Estremece o vento. Sobe a manhã. O calor abre.

Teatro da Rainha, Caldas, terça, 20 Abril

As sessões do Diga 33, animadas pelo Henrique Dodecassílabo Fialho, são um refrigério. Um leitor que faz da inteligência uma casa onde recebe os seus convidados, no caso, a Rita [Taborda Duarte], que lhe respondeu da mesma maneira, quer dizer, expondo-se, explicando-se, dizendo-se. Sem merdas, desculpem que o diga, mas apetece. Gente de um lado e de outro, alguma que vinha já derramada de um encontro próximo e à mesa. Aconteceu por ali vida, o que não será dizer pouco. Estando nós para mais a celebrar regressos ao que não voltará a ser normal. Possa a poesia ser o corrimão destas escadas em vórtice. Possa a palavra ser mundo, que dizes, Rita? «O mundo não é feito de pessoas nem de casas nem de coisas/ menos ainda de afectos e sentidos. / O mundo é feito com palavras perfiladas/
como pedras/ sobre pedra/ em cima de outra pedra, ainda.// São de palavras de pedra as paredes do mundo:/direitas e exactas como um fio de prumo. //Se nos tiram a língua,/ as várias línguas que tem a nossa língua:/ esta língua com que te falo,/ a língua com que te beijo,/ esta mesma língua em que te digo esse nome que tu és,/ roubam-nos mais mundo ao nosso mundo.»

Fundição, Oeiras, quinta, 22 Abril

Até o mais escuro dos ateliers me aparece tomado pela luz. Assim com o esboço: mais do que revelar a ideia que desponta, o titubear antes do salto, portanto a potência, contém a mais livre e rude das espontaneidades. Se nos passos há caminho, naquela busca encontra-se logo logo horizonte. Daí que a oficina seja bastante mais do que bainha e bastidor, erro e ferramenta, suor e preguiça. É lugar de muitas subtilezas e espectáculos. «Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,/ Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido,/ Olho e contenta-me ver». Com a mais infantil das atenções, entro, vindo do Tejo, no belíssimo atelier do Francisco [Vidal]. Correcção: no bairro do pintor.

A nave, em cujo canto repousam ainda restos das bombas, portanto destruição, que por ali em tempos se fabricavam, divide-se agora em jardim e cozinha, quadra de basquetebol e palco, carpintaria e estúdio propriamente dito. Imagino que possa ainda surgir, por conveniência, loja e laboratório. Por junto e à mão de semear. A arrumação casual das guitarras e das bolas, das serras e dos pincéis, cada detalhe diz do sagrado, da relação com o espiritual.

Sobre a decadência fabril e a fadiga dos materiais instala-se a cor gritante, abrindo vitrais iridescentes, atraindo a visão e pedindo paragem no tempo para que o corpo se permita ir atrás dos olhos. Exposição permanente, ainda mais essa. Encontram-se rostos da revolta e da afirmação, vítimas da violência, forma de os tirar da espuma dos dias para os instalar na memória política. Como ser negro com todas as cores, todas as letras? As grandes telas surgem compostas fragmentos e a pesquisa do Francisco está agora no cruzamento de técnicas mais pobres, a da impressão dos múltiplos, a da fotocópia dos fanzines, com o gesto dito puro da pintura. Talvez a cor não seja bem o tema, mas dividir a experiência assim é fazer logo autópsia do corpus vivo. De que falamos quando as catanas, lâmina e cabo, mão e corte, se alinham de modo fazer superfície que acolhe a imagem? No topo desalinhado, os bicos afiados e dissonantes não deixam de me perturbar, a pintura saindo do enquadramento, como se quotidiano procurasse o seu lugar de origem e nesse movimento nos ferisse. Deve ser por ali que se encontrará a identidade. Com risco e cesura.

Podia bem ter ido apenas pelo lugar, melhor, pelo encontro ali que há muito se adiava, mas havia razão prática: a capa para a «Ode Marítimu», versão em cabo-verdiano da brutal engenharia e celebração dos mares e portos em nós segundo Álvaro & Pessoa, ilimitado (algures na página). E no processo desencadeado me reconcilio com o papel do editor. Ignorante do seu lado cabo-verdiano, acabei despertando um entusiasmo que já partiu nas mais diversas direcções, dando nó na rosa dos ventos. Está a acontecer o reencontro do Francisco com uma das suas línguas. Partiu do texto agora reescrito pelo José Luiz [Tavares] para uma narrativa gráfica que mastiga as paisagens daquelas ilhas por junto a de uma cidade mulata. (Pode ainda dizer-te mulata sem despertar os ogres da correcção automática?) Foi-me dado ainda ver partes do processo, o modo como a feitiçaria faz a ligação entre o concreto do mundo com a prática do desenho. A pintura redefine assim os dias, nada se se pôr à parte. Por aqui não nascem museus.

Na pressa vertiginosa habitual, estava a receber as últimas correcções do poetradutor, que insistia, a cada uma, em explicar-me as razões e as raízes, quês e porquês. Exemplo seja a importância do «n», onde se esconde o eu daquela língua, ainda para mais em sonoridade escorregadia que pede ginástica da língua-orgão, para que possa acontecer a língua-sentido. O José Luiz, não sei se o disse já a propósito de Camões, vai conduzindo a nova língua para mares infindos e abissais. Contra tudo e alguns, os que insistem pouco inocentemente em chamar-lhe crioulo. «Como quase vítima de glotofagia, usuário e estudioso», diz ele, «sei bem o que está subjacente à designação ainda que se não tenha a consciência: O crioulo de Cabo Verde, língua natural dos cabo-verdianos nascidos em Cabo Verde e língua de herança de parte da grande diáspora designa-se cabo-verdiano ou língua cabo-verdiana. Crioulos todos são, como a língua românica de Portugal é um crioulo do latim. Crioulo de Cabo Verde, designa apenas uma família de língua, assim como a língua românica de Portugal também indica uma família de língua.”

5 Mai 2021

Visões do inferno e nem tanto

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 7 Dezembro

Não sei se deram por isso, mas a Livros do Meio tratou de verter para português, por obra e graça do Rui [Cascais], «Um inferno chinês», atribuído a Divino Panorama, nome justo para tão singela obra! O livrinho tem-me atormentado as noites e não falo de ilustrações, que as tem roubadas à antiguidade clássica. As torturas disputam o protagonismo com os valores da sã convivência. Um dos tribunais condenará aqueles que falam dos pecados dos outros a serem amarrados por cobras de metal e esmagados por cães de ferro. Noutro condenam-se os que se apropriam de cartas, imagens ou livros postos à sua guarda dizendo que os perderam. Também condenável se diz ser a prática da má escrita. O corpo dos inúmeros condenados irá desfazer-se das mais diversas maneiras no território. Se aprendermos a viver respeitando a luz dos outros talvez nos salvemos, mas não estou certo da leitura. Preciso de mais umas noites em branco.

Horta Seca, Lisboa, terça, 8 Dezembro

E no entanto ela move-se. A «Ilustração portuguesa» foi exposição e agora repositório das dezenas de produtores de imagens. Não gosto da expressão, mas não encontro outra, entalada entre o modo fabril e o artesanato, a exigência de um suposto mercado e o desejo íntimo de expressão. Espanta-me mais uma vez a quantidade e a qualidade do que se produz e não está tudo aqui reflectido, nem todos os que fazem, nem o muito que desenham. Mas o somatório abre janelas sobre o que se vai imprimindo nos jornais, nos livros para as infâncias, nas capas, como nos ecrãs ou nas paredes de galeria. A pandemia, por exemplo, está ausente, que a selecção foi prévia, mas próximas edições irão conter esses dias carregados de metáforas, de corpos em tensão, de retratos ao espelho, de delírios e registos do quotidiano. De qualquer modo, as facetas do cristal dos dias reflectem a luz nestas páginas. Para trás e para frente flano por entre estas construções, rostos e paisagens, para me deter no abstracto. O João [Maio Pinto] parece coreografar as melodias que se soltam da guitarra, e assim acrescenta dimensões ao que era plano antes da tinta, vazio antes do gesto. Nervuras sustentadas no que parece peça de mobiliário, figurações aparentes sustentadas por nuvens, veludo negro, subtilezas da carne. De novo, quanto de vida se perdia sem as ilustrações? Haverá vida para além delas?

Horta Seca, Lisboa, sexta, 11 Dezembro

Abrimos lugares no sítio (www.abysmo.pt). Não quisemos apenas loja, mas página onde se falará de livros e do mais a partir deles. Começámos até oferecendo distopia em rima com os dias, assinada pelo mano Zé Xavier Ezequiel. Brilhará portanto uma óbvia paixão pel objecto, reverberando no vazio, canções sólidas, formas de vestir e habitar, lâminas e algodão. Além do mais, que esperamos muito, haverá sempre encontros na «mymosa», que se chama assim pela natureza do óbvio, que naquela agora extinta sala de saciar fomes e sedes aconteceu tudo e mais alguma coisa. «Grandes conversas sobre o tempo a partir dos gregos, da física quântica, dos palcos e de Proust. Aquela sobre a pintura e como nos jogamos nela. A localização exacta do Inferno. Camões foi assunto e destino de partida.

Os detalhes do uso de variegadas drogas, desde tempos imemoriais, falas na primeira pessoa, práticas na terceira. Apareciam mágicos, dos que faziam aparecer e desaparecer. Velhos trazendo histórias e vidas pela trela. Moradores das mais distintas paragens. De súbito, ao balcão vozes cavas discutiam a teoria das cordas e o contista não queria acreditar. Aconteceram canções, mesmo que não cantadas. Fado, por uma vez. A concertina amiúde. Golpes de teatro, a dar com um pau. Gargalhadas eram o pão nosso de cada dia. Enormes momentos de futebol, com jogos dentro. E até jantares. Ou almoçares, dos que começavam ao meia dia e acabavam à meia noite, dando nós no tempo. Claro que se semearam poemas, se cimentaram amizades e outras se desfizeram. Ainda recordo o concreto de cada uma. Chorou-se, por ser o apropriado ou sem querer. Longuíssimos testemunhos de vida, gente a despir-se lentamente, locomovendo-se.»

Horta Seca, Lisboa, segunda, 29 Dezembro

Queria que acontecesse de modo semelhante, o leitor sem saber ao que vai, recebendo nas mãos um certo «Tom», e no gesto mudando a melodia dos dias. Distraidamente, terá talvez visto as três letras dançando, nos cantos inferiores da convenção. Aqui uma onda, com a linha do t prolongado atirando o redondo o pelos montes do m, delícia de movimento, a mão a fazer da assinatura ponto final. Casos há distintos, em que o t faz de antena e raiz, linha recta procurando profundezas no vazio, as restantes letras um horizonte ainda por estender. E outras declinações ainda nomeiam o produtor das imagens, um entre tantos outros, nem se dá por ele na poeira do tempo.

Mas o livro verde amplia doravante essa ligeireza. O Jorge [Silva] anda há muito a coligir papéis, pele frágil mas duradoura na qual pousam as imagens, sem que isso signifique repouso. Ainda que quietas, as imagens despertam sem cessar movimentos, a interpretação suscita o pensamento, desdobra-o em ziguezague de aproximação e afastamento das formas do real. Quanto de vida se conserva nestes traços e cores de coisa nenhuma? Foram encomendas, divertimentos, maneiras de iluminar o que se diz, de retirar ao caos uma ordem mínima capaz de sustentar olhares, de fazer cidades e por aí adiante. A verdade é que, coligidas, dizem de uma profunda plasticidade, afirmam a pés juntos dispersa identidade e nisso nos surpreende que nem madrugada. O nosso modernismo praticou o jogo com uma alegria que espanta, sem dispensar a melancolia. Foram revistas para as infâncias e cinéfilos, livros e depois produções para modelar o gosto, caricaturas a capturar rostos, cores a fixar cidades e o tanto que estas páginas ilustram. Folhear estas páginas é alinhar na brincadeira. Está lá o devido enquadramento, o lugar na fita do tempo, as explicações do artista e de quem o sabe ler, passos na direcção da armadilha, mas pouco mais importa que a sucessão libertária dos seres vivos: as imagens. Ao acaso, vejam estas duas, uma que aqui vos deixo, um galo de ferro posto algures em alto de Monsanto, a aldeia mais aldeia da grande aldeia tuga. Mas atentemos nos retorcidos do ferro, nas furações, nos recortes, nos modos de fazer penas, e digam-me onde começa a tradição e para que futuro aponta o bico. Tomás de Mello procedia com esse método em cada parte da realidade que tocava, síntese maravilhada, a extrema complexidade a pulsar na clareza. Ora como podia o nosso olhar alcançar o bicho lá no alto do longe? Só aqui, no livro de fresco verde que me surpreende com a canção do vento. Depois há um Camões actualizado, com crítica e leitura dos idos de setenta. Uma geometria a quadricular a página em fragmentos, como se a vida se tivesse desmultiplicado em partículas que convergem na cena central, um palco feito coração a pulsar com a galáxia no seu entorno. E fico horas a remirar como quem mastiga. Que interessa a disciplina onde se há-de guardar isto? Os mestres da brevidade são bem capazes de parar o tempo, e nós com eles. Poucos haviam dado por isso, mas o Jorge anda nisto há anos, a vasculhar no esquecimento para nos dizer da pujança de nomes como Pavia, Lapa, Tóssan e tantos outros. Um cata-vento, portanto. Dos que cantam direcções.

30 Dez 2020

Elogio do fósforo

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 1 Dezembro

Conversa quente pôs-me nas mãos a recente e completa edição, com abundantes notas, apresentação do seu editor primeiro e correspondência com leitores e críticos, do notabilíssimo ensaio de Isaiah Berlin, «O Ouriço e a Raposa» (ed. Guerra e Paz). Mergulhado em apneia no grande oceano das traduções literárias da última década, sinal de estranha vitalidade em país onde se lê de ouvido, fico preso ao detalhe que está na origem desta divisão dos seres vivos, logo tornada marca perene e ferramenta de análise. Berlin chega a confessar-se arrependido do título, afinal de tese sobre a visão da História em Tolstói, com paragem em Joseph de Maistre. Encontra-se brilhantismo a cada passo, dos que abrem sobre o concreto universos de pensamento, prática cada vez mais rara no ensaísmo literário contemporâneo, tão ensimesmado e afastado das coisas do mundo. O ponto de partida está no fragmento atribuído a Arquíloco, mas também a Homero, onde se observava que «a raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa importante.» Algumas interpretações incluem a manha enquanto defesa, e até surge no apêndice uma tradução alternativa: «Raposa sabe/ Enésimas/ Manhas e ainda/ É apanhada:/ Ouriço sabe/ Uma mas ela/ Funciona sempre.» Quem se fecha, escapa. Os entusiastas não evitam as armadilhas da curiosidade. Basta este fósforo para que o ensaísta incendeie a planície do pensamento. E nos ponha a mapear a vida segundo os percursos de fogo do diletante e do obstinado.
«Existe um grande abismo entre, por um lado, aqueles que associam tudo a uma visão única central, um sistema mais ou menos articulado, a partir de cujos termos compreendem, pensam e sentem – um princípio organizador único, universal, sobre o qual o significado de tudo o que são e dizem assenta em exclusivo – e, por outro lado, aqueles que perseguem muitas pontas, frequentemente não relacionadas e até contraditórias e, quando relacionadas, apenas nalgum sentido de facto, por alguma causa psicológica ou fisiológica, não relacionada com um princípio moral ou estético. Estes últimos conduzem vidas, desempenham actos e alimentam ideias centrífugas e não centrípetas; o seu pensamento é disperso ou difuso, move-se em muitos níveis, agarra-se à essência de de uma vasta diversidade de experiências e objectos por aquilo que eles são, sem, consciente ou inconscientemente, procurar excluí-los ou procurar que caibam numa qualquer visão unitária interior, imutável, abrangente, por vezes contraditória e incompleta, por vezes fanática.»

Horta Seca, Lisboa, quarta, 9 Dezembro

Demoramos talvez demasiado a tempo a entender que a vida não se faz de maneira única, dá que nos dá jeito. E por vida digo os outros, no caso os que bicicletandam. Nem tudo se constrói na base das palavras e de longas conversas. Por exemplo, tratamos a doença sem aquele cuidado desprezo que merece. A dita tem a mania de se chegar a nós e ocupar-nos por completo. Convém adestrá-la a doce e chicote, para que aprenda a respeitar-nos. Quem diz alimento e disciplina, diz olhar. Era essa a tua ferramenta, Edgar, e nessa troca de cromos nos fomos encontrando. Andavas por estes dias a exercitar a maquineta que te transportava o olhar ao céu. Andavas a treinar, safado. Naquilo o teu Oeste tornou-se distinto. O território ganhou outras texturas, contornos mais desenhados, a visão de conjunto, assim uma redução ao essencial. Com vista para o mar. Saltavas do detalhe discreto ao voo épico. Mas andavas lá por cima como se de bicicleta. As duas rodas prolongam-nos o corpo de uma certa maneira, assim uma peça de roupa, uma varinha de vedor, aqui água, ali caminho, acolá miradouro. E a tua timidez não dispensava gente, a gente. Tocavas música como quem anda de bicicleta nas nuvens. A fotografar, claro. Como aqui, nesta a rasgar a página, pertença de um portefólio para a «Torpor» sobre certo lugar de partidas e chegadas. Não falámos assim tanto da doença, mesmo lá no território que ela pensa ser o dela. Trocámos olhares, sobretudo nos dias em que a paragem do mundo fora agravava os silêncios dentro. Falámos de chapéus e da ausência dos rostos. Não era este silêncio que estava combinado entre nós e, além disso, a tua rua precisava ainda de som e de uma certa luz, a que resulta de quem pedala no escuro com o dínamo na roda. Vai custar a perceber o que foste iluminando à toa. Em Óbidos como nas Caldas da Rainha, as ruas ficaram mais estúpidas agora que o Edgar Libório morreu.

Horta Seca, Lisboa, quinta, 10 Dezembro

A Câmara Municipal de Lisboa resolve, em boa hora, estender programa de apoio cheio de urgências e boas intenções à restauração e outros sectores a rimar com aflição. E vai de incluir no pacote a cultura, por causa do óbvio e da pobreza. Crédulo, achei que talvez coubéssemos na gaveta. Nada disso: as editoras são inelegíveis. Pensando melhor, a que raio de necessidade damos nós, gastadores de papel e tempo, resposta? As florestas respiram de alívio. E podem continuar a dar abrigo aos medos ancestrais.

Horta Seca, Lisboa, quinta, 10 Dezembro

Os manos Valério [Romão] e José [Anjos] estão ocupados a reinventar o neorrealismo. Nasceu em bar, há muitas luas, e estava fadado para ficar por ali, revisitação episódica da antologia peculiar, «Iron Moon: An Anthology of Chinese Worker Poetry», de Eleanor Goodman. Onde mais poderia ficar a pátria do trabalho fabril senão na China? Esqueçam a prática milenar de captura dos versos etéreos nascidos da aguda observação da natureza ou dos subtis entrechoques do comportamento, enfim, dos estreitos caminhos que dão acesso à sabedoria. A realidade faz-se âncora, nestes versos não se levanta voo. «O trabalhador fabril contemporâneo chinês tem as mãos no século XXI, na linha de montagem, e o resto do corpo no século XIX. Exaustos, estes trabalhadores encontram nos produtos da indústria que os explora um refúgio inesperado. Passam parte das suas noites diminutas a escrever poemas nos ecrãs dos seus telemóveis e a publicá-los em fóruns onde se trocam versos amargos e os emojis de sorrisos possíveis. Pela primeira vez na história da China, a poesia não sai da rua para os corredores do palácio do imperador. Aquilo que os esmaga é também o que os liberta.» O tema de apresentação dos mao-mao dá ideia da dureza que se exprime com soturnidade: https://youtu.be/3ASWAD99JZc. «Filho» nasce de um poema de Chen Nianxi, trabalhador mineiro da província de Xianxim. Curioso vislumbre da sombra do punk nos amanhãs que serão cantados no concerto/espectáculo, do qual tomarão ainda parte Pedro Salazar (baixo) e os convidados especiais Sandra Martins (arranjos de violoncelo), Paula Cortes (voz) e António Jorge Gonçalves (imagens). Alguma ironia se deve soltar de aguardar o dito na vizinhança do ministério de uma economia tão amarelo-dependente.

16 Dez 2020

Ai que

Horta Seca, no passeio, Lisboa, quarta, 4 Novembro

A sensação não nasceu por estes dias, mas acabo também eu por não praticar como devia o mergulho nas águas profundas da ficção científica. O almoço com o Filipe [Homem Fonseca] soube-me a intergaláctico, e dei por mim, sem uso de estupefacientes, a ver-nos tocar cada um para seu lado o teremim, que ele sabe bem e eu nada. Aliás, o instrumento exacto para quando nos impedem o contacto. Pode ter nascido daqui algo de outro mundo, mas a transversalidade do encontro deixou-me com mais rasgões do que a assistente serrada do mágico desajeitado. (Em breve e a propósito, a abysmo dará passo na direcção do mais-além viajando com prosa negra de FC. Sigam-nos se querem ver.) Vai daí, lembrei-me desta perturbadora ilustração de um extraordinário explorador visual destes territórios, Virgil Finlay (1914-1971). Fê-la para Hepcat of Venus, de Randall Garrett, onde um Observador Galáctico, semi-deus tudólogo, se deixa surpreender por «a jive trio in a beatnik hangout» onde os instrumentos são extensões do corpo dos intérpretes. Que andamos nós a compor e a tocar?

Horta Seca, Lisboa, quarta, 2 Dezembro
Revejo os ares e faltaram-me bumerangues: além de livros, que a casa quer-se pôr a celebrar a sua década e nisso há jornais, catálogo ambicioso, edições ainda mais especiais, e antologia peculiar, faltou tomar nota dos lugares doidos que querem cruzar o território com a palavra, o outro bêbado de vanguardismos que querer misturar realidade e ficção, ou os trabalhos em mãos com o João Francisco [Vilhena] para misturar rostos e memórias, e portanto território e ficção e palavra com realidade. Só para não me esquecer onde vou.

Horta Seca, Lisboa, sexta, 4 Dezembro

«Voilá: estava eu na minha biblioteca e o meu filho aproxima-se: ó mãe, diz ele, seria possível procurar-me nesta barafunda um livro que me emprestaram e eu quero devolver? Digo que sim, talvez, quem sabe. E como se chama o livro? Gritos da Minha Dança, responde-me.» Assim em sonho surgiu a Fernanda Botelho o nome deste seu derradeiro volume, que não o das Obras Completas, que a ordem escolhida foge à cronologia e procura propor maneiras de entrar em obra interpeladora. Outro objecto, mais ou menos inclassificável, colecção de fragmentos apanhados ora do chão quotidiano ora do céu da fulgurância. Tropeçamos a cada passo em subtilezas, de observação, de pensamento. E leituras de si. O conjunto apropriadíssimo para o entorno. «Que ninguém, no entanto, se engane ou caia em confusões: não será determinantemente uma biografia, muito menos uma autobiografia, se bem que de ambas tenha a sua parte. De diário, mensário ou anuário também um tanto terá, desordenado, ao sabor de caprichos ociosos, de apetites pontuais, de exigências compensatórias de silenciosas carências, de descargas emotivas, de recalques finalmente soltos e galopantes…»

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 4 Dezembro

No dia em farias 90 anos, neva na tua Gardunha. Nunca te tratei por tu, pai, mas justifica-se agora para te dizer que a tenho visitado, nas palavras de portadores de ideias e comboios e granito e nuvens. Qual delas se trabalha melhor a maceta e escopro?

Santa Quitéria, Lisboa, segunda, 7 Dezembro

Afazer de susto põe-me a bater à porta da novíssima Snob em tarde chuvosa. Não há melhor lugar de recolhimento das intempéries, ainda que modestas ou íntimas, que uma livraria. Melhor ainda se fechada, a não ser para responder a sedes de passagem. A volta a dar será a do costume, estantes a esconder paredes, mesas a ocupar o centro com os rostos vociferantes ou sussurradoras. O novo convive aqui com o velho para dizer o óbvio, os tempos afinam-se para além dos calendários. Se fora o Inverno se anuncia, sem grande glamour, a arrumação dentro não esconde a imensa tempestade que aqui se conserva prestes a explodir em quem queira. Pode aceder-se à incontável floresta de lombadas de muitas maneiras, mas o bom livreiro conhece-as todas, temas e geografias, claro, mas também capistas e tradutores, desconfio que até tipos mal encarados e os tipográficos. Além da coordenada que interessa apenas a uns quantos, as editoras. (Tive a prova há tempos na Feira do Livro da capital quando um leitor atento trazia lista de bons livros, mas estava perdido por não saber onde encontrar as mães de cada um dos seus orfãos. Fiz de frustre livreiro, na ocasião.) Alegrei-me, portanto, com a nova casa do vagabundo Duarte [Pereira], que não deixou nunca de espalhar sabedoras orientações para quem navega em alto mar. Um farol, fica dito, dos que não se apagam nem quando o ecrã se quebra ou os satélites se escondem do lado errado.

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 8 Dezembro

Fora isto diário despido, sobretudo dos enquadramentos, do sobretudo das consequências, teria que colocar aqui os veios do mármore em que tenho embatido. Faz um tempo de avaliações miudinhas, de molha tolos, portanto, e não escapo sem que a realidade me encharque. Um amigo, desconfio que sem querer ou por achar que eu devia ter disso consciência, deixa claro em amistosa conversa que a abysmo não está na lista das editoras capaz de enfrentar e servir a sua obra. Afinal, pouco mais será que capricho de meia idade de um doidivanas. Uma viagem em passo de corrida à tradução da última década deu-me a entender a que acontece uma atenção fervilhante e diligente às mais obscuras e perigosas paisagens do mundo literário. E nós, ensimesmados? No site, essa coisa prática e óbvia que conseguimos tornar projecto peregrino, o blogue vai chamar-se Mymosa. Quando a pandemia fechou a Mimosa do Camões, todos percebemos que o mundo e nós com ele havíamos mudado mais do que pensávamos. Durante uns anos valentes, aquelas salas foram prolongamento bastante mais do que físico do que a editora foi sendo. Ao fazer texto que olha para aquele mundo agora em ruínas, interrogo-me se não terá sido fogo fátuo, se dali terá nascido outra coisa que não espuma, se foi haiku. Diz o Luís [Carmelo], o primeiro a pôr o lugar no mapa da língua, no seu poema «Mymosidades», que acabou por dá origem à sua Nova Mymosa, depois de lido em voz alta em noite orgíaca: «[…]É verdade que o presente é um olimpo a desfazer a espuma nos lábios,/ talvez um estuário ou a cona de onde surgiu a cabeça e a maré a gritar a forma do/ ângulo raso. […]// Por vezes, há factores arbitrários/ como naquela noite em que nos sentámos a falar da tabuada/ e a bússola que cegava certezas se transformou/ no craque do lápis a quebrar-se em duas partes.// Foi o mais belo Haiku da minha vida.»

9 Dez 2020

Dias canhestos

Horta Seca, Lisboa, sexta, 28 Agosto

Estranho esta ideia de férias em plena pandemia. O mundo está a acabar, mas convém continuar a pôr óleo nas engrenagens do costume. Devidamente autorizado a sair, brinco com as minhas rotinas, que sempre misturaram prazeres e deveres, os diversos calendários, horários e agendas. Talvez explique este andar feito num oito. Tanto tempo parado e não me atrevi à planificação que tenho de fazer com uma urgência de sede. Antes há decisões por tomar, talvez realinhamentos de direcção, muito tacteamento de sentidos, quem sabe desdobramentos, mas também murros na mesa. Para já, alegro-me por poder contar com dois novos nomes.

Logo o de Luís Cardoso, que há muito se empenha em criar uma cosmogonia, literária convém sublinhar, para um país perdido nos mitos, Timor. E tem-no feito com uma língua na qual a água soa de muitas maneiras e discorre com uma elegância muito própria. Este romance será pedrada no charco, pelas personagens e acontecimentos que evoca, com extrema maturidade e polida palavra.

Depois o Nuno Bragança, outro daqueles autores que me justificam a criação de uma editora. Excluo o fascínio pela personagem, que interessa aqui e agora o seu texto-laboratório, ferramenta de constante alinhamento das perspectivas e dos seres. Para já trataremos dos ensaios sobre cinema, que revelarão muito do fascínio pelas imagens projectadas, pela construção da narrativa, pelo alcance máximo da vida.
Temos mais (com) que contar. Convém confundir a realidade com a literatura, dispersar uma na outra. Ou não valerá a pena.

Mouriscas, Abrantes, terça, 1 Setembro

Vejo a morte anunciada da Cotovia e o lamento dialogado da Fernanda [Mira Barros], nas redes: « – Imagino como se sente. – Não. Não imagina.» E discordo: imagino, sim! A editora não é a nossa vida. A editora pode bem ser uma vida inteira. Tendemos a fazer coincidir a editora com o seu criador, mas seria injusto atribuir o essencial da Cotovia ao André Jorge, pois também a Fernanda foi asa do pássaro. E teve a desventura de a herdar, com tudo o que acarreta. Na medida da solidão de cada um, consigo aproximar-me deste senso comum da perda.

Devo à Cotovia parte do que fui sendo. Não seria este corpo sem aqueles livros, aqueles autores, aquelas escolhas. E tive a sorte de subir os degraus daquela editora em espiral, de cumprimentar gatos e beber café em chávenas altas, de aprender ofícios e visões e sabores. Sinto muito perder o cantar de bicho que ainda agora nos trouxe monumental «Eneida». Quem sabe se não regressará rouxinol.

Não terá sido a primeira vítima da crise, não será a última. Estranhamente, o acontecido e o anunciado devia aproximar uma certa raça de editores, na busca de territórios partilhados, de respostas comuns, de associações livres para além do nos possa dividir. Será caminho difícil de trilhar em terra árida de cidadania e em tempo que celebra a vilania escudada na mais patética celebração da individualidade.

Mouriscas, Abrantes, quinta, 3 Setembro

Tenho poucas histórias partilhadas, mas bastam-me duas para sentir a perda de Francisco Espadinha, isto além da admiração pela obra como editor, pautada por equilíbrios dignos de estudo, que soube criar sucessos com a ficção em português, não esqueceu a poesia e soube trazer para esta língua autores do mundo inteiro. Devo à Presença parte do que fui sendo. Lançámos em conjunto, ele o mais recente romance do Helder [Macedo], eu uma antologia da poesia do mesmo autor, atravessada pela óptica do Paulo [José Miranda]. A meio da função, com exacta descrição, veio dizer-me o quanto lhe agradava esta colaboração, sobretudo por ser rara no panorama nacional. Meses depois, aquando da falência da Urbanos, a distribuidora que então (mal) nos servia, foi um dos dois editores que me ofereceu ajuda (sendo o outro também da sua geração). Fiz mal em não ter aceitado.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 6 Setembro

Dizem que as Feiras do Livro estão a correr bem, mas não se tal será sinónimo de venda de livros ou de adesão de públicos. São mais os passeantes que os compradores, disso estou certo, e o interesse destes parece estar, antes do mais, nos preços. Saldos, eis o segredo. Vender pelo mínimo, em hora h, esmagando por completo essa ideia tontas de valor, de custo aceitável ou sustentável. Pouco importa o sustento, apenas o circo sanguinolento da produção: imprimir novidades a cada minuto, em ritmo estonteante que a só aproveita à facturação. A ninguém interessa enfrentar os modos de fazer, velhos e cegos.

Por razões diversas, do preço à saúde, a abysmo não tem pavilhão próprio, sendo acolhida, em Lisboa e no Porto, pelo pavilhão da Afrontamento, afinal o da nossa distribuidora-armadilha. O ano passado, em Lisboa, fomos atirados para uma canto agradabilíssimo, de sombra e verde, mas arredado das rotas de circulação. No Porto foi pior: ficámos a comer o pó e o ruído das obras do pavilhão ex-Rosa Mota, no fim de uma rua que dava para um lago. Continuamos entre assombração e charco.

Horta Seca, Lisboa, segunda, 7 Setembro

O envelope vem duplamente fechado, com uns rectângulos de fita castanha a marcar o triângulo da abertura no verso, para que não se solte a não ser pela faca o que transporta desde o Oeste. (Uma impressão dourada e em relevo de uma águia de asas abertas sobre o globo diz de um tempo em que as viagens eram a grande paisagem, sentido para uma vida inteira). Extraído a golpe de rasgo, eis objecto feito de texto a envelopar caderno de corpos que se desdobram, múltiplos e uno: «como falharam cortar-me a cabeça talharam-me um corpo mais pequeno». O texto é circular como seiva e faz de corpo protector das folhas frágeis, cada uma tornada palco-tela de suavíssimo bege onde corpos inteiros e assexuados se deixam intervir pelo traço. Cada traço um rasgo, até que o líquido explode em dupla página, uma dupla sombra aguarelando-se em posição mais aberta, deitada e posta à disposição. «Para me suster neste corpo encolhido, sobre mim desdobrei-o, e ao fabricar um corpo duplamente canhestro consegui ficar de pé porque,». A vírgula, pequeno rasgo, diz volta ao início, «como falharam cortar-me». Uma simples frase, talvez poema de versos por montar, pele de figura, faz as vezes de manifesto. Ecoa: sobre mim desdobrei-o. Mudam-se assim os dias por força de uma ideia. Fulgurante que nem raio. A Isabel Baraona vai oferecendo obra assim, com cortante singeleza (detalhe algures na página). Os envelopes e os pincéis são lâminas de talhar corpos. À medida dos dias.

9 Set 2020

Há os homens

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 13 Agosto

 

O mundo não acabou para a Notre Dame de Paris, mas algo se perdeu nas chamas. Assim o mundo rural não acabará, apesar de morrer a cada verão incendiado. Se nas ondas revoltas se naufraga, que palavra espelha o afogamento em mar de chamas? Ardência? Nem todos os finais são abruptos, há formas de ir soltando ser, deixar pele nas silvas, aguentar o amargo do fracasso, o fel da injustiça, a banalidade da desorientação. A Notre Dame não perdeu o seu anjo, aquele que sopra trompa como continuação do corpo, seta disparada ao chão na vez de atirada aos céus, e assim se toca anunciando, a graça ou o fim. Aquando do incêndio do ano passado circularam fotos nas quais com olhar se infantil se vislumbrava anjo de fumo abraçando o pináculo em chamas, figura interpretando o tema derradeiro do instrumento. Blaise Cendrars não desdenharia a potência da imagem, a profecia do gesto. Afinal, já no final de outro século, em 1917 (o século extingiu-se na Grande Guerra e não na folha do calendário) nos dava a ver «O Fim do Mundo Filmado pelo Anjo N(otre) – D(ame)» (edição da Assírio & Alvim, com tradução de Aníbal Fernandes). Os desenhos de Fernand Leger no original fazem paisagem com corpos e letras, palavras, fazendo com elas catedral, cidade, caos. Desfazendo o cima e o baixo, as orientações e os sentidos, brotando em cores básicas do vale das páginas. As letras são estilhaços do fim do mundo. E o Anjo ergue-se sobre o seu sopro, desloca-se empurrado pelo som. Blaise intuiu que o cinema havia acabado de se criar para registar o epílogo, como a revolução foi televisionada e este apocalipse quedo brotou das redes e do santo algoritmo. Mas aquele mundo de antanho havia de ser superprodução com figurantes sem conta e a natureza a recriar-se perante os olhos dos espectadores por haver. No tradicional lugar comum do finamento a vida de cada um passa-lhe em filme, revisão da matéria vivida. Neste do Anjo N.-D. tratou a natureza de se rever em jogo de formas geométricas e orgânicas. «Tudo espirra. Tudo se mistura. Pan. Demónio. O mar oleoso, pesado como asfalto. A terra enegrecida, sangrenta, a liquefazer-se. As ondas transformam-se em montanhas e os continentes afundam-se. Torvelinho.» O crescendo termina quando «o último raio de luz corta o espaço caótico como a barbatana de um tubarão…» Cabe à luz, parceira do verbo nos inícios bíblicos, o papel de ultimar. Um fogo largado à aparelhagem põe o filme a correr às arrecuas. E o Deus-pai de todos os princípios e também deste fim do mundo regressa, capitalista de charuto e automóvel de luxo que havia espoletado tudo com uma grande feira de religiões em Marte. Retrato dos dias nossos nos dai hoje, veja o leitor se não somos de Marte. «A multidão dos Marcianos comprime-se à frente da cavalgada. Vemo-los nas bolas de sabão que lhes servem de habitáculo, como imponderáveis fetos metidos em frascos. Matizam-se como camaleões e adquirem cores, de acordo com os sentimentos que os agitam.» Só que Deus excedeu-se e a feira apresenta-se «demasiado vulgar», uma orgia de anúncios e música em altos berros, o horror dos espectáculos, de certas cenas, dos sacrifícios dos animais, a repugnante exposição dos mártires, a fixidez das máscaras, a crueldade das danças, «todos os meios ferozmente sensuais explorados nesta grande parada das religiões» assustam os marcianos que fervem e explodem empurrando Deus para o deserto onde resolve concretizar as profecias. O homem certo para o «trabalhinho» é o da câmara de filmar, que assim começa a descrever-erguer a cidade-mundo . Aliás, as cidades ajuntam-se frente a Notre Dame de Paris até que o Anjo incha as bochechas. «Tudo o que os homens construiram desaba imediatamente sobre os vivos e soterra-os. Só que ainda tem um resto de vida mecânica resiste mais dois segundos. Vemos comboios andar sem comando, maquinas rodar em vazio, aviões cair como folhas mortas.» Depois o cinema, «acelerado e ao retardador», o da natureza. São frases curtas, lâminas em torvelinho. Descrições exactas, que me fazem hesitar entre Godard e Malick para assistentes de realização. Desnecessários, que o texto revela-se bem, boa companhia neste deserto atravessado a nada. Blaise pariu-o de jacto, «a minha mais bela noite de escrita», sem emenda nem remédio, para nunca se desfazer em luz projectada. Além do brilho próprio, claro. Tinha 30 anos, era editor e estava a fazer contas à vida.

«Hoje, que já não acredito em nada, a vida não me suscita mais horror do que a morte, e vice-versa.
Fiz a pergunta a todos os meus amigos: “Estás pronto a morrer agora mesmo?” Nunca nenhum deles me respondeu. Eu estou pronto; mas também estou pronto a viver mais cem mil anos. Não será a mesma coisa? (…)

Há os homens. Não nos devemos levar muito a sério.»

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 27 Agosto

Homens há que semeiam no deserto. Dia 8 de Setembro nascerá, ali para Alvalade, novo lugar de cultura, sobretudo fotográfica, com foco e desfoque no fotojornalismo. Francisco Leong, Luís Filipe Catarino, Jérôme Pin e o Bruno [Portela] são as almas penadas que assombrarão o CC11, começando com a exposição «Diário de uma pandemia». Pediram a este escriba que olhasse para dúzia e meia de (façanhudas) capas de jornais e revistas tugas.

«A coreografia revela confrontos, ou melhor, idas e vindas, aproximações e cruzamentos, enfim, dança entre drama e quotidiano, apelos tonitruantes ao épico e a voz baixa do trivial, o dentro e o fora, a vista de longe e o íntimo, heróis e líderes, o tudo na mesma no miolo da excepção.

Torna-se fascinante acompanhar os olhares dos fotógrafos sobre o vazio. Os viadutos, lugar de passagem, canal para o sangue que alimenta a grande máquina em movimento contínuo, tornaram-se traços na paisagem. O homem só em plano próximo repete-se à exaustão. Não apenas como metáfora brilhando sobre a humana condição, mas ligando-o ao acontecimento, essa notável mestria do fotojornalismo. O primeiro plano daquele que passa tem como fundo um santuário das multidões. Que lugar para a fé neste instante? O indivíduo que cruza infindável passeio sob viadutos e prédios altos de cidade futurista leva de sacos de compras, a única razão de saída, e, está bem de se ver, máscara.»

Mouriscas, Abrantes, sábado, 30 Agosto

Alguém passa na estrada e o Cão Tinhoso, depois de coçar com a pata de trás a pulga das obsessões, estica ao máximo a coleira da ignorância e rosna a quem passa, a tudo o que mexe. Baba-se no gesto que lhe parece absoluto e vocacional, ao serviço da mais alta missão moral. Meio cego com a febre da carraça, não distingue a motoreta velha do assaltante ágil, cospe latidos que ecoam pestilentos no quintal a que chama mundo. Há sempre uma alma caridosa que lhe atira restos, não tanto para lhe matar, mas por apreciar o grande circo do patético. Que bem fica a cambalhota da dissonância no deserto!

2 Set 2020

Tudo é montanha para o homem se

Palhavã, Lisboa, segunda, 10 Agosto

 

Sujeito que sofre a acção do verbo, assim apresenta a senhora gramática o paciente. Segundo a raiz latina é aquele padece, que sabe esperar e sem pressa, por exemplo agudo, os efeitos da passagem do tempo. Conformado e submisso, isso se espera final e oficialmente daquele que está sob tratamento médico, dentro ou fora do hospital. Ser paciente implica serenidade, a aceitação não apenas do que acontece, mas daquilo a que o sujeitam. A gente sujeita-se. O doente perde, além de saúde e bem estar, direitos. Perde, além de massa muscular por estar quieto, parte da matéria que o faz sujeito. Com simpatia, logo o infantilizam: muda o tom de voz com que se lhe dirigem, os gestos de afecto ou pena com que é dirigido, a que se deve somar os exames e testes intrusivos, a entrega a conta-gotas da informação, os longuíssimos silêncios. Talvez não possa ser de outro modo, para que o tratamento seja exacto há que esculpir em cada o objecto. O ser demasiado humano torna-se intratável, só lhe acedemos pelo amor. O amor cura, mas a medicina não é amante. A actualidade, tão rica e com protocolos de resposta tão pouco subtil, faz-nos sujeitos passivos, tombados na declinação desafinada do verbo obedecer. Obediência é maca de urgências, cama de hospital, leito de cuidados continuados. Pacientar, a isso estamos condenados. Não somos todos e por completo doentes, ainda assim. Já pacientes será inevitável: o tempo não castiga, mas mastiga.

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 12 Agosto

Creio que nunca como hoje se produziram profissionais da indignação, mestres da amargura, agentes do contra. Mas contra quê? Tudo o que mexe. E a gente gosta. Habituados que fomos à sujeição durante décadas a fio, a gente bem pensante passou a gostar de valorizar quem se diz do contra. Só porque sim.

Contudo, os tempos mudaram, desde logo nas consequências para quem resolve desafinar. Hoje não há coro nem harmonia, e ninguém sofre por desatinar sem razão nem objectivo. Punk’s not dead, mas envelheceu muito e tristemente. Seria longa a lista de exemplos, mas peguemos-lhe pelo humor, aliás território seríssimo e habitual. A propósito do centenário do jornal anarquista A Batalha, no ano anterior ao da desgraça, a Biblioteca Nacional organizou exposição e nesse âmbito foi editado este «Renda Barata e outros cartoons de Stuart Carvalhais n’A Batalha» (ed. Chili Com Carne/A Batalha), onde se reúne em pequeno formato uma quase centena de trabalhos daquele grande do desenho de humor. Para se erguer uma bandeira, por estes dias, há logo que afiar o mastro e assim o tornar lança. António Baião, organizador e prefaciador, trata de disparar pontos para os is: «as várias monografias acerca da vida e obra de Stuart, citadas neste intróito, pecam todas pela quase total omissão da sua passagem pelos periódicos libertários.» Gosto logo da «quase total», no fundo a gente gostaria que fosse toda, mas em não sendo é quase. Faltam parcelas na totalidade. E uma delas, um dos alvos da diatribe, foi organizada pelo autor destes linhas e não ignora a passagem do desenhador pelas páginas daquele jornal («Stuart – A Rua e o Riso», ed. Assírio & Alvim). Só não afirma o indefensável: que foram fulcrais na obra do autor ou na identidade do famoso periódico. Stuart assinou milhares de desenhos e por todo o lado, desenhou uma cidade e as suas personagens, obedecendo muito libertariamente apenas a apetites e outras necessidades, sem que se detecte programa. Mas nada disso interessa, a este amargo radicalismo. Começa sempre pela vitimização. O anarquismo é tão maldito que ninguém lhe liga nenhuma, ainda que aconteça quando uma instituição formal da memória do Estado celebra o jornal, mas não basta a força de uma ideia. Respira-se mal na trincheira. O livro vale pela recolha «quase total» dos desenhos, sem grande investimento na qualidade das reproduções. Mas pouco acrescenta. Nada nos diz sobre a autoria das legendas, se pertencem a Stuart ou à redacção, como era prática comum. Não aborda as diferenças de estilo, quando ali se encontram alguns dos mais negros desenhos de Stuart, de par com outros que se limitam ao espelhar de um quotidiano citadino e burguês. Stuart, muito dado ao gozo, havia de se rir disto, de o fazerem bandeira quando era do vento (algures aqui na página vai um dos seus cartoons, datado de 1925 e tendo por título «Radicalismo», onde alguém oferece uma coroa em funeral de republicano: «É por essa falta de convicções que isto está como se vê!»).Triste me parece este modo de operar, vendo inimigos em tudo o que mexe, em nome de ideias que até podem ser generosas. Para os profissionais da indignação, tudo se resume ao gesto desembestado. Que jeito dá ser sempiterna vítima, para estes arremedo de pensamento!

Apesar disto e do mundo, apesar dos pesares, perante este modo pesado e mastodôntico de ver, rio-me (que belo verbo que implica o sujeito na reflexão!), na boa companhia de Stuart e Ramón [Gómez de la Serna], no seu gozoso «Humorismo».

«Lo que de mastodónico y aplastado tiene el mundo, sólo lo compensa la mirada humorística. Todo es montaña para el hombre si el hombre no es humorista. Frente al humoristo, que debe ser una maravilla de dosificación — y en eso entra el estro poético del humorista y sy verdadera vocación –, está el amarguismo.

«El humorista debe cuidar, por eso, de que ni el cómico ni lo amargo domine su creación, y una bondad ingénita debe presidir la mezcla. Al humorista ha debido comverle lo que ha escrito, aunque a los otros les haga reír o les anonade con su burla.

«El amarguismo hace doloroso el humorismo y antipático, e es obra del mal genio, en vez de ser obra del mejor genio».

Horta Seca, Lisboa, quinta, 20 Agosto

Amarga justaposição: o dia em que nos chega finalmente a esmola a que o Estado chamou apoio, em processo desajeitado e amorfo, corresponde ao pagamento de famigerado imposto e acerta em cheio no valor. De um bolso para outro, portanto, mas do mesmo casaco. A intempérie vai continuar a marcar-nos a carne. Obrigadinho é o que eu lhe desejo!

26 Ago 2020

Uma palavra onde qualquer coisa

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 3 Julho

 

Deu umas voltas, logo depois das que contém desenhadas. Diz o carimbo que é oriundo do Alto Minho, embora a assinatura marque Caldas da Rainha. Estou em crer que a matéria do meu corpo outra não é senão papel. São páginas do diário da Isabel Barahona (algures na página), reproduções enriquecidas de modo a que o objecto se torne único: rostos, casas riscadas, começos de textos, uma folha de papel copiador kores 420 fabricado em Portugal, com aquele azul tão especial, «turbulento negro e tónico/ poço fundo do ventre-coração», corpos em linha, rasuras, palavras manuscritas redondamente, aqui maiusculadas: «re-escrever re-começar». Há gente do lado de lá em busca de um rosto-casa, (des)inquietados por um qualquer sentido, uma demanda. Amizade será este modo de abrir janelas nestas paredes. Abandono-me neste espreitar.

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 3 Agosto

No meu calendário, o ano veste à justa o confinamento. Logo cedo recebi mensagem de «força» do José Ricardo [Nunes] sob a forma deste redondo e apuradíssimo objecto, «Si dispensa dai fiori» (ed. Volta d’mar). Demorei tempo a lê-lo. Passei muito tempo com ele. Fez-se-me refrão, tatuagem: «a minha cabeça é o meu castelo// o meu corpo cabe à justa/ dentro destas paredes». O meu corpo exigiu atenções, foi-se (des)fazendo parede caiada, plena de fissuras magnéticas, até esconsos ressonantes. Segui as pontes de onde provinham os versos, a figura inquietante de Gesualdo, música e fantasma, a pintura de Caravaggio, carne e luz, modelo e tema, raiz concreta e imanência volátil, «até não me lembrar de nada/ estratégia nenhuma,/ tudo fazer parte/ não haver sempre». Deixei, de súbito, de ter o sempre que afinal não havia.

Noutro poema, sempre em voo picado, encontro-me nos «manuscritos atirados para um canto/ deixados semanas sobre uma cadeira/ o espírito da carne/ os saltos bruscos no tempo/ os alongamentos da memória// tudo o que somos/ desfeito por tudo o que somos// sem ser conhecido início/ nem haver propriamente fim».

Agrada-me esta perseguição, este jogo de escondidas com o espelho, a deitar a língua de fora à morte, a desfiar memórias com vista à ressurreição, a regar e dispensar flores, rasurando os monólogos interiores com que ajustamos contas, com que nos ajustamos. Contas feitas, «o que sobra de um homem/ é o seu início». Tens razão, pouco mais resta, mas podemos ainda por uma vez reiniciar, preparar a tela e acertar-lhe com a cor, inventar-lhe um corpo. Podemos ser homem só de inícios? Há muito encontrei uns quantos a quem a vida assenta como luva, que a vestem sem dor nem atrito, enquanto noutros só o gesto singelo de respirar implica esforço e balanço, ranger de arestas, dispêndio de energias. Vou continuar a regressar a estas goivas, de modo a amaciar o madeirame das paredes, que continuam a estender-se em castelo. Ou para lhe escavar os veios em busca de sinais no sangue. Ou com delicadeza para nelas marcar os dias. Para contagem posterior, talvez memória futura.

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 4 Agosto

Chegamos ao livro pela autora, Nathalie Sarraute, antes mesmo de no detalhe encontrarmos Luísa Dacosta como tradutora com voz própria, ou (re)pararmos na capa de Sebastião Rodrigues, antes e depois da leitura, para perseguir a ideia movediça que se esconde na elegância das formas. Uma mão negra com as suas linhas marcadas e explicadas a branco, ligações aos ritmos e pulsações de um universo mai-las suas narrativas a prometer facilidades, fios que suspenderão a marioneta. Mas não sei, confesso, se isto queria dizer o desenhador acerca de «Planetarium» (Editorial Minerva). O amarelo parece ter contaminado o miolo, com as páginas quebradiças, como se os olhos tivessem sido pequenos sóis a consumir o branco líquido das páginas. Alguns mistérios se conservam, para além do que as palavras contam, uma dança estonteante de subtilezas, de agudas observações à volta do que mobila as existências, portas e tapetes, cadeiras ou bibelots, assim mais objecto o coro de vozes que desvela modos de ver, as carambolas que resultam do entrechoque singelo entre cada um e o outro, o quase nada que pode tornar-se carne da existência. Cada monólogo um planeta em sistema nem sempre solar, rodando sobre si e projectando nos outros o olhar respectivo, visão com sombras. «Não há união completa com ninguém, são histórias que se contam nos romances – todos sabem que a intimidade mesmo a maior é sempre atravessada a todo momento por relâmpagos silenciosos de fria lucidez, de isolamento…» E o narrador faz de força gravítica, não o lemos apesar de omnipresente, ou só o lemos a ele, que lhe pertence a transparência onde o todo navega, se distende, procura e talvez encontre lugar. Assmi pele da casa – o espelho, por exemplo, mas podia ser quadro ou jarra –, queda et pur em vibração. Encontro inusitado conforto nesta interpretação do título, talvez sítio de encostar a cabeça e ficar a olhar as revoluções dos planetas solitários em que cada um se pode fechar em movimento. Mas pensava há linhas atrás no enigma que me propõe aquela página rasgada ou esta outra por abrir. O anterior leitor saltou estes momentos? Não lhe faltaram o pensamento e a voz das personagens para avançar? Os dedos não soltaram estas duplas? E o rasgão resultou do descuido, de faca torcida, ou do avesso, navalha demasiado afiada para o papel? As páginas rangem agora de tão secas, libertam cheiro acre, soltam pequenos fragmentos, talvez hastes de uma letra, restos de pontuação, provável que seja apenas papel. «Sente-se descontraído, tem vontade de se abandonar», oiço dizer, lá para o final, o personagem (quase) principal. «A vida pode ser agradável. É loucura tomar as coisas demasiado ao trágico, caminhar sempre em cima de andas, empoleirado sobre grandes precipícios…» A vida pode ser tão só livro talvez velho e meio a desfazer-se. Sacudam-se os fiapos, talvez ecos de frase ou palavra, levantemo-nos do sofá e procuremos um objecto com o qual encetar diálogos. «Da mesma maneira que uma mulher abandonada nas ruínas da sua casa que uma bomba destruiu, fixa com olhar embotado no meio dos escombros seja o que for, um objecto qualquer, uma velha faca torcida, uma velha tampa de cafeteira em estanho toda cheia de mossas, e a apanha sem saber porquê, num gesto maquinal, e se põe a esfregá-la, fixa-a com olhar vazio, no meio da página inacabada, uma frase, uma palavra onde qualquer coisa… mas o quê?»

Horta Seca, Lisboa, quarta, 5 Agosto

Tantos meses depois, regresso com corpo novo e quase não reconheço este. Diria que está tudo na mesma, mas descortino-lhe na (des)arrumação um ar de ruína. Obediente ao tema dos «arquivos pessoais» da próxima «Torpor», cometo o que me parece agora um erro. Vasculho nos arquivos, mergulho na correspondência. Dou de caras com olhares velhos de décadas projectados no que terei sido, ainda sou, empilho projectos fixados para sempre nisso mesmo, potencialidades sem mais fruto além do acto de semear. Esta fúria de fazer serviu para quê? Embrulho muito rapidamente umas partes, escolho uns livros (de poesia) por verificar que me acompanham há varias décadas e catástrofes e corro a fechar-me à justa na minha cabeça. Ainda não sei como regressar.

19 Ago 2020

Soldado desconhecido

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 7 Julho

 

Bem sei, acumula-se para ali uma lista de leituras por cumprir, de respostas por distribuir, de nós por desatar. As circunstâncias nem por um momento apaziguaram ansiedades, pararam desejos, travaram projectos, antologias, volumes, obras completas. O futuro, portanto, a dizer presente. Bem sei dos afazeres, mas por portas travessas estou noutra. (Surrealismo é, para mim, portas atravessadas pela travessura. Aliás, de qualquer maneira, chaleira.) Regressei a Tardi, o das trincheiras art nouveau, do sangue a vestir corpos e a desenhar cidades. Fui directo ao «120, Rue da la Gare» (ed. Casterman), transescrito, que é como quem diz, transporto do policial homónimo de Leo Malet. De tantos me receitarem policiais mal traduzidos tratei de ir a um original. O homem faz da arquitectura personagem e convinha-me o perfume de Paris, que no caso é sobretudo Lyon. Queria perder-me nas janelas, nas varandas, mas não me apareceram tantos espelhos assim. Uma leitura psicanalítica travessa poderia dizer que foi o nevoeiro que me atraiu, com voz off e cava. De tanto ouvir, e até escrever, que atravessávamos longa noite, no meu caso mais pelo mistério do que pelo maléfico, afinal a boa descrição dos dias mais longos está na descida das nuvens para diluir os contornos, as esquinas, as arestas. Poderia ter saltado noutra direcção, mas desci ao campo arqueológico onde se arquivam os ensaios titubeantes das figuras e domínios e temas que farão de Tardi um autor. Passei por «Adieu Brindavoine» (ed. Casterman), mas, estava escrito, era só etapa nas cores do deserto para chegar ao preto e branco propício de «La Véritable Histoire du Soldat Inconnu» (ed. Futuropolis). Aviso chaleira, de qualquer maneira: para efeitos do ao que venho terei que desfiar a narrativa, mas sem talento, estou descansado, para reduzir o que Tardi faz acontecer às palavras que o descrevem. A sobrecapa oferece figura nua branca, com reforço subtil de verniz, rodeado de estátuas tumulares, uma delas segura a coroa da glória, mas parece em desequilíbrio. Quase nu, melhor dizendo, por estar o escanzelado de bigode de óculos e chapéu de coco a aparecer das águas negras, como negros são os céus, uns e outras divididos por nuvens vermelhas. Negro sobre negro, com subtil reforço de verniz, estão as garrafais «TARDI» (coisa tonitruante de obra a vender-se completa). A figura, há que dizê-lo, é um autor. Na capa esconde-se figura esquelética e desdentada, careca e de minúsculos olhos, vestida no rigor dos começos do século das grandes guerras, em posição de grito, branca a camisa, os dentes esparsos, a minusculeza dos olhos, cinzas a dizer o resto, vermelha a língua e o grito em AAAR arredondado. É o editor. (Com umas palavras antes da aventura, Tardi conta da Futuropolis e Étienne Robial, nos idos de 1970, laboratório onde a as palavras autor e editor não eram ditas por sugerirem desconsiderações contratuais. Curioso, no momento em que o nome procurava romper com a indústria, afirmar a criação por detrás da máquina.) Estamos agora no cemitério onde tudo começa. Assim pensa a personagem perdida: «Encontrava-me de novo nas trevas mais profundas, onde o meu temperamento ansioso tantas vezes me levava.» Os mausoléus fazem-se ilhas e estas palácios nos quais a deriva da personagem principal, entretanto despida como convém nas viagens primordiais, vai reencontrar e matar velhos conhecidos e recém reconhecidos. Até que uma inevitável aeronave o resgata para o transportar à enorme e labiríntica casa do editor, enlouquecido como acabam todos. «Reconheci a decoração característica, de extremo mau gosto». Só ali a personagem perdia se descobre enquanto autor.

Não um qualquer, mas de «romances de aventuras a dez tostões, simplistas e aflitivos, mas que logo conheceram vivo sucesso popular». O que foi enfrentando, em modos sonhados e eróticos, foram as suas criações, que com ele discutem neste instante as minúcias não apenas das narrativas e do acontecido, mas dos perfis, qualidades e destinos. O editor, por exemplo, tinha aparecido como tiranossaurus, de cérebro minúsculo inversamente proporcional à sua ferocidade. A morte, piloto de aeronaves, oriunda do seu primeiro romance é quem o atinge e atira para as trincheira da grande guerra de onde lhe recolhem as ossadas que estão sob o Arco do Triunfo na qualidade de soldado desconhecido. Marquei já com o meu futuro psicanalizador: vamos trocar umas ideias sobre o assunto?

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 17 Julho

O Expresso de hoje entrevista Isa Gomes, a professora de português tornada figura mediática por ter aparecido na televisão (os tempos estão tão confusos que soa regresso aos anos 1980 e as pastilhas Pirata).

Por ter alguma coisa a dizer? Só para a conhecermos melhor. Que andará ela a ler? Responde, logo com surpresa e interrogação: «Leituras? Nunca fui muito de ler livros, mas sempre adorei tê-los.» Esta afirmação quase subtil acerca da leitura de livros e do que cada um é muito de ser está longe de morrer sozinha, e tenho algures guardada resposta semelhante de escritora e, se pior pudesse ser, com responsabilidades.

Tenho-o dito em debate por várias vezes e logo com reacções aflitas e assertivas: com honrosas excepções, os nossos professores não lêem, sendo que a doença é mais grave nos que supostamente ensinam a língua.

Há-de haver estudos, mas basta fazer contas às tiragens, andar pelas escolas e ouvir as apresentações dos convidados, enfim, ler as «poesias». Basta estar atento. O país não lê, por que raio (de trovoada) se poderia exigir isso à profe? Será preciso a um engenheiro saber da evolução dos materiais? As pontes romanas foram feitas a olho e pedra e ainda se atravessam, que nem portas ou chaleiras. E que vos dizia eu? Omnipresente está a radioactividade do simbólico: «sempre adorei tê-los!». Convém ter por perto um livro, assim uma vela na dispensa, para quando falta a luz. O Plano Nacional de Leitura tem um pilar no professorado, mas dará para fazer pontes em cima dele? Também vos tinha dito, ancião que vou sendo, que o meu melhor professor foi de português, com língua e muito mais? Ponho-me depois a pensar em que páginas de livros tocaram por estes dias as mãos que apedrejam a professora que se está a esforçar para ler até ao fim do Verão um livro de contos. Aaaarh, dizia o editor enlouquecido.

23 Jul 2020

Sinais-fósforo

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 5 Junho

«Toda a minha vida acreditei nos sinais.» Escrevo com Nora Mitrani, figura maior, daquelas que muito perversamente só nos são dadas a ver nos interstícios de outras (a mulher de, a amante de, a companheira de, a musa de). «Acreditei que a desordem do meu coração anunciava a ordem esmagadora que sobre ele cairia. […] Convenci-me que cada caso uma linguagem anunciava o acontecido com uma noite profunda ou uma nova esperança; se essa noite ou essa claridade se abatiam sobre mim sem que me apercebesse, estava certa de não ter percebido os sinais…» A pequena novela de nada, «Chronique d’un échouage» (ed. L’ Œuil ébloui), texto límpido sobre naufrágio tão perto das margens e tão dentro da perturbação, ecoa em mim no diálogo destes dias assim mesmo, mais nevoentos que negros, mais difusos que cristalinos. «A verdadeira catástrofe apresenta-se sempre da mesma maneira terna, despida de interesse mítico, quer dizer, exactamente o contrário do estereótipo da catástrofe. Este implica a precisão mortífera dos gestos dos homens e dos golpes da natureza, a aparição de uns quantos monstros e o ritmo do inferno desencadeado pelo conjunto.»

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 6 Junho

Apenas um dado, mas que logo revela a falta que nos faz o jornalismo digestão em tempo gordo de informação. Uma fórmula de divulgação nas redes, sobretudo no twitter, de estatísticas, The World Index, diz que a cidade com mais livrarias no mundo (que sabe contar), e com uma média de 41,6 por cada 100 mil habitantes é, pasme-se, Lisboa (rir). A seguir vem Melbourne (33,9) e depois Buenos Aires (22,6), afinal tão longe como a geografia. Madrid tem 15,7 e Nova Iorque 9,4 livrarias. O ABC logo viu nisto o espírito de Pessoa e Camões, únicos habitantes do centro vazio, uma ruína por acontecer, tremenda injustiça para o cego Chiado e o visionário Almada, o tateador Eça e o tintado Vieira, ou até o anónimo cauteleiro onde alguns doidos vagamente literatos vislumbraram em tempos um Lenine que logo quiseram derrubar em mansa bebedeira. Sem grande investimento, tratei de descobrir a fonte, que é afinal a lista (pública) da DGLAB e onde consta tudo e mais um gato, de alfarrabistas sem poiso a revendedores dos mais dúbios, em cidade que é afinal distrito. Mito, portanto. Cidade tão literária que preenche o vazio de leitores com livrarias. Quem não gosta de um bom livro que não lê nem compra? Projecto que há anos experimenta na carne como cravar essas interrogações ofereceu-me três textos de Jorge Carrión, que começa por «Contra a Amazon, sete razões – um manifesto» (ed. Ler Devagar). A sétima tem a ver como a morte dos espaços físicos, citando, por coincidência, Rem Koolhas: «uma cidade antiga singular, ao simplicar excessivamente a sua identidade, torna-se “genérica”, “transparente”. Intercambiável: como um logotipo». Há muito que os corvos voaram do logo da cidade com mais livrarias do mundo e aos livros nunca aqui lhes deram de comer.

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 18 Junho

Na Croácia morreram subitamente mais de 50 milhões de abelhas, caixeiros-viajantes da multiplicação, senhoras do doce e da cor, construtoras da geometria e da textura. O subitamente está aqui a mais pois adivinha-se as razões na agricultura intensiva com os seus insecticidas e outras ferramentas da morte, quase sempre lenta.

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 22 Junho

O Instituto Camões de Berlim tem um dolorosamente raro trabalho de divulgação das nossas letras. Agora, para preparar a suposta presença de Portugal na feira de Leipzig e estimular traduções, ou pelo menos leituras, criou site «com informações sobre 67 autores, com as respetivas biografias e sinopses das obras (76 títulos), permitindo que profissionais do sector, como editores de língua alemã ou programadores de festivais literários, solicitem um excerto traduzido para análise.» E pediu sugestões a mão-cheia de editores (https://camoesberlim.de/pl21_editores/). Não quis esgotar a minha quota com autores da abysmo, pelo acrescentei Brandão, Teixeira-Gomes e esse meu dilecto: «A cidade e a língua, nos romances de Nuno Bragança, cruzam-se de modo a construir laboratório das mais fulgurantes experiências. Não são apenas arquitectura e circunstâncias, ruas ou palavras, são memória e língua a fazer-nos acompanhar aventurosos percursos, dos mais díspares no colectivo social, e que nas páginas se encontram para definir a modernidade. Um tempo que nos interpela sempre.»

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 28 Junho

Em cinco dias, a vetusta central nuclear de Almaraz, resto ardente de perigosa distopia, que mora aqui ao lado registou dois incidentes. Ninguém deu por ela, nem preciso seria. As autoridades, no seu trabalho diligente de abelha a segregar tranquilidade, garantem que não foi nada: «O evento não teve impacto nos trabalhadores, no público ou no meio ambiente. Com as informações disponíveis até o momento, o incidente é classificado como nível 0 provisório na Escala Internacional de Eventos Nucleares (INES)». Durmo sempre melhor com um zero provisório à cabeceira.

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 6 Julho

A simplicidade explode-nos em qualquer lado, desta foi no coração. Ennio Morricone (1928-2020) deixou-nos melodias que nos deram a ver, onde colocamos rostos e narrativas, vozes e deixas, que mexem connosco de mil formas por haver, que nos atravessam como só a cultura, esse mistério. A sua nota final nada tem de tonitruante. Despede-se de uns quantos amigos, desculpa-se dos esquecimentos e justifica um funeral apenas íntimo: «Non voglio disturbare».

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 10 Julho

O nada ganha terreno, nada de novo. O lugar de Hagia Sophia, na Istambul de mil faces, farol e cruzamento, suprema metáfora de um encontro de civilizações, lugar habitado pelo fogo e pela luz, pelo silêncio e pelo vazio, por deuses e demónios, pela presença do rostos e sinais de mão, pela morte, sobrevivente da guerra e da pandemia turística, sucumbiu aos desígnios sinistros do estreitamento. Não se trata tanto de substituir um deus talvez mais simpaticamente profano por outro, mas de sacrificar a cultura no altar da política, e portanto de reduzir os acessos, baixar do absoluto universal ao mínimo focado. O que era ilimitado tornou-se quebradiço, terna catástrofe.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 12 Julho

Há um mês, mais de 350 elefantes morreram subitamente, de novo a palavra a brilhar como lâmina, no delta do Okavango, no norte do Botswana. Temia-se a mão do caçador furtivo, por via de veneno malino. Um primeiro estudo aponta agora para um novo vírus, que pode até fazer dos humanos casa. «Essa preocupação é legítima porque estamos convivendo cada vez mais com zoonoses que acabam passando para os humanos, dado o aumento da urbanização e a proximidade com animais selvagens», disse à BBC o biólogo Niall McCann, diretor da National Park Rescue. Zoonoses, esses caixeiros-viajantes da morte.

15 Jul 2020

Domingo no Mundo

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 6 Junho

Ficou, José, a conversa a meio, Barrias. Vai ser mais difícil, doravante, ver as linhas com que passajavas as bainhas do Mundo. As mãos do artista não param um instante de alinhavar máquinas de moer sentidos, a romper passagens entre isto e aquilo, ligando a pureza do olhar à sujidade da recomposição. Às vezes chamam-lhe atelier. Não sei agora onde colocar as peças que sobravam na desmontagem dos funcionamentos que praticavas com a elegância dos construtores malabaristas. As palavras nem por cicatrizes voltarão a prender os arames atravessados. Ficamos sempre a meio.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 7 Junho

Estava perdida no tempo a origem de certo azul púrpura que iluminava manuscritos medievais. A cor milenar extrai-se, afinal, dos frutos da pequena planta que nasce na Granja-Amareleja, Chrozophora tinctoria, pequena erva de folhagem verde-prateada. As flores são agrupadas em racemos tipo espiga, com as masculinas no topo e as femininas na base, em geral solitárias. As flores masculinas são amarelas e discretas. As flores femininas exibem um ovário esférico sem pétalas. Os investigadores começaram por ler vários tratados medievais, com as instruções para obter o folium, de uso sumido. Também simularam a interação da luz com a molécula, para verificar se assim chegavam ao tom exacto e desejado. Obtive inesperada alegria com a resolução, através de leitura e luz, deste enigma colorido.

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 16 Junho

Na normalidade dita nova as entrevistas televisivas quase dispensam intermediários. As perguntas chegam por email com foto que explica os enquadramentos habituais. Faz-se do ecrã o espelho, ensaia-se sem maquilhagem nem conhecimentos mínimos de iluminação, tortura-se a retórica na esperança da eloquência, repete-se até atingir o ponto e o perfume do refogado e está pronto. Sofrerá ainda a montagem final, que no caso do «Nada Será Como Dante», com o propósito da Torpor, acabou por dar peça redonda e equilibrada, mas o processo deixa um fundo de boca estranho. Perde-se, algures, o olhar do operador de câmara. Somos diferentes quando somos vistos. E postos no lugar pelo olho alheio.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 21 Junho

Do outro lado do Mundo chegou a Sara, filha da Maki e do João. Deu-se o enlevo na madrugada alta, como devia ser sempre. Fora noite e logo o dia nasceria, que novas destes vêm com o condão de mexer nos ritmos. O anúncio deste dia já me tinha trazido graça em altura rasteira, também pelo debate à volta nome, que no Japão ganha a suprema complexidade do único, cruzamento das possibilidades infinitas. Além dos significados de cada partícula, há que ter em conta o equilíbrio gráfico dos caracteres e inúmeras relações, com o apelido, com os sons. Sara pode portanto conter bondade, coisa bem feita, kimono de seda suave ou nova colheita colorida. A entoação encontrar-se-á com as explicações, cantando ambas a maneira única de ser na perfeição Sara. De dizer um nome mais os rios que nele desaguam.

Santa Bárbara, Lisboa, quarta, 24 Junho

O melhor dos filmes tem apenas um protagonista e conta as voltas e reviravoltas da sua vida nuclear de 1 de Junho de 2010 ao mesmo dia de 2020. Um olho-lente esteve focado nele sem pestanejar este tempo todo e o resultado só podia ser brilhante, ainda que este brilho tenha muito que se lhe diga e se veja: https://www.nasa.gov/feature/goddard/2020/watch-a-10-year-time-lapse-of-sun-from-nasa-s-sdo. Crítica singular: Morricone deveria ter tratado da banda sonora.

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 27 Junho

Sem querer descubro dossier todo organizadinho, impante de colagens e legendas dactilografado, ligeiramente sublinhado. São para aí uns três anos de crónicas de Carlos Drummond de Andrade, no Jornal do Fundão. Neste exacto dia há 40 não menos exactos anos o tema era Camões, talvez eco do dia redondo, «amaldiçoado dia de nascer», embora aquele fosse visita frequente da casa destoutro. A coluna, está bem de ver, erguia-se poliédrica por isso naquele dia cantava: «Luís, homem estranho, que pelo verbo/ é, mais do que amador, o próprio amor/ latejante, esquecido, revoltado,/ submisso, renascente, reflorindo/ em cem mil corações multiplicado./ És a linguagem. Dor particular/ deixa de existir para fazer-se dor de todos os homens, musical/na voz de órfico acento, peregrina./ Que pássaro lascivo se intercala/ no queixume sutil de tua estrofe/ e não se sabe mais se é dor, delícia,/ e espinho, afago, e morte, renascença?» E segue estratosfera afora. Quem era aquele miúdo a copiar de tesoura e cola tais palavras, os pensamentos e o humor que se abriam nos micro-contos da delícia; que terá retido do país Brasil que logo esqueceu e ali ressuma de tão explicado, tão de carne, tão de osso? O puto está agora em oportun-idade de balanço, mareado de tão quieto, a pintura das sombras das ferramentas para que não se perca o seu lugar no painel-cenário. O garoto continua rodeado de papel ainda sem saber bem qual o seu, acedendo-lhe tão só pelo tacto à humidade e aos vincos. São «tempos difíceis», adivinhava Drummond, noutro dia: «Na cidade cada vez mais ameaçadora, o sujeito receava ficar em casa e tinha medo de sair à rua. E dava a razão: -Urubu está voando baixo.»

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 28 Junho

As nuvens viajam no tempo. Interrompo a passagem destas que foram fundo, em 1783, para uma das vidas cantadas de Dardanus, de Jean-Philippe Rameau, e circulam agora nas redes sem que se saiba bem a razão. Fatiga-se o olhar na biblioteca de profundidades, de cores em diálogo ininterrupto, as sucessivas subtilezas do azul, sobrepõem-se as carnes, reconheço-lhes as cicatrizes, o verso a transparecer, a canto a marcar arrumações, uma aparente quietude que conserva a passagem do tempo. Fico-me nas nuvens.

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 30 Junho

A Arquivo, livraria que emite dons, deu mais uma volta ao sol e por causa dela vejo as chamas consumirem-se no astro Borges. Atrevi-me a dar voz a Outro poema dos dons, sacado à sua «Nova Antologia Pessoal», na edição seminal da Difel, traduzida pela editora, Maria da Piedade Ferreira: «Graças quero dar […]/ pelo facto de que o poema é inesgotável/ e se confunde com a soma das criaturas/ e jamais chegará ao último verso/ e varia segundo os homens».

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 4 Julho

O neto de um amigo, novíssimo como as madrugadas e tocado por doença que tende para tragédia, nunca deixou de brincar. Com ferramentas. Exames recentes dizem que vai continuar a construir o que bem lhe apetecer, apesar dos riscos. Alicate e chave-inglesa, martelo e grifo, serrote e formão são agora flores no meu jardim. A notícia rega-o com abundância de águas onde chapinho descalço e jubiloso.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 5 Julho

Nas bibliotecas de Hong Kong começaram a ser retirados livros de oposicionistas e intelectuais, como Joshua Wong Tanya Chan ou Chin Wan, sem que as autoridades façam disso segredo. Explicação mais oficial não há: contrariam a (nova) lei de segurança nacional. Comovente a força que ainda se reconhece ao livro, abrigo das ideias. Ora se a proibição contém em si o germe da tristeza, cada livro proibido tende a arder muito para além das cinzas. Sem os ter lido, desejo-lhes isso mesmo.

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 6 Julho

O longo braço da generosidade toca-me com os «Contos de Aprendiz», de Drummond. Recebo o perverso contentamento desta manifestação de sincronicidade. E fico a pensar se a épica tem maneiras de caber na narrativa curta.

8 Jul 2020

Portanto

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 19 Maio

 

Mal-entendido que talvez desse verso acaba engordando a croniqueta. O carteiro, que me traça o perfil da realidade ao coser em correria geométrica as margens de rua que vislumbro, de calções e ar tresloucado mesmo à chuva, achou que não estava ninguém em casa e levou de volta a pequena encomenda registada. O tangível achou que eu era casa, talvez mobília, talvez muro. Entre mim e as paredes já nem a voz nem as palavras. O envelope resgatado na estação parecia vir do passado, no seu couché agrafado, formato regular e temática futurista. «Orion é um fanzine de sci-fi e fantasia com uma versão electrónica (web) e uma impressa (apenas para os colaboradores)». Assim se apresenta o projecto do Renato [Abreu] que insiste em fórmula imorredoura, alguém que diz por palavras ou imagens e teima em partilhá-lo. E dizem das confusões dos tempos, de muitos modos, para para afirmar o inevitável fim: darkness, nightmare, fim. Ainda antes da pandemia, o futuro estava bastante passado. Portanto, catastrófico.

Santa Bárbara, Lisboa, quarta, 3 Junho

Mais alegria em formato de encomenda, daquelas pueris. É livro! Mas teve que dobrar a espinha para entrar na caixa do correio, nada a fazer, que o carteiro lá vai de calções furta-cor. Chega-me «Selva!!!» (ed. Umbra), a experiência na qual o Filipe [Abranches] se perde a reconstruir cada objecto de que é feita a aventura para a geração dos 50 anos: os airfix, o exotismo dos lugares de combate, os aviões, os vilões, os espiões, as armas em detalhe, o companheirismo viril de quem enfrenta a morte no papel, as frases e as expressões das línguas amigáveis e inimigas, a letra a fingir-se manuscrita e atirada para diante, a amizade manifesta, as recordações pessoalíssimas, a família desfeita em cenário, a traição, os movimentos com o corpo para evitar as balas, as paisagens de atiçar realizações, os dedos a fazer enquadramentos que gritam acção. O pano de fundo acaba sendo a melancolia. Ainda uma vez, os tempos mesclam-se, os bonecos viram homens, as paisagens agitam-se para permitir o regresso algo doloroso àquele passado do tudo possível e mais além. Não há cor, mas trama e traço, reconstituição ágil do nevoeiro húmido da memória. Onde, portanto, se torna fácil, tão fácil, sumirmo-nos.

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 8 Junho

Estou em plena ressaca da Torpor, que me fez mesmo interromper por várias vezes este diálogo comigo mesmo, tão útil para mim quão indiferente para os restantes. A revista impôs-se de tal maneira que eclipsou o real: o novo site da abysmo continua atrasado, sem conseguir escoar velhos e novos títulos, não fomos capazes de aproveitar os fluxos para recolher contactos e estreitar relações. Portanto, tudo na mesma, na perspectiva prática, agravado pelo adiamento do mergulho nas contas e nas avaliações antes de ensaiar a planificação dos dias que se adivinham. Um dia de cada vez, oiço a cada hora o mantra enervante do Zen Povinho. No editorial da versão em pdf (https://torpor.abysmo.pt/wp-content/uploads/2020/06/Torpor_edicao0_web.pdf), mais revista que a antologia do online, que já ultrapassou por esta altura o milhar de descarregamentos, evoquei Roland Topor, por causa do erro de simpatia que faz com que o seu nome se confunda com o da revista, mas não apenas. O seu labor artístico tem tudo a ver com a forma de estar de quem se quer lúcido, e espelha como poucas estes confusos dias. (Sem ser preciso lembrar que foi co-arguentista do filme, realizado por Peter Fleischmann, «O Síndroma de Hamburgo», em torno de uma pandemia que acaba em ditadura). Atente-se na figura cujo corpo se fez noite com lua e tudo, e que caminha perigosamente perto de falha com o rosto voltado para quarto crescente. Santo padroeiro, portanto.

A revista vai continuar, por isto e por aquilo, pela urgência de novos temas. No regresso a alguns textos e outros trabalhos, que reverberam. A cumprir o que se anunciava no bloco C da edição zero. «Não será um loop, nem rodopio de entontecer até à queda livre, mas aqui chegados podemos recomeçar. Este em suma ressoa a um vamos lá. De novo a casa e a cidade, as paisagens, interiores e de horizonte, o desejo e o rosto, o ensaio improvável e o desenho concreto, seres que voam e outras matérias voláteis, pensamento a propósito e fotografia da raiva, revisitação dos clássicos e interpretação dos contemporâneos, sítios que parecem nenhures, documentário e delírio. Sobre o magma incandescente e em movimento, passa em corda esticada, o funâmbulo. Sem perder o equilíbrio, nem por sombras cedendo às pressas, levando a sombra por companhia na linha estreita que faz ponte entre isto e aquilo, que estabelece nexos. A linguagem é um vírus, por vezes amigável. Investigue-se, isso e os numerosos nomes para acabamento e finitude. A morte e o medo são vizinhos e da família, à vez. Parceiros de dança, também. Vá de esculpir-lhes rostos, corpos.

Torná-los ainda mais próximos. Dão assim para desmontar, dizem os artistas, para ver por dentro. Não se descobre logo como funcionam, que o coração continua enigma, mas recolhemos as peças e logo se verá. Eis, afinal, o labor labuta do equilibrista que é o leitor, de um lado para o outro, em busca das peças ponham o sentido a mexer. Vai de roda!»

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 9 Junho

Circula desde ontem a notícia venenosa do «apoio» governamental face à crise: insultuoso. Contas feitas, será para aí 1/5 do prometido, que era nada. Vai sair-nos, portanto, caro este alinhamento com ideia de que a (suposta) ajuda da Ajuda mudará alguma coisa, que o Estado fez o que lhe era exigido. Não o devolvo por cansaço. O facto da (des)dita ser a troco de livros para os leitorados de português, no que deveria ser prática rotineira de compra na vez de cravanço, talvez possa constituir sementeira de alguma coisa. Pudera eu acreditar nisso.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 14 Junho

Um pára-raios não os atrai, limita-se a recebê-los se acontecerem por perto. «A visagem do cronista» foi o mais pantanoso cabo dos trabalhos, causando dores em várias partes editoriais, da barriga ao coração, dos pés à cabeça. Aos atrasos aceitáveis em obra gigantesca, acolhendo centenas de nomes, de Almeida Garrett a João Pereira Coutinho, somaram-se, da burocracia à má-vontade, do azar fortuito à desgraça completa, as mais variadas ocorrências que desembocaram agora nesta: no exacto momento em que as 900 páginas dos dois volumes chegam da gráfica acontece a quarentena; no preciso instante em que o diário se torna o género de eleição este percurso por mais de dois séculos de crónica autobiográfica fica preso nos armazéns.

Deve a culpa ser assacada ao editor, que ganha agora a missão de, mais do que desconfinar, libertar prisioneiro que não merecia tal pena. Nem ele, nem a Carina Infante do Carmo, que através de exemplar trabalho de recolha, fixação e enquadramento, desenha panorama que diz muito da riqueza dos olhares, da escrita, da imprensa. Da de antanho, que a de hoje irá ignorar, como de costume – nem que fosse para discutir a escolha, que tem tanto de conservador como de surpreendente. Voltaremos ao assunto, hipnotizados pelo efeito combinado das duas magníficas capas (algures nesta página) do Bruno [Mantraste], na qual o manuscrito da palavra «cronista» contrasta com a pose monumental de mão que sustenta a cabeça e outra que ergue uma caneta. Usando-a, portanto, que nem pára-raios.

17 Jun 2020

Linhas cruzadas

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 31 Maio

Só a incauta diletância de flâneur explica esta aventura, para a qual arrastei o Teófilo [Duarte], e com o ele o João [Silva] e o Cláudio [Fernandes]. Não se sai incólume do cerco sanitário, sobretudo se o aríete for esta «Torpor — passos de voluptuosa dança na travagem brusca», que há horas se completou com a sexta entrega, a da morte e do medo, ainda que não apenas. Logo cedo no pastoso cinza dos dias, os poetas próximos me acendiam versos. Esfreguei os olhos e dei-me conta que a noite constante se iluminava com pequenos palcos, páginas, onde se reconhecia gente, criadores a refazer mundo. Ora, apesar de se terem constituído memória do mundo, as redes são voláteis e instáveis, pelo que me veio à boca a vontade de recolher-caçar e dar a ler. O papel do editor é encontrar nexos, pescar no caos os peixe-chama do sentido. Não se procurou planeamento algum, e só tarde se lançaram desafios, suscitados por vontades ou palavras inscritas na espuma. Na arrumação estabeleceram-se nexos, alguns ainda por detectar, como convém. Abrimos com punhado de artigos que dizem do que se encontrará depois desenvolvido (autobiografia, casa, cidade, paisagem, morte). Depois a comporta abriu-se, vieram águas, ventos e até fogos. Guardo para mim que algumas vozes nasceram nestes palimpsestos e outras regressaram com potência de barítono. Há experiências para acompanhar e imagens às quais regressar. Mantenho-me fixado na do Manuel [San Payo] que vi surgir, conversada em caixas de mensagens (algures na página). Aprendamos, pois, a olhar o tempo. Segue-se versão em pdf, onde a relação entre os fragmentos surgirá mais integrada. Na versão online só os alinhamentos oferecem a unidade possível, resgatando a soma da mera antologia. Deu ainda para perceber que algumas das ideias são específicas das plataformas e falta-lhes o ar fora delas. Depois a ânsia. Na incessante e agora? esconde-se a ânsia do papel. Um dia de cada vez!, respondo com o mote caduco. Ainda que pense que, se lição há a extrair tal dente cariado, é que podemos viver os dias todos num. Só precisamos esticar o hoje.

Palhavã, Lisboa, quarta, 20 Maio

Longe do sofá onde tenho morado fui acompanhando a contagem decrescente para a primeira entrega, a que fará as vezes de editorial, com arte e pensamento e política e inquietação, até música e palavra dita ou sussurrada. O nervoso miudinho no online não se compara ao papel, que a emenda é possível e a errata dinâmica. Continuo com saudades de uma redacção em fecho, quando do caos nascia pontuação. Aqui estamos em contínuo nos três. Deixem correr o sangue!

Santa Bárbara, Lisboa, quarta, 21 Maio

Para não termos a veleidade de arder, voltámos ter uma inundação. Não tão grave como a voz ao telefone anunciava, mas ainda assim lá se perderam mais umas centenas de livros. Que importa? De qualquer modo estavam já enterrados no esquecimento do habitual. Ao contrário dos apoios, a edição de livros é a fundo perdido.

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 22 Maio

Desconfinei sem sair de casa: fui à Prova Oral, do Alvim (https://www.rtp.pt/play/p260/e474129/prova-oral). Não sei se passei. (Ainda não me tinha visto neste espelho-ecrã da nova normalidade, cada um falando a fingir que estamos fora, rádio com imagem à superfície, por aí fora.) Para variar, rebaldaria de liceu, mas deu para tomar nota da confusão instalada à volta do livro.

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 5 Maio

O Adérito [Fidalgo] avisa por mensagem que a Mimosa [do Camões] vai fechar de vez. Nada assinala melhor o fim de qualquer coisa, talvez um ciclo, um modo de estar, do que este símbolo a arder. Até o furor das obras de renovação, arrasando com estrondo o que nem por sombras era antigo, parece ser afirmação. Muita conversa, projecto, ideia, disparate, verso, livro, grito, toque, luz, dúvida, encontro e zanga, ameaça ou beijo, sustos, espantos, perdas e ganhos, deves e e haveres se ergueram por ali, no vai-vem entre a mesa e o passeio. Foi considerada, em certa polémica, a sede da abysmo, com isso tentando menorizar quem editámos, como se colocar coração e cabeça no lugar do estômago fosse desprezível. Ali foi, sim, a sede de uma certa sede, a festa pela certa que incomodou tanto alguns vigilantes e outros bem pensantes, sem esquecer muito comissário, coordenador, programador, director, que se arrepia com a vida fora dos gabinetes. Alguém há-de conservar a memória das noites de leitura em homenagem ao Herberto, então e na hora da sua morte. Ou quando nos despedimos de um dos nossos que partia e assustámos ministro que julgou e enfrentar manife operária, e talvez fosse. Há-de haver fotografias dos parcos prémios que nos atingiram expostos sob a vigilância hierática das garrafas de Bushmills. Alguém que tenha o segredo do âmbar que o conserve, pois não sei fazê-lo, não domino o mister da memória. Dito isto, nenhum abalo se regista na natureza quando a cobra muda de pele.

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 7 Maio

Prazer igual não há. Receber correio, sobretudo livros, desdobra os dias em espanto. Durante a pegajosa crise, a alegria foi abrindo o correio sentimental. Foi com o pão de ló da Carla, as madalenas do Luís e da Sandra, o cabaz de verdes do João e da Paula, as cerejas da Maggie e do Nuno, os ovos e mais verduras da Ingrid, o pão e mais cerejas do Paulo. Sem nenhum risco de exagero, por causa da balança do António. Os adjectivos foram inventados para pôr cor nisto, vejam onde e podem ser trocados: elegantes, memoráveis, luxuriante, suculentas, saborosos, robusto e belas, tão moderna que comunica.

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 8 Maio

Malhas que a rede tece. Um dos grandes professores que me moldaram, o João [Nogueira da Costa] trabalha o tempo com detalhes de escultor. Desencantou uma nota em papel onde se registava o acompanhamento partilhado das voltas de Luandino por Lisboa. Por mais que procure, até em territórios de Alice, não encontro aquele puto. Na encruzilhada de então escolheu rumo, como de costume em contra conselho, que deu em nada. Enfim, talvez o puto aquele acabe por reaparecer para dizer que os caminhos se fazem cruzando os assinalados, os aplanados, os celebrados.

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 9 Maio

Raro é lembrar os sonhos. Já agora, nem os pesadelos. Posso até ser acusado de confundir tudo. Jamais serei exacto surrealista, nem que me apeteça ou os bonzos permitam. Estranho, portanto, esta recordação da noite passada a vaguear por entre altas e magras figuras, esculturais mas no modo marcado de Giacometti, nenhuma minúscula a habitar caixas de fósforos, mas a arder no passo adiante, a refazerem-se para além das marcas dos dedos, hesitando entre ser rosto que marcha ou corpo que sustenta o céu de uma cabeça. Não me limitava a andar. Havia trocado mensagens com a Isabel [Abreu] pelo que ela me apareceu a dar uma peça, e a repetir que era muito importante não a largar nunca, a esculpir as palavras no ar com as suas mãos giacométticas, giacométricas. Atravessei o que havia para atravessar, talvez um ciclo, um modo de estar, o deserto ou rua. E assim fiz com a ansiedade indispensável sem saber se cheguei a algum lugar que não fosse a madrugada do acordar. Recordo a pequena peça, talvez continue a segurá-la noite dentro, não possuo o talento para lhe capturar a estranheza, de formas geométricas desalinhadas mas ainda assim pacificadas, irritantemente nórdicas. Talvez a memória seja ela mesma a obra.

3 Jun 2020

Ícones

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 83 Março

 

No calendário do Filipe [Homem Fonseca] continuamos assentes no âmbar do mês terceiro. Acresce que no meu continuamos pelo mesmo dia, a resvalar nas suas múltiplas pregas, com suave dominância de escureza. A noite não me apoquenta por aí além, foi sendo cenário aconchegado de um sem número de alongamentos da possibilidade, de mastigação da palavra, de tentativa e erro, saboroso erro. A passagem destas horas noctâmbulas dá-se sobre sedimento de imagens.

Madrugada prestes. O negro pontuado de estrelas, pano furado de luz, em constelação de ocupar espaços na composição, ou talvez de anunciar futuros, assim se desvende vocabulário, o negro, descrevia eu, não se apresenta uniforme. Desfaz-se anjo em fundo, que me parece por absurdo trazer óculos, talvez de sol, para que os olhos se não confundam com as estrelas, talvez apenas efeito riscado da água-forte. No concílio dos disformes, uma figura pontifica toda diagonal, de olhos cerrados, mão esquerda a querer tocar as estrelas, mas só a enganadora parecença assim o indica, que o braço esticado mais não é além de retórica. «Si amanece; nos Vamos», diz a legenda que diz a fala. Pode não acontecer o amanhecer e nessa esperança ficarão em debate, o mais símio continuará a fitar os céus, soerguido, mas atento às palavras. Estão os corpos nus, moldados tal granito de serranias, musculatura definida, mas de fome, sentados no chão quase todos, os que distribuem o peso pela esquerda baixa, fazendo palco para o cruzamento dos olhares. O que se afigura dono da palavra, e que se senta sobre obscena rocha, baixo ventre livre de pernas e feminino exposto, afinal apenas semicerra os olhos, entrevendo de par com outros dois olhares esgazeados a mulher desdentada que nos fita a nós. Que entidades capturou Goya? São do pesadelo ou da mais pura matéria? Tratam da miséria ou de ideias? Será assunto meu?

Madrugada acontecida. A única mão que se vê parece dizer regresso a casa, no modo como segura a gola alta do casaco. O desenho não é um esboço, embora titubeante no recorte do corpo, elegante que nem arranha-céus, outro a somar-se aos que fazem o fundo, esses geométricos com chaminés soltando fumos, este sinuoso, forma simples a sustentar um rosto também escasso, essencial, no qual o frio alisou as carnes deixando uma planura de branco, cinza segundo o papel perfurado, era o que havia à mão em casa recém ocupada, mas o José Muñoz queria dizer branco, tenho a certeza, cara pálida afirmada com uma boca ligeiramente aberta para ajudar o ar a rimar com a rima absoluta dos três pontos: olho e narinas. Uma das narinas parece soltar-se do contorno para ir ao encontro da flor, nisto o corpo se separando de seus irmãos imóveis. No bulício da cidade que desperta, as indústrias do viver não impedem que se descubra flora perfumada. Os ramos parecem atirar-se e são de todos os traços mais hesitantes, nascendo agora mesmo, que estava lá e vi, que estou lá em vivo (ou estava a trazer o bacalhau-à-braz para a mesa?). No chão, por escrito, a invocação da cidade-maior, onde só fui pela palavra e desenho, «Grand Buenos Aires», além da resposta «P’tite fleur» e do nome, da assinatura. No apóstrofe da pequena recordo um sotaque. Na interrupção que o manuscrito inflige à quina do edifício fica uma afirmação política: a escrita de flor sobrepõe-se ao concreto.

Manhã acesa. Sobra bucólica, casa das de infância com figura solitária e poste dos telefones sobre colina mais escura, a que se sucederá outra em segundo plano, com duas árvores, singela, um cipreste e cruzeiro. Este fundo é enganador, que o de verdade regista taquicárdicos altos e baixos e dinâmica assinatura, travestido o conjunto por gatafunho, que não palavra ou nome. Daqui se parte para o que interessa, por ocupar os dois terços da composição, com a enorme unha da Lua a brilhar. O fundo foi desenhado por Steinberg com impressões digitais. Identidade, portanto, as nuvens. Identidade a terra, identidade o céu. Identidade o horizonte. Identidade verdadeira até na assinatura de brincar. Tenho-a à mão em precioso volume, companhia dilecta dos primeiros dias da minha pessoal quarentena, que leva por título «The Passport», e foi prenda do salta-fronteiras e navegador solitário, Barão do Oeste e mais aquém à direita de quem sobe, D. Bernardo.

Tarde plena. Um homem de costas, com o rosto a dois terços, meia-lua, os dedos de uma mão fincados no antebraço. Não se vislumbram esgares ou esforços. O homem de costas sentado na mancha afirmando chão tem o tronco transparente, janela para o nada que o envolve em tons de amarelo esmaecido, assim a voz do meu sangue por estes dias que são noite. Na catedral que é o tronco de um homem, mesmo sentado de costas no chão, Topor colocou figura escavadora que parece brincar com os longos braços prolongados por extensos dedos que são garras e tocam o côncavo avermelhado fazem cócegas, não tanto ferida. O grifo trespassa-nos com o olhar um sorriso estúpido e cruel, a mais estranha das fraternidades. O sorriso tem artes de se fazer arma. O francês chamou-lhe «La Douleur». Preciso emoldurá-la com urgência.

Lusco-fusco. A unha da Lua está à direita, acima do punhado de estrelas, mas o céu confina-se às costas do sofá, encostado à direita a dizer sala-de-estar, ampliação dele próprio, sala-de-viver para o galgo que só a partilha com livro ilustrado, cada um em seu braço. E que, dobrado com a anca a fazer de colina nazarena, nos olha como só os bichos. A sua respiração semeou mais estrelas na almofada, arrumadas em constelação. As cores são as de Mário Botas, ricas de castanhos, servindo aquela luz de tardinha, onde o que foi não deixou ainda de ser anunciando em si o que virá não tarda nada. O futuro não tarda nada.

Noite dentro. O quase quadrado de fundo roxo surge limitado por horizonte de régua e esquadro, com zimbório e pára-raios assinalando o centro. O centro é sempre pontiagudo? Acima, uma mancha de negro atravessa a cena, vêem-se já as barbatanas. El Roto, que Lisboa viu se quis em 1998, pintou de modo homogéneo, excepto o amarelo da unha da Lua onde se reconhecem pinceladas, mas não a dentição temida do tubarão. O quarto minguante visto daqui é a boca do medo. E que bonita evolui por sobre as nossas cabeças.

13 Mai 2020

Olhos privados na noite

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 27 Abril

Para efeitos de dramaturgia, acreditem que foi pela meia noite. As casas, pequenas que sejam, reconfiguram-se no inesperado, parecem desenhadas por lombo de gato. Aquela assoalhada tem produzido inúmeras surpresas, sendo que começam sempre pelo toque aveludado da camada volátil e externa de passado, o pó. Aquietada a nuvem, descubro um saco com jornais, revistas, calendário, enfim, publicações que desenham por junto o catálogo de exposição mítica: «Le temps, vite», com que se celebrava a chegada dos zeros. No parisiense Beaubourg, que outro lugar podia ser? Não foi o elegante pescoço de cisne do 2 de década que introduz enorme perturbação, foi o periscópio inquiridor de avestruz dos 2 últimos meses. Na convocatória das artes e ciências, que era também lição de curadoria, não faltam experiências e pensamento, objectos e imagens, a desmultiplicar caminhos, a expor o que não se vê, nem se toca, mas se sente, e nunca de uma maneira só. Os temas levantam-se em vórtice, com Umberto Eco em conversa com Daniel Soutif, o maître d’œuvre, a marcar ritmos. O tempo mecânico é deus recente e o relógio o seu profeta, arqui-inimigo do tempo interior. Houve alturas em que não havia atrasos. O sábio italiano desencanta histórias de movimentos contra o relógio, «espécie de esqueleto roendo o tempo», relembrando Lubrano, o poeta que escreveu sonetos sem conta «sobre essa obsessão do tempo métrico como o tempo da morte». Erupção constante, o tempo íntimo é de vida e muda os olhares, permite observar Mondrian como se fôssemos eternos, ainda que a informação não seja a mesma de um Bosch, ou circular na arquitectura rectilínea da escola do Porto com desatenções diferentes de uma catedral, e o mesmo para a literatura, com pausas nas epígrafes ou passadas apressadas nas citações, nas descrições. E a música. Monk e o seu ‘Round Midnight faz-se banda sonora, clepsidra inesgotável de respirações, de ritmos a dizer corpo, identidade. Por alguma razão se multiplicam os auto-retratos, e sabemos como muitos artistas se estão a desenhar ao espelho neste exacto instante. A síntese dos temas dá-se na bd de Jochen Gerner, «Un temps».

E qual o cenário escolhido? O aeroporto. Nada mudou tanto com a pandemia como estas catedrais da modernidade, assim lhes chamava Georges Duby, «inventor» da Idade Média, planície do tempo interno. Gerner, em narrativa minimal repetitivo, tatua-nos as micro-vivências, do desespero no táxi à chegada, do tédio da espera no atraso da partida, das vezes que se olha o relógio, dos fluxos da mole humano a que se assistia nas grandes montras, a passagem dos lugares nos painéis, a lógica contabilística de meridianos, afinal, a velocidade omnipresente, esmagadora, esventrada tal metáfora maior da vida. A velocidade travou.

As ruas das cidades desertificaram, e que estranho resulta constatar que nos primórdios do milénio o tempo se saudava tanto com ruas vazias passadas a luz. No caderno ligeiro da ficção, Juan José Millas, em «Personne» (ninguém), risca o vidro, arrepia e marca a transparência. Um editor – não é por isso, não se riam – confronta-se com revivências que não o são exactamente. Podemos entreter vidas paralelas, uma mental, outra palpável, correndo o perigo delas se cruzarem. E o beijo pode não ser casto. O imaginado será menos real, se nos afecta? Um Nada, de ontem, pode bem hoje fazer a diferença, tornar-se Tudo. Quantas identidades nos podem fazer mal? A memória teria que ser mote e a internet fazia figura de artista principal, com a morte dos periódicos, a queda do real, a suposta simultaneidade, o pântano do indistinto. Por estes dias, a rede apanha-nos de todo. O Pedro [Fradique] foi desencantar jornal de beira-rio, para o site que ilumina a noite escura. Está todo aqui, a vogar: https://www.luxfragil.com/jornal/ Dá para celebrar, ao som do anjo, a juventude dos velhos, tópico no menu. «As rugas fazem sombra, muita sombra, nalguns casos até dolorosa, mas quantos de nós, corpos hirtos perdidos no deserto, sabemos acolher na própria carne a carícia que a noite desenha na sombra? A sombra afirma como uma tatuagem que ali o sol não chega por nossa causa, porque nos deixamos queimar para inventar frescura. Aquele que aprendeu a voar no sopro do instrumento, que sussurrava através do frio do metal versos de um lirismo vulcânico, que adorava a velocidade dos automóveis e das substâncias, que só queria perder-se e perdeu-se sem envelhecer, Chet soube acolher lugares sem sol nas maçãs do rosto. Chet fez do rosto pomar de macieiras, jardim, paraíso bonsai, exibida naturalidade de enigmas. A juventude vive no rosto e aí rasgou com a sua navalha soprada e modulada pelos dedos, a mesma que não deixou nunca de acariciar, a tatuagem que dizia estarmos por toda a eternidade naturalmente sós, sem sol, parados. Apesar do amor, que é calor companhia e movimento.»

Feridos pela flecha do tempo, somos obrigados a andar de costas para o futuro. A exposição, lenta a ponto de durar até aqui, começava com a Lua, inevitável companheira, e acabava a celebrar o Sol, que marca o nosso fim. Em 2000 calculava-se nos cinco mil milhões de anos. Ainda vamos a tempo.

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 28 Abril

Talvez preocupada com as leituras que por aqui enumero, na mais libertária das divagações, a que me tem sido oferecida por este dia estendido, mão amiga manda-me um aviso clássico: «O Vaso Quebrado», de Rex Stout. Nada como detectivar a morte para refrescar. O carteiro veloz, que vejo rasgar as ruas que nem Roadrunner soltando beps, talvez desabituado de ver volumes nesta morada, conseguiu partir-lhe a lombada.

No exacto meio do título do volume 678, da mítica casa editora da Rua dos Caetanos, perfumada de mil maneiras na passagem das horas, com notas titubeantes, eflúvios das damas-da-noite, histórias e personagens, mural de ladrilhos e portões verdes, uma cicatriz de branco parte da esquerda para quebrar o que devia ser contínuo. Não chega a ser fenda, apenas promessa luz. E abre mesmo vale, assinalando sem necessidade onde colocar o polegar, na capa de fundo negro. Muita conversa dedutiva resolverá em poucas horas o suicídio provocado do jovem violinista, além do assassinato mais directo de outras duas figuras nova-iorquinas para compor ramalhete de amores desencontrados e primária cupidez. A primeira frase pôs logo de sobreaviso o meu «olhar mortiço de poeta pessimista», como é apresentado o inspector Damon, no caso dele temperado com queixo de pugilista: «Naquela bisonha noite de Março…» Pode uma noite ser bisonha, ou seja nova, inexperta em arte ou ofício? Pode, revelam os indícios sobrantes das páginas que estamos a escrever.

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 30 Abril

David B. escreve com imagens como poucos. «Nick Carter et André Breton – Une enquête surréaliste» (ed. Noctambule) não se deixa resolver armado em mistério. Dá rosto às forças do mal, trata os sonhos com carinho, mas não despreza nem criminosos nem artistas. Encontro qualquer coisa de ciência médica no cruzamento dos seres e das coisas, das sensações e das ideias, das letras e dos corpos, sem esquecer algarismos. Uma orgia das formas, que nos põe quietos a mexer. A sonhar, portanto. Os quadros articuláveis (alguns algures na página) alinham-se em biombo que ora revelam ora escondem profundezas à mão de semear. Era só para avisar, que a Lua dá-se bem com as ossadas que sustentam as telas.

6 Mai 2020

Cheira-me que

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 23 Abril

Anda uma excitação no ar a propósito de livros e leituras. Como há semanas só apanho ar de varanda, ainda para mais contaminado com inesperadas obras de embelezamento de passeios e canteiros, pode ser que esteja a farejar mal, mas não encontro razões para celebrar esse suposto reencontro do livro e dos leitores. Não alinhámos nas celebrações marqueteiras do dia mundial do dito, ocupados que estamos a renovar o site da abysmo, que bem precisado estava, e na recolha de materiais para futura revista digital, maneira de sacudir o torpor. E navegamos pelos dias a pensar, apesar de expressamente proibido pela doutora, enquanto interpretava os resultados do sangue.

Continuemos a mexer no horizonte das lombadas, na busca parva de casualidades que fundamentem este livro e não outro. Os tolos dão muita importância a estas coincidências, diz Francisco Umbral em um dos contos – saborosos que nem pinchos em La trucha – de «Historias de amor y viagra» (ed. Planeta), e remata: «la metafísica de los tontos es la casualidad». Um jornalista de meia-idade, fazem questão de dizer, é convidado a experimentar a novidade do final dos 1990, o Viagra, e disso faz dele pretexto para investigações ao desejo e mais além. «Sabemos que o eu começa onde o nosso desejo acaba, mas ninguém dá o passo adiante, por preguiça, por medo». Apesar das mortes e da melancolia, não se trata de policial, embora lhe roube o tom cínico de quem está sobrevoando, de passagem, vendo ao longe. A frase discorre com invejável ligeireza, esculpindo personagens de vulto, e colocando-as em cena montada pela mais fina observação, soltando sentença aqui, piscando o olho aos clássicos além. Leitor de águas profundas sabe vir à superfície do banal para respirar. A mulher deste habitat interessa-me, e muito, até por desafinada com o óbvio dos dias, mas foi a cidade que me matou. Madrid está toda aqui, com crueldade e cheiro, as marcas distintas de chão e varandas, de cor e parques, de temperatura e sujidade. Não sei se chega a ser amor, mas sacrifica-lhe tantas palavras que parece fazer dela mais causa que cenário. E não se limita ao exterior, os bairros medem-se aos palmos de parede. No conto mais tocado pelo spleen de meia-idade, sobretudo com a queda para avaliação enquanto forma da memória, «Isabel», as descrições do bairro e do apartamento, com livros de alto expressionismo, alcançam luminosa intensidade. Mas, por causa da metafísica dos tontos, vou buscar a outro o acesso a essas personalidades que as partes da nossa casa assumem agora de um dia para o outro, inesperadas e cheirosas: «olor a vieja, olor a militar, olor a hiperrealismo, olor a bragas, olor a niño muerto, olor a mujer dormida, olor a cuarto de la plancha, olor a cocina abandonada, olor a coliflor.»

Foi pelo título que a mão sacou o Milan Kundera de «A Lentidão» (Edições Asa). A novela tem raízes no Vincent Danon de outro texto, esse magnífico que não encontro – a que cheirará a habitación da biblioteca onde se esconde? Curto-circuita-se com o anterior no fio vermelho do desejo, invocando logo cedo Epicuro para explicar, que o hedonismo não está tanto na busca do prazer quanto na ausência de sofrimento. E nisto me comprazo, nisto e na relação que o escritor procura provar entre lentidão e memória, anverso de velocidade e esquecimento. Com que forma nos marcará esta experiência de confinamento, tatuagem ou cicatriz? «A Senhora de T. soube imprimir ao escasso lapso de tempo que lhes coubera como que uma pequena arquitectura maravilhosa, como que uma forma. Imprimir forma numa duração, tal é a exigência da beleza, mas também a da memória.»

O cheiro a livros velhos punha a cabeça de «Moravangine» (ed. Ulisseia, mas ainda circula a da Cotovia) a andar à roda. As mãos do Bernardo [Trindade], sobretudo se em visita de médico, trazem sempre sábios volumes. Na tradução fiel do Ruy Belo e com capa de Espiga Pinto, este romance de vida de Blaise Cendrars pôs-me o corpo a andar à roda. Com a aventura e o delírio, das máquinas e das revoluções, das paisagens e das cidades, das longas descrições, das volúpias assassinas. E o ritmo. «Não há ciência do homem, o homem é essencialmente portador de um ritmo.» Não esqueçamos essa omnipresença: «as doenças existem. Não as fazemos nem as desfazemos a nosso bel-prazer. Não somos senhores delas. Elas é que nos fazem, nos modelam. Talvez nos tenham criado. São próprias desse estado de actividade a que se chama a vida. Constituem talvez a sua principal actividade.» Páginas febris se sucedem. A febre, em Blaise Cendrars, faz-se estilo. «As epidemias, de maneira particular as doenças da vontade, as neuroses colectivas ficam a marcar, à semelhança dos cataclismos telúricos na história do nosso planeta, as diferentes épocas da evolução humana».

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 24 Abril

Quase sem querer, vejo-me metido com outros (pequenos) editores em gesto de organização tão raro que seria precioso se o resultado fosse distinto. Escrevemos à Ministra da (pouca) Cultura a pedir, face à crise, o óbvio gritante: em resposta à crise, compre-nos livros. Veio a resposta em forma de esmola. Pensamento e estratégia? Nada, além de tristonhas declarações. Resta-me acreditar que o gesto dos editores venha a dar árvore frondosa, capaz de produzir fruto e sombra, bonsai que fosse, dos de tratar em casa. Não sei, cheira-me que. Quero sempre muito à volta do 25 de Abril.

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 25 Abril

As voltas que as coisas dão sobre si são revoluções. Em pequeno caderno laranja de cantos aparados, mas ao formato, o mano enorme António [Gonçalves] responde ao «Navalha no olho» ilustrando-o e manuscrevendo-o. Fragmentos de carne pontuam doravante as palavras, revivas por mão amiga e leitora as ter passado a tinta, negra de tão sanguínea. O gesto contamina o céu e a terra, as nuvens transfiguram-se em corpos que ficam no passar, o alcatrão despe-se para deixar que o chão mostre os seus castanhos pisados. O corpo quedo locomove-se.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 26 Abril

Não vou mentir e dizer que foi de súbito, que nem trovoada tropical. Ainda assim, bateu esta morte do João [de Azevedo], com as cores vivas a esbaterem-se e os crocodilos a mergulharem para esconder a dor nas águas primordiais. O João conversava o mundo. Desfez fronteiras por causa de causas e arranjou maneira de prolongar vida fora certas experiências dos dias em que as utopias se cultivavam com enxada. Terras muitas e céus variados, viagens de quem lê. Aprendi mais África nas intermináveis libações, com o que o negro continente contém de Europa, de vontades transviadas e mitos cegos, surdos e mudos. Mas outros animais e outras paragens vinham à beira da tela para desaguar, para desovar, o crocodilo antes dos outros, a fazer-se senhor de erotismos e mortes de ver ao pé (exemplo algures na página). Um homem contém um mundo, mas o João fez-se antena de mundos, convocou outras gentes, das sementes e das palavras, acreditando. Este homem trazia consigo sempre outros. E um enorme sorriso respirado, de ânsias e paisagens. Um homem assim morre menos. Vou acreditar que esta seja ausência breve, o tempo de um relatório e poucas contas.

29 Abr 2020

Queridos monstros

Santa Bárbara, Lisboa, quarta, 14 Abril

Estou convertido, embora no degrau de humilde iniciado, a esta enigmática secção das grandes artes divinatórias, a da interpretação de lombadas. Através da qual, e por via da disciplina e estudo, alcançamos com invulgar grau de certeza essências como o lugar (da estante) em que nos encontramos, a melhor orientação dos passos (perdidos) e a aguda interpretação do passado, para não invocar a esfera celeste ou as circunvoluções da massa cinzenta. Sacudida a poeira do lombo, eis-me perante o desafio de «Idées Noires», de Franquin (ed. Fluide Glacial ou a edição portuguesa Witloff, sendo que a leitura ganha em ser acompanhada pela edição da «Fluide Glacial Série-Or» dedicada a este «olhar humanista sobre a loucura do mundo»). O autor que, para dizer o mínimo, reinventou Spirou e criou figuras da mitologia contemporânea como Gaston Lagaffe movia-se no universo do bom humor, pela produção artística e inclinação genérica, cultivando fama de simpatia e generosidade. Quando se percebeu que convivia com depressão, mesmo antes de agravada por enfarte em meados da década de 1970, isso passou a lente de aumentar explicações para tudo e mais um pêlo. Há doenças assim, que ocupam com galhardia e ordenamento a posição da identidade. Portanto, também para esta série discreta, que saltou das páginas da revista «Spirou», onde foi sempre um quisto, para a «Fluide Glacial», mais dada às correntes da acidez. São histórias curtas, críticas ferozes do militarismo, do consumismo, enfim, das cegueiras capitalista e religiosa. E celebrando assertivamente a vida animal, a ecologia, os monstros, que desenhava ininterruptamente com grande alegria e delícia, além do seu tema principal: o indivíduo e um radical, para dizer o mínimo, absurdo. Humor negro, portanto. Duplamente negro. Se na bd habitual, a cor, nas mais óbvias e luminosas das suas combinações, era a cor que reinava, aqui e sobre fundo branco, tornado o quotidiano branco, subjugado por um manto de neve-página. Quase sempre, que no espaço sideral tudo se invertia. E há (pouca) vida em outros planetas. As figuras nascem negras e eis um primeiro sinal do assombro. Esta massa que absorve a totalidade possui infinidade de detalhes, uma expressividade que desafia cada tentáculo da nossa atenção. Em versão original, as palavras «idées noires» são seres estruturalmente feitos de olhos e pêlos, cada minúsculo e fino traço transfigurado em pelugem vibrátil e metamorfoseante. O corpo de uma ideia. As histórias que me interpelam agora em plena tempestade de areia, que sempre me interrogaram, são as existencialmente peludas. Descrição, com perda: grande plano de um rosto animado e sorridente. Quem me ama, que me siga. Abre o plano de um deserto a desembocar em céu de preto retinto. Planando, um abutre. Descrição: uma multidão organizada em filas sucessivas desloca-se da esquerda para a direita, encurvada pelo pensado dos pensamentos, continuarei sempre um número entre outros, sem saber como alguns conseguem chegar mais e mais rápido que outros. De súbito, um executivo – distingue-se bem no negro – passa velozmente e assentando sapato de verniz sobre a cabeça da massa abaixo, sim, debaixo. Algures na página reproduz-se outro. Descrição: grupo em festança saltitando de plataforma em plataforma, de ilha em ilha, vai crescendo o intervalo entre elas e a dificuldade até ao agudo e espinhoso final.

Penso no esquecido Reinaldo Ferreira: «Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia/ Que partout, everywhere, em toda a parte,/ A vida égale, idêntica, the same,/ É sempre um esforço inútil,/ Um voo cego a nada./ Mas dancemos; dancemos/ Já que temos/ A valsa começada/ E o Nada/ Deve acabar-se também,/ Como todas as coisas.» Poderia encher o interminável dia saboreando a descrição, modo de redesenhar acariciando, maneira de roubar a pretexto da partilha (se houvesse leitores, claro). Descrição: alguns têm título, por exemplo este que pede para não se confundir a inevitável marcha do fado com destino animado. Uma figura fina sobre o branco diz-se curiosa para ver o que eles inventaram. De súbito, a sombra, e de cima desce lentamente um negro, mas dinâmico, riscado, não pleno. A figura procura correr e a cortina desce, fatal como o destino. À direita do quadrado seguinte aparece um branco prometedor, a figura corre e parece conseguir, mas o chão torna-se pastoso, um betume afinal cola, mas a humana figura quase indistinta do chão esforça-se ao máximo. No quase, o negro esmaga-o, deixando apenas cabeça e grito.

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 15 Abril

Conheço mal o trabalho de Luz (Rénald Luzier), desenhador de humor e redactor do «Charlie Hebdo», mas a edição referida ontem da «Fluide» apresentou-mo e a sua homenagem a Franquin em estilo duplo, traço simples em diálogo com aguarela livre, cativou-me. «Catharsis» (ed. Futuropolis) reúne as histórias curtas (de Janeiro a Junho de 2015) com que o artista foi enfrentando os seus monstros. O dia do ataque terrorista ao jornal era também o do aniversário de Luz, que por isso e pormenor que não conto embora seja desenhado, chegou atrasado à reunião de redacção, mas muito a tempo de apanhar em cheio com os estilhaços do massacre. Durante longo período foi incapaz de desenhar e aqui entramos no dia-a-dia do seu combate, peito aberto e exposto a cada fase do luto, até que o traço, expressão da vontade, regressa: dois olhos enormes sustentados por corpo mínimo hirto, mãos junto às coxas, tudo rabiscado, esboçado, a fingir hesitação, mas longe da exactidão do contorno. Além do resto, explosivo e sensível, o desenho faz-se aqui personagem, suscitando reflexões em torno do prazer e da dor, de como certas linguagens se fazem líquidas, etéreas e poderosas, na expressão dos silêncios e vazios que são a nossa matéria primeira. Descrição: em «Interlude», um já reconhecível Luz parece agastado e começa um bailado que o desintegra de mil e expressivos modos, gargântua de onde saem outras bocas menores em esgar, sempre em traço puro e solto, como se o pincel não se soltasse nunca do papel até que o grito se cospe em grosso A, continuação do ininterruptamente alinhamento da primeira letra do alfabeto, som da dor e do espanto. A figurinha sai na direita baixa dizendo: faz-se o que se pode. Digo no óbvio: a sucessão e o alinhamento dos pequenos contos resulta lancinante, comovente, humana. Tão humana, que se faz bem humorada. Um final feliz por envolver desejo, talvez sexo.

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 16 Abril

Dizem que o povo está todo a ler no seu recolhimento obrigatório. Para não me cansar, tratei de entrar floresta dentro, até por a ver avançar, dos lados do Campo de Santana, da face a norte do Areeiro, nos tufos de jardim que alcanço. Esta versão de «Hansel & Gretel» (ed. Bloomsbury) nasce dos cenários para uma ópera, encomendados a Mattotti, para os quais escreveu depois Neil Gaiman esta versão, que não se afasta do clássico, sem esconder a violência de pais que se livram dos filhos em tempo de aperto. Interessa-me nesta «darkly brilliant fairy tale» o negro negrume com que ardem as ilustrações do italiano. Volumes inquietos de negro a bailar na página, permitindo apenas ligeiros afloramentos de luz. Escusado será dizer: não vejo senão isso na coreografia dos tempos.

22 Abr 2020

Lida da casa

Santa Bárbara, Lisboa, quinta 26 Março (bis)

Insisto. As lombadas andam inquietas com tanta atenção de olhos e mãos. Fingem o pó, para evocarem exteriores. E desafiam em distintos momentos deste longo dia com outras maneiras de caminhar sobre o tempo, de o desatar, de brincar com ele, às escondidas, à apanha. Afinal, passo o dia a fazer noite, como Colin a desgraçada figura que cavalga «A espuma dos dias», desse cintilante Boris Vian (ed. Frenesi) que há-de ser celebrado este ano, por via das redondas datas. A ver vamos, que este opressivo discorrer via produzindo em grande velocidade calhaus, belos e redondos. O realismo mágico, fórmula tristonha, pertence a outras paragens, bem sei, e por lá pode ficar o seu desajuste, mas o quotidiano destas paisagens, longe no tempo e no lugar dessas outras, ergue-se movediço, com uma dinâmica delirante que cruza mecânico e orgânico, sensação e matéria. De tal maneira, parecemos andar sobre perfume, com gozo e facilidade. Sinal maior, a casa muda a sua arquitectura consoante o que à sua volta se experimenta, se conhece, se sente, se vive. A casa enquanto nosso prolongamento, parte de nós, corpo concreto. Nos dias da espuma, a vida pode ser leve, até que a desgraça a contamine, o amor a sofrer com nenúfares a habitarem pulmões. A vida podia ser distinta, mas «nem sempre as coisas podem correr bem». Tenho que concordar com a resposta, até porque pela parte que me toca, também «podiam não correr sempre mal». As coisas são o que são, mas estamos fartos de saber que essa força que faz as coisas serem o que sempre foram tem a ver com quem ganha com isso. As coisas podem sempre ser feitas de maneira outra. Agora ficou manifesto, gritante.

Um viscoso quotidiano, oposto ao do par amoroso Colin e Chloé, escorre de «Les choses» (ed. Juillard) e agarra-se-me. Logo me vejo com o narrador, que podia ser Georges Perec talvez «un autre» sociólogo, a observar aquelas vidas na casinha de bonecas, fascinado pela «aisance» de vidas forradas a coisas, sustentadas por elas, nelas esgotadas. O supremo objecto de desejo do bem-estar quedo e ledo, a sociedade de consumo então nos seus alvores (subtítulo: uma história dos anos sessenta), a felicidade feita venenosa «souplesse». Outro par, que se esgota no conforto modesto, mas que aspira ao luxo, supremo hedonismo no qual a cultura se torna apenas sinal de estatuto, marca, sem transgressão nem sangue. Apenas uma coisa mais. Não há sombra de verdade, portanto de tragédia, apenas pilhas a gastarem-se agradavelmente. «Francamente insípido», eis as duas últimas palavras da novela.

O trânsito do tempo breve ao infinito, diz a sinopse, faz-se gancho enterrado na carne macerada para me puxar para levar a «La cuarentena» (ed. Alfaguara). Juan Goytisolo, outro dos grandes inquietos, interpelado pela morte de uma amiga, pela morte amiga?, resolve viajar. A quarentena onde me leva é a dos místicos sufis, que ele coloca em diálogo com Dante e «Divina Comédia». Afinal, corresponde ao momento em que, entre Terra e Céu, as almas se transfiguram e ganham um corpo subtil. Ganhamos suprema ligeireza para ir onde for preciso para vestir o corpo certo, o da eternidade. Como bom herege, tece «uma rede de significações para além por cima do espaço e do tempo, ignora as leis da verosimilhança, descarta as noções caducas de personagem e trama, abole as fronteiras de realidade e sonho, destabiliza o leitor multiplicando os níveis de interpretação e registo de vozes, apropria-se dos acontecimentos históricos e serve-se deles como combustível ao serviço do seu projecto», ou seja, «viver, morrer e ressuscitar». As suas palavras afirmam o processo de criação como quarentena e fala mesmo em «cordão sanitário, com protecção e barreiras». Por que raio se queixam então os escritores de domingo a passear cursor na rede? Tomo nota das pistas, há que regressar aos místicos, apetece-me o quietismo. Sem perder a leveza, a ligeireza do pó que viaja. Não se deve limpar o pó dos livros. A ele voltaremos.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 12 Abril

Peregrinando por entre a morte, cada um frankstein feito à força de peças de drone e corvo a percorrer ruas vazias a espelharem o nada nosso que nos dais hoje, celebra-se a brutal possibilidade da ressurreição. Sinal de que parte do carácter dos dias se perdeu — obrigando o mano António [de Castro Caeiro], mais tarde ou mais cedo, a acrescentar capítulo ao seu «Um dia não são dias» — até neste calendário se procura saber do futuro da edição, do livro, da leitura. Sílvia Cunha, da «Visão», lançou inquérito (e as respostas podem ser lidas aqui: https://visao.sapo.pt/atualidade/cultura/2020-04-12-covid-19-o-mundo-dos-livros-vai-sobreviver-a-pandemia-quatro-editores-respondem/). Por mais que tente abafá-la com a razão, ando sempre com o perfume de uma probabilidade outra no bolso. «A chegada a pés juntos do tempo nas nossas vidas, com esta travagem brusca, pode, de facto e, de novo, esperançosamente, mudar alguns comportamentos. Não creio que regressaremos a nenhuma época de ouro, que estará sempre por definição em passados e mitos, mas isso exigirá das editoras (e outros actores da tragicomédia editorial) novas respostas que respondam a novas necessidades. Sem dúvida que se abriram portas de um grande laboratório, assim haja quem queira agora manipular os aceleradores de partículas, que não será a aplicação acéfala de pomada na pele carcomida do marketing. Condenado o objecto-livro a uma comunidade de nichos, será daqui que surgirão as propostas mais interessantes.»

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 13 Abril

Quem tem medo do quotidiano? Mal se levantava o grande turbilhão de pó, o José Luiz [Tavares] compôs uma «litania em tempos de coronavírus», exigindo sem temor mais tempo ao tempo. «Agora sim,/ que é antes de toda a dor,/ ainda no corpo tens cor,/ e sobe-te à boca/ centos de sabores.// Mas ainda não ao grande sim,/ porque maravilha-te estar aqui/ (só mais um instantinho),/ embora penses na mão da eternidade/ ou como é doce o despenhamento.»

Agora mesmo (mas ainda haverá agora?), a Rita [Taborda Duarte] anuncia-me que «incorreu na falta» de escrever poema pandémico, cheia de loiça suja. «O poeta tem de bater com estrondo/
a porta da linguagem/ nas trombas do mundo;/ trancá-la por dentro: um poeta tem de escrever/
a métrica centrifugada dos lençóis/ encharcados nas ventas da poesia.// (…) Um poeta tem de escrever.// E só deve baixar os versos/ para chafurdar a esfregona no tinteiro.”

15 Abr 2020

Insignificâncias

Santa Bárbara, Lisboa, terça 24 Março

O gato percebeu-o antes, como deve ser. A varanda que dá para o cruzamento quase largo, palco maior dos pequenos choques e até grandes acidentes, abre-se não apenas para o jardim despercebido das infâncias, mas em vistas para a «situação», dita assim meio a medo de nomear a doença. Da minha varanda vê-se o confinamento, essa lente que agora tudo amplia, tudo atrai para a sua rede de significâncias, talvez aparentes, certamente frágeis.

Há uns valentes anos, em momento difícil, sob liderança esclarecida do mano Tiago Manuel, juntei-me ao Luis [Manuel Gaspar] para um conjunto de objectos que envolvia desenho, pintura e poesia. Em Novembro último, sem razão aparente, sacudi o pó aos versos, alguns pertencendo a poema baptizado «Santa Bárbara», que acabou publicado na folha de sala da «Diga 33», as sessões animadas pelo Henrique [Manuel Bento Fialho]no Teatro da Rainha. Noto-lhe ressonâncias, pelo que aqui o deixo ao vento, mais a chuva que parece vir do rio só para me agradar.

«É da minha torre que vejo o castelo,/ rasgo na mão a flor de sal do horizonte.// Tacteio os muros em busca das janelas,/ noto a ponta dos dedos ferida de céu.// Em cima, os passos descalços da vocação perdida,/ aqui ao fundo aguardo um caminho.// Há promessas de viagem na trovoada,/ a redenção espreguiça-se como um arco.// Uma ideia descalça no miolo da espada,/ são raios que me partem, as dúvidas.// Na companhia íntima das raízes,/ o brilho da lágrima faz a morte hesitar.// Explode às vezes a coluna de pó,/ são as janelas que brincam de ameias.// Desfaz-se o perigo naquelas mãos,/ sei de cor a dádiva de uma recusa.// Anunciam-se os sábios e as palavras,/ mas se o círculo de pólvora limita os passos.// Cada onda da túnica é beijada pelo navio,/ estendo as mãos ao encontro dos estranhos.// Guarda o belo para o regresso,/ repousa a folha, um relâmpago no regaço.»

Santa Bárbara, Lisboa, quarta 25 Março

Saiu da gráfica para o vazio, este «O Nosso Desporto Preferido ̶ Futuro Distante», com que o Gonçalo [Waddington] se tem entretido a fazer e desfazer o tempo, com o corpo todo e a partir dele, nossa inevitável máquina de mastigar paisagens e cuspir necessidades. Ou vice-versa. E não deixo de tropeçar nos fios que ligam este trabalho, onde convivem espectros e a Humanidade em coro, espelhos e o malabarismo da língua, ao que estamos experimentando. «O tempo a ludibriar-nos pela eternidade adentro, e ainda nos aldrabam o espaço», diz Tirésias lá para o fim. «Agora é tudo escondido atrás de uma parede. É isto que nos deixaste, seu madraço? Versos rascas, rimas badalhocas e asneira atrás de asneira?» Um grupo de génios desenvolveu uma humanidade com as necessidades mais básicas resolvidas, e as quatro peças, sem que uma está por levar à cena, vão contando, anos para trás e para frente, do processo e respectivas consequências. Brutais, que não é impunemente que se mexe no que nos define. Nesta encenação em concreto, o público estava em cena, participava apenas por estar de corpo presente, espectro da humanidade possível. Eis-nos agora, postos à força a jogar esse lentíssimo e exasperante badmington, à espera que o outro devolva o volante. Dá tempo para acasalar com uma cadeira.

Santa Bárbara, Lisboa, quinta 26 Março

De cada vez que passo por uma estante, as lombadas, que se alinham de modo diferente a cada dia, sussurram tentações, maneiras de queimar o tempo, de o explicar, de jogar com ele. Tem tentáculos, a situação. Afinal, passo dia a fazer noite. E oiço isso mesmo vindo d’ «A espuma dos dias», do Boris Vian (ed. Frenesi). E lá descubro que «as pessoas perdem tempo viver, por isso já lhes não sobra nenhum para trabalhar». Lá acompanho a desgraça de nenúfares que vivem nos pulmões, apesar das flores. «Nem sempre as coisas podem correr bem». Tenho que concordar com a resposta, «mas podiam não correr sempre mal». Sou agarrado por «Les choses», de Perec (ed. Juillard), e vejo-me com o narrador a observar aquelas vidas na casinha de bonecas, fascinado pela «aisance» de vidas forradas as coisas, sustentadas por elas, nelas esgotadas. A felicidade feita venenosa «souplesse». Mas a situação já manda em mim? Nisto só me apetece o quietismo, invetsigar os místicos. Entro na «Cuaretena», de Juan Goytisolo (ed. Alfaguara), para me baralhar mais ainda os planos, mas convocando o corpo subtil e com ele modos de aprender a leveza, a ligeireza. Além de duas ou três páginas onde o labor da escrita se vê plasmado com minúcias nesta ideia que nos atravessa do isolamento. Mas não haverá outro assunto, ó estante maldita.

Santa Bárbara, Lisboa, sexta 27 Março

Não é de agora. O mano Tiago Manuel insiste em ser um dos últimos moicanos a teimar na carta manuscrita e em papel, invariavelmente acompanhada de desenho, que teima em dobrar e agrafar, tentando sem grande sucesso impedir que acabe nas paredes dos amigos. As suas imagens são matéria pura, em incomum mistura de ligeireza, de fluidez na definição dos corpos e da sua paisagem, e a gravidade que resulta de pensar por inteiro. Desta, teve a generosidade de dialogar com poema meu, que fala de horizonte e relâmpago, e não o mostro aqui por me apetecer a reserva. Foi tempo que lhe respondia, como desejaria, lavrando folha, em esforço para que a letra levasse o mínimo de inteligibilidade, mas há muito desconsegui.

Digo-lhe por aqui que conservo no lugar exacto as suas incandescentes palavras e gestos de conforto e que acredito na teia de bem querenças onde pernoitar. «Estes dias mostram-nos o Mundo com as cores sombrias de um tempo antigo que julgávamos para sempre esquecido e não e fácil equilibrar os nossos males e preocupações com tão grande ressonância. Porém, estamos unidos pela força dos afectos e havemos de ultrapassar as dificuldades de hoje como aquelas que deixamos atrás.»

Santa Bárbara, Lisboa, sexta 3 Abril

A situação pôs ponto final no «Obra Aberta», quatro anos e mais de cem convidados depois. Muitas páginas se folhearam ao vivo no CCB, pouco antes de se ouvir a conversa em torno dos livros e da leitura, portanto, da vida, conduzida pela Maria João Costa, na antena da Renascença. Os livros são corpos cada vez mais estranhos no horizonte dos dias, destes exactos dias que tanto precisam das perspectivas que apenas a leitura possibilita.

8 Abr 2020

Cumprir a mão

Palhavã, Lisboa, segunda 3 Fevereiro

A notícia da morte de George Steiner (1929-2020) apanha-me prostrado, tentando afastar do pensamento por razões práticas a sempre próxima. Tão próxima que se fez querida. Na arrumação dos dias, agigantou-se a mesa de cabeceira, ou talvez a estante se tenha aproximado ainda mais do lugar onde tombo a cabeça. Estendo a mão e puxo o robusto introito à obra e figura do mestre, composto e interpretado a quatro mãos por José Pedro [Serra] e Ricardo [Gil Soeiro], «George Steiner, Das cinzas do silêncio à palavra de fogo» (ed. Exclamação). A poesia e o programa do título cumpre-se em vários ensaios dos queridos organizadores, além do «elogio» e resposta aquando do doutoramento Honoris Causa, em 2009, de uma entrevista e de utilíssimas bibliografias. Atenho-me em «Steiner ou Palavra Viva», no qual José Pedro desenha o perfil do pensador a partir das suas entrevistas e que se resume na frase que sublinho a lápis, que devia aprender de cor: «o seu humanismo consiste, com a ajuda dos melhores, em colocar o homem perante os múltiplos cantos de todas as Esfinges, em procurar olhar os abismos da alma, em lançar o pensamento até ao limite do compreensível, em proclamar a superioridade do Bem, em aludir à misteriosa e inefável experiência do Belo.»

Parêntesis longo: as páginas iniciais desenvolvem notáveis argumentos para a instituição da entrevista enquanto género literário e dos mais radicais elogios que me foi dado ler sobre tão menosprezada prática (mais ou menos) jornalística. «A entrevista é lugar único e inimitável para uma característica formulação de um pensamento, para a experiência de um sentimento, de um entusiasmo poético, para o eco do pulsar cardíaco de uma revelação ou de uma inquietação.» O essencial está na «visão encarnada» das ideias a habitarem o tempo daquele individuo, tendo invariavelmente por perto a Senhora Morte, dada a nudez radical que se exige aquele que se joga na entrevista. «Esta coloca-nos não apenas perante a ideia, mas perante o homem que pensa a ideia, não apenas perante o sentido de um caminho sugerido, mas perante o homem que arrisca o caminho, que o trilha e o desbrava». Parêntesis fechado.

O Steiner que aqui se desbrava, feito percurso e planeta resulta de um magma de alta cultura europeia, com andantes raízes no judaísmo, assombrado pelo Mal impensável entrevisto no Holocausto, em busca incessante pelo Sentido e pelo Absoluto em diálogo com o Transcendente, talvez Deus. Interpela-me o «cancro do pensamento», a «patologia do absoluto» que Deus, incandescente até na sua ausência, nos terá inoculado de modo a que qualquer interpretação seja uma interpelação. Encontro estranho conforto nesta tessitura entre a questão de Deus, em mim adiada, e o mergulho em apneia no texto. Sem esquecer o desencanto das construções políticas, a tragédia do aparente falhanço das utopias. Em frutuoso diálogo, José Pedro discorda de Steiner quanto à «tragédia absoluta», espécie de buraco negro, pois encontra no coração das trevas «sempre um resistente traço de luz que se recusa a extinguir, rebelde traço oposto ao negro traço deixado pela tragédia.» Quero crer em uma rebeldia de luz, com raiz na palavra. Que outra forma teríamos de desenhar chão ou céu?

Palhavã, Lisboa, quarta 18 Março

A máscara no rosto faz com que a respiração me embacie os óculos, e a limpeza das lentes a cada passo parece apropriada para o que de explosivo contém este número 87, 88 e 89 d’«A Ideia», a revista de cultura libertária, companheira de há muito, que me fez chegar o velho e querido amigo António [Cândido Franco], seu director (que digo? alma). Não se encontrará hoje, entre nós, publicação mais desafiante, capaz de propor pensamento nas mais díspares direcções, de recolher pistas das mais distintas tradições de resistência e produção de paisagens outras. Este número entusiasma de tão exemplar, na sábia mistura de dossiers (escrita automática e surrealismo, com texto notável de síntese e potência do António, além de interessante inquérito, mas também em torno de Agostinho da Silva ou sobre anarquismo), de poemas e contributos artísticos (de que o trabalho de Maria João Vasconcelos nesta página é marcante exemplo, uma ilustração para estas horas difusas, em que não sabemos se subimos ou descemos, em que deixámos de ver o chão, mas não sabemos onde colocar os pés), de textos literários e reflexões (Schwob, Tolstoi, Zweig, Verlaine, Anselm Jappe, José Manuel Martins), de atenção às efemérides (A Batalha), de evocações afectivas (Bruno da Ponte, Alexandre Vargas), de traduções inéditas de documentos, como este «Ruptura inaugural», de 1947, e que acaba por contaminar tudo nas páginas seguintes. É que o surrealismo não se afirmava «apenas» enquanto movimento literário, mas revolução interior, gesto capaz de radical «resolução de conflitos que bloqueiam o acesso a toda a liberdade, estejam eles entre o sonho e a acção, o maravilhoso e o contingente, o imaginário e o real, o exprimível e o indizível, a candura e a ironia, o fortuito e o determinado, a reflexão e o impulso, a razão e a paixão, exemplos particulares de uma antinomia mais vasta, contrapondo, no mais profundo da natureza humana, o desejo e a necessidade.»

Esse relâmpago rasga a diversidade do volume, que se desmultiplica em tantas outras leituras, se cristaliza e dispersa, que interroga e consola, que perturba e apazigua: a poesia enquanto o princípio e a fonte de todo o conhecimento.

Santa Bárbara, Lisboa, sexta 20 Março

Este parêntesis (não será antes movediças reticências?) em que mergulhámos dá-nos a falsa sensação de que a vida se suspendeu, mas ela continua sob todas as suas formas. Até a habitual morte. Deixa-nos Rogério Petinga (1935-2020) que, sobretudo na Quetzal da prometedora origem, desenhou livros com cuidados de barroca filigrana aproximando leitores de autores fundamentais.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo 22 Março

Recebo uma folha, que parece tombada de árvore outonal, portanto desalinhada com as estações, com marca das hastes e restos de seiva. Diz a Sara: «eu por aqui, vou-me podando. E às plantas também. Observo, espero por notícias que a mão vai cumprindo, sem a turvez e a hesitação que cá dentro acontece. Identifico as ervas daninhas que na sua característica persistência invadem com teimosia e arranco-as com suavidade, na esperança de que cá dentro se lhe copie o modo. Olho para aquelas que já não darão frutos, apesar de todos os cuidados e atenção e com uma coragem muda assumo o seu fim honrando-as numa nova existência.» Deixo divagar com as notícias que a mão vai cumprindo.

1 Abr 2020

Perdidos e achados

Santa Bárbara, Lisboa, domingo 15 Março

Não voltarei a usar a palavra coincidência. Assim que afastei a frase percebi que não lhe escaparia. No trambolhão das circunstâncias, «Lourenço é nome de jogral», de Fernanda Botelho (luxuriante capa de Maria João Carvalho, algures na página), volta a tombar-me nas mãos, a ecoar-me nos dias. E por inúmeras razões, ei-lo incandescente, a queimar-me. (Nas frase seguintes arrisco estragar alguma surpresa em hipotéticos leitores, mas estamos perante um daqueles casos em que a narrativa e seus acontecimentos interessam pouco.)

Ampliemos um detalhe: parêntesis – que uso na versão diferente, parêntese, da autora por me sugerir o plural, pelo grafismo dos «esses» a definirem desfiladeiros na paisagem. No exacto momento em que temos a vida entre parêntesis, eis romance onde a autora os usa como lâmina, goiva, formão. A sua estrutura polifónica, coral também no sentido animal, na qual cada capítulo corresponde a uma voz, quase sempre na primeira pessoa, como que é interrompida por afinações, evocações, falas de pessoas outras, explicações breves, mas também longos pensamentos, cinzelamentos, acertos e pequenas histórias, e, por se tratar de vida, comentários aos modos de narrar, ao definir das personagens. «(Ao regressar deste parêntese, dei-me conta de que o veneno estava intacto dentro de mim, mas o conhecimento da sua inevitabilidade, acrescentado ao cansaço e à doença, serviram-me de pretexto para uma aquietação razoável.)»

Lourenço é o núcleo deste ecossistema, que rodará à velocidade da nossa leitura, abrindo com a fala do filho e que em diálogo com ele se fechará, com um «Eu» a ensaiar respostas trémulas ainda que finais: «se pudesse e soubesse, responder-te-ia. Sou isto que sou.» Lourenço está morto, suicidado?, e as vozes que o velam talvez sejam orquestradas pelo próprio para que se revele a si mesmo no círculo fechado de espelhos que são os outros. Dirá, em outro momento, na sequência de alinhamento das dúvidas, das espectativas, das crenças: «sou um homem só, mas um homem só é um absurdo.» Lourenço perdeu-se nas múltiplas bifurcações, as da sua condição, as da sua esperança, as do seu potencial. «Eu, céptico? Sou muito pior que isso: sou burguês.» O burguês, inquieto e culto, aberto ao mundo e ao humano, como labirinto. Sem saída.

«Dou-me conta do meu cansaço, da minha incapacidade, duma qualquer inutilidade que também me engloba. As ejaculações de Catulo e de Rimbaud serão resposta a uma nossa exigência essencial, serão uma metáfora da nossa congénita vocação de absoluto, ou serão, simples e exclusivamente, parte do instrumental de sopros e percussão que vai ritmando, entre agudos e graves, a marcha colectiva para um futuro qualificado?»

Forço conclusões, debruçado sobre a mesa de autópsias, desrespeitando a mestria de Fernanda Botelho nas subtilezas, no sugerido, na transparência que esconde. O grupo de amigos que rodeia Lourenço para o definir dizendo-o, são figuras de corpo inteiro, de carne viva, sobretudo as mulheres, Matilde e Luzinha. E também os seus dias surgirão, nunca de forma linear, como «contas dum colar, todos eles enfiados na linearidade do tempo, à espera dos que hão-de vir, mais contas para o colar que nos estrangula.» Quando a máquina da memória se liga «verificamos nessa altura (e com que surpresa!) como, vista assim em panorâmica, a nossa vida não foi uma simples sucessão de dias, antes uma confusa hierarquização de quebras, fagulhas, lapsos, deslizes, golpes, turbilhões, ciclones, mortes». A cultura, musical, literária, surge líquida, em baixo contínuo, pano de fundo, próxima e estruturante. (Rabelais por exemplo, atravessa a paisagem enquanto fantasma.) E em relação estreita com outro dos grandes temas: o corpo, como lugar onde nos cumprimos, e o desejo como ferramenta para o moldar. São incontáveis as passagens fulgurantes, que resultam do entendimento dos modos, da observação aguda, da explosão telúrica. «Só o corpo é meu em exclusivo.», canta Luzinha. «Ele é a parte que se deve a si própria, e apenas. É através dele que me exprimo natural; não quero chegar à metrópole torturada da alma com a nostalgia de não ter passado pela selva esconjurante do corpo, nunca estaria completa na metrópole, consagrada por inteiro às funções da metrópole, nunca, sempre dividida entre dois pólos opostos, à procura duma amostra de selva, e insatisfeita sempre, com a minha pretensa unidade comprometida, desconcentrada.» O corpo faz-se folha em branco, sujeito a uma escrita que abre a noite, mas que nos pode enclausurar. Por que porta se entra na perdição, em que momento falhamos o encontro? Falhar torna «a dor como forma única de sobrevivência»?

Páro, e ao parêntesis inicial respondo com dois pontos, deixando-me pendurado, tal me encontro. Estou agora no meio da conversa de Lourenço consigo mesmo. «Lorenzaccio, meu irmão, meu gémeo, meu arquétipo, somos os fundadores duma classe onomástica com os pés no inferno, o espírito no impossível paraíso e o cérebro rasgado na confusão das trevas terrestres. Somos realmente os gigantes da angústia perplexa, megalómanos do sonho irrealizado.»

Horta Seca, Lisboa, segunda 16 Março

Decidimos o inevitável. Encerrámos as janelas luminosas, da rua deserta sobra apenas a contingência da gestão da economia estar em horta seca. Esperamos que a porta fechada não ganhe o peso do concreto. Enchemos o peito de ar e agora de cronometro medimos o tempo que aguentamos debaixo de água (sem lançamentos, livrarias, feiras e o sobrante e poroso e descarnado exoesqueleto).

Horta Seca, Lisboa, sexta 19 Março

Em instigante entrevista ao Le Point, Peter Sloterdijk aconselha como leitura para os dias Bocaccio e «Decameron», por responder ao mal contando histórias que libertam o desejo de viver. Contemo-nos histórias. E lança o repto: estudar uma ciência inexistente, a labirintologia. No labirinto, as saídas não se descobrem à primeira e a vetusta bifurcação não responde aos desafios, não descobre se não portas. Fechadas.

25 Mar 2020

Habitar o vulcão

Santa Bárbara, Lisboa, 27 Fevereiro

Uma casa não é um motel. Podes vir, que não tenho chacais no quarto. Anda ver à tua volta. Não são chacais no quarto. Nem são lobos os que percorrem longos corredores. Vem à vontade que tens sítio onde ficar, pergunta por mim. Não são hienas quem ri quando sobes as escadas. Pergunta pelo meu nome todas as vezes que desejares, não é um leopardo que se esconde por detrás da porta. E todos responderão. Acredita, não são macacos que se dependuram dos candeeiros. Vem e fica à vontade, bem sei que não estamos sós, mas os olhos que brilham são companhia autêntica. Claro que não, que tubarão caberia na banheira? Ratos na cozinha, que ideia!? Anda daí, instala-te, abre as malas, sacode o pó, dobra os mapas. Sem medos, pois todos os selvagens que recolheste das paisagens são aqui em casa animais electrodomésticos.

Santa Bárbara, Lisboa, 3 Março

Na vertiginosa coluna de livros que me despertam vontade de comentário, e que tive agora de transferir das mesas do escritório para os vazios dos móveis da sala, mais do que estar, de ficar, topo com «Parícutin», do Gonçalo [Duarte] (ed. Chili com carne). E celebro a sacrossanta coincidência. A novela gráfica nasce do episódio ocorrido, em 1943, na localidade mexicana do título, quando um vulcão resolveu nascer para estupefacção de quem acordava todas as manhãs para ali mesmo tratar do milho onde agora nasceu um imenso e negro buraco. Estupefacção e culpa. Deixamos o agricultor Dionísio a perguntar-se se não teria sido o causador da desgraça e passemos ao cenário urbano-depressivo onde acontece o que terá que acontecer, com alguém que não se quer levantar, cansado de não dormir, exaurido pelo pesadelo recorrente da queda de prédio em construção. Descobre, então, que deve construir a sua casa, o que faz, com algumas ajudas que logo dispensa para se tornar dono e senhor exclusivo do espaço. A culpa há-de invadir cada recanto desfazendo-se mesmo os corpos na arquitectura. Até que a morada, agora miniatura, regurgite a lava de vulcão que tudo arrastará. Dois registos bem distintos convivem, um de traço simples figurativo, com os protagonistas de características monstruosas, disformes. E outro de fundo negro e massas expressivas onde cabeças se bastam como corpo, são a substância total, membros de «comunhão do tédio». E da culpa.

Alguém recusa sair de si, mesmo quando arrisca erguer projecto-identidade (corpo, casa, família), que se transfigura em obsessão (burra, autocentrada, individualista) até que esmaga toda a paisagem. O Gonçalo consegue, a um tempo, a leveza do desenho espontâneo, veloz, e o peso de um denso expressionismo, entranhado (ilustração algures na página). Esta parábola sonâmbula prenunciava, no final do ano passado, estes estranhos dias onde mergulhámos e nos quais a casa se faz lugar inexpugnável, palco fechado para segredos e demónios, obrigados pelas circunstâncias ao quotidiano. Estamos, sentados no sofá, deitados na cama, a repensar a ideia de indivíduo e comunidade. «Nada de mais. Já passou, não?», pergunta uma cabeça pensante. Não, lá fora, o vulcão continua a jorrar lava.

Santa Bárbara, Lisboa, sexta 13 Março

Fujo de todos os espelhos da casa, não vá o cigarro surgir-me entre os dedos e me atire à cara a bruta pergunta e-agora-joão?, como se fora vez agora, de entre tantas outras que irromperam sempre a arranhar e a magoar, cacto no meio dos lençóis lavados, alfinete de dama na camisola de lã. A idade média não está de catedral, nada de medir o transepto, atirar o eco à nave, retocar os santos, limpar-lhe os martírios, ler as subtilezas dos vitrais, bafejar as jóias, convocar demónios, arejar segredos. Menos ainda soçobrar e rezar. Lá fora o vento sussurra e-agora-joão?. Não cedas. A capicua na quarentena vale joker no baralho, muito estardalhaço para nada, risos estridentes quebrados ao cair no chão cambaleante das noites, atirados ao pano de fundo furado do céu. Um dia de expediente no obrigadar de todos os dias, explicação dos ânimos, na resposta balsâmica aos pesares pesarosos, de circunstância ou nem por isso. Vale joker.

18 Mar 2020

Teatro de sombras

Santa Bárbara, Lisboa, 25 Fevereiro

O tropeção da passagem do ano atirou-me para o colo uma fartura de crias para lamber, aquele momento único em que as nossas mãos tocam o objecto concreto e definido com origem em ideias e palavras. Pode sempre acontecer o inesperado, se não radical que nem cadernos invertidos ou lombadas guilhotinadas, seja a inevitável gralha a estragar a experiência com o seu grasnar. Cultivo essa superstição de encontrar alguma nesta primeira lambidela…

Hesito na cor que pulsa na capa de «A Grande Dama do Chá», trabalho (algures na página) da Elisabete [Gomes] para a viagem do Fernando [Sobral] à Macau dos idos de 1937, aliás, pré-publicada em folhetim no Hoje Macau. Não lhe vou ligar a confirmar se é carmesim o que vejo, mas gosto da ideia de profundidade do vermelho e conter algo de púrpura e ter tido origem em insectos habitantes de paisagens imemoriais. Melhor: não custa imaginar que os lugares, onde as personagens deste romance gastarão as vidas respectivas, multiplicam ao infinito tons e temperaturas do vermelho.

O «porto de almas perdidas», como lhe chama o narrador e mestre marionetista, talvez não chegue a ganhar corpo de protagonista, ao contrário do que se poderia esperar. Macau estende-se pano de fundo (carmesim?), mero entreposto das grandes transações: do amor e da morte, do comércio e do poder, do Oriente e do Ocidente, do ouro da droga, do Céu e do Inferno, da luz e das trevas. Mas talvez esteja enganado. É que o autor constrói com grande ligeireza, a partir de suaves e redundantes pinceladas, um perturbador teatro de sombras. Como um bom chá, o primeiro perfume não revela logo subtilezas ou densidades. As figuras maiores são Jin Shixin, espia ao serviço de uma China milenar, e Cândido Vilaça, saxofonista melancólico, diletante e adiado, como bom português. Ao redor do par apaixonado gravitam mais uma meia dúzia, invariavelmente em jogo entre o óbvio e o enigmático. Serão apenas isso, sobreviventes? Ou acabarão metáforas? Todos cumpriram guiões distintos daqueles em que os encontramos com à guerra às portas da cidade, e talvez daí nasça uma certa urgência em cumprir-se, nem que seja na invisibilidade. Jogadores, claro. «Todos, para o bem e para o mal, jogamos. Uns sabem fazê-lo. A maioria apenas observa os outros a jogar. Nunca arriscam. Nunca tomam decisões. Vêem a vida e a riqueza a passar defronte dos seus olhos.», diz um ex-polícia, oriundo de Xangai, a outra ponta do triângulo, com Hong Kong. São seres de excepção, entre o aventureiro e o desesperado, e até os mais banais levam a sua condição a máximos raros.

O carmesim será a cor do spleen? Os «bonecos» são movimentados pelo vento da narrativa, resistem ou dançam, permitindo as cambiantes não tanto do seu comportamento, como do seu pensamento. Uns tratam de comerciar, outros de espiar, outros gostavam de alcançar a épica de cumprir destinos colectivos, outros de navegar no sonho de tocar em nome próprio, de ter um nome. Pergunto-me se, afinal, não serão todos e cada um emanações da cidade. Não se perde uma única oportunidade, claro, para suscitar reflexões, e não apenas em torno da capitulação perante os prazeres e a droga, a luminiscência do ouro, o valor da tradição ou a traição enquanto lugar comum do humano. O encontro de civilizações suscita,a cada passo, perplexidades. Vejamos este diálogo em varanda de hotel, com o jazz por fundo.

«– Em Xangai foi possível juntar o Oriente e o Ocidente. Tal como aqui, em Macau.
Jin Shixin voltou a cabeça:
– Não será assim, senhor Ezequiel. O Ocidente subjugou o Oriente. Sequestrou-lhe a alma com o vício e o
comércio sem regras. E chama a isso irmandade?
– Os próprios orientais não estão isentos de culpa, menina Jin.
– O que é a culpa, senhor Ezequiel? Pecar muito, rezar e, depois, ser absolvido, como se nada tivesse acontecido?»

O Fernando serve-nos um belo chá, que pode ser tomada sem a mínima preocupação, mera degustação de imaginar baías ao fim do dia. Mas temo que outros fins se ocultem nesta narrativa que se lê enquanto o diabo esfrega um olho. E os portugueses, nisto? Diz o saxofonista: «Portugal foi uma grande potência porque controlou as veias do mundo, os oceanos. Quando outros o fizeram a sua missão terminou. Em Portugal consideramos a eternidade e o destino como o mar que está defronte de nós. É o fim, depois do fim.»

Esta colecção da Arranha-céus, de que este romance este é apenas o sexto volume, parte de uma ideia simples: país com o nosso passado possui extrema riqueza apenas aflorada. Ou seja, aqui cabem os resultados dos diversos géneros que podem ser usados na exploração, além do inevitável romance histórico, o maltratado memorialismo, em versão de autobiografia, diário, correspondência, enfim, relato de viagens, ou a biografia, de carácter mais investigativo ou romanceada. A curiosidade por tais temas surge transversal e com público potencial mais vasto. E por nisso acreditarmos, fomos generosos no formato, na paginação e sua gestão do branco, no corpo do texto. Para conforto máximo do leitor. A referência ao género surge apenas na contracapa e na folha de rosto, com discrição, sublinhando que são as histórias o que aqui nos interessa. Apesar da sua forte identidade visual , não tinha título exacto até este momento, em que passará a chamar-se H, de hora, história ou histórias, sem esquecer o carácter arquitectónico da letra maiúscula.

12 Mar 2020

Atropelamento e fuga

Horta Seca, Lisboa, 23 Janeiro

Vem impregnado com o perfume do embuste, mas teimamos em coser as cicatrizes dos dias com o relâmpago do sentido. No exacto dia em que sou aconselhado com veemência a regular os meus dias através de um medidor automático da pressão arterial, para marcar em caderno as cadências sistólica e diastólica, o pulsar das paredes do músculo maior, chega-me o laptop, um Lenovo T495, na intenção de me tornar menos assente, mais ágil.

Horta Seca, Lisboa, 24 Janeiro

Embalados pela mudança nos calendários, pelo arredondar dos algarismos na marcação do fugidio, do etéreo e líquido, ainda que nos marque a pele com a lâmina cortante de um aparente destino, tentámos recuperar atrasos. Retirar, portanto, pastas daquela que mais espaço ocupa no meu computador, e que se chama «agora». Alguns títulos desenvolvem-se em estranha urgência, alimentam-se da sua energia e impõem-se ao planeado com o fulgor do inevitável, com a simplicidade do encaixe de uma perna em tampo para dar mesa. Outros tropeçam a cada passo na absoluta irregularidade, encontrando no liso a íngreme montanha.

São os pequenos nadas a quererem erguer-se engrenagem. Mais tarde, podemos ler nisto vantagens, maturação que se ganha, uma coincidência que se aproveita, mas não resolve o óbvio incumprimento. Cada vez mais: editar faz-se contra todas as probabilidades. Começando pela de encontrar leitores na selva mediática. E os atrasos perturbam o esforço da busca pelos leitores, agravando a invisibilidade habitual.

Quem notará que saiu novo volume das obras completas De Fernanda Botelho, no caso, «Lourenço é nome de jogral»? Um romance insubmisso onde as personagens afirmam que «a literatura não é instrumento, a literatura é a livre expressão do homem (…). A literatura é o homem isolado no acto de escrever, sem liames, sem governantes, sem escravos, sem ‘por encomenda’, sem ‘ao serviço de ‘.»

IPO, Lisboa, 30 Janeiro

A realidade chegou e sussurrou-me: «és um homem doente». Deu-me a mão, espreitou a medula, internou-me e tornou-a condição. «Quando nos sentamos à borda da cama somos presidiários a reflectir sobre a sua condenação». As greguerías de Ramón costumam ser mais animadas.

Palhavã, Lisboa, 31 Janeiro

Livros há que se dão tal importância, que não se limitam a não correr bem, inventam novas formas de correr mal. Há umas décadas que, de um modo ou outro, os livros me passam pelas mãos. Nunca por nunca me haviam guilhotinado uma lombada, transfigurando álbum em colecção de posters. O sempre solene momento de ter nas mãos o objecto ansiado, resultou aqui em pedrada, enorme e certeira. Soltei lágrimas, feito menino, sem lhes conhecer a origem. Registo apenas um fragmento solto do colar de peripécias, que se revelou jibóia de abraço caloroso.

Palhavã, Lisboa, 5 Fevereiro

O Rui [Garrido] chega-me com a capa impressa do «Saudades de Portugal», do «meu» Ramón [Gómez de la Serna], outro dos filhos da delonga. E que bela está (algures na aqui página)! Um retrato com as marcas de quem passa, um olhar a intensificar-se sob sinais de arrastamento, uma lentidão a sobressair da aparente velocidade. Nada mais no rosto do livro além da face do autor enquanto jovem. Agora que vivo em pleno domingo, a companhia que não me fará. «Tristeza dos vidros ao domingo, tristeza irrevogável. Tristeza dos bocejos das varandas abertas atrás das sacadas. Os quartos, a casa toda, têm um bocejo de comprida serpente, que é a que tem mais feita a boca para bocejar. (…) Uma variante há que agrava e dá originalidade a esse sol de domingo, e é quando o encontramos sobre a fachada de uma casa vermelha. Isso que é triste todos os dias, sangrentamente triste, ao domingo é sufocantemente triste.» Quem dará por este olhar tão sabiamente recolhido por Antonio Saez Delgado e Pablo Javier Pérez López? A cada página, a delícia. «Portugal tem um peculiar voo de borboletas, e é possível argumentar que pela sua atmosfera passam peixes-voadores. Está orientado para outros pontos cardeais que não os nossos e a sua rosa-dos-ventos é diferente e tem mais pontas que as rosas-dos-ventos.»

Palhavã, Lisboa, 6 Fevereiro

Ramón sabia: «O lápis só escreve as sombras das palavras.» Sentado à borda da cama, tenho na mão a edição que o mano Luís [Carmelo] resolveu acolher na colecção Crateras, da sua Nova Mymosa. «Navalha no olho» faz-se de atrevimento e celebração da imagem e do corpo. Irónico, o momento. «a desajeitada e regular forma como acontece/ no calendário o domingo/ sabe-me a azeda/ luz repousa sobre cada objecto/ indiferentes, uma e outros».

Palhavã, Lisboa, 10 Fevereiro

Nunca o silêncio mora em quarto de hospital. Nem escuridão. Chamemos-lhe sossego. O mano José [Anjos] rompe um e outra com a leitura, na sua semanal incursão pelo «Indiegente», do Nuno Calado, com a leitura dos versos a rasgar do pequeno livro amarelo.

Santa Bárbara, Lisboa, 19 Fevereiro

Esta é a estação do inventário, outro dos momentos em que a crueza da realidade acelera para nos apanhar. Os livros estão espalhados por centenas de lugares, sem sabermos bem se vivos se mortos. Dezenas escapam aos controlos e acabam sem se saber como nas bancas de saldos, os coveiros do circuito, que compram ao quilo para vender ao litro. As tiragens baixam, em resposta à rarefacção do gesto leitor, para alimentar a droga da novidade, por isto e aquilo. Ainda assim, não se evita o enorme desperdício de ofertas e convenções que alimentam voragem de um sistema a liquefazer-se. Para que lado escapar, construindo?

Santa Bárbara, Lisboa, 22 Fevereiro

Chegam-me ecos das Correntes d’ Escritas, onde lançámos quatro obras, cada um com episódios por contar. Por exemplo, a relação com a canção de italiana do «Adius», do Vasco [Gato]; o atribulado apuramento do romance-deriva do Paulo [José Miranda], «Aaron Klein»; por oposição à presteza com que o Luís [Carmelo] resolveu enfrentar fantasmas a partir de conversa na Mymosa; ou a origem folhetinesca de «A Grande Dama do Chá», do Fernando [Sobral] (ed. Arranha-céus). Concentro-me por hora, nas capas e ilustrações, orquestradas a alta velocidade, dos três volumes de ficção da abysmo. E, portanto, de novos logótipos. Cada um, e por ordem, a Carolina Moscoso, o Rui Rasquinho e a Susa Monteiro tornaram transparente a atmosfera que as palavras criaram. Temos ausências, evocações, indícios. Temos esboços de personagens, rostos, memórias, momentos. Metáforas. E abysmos no coração do monte. E o y como lugar de reunião. E ossos que fazem caracteres.

Santa Bárbara, Lisboa, 23 Fevereiro

Ramón: «o termómetro é a esferográfica da febre.”

4 Mar 2020