cruel como em Juventude 芳华, o último filme de king Feng Xiaogang冯小刚. Embora os jovens chineses nascidos neste milénio não tenham grande paciência para melancolias, os espectadores mais velhos como o meu tio, que partilham o sentimento nostálgico de Feng, vão sem sombra de dúvida apreciar o filme. Por outro lado, os 146 minutos de duração da película e uma aparente glorificação do militarismo podem vir a influenciar a sua recepção fora de portas.

O filme mostra as relações turbulentas entre os membros do grupo de dança do Exército de Libertação Popular, desde o final da Revolução Cultural até aos anos 90, e a mão do realizador transformou-o num hino de exaltação ao idealismo e à capacidade de resistência. No entanto, em cada cena a palavra “emoção” impera.

Baseado na adaptação de Yan Geling do seu próprio romance – escrito a partir da sua vivência de 13 anos no “corpo de baile” do exército, o argumento estabelece a ligação entre a arte e a política. Mas estas “flores-bailarinas” parecem querer exprimir a célebre frase de Leni Riefenstahl “A realidade não me interessa”, com um heroísmo cruel. Talvez a comparação seja injusta, mas não a consigo evitar.

Não me vou alongar no argumento porque vocês devem ver este filme repleto de atitudes grandiosas e dramáticas – e deixarem-se tocar pela narrativa autobiográfica, transportada para o ecrã por uma câmara que capta paisagens de cortar a respiração, coreografias impressionantes, acompanhadas por um fundo musical de grande fôlego. De certa forma o realizador “censurou” a guerra, que só é aflorada em algumas panorâmicas sangrentas, explosivas e românticas. Mas Feng interessa-se sobretudo pela sensualidade dos militares, o que também pode ser uma forma de atrair as audiências mais jovens. A tónica colocada no corpo é também um desafio à representação oficial do Exército de Libertação Popular; uma entidade acima dos vulgares desejos dos mortais.

“A sua história não é sobre o massacre de um soldado japonês, ou sobre seres fantásticos que se apaixonam uns pelos outros? Desculpe, está banido!” Esta receita ilustra de forma concisa os assuntos tabu na China continental.

20 Dez 2017

A revolução dos periféricos

As classes estratificam-se de forma perfeitamente natural. A nobreza vomita onde lhe dá na gana. A burguesia vomita em cima do povo; e o povo vomita sobre si próprio.

O poeta russo Vladimir Mayakovsky escreveu este excerto durante os anos 20 numa viagem a Nova Iorque, uma ilustração acutilante da luta de classes Marxista.

“Existirá luta de classes enquanto existirem classes. Não ignorem nunca a luta de classes!”  Ensinamentos do Presidente Mao Tsé Tung em 1966, nas vésperas da Revolução Cultural.

Embora o termo luta de classes tenha desaparecido completamente do vocabulário do actual Governo comunista, apenas um mês pós o encerramento bombástico do 19º Congresso do Partido, foi lançado para a ribalta um termo oficial que desencadeou as discussões mais acaloradas na Internet: população periférica, 低端人口。 Dezenas de milhares de trabalhadores migrantes, pertencentes à “população periférica” estão a ser forçados a abandonar as suas casas em Pequim, na sequência de uma operação de “limpeza” da cidade, que teve origem no incêndio que matou 19 pessoas na madrugada de 18 de Novembro. Leia-se o artigo da Quartz sobre os pormenores da expulsão em, https://bit.ly/2BLFElv.

Hoje quero contar uma história sobre um famoso membro da população periférica, o Imperador Shi Le, da Dinastia Jin (265-425), sobre o qual o Presidente Mao disse: “O Imperador Shi Le da Dinastia Jin, ergueu-se no dorso do seu cavalo. Foi um estratega com aptidões militares e visão política.”

Há muitos anos atrás, no tempo da Dinastia Jin Ocidental, vivia no Norte da China um rapaz xiongnu pertencente a uma tribo nómada. Era de origem tão humilde que nem teve direito a receber um nome quando nasceu.

Quando cresceu e se tornou adolescente, passaram a chamar-lhe Shi Le. O jovem Shi Le ganhava a vida como vendedor ambulante e desta forma era feliz, não se preocupando em perseguir a fortuna. Contudo, as elites sociais – as pessoas de “topo” – achavam que Shi Le e os seus iguais eram uma maçada e um incómodo para os olhos, porque as “populações periféricas” estragavam a beleza da capital. Por isso na sequência da “limpeza” da cidade, Shi Le foi vendido como escravo.

O período das Dinastias Wei e Jin ficou conhecido pelos feitos de artistas e filósofos, mas os governantes eram extremamente corruptos e decadentes. Os homens da elite apostavam as esposas em concursos de bebida. Shi Le observava tudo isto calmamente, aparentemente sem se deixar impressionar. No entanto, preparava em segredo a sua ascensão. Esperava a sua vez pacientemente. Então, quando se desencadeou a revolta na capital, ele comandou a cavalo o seu pequeno exército e deu inicio à vingança contra a “população de topo”. Este acontecimento histórico ficou conhecido como o Desastre de Yongjia 永嘉之祸 (311), quando as forças nómadas do Norte da China tomaram e saquearam a capital do Império Jin Ocidental, Luoyang. Depois da vitória, as forças nómadas cometeram um massacre quando da entrada na cidade. O Príncipe e a maior parte dos ministros foram mortos, bem como mais de 30.000 civis. Também incendiaram palácios, destruíram os mausoléus Jin e enterraram vivos os “inimigos de classe”.

Em 319, Shi Le declarou a independência sob o título de Príncipe de Zhao. Durante os anos que se seguiram à independência, o príncipe focou-se na anexação de pequenas bolsas de poder Jin que ainda existiam no Norte e no centro da China.

Em 330, Shi Le assumiu o título de “Rei Celestial”, vindo a morrer três anos mais tarde. O nómada e periférico Zhao caiu com um golpe de estado.

13 Dez 2017

A influência da pintura ocidental na literatura chinesa

A leitura de Lu Xun (1881-1936), o maior escritor chinês de todos os tempos, limpa e sara a mente, especialmente quando viajamos através da China, o que tem sido ultimamente o meu caso.

Em 1936 Lu Xun escreveu:   “中國的人民,是常用自己的血,去洗权力者的手,使他又变成洁净的人物的。”

O povo chinês usa muitas vezes o seu próprio sangue para lavar as mãos do opressor e fazer dele um santo sem mácula.

Hoje não vou falar da China nem do povo chinês. Em vez disso, quero salientar o lado pictórico da escrita de Lu Xun.

Poucas pessoas sabem que Lu Xun desenhou muitas das capas dos seus livros e que era um amante da pintura. Para ele, a arte plástica ocidental libertava a mente e dava asas à criatividade. “As cores do Céu e da Terra mudam e, na nossa limitação, descobrimos de repente que existe um caminho libertador.”

Vamos agora ler um excerto do conto Nuwa Vai Consertar o Céu (1922). Atentem na beleza estranha e cheia de sensualidade da sua paleta cromática.

“No céu rosado, passam volteando nuvens de um verde cinza, que escondem o brilho pulsante das estrelas. Nos limites do céu, o Sol brilha por detrás das nuvens cor de sangue como uma bola de fluido dourado, envolta na lava de terra ancestral. Um luar frio atravessa o céu, de um branco pungente.”

A heroína da história lembra ao leitor as mulheres de Van Gogh.

“… Uma luz deslumbrante envolvia-lhe o corpo amplo, sensual. Foi andando até ao mar, flanqueada pelo Céu e a Terra em matizes cor de carne, as suas curvas desapareciam num mar de luz pétala, até não ser mais do que um filamento do mais puro branco.”

Lu Xun foi claramente influenciado pelo esplendor e pelo olhar inovador dos impressionistas e pela melancolia e inquietação modernistas. A beleza que nasce do desespero é a cura que a sua escrita me proporciona.

Aqui vão mais algumas passagens:

“Talvez me lembre de ter atravessado a vagina da montanha num barquito. Vi melros, vi colheitas, flores silvestres, galinhas, cães, vi arbustos e troncos de árvores mortas, vi cabanas, torres e margens de rios. Sob o azul ultramarino, os lavradores, as suas mulheres e filhas estendiam as roupas ao sol. Os monges e os seus hábitos, as nuvens do céu e os bambus reflectiam-se na água lúcida, a que cada movimento dos remos trazia um raio de luz …”.

  • A Hora do Conto

O céu inquietante, de um azul profundo, tremeluzia como o rosto de um fantasma, como se quisesse abandonar o mundo dos vivos, deixar a solitária jujuba, conservando para si apenas a Lua.

  • Noite de Outono

O fogo está morto. As formas ardem, mas as chamas estão frias, congeladas, como sólidos braços de coral. As extremidades deixam escapar um fumo compacto, negro.

  • Fogo morto
6 Dez 2017

A informação vale dinheiro

Com tantos casos de abuso sexual infantil estampados nas primeiras páginas dos jornais da RPC, este título, tirado da frase que encabeça o cartaz do filme Os Anjos Vestem de Branco《嘉年华, parece-me um tanto ao quanto de mau gosto. O filme estreou a semana passada nas salas de cinema chinesas.

Os Anjos Vestem de Branco conta também a história de um caso de abuso sexual infantil. Não foi por coincidência que o filme estreou nesta altura, mas sim por sentido de oportunidade. Também não é um truque de marketing.

As protagonistas são duas raparigas. Wen, de 12 anos, é uma das vítimas. Mia, de 15, é apenas a testemunha ocular. Quando este crime aconteceu, Mia trabalhava ilegalmente na recepção de um motel. Durante a tarde, um homem de meia idade deu entrada no motel. Mais tarde ela viu o homem empurrar duas rapariguinhas para o quarto. Na manhã seguinte, as duas raparigas foram para a escola.

Contudo, dias mais tarde, Xinxin, uma das duas crianças, conta à mãe tudo o que se passou. As meninas, Wen e Xinxin, são submetidas a exames ginecológicos e de seguida a polícia local dá andamento ao processo. Mas como o suspeito se recusa a declarar-se culpado, a chave para resolver o crime é Mia, que poderá testemunhar que o viu entrar no quarto com as meninas.

No entanto, se Mia testemunhar vai chamar a atenção para o facto de estar a trabalhar ilegalmente, o que obviamente lhe irá trazer uma série de problemas. Mas ficar calada também não é opção. Ajudar os outros faz parte da natureza de Mia, mesmo quando isso a põe em risco.

Nesta altura Mia toma uma decisão. Vai ajudar as vítimas contando tudo o que sabe, mas também se vai ajudar a si própria, porque vai vender a informação. Mas agora surge um perigo ainda maior. E surge na forma de um carro que persegue Mia durante a noite, com os máximos ligados. Mia pode ter sido apanhada na teia do submundo que habita a cidade…

O filme não aborda a violência, nem o “estado de direito”, nem a justiça na RPC. A realizadora, Vivian Wu, está interessada em explorar o lado obscuro desta cidade do litoral virada para o turismo. O estilo documental que a realizadora adopta revela uma visão frontal e corajosa.

Boa parte do filme mostra-nos retratos de mulheres complexas, mas sobretudo não convencionais, que fazem escolhas imprevisíveis. A história também nos leva a certos locais do submundo desta cidade, onde a corrupção não conhece limites.

29 Nov 2017

O que é que Confúcio tem a ver com os “pés de lótus”?

Recentemente houve duas coisas que me chamaram a atenção. O ressurgimento dos valores tradicionais chineses, como parte das novas políticas do Partido Comunista, que justifica assim esta opção, “a soberba cultura tradicional é um alicerce espiritual importante para atingir o Sonho Chinês” e a ressurreição do “enfaixamento dos pés das raparigas”, através da implementação em todo o país de aulas sobre “virtudes femininas”.

O enfaixamento dos pés é uma antiga tradição chinesa, que não deve ter lugar na sociedade moderna. É um dos exemplos mais flagrantes de crueldade contras as mulherescondenando-as a uma vida inteira de sofrimento e de incapacidade.

Diz-se que esta prática se ficou a dever a Yao Niang, uma prostituta e dançarina da corte do séc. X, que começou a atar os pés em forma de Quarto Crescente. Ela enfeitiçava o Imperador dançando na ponta dos pés, dentro de um lótus dourado com 1,80m de altura, decorado com fitas e pedras preciosas. Além disso, os pés enfaixados provocam o “andar de salgueiro”, um movimento que é produzido pelo apoio do corpo nos músculos das coxas e das nádegas.

Inicialmente, o enfaixamento dos pés surgiu revestido de conotações eróticas e, gradualmente, foi-se tornando moda entre as elites. Mulheres com dinheiro, tempo e um vazio por preencher, fizeram desta prática um símbolo do seu estatuto social. As famílias com filhas casadoiras passaram a utilizar o tamanho do pé das jovens como passaporte para a ascensão social. A noiva de sonho tinha um pé de 7,5 cm, designado por “lótus dourado”, um processo que demorava seis anos, através da aplicação de faixas muito apertadas nos pés das meninas em crescimento, de forma a que estes não excedessem os 12 cm de comprimento.

Os “pés de lótus” representavam o ideal de beleza na antiga China. Eram também sinal de um elevado estatuto social, porque estava implícito que as suas “donas” se podiam dar ao luxo de não trabalhar e de ficar em casa a maior parte do tempo.  As mulheres com pés enfaixados tinham grandes probabilidades de se casar com homens ricos.

Neo-Confucionismo e Mongóis

A Era Song (960-1279) assistiu ao desenvolvimento do Neo-Confucionismo, o mais parecido que a China teve com uma religião de Estado. O Neo-Confucionismo valorizava sobremaneira a castidade, a obediência e o esmero da mulher. Uma boa esposa deveria ter como único desejo servir o marido, nenhuma outra ambição para além de dar à luz um rapaz e qualquer outro interesse que não o de se subjugar à família do consorte – o que significava, entre outras coisas, que não se deveria voltar a casar se enviuvasse.  O acto do enfaixamento dos pés– a dor e as limitações físicas que provocava — era uma demonstração diária da dedicação da mulher aos valores de Confúcio.

Após os Mongóis terem conquistado a China, em 1279, o enfaixamento dos pés representava a expressão da identidade Han.  Para as mulheres chinesas, esta prática cruel era a prova diária da sua superioridade cultural sobre os bárbaros incultos que as governavam. A partir daqui os pés de lótus tornaram-se, à semelhança do Confucionismo, num marco da diferença entre os Han e o resto do mundo. Para cúmulo da ironia, embora os seguidores de Confúcio condenassem inicialmente esta prática por a considerarem frívola, a adesão das mulheres a ambas uniu-as num acto único. Enquanto tradição, o enfaixamento dos pés foi vivido, perpetuado e realizado pelas mulheres até ter sido banido em 1912, embora a prática se tivesse mantido até à década de 30.

A última fábrica a produzir sapatos de lótus fechou em 1999.

22 Nov 2017

Virtudes femininas

“O melhor dote é a virgindade de uma mulher.”

“A mulher que sofre violência doméstica deve aprender a aceitar o marido. Este género de mulheres não se enfurece com facilidade.”

“É importante que uma mulher procure um marido dentro da mesma classe social. Desta forma garante que dará à luz uma criança de linhagem nobre.”

Estes gravíssimos disparates Confucianos são ensinados na China dos nossos dias e, dificilmente se imaginará o povo a agradecer ao actual Presidente chinês, pela patifaria de ter ressuscitado a grande tradição chinesa.

No entanto, o meu tópico de hoje não é a China, mas sim o documentário da BBC A filha da Índia. Fala-nos sobre uma violação que teve lugar em 2012, num autocarro para Nova Deli, capital da Índia.

A 16 de Dezembro de 2012, uma estudante de medicina chamada Jyoti Singh, com 23 anos de idade, decidiu ir ao cinema ver A Vida de Pi com um amigo. Às 20.30, apanhou o autocarro para regressar a casa. Realizado por Leslee Udwin, este documentário, forte, corajoso e de cortar o coração, segue passo a passo, ao longo dos seus 63 minutos, o que se vai passando naquele autocarro em movimento, enquanto Jyoti é brutalmente violada por cinco homens e um adolescente de 17 anos e, de seguida, esventrada e atirada à rua.

Mas, mais do que a violação, o que verdadeiramente me impressionou foram as entrevistas:

Ficam aqui algumas frases memoráveis:

“Uma rapariga decente não deve andar na rua às 9h da noite. A rapariga é mais responsável pela violação do que o rapaz.” Isto, segundo um dos violadores.

“Uma rapariga é como um diamante precioso. Se pusermos o diamante no meio da rua, não podemos culpar quem o leva.” “Esclarece-nos” o advogado de defesa.

 

“Uma rapariga não deve sair de casa à noite com o namorado. Não estamos a falar de violação, estamos a falar dos direitos do homem (de violá-la).” Declara um dos violadores. “Ela devia ter ficado calada e deixado que a violássemos.”

“Eu tinha-a regado com gasolina e pegado fogo”, diz outro advogado de defesa que conhece as leis indianas.

A Filha da Índia provoca desgosto e revolta, mas também pena pela ignorância. O documentário mostra como nos 30 dias que se seguiram, por toda a Índia, homens e mulheres se manifestaram na rua exigindo que a constituição indiana reconhecesse a igualdade dos sexos, o que nunca viria a acontecer. Estes acontecimentos marcaram aquilo a que o procurador geral, Gopal Subramaniam, chama no filme “uma expressão momentânea de esperança social”.

Na Índia, uma mulher é violada a cada 20 minutos. No entanto, a maior parte destes casos não é denunciada.

A exibição do documentário está actualmente proibida na Índia, por ser considerada nociva para a imagem do país.

15 Nov 2017

Casamento e divórcio durante a Revolução Cultural

Legenda FOTO: Certidão de casamento de 1971. À esquerda pode ler-se: O Partido Comunista Chinês é a nossa força motriz. O quadro teórico que nos guia é o Marxismo-Leninismo.

Transcrevo em baixo, na integra, uma decisão sobre um divórcio de 1968. O Tribunal elencou os motivos da recusa do divórcio, que na época eram considerados justos e adequados.

O veredicto abria a Suprema Decisão com a citação de alguém que era, nem mais nem menos, do que o próprio Presidente Mao:

***

Suprema Decisão

Combatei o egoísmo e o egocentrismo, bem como o Revisionismo!

O vencedor da luta ideológica entre o proletariado e a burguesia é, por enquanto, desconhecido. Devemos continuar a resistir aos pensamentos burguês e pequeno-burguês. Se não compreendermos esta realidade e desistirmos da constante luta ideológica, cairemos no erro e na incorrecção.

Supremo Tribunal Cível do Povo de Pequim

Reg. No. XXX

Proponente:  Shi Dehong, sexo masculino, 38 anos, quadro do Secretariado da West Mining, Pequim

Citado: Pan Xiulan, sexo feminino, 35 anos, quadro do comité do partido na prefeitura de Xianning Província de Hubei.

Caso: divórcio

Shi Dehong e Pan Xiu-lan casaram-se em 1952.  Tinham uma relação normal e dois filhos: uma rapariga, Xiaoling, de 14 anos e um rapaz Xiaoxia, de 7. Recentemente, Pan Xiulan começou a ver o mundo com outros olhos e permitiu que a ideologia burguesa sobre casamento e família a dominasse. Por causa disso, em 1964, Pan Xiulan apelou para o Tribunal Popular de Mentougou, Distrito de Pequim, e interpôs um processo de divórcio contra o marido, alegando que o casamento tinha sido arranjado e que não se amavam um ao outro. Em Junho de 1965, o Tribunal Popular do Distrito de Mentougou declarou o divórcio por comum acordo (Reg. No. XXX). Shi Dehong recusou-se a aceitar o veredicto. Em Novembro de 1967, O Tribunal Popular Intermédio de Pequim manteve a decisão de divórcio de comum acordo (Reg. No XXX). Shi Dehong, insatisfeito com o resultado, continuou a lutar por uma reconciliação. Na sequência da sua luta apelou para o nosso Tribunal.

O Tribunal apurou que Pan Xiulan e Shi Dehong se conheciam e trocaram presentes antes do casamento, o que prova que tinham um relacionamento de livre vontade. O casamento não foi “arranjado”. O alegado “casamento arranjado” não é factual. Quanto à alegação “os esposos não se amavam um ao outro”, ela é única e exclusivamente derivada da contaminação de Pan Xiulan por ideais burgueses. Estamos perante um caso em que, no seio de um casamento e de uma família socialistas, se travou uma luta feroz entre a burguesia e o proletariado. A ideologia burguesa deve ser criticada e combatida a todos os níveis. Nunca podemos permitir que se espalhe livremente e que mine a prática do casamento e da família socialistas. Desde que Pan Xiulan tome como princípio orientador o “Combate ao egoísmo, ao egocentrismo, bem como ao Revisionismo!”, recorrendo ao pensamento do grande Mao Tsé Tung para criticar, assim como ultrapassar as ideias e os comportamentos burgueses respeitantes à família, o casamento poderá ser salvo e aperfeiçoado.

O Presidente Mao disse: “Ainda teremos de lutar por muito tempo contra a burguesia e a pequena-burguesia. Todas as ideias erradas, todas as ervas daninhas e todos os monstros terão de ser criticados, e nunca devemos permitir que andam à solta e proliferem.” Ao lidar com conflitos familiares e matrimoniais, o tribunal do Povo deve estabelecer a diferença entre o certo e o errado, baseado na teoria da luta de classes e no método de análise de classe e, ser sempre resolutamente crítico e resistente à ideologia burguesa. A decisão do Tribunal Popular de Pequim, Distrito de Mentougou, revela que a luta de classes entre as duas ideologias foi ignorada e demonstra ser um sub-produto da simpatia burguesa de Khrushchov pelos “sentimentos”. O Tribunal Popular Intermédio falhou por não ter condenado esta visão reaccionária de casamento, e por não ter corrigido o erro. Ambos os veredictos estão errados e devem ser anulados.

Em conformidade, o nosso Tribunal delibera o seguinte:

1. O Tribunal anula o (Reg. No. XXX) do Tribunal Intermédio de Pequim e o (Reg. No XXX) do Tribunal Popular de Pequim, Distrito de Mentougou.

2. Este Tribunal indefere o divórcio entre Pan Xiulan e Shi Dehong.

 28 de Junho, 1968

8 Nov 2017

Com pezinhos de lã, a China tornou-se um universo paralelo

Porque é que estas marcas estrangeiras foram “contaminadas pela cor local”?

A semana passada a Internet chinesa viu-se inundada de discussões sobre a mudança na China do “inocente” nome da McDonald’s para 金拱, que é como quem diz, Arcos Dourados.

Aparentemente isto mexeu com os nervos dos jovens chineses fãs da cadeia americana de “fast-food”, pela dificuldade que têm em aceitar que uma “experiência exótica” tenha de ser submetida ao gosto e à estética locais, o que para eles não tem encanto nenhum.

A McDonald’s tem sido vista como símbolo do estilo de vida ocidental, que encerra em si o conceito da sociedade de consumo, mas também de  uma sociedade urbana com valores modernos e liberais. Para além disso, para eles, a McDonald’s representa o movimento das marcas estrangeiras que defendeu a abertura e as reformas na China – e estes jovens testemunharam todo o processo de adesão de um país socialista ao mundo capitalista. Quem diria que esta cadeia de “junk food” tinha tanto significado histórico e tanta conotação emocional? Em 1987, quando a primeira loja da KFC (Kentucky Fried Chicken) inaugurou em Pequim, a invasão de clientes foi tão grande que a gerência teve de pedir a ajuda da polícia para manter a ordem. As pessoas chegaram mesmo a realizar copos-de-água na KFC. Em 1990, quando abriu o primeiro McDonald’s na China, em Shenzhen, o entusiasmo ultrapassou os limites do imaginável. No dia da abertura, as receitas bateram o recorde mundial e o número de visitantes representou um marco histórico.

Actualmente a McDonald’s chinesa serve pratos inspirados na gastronomia local. A cadeia de “fast food” já não realiza copos-de-água. Levou algum tempo, mas hoje em dia os chineses já perceberam que “junk food” é efectivamente o que o seu nome indica, uma comida que não presta. Aos poucos, estas marcas estrangeiras concluíram o processo de adaptação local e criaram o seu próprio universo paralelo, neste imenso mercado chamado China.

Enquanto romancista e autora, tenho tendência para gostar de universos paralelos e da ideia romântica que lhes está associada. Mas será que a realidade se irá parecer cada vez mais com eles?

1 Nov 2017

Revisitar Rashomon na era dos factos alternativos

A jovem estonteante da porta ao lado morreu durante a noite. De manhã, a vizinhança reuniu-se para tentar descobrir a causa. Em baixo estão algumas das declarações registadas pela polícia:

– Eu vi-a sozinha no bar ontem ao fim da tarde. Tinha a cara completamente alterada. Deve ter sido intoxicação alcoólica.

– Ela esteve recentemente envolvida com vários homens. Deve ter sido um crime passional.

-Cruzei-me com ela no hospital a semana passada. Acho que foi fazer um teste ao HIV.

-Há anos que sofria de depressão. Acabou por se suicidar.

A verdade? Tinha morrido num acidente de viação.

A verdade só pode ser uma, mas a sua narrativa pode acabar por ser uma mentira. A ficção é a prova de que uma mentira tão elaborada e refinada pode ser tida como verdade. Este fenómeno é conhecido por Rashomon, cujo nome deriva do conto homónimo, passado ao cinema em 1950. Quando alguém Rashomina é porque não pode ter a certeza do que está a dizer.

Akutagawa Ryunosuke (1892-1927) publicou Rashomon em 1915.  Ficou conhecido como um “génio com ideias bizarras”, ideias que serviam para “escavar” a natureza humana e exprimi-la de forma única plena de interioridade e inteligência. Rashomon dá-nos uma alternativa moral.

O conto tem sete protagonistas que se encontram para resolver o assassínio de um samurai.

  1. 1. O lenhador foi o primeiro a encontrar o corpo do samurai “com uma faca enterrada no peito e folhas de bambu ensopadas em sangue à volta”. Perto do corpo encontravam-se cordas e um pente de mulher. O lenhador declarou-se inocente.
  2. 2. O monge contou aos outros que há poucos dias atrás tinha visto o samurai a cavalo na companhia de uma mulher. O monge declarou-se inocente.
  3. 3. O carcereiro informou que tinha prendido o ladrão que cometera assassínios por luxúria. Tinha morto mulheres e raparigas de forma extremamente cruel. A seu ver, este assassinato devia estar relacionado com o célebre ladrão.
  4. 4. A mulher idosa assinalou que o falecido era seu genro. Tinha um nome e 26 anos de idade. Era bondoso. Estava casado com a sua filha de 19 anos, uma mulher dura.
  5. 5. No final, o célebre ladrão confessa que matou o samurai porque o viu violar a mulher. Nessa altura decidiu matá-lo e casar-se com a viúva. Contudo, deu-lhe uma hipótese e desafiou-o em duelo. Lutaram durante 23 rounds até finalmente o aniquilar. Mas agora a mulher fugiu, deixando para trás o seu cavalo a mordiscar a vegetação da orla do bosque.

Nesta altura o leitor fica tentado a acreditar que o ladrão está a falar verdade. MAS,

  1. 6. A mulher aparece, e conta que o ladrão a violou e obrigou o marido a assistir. Profundamente envergonhada, agarrou na sua faca e matou o marido. O relato da mulher contradiz obviamente o do ladrão.
  2. 7. Surge então o fantasma do morto e conta que a mulher era maldosa e que contratou o ladrão para o matar. O ladrão suspeitou dos motivos da mulher e mandou-a embora. Ela aproveitou a oportunidade para fugir. A seguir o ladrão perguntou ao samurai o que queria que ele fizesse com a mulher. Deveria matá-la ou deixá-la ir? Comovido com a atitude do ladrão, o marido prontificou-se a perdoá-lo.  Finalmente o ladrão decidiu partir. O samurai resolveu matar-se com a faca que a mulher tinha deixado ficar para trás.

Akutagawa desafia a noção da “verdade única”. Em Rashomon a verdade encontra-se escondida no epílogo. No epílogo os mentirosos prestam juramento. E é aqui que começam a acreditar na sua própria realidade fabricada. 

26 Out 2017

O armazém que verte lágrimas pelos anos 80

Os Milagres do Armazém Namiya (Namiya Zakkaten no Kiseki, ナミヤ雑貨店の奇蹟) estreou no passado dia 23 no Japão

O filme, co-produzido pela Emperor Motion Pictures e pela Wanda Media, é baseado no romance homónimo de Keigo Higashino. No entanto, esta não é uma história típica de Higashino, autor japonês que ficou conhecido pelas suas obras de crime e mistério. Este belo romance ganhou a 7ª Edição do Prémio Chūōkōron e vendeu mais de 1,6 milhões de exemplares na China.

Três jovens fogem depois de um assalto e escondem-se durante algum tempo numa casa abandonada. Situada na periferia da cidade, numa zona com pouco trânsito, a casa tem uma parte residencial e um armazém. Por cima da porta do armazém está afixado um grande cartaz onde se pode ler: Armazém Namiya. Como é óbvio, a loja está fechada há muito tempo. Mas, enquanto os jovens estão escondidos algo de estranho acontece. No silêncio da noite, ouve-se cair uma carta na caixa do correio. O remetente é uma jovem atleta que pede apoio emocional e aconselhamento especializado para a sua participação nas Olimpíadas de 1980, que se irão realizar em Moscovo. A carta tinha sido escrita há 40 anos atrás! Os jovens gangsters decidem responder. E a atleta volta a escrever-lhes. À medida que a troca de correspondência continua, apercebem-se que o mundo dela começa a avançar a um ritmo acelerado, enquanto o tempo dentro da loja permanece virtualmente imóvel, desde que mantenham a porta fechada. Os três tomam consciência desta situação através do artigo de uma revista antiga que tinha sido abandonada dentro das instalações. Há perto de 40 anos, pouco antes da loja ter fechado, o velho proprietário, Yūji Namiya, tinha conquistado alguma notoriedade por dar conselhos prudentes e gratuitos a desconhecidos que lhos solicitavam. Depois da morte da esposa, percebeu que ajudar os outros a ultrapassar os seus problemas dava sentido à sua vida. Mas, extraordinariamente, Yūji Namiya tinha previsto que qualquer coisa  de semelhante viria a acontecer, e deixou escrito no testamento que a loja teria de ficar como a deixou…

Este filme, bastante nostálgico, leva-nos de volta ao Japão dos anos 80, antes de se ter deixado corromper por um estilo de vida consumista e stressante. Nessa altura, mesmo em Tóquio, quase não havia supermercados e as donas de casa faziam as suas compras nas lojas de bairro, como o Armazém Namiya. Hoje em dia, estas lojas de bairro, os banhos públicos e os restaurantes familiares foram substituídos por lojas de conveniência abertas 24 horas e por cadeias de supermercados. E por falar em cartas, quando é que foi a última vez que pegou numa caneta e se entregou a este singelo e antiquado ritual?

Veja o trailer aqui: bit.ly/2jUHPit

Os Milagres do Armazém Namiya

Realizador: Ryuichi Hiroki

Drama/ Fantasia | 129 min

Língua: Japonês

27 Set 2017

A primeira chinesa de mochila às costas

O primeiro guia chinês de viagens para a Europa e para os Estados Unidos foi escrito entre 1926 e 1927, pela primeira chinesa a correr o mundo de mochila às costas. Chamava-se Lü Bicheng. Foi também a primeira mulher chinesa a trabalhar como editora num jornal e a última escritora de poesia Ci.

O seu guia de viagens dá conta de um desfile de Carnaval em Paris, de um motim em Viena, e conta-nos a história de um americano desconhecido que a tentou seduzir numa rua de Roma. Mais à frente leva-nos numa visita a Beverly Hills, onde quis olhar as fachadas das casas de todos os seus ídolos do cinema. A seguir goza consigo própria por causa do choque cultural de toda aquela situação. Toque pessoal aparte, o guia fornece uma enorme quantidade de informações úteis sobre reservas, alfândegas, bagagens, câmbios, hotéis, gorjetas etc., tudo a partir da sua experiência como mulher e como viajante. Onde é que se pode comer um hotpot japonês em Londres? Quanto custa um prato de tofu? Onde é que se pode encontrar um restaurante chinês em Berlim? Será possível partilhar a comida de um companheiro de viagem, num comboio em Itália? (Ela tinha medo de ser envenenada e roubada por uma família italiana). Qual é a multa por cuspir num eléctrico em Nova Iorque? De Veneza a Viena é mais rápido ir de avião ou de comboio? No guia constam também listas infindáveis de monumentos e outras atracções, bem como os seus historiais. Este manual é também um registo único do Ocidente, situado numa bolha do tempo, os anos 20 do século XX. E tudo isto sem o Lonely Planet, o Google map ou as câmaras digitais. O que lemos é o resultado das experiências em primeira mão de uma mulher viajante, que testemunhou o aparecimento dos filmes sonoros e assistiu em directo à conquista do direito de voto das mulheres com menos de 30 anos no Reino Unido.

Esta foi a mulher que correu o mundo sozinha há 90 anos atrás.

Nascida em 1883, Lü Bicheng rompeu o noivado por causa da morte do pai. Nessa altura decidiu fugir de uma vida convencional. Tornou-se professora e fundou uma escola para raparigas. Mais tarde viria a ser secretária de Yuan Shikai, um Senhor da Guerra, que se auto-proclamou Imperador traindo assim o sonho de uma China republicana. Nessa altura Lü Bicheng abandonou-o, desiludida. Acabou por tornar-se uma empresária de sucesso e fez fortuna. Depois disso, em 1920, deixou a China e rumou à Universidade de Columbia, onde estudou Arte e Inglês. Durante este período traduziu para chinês A História Concisa dos Estados Unidos da América. Voltou a casa por um breve período e voltou a viajar em permanência entre 1926 e 1933. Todas estas viagens deram origem ao seu guia. Mais tarde foi uma acérrima defensora dos direitos dos animais.

Morreu em Hong Kong em 1943. As suas cinzas foram lançadas ao mar, de acordo com a sua vontade.

21 Set 2017

“Made in Abyss” a não perder

Foto: “Made in Abyss” banda desenhada online

Estamos perante a maior cratera inexplorada do mundo, chama-se Abyss. Tem um 1 km de diâmetro, mas ninguém conhece a sua profundidade. É habitada por várias espécies há muito extintas à superfície da Terra, e alberga relíquias e tesouros lendários. É um lugar perigoso e exótico que funciona com uma lógica muito própria. Para aqui são atraídos aventureiros e sonhadores, que acabam por morrer em busca da verdade e na senda dos tesouros. O perigo só aumenta a sua aura de mistério e deslumbramento.

E é então, que uma cidade se ergue em torno da gigantesca cratera, construída e habitada pelos exploradores. Estes homens são movidos por diferentes motivos. Alguns perseguem desafios, outros perseguem a fortuna.  Chamam-lhes Cave Raiders, e dividem-se em várias categorias consoante as experiências e as capacidades de cada um.

Rico é uma órfã de 12 anos que sonha vir a tornar-se exploradora, à semelhança da sua falecida mãe. Um dia conhece um estranho rapaz-robot chamado Regu que pode vir a ajudá-la nesta aventura.

A banda desenhada original Made in Abyss foi publicada pela editora digital Web Comic Gamma no website Manga Life Win.

A série de animação é realizada por Masayuki Kojima (Monster). Hideyuki Kurata é responsável pela banda sonora (belíssima e surpreendente) e Kazuchika Kise (Ghost in the Shell: The New Movie) coordena o desenho das personagens.

Não se deixem iludir pela naiveté das imagens. Made in Abyss é sem dúvida o melhor anime deste Verão. Na minha opinião vai ser com certeza a estrela do ano. É um épico e mostra que na maior parte das vezes, a verdade pode ser realmente, mas REALMENTE negra.

Veja o trailer aqui:

https://bit.ly/2eXY8cQ

E se for rápido, ainda pode ver um episódio com legendas em inglês antes que o apaguem https://bit.ly/2eXWEPF

14 Set 2017

O realizador chinês mais corajoso de sempre – Parte III

Três Irmãs, um documentário de Wang Bing

Nesta terceira parte vamos passar uma lista de filmes recentes de Wang Bing que vos recomendo.

Crude foi realizado um ano depois de He Fengming, em 2008. O documentário, com duração de 840 minutos, é um épico ainda mais longo que West of the tracks e ainda mais incrível. Com um total de 14 horas condensadas em apenas 20 planos, a câmara lança um olhar de grande pureza e naturalidade sobre a realidade duríssima dos trabalhadores que extraem petróleo no deserto de Gobi.

Dinheiro do Carvão estreou em 2009. O documentário acompanha o rasto do dinheiro gerado pelo negócio do carvão, manchado pelo sangue dos que trabalham nas minas. O realizador brinda-nos com a agudeza do seu sentido crítico: O coração dos homens é tão negro como o carvão.

2009 foi um ano muito produtivo para Wang Bing, para além de “Dinheiro do Carvão”, apresentou ainda mais dois documentários “hi pond” e “sem nome”.

O homem sem nome (2010) acompanha a vida de um vagabundo anónimo que, no entanto, tem um lugar para viver. Não se lhe pode chamar “casa”, porque não passa de uma caverna sem electricidade, sem água e sem sanitários. Um anónimo “homem das cavernas”, sem qualquer relação com o resto da sociedade, vive lá dentro. O director de câmara seguiu-o durante um ano e registou todas as suas palavras. É provavelmente o melhor trabalho de Wang Bing.

Em 2010, Wang realizou o primeiro filme de ficção, A Vala. Este filme é uma versão ficcional da história de He Fengming (Ver Parte II). A dureza da luta de classes e a fome tornaram a vida num purgatório.

Depois de terminar A Vala, Wang foi visitar a mãe. No regresso, cruzou-se acidentalmente com três crianças, e este encontro marcou o início do documentário Três Irmãs, focado na pobreza das zonas rurais de Yunnan. Mas será que o realizador nos deixa vislumbrar uma luz ao fundo do túnel?

Em Yunnan, Wang Bing filmou também Até que a Loucura nos Separe, um documentário de quatro horas sobre doentes psiquiátricos internados num hospital de reabilitação. Alguns são doentes mentais, mas outros são pessoas abandonadas, “doentes de solidão”. Nenhum deles consegue fugir ao estigma da loucura. Mas estes doentes não mostram medo nem quaisquer tabus quando enfrentam a câmara. É um filme deprimente, porque a objectiva revela um mundo implacavelmente “real”. Não se aproveita da miséria nem nunca cai no melodrama. É como uma escrita sem adornos, feita de frases cruas, onde cada palavra é fiel e, fielmente protege personagens despidas de qualquer encanto visual e que vivem existências sem nada para mostrar.

Às vezes, possivelmente com mais frequência do que gostaríamos, a vida é mesmo só isso.

6 Set 2017

O realizador chinês mais corajoso de sempre Parte II

Wang Bing filmou o seu segundo documentário, He Fengming, em 2005.

Só com uma câmara, centrada numa mulher que sobreviveu aos horrores da era de Mao, Wang Bing conta uma história intimista, minimalista, quase privada. Antiga professora e jornalista, He Fengming relata de forma vivida, dolorosa e detalhada o pesadelo que viveu durante 30 anos, após a revolução.

A narrativa começa com Fengming a descer a rua coberta de neve que vai dar ao seu apartamento. Agora, sentada na sala, a mulher idosa, mais excepcionalmente bem conservada, fala para a câmara de Wang durante cerca de três horas, quase sempre em tempo real. A estratégia, totalmente não comercial, coloca o espectador numa humilde posição de receptor, quase como convidado de He. Estamos perante um estilo que preserva a pureza dos contadores de histórias. A narrativa nunca é interrompida por perguntas ou comentários. Durante quase três horas, esta mulher descreve os tormentos por que passou na prisão, num enquadramento decididamente não cinematográfico, mas sempre hipnótico. O olhar do realizador marca a forma como a história é contada, todo o seu drama e toda a sua tragédia. A abordagem totalmente estoica de Wang parece ser a forma certa e respeitadora de trazer ao espectador todo um mundo de emoções, embora este universo lhe seja desconhecido e nunca tenha imaginado sequer experiências tão degradantes.

He Fengming foi premiado no Festival Internacional de Cinema Documental de Yamagata em 2007.

Veja aqui uma entrevista com o realizador – a verdadeira natureza das histórias:

https://bit.ly/2xGebQ0

30 Ago 2017

O realizador chinês mais corajoso de sempre: Parte I

Chama-se Wang Bing e poucos o conhecem.

Muitos dos realizadores de documentários começaram como fotógrafos, Wang não é excepção. Diplomado pelo Departamento de Fotografia da Academia de Belas Artes Lu Xun, trabalhou para produções televisivas até 1999, altura em que filmou o seu primeiro documentário Tiexi Qu, West of the Tracks.

Tiexi é um imenso complexo industrial situado no Nordeste da China, na província de Shenyang. Construído durante a ocupação japonesa, foi restaurado com o apoio dos soviéticos após a 2ª`Guerra. Era o maior centro de manufactura do país. O período entre o pós-guerra e os anos 80 foi florescente, as fábricas no seu conjunto empregavam mais de um milhão de trabalhadores, mas, à semelhança de outras indústrias geridas pelo Estado, começou a colapsar a partir do início dos anos 90.

O documentário de Wang Bing mostra-nos a inevitável morte lenta do obsoleto sistema de manufactura. Bing filmou detalhadamente, entre 1999 e 2001, as vidas dos últimos operários, uma classe a quem foi prometida a glória durante a revolução chinesa. Esmagados pelas mudanças económicas, estes operários surgem como heróis comoventes neste épico moderno, que tem a duração total de 551 minutos, mais de 9 horas!

Reconhecido como “um dos melhores documentários chineses de sempre”, o filme é um retrato hipnotizante de uma sociedade chinesa em transição. Levou três anos para ser filmado.  Devido à sua longa duração, está dividido em três partes.

Parte 1 Ferrugem (244 minutos)

A câmara capta os derradeiros trabalhadores da fundição que laboram no único forno que resta, durante as suas actividades diárias. A falência parece ser inevitável e, desde o interior da fábrica até aos espaços de convívio, Wang Bing traça um retrato fascinante destas vidas moribundas.

Parte 2 Os Remanescentes (178 minutos)

Rainbow Row é uma favela construída em 1930, para albergar os trabalhadores do distrito de Tie Xi. Esta área era conhecida como a Cova das Criadas. Actualmente os seus residentes enfrentam o desemprego e salários em atraso.

A câmara acompanha o dia a dia de algumas pessoas; um jovem que após uma extração da Lotaria, procura bilhetes eventualmente premiados que possam ter caído ao chão; lixo e neve empilhados nas ruas geladas; jovens no mercado Cisne Feliz a pensar em esquemas para arranjar dinheiro e namoradas; crianças a recolher latas enquanto uma idosa assa tofu; jogadores de mah-jong que no Verão se reúnem no exterior das suas casas … Entretanto ficamos a saber que o bairro vai ser demolido para dar lugar a um condomínio privado. Toda a gente vai ter de sair dentro de um mês. Gradualmente o bairro esvazia-se, à medida que a neve o vai cobrindo.

Parte 3 Os Carris (132 minutos)

Um sistema de carris proporciona a circulação de vagões que transportam matérias primas e bens de consumo de, e para, Shenyang. A neve que não pára de cair e o fumo eterno criam uma atmosfera opressiva. Os sinais de vida são escassos à medida que o comboio avança através deste labirinto de fábricas praticamente abandonadas. Os trabalhadores cumprem as suas funções de forma mecânica, matando o tempo com mexericos, cartas e cigarros. Uma das suas maiores preocupações é armazenar carvão para poderem aquecer as salas geladas. Toda a gente teme o futuro, embora a Primavera tenha trazido algum alívio depois do penoso Inverno. O Outono sucede ao Verão. Em breve estamos na noite de Fim do Ano. Um pequeno fogo preso é ateado junto à casa e, lá dentro, os amigos bebem e conversam sobre amor e casamento. E toda a gente ajuda a fazer uma tachada de dumplings.

West of the Tracks deu início a uma nova era, a de um cinema lento e intimista. Quatro anos mais tarde, em 2005, Wang Bing filmou o documentário He Fengming. Mas esse fica para a próxima, ou seja, a Parte II desta crónica.

23 Ago 2017

O comboio mais longo da história

Se a Arca de Noé fosse um comboio teria 500 metros de comprimento, segundo o realizador coreano Bong Joon-ho.

Snowpiercer (2013) é um filme baseado na banda desenhada francesa Le Transperceneige. Bong Joon-ho descobriu esta obra nos finais de 2004 e ficou fascinado pela ideia de um grupo de pessoas encerradas num comboio a lutar pela sobrevivência.

Olhemos primeiro para a banda desenhada.

Le Transperceneige (The Snow-Piercer) é uma banda desenhada francesa de ficção científica com uma temática pós-apocalíptica, da autoria de Jacques Lob e de Jean-Mac Rochette. A primeira edição, de 1982, recebeu o título de Transperceneige, tendo sido posteriormente alterado para The Escape. Ao contrário de uma nave espacial, um comboio é um espaço que nos é familiar a todos. E é precisamente esta abordagem “comum” que faz com que esta história de ficção cientifica, sobre a luta pela sobrevivência após o “fim do mundo”, tenha um encanto ao qual podemos acrescentar a ideia da viagem, que nos é dada pelo comboio. Ninguém pode fugir para o exterior se quiser sobreviver, mas, lá dentro, todos os dias são deprimentes e privados da luz do dia. As pessoas estão prisioneiras do ritmo alucinante do comboio, que corre sempre em frente como um lunático, conduzido pelo Divino Motor.         

 Será um bocadinho forçado dizer que gostei particularmente da atmosfera sufocante deste Século do Gelo, que me foi dada pela banda desenhada?

Agora vejamos o filme.  Em primeiro lugar destacam-se os ambientes, impressionantemente lúgubres. Mas, por falar em lúgubre, a Tilda Swinton leva a taça (Deus do Céu, a cena em que ela tira os dentes! Se eu algum dia fizer uma entrevista ao Bong, tenho de ficar a saber tudo sobre o seu  fetiche com dentes!)

Em segundo lugar, o filme mostra de forma muito clara todo o horror da sociedade do comboio. As pessoas enfrentam condições tão primitivas, que têm de se matar umas às outras se quiserem sobreviver. As rebeliões são incentivadas e planeadas pela elite como forma de controlo demográfico e as crianças nascem para garantir que o Divino Motor continuará sempre a trabalhar. Será que isto vos faz lembrar qualquer coisa?    

Existem muitos detalhes fantásticos que vos podem escapar no meio das múltiplas sequências de acção, porque acontece tudo muito rapidamente. Por exemplo, numa carruagem estão todos a lutar e a matar-se uns aos outros, mas, de repente, param para celebrar o Ano Novo! No meio de tudo isto, as pessoas das classes mais baixas, (as que vivem na cauda do comboio) são mais simpáticas e mais normais do que os assassinos da elite.   Ah, outro pormenor, há uma cena com tochas que é filmada só com a luz das ditas.

Pessoalmente, não me agrada por aí além que o desenvolvimento da história siga uma abordagem tipo video game, os protagonistas vão percorrendo o comboio e cada carruagem representa um novo nível, até chegarem ao Ministro Wilford, o final boss. E depois acho o final muito optimista, talvez mesmo um bocadinho superficial se compararmos com o livro, mas também acredito que o desfecho pode ser encarado de muitas maneiras diferentes.

16 Ago 2017

Abriu a caça ao urso na China

 

A sede de censura da China a tudo o que está online, fez a sua última vítima: Winnie the Pooh.

Para os media chineses, Winnie the Pooh passou nos últimos quatro anos de ursinho inocente a meme com conotações políticas. Como o ursinho aparece em todo o lado no Weibo, os censores estão outra vez muito ocupados a seguir-lhe o rasto, para apagarem a sua irreverente imagem. Esta ‘caça ao urso’, praticada online, fez do Little Pooh um símbolo da resistência à censura.

No passado dia 15, Wang Xiaochuan, Director Executivo do motor de busca chinês Sogou, postou uma imagem de Winnie the Pooh na sua conta do Weibo só com esta legenda, “Little Pooh, bora lá”. Dos 2,7 milhões dos seus seguidores, 500 fizeram gosto e 200 partilharam o post. Não parece nada de muito especial – mas durante os últimos anos, na China, o pequeno Pooh passou a ser um meme político mais do que simplesmente um urso fofinho da Disney.

As parecenças do urso com o Presidente chinês Xi Jinping, são assustadoras. É preciso tê-los no sítio para postar o Pooh, porque caso contrário arranja-se problemas para si próprio, para a família e para o negócio. Winnie the Pooh tornou-se de tal forma ameaçador que muitos posts com o nome do urso, ou com a sua imagem, foram retirados do Weibo e do Wechat. Também fez com que muita gente passasse a escrever posts que, de alguma forma, incluíam o Winnie só para testar se eram apagados.  Apesar do Financial Times ter anunciado com detalhes o processo de “supressão” do Winnie the Pooh na China, muitos destes posts ainda circulam, desencadeando discussões nas plataformas sociais sobre o que está e o que não está ‘harmonizado’ (censurado).

O bloqueio do Winnie the Pooh pode parecer uma jogada bizarra por parte das autoridades chinesas, mas na verdade faz parte da cruzada para impedir que os bloggers mais espertos contornem a censura institucional.

26 Jul 2017

A Cidade dos Amendoins e a classificação etária na China

Dahufa, um filme de animação chinês, estreado a 13 de Julho de 2017.

Com um argumento surreal e violento, Dahufa conta-nos a história de um atraente assassino que viaja até uma cidade estranha e opressiva, habitada por humanoides com cabeça de amendoim, em busca de um príncipe desaparecido. O governador da Cidade dos Amendoins é Anji o Velho, personificado por um dente de ouro. Todas as paredes da cidade estão cobertas com cartazes propagandísticos, que anunciam “O povo apoia o seu Grande Líder”. O governador tem um exército muito forte e bem treinado, que se dedica a executar todos os cidadãos-amendoim em cujos corpos crescem “cogumelos fantasma”. Neste país a vida vale o mesmo que nada.

Anji o Velho trata os cidadãos como se fossem gado. Deixa que o venerem, mas, quando lhe dá na gana, manda executá-los. No entanto, o povo amendoim tem ideias curtas e aceita o seu destino, vivendo submisso sob a constante ameaça de vir a ser executado pelos odiosos “guardas”. Ou, pelo menos, assim parece. Sob uma aparência de ordem, percebe-se que se conspira e que a revolução está prestes a acontecer. O povo amendoim não se atrevia a abrir a boca e a expressar as suas opiniões. Nem se atreviam a pensar por si próprios. Mas, no final, devido à tomada de consciência de alguns “amendoins”, são conduzidos até à estrada que desemboca num novo amanhã. Este é um conto de fadas negro, destinado a adultos e que apresenta alguns temas de forma séria e brutalmente explícita.

Os produtores de Dahufa tomaram a decisão de classificar o filme para M/13 anos, um aviso aos pais de que o filme poderia conter cenas impróprias para crianças com menos de 13 anos. Esta atitude sublinha o facto de na China não existir um sistema de classificação etária para os espectáculos. Por este motivo, aos produtores cinematográficos resta apenas uma opção: fazer filmes que sejam adequados para crianças. Os filmes que não encaixem nesse critério de universalidade ficam sujeitos aos cortes da entidade reguladora governamental.

A classificação etária pode funcionar como uma jogada de marketing, mas também deriva de uma noção de responsabilidade social. Apesar do aviso, alguns pais vieram queixar-se do filme na comunicação social, depois de terem levado os filhos a ver o que tinham pensado ser um filme de desenhos animados inofensivo.

O filme tem uma animação altamente estilizada, conteúdos contemporâneos e relevantes, e denota influências que vão de Van Gogh à pintura chinesa tradicional. Tem cenas de luta, aventuras fantásticas e uma animação fenomenal. As temáticas mais sensíveis não subestimam a inteligência do espectador.

Veja o trailer aqui:

bit.ly/2u0nEB3

19 Jul 2017

China Gate – o portão de entrada

China Gate, documentário realizado há seis anos e galardoado com diversos prémios internacionais

Já anteriormente tinham sido feitos alguns documentários sobre os exames de entrada nas Universidades, mas este tornou-se inesquecível pela angústia que nos transmite.

A história desenrola-se um três locais geograficamente distintos, onde se espelha a situação que a nova geração chinesa tem de enfrentar.

Em Huining, província de Gansu, os estudantes reúnem-se ao final do dia, para estudar numa zona recreativa do campus. Levam água e comida e só fazem umas curtas pausas para ir à casa de banho. Estão totalmente concentrados nas montanhas de trabalhos para preparação dos exames. Mesmo depois da meia-noite, hora do recolher, alguns continuam a estudar debaixo dos lençóis à luz das lanternas. E vocês perguntam porquê. Porque, para estes miúdos, este Exame é muito mais do que uma prova: é a sua única hipótese de ascensão social. Numa aula, um dos orientadores grita para os alunos: “Se vocês são demasiado burros para atingirem os vossos objectivos, mostrem-me ao menos que conseguem suar!”

Se entrevistássemos um destes jovens, ele diria: “Eu não nasci com os privilégios dos rapazes da cidade, mas tenho confiança em mim. Posso mudar o meu futuro.” Huining tornou-se famosa pela elevada percentagem de alunos que conseguem aceder à Universidade. Aqui, os estudantes aprendem para sobreviver. Para eles, o sistema de acesso à Universidade é sagrado. É como atravessar um portão inacessível e muito bem guardado. O vencedor do desafio entra na cidade consagrada e numa nova vida.

De Huining passamos para Pequim, o segundo lugar do documentário. Centenas de milhares de jovens acabados de se graduar reúnem-se em Tianjialing. Muitos vieram de zonas rurais e chegaram à capital por via do exame de acesso. Agora vão lutar para ficar. Têm à sua espera uns salários miseráveis que mal chegam para garantir as necessidades básicas. A próxima escolha vais ser: ficar ou partir. Todos partilham um sonho: “Pequim não é a minha terra, mas pode vir a ser a terra do meu filho.”

Vão fazer todos os esforços para ficar na capital. Se esta ambição se revelar impossível, resta-lhes, antes de se despedirem dos seus sonhos gorados, ir assistir ao ritual do hastear da bandeira e depois partir para casa, num qualquer lugar remoto do país. Para os que ficam, todas as preocupações, lamentos e a ansiedades diárias valem a pena, porque as melhores coisas da vida estão todas na capital.

O terceiro lugar é Xangai. Zhang Jie é oriunda de uma família normal, no entanto toca e dá aulas de piano para ganhar a vida. Tem ainda um segundo trabalho, mas o dinheiro continua a não ser suficiente para as despesas do dia a dia. Embora tenha nascido na cidade, a precaridade que enfrenta torna-a semelhante aos jovens provincianos.

Na China, desde há muito tempo, o sistema do exame de acesso à Universidade passou a ser a pequena janela de oportunidade para mudar o destino. É a única opção para a maior parte dos jovens que batem em desespero a este assustador portão de entrada.

12 Jul 2017

Okja: o E.T. boçal da Coreia do Sul

Quando o filme mais recente de Bong Joon-ho acabou de ser exibido na última edição do Festival de Cinema de Cannes, a audiência aplaudiu de pé, mas quando o logo da produtora, a Netflix, apareceu no ecrã foi recebido com vaias. Okja é um filme maravilhoso e a primeira obra-prima da Netflix.

A história começa com uma apresentação encantatória da personagem que dá nome ao filme. Quem é Okja? Lucy Mirando (Tilda Swinton), uma entusiasmadíssima mulher de negócios, está ansiosa por contar a história. Lucy recorre a uma apresentação multimédia, para revelar aos jornalistas e aos accionistas da sua multinacional uma descoberta fantástica: uma nova estirpe de porco, um “super-porco”. Uma criatura estranha e gigantesca é apresentada como o futuro da culinária. Resultado de experiências genéticas, este enorme animal tem também um temperamento dócil e representa sobretudo uma enorme fonte de alimento. Mas a multinacional mente sobre a origem deste animal e alega que pertence a uma nova espécie encontrada no Chile, em estado selvagem.

Okja, uma fêmea premiada, é enviada para uma quinta na Coreia do Sul, no âmbito de um programa global desenhado para encontrar o melhor habitat para a espécie. Neste cenário a nossa “porquinha” vai deambular pelas montanhas durante 10 anos, comer o pasto e tornar-se a companheira inseparável da pequena Mija (Ahn Seo-hyun), neta do fazendeiro. E, neste panorama bucólico, vemos Mija e a sua gigantesca amiga passeando de cá para lá, sob o olhar protector do avô (Byun Hee-bong). No entanto, fica claro desde o início, a realidade vai entrar em cena e, quando entra, magoa.

Okja é uma espécie de E.T., mas mais boçal e, imaginando que o E.T. tinha corrido o risco de se tornar num produto para consumo alimentar das massas. Este filme fala-nos da perda da inocência, mas mais importante do que isso, fala-nos sobre o valor da inocência. A força do filme de Bong está na pureza do espírito de Mija, que pode servir de lição para muitos de nós (especialmente para os consumidores de carne).

Okja é, evidentemente, um ícone—os espectadores já sabem isso antes de lhe terem visto o focinhito. É um símbolo que representa todos os animais criados em quintas industriais, onde acontecem as maiores desumanidades, decorrentes da produção em massa e do comércio global. Mas o amor que Mija sente por ela não é superficial, nem se apaga facilmente. Mesmo a multinacional que a fabricou compreende o valor comercial deste afecto—e é por isso que Lucy tenta apresentar Okja como um animal doméstico, igual aos outros, de modo a que clientela não tenha medo de fritar o seu toucinho geneticamente modificado para o pequeno almoço.

Okja é o primeiro filme de Bong Joon-ho a participar num dos mais importantes Festivais de Cinema europeus. Bong não foi “acarinhado” pelo júri do Festival porque os seus filmes são considerados “comerciais”: o que ele faz é para ser visto e apreciado por grandes audiências. Inicialmente Okja não foi aceite para concorrer à Palma d’Ouro. Depois, Okja foi exibido na Netflix e acusado de ter um “problema de identidade”. Tudo isto não passa de um sintoma do eterno conflito entre a liberdade criativa e os diversos poderes instalados.

bit.ly/2qVaKpf

5 Jul 2017

A linguagem do cinema chinês: Idade 29 + 1

Hong Kong. Tempo: Presente.

Christy Lam, interpretada por Chrissie Chau, é o protótipo da rapariga nascida e criada em Hong Kong. Aparentemente tem uma vida feliz. Tem namorado e é admirada no trabalho. No entanto, um mês antes de completar 30 anos, Christy fica a saber que o pai está gravemente doente e acabamos por perceber que afinal a sua vida amorosa não é nenhum mar de rosas. Para rematar, as coisas no trabalho sofrem um volte face muito negativo.

Wong Tin-Lok, interpretada por Joyce Cheng, também está à beira dos 30. Wong tem uma vida completamente diferente. É baixota, gorducha, não tem dinheiro, não tem carreira nem namorado. Os seus seios só foram tocados pelos médicos. Wong tem cancro da mama, mas apesar disso sempre encarou a vida com um espírito optimista. Com os 30 anos na linha do horizonte, toma uma decisão arrojada; pega nas malas e enche-as com os sonhos de infância. Pela primeira vez na sua vida sai de Hong Kong e apanha um voo para Paris.

As duas mulheres não se conhecem e as suas personalidades são diferentes como a noite do dia. Mas o destino intervém e Christy muda-se temporariamente para casa de Wong. Instalada no apartamento, Christy depara-se com o diário de Wong. Descobre que partilham a data de nascimento e começa a desvendar pedaços da vida da dona da casa. À medida que os seus laços virtuais aumentam, Christy dá por si a admirar a forma como Wong aborda a vida, de tal forma que se vai identificando cada vez mais com esta perspectiva.

A realizadora Kearen Pang彭秀慧 adaptou ao cinema com mestria esta peça de teatro, da sua autoria, estreada em 2005. Na versão para teatro as duas protagonistas eram interpretadas pela autora. Pang optou por manter a estrutura pouco convencional da história, o que mostra a sua auto-confiança, embora seguindo o registo mais realista do cinema. Esta transição foi facilitada por duas protagonistas perfeitas: Chau brinda-nos com um dos seus trabalhos mais sofisticados de sempre, embora Cheng acabe por arrebatar as atenções, com uma interpretação absolutamente tocante, cheia de alegria e de calor humano.

Para a maioria das mulheres, os 30 representam a “fronteira para o desconhecido”. A antevisão deste período da vida dá uma sensação de impotência, não só física como psicológica, devido a todo o tipo de pressões sociais.

A realizadora Kearen Peng usa a câmara como se fosse um aparelho de raio-X para explorar as emoções, o trabalho e a vida das protagonistas. A idade perturba as mulheres. E será que alguém tem o direito de limitar as mulheres colocando-lhes um rótulo etário, ou qualquer outro tipo de rótulo?

Kearen Peng abre graciosamente a sua alma a uma audiência mais vasta, com uma comédia repleta de sensibilidade e positivismo. O filme recebeu o Prémio de Melhor Realização no Festival de Cinema de Nice.

Veja o trailer aqui:

28 Jun 2017

As cores do arco-íris chinês 中国的颜色

Quando um designer ocidental ou um produto querem agradar ao mercado chinês “vestem-se” de VERMELHO e toda a gente exclama imediatamente: uau fixe, isto é a China! Evidentemente os chineses aplaudem por simpatia, porque os chineses são pessoas educadas e nunca explicam que o vermelho é … bem, não é uma cor chinesa, nem o verde, ou o cliché da combinação verde/vermelho, a não ser na cozinha Sichuan que usa muitos pimentos destas cores.

De facto, a China tradicional não pintava tudo de vermelho. Durante milhares de anos os chineses colecionaram centenas de belíssimas cores. Espertos, não é verdade? Neste artigo vou falar-vos da sensibilidade cromática chinesa.

Por exemplo, estes nomes curiosos descrevem duas cores que vocês não vão conseguir adivinhar quais são:

竹月, literalmente “o mês do bambu”. Esta cor é descrita através da sensação que nos transmite um bambu erguido à luz de um luar prateado, metálico, com um toque de azul e violeta.

百草霜, literalmente “orvalho em cem plantas”. Pensei imediatamente num qualquer tom de branco, mas não. É cinzento escuro. O seu significado vem de uma mezinha da medicina tradicional, uma combinação cinzas com uma mistura de ervas. Estas cinzas resultavam da queima de certas plantas e são tão leves como o orvalho.

Na antiga China, o povo pintava toda a complexidade das suas vidas, incluindo a política e a religião, com cinco cores, que condensavam a visão chinesa do mundo.

Estas cinco cores eram: vermelho, amarelo, azul esverdeado, preto e branco. As cores apontam direcções e correspondem aos cinco elementos cósmicos. Os antigos chineses tinham uma imaginação cromática muito rica.

  • Por exemplo: o branco corresponde ao metal e aponta para Ocidente. É representado pelo tigre branco. O metal está associado às armas e à matança.

O preto é a cor do Norte, representa a água e o seu animal é a tartaruga negra.

O preto significa também “mistério” e “profundo”. É a cor que podemos divisar em torno de uma estrela cintilante num céu nocturno, profundamente misterioso e com um leve toque de vermelho.

E o azul esverdeado, como é que esta cor é percepcionada pelos chineses?

Cabelo azul esverdeado 青丝 significa cabelo negro. Céu azul, escreve-se青天 e relva verde, 青草。É por isso uma cor muito caprichosa. Mas imagine uma montanha coberta do viço verde de inúmeras plantas. Se olharmos de longe torna-se azul, mas quando colocada no horizonte longínquo veste-se de cinzento escuro.

A porcelana chinesa azul representa a cor do céu que se vislumbra entre as nuvens, depois da chuva torrencial. É um azul belo, delicado, nada berrante.

Os chineses coloriram o seu mundo com uma sabedoria muito peculiar.

Foto: Desfile da Victoria’s Secret em Xangai

21 Jun 2017

Venus terá sido asiática? 亚洲人是彻底的“女尊男卑” (Parte 3)

Sabem o que quer dizer género BL?

Boys love (que é como quem diz Amor entre Rapazes) também conhecido por yaoi, é um género de cinema erótico dirigido a mulheres. Os fãs do BL apaixonaram-se por este género inovador e sexy. As personagens são todas masculinas; algumas pertencem ao tipo sério, outras ao espampanante, algumas são mais aristocratas e, finalmente, existem os efeminados. Mas também cabem neste género os que são mais heterossexuais que D. Juan.

As histórias variam pouco: rapaz conhece rapaz e apaixona-se por ele. Depois procura encontrar a melhor maneira de vir a ser aceite pelo seu amado, pese embora a discriminação que possam vir a sofrer, mas que os fará apelar a toda a sua perseverança. Sempre que querem exibir o seu amor em público, são impedidos porque os outros se sentem incomodados. No entanto, isso não os impede de continuar a fortificar a relação. O amor verdadeiro move montanhas. Assim, no sentido restrito, são romances gay. Tendo por pano de fundo fantasias muito pouco realistas, estas histórias deixam as fãs surpreendidas e excitadas, porque as narrativas se desenrolam em diversos planos e são multi-facetadas. Grande parte dos BL não se focam apenas nos romances gay, o que enriquece as histórias e as torna mais apelativas. Acabam por lançar vários tópicos que, de alguma forma, são filosóficos e falam sobre auto-descoberta e transformação.

Na China, as fãs do BL regozijam com as relações homossexuais explícitas entre rapazes e entre homens. Nestas histórias podem ser encontradas algumas das personagens ficcionais mais em voga, celebridades reais, ou personificações masculinas de objectos do dia-a-dia e de animais, bem como personagens originais. A cultura BL é dominada pelas mulheres, na sua maioria heterossexuais. A “ostracizada” comunidade de fãs tornou-se suficientemente significativa para captar a atenção dos média que têm estigmatizado o BL e as suas seguidoras em toda a China. Esta sub-cultura é constantemente apresentada de forma negativa e preconceituosa, por uma moralidade à beira de um ataque de nervos.

Vários factores contribuem para a estigmatização das jovens chinesas admiradoras do BL. Em primeiro lugar, a homossexualidade é silenciada porque continua a ser um tabu na sociedade chinesa, fortemente heterossexual e patriarcal. Em segundo lugar, as sequências revelam cenas de sexo explícito e este tipo de imagens são consideradas obscenas e doentias, ofensivas para a tradição e a cultura chinesas.

No entanto, esta é uma das contradições que eu adoro na China.  Nos últimos anos tem havido uma grande quantidade de produções BL, apesar da tentativa impedir a homossexualidade e da censura na internet. Deixo-vos aqui o link para o trailer de uma nova série para poderem dar uma espreitadela no universo do BL.

bit.ly/2r9qxx5

14 Jun 2017