Colhido por nuvens a alta velocidade

Santiago, Óbidos, quinta, 14 Outubro

Embrenhado que andava na celebração de certa ideia de resistência, devo ter achado que o tempo me acompanhava a par e passo, na vez de insistir naquela tão sua corrida inexorável. É de contar ainda com as muitas hesitações em torno da celebração de uma década titubeante, sinuosa, arriscada, exuberante, excessiva. Mas estava decidido, por razões várias, fazer prova de vida nesta edição do Folio. De súbito, os dias viraram semanas e estas quinzenas e a areia revelava que estavam os livros estavam por fazer. Eram só sete e um cd. Para aqui chegar, portanto, foi uma oficina de milagres. Para falhar que não seja por pouco.

Começamos por este lugar sagrado com a exposição a partir do «Diário das Nuvens». O João Francisco [Vilhena] não consegue esconder o seu entusiasmo em torno de uma biblioteca das nuvens que radica em Aristófanes e espalha por séculos e séculos. Chama a atenção para a luz que se projecta no altar, sem outra imagem que uma enorme nuvem, em diálogo com as massas que abandonam com vagar as lombadas e enchem de mais céu o recanto. Este resplendor prolonga-se na obscuridade da capela mínima de São Martinho, com a projecção dos pequenos filmes, cruzamento de vozes e sons do etéreo e da terra. Foi momento de relembrar o Edgar Libório, mestre da luz e do som. Bebíamos já uma Cadáver Esquisito, isto se tivesse chegado. Ainda teremos que apresentar a vida amarrotada de Jean Moulin e as ilustrações para Natália [Correia] e Aurelio [Arturo] de uma mão-cheia de colombianos e portugueses, antes de nos dedicarmos à cerveja literária, que tardou em chegar. Suspensas das vigas da Artes & Letras, do mano Luís [Gomes], estão as ilustrações que acompanham cada um dos seis contos. Alguns cartapácios talvez não tenham apreciado a quebra no sossego imposta pelos amantes do lúpulo. Mas por estes dias, o ponto de encontro para perdidos e desorientados fixou-se aqui.

Casa da Música, Óbidos, sexta, 15 Outubro

O nó teimava em não descer da garganta. Os miúdos que iam interpretando os poemas de «Tens é garganta! – Só se pode ser poema no Outono», acompanhados pelos colegas que compuseram os acompanhamentos musicais, voavam alto. Custa-me não enumerar aqui cada um dos nomes, quando preciso de dizer que foi o Luís Germano, que anda a fazer da sua escola Josefa d’Óbidos laboratório exemplar de promoção da leitura, que o Henrique [Manuel Bento Fialho] fez uma primeira escolha de poemas das nossas edições, depois selecionados pelos jovens leitores, que José [Anjos] animou depois as oficinas à procura da respiração exacta. O CD está bastante bem, mas o palco transfigurou-se em jardim semeado e esta celebração da palavra afirma a escola como lugar vivo.

Santiago, sábado, 16 Outubro

Saltada a Lisboa, digo Setúbal, para a inauguração da «Ilustração Portuguesa», na Festa da Ilustração, com livro incluído. Mais uma corrida, soltando o perfume da tinta e das imagens, e logo me encontro frente à lareira enquanto se entrava Luiz Pacheco adentro, no clube de leitura dedicado aos malditos. «Comunidade» continua um ser vivíssimo. Nunca o corpo foi avaliado, medido, devorado, celebrado assim. Todos conhecem o Pacheco, mas afinal quase nenhum o lê. Apetecia-me uma Cadáver Esquisito, mas os hóspedes dos dias anteriores protegeram-nas com a própria vida.

O Jorge [Silva] deu magnífico ritmo ao pequeno volume que reúne os 80 textos nascidos da provocação fotográfica diária do João Francisco [Vilhena]. Nunca antes me tinha obrigado à prática diária da escrita e o resultado escalda-me as mãos. Apesar de uma ou outra ideia, da volúpia da descrição, dos socos na narrativa, foi sobretudo a palavra que persegui, os ossos do sentido, a transfiguração da oralidade. Fui livre que nem cumulus. A riqueza de formas e subtilezas, a gama do épico ao sussurrado, destas imagens não deixam de interpelar. No ecrã não estavam mal, com a luz a parecer surgir do seu interior. Mas o seu lugar é o papel, tal como parecem ter sido feitas para encher capelas, igrejas, catedrais. São objectos do mistério, onde nos espelhamos de mil modos. Assim os poemas quando cumpridos.

Teatro da Rainha, Caldas, terça, 19 Outubro

Vejo da plateia o círculo de luz projectado sobre o José Luiz [Tavares] no palco do Diga 33. O rigor da sua poesia impressiona sempre, tanta oficina e leitura, muito horizonte e ideia. A que se somam depois os pedaços de vida, as causas, os interesses, paixões e ódios. Há uma fulgurante verdade no que faz. Podia até ser puro artifício, desde que escrevesse o mesmo, mas assim brilha no escuro.

Espaço Ó, Óbidos, quarta, 20 Outubro

Está mais confessional hoje, o Miguel [Martins], no baile de apresentação à sociedade de «Do Outro Lado». Atira episódios intensos, conta bastidores da recolha dos dispersos de tantos anos, que está longe de ser completa, mas seja esta a sua vontade quase sempre da frugalidade e do apuro. De qualquer modo, exemplifica na perfeição o percurso de uma voz que pratica a mais terna das raivas. Ou será o inverso?

Óbidos, sexta, 22 Outubro

Não podia deixar de ser festa, a apresentação de «Micróbios», do Henrique [Manuel Bento Fialho], pelos modos, temas e práticas. O Fernando Mora Ramos fez leitura de abrir apetites, partindo tudo e lançando aos quatro ventos. O autor estava em casa e foi de espadeirar com ironia o alto e o baixo. Que bem sabia agora uma Cadáver Esquisito. Lá iremos, mas antes «O Ângulo Raso», acabado de chegar da gráfica, deu azo a bela sessão em torno de Fernanda Botelho, com intervenções substanciais da Joana [Botelho], da Paula Morão e do José Manuel dos Santos. Agora a cerveja, outra vez. Com livro onde recolhem os seis contos expostos nos corpos das garrafas. Vieram dizer que as sucessivas intervenções acabaram sendo sessão de stand up. Se isto fosse brincadeira.

Óbidos, sábado, 23 Outubro

Estou para ver as reacções a este «Puta de Vida», começando pelo título. (Estou furioso por não ter dado por título próximo do Miguel Esteves Cardoso). Contém uma energia que se comprovou no modo como tocou a plateia durante a leitura a várias vozes de um capítulo fulcral. O tema será a violência, também a conjugal, mas os romances não se medem aos temas.

Aprendo com gozo que o Luís [Cardoso] é animal de palco, não apenas no modo como enfrenta as questões nos debates, mas a ler e a cantar o seu Timor. A noite cresceu nos Bons Malandros, como habitualmente, desta vez regadas a Cadáveres.

24 Nov 2021

Dentro dos momentos

Serpa Pinto, Lisboa, domingo, 3 Outubro

Desde a (provável) primeira exposição de banda desenhada acolhida por museu nacional, dedicada a José Muñoz («Cidade, jazz da solidão»), nos idos de 1994, no Museu Rafael Bordalo Pinheiro/Museu da Cidade, muito terá mudado, mas desconfio que não o bastante para evitar os esgares de excelso desdém ao ver bd nas paredes do MNAC. Mais ainda tratando-se de tira cómica, Bartoon. Talvez se salve por apresentar «O artista do momento: o Homem do Paleolítico». O mano Luís [Afonso], no seu inesgotável labor, uma escrita de subtilezas à base de gestos e olhares, anda esculpindo há décadas as luzes que projecta sobre temas que vão fazendo de nós o que somos, corpos do momento. No caso, reúne-se o comentando à volta das magníficas gravuras a céu aberto de Côa, tendo até acrescentado o dito Homem do Paleolítico à sua galeria de personagens. Digo magníficas em eco do que fui «ouvendo». Apesar de ter passado noite acampado à porta do Museu de Etnologia em greve de fome para que não acabassem debaixo de água, ainda não fui celebrar aquele sagrado, como deve ser, de olhos abertos e corpo inteiro.

(E vão duas recordações em um só parágrafo, continuas envelhecendo, meu velho).
E depois reencontrei o António Faria (vivemos tempos de reencontros, valha-nos isso), que interrompeu as suas paisagens para desenhar esta exposição. E para revelar o verdadeiro rosto do Luís, artista dos muitos momentos, desvelado a partir dos olhos das suas personagens.

Horta Seca (versão n.º 20), Lisboa, sábado, 9 Outubro

A Quinzena [Jean Moulin] fecha com estrondo e dois lançamentos. O do livro-relâmpago, «Jean Moulin Lisboa 1941», onde se acolheu o essencial dos textos e dos vestígios da sua passagem por Lisboa e por nós: o discurso de Malraux, dele fazendo rosto da França, o testemunho literário e (talvez) vivido de Jorge Reis, um belíssimo conto do Fernando [Sobral] a esticar todas as possibilidades ao limite da paisagem, o relatório com as contas da Resistência partida, e muito mais. Umas noitadas valentes, a fazer lembrar outros combates de urgência, corremos atrás do Jorge [Silva] que andou, tal maestro tresloucado, a pôr tudo e todos no andamento certo. Entregámos as 216 páginas a 4/4 cores ao Carlos Vintém na segunda-feira e ao fim do dia seguinte tínhamos 50 exemplares brilhando (demais) nas mãos. (Estes milagres ainda vão acabar com as tuas dúvidas acerca da impressão digital, cota…). Faltou o terno e atento texto do Ferreira Fernandes, que fez a propósito para «A Mensagem» (https://amensagem.pt/2021/10/05/jean-moulin-lisboa-comemoracoes/), mas nem a mais radical tecnologia resolveu o tempo: como incluir texto que ainda não foi escrito?

E depois o outro, aquele para as supostas crianças, quem sabe jovens, inevitáveis adultos, «Jean Moulin, a sombra não apaga a cor» (ed. APCC), traçado a meias com o Tiago [Albuquerque], que acabou por não conseguir estar. Aliás, senti-lhe a falta durante o processo inteiro de criação, que me interessa mais partilhado, dividido, rasgado. O combate entre o possível e o impossível nem sempre se perde, nem sempre se ganha.

O que aconteceu por estes lados, explodindo a partir da Casa da Imprensa, fez-nos acreditar. Descontemos os encontros e reencontros, que os houve e abraçados, além de gestos simples e comoventes, presenças regulares, disponibilidades que reverberam. Aconteceram filmes de sala cheia até altas horas, aqui no Ideal. Centenas de gente a perder-se nas exposições. Debates, acesos, e não apenas entre historiadores de renome. E depois a pedra, momento singelo em dia de comemorar a República, com todos os muitos oradores ironicamente disso se esquecendo. Está no chão do miradouro, a dizer com um olhar penetrante em granito negro do Zimbabué sobre lioz branco que as raízes podem ser horizonte. Afinal, com bem notou FF, se foi aqui que Moulin ganhou a luz, andámos, entre fogo e rasgo, a celebrar Lisboa. Uma certa Lisboa.

Horta Seca, Lisboa, segunda, 11 Outubro

Desmontada e embalada com mil cuidados a exposição Moulin, aguardo o transporte que a levará para Óbidos. Folheio o jornal do Festival Literário e noto gralha na prosa onde tratei de fazer coincidir festival e almoço de verão. Não dá para sacudir. Que venham os dias de outros e dessoutros, de vertigem e cansaço, de saber e sabor, de festa e hipocrisia, de deslumbramento e desfeita.

«Uma vespa. Uma vespa pousa-me no braço, sendo esquerdo pede palmada da mão oposta, dizem. Travo para garantir ao olhar que não é abelha, digna de respeito maior. O dono da casa e da mesa sob latada mediterrânica grita as vezes suficientes até que me aperceba: a bicha tem nome, não merece morte súbita. Uma vespa pode ter nome e nisto percebo o essencial.

Sou do Sul, portanto lugar de mesa invariavelmente estendendo-se sob sol-posto em rima com a maltosa feita casa, cal de parede e o sacudir de paisagem, serviço dobrado de sorrisos e vincos fazendo cama para pão e vinho. O cortejo dos dedos pendentes de suas mãos, marcadas pelo fazer, reparo, trazem comida e bebida, as cores, as dores. Alguém levanta a voz, sussurros concorrem com o vento, os talheres debatem-se, há-de alguém amanhar as tensões e as flores dos que, pelo toque, se dizem família. Os amigos, com eles montanhas e rectas. As falas que se partem como pão, dizem. As vozes logo se alevantam sob sopro da alegria, outros mandam calar, que faz parte. Há segredos para conter e revelações de nada para celebrar, corpos ansiosos por correr. Entorna-se um copo, elogia-se a receita, o forno, o gesto. Um dos outros terá que lavar a loiça, recolher os restos, abraçar o que sobra da partilha, uns que chegam e partem, a mesa afinal um peito. Como saber se a refeição abre, vai de meio, ou se finda? Só se ama conhecendo.

E nisto um festival. Do outro lado da mesa atiram papel amachucado garantido registo de rima imemorial com cantar e de discussão com pensamento e de debate com o marulhar do oceano e os toques de pele com o desejo e uns raios que nos partam. Para que conste, o deejay, antes de o ser ao ar livre, foi na rádio o maestro das convergências. Deixemo-lo ser agora nas noites recolhidas ao cubo. Valha-nos São Programador, padroeiro dos acidentes, esse Cristóvão das curvas!

Ao quarto parágrafo (no original estava terceiro, nunca atinas com números, velha carcaça) partilhemos a clareza possível: sacudo folhas e sobra-me um Folio a perder de vista, almoço de domingo para o que der e vier, pequenas heranças e o horizonte que nem navalha, erga-se em grito flamengo a coreografia de mãos desdobrando paisagens, guardanapos, gritos dissonantes, ideias de passar muralhas e de erguer livrarias no altar, toque enfarinhado da quentura da côdea, a sopa arrefecendo, velhas histórias, uma promessa de fruta. Cá entre nós, mal o outro mal se assome no desvão da frase faz-se fruta tocada. Morra quem se negue.”

27 Out 2021

As circunstâncias e o seu homem

Luís António Verney, Oeiras, sábado, 18 Setembro

De frase impressa nestas páginas nasceu conversa com a Catarina [Sobral] e o Nuno [Saraiva] no «II Encontro de Culturas: Multiculturalismo e Identidades». «Sob a Minha Desatenção, Uma Curiosa Troca de Olhares» fez-se em modo despenteado, sob grande ventania. Estes terrenos, bem o sabemos, contêm qualquer de pantanoso, qualquer passo pode contribuir para nos enterrarmos abraçando bandeiras em confuso vórtice. Não foi o caso, que, interlocutores e moderador, não desafinaremos por aí além. Ou mais ou menos, que para o Nuno o humor deve ter limites, por exemplo, no que diz respeito à fé dos outros. Enquanto isso, não creio que se possa retirar a ofensa da equação. Respiramos um ar dos tempos em que a ofensa virou veneno viral. A Catarina, das nossas autoras mais traduzidas, falou da experiência de leitura e interpretação afinal singelamente comum nas mais variadas culturas. Do outro lado do espelho deu para reflectir, se isso fosse feito a propósito da obra fragmentária e dispersa do ilustrador, na atenção com que Saraiva vem, há que tempos, descobrindo na ponta do lápis Lisboa, e os seus bairros, sobretudo Alfama ou Mouraria, que nunca sei, tornando-o grande especialista em identidades. O pretexto era, relembremos, a bela ideia lançada pelas Bibliotecas de Oeiras de interpretações desenhadas da obra de Neves e Sousa, com o Nuno a meter-se na dança dos corpos femininos e a Catarina a desenvolver pequenas narrativas, desfazendo o humano na paisagem, com cor incluída.

 

Horta Seca, Lisboa, terça, 28 Setembro

Os últimos dias, semanas até, começam e acabam sob o signo de Jean Moulin. Hoje, mal acabado terno reencontro com o Fernando [Alves] à sombra dos microfones da TSF, tive que recuar a séculos passados atravessando loja tradicional em esquina da Baixa para procurar fita que sustentasse os painéis que, do salão nobre da Casa da Imprensa, extravasaram para a rua. Um rosto, não mais que isso, mas com densidade tal que tem hipnotizado os transeuntes sempre incautos da cidade maior. Nas paragens e nas esquinas, no verso de anúncios, por exemplo, ao mais recente 007, perguntam quem terá sido este Jean Moulin que por aqui passou há oitenta anos com o desejo de resistir mais e melhor à noite que se abatia sobre a Europa. Daqui a pouco lutaremos com a corrente de ar para colocar os painéis, rígidos e frágeis, na longa montra que vocifera sobre negro: «Artista boémio, funcionário rigoroso, político eficiente, resistente determinado, herói improvável: o rosto da França».

Ontem começámos com um postal inteiro, na estação dos correios do Camões, dizendo que a mensagem escrita rasgou e continuará a rasgar fronteiras. Dissemos com a pompa dos discursos dos familiares e autoridades, da assinatura de mitos presentes, devidamente carimbado o conjunto. A Quinzena Jean Moulin, ao longe, parecerá um postal, atirado ao ar, lançado ao rio. Agora ansiamos pela chegada do catálogo que reúne, sob a batuta sempre vivaz do Jorge [Silva], as pistas e os vestígios que fomos conseguindo recolher, com a determinação bem-humorada do João [Soares], a infinita e gargalhada paciência da Manuela [Rêgo], além da atenta vigilância do «exilado» no Luxemburgo, José Manuel Saraiva, sólido construtor de histórias da História. A sala enche-se para lá do possível ou do provável para ler e comentar a figura e nisso nos comprazemos. Os primos, que responderam com extrema generosidade aos nossos inquéritos e inquietações, comovem-se. O presidente da associação de amigos de Jean Moulin, Jean-Paul Grasset diz-nos que esta era a primeira vez fora de França que alguém homenageava o resistente. E logo desta maneira. Alguém indica uma figura, talvez secundária, outro deixa-se fascinar por detalhe amoroso na vida aventurosa, aquele sublinha o documento e a sua circunstância, e mil pequenos debates daqui partem. E o rosto brilhando omnipresente. A embaixadora da França, Florence Mangin, visivelmente impressionada, pergunta-me qual seria, entre os nossos, personalidade equivalente. Rabisquei hesitante umas hipóteses, que não nos faltaram resistentes, mas nenhuma me pareceu exacta por incompleta. As circunstâncias que fizeram Jean Moulin foram únicas e essencialmente resultado da experiência francesa, entalada entre o miserável colaboracionismo e «l’attentism», o tristonho esperar de braços cruzados, entre a cobardia generalizada e uns actos soltos de quixotesca coragem. O homem comum tornou-se extraordinário no momento em que disse: não!

 

Horta Seca, Lisboa, quinta, 30 Setembro

O outro lado de Moulin, o menos conhecido até entre os seus conterrâneos, revela-se na abysmo Galeria, que não podia escolher melhor maneira de recomeçar. A atribuladíssima última exposição com as suspensas paisagens geométricas do Simão Palmeirim, acabou sendo premonitória. O trabalho que a fechava atraía-nos para uma voragem de negro. A realidade imitou-a logo a seguir. Está na hora, portanto, de recomeçar, de «Dançar sobre as ruínas». «Como não ler os detalhes de uma vida (intensa) a partir do retrato final no qual se tenta encerrar qualquer biografia? Jean Moulin (1899-1943) foi funcionário público que levou ao limite o seu dever cívico de resistência à catástrofe da guerra, à ocupação do seu país por exército estrangeiro, ao ataque directo e persistente aos seus valores. De um golpe (com vidro) passou de Prefeito a resistente e daí, na sequência do modo como soube erguer forças dispersas, a herói. A certa altura sonhou uma vida distinta, talvez entregue ao desenho, ao comentário político, tão só à arte. Escolheu então, e para ela, um «nom de guerre», ele que acabou tendo tantos nomes: Romanin, as ruínas de um castelo na sua Provença natal. Não abandonou mais o desenho livre e rápido, com que foi tomando nota de lugares e paisagens. Arrumámos o que sobrou dessa vida que poderia ter sido em duas áreas, a da relação com o texto poético, notável em «Armor» e a do desenho de costumes e de humor, afinal celebração da festa, da boémia artística. Isto com uma leveza de traço, a cor líquida e singela, a composição bem orquestrada prenhe de detalhe e movimento. Não será difícil neles encontrar o agridoce perfume da suave melancolia, talvez em resultado da duração. Nenhuma vida se gasta apenas em festa, todas as noites acabam. Mas são os olhos em cada uma das figuras que se mostram ricos em ensinamentos, quando nos olham, quando se entrecruzam, quando se perdem. Anunciariam as ruínas, a morte?»

6 Out 2021

A mão no rosto

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 13 Setembro

Conhecia este texto, que dança nas profundezas, da Inês [Fonseca Santos], fruto da deliciosa prática da partilha – toma que está maduro, ajuda-me a descascá-lo. Desconhecia o quanto de solar dele extraiu o Mantraste – olha como o cubismo nos permite fazer do fragmento corpo inteiro. E depois ao ser impresso o raio do texto ganha outros tons – será rosto maquilhado? «António Variações – Fora de tom» (ed. Pato Lógico/ Imprensa Nacional), esguio de formas, como todos os da colecção Grandes Vidas Portuguesas, está cantarolando pelas estantes, nas minhas mãos.

Os bem-pensantes, que os há sob cada pedra em todos os quadrantes, insistem no erro de que os livros de putos apenas a eles se destinam e dispensam leituras aos entretanto crescidos. Neste pequeno volume, a Inês e o Bruno dizem tanto sobre a vida de cada um, as vidas dos outros, o peso das palavras, o modo como elas nos abrem ou fecham os dias, falam do que somos se o soubermos ser! Sem condescendências, sem medo de se apaixonar pelo tema, brincando invariavelmente às construções, das caras e dos versos. «Não é em linha reta, o humano», mas há geometrias ocultas, linhas de terra. A fortíssima face do António Variações atravessa o livro por completo, faz-se paisagem e cadeira, dança e ternura, microfone e enxada. Perto, tão perto, passeiam-se as mãos, enormes. Notável a subtileza com que o Bruno insere elementos de uma ruralidade identitária que só o Variações soube tornar cosmopolita – raiz e antena. As convenções, se podem ser casa, tendem a tornar-se prisão. António Variações não deixou ainda de rasgar cantando a liberdade.

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 16 Setembro

Andamos nisto, a disparar em todas as direcções assoberbados com estampas e retratos, talvez auto, à velocidade do absurdo. A Festa da Ilustração explode lá para o início do outonal mês e o José Teófilo [Duarte], à queima-roupa, sem apelo nem agravo, pede-me reflexão escrita em torno do labor de misturas da Marta [Madureira]. Travo a fundo as urgências e fecho-me para vaguear nos seus rostos, lado visível de dilectas geometrias: «A colagem tem sido o seu território. O corpo a sua matéria, o seu assunto, a borracha ilimitada com que estica as histórias, ainda que de outros. E nessa estrutura de tronco e membros, a peça principal tornou-se a cabeça. Ou melhor: o rosto.» Amo mãos, a sua dança na atmosfera, a deliciosa relação que estabelecem com a face respectiva. Do gesto nascem caras (algures na página, exemplo virtuoso). Nisto, a colagem a imitar estes dias, feitos disto e aquilo, sobras e princípios sobre uma qualquer folha suja (de calendário). «A Marta desde sempre integrou na sua linguagem fragmentos do mundo, que deixam de lhe pertencer mal pousam sobre a página tornando-se cor, textura, sinal. Uma mola reproduzida tal e qual não prende nada, do mesmo modo que as esferas metálicas se podem tornar olhos de bicho. E até foi fazendo mais, acrescentando dimensões ao plano, ou vestindo de penas e tecidos certos corpos. Um pouco mais de vida em naturezas mortas.»

Horta Seca, Lisboa, sexta, 17 Setembro

Na escala evolutiva, um livro em pdf ou afim, por útil e facilitador que seja, não consegue ainda andar como um livro. O texto, longe dos nossos olhos, combina-se com as imagens, de modos que só a geometria descritiva explicará, e explode em objecto de capa e espada, perdão, página. Dá-se, então, o mistério. Doravante não será mais meu, ou do Tiago [Albuquerque], que o enriqueceu com visões, este «Jean Moulin – A sombra não apaga a cor».

Serão as vidas a terra de onde brotam as histórias? Basta discorrer um percurso para prender leitores a ponto de ignorarem a vida? Esta biografia aventurosa e por um triz banal deu filmes e romances, mas deu sobretudo um rosto, aqui tintado a negro e sombreado de azul. Ecoa ininterrupta a bela frase de Malraux, à beira do Panteão, com o que este contém de abysmo: «Hoje, juventude, pudesses tu invocar este homem de modo a tocar com as tuas mãos a sua pobre face naquele seu último dia, tocando os lábios que não falaram, naquele dia ele foi o rosto da França.»

Artur Bual, Lisboa, domingo, 19 Setembro

Surge-me estranha, a praça, talvez deprimente no sinuoso como se apresenta, indistinta entre o que deve ser a face e a rabada. Certos bairros parecem ser, de qualquer ponto de vista, traseiras. A minha infância tardia andou por perto, mas não conhecia o lugar que meia dúzia de organizadas cadeiras encheram em momento aprazado, regras sanitárias cumpridas com escrúpulo. O evento, que rima para mim com cimento, cruza depoimentos de gente que é o bairro com poesia solta sobre a habitação. O Henrique [Manuel Bento Fialho], que me acompanha a convite do Nuno [Ramos Almeida], está visivelmente mais confortável com estas circunstâncias de campanha, as palmas ritmadas, as palavras de ordem, o entusiasmo que não sei fingir.

«Já não se fabricam pistolas de brincar./ Os meninos brincam aos contabilistas com pistolas a sério,/ visões demasiado gerais, ou demasiado concretas, de uma realidade com cimento nas frestas.// Do mesmo modo, hão-de acabar com o teatro, o namoro, e todas as reinvenções da realidade.// O Porky Pig há-de acabar em chouriços e estes no cu dalgum político, cheio de sucesso e anacoretismo.»

Desorientação militante. Não posso apoiar candidato maioritário e triste que foi entregando a cidade aos interesses mais venais, a ponto de continuarem a ameaçar uma das minhas colinas (a de Santana). Custa-me que seja socialista a gerir ao sabor das modas sexy. Não alinho na política cultural invisual e incapaz de perceber que nem tudo se constrói sobre nomes. Ergo, portanto, voz titubeante em favor do João Ferreira e de um partido comunista que se abra em curva sinuosa. E na passada li três poemas do Miguel [Martins], incluídos em «São Miguel da Desorientação» (ed. Macondo), por serem exemplos da boa prática da raiva. Herdeiro do desmancho exacto de bom pata negra, o poeta usa diligentemente a frase longa, que espeta da página a marcar as peles que se aproximem. Se ainda houver punk está por perto, mas em jardim. A sua afirmação vigorosa consiste em levantar-se arrastando paisagens com a lentidão de quem tem necessidades a cumprir: dizer-se.

«E, então, sim, poderemos progredir sem estorvos, rumo a uma sociedade cor-de-rosa// governada por antidepressivos de última geração,/ em que comer baratas já não seja uma desgraça/ mas uma oportunidade para nos conectarmos com possibilidades alternativas da nossa história comum.”

29 Set 2021

Carga d’água

Horta Seca, Lisboa, quinta, 2 Setembro

Sucedem-se os almoços que alimentam dias inteiros. Os que se propõem prolongar agendas, acertar detalhes e definir convites, fazer pontos-de-situação, do mais estranho em dias lassos, ponto-pé-de-cruz em trapos. Também os há em que do inesperado fazem desabrochar ideias, esses cães raivosos que não deixam de me atormentar a apatia com os dentes afiados da possibilidade. Deu-se com o Nuno [Miguel Guedes], com o Nuno [Ramos de Almeida], com o André [Letria], com o Carlos [Querido]. Ele são podcasts de intensa sensibilidade, revistas de máxima urgência, livros grávidos de oportunidade, projectos-projéctil, promessas de alta magnitude na escala de Richter.

Outros encontros nascem destinados tão só a retomar melodias de normalidade, cantarolar encontros e lamentações, que as alegrias vão sendo raras. A doença atravessa-nos tal fantasma de lenda, arrastando penas e ameaças, para nos deixar bombas no colo, que acariciamos até explodirem.

Depois sentamo-nos com o Agostinho [Jardim Gonçalves] e a vida parece-nos outra, feita de uma tranquilidade que não aquieta as dúvidas, que não ignora as indignações, invariavelmente atenta ao outro e ao Mundo. Um vivíssimo olhar de riacho a suscitar paisagens, oriundas de riquíssima memória ou projectadas em horizonte cheio de sopro. E sentido.

Parque Eduardo VII, Lisboa, sábado, 4 Setembro

Vão passeando os numerosos cães e os comentários, uma ou outra palavra de incentivo, mas também piropos grosseiros e passagens ao largo para evitar encontros de maus fígados (as máscaras poupam alguns da má cara).

Quase se perdeu o hábito de saudar quem está ali de pé ao serviço, de súbito transparente. Também se atiram dúvidas que tamborilam com o pó ininterrupto sobre as capas da livralhada: conselhos de leitura, acerca de um autor, de planos, mas a pergunta campeã, de longe, tem a ver com preços baixos e ainda mais descontos, com a adesão à mística Hora H. Tantos anos a inundar mercados com ideias acocorados dá nisto: saldos como modo de vida.

Não páram de crescer, assim eucaliptos, as editoras-taxímetro: pague que nós publicamos, resmas de restolho, sem fogo, mas esperando arder, com autores impantes e abandonados, uns em afogadilho, mas outros em celebração de selfiem-família. O negócio das identidades terá sempre por onde crescer: quem serei eu sem autorretrato ao instante, sem assinatura, sem opinião firme e hirta.

Livraria Barata, Lisboa, domingo, 5 Setembro

Ainda não tinha descido à cave da livraria de boas memórias, agora «lugar de cultura» consagrado pela Câmara Municipal, em missão de resgate e salvamento. O pretexto – que acaba por acontecer neste limbo pós-agosto-antes das-aulas-em-cima-da-feira-e-da-bienal-de-guimarães – está forrado com as imagens que resultaram do desafio a seis ilustradores colombianos e outros tantos portugueses para viajarem em tempo de pandemia, levando na bagagem ou usando como meio de transporte poemas de Natália Correia e Aurelio Arturo. A exposição «Para Além das Fronteiras/ Más Allá de Las Fronteras» evita as paredes, suspendendo os trabalhos e agravando a sensação de percurso por bosque de cores e interpretações. O lado português floresce bastante mais lírico e metafórico, enquanto do lado de lá do Atlântico privilegiou-se a figuração e a fidelidade às fulgurações eróticas e noctívagas da poeta: «Ó noite rosa de cabelos negros/ com incêndios nos espinhos./ Bebida na taça dos meus olhos/ como os vinhos.// Ó noite carne escura. Marinheiro/ Viagem de que fantástico veleiro?» Uma ideia da embaixada que assim constrói novos territórios, apadrinhada pelo Jerónimo [Pizarro], ao lado de quem me sento para falar da pujante figura da poeta, e de tradução que ele logo ali exercita, enquanto José Rosero ilustra ao vivo, vasculhando imagens no miolo da palavra. Andámos às voltas de uma ou outra, por exemplo com a chuvosa «cantinela» de Aurelio, que por ela talvez se chegue a «lengalenga». Divertido foi ver a plateia saltitando de uma língua para a outra, vasculhando vocabulário que ora prolonga ora fixa. E mais: colhendo as imagens maduras que cada verso oferece. Não deixa de ser ingrato destacar um ou outro autor, mas, praticando mais a bruteza do que a diplomacia, assinalo o Mantraste (algures na página). Talvez por uma proverbial proximidade à natureza, integrou os versos em luxuriante paisagem que mescla rosto e casa e terra e bonecos (soma de terra e água e fogo) e água e folhas, gotas que nem folhas. (As folhas atravessam que nem lâminas a maior parte dos desenhos, portanto olhares). Expressão em estado puro, assim barro atirado à parede em construção de si.

Santa Bárbara, Lisboa, terça-feira, 7 Setembro

Belas massas moventes em tons de branco-cinza roçam os pontiagudos postes que defendem os altos edifícios de ameaças celestes ou procuram apenas e com singeleza metálica captar ondas. Vai chover. Chovendo no molhado: a acumulação de suspensos e irresolvidos, de encargos e tarefas, passou do papel para um qualquer lugar no corpo, um punho entre estômago e coração, rins e virilhas. Baralho-me com as contas, mas desconfio que esta croniqueta apura um total de duzentas entregas, outras tantas semanas de meteorologia: leitura de meteoros e tempestades, de ventos, rotinas passageiras, borbulhas e feridas na pele do tempo. Devia largar isto e ir, pândego, apanhar a bátega.

As chuvas terão, doravante, o aspecto que lhes roubou Aurelio Arturo: «Ocurre así/ la lluvia/ comienza un pausado silabeo/ en los lindos claros de bosque/ donde el sol trisca y va juntando/ las lentas sílabas y entonces/ suelta la cantinela//  así principian esas lluvias inmemoriales/ de voz quejumbrosa/ que hablan de edades primitivas/ y arrullan generaciones/ y siguen narrando catástrofes/ y glorias/ y poderosas germinaciones/ cataclismos/ dilúvios/ hundimientos de pueblos y razas/ de ciudades/ lluvias que vienen del fondo de milénios/ con sus insidiosas canciones/ su palabra germinal que hechiza y envuelve/ y sus fluidas rejas innumerables/ que pueden ser prisiones/ o arpas/ o liras// pero de pronto/ se vuelven risueñas y esbeltas/ danzan/ pueblan la tierra de hojas grandes/ lujosas/ de flores/ y de una alegría menuda y tierna.”

15 Set 2021

Prova de vida

Horta Seca, Lisboa, quarta, 11 Agosto

Vai alto o Verão e depositámos em lugar de Raúl Brandão o catálogo correspondente à terceira Bienal de Ilustração de Guimarães, com os escolhidos e premiados, além do mais, belo texto de Luís Miguel Cintra dedicado ao discretíssimo trabalho de Cristina Reis, além de rico conjunto de ensaios, resultantes de conferências. (Sim, entregámos um exacto mês antes do evento). Isto logo depois da edição dos «Ilustradores Portugueses na Biblioteca de Viana do Castelo (2014-2021)», selecção e organização do Tiago Manuel de quinze autores contemporâneos, aqui com antologias mínimas e ensaios de enquadramento. Dois sinais da vitalidade de uma disciplina que ainda procura influenciar os modos como vai sendo vista e arrumada. Temos por onde nos alegrar com o hábito feito de festivais e exposições e cursos e outros esmeros e brios. Além do que a prática da ilustração, mais política e radical, mais reflexiva e poética, de projecto e encomenda, pulsa e relumbra. Assombra.

Oculta-se, em tais incumbências, um labor editorial não desprezável e pouco notado. Assim deve ser, aliás. Há mais lugares além do palco, da montra, das primeiras páginas, dos tops de plataformas. A compilação dos elementos díspares que vão compondo o livro, cada escolha em debate com os fazedores de formas, inventores de papel, com os faróis de minudências, enfim, a ordem que resulta da massa informe assenta no gesto criador do editor. Um gesto para sempre inacabado, imperfeito, em movimento. Raros são os encomendadores que entendem as subtilezas e complexidades, as variáveis e o peso das circunstâncias. Pouco mais importa que um prazo. O livro pode até ser produto, mas contém uma transcendência que merece respeito. Aceitemos com bonomia a ignorância. E quem sabe um dia oferecer a bondade de uma explicação. A capa BIG (algures na página), assinada pelo João [Silva], da DDLX, a partir de desenho do André [Letria], serve de oportuna ilustração desse movimento entre verdejantes selvajarias.

Horta Seca, Lisboa, quarta, 25 Agosto

Fui puto de Legos. Poucos, que a vida de então não dava para mais. Meia dúzia de peças davam me pôr na Lua, abrir velocidades, disparar sobre o Mal, erguer alturas desmedidas, construir castelos e absurdos. Tenho no céu da boca a recordação da aterragem dos primeiros paralelepípedos de pinos e encaixes na minha mão. Agora, não passa um dia em que uma peça, já não de plástico, não me aparece a ferir o pé descalço. Isto e aquilo, mais isto que aquilo, atitudes, um gesto, brutal esquecimento, humilhações, um incumprimento, um mau trabalho, friezas, avisos, pressões, desilusões, a notícia de que afinal. Para que não me esqueça: em certas vidas, as peças teimam em não encaixar. Como se não pertencessem.

Eduardo VII, Lisboa, quinta, 26 Agosto

Ei-la que chega, impante, a Feira do Livro. Muito por culpa do comunicado da APEL, que nos atribui estatuto de novedio, o Público (https://www.publico.pt/2021/08/26/culturaipsilon/noticia/feira-prova-vida-editoras-1975265) abre a sua peça connosco e dá azo a um sem número de mensagens, sinceras e fingidas e mais um leque de matizes onde se exercita o humano. Que importância ganham estes detalhes, o de ser a primeira vez que erguemos barraca a solo em evento que nos desgosta e de um jornal apontar lanternas a isso? Pouca. As autoridades alegram-se com a dimensão, atiram números, muitos números, sempre a somar, enchendo bocas e cabeças com o cultural, mas é de comércio que se trata. Vem daí mal ao mundo, que se venda livros? Nem por isso, mas quando toda a estratégia assenta no preço, nos descontos, nos saldos, nos livros do dia, na Hora H, esse convite à especulação, e outras invenções do demónio, acabamos por deixar claro que o interesse não será exactamente a promoção da leitura.

Atraímos passeantes, muitos, muitos, com pipocas e hamburguesas e saladas saudáveis e cerveja artesanal em versão bem-pensante de feira popular. Onde se assinala aqui o movimento emergente das novíssimas pequenas ou nem tanto editoras, nadas e criadas por estes dias de fim do mundo? Por que raio continuam a chamar espaço dos pequenos editores a uma tenda de saldos? Pormenores, de novo, ainda que simbólicos. E nem nos devíamos queixar, pois somos associado silencioso e nada participante, mas não deixamos de reflectir. Enfim, entrámos aos 10 anos de idade, no comunicado e na Feira, graças à crise que baixou a níveis razoáveis o alugar do pavilhão que forrámos com títulos desafiantes.

Diz o fraque e a cartola, façamos montra, cais de vidro, ponto de encontro, partidas e chegadas sem horários, livros-mala-de-viagem, livros-abrigo, livros-navio. Soubera eu como, filmava cada reacção: ao acontecer dos volumes por junto, tantos e tão poucos, as colecções que só se adivinhavam, a riqueza das capas, as que parecem tão antigas quanto as vanguardas, dos ziguezagues e piscadelas de olho ao leitor, sem o estupidificar, convites a entrar no jogo, com «buracos», sem capa, sem letra alguma a não ser na lombada, cores e formatos, volumes irmanados por folha, imagens de um lado e do outro poemas, os que se desdobram, recolhidos em caixa. Leitores das muitas identidades, é entrar, entrar, que temos ainda temas ocultos na voragem, o agreste e o difícil, o melancólico e o resto, imenso e movediço.

Uma década a dizer nas entrelinhas: bons títulos – assim diz o cartão instagramático. Não está acontecendo, mas esta celebração desejava-se menos prova de vida, mais atirada para o renascer do que o soprar das cinzas, mais árvore e, portanto, vergôntea. Quem sabe, se com as chuvas.

1 Set 2021

Tropeçar parado

Foto de João Francisco Vilhena

Horta Seca, sexta, 6 Agosto

 

São que nem moscas, as coincidências. De pouco serve sacudi-las (saudades dos verões em que me perdia a vê-las em nuvem no centro das assoalhadas). No exacto momento do reencontro com o Mário [Gomes], o frigorífico que me acompanha desde o século passado resolve resolver-se, como quem diz, desistir. Ora na sequência de uma das conversas com que atravessamos densas planícies e afastadas geografias, lamentando-me eu de não ter atingido a compreensão leitora com o alemão escolar, impedindo-me, portanto, de mergulhar nos seus romances e outras experiências, o Mário propôs-me primeiríssima e prometedora versão de uma «Elegia do Frigorífico». Cruzando ensaio a mostrar costuras e autobiografia a escondê-las, com mestria e ritmo alucinante, interroga-se sobre «o coração da casa», o mais importante dos electrodomésticos da vida moderna (estou confuso, com tanta treva: moderno é hoje?). Será ficção, mas o real exige-nos que os planos se cruzem. São que nem abelhas, as metáforas.

Úteis e quase sempre amistosas. Ou me engano muito ou estará bem conservada em «no frost» esta do frigorífico enquanto modernidade, extensão da habitação, a técnica que conserva a natureza, elemento unificador, termómetro de muitas saúdes. O texto pensa e transpira, o texto ri e dá prazer. O texto desmultiplica-se em micro-histórias, pequenos cubos refrescantes, sonhos. «(Sonho muitas vezes com textos, mas nunca é fácil reconstituí-los depois de acordar. Se me treinasse em sonhos lúcidos, talvez pudesse escrever livros inteiros plagiando os autores imaginários e menos imaginários que escrevem os livros que leio nos sonhos. Seria o crime perfeito.)» A língua resistirá aos ataques de links e hiperlinks? E que uso dá a arte aos móveis do gelo? De que modo vivemos o que habitamos?

«Argumentos contra o frigorífico há muitos, embora não me venha à cabeça nenhum que seja estritamente de ordem estética. Achar que o frigorífico é um objecto pouco bonito, afirmar que não há drama humano no frigorífico, ou suster que antes do frigorífico também nunca houve nenhuma grande obra de arte em que o protagonista fosse um baú ou um lavatório: nada disso são argumentos estéticos, mas apenas o reflexo de falta de sensibilidade. Objecto estético pode ser tudo. Deve ser tudo. Se não andamos sempre às voltas com as mesmas coisas.»

Dei-me por mim, uma noite destas, a lamentar não me ter despedido devidamente – o que quer que isso pudesse ter sido – do Zanussi antes da chegada deste Samsung, redondo a roçar o sensual e sem precisar de produzir massas de gelo para manter o fresco essencial.

Europa, Lisboa, terça, 17 Agosto

O projecto que me riscou o segundo fechamento, o «Diário das Nuvens» (https://abysmo.pt/diario-das-nuvens-de-joao-francisco-vilhena-e-joao-paulo-cotrim/), se por um lado me obrigou a um exercício nunca antes praticado de escrita diária, acabou sendo álibi para o crime exemplar de adiar as tarefas que, apesar do fim do mundo, floresciam assim ervas daninhas. No final daquelas voltas aos 80 dias, sobravam malas por desfazer e roupa para arejar, pdf para carregar e filmes por terminar, de modo a fazer a ligação ao que se seguiria: livro e exposição. A abertura foi depois fissura na barragem e não pararam mais de fluir afazeres em cima da apatia que se erguia montanha rochosa.

Passaram-se meses sem me atrever a voltar ao assunto, aliás, os meses passaram pelos assuntos todos expondo-os em ferida. Até que. Os braços dos moradores de quintos andares estreitaram-se ali a Campo de Ourique, sem batalha nem milagre. Resolvemos resistir à tentação de redefinir o conjunto, limpando arestas, mas com isso perdendo espontaneidade. Dobra aqui, dobra ali, logo o livro e depois a exposição – com primeira e entusiasmante paragem na Livraria de Santiago, em pleno Fólio – ganharam as formas de origami. Para não variar com o João [Francisco Vilhena], lançou-se sobre a mesa cubo de ideias capazes de quebrarem o quebranto, ainda que os planos não parem de brotar em pantagruélico excesso. São mais os olhos que a barriga.

Tomei balanço e fui, então, saltar de nenúfar em nenúfar a ver até onde me mantinha em andamento e para dedicar, já agora, leituras aos objectos capturados e ao que continham de olhar do artista, pois o propósito foi sempre o de entrar na pele e perspectiva das nuvens (estranho não se terem queixado do atrevimento em horas de «cancel culture»). O telefone vibra em descontrolo, ignoro-o com assustadora facilidade e teimo em fixar-me no retrato #70 (algures na página). Que dizer?

«Continua sem prazo de validade a ideia peregrina de que a fotografia se limita a mostrar a bruta realidade, mais real que o real. Tanto nos dá acesso ao que não descortinávamos, no caso do instante pertencer à própria substância do movimento, aquele entre-gestos de que o olho preguiçoso não carece para interpretar a coreografia. E ainda aquela fixidez marmórea permitirá doravante detectar em autópsia os detalhes que nos abrem acesso de corpo inteiro ao que acontece. Pois finge tão completamente que chega a fingir a realidade que deveras vai sendo. Estes tons outonais de souto a celebrar a luz parecem indicar aquele precioso momento do pôr-do-sol. Um dia de cada vez, outra vez. A luz que tomba esvai-se, não indo no real que se esconde no real. Não deixa de conter artimanhas de começos que sobem da raiz do negro aos azuis, os quais, por sua vez, parecem querer dobrar-se sobre andrajos amarelos que fogem, que se soltam, que se desfazem. Que esconde tal comércio das cores entre si e com a luz?

Depois os confins surgem líquidos, indefinidos, insistindo na imaterialidade do conjunto. Alguma vez a pintura se acaba? Se fosse quadro tinha fronteira. Há metafísica bastante e portanto nenhuma em sacrificar a agitação dos afazeres à réstia sublime do desperdício.”

25 Ago 2021

Abrir corações

Paredes de Coura, quarta, 10 Agosto

Calhou que a primeira saída de Lisboa – e quem diz Lisboa, diz casa – em mais de um ano tenha sido a esta terra no coração do Norte (E do palavrão: pontuar cada frase com um sonoro caralho ajuda a mudar a cor de algumas faces e o alinhamento dos pensamentos de risco ao meio.) Integrado em Ciclo de Polinização, o concerto que fechou o dia da terra esteve na boca e gesto dos «No Precipício Era o Verbo». Não sei se alguma vez se aplicará à polinização, mas estou em crer que exactamente ali, no límpido lugar inicial e a pretexto do «Realizar: Poesia», se fechou um ciclo. O que começou por ser dança entre o contrabaixo do Carlos [Barretto] e as palavras, sobretudo do Zé [Anjos], mas também do António [de Castro Caeiro] e do André [Gago], foi ganhando complexidades, convocou as interpretações do André [da Loba] e tornou-se objecto-livro com cd, que recolhe o mistério de um redondo conceito. Na viagem pusemos a rodar também o disco, que há muito não ouvia. E surpreendi-me com a maturidade sobrante, na evocação de várias infâncias e fragilidades, no prenúncio de dias difíceis, de múltiplas doenças correndo a urbe.

Apraz-me bastante este acompanhamento dos ensaios, a mecânica dos bastidores, a tentativa e erro, a fragilidade de cada recomeço, um estar por dentro, mas perto da porta, talvez à janela. Desta matéria intermitente se faz a carne do editor: está e não está. Sempre na dúvida se traz com ele algum pólen. (Algures na página, foto da Graça [Ezequiel] que acende e apaga as luzes dos poscénios).

Apesar do sólido espectáculo no coração da cidade-campo que é o coração do Norte, ficou claro que está na altura de semear e logo colher novo repertório, fazendo evoluir o conceito, integrando a imagem enquanto instrumento em diálogo, multiplicando, ainda e sempre, as possibilidades. Nestes cinco anos, foram muitos os projectos de palavra dita em palco em diálogo de muitos modos com a música e este verbo em partilha contribuiu sonoramente para abrir precipícios. Há agora que ouvir o pulsar dos caminhos de cada um dos por aqui andam nas cordas (vocais, do contrabaixo, cabos de navio, arames de funâmbulo). Paira por aqui uma alma, talvez penada, que seria pena deixar desvanecer, tal a neblina das madrugadas semeadoras.

Este caloroso lugar rima bem com ideias tocadas assim, pela naturalidade com que cruza cultura com território, o relâmpago com o quotidiano. Não outro lugar onde as culturas várias se polinizem deste modo inspirado. Há sempre novo projecto a fervilhar e oiço agora o da «Orelha», centro que partirá do som para criar educação. Tenho para mim que o Vítor [Paulo Pereira] cultivou a presidência da Câmara como se um carvalho na serra se tratasse. Passam estações e fogos, secas e tempestades, e continua emitindo aqueles magníficos tons vermelho vivo da sua folhagem, mudando ao sabor e saber do dia. E a erguer-se na paisagem, acolhendo quem perto habita. Ou os bichos que passam.

Horta Seca, Lisboa, sexta, 13 Agosto

Cheguei a gostar das sextas-treze, por trazerem à nascença arrepio de uma qualquer possibilidade, um desarrumo no tráfego da rotina. Volto a não gostar desta sexta-treze por vir prenha da morte do Gaspar. Na mania das arrumações perguntamos a raça do animal crendo que tal basta para encerrar a diferença, ficando a saber o que esperar. Um perdigueiro gosta de correr, faz-se família e cheira no ar promessas e vítimas. Dura pouco mais que uma década.

Nada mais falso, a cada bicho a sua personalidade, a cada mão no lombo um distinto comportamento. O Gaspar gastou várias vidas, uma de cada vez que mudou de casa, outras esquecidas nas planícies corridas em mar e terra.

Foi um companheiro que deu assistência cuidada às jam sessions, aos improvisos, às discussões, poemas de imprevisto e aos preparados, que celebrou golos e roubou petiscos, sabia pousar o focinho no joelho e o olhar nos olhos, ladrou aos astros e lambeu os tristes, aconchegou autores adormecidos e calcorreou as noites e as festas.

Alegria da bruta, reservava-ma só para quando nos encontrávamos em contexto doméstico. Na rua, havia mais que fazer, bastava educada mas rasgada saudação com o chicote da cauda. Depois, respeitava melhor quem dele cuidava. Para variar, comigo partilhou as cervejas e as liberdades. Quando os exageros se alinhavam andávamos com menos patas no chão. Fizemos uma praia inteira a grande velocidade em noite memorável quando o mar ardeu em ardências. Perdemo-nos no obscuro. Não era cão, era o Gaspar. Saravá, Gaspar!

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 15 Agosto

Semeando metáforas à toa, enquanto vou rasgando pele nas silvas o que colho por ora são amoras, páro gastando a vista na leitura da mais enigmática das imagens: recebo em bêbada alegria ecografias, dadas como cartas de jogar, ases de copas pulsando no escuro os nomes, tanta menina e um puto que vem anunciando já coração. Coincidem nas horas, mas contêm tempos diferentes, e nem por instantes apagam a bossa nova que anunciam. Vai de arrastar pé e lançar braços ao céu. Brilham as grávidas de tal modo que os semáforos hesitam na função, Vénus despiu as lantejoulas, só a sábia Lua insiste em ser espelho das muitas fases que se anunciam. Arrastem-se os pés, afinem-se os instrumentos, encham-se os copos. Que sejam curtas as horas, tratem agora de dar a volta para assumir posição.

Mil olhos postos e entretidos nos entretons das massas pulsantes de branco e negro, um nó de horizontes a definir as formas deste alguém. Estamos de esperanças, enfim um contra-ciclo de polinização.

18 Ago 2021

Passado a ferro

Algures entre o Carmo e a Trindade, Lisboa, segunda, 2 Agosto

Entra o homem com uma aranha na cabeça no transporte e o sinal civilizado do desejo de um dia bom desdobra-se em conversa acerca da meditação, da tristeza intrínseca do português passado a ferro, isto é, passada a fado, ida à desobediência civil a partir de Thoreau em diálogo com La Boétie, antes de aterrarmos na conversão e no destino final. A conversa vai ecoar, quase o diz, fechando a porta com mais aranhas na cabeça. Sente-se Forte. «Sai de novo para o mundo./ Fechada à chave a humanidade janta./ Livre, vagabundo/ dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.»

Horta Seca, Lisboa, sexta, 6 Agosto

O veneno da indecisão não resulta de cálculo algum das probabilidades, de sombra de avaliação com conta, peso e medida. Nem mesmo uma espera, esperançosa ou derrotista, tanto faz, de que um acontecimento se apresente, chegue e empurre, expluda e resolva. Pura e simples paralisia, disso falo: o viandante perdido em pleno cruzamento sem que a razão encontre migalhas, pistas, evidências – assim se diz agora a torto e a direito – que sustentem a escolha de rumo. Nevoeiro, portanto, e não noite, que mesmo no breu mais cerrado se distinguem formas.

Em setembro próximo, cumprir-se-á uma década sobre o momento chão em se imprimiu por primeira vez a palavra abysmo na qualidade de marca e nome. Não era ainda editora, antes brincadeira. (Uma vida inteira a brincar com coisas sérias e depois ainda te admiras, digo eu de mim para mim.) Demorou mais do que um ano para o projecto se impor com a lâmina da pergunta: e por que não? Confesso que por estes dias o fio da navalha diz: para quê?

Chegámos a pensar em escrever isso mesmo para dar cobertura ao esforço que significará abrir um pavilhão na Feira do Livro de Lisboa. Preferimos aniversários que abram para o futuro, ainda que lhe oferecendo as costas, como mandam os antigos, por estarem os olhos no percurso feito. A dúvida venenosa cresce, agravada pelo facto de não ser tempo de festa. Como assinalar a data sem nos deixarmos tragar pelo comemorativismo, invariavelmente rotineiro e bacoco?

Ainda esteve em cima da mesa com o Jorge [Silva], uma frase de cada livro em cadáver esquisito, entre o divertido e o simbólico. Afinal, os muros daquela assoalhada no Parque dirão com singeleza e grito tão só alguns dos títulos que foram sendo experimentados neste longo período, muito longe da totalidade, nem mesmo com o esforço da abrangência. Terão que me perdoar os autores, por instantes e ali sem-título, mas o critério foi quase só a sonoridade, o despertar de um espanto, a estranheza. Há dez anos que andamos a dizer, a fazer nas entrelinhas, sem sair da encruzilhada, em carrossel. Mas cada nome possui voz e luz, que por aí circulam, dando sinal de vida discreta, mas pulsante. Mesmo os esgotados não se esgotaram. Resultam de inquietações, experiências, ânsias, gozos. Nenhum se renega, cada qual mantendo a força de um sentido, ainda que esquecido, sumido ou extraviado.

Cada um erguido pelo somatório dos esforços, misto de laboratório e sapataria.
Adiante veremos se o nevoeiro dispersa para mais passos e outra conversa.

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 7 Agosto

Espero que as ilustrações do Tiago [Albuquerque], paginadas com sentido do drama e a rasgar a dupla página, salvem este nosso «Jean Moulin: a sombra não apaga a cor», com o qual a Associação para a Promoção Cultural da Criança, do Paulo [Caramujo], se associa à Quinzena Jean Moulin. (Curioso que estes dias tenho sido pontuados pela vida de alguém que não esperou acontecer, que disse não! ao quietismo entrevado…) Tinha tido experiência anterior com constrangimentos prévios ao como contar vida concreta para crianças (abstractas), mas esta foi bastante mais desafiante uma vez que nela moravam como personagens a violência, o medo, em carne viva. A guerra tem, só para quem a não viveu, desconfio, um lado aventuroso e fascinante, que foi para sucessivas gerações alimento de imaginário voando abaixo do radar das culturas instaladas. Mas o quotidiano de um cenário de conflito armado, mais ainda no contexto de então, não se pode ficar pela epiderme de um jogo. Queria contar do que significa um herói, longe de ser super, alguém capaz de ler as circunstâncias e perante elas se afirmar como humano.

Contra o mal absoluto. Apesar do seu próprio medo. E acrescentar a ideia de que uma comunidade ferida pode encontrar consolo, reconhecer-se em um rosto (concreto), parafraseando Malraux, no memorável discurso aquando da «canonização» no Panteão. Muito ficou por contar daqueles efeitos que a Segunda Guerra Mundial infligiu a França, tão profundamente que está ainda longe de ter exorcizado os fantasmas postos então à solta. Mais fácil foi incluir a passagem por Lisboa do mais jovem prefeito ou pormenores saborosos tais a sua paixão pelo desenho e o facto de nunca ter usado uma arma. Acabei fugindo pela metáfora, um verdadeiro porto de abrigo, onde ganhar forças antes de regressar à tempestade. A metáfora é o bom meio de transporte para escapar aos becos sem saída.

O Tiago optou por realismo surpreendente, mais ainda no panorama actual da literatura para a infância e juventude, com um uso cirúrgico das cores, sem se preocupar em seguir de perto o fluir do texto e, sobretudo, sem traduzir para imagens desenhadas – estou certo que seriam mais belas – as visões espalhadas pelo texto. (Algures na página está uma das raras excepções, mas o resultado não podia ser mais poético: alguém que se desmultiplica na sombra). Cada plano oferece o impacto de um cartaz, sem com isso esquecer o chamamento da curiosidade.

A infantilização tombou sobre os nossos dias, donde não se estranha que tenha chegado a esta vigiadíssima «literatura» para as crianças e os jovens. (Aliás, nunca os nossos dias foram tão vigiados e aqui se apresenta bom tema de livro para putos). Não sei se não deveríamos imprimir faixa avisando: «Cuidado! Livro difícil.» «Tant pis!».

Talvez a dificuldade possa ser sexy, agora que tal sabor de boca é exigido a tudo. Contas feitas, estou sem saber se teremos conseguido atrair os leitores, que terão de ser competentes; atraí-los para a figura de Moulin e para o resto. Em caso de dúvida, há muito nas redes onde procurar lanternas.

11 Ago 2021

Colher e ser colhido

Horta Seca, Lisboa, sexta, 16 Julho

 

Que esconde uma montra? Percorro a página de abertura do sítio (www.abysmo.pt) e vejo como vem sendo parca a colheita, que nunca foi dada a abundâncias. Logo os restos de sangue camponês encontram razão nas vicissitudes do tempo, cargas de água e sol abrasador ou aquele nevoeiro que se abateu sobre o mundo e as vontades. O bom agricultor sabe ler a meteorologia, até a atmosfera da desgraça, pelo que não será apenas por isso. Onde se conservam as sementes adiadas, em que compostagem os apodrecidos? E as sombras, que celeiro bojudo as mantém na boa temperatura? Tanto por enfrentar e as ferramentas ferrugentas, rombas, quebradas…

O conforto de uma côdea surge de volumes como este «Eva – Ilustradoras Portuguesas do Século XX», aliás no seguimento do «Tom», com grafismo que se vai tornando assinatura (algures na página uma capa) e que celebra a letra em entrada para exposições portáteis que andam por aí nas mãos e olhos de quem as agarrar. O Jorge [Silva] continua, aqui e ali a convite de instituições, a fazer do seu hobby uma vocação, de um interesse pessoal autêntico serviço público. Ao contrário de tantos respigadores, ele pensa o que vai recolhendo quando o oferece em livro. (Em mercado drogado em novidades, desaconselham-se indícios que datem a obra. Caiu em desuso a classificação de catálogo, para que o livro não fique preso a uma circunstância.) Neste caso, que esteve patente na Casa da Cerca, em Almada, o ar dos tempos soprou-lhe por tema o feminino. São nove os nomes primeiros (Alice, Mily, Raquel, Guida, Laura, Ofélia, Sarah, Maria e Fernanda), quase todos bastante conhecidos, mas manda o habitual que se conheça mais o nome (vagamente) que a obra (minimamente). Esta sistemática recolha do esquecimento traz consigo invariável motivo de espanto. Para além dos costumes citadinos, os da alta burguesia e os da mítica ruralidade, de uma infância não menos mítica, encontramos representações da mulher que escapam ao lugar-comum e intenso trabalho plástico. Um bálsamo, as expressivas interpretações de Maria Keil para «Folhas Caídas», do Garrett.

Estonteantes, as composições e as poses e os rostos de Guida Ottolini para a capas da revista «Eva». Melancólicas, as formas de Mily Possoz, que vão do minimal ao colorido solar, passando pelo quase cubismo em ponta seca. Postas as lentes de aumentar da actualidade, o Jorge não hesita em sublinhar na contra-capa: «apesar das contingências da sua educação escolar e familiar, e do expectável papel que a sociedade patriarcal lhes reservava, muitas mulheres conseguiram afirmar um percurso ou uma carreira como ilustradoras editoriais, realizar uma obra inspiradora e inspirada nas vanguardas dos movimentos estéticos e pugnar por um papel igualitário na sociedade do seu tempo.»

Tendo a achar, a partir de testemunhos, que muitas vezes se tratou apenas de viver as possibilidades ao máximo. Com o que tal significa sempre ignorar com sobranceria o impossível anunciado, imposto, palpável. Surge até como metáfora esta brincadeira à la Silva com o código de barras. A imposição logística de um pequeno indicador de (quase) identidade, sobretudo, preço e arrumação, transforma-se em pretexto para modular formas. Ao limite.

São Cristovão, Lisboa, terça, 27 Julho

Tem andado um rio entre nós, pelo que há muito me não encontrava com o Paulo [José Miranda], para acerto de agulhas e apanha da notícia madura. Acompanho nestas páginas e às terças o seu excêntrico contributo para a letradura, não apenas com títulos – entre o doce e o estridente –, mas também com – e tal não será para todos – autores que suscitam a busca dos sequiosos leitores. Vale volume, pelo que comecem os trabalhos de apuro e enxertia! Em 2022, arredondam-se datas e soam já projectos pelo que temos de pensar em arredores para o centro que será, para nós e todo sempre, o livro. E a poesia. Passámos pelo futebol e, pour cause, um verde branco, antes de nos atirarmos ao tinto e às mudanças, que serão apenas de geografia. Apenas? Sim, quando os passos são no caminho da conversão, ao encontro de si mesmo, o exacto lugar não interessa por aí além. Mal lhe falei de novidades traduzidas, tomei nota da sua surpresa por publicarmos traduções. Se nem os casa conhecem os cantos às lombadas… Quedámo-nos em princípio muito inicial e prometedor de romance. O Paulo gosta de ler excertos em voz alta e eu de o ouvir. Não que me concentre, antes me faz andar por lugares. Lá foi o olhar subindo e descendo a estreita e geométrica escadaria que se estende entre azuis à nossa frente, Tejo em cima e céu em baixo.

Calcutá, Lisboa, terça, 28 Julho

Estão elencadas, e não apenas pelos profissionais do contratudismo, as fraquezas dos festivais literários: a vacuidade das ideias distribuídas, a claustrofobia dos temas e editoras dominantes, o espectáculo das vaidades, a promoção da leitura reduzida ao culto do autor, a dislexia entre performance pública e qualidade de escrita, a insistência em um só modelo de conversa pequena perante plateias enormes, etecetera. Ah, e o excesso de festa! Cultura não condiz com alegria, coisa de entretenimento. (O que para aí vai, aliás, de confusão entre uma e outro.) Por princípio, não nos negamos aos ditos. Para o melhor e o pior, são encontros. Quando solicitados, participamos muito para além das nossas possibilidades (e da nossa capela). Nem sempre com bons resultados, nem sempre recebendo o devido tratamento.

Anuncia-se o regresso do Folio, sendo caso particular. Antes mesmo dos dias concretos e definidos de Óbidos, tratamos de pôr mesas de tal modo cubistas que não sei como os copos e os pratos e as vozes e o resto de estar à mesa se aguentam. Com a Raquel [Santos] e o José [Pinho], além de ocasionais convidados, pintamos assim festival dadaísta e muito particular de leituras ao ouvido e absurdas encenações imersivas, projecções holográficas de autores queridos e outros, jogos de sociedade a partir das sinopses, combate entre badanas, intervenções relâmpago de poetas patafísicos, disparates épicos de par com ambiciosos centros de experimentação, enfim, ideias, planos, propostas, esboços e delírios. Não podia ser de outro modo, da gigantesca lista riscada nas toalhas de papel apenas se cumprirá à risca uma sensata e mínima parte, mas a discussão, o gargalhado, a criação bruta, o dito e o pensado, faz com que se cumpra logo ali algo de essencial. Para mim, o resto será sobremesa.

28 Jul 2021

O eu algures entre palco e plateia

Palácio Nacional, Queluz, sexta, 2 Julho

 

Caro Raphael,

Sinto-me (incluir imagem de gordo barbudo corado, se a soubesse desenhar a teu modo) por há tanto não te mandar umas linhas. O último ano deixou-me entalado entre estranhos afazeres: fazer o que me mandavam, pensar em fazer, fazer o possível, desfazer o previsto, ansiar por fazer das minhas, fazer por onde com aquele gosto de riscar horizonte, fazer que fazia ou esse tão querido fazer nada (pôr depois desenhos de anafado ora prostrado ora saltitante). Nem tenho para te oferecer a troco deste meu silêncio a descrição detalhada ao mínimo sabor daquelas jantas a que nos sentamos séculos a fio.

Vê tu que o Massimo [Mazzeo], sim, uma das almas daquele «Divino Sospiro», me desafiou para apresentar à sociedade a sua mais recente beldade, o volume 4 dos Cadernos de Queluz (ed. Hollitzer e Parques de Sintra), tendo por título «“Padron mio colendíssimo…” Letters about music and stage in the 18th Century», umas 808 páginas editadas com barroquíssimo gosto e rigor pela Iskrena Yordanova e a Cristina Fernandes. Fiquei como imaginas (colocar grande plano do gordo enrascado), antes de me atirar a este planalto de cheiros a travejamentos e panos, mas também de rumores da pena no papel colhendo ecos das mais dispersas visões. Vi-me, como tu, encolhido a uma bela plateia abraçando palco. Mas seria capaz de me manter aceso na atenção ao mundo ampliado pelo espectáculo (assim tu no desenho que se oferece aos leitores)? E discernível, apesar de camuflado? Como percebeste, pela correspondência se acede, então, aos modos de fazer, aos instrumentos como ao texto, do apelo ao mecenas à notícia de concerto privado, enfim, de pormenores na concreta dramaturgia à política do teatro (há outra?) na tua Europa. (José Camões, exemplo entre tantos possível, conta-nos de precioso espectáculo de marionetas revelado pelo poeta escocês William Julius Mickle no qual se ouviria: «Acomode-se, não tenha medo, que o diabo não é tão feito como o pintam.») Bastidores, portanto. Eis motivo primeiro de encantamento, o martelo e o formão do carpinteiro transfigurados em cartas, esse híbrido de diário e reportagem e registo de viagem e ensaio. Literatura, nalguns casos. E relembrei as nuvens aparecidas há pouco vindas de uma encenação de «Dardanus», do Jean-Philippe Rameau. Cada missiva lida e sublinhada, com jeito de ourives em certos casos, evola-se que nem nuvem atravessando os séculos para testemunhar, a folha de papel tornada de Flandres para melhor espelhar e durar. O indivíduo a encenar, claro, um olhar que agora se revela precioso (a palavra tesouro surge nas várias línguas em que o volume fala em revigorante convívio). E depois há o segredo. O confessional, encenado, pois claro, diz para além do que se viu, do que se vê. Nalguma investigação arde ainda uma brasa que, se soprada, reacende. Este mecanismo produz nuvens.

Percebes, portanto, caro mio, porque precisava te contar, tu que desenhaste sigilos à vista de todos, que consegues confrontar o tédio da família real com os nervos do ponto, deixando que o olhar percorra a sala até te encontrar. Reverberante.

Os afazeres haviam regressado pé-ante-pé e contra soberanas vontades, mas que melhor pretexto para me perder nestas paisagens? Dou por mim (botar versão abstracta do gordo barbudo) a pensar no peso do modo como se faz o que fazemos. Haveria diferença se estes textos, reflexões, retratos fossem publicados em volume frezado na vez de cosido, a preto e branco espelhado pela impressão digital na vez deste offset bicolor, em papel esbranquiçado de tão banal na vez desta quase transparência em creme? O que diz a capa dura e respectivas guardas, os fitilhos de assinalar intensidades? E as notas de rodapé e a cuidada revisão? Esta carpintaria que sustenta o livro enquanto palco implica na marcha do mundo. Quero acreditar que sim, que grãos assim na engrenagem multiplicam, pelo menos, a resistência. E depois há o puro prazer, a celebração da inutilidade, a luxúria. «Sospiro».

Vamos lá marcar a ida ao Tavares, que chegaram aguardentes do Oeste, ou, melhor, makavenka aí encontro onde bem sabes (colocar emoticon, mas desenhado como fez há séculos o Raphael Bordallo Pinheiro).

Escola de escritas, Algures, sábado, 17 Julho

Na véspera insistia em saboroso almoço, no qual se tratou de cansaços interiores e despolíticas externas, além de dedos e anéis, que as comunidades de leitura me parecem cruciais na promoção de leitura, algures entre a suave entrada e o elegante digestivo. Também por implicarem os leitores nas suas leituras. Quantos livros esconde um livro? Este Clama (Clube de Leitura Abençoados Malditos) dificilmente podia ter começado melhor com «Os Meus Oscar Wilde», de André Gide (ed. Sistema Solar), mas que, no fundo, pertence ao tradutor, Aníbal Fernandes. Os dois In Memoriam são enquadrados por pré, inter e pós-fácios, os quais, naquilo que convocam, são moldura pintada a participar na composição e expressividade da grande imagem. A vida, saravah, é a arte do encontro. E talvez a arte não seja menos a vida dos encontros. Estamos perante um triângulo de bons e produtivos malditos, ficando por ora, Pierre Louÿs na plateia assombrada pela encenação brutal de Wilde e Gide. A morte de um suscita no outro o registo definitivo do momento em que a alegria lhe foi revelada, em que começou a viver. Quando o coração antes apenas tomado pelo desejo abria para a luz de outros afectos. Sexo e amor eram dicotomias afastadas, e foi pela escrita que Gide tentou coser tal ferida. Assim como a usou para perseguir a alegria (nota para o futuro: voltar às páginas que busca esse pólo). No segundo e mais breve texto, o amargor insinua-se e a avaliação enegrece, mergulha em cinzas. A realidade cobrou com sangue ao devir em cena de Wilde. Entre um e outro texto, há excertos do processo em tribunal, dolorosa e bem-humorada peça de teatro onde a lei procura no miolo das palavras os sempiternos medos: o sexo desregrado, a corrupção da juventude, a ociosidade, o prazer, a alegria, enfim, o desafio ao deus posto em religião. O livrinho acaba sendo, ele mesmo, introdução a lugares e caminhos dos ditos malditos: a escrita tornada bússola do eu, aquele pensar com o corpo e a partir dele, o esforço para tornar indistinta vida e arte, cabal maneira de viver uma e outra. Vede com Louÿs, também em prefácio a «Afrodite» (ed. Círculo de Leitores), como fazê-lo: «É que a sensualidade é a condição misteriosa, mas necessária e criadora, do desenvolvimento intelectual. Aqueles que nunca sentiram até ao limite, para as amar ou para as maldizer, as exigências da carne, são por isso mesmo incapazes de compreender toda a extensão das exigências do espírito. Assim como a beleza da alma ilumina o rosto, também a virilidade do corpo fecunda o cérebro.”

21 Jul 2021

E esse lado do fim do mundo?

Santa Bárbara, Lisboa, Domingo longo começado no Sábado, 12 e 13 Junho

Na economia do tempo do micro-editor nunca sobra em quantidade para este lavrar das terras férteis. Estou em crer que o Mário [Gomes] se vai tornando na mais saborosa das fraudes literárias. Por exemplo, o Arno Schmidt nas suas mãos parece ter sido escrito em português, tal a limpidez de cascalho no fundo do riacho que por aqui se ouve. Será Arno extensão de Gomes? Anuncia-se, portanto, «A República dos Doutos – Romance-breve das Latitudes dos Cavalos», delirante “reportagem” ao lugar maravilhoso onde as artes e as culturas viveriam sem preocupações outras que a criação, ilha em movimento dividida por um muro, habitada por seres fabulosos e outros mais reconhecíveis.

Estende-se narrativa (para conforto dos carentes da anedota e outros preguiçosos) e explodirá moral (de agradar às tribos sanguinolentas dos malditos e outros mortos-vivos), mas o essencial está no labor da linguagem, com multiplicação ao infinito de planos, a lúdica recomposição das pontuações e outros sinais, e, sobretudo, o fraseado em pizzicato sobre escórias, imagens potentes, lâminas saltitantes, espinhos de rasgar peles. E por nisso falar, surpreendente erotismo para tão apocalíptico cenário. Certas obras inventam o presente. Se «Leviatã|Espelhos negros» podia ser sido livro de cabeceira durante a pandemia, estas «Latitudes dos Cavalos» continuam a ser ferramenta de ver ao longe, o que nos acontece ao perto. Ao calhas:

«Oh, ainda tem 1 hora ou 2 horas : afinal o fim do mundo é bem perto.» : «Pois, para pessoas como você !» (Pelos vistos ele gostou da resposta; passou a mão pelo bloco de barba maciço e deu um salto em frente, orgulhoso).
Nomes como terramotos ! : um sítio por onde passámos chamava-se ‹Tatara-káll› (e os cascos retumbavam ocos, como que a condizer !). –

Na – enfim, poderemos falar duma ‹aldeia› ? : as poucas cabanas de ramos esgalhados (alguns deles desfolhados até pelos mais famintos ou preguiçosos !). / Todos haviam retomado os seus afazeres, em plena paz : centauros barbudos com gadanhas ceifavam os lameiros. (Um deles, todo silhueta, levantou a garrafa, bebendo; (e eu achei por bem beliscar a minha perna : será que tinha adormecido a ler um livro de mitologia grega, Preller=Robert ?)).

Não ! Nunca na vida ! : uma centaura de óculos era certamente uma novidade (e além disso, mais velha : um balde de ferro com água estirava-lhe o braço : as mais velhas seguravam os seios maiores com ambas as mãos ao galopar. – ’ma fábrica de soutiens. Podia ser um negócio bombástico !).

E todos os nomes, como trovoadas, como lados entrelaçados, como aragem de fogo; como nudez da terra, cadinhos esquentados, ouro picado.»

Santa Bárbara, Lisboa, Domingo, 20 Junho

Chegou o carteiro. Podia ter sido, mas não e ainda bem. Imagino em quantas dobras tornaria o estreito fanzine em origami para habitar a caixa de correio… «Cartas ao mundo tal qual o conhecemos» (ed. cod, inc) nasce do primeiro fechamento e bela ideia: o narrador está separado do mundo e escreve-lhe, aproveitando o ensejo para pontosituar esse velho relacionamento. O Carlos [Morais José] escreve e assim pensa. «Estás a acabar como sempre estiveste, meu mundo. Todos albergam o desejo secreto de assistir à tua morte, ao teu fim, à extinção de tudo. Os profetas insistiram com veemência particular na vinda recente de um apocalipse. Mas tu, meu mundo, não acabaste: mais depressa eles acabaram para ti. Meio céu e meio terra, aqui estás, aqui estarás, incriado, sempre tu, pois nunca soubeste o que seria ser outro». A Ana desenha seguindo nervosamente a própria mão na combinação dos corpos (algures na página). Quando o ouriço se fecha, pequena esfera de espinhos, o mundo cessa de existir? Está posta a cama de faquir sobre a qual a reflexão poética encontra conforto para levitar. A doença faz-se solidão, e talvez o seu inverso. Certa melancolia habita estas linhas, talvez farpas: pode o indivíduo ser em pleno no eu sem as amarras e as vagas doidas que habitam o seu entorno, esse que nos cerca, que ora nos esmaga ora nos amplia? Afinal, terá o mundo fechado assim tanto? E para balanço? Não são dadas respostas, mas enumeradas dificuldades, entrechocando-se em dança tal os corpos da Ana. Este detalhar do convívio amoroso com o universo deixa-nos à beira do abysmo de mística profana. Em verdade vos digo, não há outro modo de andar que não sobre tal fio de navalha. Recordo sempre com o título errado de ponto final, quando o poema de Reinaldo Ferreira se chama com exactidão apenas «Ponto»: «Mínimo sou,/ Mas quando ao Nada empresto/ A minha elementar realidade,/ O Nada é só o resto.»

Basílica da Estrela, Lisboa, Quinta, 29 Junho

Vejo agora com o corpo todo que talvez seja desta matéria a despedida, momentos em que não distinguimos o que sobra de noite ou começa de luz, frescura nas mãos antes de cuspidas, os pulmões a encher com o céu do olhar, seis da manhã, talvez antes, contavas-me como no orvalho se colhem as derradeiras lágrimas de felicidade, sete da tarde final, devia ter levado enxada para marulhar as terras ajardinadas do claustro, círculo de tantos silêncios, era de ficar encostado ao cabo esperando pelo teus silêncios encavados, que os cultivavas com gosto, Manuel Luís [Bragança], vinhas tu de um pai e eu ao encontro do escritor, dos que lavram a eito, e encontrámo-nos de esternos no ar em entrechoque, cavername de cada navio seu, mas irmanados nos rumos diversos, logo naufragados à mesa da minha impotência, tonto, que não consegui nada, quando muito celebração, e agora que recomeçávamos vem a puta da velha e retira-te do jogo. Admiro o modo como indicavas a floresta doida de praças e ruas e varandas e janelas que foi sendo o teu pairrequieto, em absoluta liberdade desenvolvendo amores com sabor e perfume de limão ou assim, bandeiras doidas a estrelar na língua e mais além. Asneiras: disse todas em voz alta mal recebi a notícia, não as redigo como sabes que gosto. Não há alívio que valha. Eras para além da linhagem de onde vinhas, mas nela celebravas uma sementeira de desatinos e interpelações. Cuspo nas mãos, cuspo no céu. Hei-de aprender a dizer foda-se como quem reza. Toquei a madeira do teu féretro feito de veios, talvez raízes, e vociferei que do teu fogo se ergam árvores, mergulhem pássaros, voem copas e se enterrem asas. Sacudo a enxada batendo no chão, soltando terra até casa, marcando com som baço a linha directa ao coração. Volto a bater com a asneira no chão: caralho. Falta-me o ar.

7 Jul 2021

Situacionismo

Horta Seca, Lisboa, quinta, 21 Maio

Computador grávido de décadas resolve despedir-se, sem estrondo, mas com malefício. Afirmamos na conversa mole a dependência, mas não sabemos o modo como estes seres nos prolongam em prótese essencial para qualquer passo até falharem. Há vida além do ecrã, mas não sei já onde. Algures havia backups a velar pelo passado, aquele a que não voltaremos e o outro que nos falta como oxigénio embora respiremos, pelo que a desgraça talvez não seja tão grande agora surge. Algo se perderá, que não há outro modo do dia nascer. Só que o acontecido não se limita a mera alteração na rotina, funciona mesmo como reboot: as máquinas velhas têm manhas a que nos afeiçoámos ou pelo menos domesticámos, os programas em versões vetustas obedecem-nos, sabemos onde está cada botão, cada password, cada rotina. E a culpa assenta no nosso comportamento, que temos demasiado peso no correio, muitas mensagens abertas, muitos programas a funcionar em simultâneo, mais isto e menos aquilo, descuido e desrespeito. De súbito, vemo-nos obrigados a repensar mais esta relação, a começar de novo e o word não se diz da mesma maneira, é preciso recomprar o pacote dos básicos, aceder a dezenas de plataformas, redefinir milhares de palavras-passe, aceitar contratos em que cederemos até o futuro e um rim. Estou a ver a velha Olivetti armada em decorativo objecto sob a camada de pó e suspiro.

Rua da Rosa, Lisboa, sexta, 28 Maio

Qualquer cidade tem os seus segredos. Lisboa não sendo como as outras, tem mais e distintos, diz Pessoa em perpétuo desassossego e digo eu que nunca daqui saí. O [José] Pinho tem um radar que descobre lugares, na aparência vagos, mas que acabam cruzamentos concretos de gente e ideias e livros, pontos de encontro e interrogação e exclamação. Descobriu agora prédio assente em memórias e luz e resolveu correr a habitá-lo de possibilidades. Andou a mostrá-lo como quem conta uma história. Pode até nada mais acontecer, mas participar nesta peça de teatro imersivo valeu o dia (de aziaga memória).

Horta Seca, Lisboa, sexta, 11 Junho

Há uns meses foi o telemóvel que resolveu armar-se em situacionista e mandar nas minhas conversas, desatando a fazer chamadas em direcções indesejadas. Deu conversas longas e divertidas e uma delas foi com o António Torrado, que agora parte para parte incerta. A costumeira ignorância arrumou-o na gaveta de escritor para putos, coisa das mais menores, algures entre o conto e a poesia, uma necessidade por causa da didáctica e para entreter e por isso agora em atenta vigilância. Também teve pé em palco, mas isso pouco muda. Ora o António, que foi editor, era escritor a merecer outras sortes, as da leitura, nos mínimos. Se nele entrarmos pelo lado do absurdo logo a viagem se faz compensadora. Mas não, dá menos trabalho e alinhar na celebração pacóvia do que nos chega mastigado do que procurar raízes na terra comum. Uns dias antes, também nos havia deixado a Leonor Riscado, que gastou a vida precisamente na valorização desta disciplina luminosa e obscura. Não consigo deixar de procurar na minha cabeça em incessante crash uma palavra, uma única trocada com cada um e que gostasse que fosse, para sempre, a sua e de mais ninguém. Há palavras que procuram as pessoas certas onde morar.

Livraria Verney, Oeiras, Sábado, 19 Junho

Tem acontecido neste espaço, sob a minha desatenção, uma curiosa troca de olhares. Tendo em depósito a obra de Neves e Sousa, primeiro o Nuno [Saraiva], e neste momento a Catarina Sobral trataram de a ilustrar, ilustrar o desenho, outro modo de o comentar, de o ler, de o tornar seu. A tinta-da-china ganhou cores e o registo rápido de viajante atento ganhou sequência quase narrativa: se um grupo se junta em torno do fotógrafo em Neves e Sousa, a Catarina faz-nos a ver a fotografia possível. O que era transparência nos traços de um passou a expressividade no desenho de outra. Os corpos que se queriam reais passaram a ser formas de um vocabulário pessoal. E o essencial dá-se nesta maravilhosa deslocação dos corpos nas paisagens. E se no preto e branco só a podemos adivinhar, nas massas de cor apresenta-se em todo o seu esplendor, sua excelência, a luxúria. Fico preso a um mangal (na página), veios e folhagens sopradas pelo vento, lugar de híbridos e cruzamentos de estados, onde a terra se faz líquida e o vegetal toca as nuvens. Oculto nas folhagens está o observador indistinto do horizonte, animal que respira e vê.

Livraria Verney, Oeiras, Sábado, 19 Junho

Ainda nos reunimos sob o signo do medo. Coreografamos os primeiros momentos com a dança da hesitação, não sei se mão se cotovelo, se abraço ou aceno. Afasto por instantes a máscara para que me reconheçam ou continuo oculto e falante? Perceberão que estou sério ou sorridente? Se as comissuras falassem… O Luís [Cardoso] invoca os bons espíritos e com eles se dará a sessão de lançamento d’ «O plantador de abóboras», por acaso já bastante lido e comentado. Ana Paula Tavares faz justíssimo enquadramento, a corada Ana [Jacinto Nunes] não se cansa de elogiar as mulheres, personagens da verdade, e a Natália Luiza trará em voz alta a toada desta «sonata para uma neblina».

E o Luís fala como se cantasse e cantou de igual modo, a embrulhar a complexidade de cada gesto no pano da simplicidade. Um pouco como tem dito a cada entrevista: esta história foi-lhe entregue em herança por mulher perdida nas memórias esfumadas de Timor, mas o romance vai muito além dessas montanhas; que queria compor um longo poema de amor, que bem se espraia naquelas páginas, mas não se resume a isso, não sendo pouco. A ternura com que talha as personagens, gente e planta, animal e paisagem; o modo de contar como quem toca, não esconde assuntos como as malhas do Império, a identificação de um país ou essa inescapável desilusão. (Aqui para nós, que nos ninguém nos lê, emociona-me que inclua Sancho Pança nessa galeria de figuras, pois encontro nela muito do que pode ser um editor). Confirmo, a partir de pistas que já vinha recolhendo, em sala que não pode estar mais cheia por causa do vírus do tempo, que o Luís soube construir uma comunidade de leitores, feita sobretudo de mulheres. Sinto-me privilegiado por dela fazer parte.

23 Jun 2021

É assim!

Camões, Lisboa, quinta, 27 Maio

Se perto, com visão por sobre os louros de um poeta e a inclinação de outro, descontando os que passam que há sempre passeantes de verso portátil, inaugura exposição, no caso colectiva, anunciando-se «Diários», é de ir. Aconteceu-me a surpresa de ver as fotos e os desenhos de Carlota Mantero, João Rebolo, Margarida Cunha Belém, Pedro Noronha e Rita Draper Frazão assentes na profunda leveza das palavras da Rita [Taborda Duarte]. Aliás, a relação com a palavra e até com a letra resulta comum, tornando-a matéria de composição. «Toda a escrita, toda a arte, é metamorfose. E cada palavra escrita, impressa, pintada, grafada no papel, assim na página como na tela, é antes de tudo imagem pura. Traz consigo m significado primeiro, inaugural, emprestado pelos sentidos, antes ainda de sabermos o seu sentido.» Que diálogo se poderia inscrever aqui, a imagem no lugar do primeiro toque de realidade no corpo talvez mente! E a palavra na busca de uma fixação que interprete, que arrume, que explique. Esta colectiva no Espaço Camões, de velha editora, agora Sá da Costa Arte, está feita de instantes. A Rita propõe poema para legenda de outra Rita, que busca identidade no modo como as extremidades, as mãos e os pés, afinal o olhar, tocam as coisas. E os dias. «É pelo olhar perdido na solidão do mundo/ perdidão profunda/ que limitamos os corpos à retina que o circunda// Mas é a mão a intensa mão criadora imaginante/ que te devolve hesitante a mim». O outro e o seu olhar hão-de ser sempre espanto?

Na Rua da Emenda, inaugura a This is not a white cube, que põe na sua primeira montra transparente o santomense, René Tavares, e promete mais África nas redondezas. Muitas camadas por aqui se encontram, mas tenho que voltar com outros olhos. O dia estava gasto e o convívio social ainda me é custoso. Temo que vai sendo cada vez mais, que não se limite a este momento. E que o outro e o seu olhar me canse mais do que espante.

Alto bairro, Lisboa, terça, 2 Julho

Alguns encontros chegam vestidos com pretextos de trabalho, leves e coloridos, assim pede o tempo e a moda. A Vanessa vinha toda sorrisos, mas sacudia contos de lâmina na sacola. O Fernando traz razões de sobra. O Francisco chama-me à esplanada para falar de estudo. O Massimo anuncia convite e logo projecto. A Sara passa e rasga-me com um sorriso. O Nuno carrega sempre ideias que dispõe na mesa para debate e prova. Aliás, com o Bruno arrasta-se há muito abstracções que tardam em concretizar-se, mas à mesa nasce invariável outra, por exemplo, revista. A Margarida tem prazos e comentários, além de mundo e histórias. O Zé Carlos, entre caracóis, põe o passado em dia. E nem o calor afasta o João e a Susana da comida de tacho e do estar em partilha. O Miguel veio comprar chapéus e falar de vagas cousas mas esmagou-me com alegria tal que se tornou transparente e revejo agora naqueloutros e mais uns quantos. É assim: certos abraços valem dias, valem vida.

Horta Seca, Lisboa, quinta, 3 Julho

A gentileza do Andrea [Ragusa] da Valeria [Tocco] não impediu que me sentisse corpo estranho na evocação dos 150 anos das Conferências do Casino, «Uma aurora à qual não se seguiu dia», distribuída por dois ciclos, este agora e aquele que se seguirá em Outubro. Os convidados são ilustríssimos cultores das Letras, especialistas em Antero e outros visionários, apresentando-se este vosso criado na qualidade híbrida de personagem de banda desenhada e leitor difuso. Com as devidas distâncias e dissemelhanças, um pouco à maneira de Rafael Bordalo Pinheiro, que se fez convidado para aquele plural a que não pertencia até o ter desenhado: «nós tivemos uma visão redentora e de endereita» (assim com ligeiríssimo erro). Falo da extraordinária 7.ª Página «d’um Album humorístico, ao correr do lápis», extraordinário todo ele, momento fundador da narrativa gráfica nacional, logo nas primeiras entregas e com extrema inventividade. O jovem comentador começa como que exclamando no modo de hoje, irritante por se querer definitivo: É assim! Isto é, dá-se logo a dizer, pois desenha-se de punhos na mesa, enfrentando o leitor com um Senhores: a que se segue na linha do desenho dois pontos. Adiante colocará cena entre parêntesis e tratará de pôr, em imagem indelével, um historiador crítico a arrastar gigantescos pontos de interrogação e exclamação, objectos pesados e ao mesmo tempo sustentados no ar. Para o jovem artista, em 1870, a narrativa gráfica era óbvia continuação do texto e o seu comentário, entre o professoral e o humorístico, fixou como poucos o momento das Conferências Democráticas, as que, mesmo interrompidas, não mais deixariam de nos atormentar com o retrato da «purulenta e burguesa physionomia do paiz». Questões volúveis e pesadas. Com as devidas distâncias e dissemelhanças, ainda nos podemos rever nas avaliações daqueles oftalmologistas da civilização que se propunham, apesar da ordem, curar a cegueira com a liberdade. Foi com prazer que regressei a tais páginas e momentos, que estão disponíveis em edições da Biblioteca Nacional. Ao subir para est’A Berlinda, Rafael dava enorme impulso à sua viagem vertiginosa de performer (avant la lettre) definindo programa, temas, estilo e personagens, grupo variado em cujo centro brilhará sempre ele mesmo, em auto-retrato de corpo inteiro. Senhores: jogando-se.

São Bento, Lisboa, terça, 8 Julho

Meia dúzia de insistentes assistem, no Centro Cultural de Cabo Verde, ao Jerónimo [Pizarro] explicando do alto do seu farol quanto de brilho e originalidade contém esta Ode Marítima, por si e no contexto (histórico e assim) das múltiplas partidas do mundo, com as suas ondas e vales, gritos e visões, o seu percurso arrastado e veloz por entre viagens que abrem portos e navios no coração dos homens e dos marinheiros. E a saudar a sua partida para a paisagem de outras línguas, no caso a cabo-verdiana, pela mão do José Luiz Tavares, ufano face à vaga de elogios, mas atento à defesa política e afectiva, partir das palavras de José Luís Hopffer Almada, de um activo bilinguismo. Quantas línguas cabem em um corpo? E marés?

16 Jun 2021

Contos da normalidade normal

Camponesa, Lisboa, terça, 11 Maio

 

O tempo tanto arredonda os dias como os arremessa, finge-se planície e nisto ergue vincos, quinas de arranhar epidermes. Em Setembro próximo terão passado uns redondos 80 anos desde que Jean Moulin, futuro herói da Resistência francesa ao nazismo e ao quietismo, calcorreou por estas ruas do Chiado a caminho de Londres para mudar de pele. Era um jovem prefeito acabado de despedir pelo regime infame de Vichy que há uns meses descobria que sua ideia de bem comum implicava o risco da desobediência. Quando em noite de lua apropriada caiu de pára-quedas perto do lugar onde havia nascido era já Rex e tinha missão: atar os fios soltos que erguiam um exército de sombras. O João [Soares] resolveu agregar energicamente um grupo de amigos para evocar aquela figura e percurso, arrastando-nos em frenesi de contactos e leituras e investigações e possibilidades. Seria difícil encontrar melhor corda a que me agarrar para, em esforço, sair das areias movediças em que me encontro, umas vezes até cintura, outras pelo pescoço. O interesse não se encontra tanto nos detalhes narrativos da curta vida de um reservado amante da boa vida, que trocou as artes, que chegou a praticar, por carreira de funcionário público ao serviço de certa ideia de República, herdada do seu pai. A sua biografia cedo se torna portal para regressos à noite escura europeia, e, no caso, de uma França dividida e ocupada, colaboracionista ou posta em espera, escrava de medos e misérias, em absoluto desfocada de si, despida do mítico amor-próprio, entrevado por retóricas suicidárias. Décadas depois de morte envolta em dúvida (traição ou eficácia da máquina do terror?), o país quis-se espelhar-se nele e virou o homem do avesso para extrair herói, em construção exemplar e simbólica que colocou incertas cinzas no Panteão, esse altar sagrado do republicanismo laico órfão de rituais. André Malraux oficiou o momento, coreografado como poucos, em discurso inflamado. «Eis a marcha fúnebre das suas cinzas. Ao lado das de Carnot com os soldados do ano II, das de Victor Hugo com os Miseráveis, das de Jaurès veladas pela Justiça, que venham repousar com o seu longo cortejo de sombras desfiguradas. Hoje, juventude, pudesses tu pensar neste homem de modo a tocar com as tuas mãos a sua pobre face naquele seu último dia, tocando os lábios que não falaram, naquele dia ele era o rosto da França…» O relato da vida normal ficou para sempre tintado pelo esforço de construção do herói, com a velha ilusão de que cada percurso contém um sentido, o que o destino se encontra escrito em cada entrelinha, em cada gesto. A moralidade deste conto de acordar consciências está, contudo, na ética explosiva do indivíduo comum se erguer ao ponto de dizer não! Jean Moulin foi um de nós, apenas capaz de subir à norma para ver além do nevoeiro das circunstâncias. Ora essa louca capacidade não nasce por geração espontânea, aprende-se.

Cerveteca, Lisboa, quarta, 12 Maio

A agenda está feita toalha sobre a mesa entre garrafas. Ninguém diria que aqui se trabalha, mas assim acontece. O Marko [Rosalline] apresentou um pormenor, fulgurante digo-vos já, que dá unidade ao delírio das cervejas literárias, colocando a pressão no [Nuno] Saraiva que tarda, como habitualmente, em dar imagens às palavras dos contistas. Era ainda ocasião de provar o néctar-de-matar-sedes do João [Brazão], que reúne profundidade e leveza de modo que faz acreditar. Em quê? Na possibilidade, quem sabe do ser. Do sabor do saber. Uma bebida tem tanto de álcool como de esforço e partilha, de criação. Esse o assunto sério deste «Cadáver Esquisito», longamente bebido, desculpem, debatido. Cada sabor que se esconde nesta cerveja tem correspondência na embalagem, no logotipo, em cada conto, no que se vai desenvolvendo. O pensamento anda por aqui armado em canivete suíço, obrigando a revelar razões por detrás de cada gesto, de cada afazer. Saio daqui entusiasmado. E tocado.

Horta Seca, Lisboa, quinta, 13 Maio

Da primeira vez que li, há umas valentes décadas, este «Fadários», então com outro título, achei-o disperso, algo perdido no que trazia por contar, grávido de todos os «roman noir» e «crime novel» e neo-realistas de pendor surreal lidos à lupa pelo mano José Xavier [Ezequiel]. E soltando como perfume aquele negrume habitual, o melhor amigo do homem lúcido de tão perdido. Ou vice-versa? Agora celebro-lhe esse espalhamento, o sopro com que molda personagens em debandada de si próprios. Se a vida é beco sem saída por que raio nos consumimos em busca de sentidos, proibidos, obrigatórios, para lá dos cinco, antes do significado, além do fado? Ontem como hoje noto nele um levantamento das linguagens, as da língua e do corpo inteiro, que nem halteres ou navalhas, à maneira de Nuno Bragança ou, está claro, de Dinis Machado. E com fulgor que encandeia. Ora o palco só podia ser o Bairro Alto e algumas aortas das bordas, sendo como era o coração profundo de Lisboa. E não havia outra cidade. Nem outras passagens além dos bares. De súbito, sinto o tempo a pesar enquanto converso com a Elisabete [Gomes] por causa das capas, que nesta colecção oscilam entre paisagem e rosto, ainda que em um caso ou outro, a cara se faça lugar. O Bairro foi para mim sinónimo de noite e de conquista, de autonomia e aventura, não este dado adquirido do entretenimento óbvio e da turistagem feroz. Não havia multidões na rua, antes indivíduos espalhados ao comprido no consolo acre da serradura vomitada das tascas e dos bares. A capa deste romance mais negro que a noite escura poderia bem evocar as portas, os riscos de luz, mas não as multidões. Algures na página está hipótese entretanto trocada por outra mais forte (não liguem às gralhas que era esquisso), que faz do balcão o lugar-comum, mas agrada-me por demais o expressionismo destas cabeças perdidas.

2 Jun 2021

Portos interiores

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 1 Maio

Mês morto, mês posto. Neste reino nem distingo o suserano, presto vassalagem apressada e às cegas sem tempo nem para contar as baixas. A vibração do telefone no seu silêncio canta um desespero que rima com a incapacidade para atender. Nisto de desconseguir devo ser dos melhores.

Amigo dos antigos, senhor de brilhante curiosidade e sempre atento às respirações do mundo, descobriu a ligeireza da impressão digital. Tenho algures cartas oriundas da Macau de há trinta anos, lugar de onde o Ricardo [Salomão] mas reenvia agora em formato de livro, ainda que viva e faça viver ali na Costa de Caparica. «Mágica Macau» (ed. Gandaia Edições) contém, diz logo com pressa adolescente na capa, «comoções, emoções e outros sentimemas», essa unidade mínima de sentimento. Mas a meia centena de poemas em prosa vão muito além e colhem frutos de observação madura e acutilante «Dos Sítios», «Das Pessoas» e «Das Outras Coisas», sendo que pessoas, sítios e coisas se encontram e desencontram para além da arrumação. «As árvores crescem com as raízes que caem das folhas que caem no chão onde as árvores crescem.» Macau cresce muito no que de cidade vai caindo no peito dos visitantes. Acontecerá assim em cada ponto do mapa, mas acreditemos ainda no espírito dos lugares, no único que cada soma proporciona. Os portos são cruzamentos de lugares, pessoas e outras coisas e nenhum será igual a outro.

«Nós ficamos a ver, do lado de fora./ Olhamos milénios de gestos, mas só vemos paisagens.» Enganadoramente, não tem a ver nem com magia nem com sentimento. O viajante que saiba ficar aprenderá pelo amor a ler. Ou vice-versa.

Com muita dificuldade se descobrirá, mas este falso e brevíssimo guia da Cidade do Santo Nome de Deus será das mais fulgurantes introduções ao enigma. Macau a única foi apenas pretexto, ponte de papel, pequeno balão iluminado. «Numa rua que é porto interior atrás dos prédios com cais à beira mar. Avenida de carros e camionetas, serralharias e velhas estâncias de madeiras perfumadas jazendo na penumbra funda de armazéns de poeiras suspensas. Cais e mar nas janelas rasgadas das entranhas dos edifícios. Numa rua que é porto interior, os carpinteiros constroem caixões com formas de nenúfar.» Fico sentido que não mo tenhas dado para editar, Ricardo, mas isso é sentimema que se resolve à mesa e com um abraço.

Horta Seca, Lisboa, quinta, 6 Maio

Morreu o Cândido Ferreira. Conservo uma das mais emocionantes interpretações que me foi dado ver, para mais temperado com acesso aos bastidores, aos ensaios, meu velho fascínio pelo inacabado, pelo imperfeito, pelo espontâneo. O verbo fez-se carne e o tempo parou para que acontecesse teatro, esse cruzamento quântico das coisas.

Foi em «Comunidade», do Luiz Pacheco, com encenação do Antonino Solmer, sendo o chão e céu uma das máquinas de cena do João Brites, cruzamento de barco e gavetão. Mas o Cândido absorveu tudo e da massa fez totalidade. E o espectador siderado. A cada leitura do Pacheco lá me vem, lá me virá sempre o Cândido. Sem querer e por coincidência descobri o parvo texto que escrevi para a ocasião.

«Na tal noite estava marcada viagem no interior da cidade, ao interior do teatro. Inesperadamente vejo-me bater hesitante numa porta grande, fazendo ladrar um cão chamado “actor” e interromper movimentos de personagens em estado de orquestração. O frio tinha-se sentado na plateia. O tabuado era de madeira, assente sobre bancos, esperando uma geografia final de sinais incrustados. Tratava-se de um bastidor. Os gestos estavam incompletos, em construção. O cenário era sugerido pela voz, pelas vozes. Aqui escuro. Além uma máquina. Repete assim. Não, o sapato não. Entras daqui. Há qualquer coisa de ritual, de caboco em obra esboçada. Cheira à pólvora do demiurgo que molda gestos, olhares. Cheira ao hálito dos projectos trazidos aos tombos. São passos em volta.»
Saravá, Cândido.

Casa do Alentejo, Lisboa, sábado, 8 Maio

Lisboa não deu pelo novel festival literário 5 L (de língua, literatura, livros, livrarias, leitura). A cidade ansiava por regressar a si, portanto a espreguiçar-se ao Sol, explodindo em milhentos regressos, peças, concertos, gritos e assim.

Mas não aconteceu comunicação e a que existia era de uma dolorosa infantilidade («Ler é fixe», com a mãozinha armada em roqueanrole, a sério?). Alinhámos por razões de amizade e outras estratégicas, contribuindo com Pessoa em cabo-verdiano para deitar a língua de fora ao Dia da Língua; com o nonsense do mano Luis [Manuel Gaspar] para celebrar aquela ideia de cidade que se esvai entre os dedos, como as ruínas da Solmar; com os muitos recomeços que a Ana [Freitas Reis] injecta no sangue dos seus versos. Não consegui deixar de me sentir estrangeiro, ainda que na mesa das funções. Os gestos de encontro saem-nos desajeitados e hesitantes, não nos foi permitida ainda a festa que deve acontecer em cada arremesso, tudo me surgiu deslassado apesar do esforço e alegria dos autores e dos apresentadores, a Inês [Fonseca Santos] e o João [Soares], e até o vírus deu ar de graça ao projectar-se na Linha de Sombra impedindo a Odi Marítimu de levantar âncora.

Lisboa, terça, 11 Maio

O Sporting ganhou. Não foi apenas o futebol, o futsal, o hóquei em patins, o ténis de mesa: venceu as probabilidades, o dinheiro, a má vontade, a descrença, a batota, o anti-jogo, a arrogância, a piadola, o mau perder, as faltas e as faltas de jeito, os velhos do Restelo e de Alvalade. Contra tudo e contra todos, por saber fazer com inteligência e coração, em cada um dos que vestem a camisola, treinador que pensa e sorri, capitão que corta e marca com peito e alegria, no guarda-redes que defende como quem ataca, no sangue e fresco do meio campo, centro da inteligência e do coração, por saber correr e sofrer nas laterais, por se transcender enquanto equipa dentro e fora de campo, por cruzar inteligência e coração. Por ser o clube de Peyroteo e Yazalde, que jogavam com y (na foto da infância), além dos tantos queridos, aparecidos e desaparecidos. E por ser redonda a bola.

20 Mai 2021

Apagar a Bedeteca de Lisboa

Horta Seca, Lisboa, sexta, 23 Abril

Nunca mais voltei ao Palácio do Contador-mor. De vez em quando chegavam-me notícias dos Olivais. Não me lembro de uma boa, mas a minha memória tem vontade própria. Ou tinham tornado as salas de exposição em armazém, uma necessidade imperiosa. Ou tentavam encerrá-la, incendiando a indignação do Ruben de Carvalho, na Assembleia Municipal. Ou desatavam a distribuir os originais em depósito como se aí viessem os bárbaros. Afinal, os bárbaros estavam bem instalados. Nem decidiam nem saíam de baixo. Tanto que entregaram às autoridades sem esboço de resistência livros atentatórios da moral e dos bons costumes. Uma chamada do José Marmeleira desinquietou-me: a moribunda Bedeteca cumpria por estes dias 25 anos e o Público queria saber das razões para o «desaparecimento» (https://www.publico.pt/2021/05/02/culturaipsilon/noticia/bedeteca-bela-historia-apagou-1960529).

Pensei em pegar em cartaz, newsletter, exposição ou livro e discorrer em direcção ao pôr-do-sol. Pensei em divertir-me desafiando em duelo pequenos e médios funcionários da vida e outros arrotadores de postas de pescada. Pensei em reflectir a fundo sobre a ausência de estratégia cultural em gestão autárquica feita ao sabor de modas. Andando por estes dias a lidar outros fantasmas, por causa de uma ilusão chamada futuro, desapeteceu-me. Mas a conversa perturbou-me a ponto de me fazer espreitar umas fotos e reler uns textos. Hesito em deixar aqui a introdução ao longo relatório que entreguei ou pedaços da carta de despedida, entre recordar o entusiamo dos objectivos ou a emoção do corte com projecto bastamente identitário. Por causa das pessoas, deixo a carta, quase por inteiro.

«Fiquem descansados que outras imagens me atormentaram nos momentos-chave, mas, no caso da banda desenhada, colecciono duas ou três. As primeiras são vinhetas do Tintim, na América e no Tibete. Primeiro a vertigem de atravessar entre dois arranha-céus, num álbum que andou comigo cada segundo de alguns meses da infância. Depois veio o hino à amizade de um nome que, gritado, faz tremer todo o bem-estar pequeno burguês de uma estância de férias. Vertigem e grito perturbador foi o que voltei a encontrar, muitas páginas mais tarde, na prancha de Muñoz e Sampayo, em Viet Blues. Afinal, havia vida e carne e política nos quadradinhos.

É só por isso que os projectos valem a pena: há pessoas por detrás das coisas e das obras. Há vida antes da morte. O gesto estético só me interessa se estiver ligado à vida e à carne dos dias. Não é tanto a questão desirmanada da fantasia escapista contra a força de intervenção rápida do neo-realismo. Trata-se de encontrar a força ténue do acto criativo: uma interrogação que pode explicar; um momento que pode iluminar; uma imagem que pode dar a ver; uma ficção que nos pode mudar a vida. Ou não.

Alguma coisa mudou, entretanto, no horizonte da bd nacional. Começo pelo modo como esse ser viscoso chamado opinião pública olha as histórias aos quadradinhos. Muito preconceito e confusão haverá ainda – o que, segundo os ensinamentos da História, pode ser bastante produtivo –, mas a bd está decididamente na agenda da atenção mediática. A massa crítica aumentou consideravelmente. Mais artigos, mais livros, mais gente a discutir e a fazer.

Mais formação. Há páginas de frenético entretenimento e de arriscada pesquisa pessoal. Um olhar mais próximo diria que aumentou a autoestima dos criadores. Não está ainda consolidado um sistema, mas vão surgindo obras a ritmo razoável, com importantes visões plásticas e experiências narrativas. É óbvio que está tudo por fazer. O projecto da Bedeteca é totalitário. Importa tudo e todos tocar. Até agora falhou, mas o lastro da utopia contamina algumas vontades. Vai ser possível fazer mais, por uma razão simples, se simples fossem as razões: possuímos excelentes criadores e alguns bons investigadores.

Sem vontade política era impossível ter nascido a Bedeteca de Lisboa. Devo um primeiro agradecimento a João Soares e a Tomás Vasques. [Acrescento aqui e agora a Manuela Rêgo e a Maria Calado. De todos conservo a amizade.] É injusto não enumerar em seguida cada um dos nomes que a partir deste impulso inicial ajudaram a construir. Mas porque foram, felizmente, bastantes é impossível escrever aqui os milhares de agradecimentos que desejava. No jardim do Palácio florescem verdadeiros livros de solidariedade, de inútil beleza, de utilidade permanente. Se alguma coisa aprendi terá a ver com as pessoas, humanas e individualizadas. Também com a vida e as várias mortes que ela contém. Ao Júlio, um abraço. Devo mais abraços. Alguns são de uma intimidade que fere, outros são públicos e notórios. Àqueles que tentaram e continuarão a tentar destruir, é-lhes também devida uma palavra. Obstáculos, mesmo os que têm origem na má-fé, podem (quase) sempre transformar-se em oportunidade.

E, se é verdade que meios inquinados como a função pública só oxigenam graças de ao empenho e generosidade de uns quantos (nenúfares), também não é menos verdade que se encontra a torto e a direito a mediocridade, a preguiça mental e o atavismo (pântano). A todos agradeço.

São de ordem política e pessoal as razões que me levam a tomar esta decisão. Politicamente, a equipa que me convidou saiu. Ora eu, não sendo funcionário camarário, e portanto descomprometido com uma ética de instituição, devo demitir-me também. Empenhei-me na campanha eleitoral, na exacta medida das minhas capacidades e desilusões. Achei que havia um projecto de cidade e de cultura que merecia continuação. Lisboa não concordou. A outros a tarefa de dar corpo a outras ideias. Porque esta ideia (de cultura e bd, por exemplo) é política. Pessoalmente, qualquer explicação passa pela palavra cansaço.

É isso: troco de lugar. Quase nada se altera no rumo das coisas, antes lhe dá consistência. A Bedeteca é um ponto luminoso na vida da cidade. Os novos responsáveis pela vida cultural da cidade reconhecem-no e afirmam a vontade em mantê-lo exactamente assim: luxuriante e perturbador, conservador e reflexivo.» [Risos, muitos e desbragados]

12 Mai 2021

Estremece o vento. Sobe a manhã. O calor abre.

Teatro da Rainha, Caldas, terça, 20 Abril

As sessões do Diga 33, animadas pelo Henrique Dodecassílabo Fialho, são um refrigério. Um leitor que faz da inteligência uma casa onde recebe os seus convidados, no caso, a Rita [Taborda Duarte], que lhe respondeu da mesma maneira, quer dizer, expondo-se, explicando-se, dizendo-se. Sem merdas, desculpem que o diga, mas apetece. Gente de um lado e de outro, alguma que vinha já derramada de um encontro próximo e à mesa. Aconteceu por ali vida, o que não será dizer pouco. Estando nós para mais a celebrar regressos ao que não voltará a ser normal. Possa a poesia ser o corrimão destas escadas em vórtice. Possa a palavra ser mundo, que dizes, Rita? «O mundo não é feito de pessoas nem de casas nem de coisas/ menos ainda de afectos e sentidos. / O mundo é feito com palavras perfiladas/
como pedras/ sobre pedra/ em cima de outra pedra, ainda.// São de palavras de pedra as paredes do mundo:/direitas e exactas como um fio de prumo. //Se nos tiram a língua,/ as várias línguas que tem a nossa língua:/ esta língua com que te falo,/ a língua com que te beijo,/ esta mesma língua em que te digo esse nome que tu és,/ roubam-nos mais mundo ao nosso mundo.»

Fundição, Oeiras, quinta, 22 Abril

Até o mais escuro dos ateliers me aparece tomado pela luz. Assim com o esboço: mais do que revelar a ideia que desponta, o titubear antes do salto, portanto a potência, contém a mais livre e rude das espontaneidades. Se nos passos há caminho, naquela busca encontra-se logo logo horizonte. Daí que a oficina seja bastante mais do que bainha e bastidor, erro e ferramenta, suor e preguiça. É lugar de muitas subtilezas e espectáculos. «Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,/ Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido,/ Olho e contenta-me ver». Com a mais infantil das atenções, entro, vindo do Tejo, no belíssimo atelier do Francisco [Vidal]. Correcção: no bairro do pintor.

A nave, em cujo canto repousam ainda restos das bombas, portanto destruição, que por ali em tempos se fabricavam, divide-se agora em jardim e cozinha, quadra de basquetebol e palco, carpintaria e estúdio propriamente dito. Imagino que possa ainda surgir, por conveniência, loja e laboratório. Por junto e à mão de semear. A arrumação casual das guitarras e das bolas, das serras e dos pincéis, cada detalhe diz do sagrado, da relação com o espiritual.

Sobre a decadência fabril e a fadiga dos materiais instala-se a cor gritante, abrindo vitrais iridescentes, atraindo a visão e pedindo paragem no tempo para que o corpo se permita ir atrás dos olhos. Exposição permanente, ainda mais essa. Encontram-se rostos da revolta e da afirmação, vítimas da violência, forma de os tirar da espuma dos dias para os instalar na memória política. Como ser negro com todas as cores, todas as letras? As grandes telas surgem compostas fragmentos e a pesquisa do Francisco está agora no cruzamento de técnicas mais pobres, a da impressão dos múltiplos, a da fotocópia dos fanzines, com o gesto dito puro da pintura. Talvez a cor não seja bem o tema, mas dividir a experiência assim é fazer logo autópsia do corpus vivo. De que falamos quando as catanas, lâmina e cabo, mão e corte, se alinham de modo fazer superfície que acolhe a imagem? No topo desalinhado, os bicos afiados e dissonantes não deixam de me perturbar, a pintura saindo do enquadramento, como se quotidiano procurasse o seu lugar de origem e nesse movimento nos ferisse. Deve ser por ali que se encontrará a identidade. Com risco e cesura.

Podia bem ter ido apenas pelo lugar, melhor, pelo encontro ali que há muito se adiava, mas havia razão prática: a capa para a «Ode Marítimu», versão em cabo-verdiano da brutal engenharia e celebração dos mares e portos em nós segundo Álvaro & Pessoa, ilimitado (algures na página). E no processo desencadeado me reconcilio com o papel do editor. Ignorante do seu lado cabo-verdiano, acabei despertando um entusiasmo que já partiu nas mais diversas direcções, dando nó na rosa dos ventos. Está a acontecer o reencontro do Francisco com uma das suas línguas. Partiu do texto agora reescrito pelo José Luiz [Tavares] para uma narrativa gráfica que mastiga as paisagens daquelas ilhas por junto a de uma cidade mulata. (Pode ainda dizer-te mulata sem despertar os ogres da correcção automática?) Foi-me dado ainda ver partes do processo, o modo como a feitiçaria faz a ligação entre o concreto do mundo com a prática do desenho. A pintura redefine assim os dias, nada se se pôr à parte. Por aqui não nascem museus.

Na pressa vertiginosa habitual, estava a receber as últimas correcções do poetradutor, que insistia, a cada uma, em explicar-me as razões e as raízes, quês e porquês. Exemplo seja a importância do «n», onde se esconde o eu daquela língua, ainda para mais em sonoridade escorregadia que pede ginástica da língua-orgão, para que possa acontecer a língua-sentido. O José Luiz, não sei se o disse já a propósito de Camões, vai conduzindo a nova língua para mares infindos e abissais. Contra tudo e alguns, os que insistem pouco inocentemente em chamar-lhe crioulo. «Como quase vítima de glotofagia, usuário e estudioso», diz ele, «sei bem o que está subjacente à designação ainda que se não tenha a consciência: O crioulo de Cabo Verde, língua natural dos cabo-verdianos nascidos em Cabo Verde e língua de herança de parte da grande diáspora designa-se cabo-verdiano ou língua cabo-verdiana. Crioulos todos são, como a língua românica de Portugal é um crioulo do latim. Crioulo de Cabo Verde, designa apenas uma família de língua, assim como a língua românica de Portugal também indica uma família de língua.”

5 Mai 2021

Visões do inferno e nem tanto

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 7 Dezembro

Não sei se deram por isso, mas a Livros do Meio tratou de verter para português, por obra e graça do Rui [Cascais], «Um inferno chinês», atribuído a Divino Panorama, nome justo para tão singela obra! O livrinho tem-me atormentado as noites e não falo de ilustrações, que as tem roubadas à antiguidade clássica. As torturas disputam o protagonismo com os valores da sã convivência. Um dos tribunais condenará aqueles que falam dos pecados dos outros a serem amarrados por cobras de metal e esmagados por cães de ferro. Noutro condenam-se os que se apropriam de cartas, imagens ou livros postos à sua guarda dizendo que os perderam. Também condenável se diz ser a prática da má escrita. O corpo dos inúmeros condenados irá desfazer-se das mais diversas maneiras no território. Se aprendermos a viver respeitando a luz dos outros talvez nos salvemos, mas não estou certo da leitura. Preciso de mais umas noites em branco.

Horta Seca, Lisboa, terça, 8 Dezembro

E no entanto ela move-se. A «Ilustração portuguesa» foi exposição e agora repositório das dezenas de produtores de imagens. Não gosto da expressão, mas não encontro outra, entalada entre o modo fabril e o artesanato, a exigência de um suposto mercado e o desejo íntimo de expressão. Espanta-me mais uma vez a quantidade e a qualidade do que se produz e não está tudo aqui reflectido, nem todos os que fazem, nem o muito que desenham. Mas o somatório abre janelas sobre o que se vai imprimindo nos jornais, nos livros para as infâncias, nas capas, como nos ecrãs ou nas paredes de galeria. A pandemia, por exemplo, está ausente, que a selecção foi prévia, mas próximas edições irão conter esses dias carregados de metáforas, de corpos em tensão, de retratos ao espelho, de delírios e registos do quotidiano. De qualquer modo, as facetas do cristal dos dias reflectem a luz nestas páginas. Para trás e para frente flano por entre estas construções, rostos e paisagens, para me deter no abstracto. O João [Maio Pinto] parece coreografar as melodias que se soltam da guitarra, e assim acrescenta dimensões ao que era plano antes da tinta, vazio antes do gesto. Nervuras sustentadas no que parece peça de mobiliário, figurações aparentes sustentadas por nuvens, veludo negro, subtilezas da carne. De novo, quanto de vida se perdia sem as ilustrações? Haverá vida para além delas?

Horta Seca, Lisboa, sexta, 11 Dezembro

Abrimos lugares no sítio (www.abysmo.pt). Não quisemos apenas loja, mas página onde se falará de livros e do mais a partir deles. Começámos até oferecendo distopia em rima com os dias, assinada pelo mano Zé Xavier Ezequiel. Brilhará portanto uma óbvia paixão pel objecto, reverberando no vazio, canções sólidas, formas de vestir e habitar, lâminas e algodão. Além do mais, que esperamos muito, haverá sempre encontros na «mymosa», que se chama assim pela natureza do óbvio, que naquela agora extinta sala de saciar fomes e sedes aconteceu tudo e mais alguma coisa. «Grandes conversas sobre o tempo a partir dos gregos, da física quântica, dos palcos e de Proust. Aquela sobre a pintura e como nos jogamos nela. A localização exacta do Inferno. Camões foi assunto e destino de partida.

Os detalhes do uso de variegadas drogas, desde tempos imemoriais, falas na primeira pessoa, práticas na terceira. Apareciam mágicos, dos que faziam aparecer e desaparecer. Velhos trazendo histórias e vidas pela trela. Moradores das mais distintas paragens. De súbito, ao balcão vozes cavas discutiam a teoria das cordas e o contista não queria acreditar. Aconteceram canções, mesmo que não cantadas. Fado, por uma vez. A concertina amiúde. Golpes de teatro, a dar com um pau. Gargalhadas eram o pão nosso de cada dia. Enormes momentos de futebol, com jogos dentro. E até jantares. Ou almoçares, dos que começavam ao meia dia e acabavam à meia noite, dando nós no tempo. Claro que se semearam poemas, se cimentaram amizades e outras se desfizeram. Ainda recordo o concreto de cada uma. Chorou-se, por ser o apropriado ou sem querer. Longuíssimos testemunhos de vida, gente a despir-se lentamente, locomovendo-se.»

Horta Seca, Lisboa, segunda, 29 Dezembro

Queria que acontecesse de modo semelhante, o leitor sem saber ao que vai, recebendo nas mãos um certo «Tom», e no gesto mudando a melodia dos dias. Distraidamente, terá talvez visto as três letras dançando, nos cantos inferiores da convenção. Aqui uma onda, com a linha do t prolongado atirando o redondo o pelos montes do m, delícia de movimento, a mão a fazer da assinatura ponto final. Casos há distintos, em que o t faz de antena e raiz, linha recta procurando profundezas no vazio, as restantes letras um horizonte ainda por estender. E outras declinações ainda nomeiam o produtor das imagens, um entre tantos outros, nem se dá por ele na poeira do tempo.

Mas o livro verde amplia doravante essa ligeireza. O Jorge [Silva] anda há muito a coligir papéis, pele frágil mas duradoura na qual pousam as imagens, sem que isso signifique repouso. Ainda que quietas, as imagens despertam sem cessar movimentos, a interpretação suscita o pensamento, desdobra-o em ziguezague de aproximação e afastamento das formas do real. Quanto de vida se conserva nestes traços e cores de coisa nenhuma? Foram encomendas, divertimentos, maneiras de iluminar o que se diz, de retirar ao caos uma ordem mínima capaz de sustentar olhares, de fazer cidades e por aí adiante. A verdade é que, coligidas, dizem de uma profunda plasticidade, afirmam a pés juntos dispersa identidade e nisso nos surpreende que nem madrugada. O nosso modernismo praticou o jogo com uma alegria que espanta, sem dispensar a melancolia. Foram revistas para as infâncias e cinéfilos, livros e depois produções para modelar o gosto, caricaturas a capturar rostos, cores a fixar cidades e o tanto que estas páginas ilustram. Folhear estas páginas é alinhar na brincadeira. Está lá o devido enquadramento, o lugar na fita do tempo, as explicações do artista e de quem o sabe ler, passos na direcção da armadilha, mas pouco mais importa que a sucessão libertária dos seres vivos: as imagens. Ao acaso, vejam estas duas, uma que aqui vos deixo, um galo de ferro posto algures em alto de Monsanto, a aldeia mais aldeia da grande aldeia tuga. Mas atentemos nos retorcidos do ferro, nas furações, nos recortes, nos modos de fazer penas, e digam-me onde começa a tradição e para que futuro aponta o bico. Tomás de Mello procedia com esse método em cada parte da realidade que tocava, síntese maravilhada, a extrema complexidade a pulsar na clareza. Ora como podia o nosso olhar alcançar o bicho lá no alto do longe? Só aqui, no livro de fresco verde que me surpreende com a canção do vento. Depois há um Camões actualizado, com crítica e leitura dos idos de setenta. Uma geometria a quadricular a página em fragmentos, como se a vida se tivesse desmultiplicado em partículas que convergem na cena central, um palco feito coração a pulsar com a galáxia no seu entorno. E fico horas a remirar como quem mastiga. Que interessa a disciplina onde se há-de guardar isto? Os mestres da brevidade são bem capazes de parar o tempo, e nós com eles. Poucos haviam dado por isso, mas o Jorge anda nisto há anos, a vasculhar no esquecimento para nos dizer da pujança de nomes como Pavia, Lapa, Tóssan e tantos outros. Um cata-vento, portanto. Dos que cantam direcções.

30 Dez 2020

Elogio do fósforo

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 1 Dezembro

Conversa quente pôs-me nas mãos a recente e completa edição, com abundantes notas, apresentação do seu editor primeiro e correspondência com leitores e críticos, do notabilíssimo ensaio de Isaiah Berlin, «O Ouriço e a Raposa» (ed. Guerra e Paz). Mergulhado em apneia no grande oceano das traduções literárias da última década, sinal de estranha vitalidade em país onde se lê de ouvido, fico preso ao detalhe que está na origem desta divisão dos seres vivos, logo tornada marca perene e ferramenta de análise. Berlin chega a confessar-se arrependido do título, afinal de tese sobre a visão da História em Tolstói, com paragem em Joseph de Maistre. Encontra-se brilhantismo a cada passo, dos que abrem sobre o concreto universos de pensamento, prática cada vez mais rara no ensaísmo literário contemporâneo, tão ensimesmado e afastado das coisas do mundo. O ponto de partida está no fragmento atribuído a Arquíloco, mas também a Homero, onde se observava que «a raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa importante.» Algumas interpretações incluem a manha enquanto defesa, e até surge no apêndice uma tradução alternativa: «Raposa sabe/ Enésimas/ Manhas e ainda/ É apanhada:/ Ouriço sabe/ Uma mas ela/ Funciona sempre.» Quem se fecha, escapa. Os entusiastas não evitam as armadilhas da curiosidade. Basta este fósforo para que o ensaísta incendeie a planície do pensamento. E nos ponha a mapear a vida segundo os percursos de fogo do diletante e do obstinado.
«Existe um grande abismo entre, por um lado, aqueles que associam tudo a uma visão única central, um sistema mais ou menos articulado, a partir de cujos termos compreendem, pensam e sentem – um princípio organizador único, universal, sobre o qual o significado de tudo o que são e dizem assenta em exclusivo – e, por outro lado, aqueles que perseguem muitas pontas, frequentemente não relacionadas e até contraditórias e, quando relacionadas, apenas nalgum sentido de facto, por alguma causa psicológica ou fisiológica, não relacionada com um princípio moral ou estético. Estes últimos conduzem vidas, desempenham actos e alimentam ideias centrífugas e não centrípetas; o seu pensamento é disperso ou difuso, move-se em muitos níveis, agarra-se à essência de de uma vasta diversidade de experiências e objectos por aquilo que eles são, sem, consciente ou inconscientemente, procurar excluí-los ou procurar que caibam numa qualquer visão unitária interior, imutável, abrangente, por vezes contraditória e incompleta, por vezes fanática.»

Horta Seca, Lisboa, quarta, 9 Dezembro

Demoramos talvez demasiado a tempo a entender que a vida não se faz de maneira única, dá que nos dá jeito. E por vida digo os outros, no caso os que bicicletandam. Nem tudo se constrói na base das palavras e de longas conversas. Por exemplo, tratamos a doença sem aquele cuidado desprezo que merece. A dita tem a mania de se chegar a nós e ocupar-nos por completo. Convém adestrá-la a doce e chicote, para que aprenda a respeitar-nos. Quem diz alimento e disciplina, diz olhar. Era essa a tua ferramenta, Edgar, e nessa troca de cromos nos fomos encontrando. Andavas por estes dias a exercitar a maquineta que te transportava o olhar ao céu. Andavas a treinar, safado. Naquilo o teu Oeste tornou-se distinto. O território ganhou outras texturas, contornos mais desenhados, a visão de conjunto, assim uma redução ao essencial. Com vista para o mar. Saltavas do detalhe discreto ao voo épico. Mas andavas lá por cima como se de bicicleta. As duas rodas prolongam-nos o corpo de uma certa maneira, assim uma peça de roupa, uma varinha de vedor, aqui água, ali caminho, acolá miradouro. E a tua timidez não dispensava gente, a gente. Tocavas música como quem anda de bicicleta nas nuvens. A fotografar, claro. Como aqui, nesta a rasgar a página, pertença de um portefólio para a «Torpor» sobre certo lugar de partidas e chegadas. Não falámos assim tanto da doença, mesmo lá no território que ela pensa ser o dela. Trocámos olhares, sobretudo nos dias em que a paragem do mundo fora agravava os silêncios dentro. Falámos de chapéus e da ausência dos rostos. Não era este silêncio que estava combinado entre nós e, além disso, a tua rua precisava ainda de som e de uma certa luz, a que resulta de quem pedala no escuro com o dínamo na roda. Vai custar a perceber o que foste iluminando à toa. Em Óbidos como nas Caldas da Rainha, as ruas ficaram mais estúpidas agora que o Edgar Libório morreu.

Horta Seca, Lisboa, quinta, 10 Dezembro

A Câmara Municipal de Lisboa resolve, em boa hora, estender programa de apoio cheio de urgências e boas intenções à restauração e outros sectores a rimar com aflição. E vai de incluir no pacote a cultura, por causa do óbvio e da pobreza. Crédulo, achei que talvez coubéssemos na gaveta. Nada disso: as editoras são inelegíveis. Pensando melhor, a que raio de necessidade damos nós, gastadores de papel e tempo, resposta? As florestas respiram de alívio. E podem continuar a dar abrigo aos medos ancestrais.

Horta Seca, Lisboa, quinta, 10 Dezembro

Os manos Valério [Romão] e José [Anjos] estão ocupados a reinventar o neorrealismo. Nasceu em bar, há muitas luas, e estava fadado para ficar por ali, revisitação episódica da antologia peculiar, «Iron Moon: An Anthology of Chinese Worker Poetry», de Eleanor Goodman. Onde mais poderia ficar a pátria do trabalho fabril senão na China? Esqueçam a prática milenar de captura dos versos etéreos nascidos da aguda observação da natureza ou dos subtis entrechoques do comportamento, enfim, dos estreitos caminhos que dão acesso à sabedoria. A realidade faz-se âncora, nestes versos não se levanta voo. «O trabalhador fabril contemporâneo chinês tem as mãos no século XXI, na linha de montagem, e o resto do corpo no século XIX. Exaustos, estes trabalhadores encontram nos produtos da indústria que os explora um refúgio inesperado. Passam parte das suas noites diminutas a escrever poemas nos ecrãs dos seus telemóveis e a publicá-los em fóruns onde se trocam versos amargos e os emojis de sorrisos possíveis. Pela primeira vez na história da China, a poesia não sai da rua para os corredores do palácio do imperador. Aquilo que os esmaga é também o que os liberta.» O tema de apresentação dos mao-mao dá ideia da dureza que se exprime com soturnidade: https://youtu.be/3ASWAD99JZc. «Filho» nasce de um poema de Chen Nianxi, trabalhador mineiro da província de Xianxim. Curioso vislumbre da sombra do punk nos amanhãs que serão cantados no concerto/espectáculo, do qual tomarão ainda parte Pedro Salazar (baixo) e os convidados especiais Sandra Martins (arranjos de violoncelo), Paula Cortes (voz) e António Jorge Gonçalves (imagens). Alguma ironia se deve soltar de aguardar o dito na vizinhança do ministério de uma economia tão amarelo-dependente.

16 Dez 2020

Ai que

Horta Seca, no passeio, Lisboa, quarta, 4 Novembro

A sensação não nasceu por estes dias, mas acabo também eu por não praticar como devia o mergulho nas águas profundas da ficção científica. O almoço com o Filipe [Homem Fonseca] soube-me a intergaláctico, e dei por mim, sem uso de estupefacientes, a ver-nos tocar cada um para seu lado o teremim, que ele sabe bem e eu nada. Aliás, o instrumento exacto para quando nos impedem o contacto. Pode ter nascido daqui algo de outro mundo, mas a transversalidade do encontro deixou-me com mais rasgões do que a assistente serrada do mágico desajeitado. (Em breve e a propósito, a abysmo dará passo na direcção do mais-além viajando com prosa negra de FC. Sigam-nos se querem ver.) Vai daí, lembrei-me desta perturbadora ilustração de um extraordinário explorador visual destes territórios, Virgil Finlay (1914-1971). Fê-la para Hepcat of Venus, de Randall Garrett, onde um Observador Galáctico, semi-deus tudólogo, se deixa surpreender por «a jive trio in a beatnik hangout» onde os instrumentos são extensões do corpo dos intérpretes. Que andamos nós a compor e a tocar?

Horta Seca, Lisboa, quarta, 2 Dezembro
Revejo os ares e faltaram-me bumerangues: além de livros, que a casa quer-se pôr a celebrar a sua década e nisso há jornais, catálogo ambicioso, edições ainda mais especiais, e antologia peculiar, faltou tomar nota dos lugares doidos que querem cruzar o território com a palavra, o outro bêbado de vanguardismos que querer misturar realidade e ficção, ou os trabalhos em mãos com o João Francisco [Vilhena] para misturar rostos e memórias, e portanto território e ficção e palavra com realidade. Só para não me esquecer onde vou.

Horta Seca, Lisboa, sexta, 4 Dezembro

«Voilá: estava eu na minha biblioteca e o meu filho aproxima-se: ó mãe, diz ele, seria possível procurar-me nesta barafunda um livro que me emprestaram e eu quero devolver? Digo que sim, talvez, quem sabe. E como se chama o livro? Gritos da Minha Dança, responde-me.» Assim em sonho surgiu a Fernanda Botelho o nome deste seu derradeiro volume, que não o das Obras Completas, que a ordem escolhida foge à cronologia e procura propor maneiras de entrar em obra interpeladora. Outro objecto, mais ou menos inclassificável, colecção de fragmentos apanhados ora do chão quotidiano ora do céu da fulgurância. Tropeçamos a cada passo em subtilezas, de observação, de pensamento. E leituras de si. O conjunto apropriadíssimo para o entorno. «Que ninguém, no entanto, se engane ou caia em confusões: não será determinantemente uma biografia, muito menos uma autobiografia, se bem que de ambas tenha a sua parte. De diário, mensário ou anuário também um tanto terá, desordenado, ao sabor de caprichos ociosos, de apetites pontuais, de exigências compensatórias de silenciosas carências, de descargas emotivas, de recalques finalmente soltos e galopantes…»

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 4 Dezembro

No dia em farias 90 anos, neva na tua Gardunha. Nunca te tratei por tu, pai, mas justifica-se agora para te dizer que a tenho visitado, nas palavras de portadores de ideias e comboios e granito e nuvens. Qual delas se trabalha melhor a maceta e escopro?

Santa Quitéria, Lisboa, segunda, 7 Dezembro

Afazer de susto põe-me a bater à porta da novíssima Snob em tarde chuvosa. Não há melhor lugar de recolhimento das intempéries, ainda que modestas ou íntimas, que uma livraria. Melhor ainda se fechada, a não ser para responder a sedes de passagem. A volta a dar será a do costume, estantes a esconder paredes, mesas a ocupar o centro com os rostos vociferantes ou sussurradoras. O novo convive aqui com o velho para dizer o óbvio, os tempos afinam-se para além dos calendários. Se fora o Inverno se anuncia, sem grande glamour, a arrumação dentro não esconde a imensa tempestade que aqui se conserva prestes a explodir em quem queira. Pode aceder-se à incontável floresta de lombadas de muitas maneiras, mas o bom livreiro conhece-as todas, temas e geografias, claro, mas também capistas e tradutores, desconfio que até tipos mal encarados e os tipográficos. Além da coordenada que interessa apenas a uns quantos, as editoras. (Tive a prova há tempos na Feira do Livro da capital quando um leitor atento trazia lista de bons livros, mas estava perdido por não saber onde encontrar as mães de cada um dos seus orfãos. Fiz de frustre livreiro, na ocasião.) Alegrei-me, portanto, com a nova casa do vagabundo Duarte [Pereira], que não deixou nunca de espalhar sabedoras orientações para quem navega em alto mar. Um farol, fica dito, dos que não se apagam nem quando o ecrã se quebra ou os satélites se escondem do lado errado.

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 8 Dezembro

Fora isto diário despido, sobretudo dos enquadramentos, do sobretudo das consequências, teria que colocar aqui os veios do mármore em que tenho embatido. Faz um tempo de avaliações miudinhas, de molha tolos, portanto, e não escapo sem que a realidade me encharque. Um amigo, desconfio que sem querer ou por achar que eu devia ter disso consciência, deixa claro em amistosa conversa que a abysmo não está na lista das editoras capaz de enfrentar e servir a sua obra. Afinal, pouco mais será que capricho de meia idade de um doidivanas. Uma viagem em passo de corrida à tradução da última década deu-me a entender a que acontece uma atenção fervilhante e diligente às mais obscuras e perigosas paisagens do mundo literário. E nós, ensimesmados? No site, essa coisa prática e óbvia que conseguimos tornar projecto peregrino, o blogue vai chamar-se Mymosa. Quando a pandemia fechou a Mimosa do Camões, todos percebemos que o mundo e nós com ele havíamos mudado mais do que pensávamos. Durante uns anos valentes, aquelas salas foram prolongamento bastante mais do que físico do que a editora foi sendo. Ao fazer texto que olha para aquele mundo agora em ruínas, interrogo-me se não terá sido fogo fátuo, se dali terá nascido outra coisa que não espuma, se foi haiku. Diz o Luís [Carmelo], o primeiro a pôr o lugar no mapa da língua, no seu poema «Mymosidades», que acabou por dá origem à sua Nova Mymosa, depois de lido em voz alta em noite orgíaca: «[…]É verdade que o presente é um olimpo a desfazer a espuma nos lábios,/ talvez um estuário ou a cona de onde surgiu a cabeça e a maré a gritar a forma do/ ângulo raso. […]// Por vezes, há factores arbitrários/ como naquela noite em que nos sentámos a falar da tabuada/ e a bússola que cegava certezas se transformou/ no craque do lápis a quebrar-se em duas partes.// Foi o mais belo Haiku da minha vida.»

9 Dez 2020

Dias canhestos

Horta Seca, Lisboa, sexta, 28 Agosto

Estranho esta ideia de férias em plena pandemia. O mundo está a acabar, mas convém continuar a pôr óleo nas engrenagens do costume. Devidamente autorizado a sair, brinco com as minhas rotinas, que sempre misturaram prazeres e deveres, os diversos calendários, horários e agendas. Talvez explique este andar feito num oito. Tanto tempo parado e não me atrevi à planificação que tenho de fazer com uma urgência de sede. Antes há decisões por tomar, talvez realinhamentos de direcção, muito tacteamento de sentidos, quem sabe desdobramentos, mas também murros na mesa. Para já, alegro-me por poder contar com dois novos nomes.

Logo o de Luís Cardoso, que há muito se empenha em criar uma cosmogonia, literária convém sublinhar, para um país perdido nos mitos, Timor. E tem-no feito com uma língua na qual a água soa de muitas maneiras e discorre com uma elegância muito própria. Este romance será pedrada no charco, pelas personagens e acontecimentos que evoca, com extrema maturidade e polida palavra.

Depois o Nuno Bragança, outro daqueles autores que me justificam a criação de uma editora. Excluo o fascínio pela personagem, que interessa aqui e agora o seu texto-laboratório, ferramenta de constante alinhamento das perspectivas e dos seres. Para já trataremos dos ensaios sobre cinema, que revelarão muito do fascínio pelas imagens projectadas, pela construção da narrativa, pelo alcance máximo da vida.
Temos mais (com) que contar. Convém confundir a realidade com a literatura, dispersar uma na outra. Ou não valerá a pena.

Mouriscas, Abrantes, terça, 1 Setembro

Vejo a morte anunciada da Cotovia e o lamento dialogado da Fernanda [Mira Barros], nas redes: « – Imagino como se sente. – Não. Não imagina.» E discordo: imagino, sim! A editora não é a nossa vida. A editora pode bem ser uma vida inteira. Tendemos a fazer coincidir a editora com o seu criador, mas seria injusto atribuir o essencial da Cotovia ao André Jorge, pois também a Fernanda foi asa do pássaro. E teve a desventura de a herdar, com tudo o que acarreta. Na medida da solidão de cada um, consigo aproximar-me deste senso comum da perda.

Devo à Cotovia parte do que fui sendo. Não seria este corpo sem aqueles livros, aqueles autores, aquelas escolhas. E tive a sorte de subir os degraus daquela editora em espiral, de cumprimentar gatos e beber café em chávenas altas, de aprender ofícios e visões e sabores. Sinto muito perder o cantar de bicho que ainda agora nos trouxe monumental «Eneida». Quem sabe se não regressará rouxinol.

Não terá sido a primeira vítima da crise, não será a última. Estranhamente, o acontecido e o anunciado devia aproximar uma certa raça de editores, na busca de territórios partilhados, de respostas comuns, de associações livres para além do nos possa dividir. Será caminho difícil de trilhar em terra árida de cidadania e em tempo que celebra a vilania escudada na mais patética celebração da individualidade.

Mouriscas, Abrantes, quinta, 3 Setembro

Tenho poucas histórias partilhadas, mas bastam-me duas para sentir a perda de Francisco Espadinha, isto além da admiração pela obra como editor, pautada por equilíbrios dignos de estudo, que soube criar sucessos com a ficção em português, não esqueceu a poesia e soube trazer para esta língua autores do mundo inteiro. Devo à Presença parte do que fui sendo. Lançámos em conjunto, ele o mais recente romance do Helder [Macedo], eu uma antologia da poesia do mesmo autor, atravessada pela óptica do Paulo [José Miranda]. A meio da função, com exacta descrição, veio dizer-me o quanto lhe agradava esta colaboração, sobretudo por ser rara no panorama nacional. Meses depois, aquando da falência da Urbanos, a distribuidora que então (mal) nos servia, foi um dos dois editores que me ofereceu ajuda (sendo o outro também da sua geração). Fiz mal em não ter aceitado.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 6 Setembro

Dizem que as Feiras do Livro estão a correr bem, mas não se tal será sinónimo de venda de livros ou de adesão de públicos. São mais os passeantes que os compradores, disso estou certo, e o interesse destes parece estar, antes do mais, nos preços. Saldos, eis o segredo. Vender pelo mínimo, em hora h, esmagando por completo essa ideia tontas de valor, de custo aceitável ou sustentável. Pouco importa o sustento, apenas o circo sanguinolento da produção: imprimir novidades a cada minuto, em ritmo estonteante que a só aproveita à facturação. A ninguém interessa enfrentar os modos de fazer, velhos e cegos.

Por razões diversas, do preço à saúde, a abysmo não tem pavilhão próprio, sendo acolhida, em Lisboa e no Porto, pelo pavilhão da Afrontamento, afinal o da nossa distribuidora-armadilha. O ano passado, em Lisboa, fomos atirados para uma canto agradabilíssimo, de sombra e verde, mas arredado das rotas de circulação. No Porto foi pior: ficámos a comer o pó e o ruído das obras do pavilhão ex-Rosa Mota, no fim de uma rua que dava para um lago. Continuamos entre assombração e charco.

Horta Seca, Lisboa, segunda, 7 Setembro

O envelope vem duplamente fechado, com uns rectângulos de fita castanha a marcar o triângulo da abertura no verso, para que não se solte a não ser pela faca o que transporta desde o Oeste. (Uma impressão dourada e em relevo de uma águia de asas abertas sobre o globo diz de um tempo em que as viagens eram a grande paisagem, sentido para uma vida inteira). Extraído a golpe de rasgo, eis objecto feito de texto a envelopar caderno de corpos que se desdobram, múltiplos e uno: «como falharam cortar-me a cabeça talharam-me um corpo mais pequeno». O texto é circular como seiva e faz de corpo protector das folhas frágeis, cada uma tornada palco-tela de suavíssimo bege onde corpos inteiros e assexuados se deixam intervir pelo traço. Cada traço um rasgo, até que o líquido explode em dupla página, uma dupla sombra aguarelando-se em posição mais aberta, deitada e posta à disposição. «Para me suster neste corpo encolhido, sobre mim desdobrei-o, e ao fabricar um corpo duplamente canhestro consegui ficar de pé porque,». A vírgula, pequeno rasgo, diz volta ao início, «como falharam cortar-me». Uma simples frase, talvez poema de versos por montar, pele de figura, faz as vezes de manifesto. Ecoa: sobre mim desdobrei-o. Mudam-se assim os dias por força de uma ideia. Fulgurante que nem raio. A Isabel Baraona vai oferecendo obra assim, com cortante singeleza (detalhe algures na página). Os envelopes e os pincéis são lâminas de talhar corpos. À medida dos dias.

9 Set 2020

Há os homens

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 13 Agosto

 

O mundo não acabou para a Notre Dame de Paris, mas algo se perdeu nas chamas. Assim o mundo rural não acabará, apesar de morrer a cada verão incendiado. Se nas ondas revoltas se naufraga, que palavra espelha o afogamento em mar de chamas? Ardência? Nem todos os finais são abruptos, há formas de ir soltando ser, deixar pele nas silvas, aguentar o amargo do fracasso, o fel da injustiça, a banalidade da desorientação. A Notre Dame não perdeu o seu anjo, aquele que sopra trompa como continuação do corpo, seta disparada ao chão na vez de atirada aos céus, e assim se toca anunciando, a graça ou o fim. Aquando do incêndio do ano passado circularam fotos nas quais com olhar se infantil se vislumbrava anjo de fumo abraçando o pináculo em chamas, figura interpretando o tema derradeiro do instrumento. Blaise Cendrars não desdenharia a potência da imagem, a profecia do gesto. Afinal, já no final de outro século, em 1917 (o século extingiu-se na Grande Guerra e não na folha do calendário) nos dava a ver «O Fim do Mundo Filmado pelo Anjo N(otre) – D(ame)» (edição da Assírio & Alvim, com tradução de Aníbal Fernandes). Os desenhos de Fernand Leger no original fazem paisagem com corpos e letras, palavras, fazendo com elas catedral, cidade, caos. Desfazendo o cima e o baixo, as orientações e os sentidos, brotando em cores básicas do vale das páginas. As letras são estilhaços do fim do mundo. E o Anjo ergue-se sobre o seu sopro, desloca-se empurrado pelo som. Blaise intuiu que o cinema havia acabado de se criar para registar o epílogo, como a revolução foi televisionada e este apocalipse quedo brotou das redes e do santo algoritmo. Mas aquele mundo de antanho havia de ser superprodução com figurantes sem conta e a natureza a recriar-se perante os olhos dos espectadores por haver. No tradicional lugar comum do finamento a vida de cada um passa-lhe em filme, revisão da matéria vivida. Neste do Anjo N.-D. tratou a natureza de se rever em jogo de formas geométricas e orgânicas. «Tudo espirra. Tudo se mistura. Pan. Demónio. O mar oleoso, pesado como asfalto. A terra enegrecida, sangrenta, a liquefazer-se. As ondas transformam-se em montanhas e os continentes afundam-se. Torvelinho.» O crescendo termina quando «o último raio de luz corta o espaço caótico como a barbatana de um tubarão…» Cabe à luz, parceira do verbo nos inícios bíblicos, o papel de ultimar. Um fogo largado à aparelhagem põe o filme a correr às arrecuas. E o Deus-pai de todos os princípios e também deste fim do mundo regressa, capitalista de charuto e automóvel de luxo que havia espoletado tudo com uma grande feira de religiões em Marte. Retrato dos dias nossos nos dai hoje, veja o leitor se não somos de Marte. «A multidão dos Marcianos comprime-se à frente da cavalgada. Vemo-los nas bolas de sabão que lhes servem de habitáculo, como imponderáveis fetos metidos em frascos. Matizam-se como camaleões e adquirem cores, de acordo com os sentimentos que os agitam.» Só que Deus excedeu-se e a feira apresenta-se «demasiado vulgar», uma orgia de anúncios e música em altos berros, o horror dos espectáculos, de certas cenas, dos sacrifícios dos animais, a repugnante exposição dos mártires, a fixidez das máscaras, a crueldade das danças, «todos os meios ferozmente sensuais explorados nesta grande parada das religiões» assustam os marcianos que fervem e explodem empurrando Deus para o deserto onde resolve concretizar as profecias. O homem certo para o «trabalhinho» é o da câmara de filmar, que assim começa a descrever-erguer a cidade-mundo . Aliás, as cidades ajuntam-se frente a Notre Dame de Paris até que o Anjo incha as bochechas. «Tudo o que os homens construiram desaba imediatamente sobre os vivos e soterra-os. Só que ainda tem um resto de vida mecânica resiste mais dois segundos. Vemos comboios andar sem comando, maquinas rodar em vazio, aviões cair como folhas mortas.» Depois o cinema, «acelerado e ao retardador», o da natureza. São frases curtas, lâminas em torvelinho. Descrições exactas, que me fazem hesitar entre Godard e Malick para assistentes de realização. Desnecessários, que o texto revela-se bem, boa companhia neste deserto atravessado a nada. Blaise pariu-o de jacto, «a minha mais bela noite de escrita», sem emenda nem remédio, para nunca se desfazer em luz projectada. Além do brilho próprio, claro. Tinha 30 anos, era editor e estava a fazer contas à vida.

«Hoje, que já não acredito em nada, a vida não me suscita mais horror do que a morte, e vice-versa.
Fiz a pergunta a todos os meus amigos: “Estás pronto a morrer agora mesmo?” Nunca nenhum deles me respondeu. Eu estou pronto; mas também estou pronto a viver mais cem mil anos. Não será a mesma coisa? (…)

Há os homens. Não nos devemos levar muito a sério.»

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 27 Agosto

Homens há que semeiam no deserto. Dia 8 de Setembro nascerá, ali para Alvalade, novo lugar de cultura, sobretudo fotográfica, com foco e desfoque no fotojornalismo. Francisco Leong, Luís Filipe Catarino, Jérôme Pin e o Bruno [Portela] são as almas penadas que assombrarão o CC11, começando com a exposição «Diário de uma pandemia». Pediram a este escriba que olhasse para dúzia e meia de (façanhudas) capas de jornais e revistas tugas.

«A coreografia revela confrontos, ou melhor, idas e vindas, aproximações e cruzamentos, enfim, dança entre drama e quotidiano, apelos tonitruantes ao épico e a voz baixa do trivial, o dentro e o fora, a vista de longe e o íntimo, heróis e líderes, o tudo na mesma no miolo da excepção.

Torna-se fascinante acompanhar os olhares dos fotógrafos sobre o vazio. Os viadutos, lugar de passagem, canal para o sangue que alimenta a grande máquina em movimento contínuo, tornaram-se traços na paisagem. O homem só em plano próximo repete-se à exaustão. Não apenas como metáfora brilhando sobre a humana condição, mas ligando-o ao acontecimento, essa notável mestria do fotojornalismo. O primeiro plano daquele que passa tem como fundo um santuário das multidões. Que lugar para a fé neste instante? O indivíduo que cruza infindável passeio sob viadutos e prédios altos de cidade futurista leva de sacos de compras, a única razão de saída, e, está bem de se ver, máscara.»

Mouriscas, Abrantes, sábado, 30 Agosto

Alguém passa na estrada e o Cão Tinhoso, depois de coçar com a pata de trás a pulga das obsessões, estica ao máximo a coleira da ignorância e rosna a quem passa, a tudo o que mexe. Baba-se no gesto que lhe parece absoluto e vocacional, ao serviço da mais alta missão moral. Meio cego com a febre da carraça, não distingue a motoreta velha do assaltante ágil, cospe latidos que ecoam pestilentos no quintal a que chama mundo. Há sempre uma alma caridosa que lhe atira restos, não tanto para lhe matar, mas por apreciar o grande circo do patético. Que bem fica a cambalhota da dissonância no deserto!

2 Set 2020

Tudo é montanha para o homem se

Palhavã, Lisboa, segunda, 10 Agosto

 

Sujeito que sofre a acção do verbo, assim apresenta a senhora gramática o paciente. Segundo a raiz latina é aquele padece, que sabe esperar e sem pressa, por exemplo agudo, os efeitos da passagem do tempo. Conformado e submisso, isso se espera final e oficialmente daquele que está sob tratamento médico, dentro ou fora do hospital. Ser paciente implica serenidade, a aceitação não apenas do que acontece, mas daquilo a que o sujeitam. A gente sujeita-se. O doente perde, além de saúde e bem estar, direitos. Perde, além de massa muscular por estar quieto, parte da matéria que o faz sujeito. Com simpatia, logo o infantilizam: muda o tom de voz com que se lhe dirigem, os gestos de afecto ou pena com que é dirigido, a que se deve somar os exames e testes intrusivos, a entrega a conta-gotas da informação, os longuíssimos silêncios. Talvez não possa ser de outro modo, para que o tratamento seja exacto há que esculpir em cada o objecto. O ser demasiado humano torna-se intratável, só lhe acedemos pelo amor. O amor cura, mas a medicina não é amante. A actualidade, tão rica e com protocolos de resposta tão pouco subtil, faz-nos sujeitos passivos, tombados na declinação desafinada do verbo obedecer. Obediência é maca de urgências, cama de hospital, leito de cuidados continuados. Pacientar, a isso estamos condenados. Não somos todos e por completo doentes, ainda assim. Já pacientes será inevitável: o tempo não castiga, mas mastiga.

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 12 Agosto

Creio que nunca como hoje se produziram profissionais da indignação, mestres da amargura, agentes do contra. Mas contra quê? Tudo o que mexe. E a gente gosta. Habituados que fomos à sujeição durante décadas a fio, a gente bem pensante passou a gostar de valorizar quem se diz do contra. Só porque sim.

Contudo, os tempos mudaram, desde logo nas consequências para quem resolve desafinar. Hoje não há coro nem harmonia, e ninguém sofre por desatinar sem razão nem objectivo. Punk’s not dead, mas envelheceu muito e tristemente. Seria longa a lista de exemplos, mas peguemos-lhe pelo humor, aliás território seríssimo e habitual. A propósito do centenário do jornal anarquista A Batalha, no ano anterior ao da desgraça, a Biblioteca Nacional organizou exposição e nesse âmbito foi editado este «Renda Barata e outros cartoons de Stuart Carvalhais n’A Batalha» (ed. Chili Com Carne/A Batalha), onde se reúne em pequeno formato uma quase centena de trabalhos daquele grande do desenho de humor. Para se erguer uma bandeira, por estes dias, há logo que afiar o mastro e assim o tornar lança. António Baião, organizador e prefaciador, trata de disparar pontos para os is: «as várias monografias acerca da vida e obra de Stuart, citadas neste intróito, pecam todas pela quase total omissão da sua passagem pelos periódicos libertários.» Gosto logo da «quase total», no fundo a gente gostaria que fosse toda, mas em não sendo é quase. Faltam parcelas na totalidade. E uma delas, um dos alvos da diatribe, foi organizada pelo autor destes linhas e não ignora a passagem do desenhador pelas páginas daquele jornal («Stuart – A Rua e o Riso», ed. Assírio & Alvim). Só não afirma o indefensável: que foram fulcrais na obra do autor ou na identidade do famoso periódico. Stuart assinou milhares de desenhos e por todo o lado, desenhou uma cidade e as suas personagens, obedecendo muito libertariamente apenas a apetites e outras necessidades, sem que se detecte programa. Mas nada disso interessa, a este amargo radicalismo. Começa sempre pela vitimização. O anarquismo é tão maldito que ninguém lhe liga nenhuma, ainda que aconteça quando uma instituição formal da memória do Estado celebra o jornal, mas não basta a força de uma ideia. Respira-se mal na trincheira. O livro vale pela recolha «quase total» dos desenhos, sem grande investimento na qualidade das reproduções. Mas pouco acrescenta. Nada nos diz sobre a autoria das legendas, se pertencem a Stuart ou à redacção, como era prática comum. Não aborda as diferenças de estilo, quando ali se encontram alguns dos mais negros desenhos de Stuart, de par com outros que se limitam ao espelhar de um quotidiano citadino e burguês. Stuart, muito dado ao gozo, havia de se rir disto, de o fazerem bandeira quando era do vento (algures aqui na página vai um dos seus cartoons, datado de 1925 e tendo por título «Radicalismo», onde alguém oferece uma coroa em funeral de republicano: «É por essa falta de convicções que isto está como se vê!»).Triste me parece este modo de operar, vendo inimigos em tudo o que mexe, em nome de ideias que até podem ser generosas. Para os profissionais da indignação, tudo se resume ao gesto desembestado. Que jeito dá ser sempiterna vítima, para estes arremedo de pensamento!

Apesar disto e do mundo, apesar dos pesares, perante este modo pesado e mastodôntico de ver, rio-me (que belo verbo que implica o sujeito na reflexão!), na boa companhia de Stuart e Ramón [Gómez de la Serna], no seu gozoso «Humorismo».

«Lo que de mastodónico y aplastado tiene el mundo, sólo lo compensa la mirada humorística. Todo es montaña para el hombre si el hombre no es humorista. Frente al humoristo, que debe ser una maravilla de dosificación — y en eso entra el estro poético del humorista y sy verdadera vocación –, está el amarguismo.

«El humorista debe cuidar, por eso, de que ni el cómico ni lo amargo domine su creación, y una bondad ingénita debe presidir la mezcla. Al humorista ha debido comverle lo que ha escrito, aunque a los otros les haga reír o les anonade con su burla.

«El amarguismo hace doloroso el humorismo y antipático, e es obra del mal genio, en vez de ser obra del mejor genio».

Horta Seca, Lisboa, quinta, 20 Agosto

Amarga justaposição: o dia em que nos chega finalmente a esmola a que o Estado chamou apoio, em processo desajeitado e amorfo, corresponde ao pagamento de famigerado imposto e acerta em cheio no valor. De um bolso para outro, portanto, mas do mesmo casaco. A intempérie vai continuar a marcar-nos a carne. Obrigadinho é o que eu lhe desejo!

26 Ago 2020