Paisagem com vedação

O romance da alemã Christine Steinbrenner, «A Narradora» (1977), que tem a acção algures na Baviera de finais do século XIX, na casa de uma abastada família de agricultores, começa assim:

«Quando os antepassados de Ulrike circunscreveram os seus terrenos com vedações, o medo da diferença assolava os campos.» É o início da história de Ulrike Rohm, uma menina que no início do romance tem 10 anos e que personifica a história do crescimento do nazismo na Alemanha. Steinbrenner leva-nos a ver o nacional-socialismo não apenas como uma consequência social e política, mas principalmente familiar. E família, aqui, é sempre visto como um ajustar os filhos às nossas convicções, às convicções dos educadores.

Escreve, através da narradora – e a esta voltaremos mais tarde –, o que se passava na cabeça da mãe: «Ulrike era um prolongamento da família, por isso era necessário estar sempre a ajustar os seus comportamentos, como os vestidos à medida que ela crescia.» O nacional-socialismo é uma paisagem que se torna visível página a página, logo desde o início em que a narradora conta: «Esta família era como muitas famílias na Baviera, onde aparecia um novo modo de pensar o mundo, uma nova Alemanha, sobre os antigos alicerces dos preconceitos.»

O pai de Ulrike, Heinrich, que parece estar em todo o lado sem nunca aparecer corporeamente, é uma espécie de sombra, de crença: «O seu pai não vai gostar nada de ver o seu cabelo desarranjado, Ulrike!» Ou quando a filha irrompe pela sala da casa a queixar-se que o pai tinha sido mau para ela, e a mãe lhe responde: «Não fique triste, filha, seu pai ralhou-lhe por amor. Ele não gosta de a ver a brincar com o filho do caseiro. A menina tem de aprender que as pessoas não são todas iguais. Lembra-se de quando caiu do cavalo e o pai lhe disse que tinha de voltar a montar, para não ter medo, e a menina julgou que ele estava a ser mau? Aqui é o mesmo, filha! Seu pai está apenas a ensinar-lhe como é a vida.» Aquilo que o leitor vai sentindo é que poderíamos fazer de nós outras pessoas, podíamos educar-nos para a aceitação da diferença e não para a negação da mesma. E talvez o momento mais caricato seja o do diálogo entre a mãe de Ulrike e a sua irmã, em que esta diz, a propósito do noivado de uma amiga comum com um judeu abastado de Berlim: «Qualquer dia já não há diferenças!»

Outro dos pontos interessantes do livro é o modo como se vai desenvolvendo o papel do narrador ou da narradora. Até ao final do livro não sabemos quem está a narrar a história que estamos a ler. Vamos tendo suspeitas, que também vão mudando à medida que os acontecimentos vão sendo relatados. Quem é o narrador ou a narradora do livro, que nos conduz com maestria ao longo das 220 páginas, é a pergunta que o leitor vai fazendo a si mesmo como a que Ulrike fará à mãe, muito preocupada, a propósito da nova escola para onde irá: «Mas eu não vou saber quem é quem.» Mais do que o medo ao desconhecido é o medo a ficar desajustado em relação não só às regras, mas ao que é considerado certo pelo grupo a que pertencem. E o leitor também se sente desajustado em relação ao que lhe é habitual: saber quem o conduz pelo tempo de leitura. Ao longo do livro, o querer saber quem narra torna-se tão importante como saber o que está a ser narrado. Em alemão, o género fica indeterminado no título. «Erzähler» tanto pode ser «narrador» quanto «narradora». Em português, a tradução não teve como não desvendar parte do mistério, se bem que num universo predominantemente feminino dificilmente estivéssemos perante um narrador. Além das personagens de que já aqui se falou, há ainda a avó paterna de Ulrike, a amiga de infância da mãe, Ellen Heizmann, que a visita algumas vezes, e uma prima afastada do pai de Ulrike, que de cada vez que vai a casa dos Rohm causa desconforto no lar, devido ao seu comportamento excêntrico e beato. Esta prima, Johanna Drummer vivia reclusa em sua casa, nunca tendo casado, e devota de Santa Tecla de Icônio, a grande companheira de pregação de São Paulo. O primo, que se esforçava por educar a filha no protestante valor do trabalho, via esse seu ascetismo como um péssimo exemplo para Ulrike, arranjando contínuas desculpas para não a receber ou, não podendo evitar, que as suas visitas não pecassem pela demora.

Trata-se de um romance duro, em que Steinebrenner nos leva por descrições, frases, pensamentos que nos incomodam, que tendem a nos fazer parar muitas vezes, como no primeiro exemplo, logo à página 14, em que Ulrike diz à mãe que matar pardais lhe dá muita paz e esta afaga os cabelos da filha com um sorriso terno e diz: «Não vá para longe.» É um livro difícil, não pela linguagem ou pelas reflexões, mas pelo quanto nos transtorna os nervos. Quase tudo nos melindra, como se a vida à nossa volta – e nós mesmos – o estado de coisas não fosse semelhante ao que nos é relatado, mais até do que na altura em Steinebrenner publicou o livro. Continuamos a ter dificuldade em aceitar a diferença e a educar-nos em grupos mais ou menos fechados. Escreve Steinbrenner, à página 147: «Aos 12 anos, Ulrike tinha já feito todas as amigas que seria preciso para atravessar a vida. A mãe sabia-o e isso dava-lhe tranquilidade.» Não apenas a família e o seu território, mas o humano visto como uma paisagem com vedação.

10 Mar 2020

Eus

Luigi Pirandello disse numa entrevista que dividia os escritores em dois grupos: aqueles que se encantavam com o que viam, com o que acontecia fora deles e passavam a descrevê-lo a quem chamava escritores naturalistas; e aqueles que se surpreendiam com o que se passava dentro deles mesmos, com a incongruência entre o que sabiam e faziam, o desconhecido enorme que os habitava, a quem chamava escritores filosóficos. Termina por dizer: “Infelizmente faço parte do segundo grupo.”

O seu conterrâneo Marcello Crocetta, nascido em 1975 em Agrigento, pode ser também considerado um escritor desse segundo grupo. Os seus livros são todos de textos curtos, alguns de duas páginas, e desde o início que dividiram a crítica italiana, considerando-os entre pequenos contos e crónicas. Recentemente, quando esteve em Portugal, numa entrevista concedida à poeta e jornalista Inês Fonseca Santos, para o programa de TV “Todas as Palavras”, Crocetta disse acerca desse assunto: “Aquilo que escrevo é conto. A matriz é sempre a ficção. Se algo acontece comigo, ou penso acerca de um acontecimento ou comportamento social, a tendência natural da minha escrita é criar uma personagem ou personagens e pulverizar o eu, de que a crónica tanto vive. Se acontece, por vezes, o texto desenvolver-se na primeira pessoa, não sou eu que falo, mas uma ficção. Eu não tenho opiniões, e seguramente menos conhecimento ainda para dissertar acerca de um assunto, embora me julgue capaz de criar “eus” fictícios que se movem em determinados cenários que talvez não sejam mentira. Aliás, todos sabemos que o eu é uma ficção não assumida enquanto tal. A minha escrita leva apenas essa premissa à conclusão ficcional. Se eu não sei quem sou, se me ponho a discorrer acerca de um assunto, como este aqui e agora, é evidente que é uma ficção.”

Quando Fonseca Santos lhe pergunta: “Então, qual a diferença entre o que acaba de dizer e um conto que escreve?” responde: “Não sei. Mas suspeito que seja a apresentação do corpo. Estas palavras colam-se a mim, parecem ser expressões minhas – ou pelo menos é desse modo que tendemos a ver –, as que escrevo separam-se naturalmente de mim.”

Esta sua resposta faz-nos lembrar de imediato o conto “Amanhã Serei Bonita”, do seu livro “Apresentar Argumentos à Beira do Suicídio”, de 2003, em que a narradora ao passar a lista do que tem para fazer nesse dia, durante o seu pequeno-almoço – três horas de exercício no ginásio, meditação, yoga, passar na loja de produtos naturais –, pensa “Fui eu mesma que pensei isto? Isto sou eu mesma? É isto que eu quero fazer?” Crocetta mostra-nos que nem aquilo que parece termos escolhido fazer pode ser expressão de um “eu”, mas uma ficção. Neste caso, uma ficção colectiva, mais ou menos abrangente. A pulverização do eu a que Marcello Crocetta se referia na entrevista acima citada não tem a ver com uma teoria, mas com uma vivência do autor, que não distingue entre o que consideramos não saber de facto e aquilo que nos é imposto pelo grupo social a que pertencemos. Nós não somos nós apenas por desconhecermos o futuro ou não termos todos os dados para tomar uma decisão acerca da nossa vida, nós não somos nós por isso e por também assumirmos comportamentos que têm a ver com o nosso “habitat”. Comida saudável, horas de ginásio, meditação, yoga não fariam parte da vida de Pamela – a narradora de “Amanhã Serei Bonita” – se tivesse nascido há 50 anos. Ao tomar o pequeno-almoço, no seu bonito apartamento de Roma, dá-se conta de que talvez as suas decisões, o que julga serem as suas decisões, não passem de decisões de outros por ela. No seguimento dessa reflexão, Pamela pensa ainda: “Mas se eu agora decidisse deixar de ir ao ginásio, de fazer meditação e yoga, seria eu a decidir?” É este pensar exaustivo de Pamela acerca da possibilidade de não existência de um eu dentro de si que agonia o leitor, não só neste conto, mas em quase todos os contos de Marcello Crocetta. A partir daquele momento Pamela passa a viver na vertigem da não existência do eu ou, melhor seria dizer, na vertigem da confirmação da não existência do eu. De cada vez que pensa algo, pensa que não há um ela mesma a pensá-lo, mas que alguém pensa por ela, o que acaba por levá-la ao suicídio.

Suicídio que acaba por se tornar assassínio, pois alguém dentro dela a levou a esse gesto final. Dias antes de se matar, de alguém a matar, envia uma mensagem pelo telemóvel à sua amiga Manuela, dizendo: “Alguém em mim me está a matar”. Este “alguém em mim” é o motor da escrita de Marcello Crocetta, que segundo ele é incompatível com a crónica. Esta exige um “eu” que se assuma como se existisse, e Crocetta escreve através de “eus” que ganham existência através de uma escrita que é atravessada pela crença de que nada em nós nos pertence, nem o desconhecido. Apesar disto, termina por dizer na entrevista a Inês Fonseca Santos: “Mas não tenho nada contra a crónica. Só que ela não me assenta bem.”

No fundo, a escrita de Marcello Crocetta não anda longe das reflexões que moviam a do seu conterrâneo Luigi Pirandello.

18 Fev 2020

A solidão doméstica

Marianne Harrison, canadiana de nascimento, passou a viver nos EUA com os pais desde os 9 anos. Aí cresceu e estudou. Em meados dos anos 70 do século passado, dava a lume o seu belo e claustrofóbico “A Solidão Doméstica”. O livro retratava a vida de Mary desde os dias em que conhecera Roger Coleman no liceu, em finais dos anos 50. Sem ter ido para universidade, Mary Coleman casa com Roger e passa a ser uma mulher dedicada à família. Durante os vinte anos seguintes, a sua vida é literalmente de casa para o mercado, para as escolas dos filhos e de volta para casa. Há momentos em que ela se lembra da rapariga que tinha sido, dos sonhos, do que pensava que poderia ter sido a vida. Pensava até no que nunca poderia saber ou ter pensado, mas que se fazia sentir como um desconhecido fabuloso, “a sensação de que é à frente que vamos ser felizes”. Aos 42 anos, vê-se completamente sozinha em casa, sem nenhum interesse, vagando pelo triângulo cozinha, televisor, leito de dormir. Os filhos já não estão e o marido passa o tempo entre o trabalho, num escritório de advocacia, e os campos de golf. Descrito assim, parece tratar-se de mais um pouco estimulante livro de realismo doméstico ou realismo de subúrbios. Mas o modo como Marianne nos conduz ao interior de Mary muda tudo. Passamos a ver, a sentir e a falar através da protagonista. Tornamo-nos nela. Queria ter sido alguém, queria ter feito algo mais do que ter sido mãe.

Pensa, e nós com ela, “que pena não ter nascido homem”, enquanto coloca a loiça na máquina que o marido tinha comprado e fazia a inveja das mulheres dos amigos do marido, quando iam jantar a casa. Nada lhe faltava. Não se podia queixar. Não tinha sequer a quem se queixar. “Quem me pode entender? Nada me falta, nada me dói… nem eu mesma sei o que é isto em que estou a pensar. Porque me atormentam estas ideias, meu Deus?”

Muitas são as frases que Mary diz e pensa, que nos tocam profundamente. A minha preferida, e que é também o êxtase do romance, surge quase no final, quando aos 62 anos, aceitando a derrota para o cancro cerebral, numa cama de uma clínica, e segurando a mão de Roger, Mary lhe diz “Se ao menos a vida tivesse valido a pena…”. Nesse momento somos nós que sentimos a nossa própria vida perdida. Por instantes, tornamo-nos essa vida perdida. Aquilo não só nos dói, como – assim que nos recuperamos –, nos pomos a rever a nossa própria vida, a ver se vale a pena, perguntamos: se estivéssemos agora a morrer, também diríamos com Mary “Se ao menos a vida tivesse valido a pena…”.

Além da importância literária de “A Solidão Doméstica”, hoje, tem também uma importância histórica. Há não tanto tempo atrás, havia mulheres que entristeciam por não terem nascido homens, porque só sendo homens a sociedade lhes dava a possibilidade de fazerem o que lhes era de direito fazer. Este livro de Marianne, que na época em que saiu foi completamente esquecido, é recuperado em finais dos anos 90, precisamente por este lado histórico, menos literário, embora não menos importante.

De qualquer modo, e sem menosprezar o seu lado histórico, que é necessário nunca esquecer – porque a mulher poder ser o que quiser pode voltar a perder-se – a grandiosidade do livro passa pelo seu carácter existencial, ontológico. “A Solidão Doméstica” mostra-nos, ao detalhe, ao pormenor sempre angustiante, que a cada instante podemos tomar uma decisão que nos irá fazer arrepender de ter vivido. Errar na vida pode não ter conserto, apesar de também não se saber o que seria não errar. O que Marianne nos mostra através das mais de 500 páginas de “A Solidão Doméstica” é que, apesar de todos os cuidados nas decisões, apesar de toda a diversão que possamos usar para esquecer uma vida mal decidida, no final saberemos o que fizemos a nós mesmos. Valeu a pena ter vivido?

Acompanhar aquela mulher ao longo das páginas, perceber que não foi quem poderia ter sido por imposição social, por expectativas familiares, por convenção, por regras que ela não criou, nem votou, vê-la a sofrer horrores aos sessenta anos, e depois ainda ouvi-la dizer ao marido “se ao menos a vida tivesse valido a pena”, talvez nos ensine tanto como a leitura de Beauvoir, Sartre e Heidegger juntos. Marianne, ela mesma, teve uma vida semelhante à de Mary, e só escreveu “A Solidão Doméstica” no fim. Foi o seu único livro, provavelmente autobiográfico, apesar de ter estudado Literatura Inglesa. Morreu de problemas no coração um ano depois da publicação do livro, com 71 anos. É ler, meus amigos, ou, se for caso disso, reler.

12 Fev 2020

A arte ou a cidade

A escritora eslovena Masha Pregarç escreveu um livro em finais dos anos 90 acerca das relações entre arte e cidade ou, mais concretamente, na tentativa de apurar acerca dos benefícios ou malefícios da arte na cidade. No primeiro capítulo faz a pergunta pela arte: “O que é a arte? Qual o seu efeito num coração humano em crescimento, que efeito tem na esperança, que faz ela com o nosso futuro?” Mas não é aqui neste capítulo que encontramos o melhor e mais pertinente do pensamento de Pregarç. É nos capítulos subsequentes, quando coloca a questão da arte em relação com a política. Que deve a política fazer em relação à arte, isto é, que deve a cidade, a Europa, fazer em relação à arte, em relação àqueles que aqui e agora crescem e que, no futuro, hão-de crescer? Porque tomamos por certo que a arte é uma coisa boa? Porque põem os artistas quase tudo em questão menos a própria arte? Porque não pergunta o artista se a arte prejudica a cidade? Porque toma ele por certo que é um bem?

É necessário expor aqui uma longa passagem do livro: “A arte no seu sentido ocidental é a expressão das linguagens musicais, plásticas e literárias, isto é, a expressão do ser humano isento das necessidades de sobrevivência, de protecção e de expansão das suas materialidades. A arte é a expressão da possibilidade de o humano não ser humano; a expressão do desejo do humano de superação ou esquecimento da sua condição. No fundo, a arte é querer não precisar de alimentos, de água, de protecção; a arte é não querer ser mortal. Por isso, o Ocidente viu, e muito bem, que todas as outras artes que não tenham isto como fundamento não são verdadeiras artes, mas falsas artes, artes de imitação da arte ou, como Hermann Broch descreveu, são o kitsch, isto é, imitações da morte, de variações da morte, que é a arte no seu confronto com a condição humana. Obviamente, fica claro que a arte está em oposição à moda, a qualquer tipo de moda. A arte não serve para nada, senão para despertar o desejo de o humano não ser humano. A arte serve para acreditarmos que podemos ultrapassar as coisas, que podemos ultrapassar a nossa condição de precisar de coisas.”

A partir daqui, Pregarç irá mostrar-nos que educar o ser humano com o pressuposto de que a arte é um bem, é educá-lo não para a vida mas para um além da vida; educá-lo para um além das necessidades que a vida comporta. Conscientemente, qual o pai que será capaz de educar um filho para isso? De educar um filho para ultrapassar ou esquecer a vida? A resposta é fácil: nenhum, obviamente. Um pai, um educador pode não saber exactamente o que é a arte, por estas palavras, mas sabe que a arte não é para todos, isto é, ele sabe que são poucos os que podem fazer arte. “É esta estatística que afasta os humanos de empurrar os filhos para a arte. Pois um filho educado para fazer arte não vai conseguir fazer mais nada. Um filho educado para a arte traz um coração faminto, faminto de ser melhor do que os outros ou tão bom quanto os melhores dos melhores.” Porque, está bem de ver, para Pregarç, aquele que faz arte, ou ambiciona fazê-la, quer ser único, quer ser diferente do artista do lado e do artista da frente. Pois só sendo diferente ele pode sobreviver na arte, no para além da vida. O problema que se coloca à cidade não é o de saber se ela suporta a unicidade destes fazedores de arte, mas se ela consegue suportar o excesso de frustração que nasce naqueles “únicos” que nunca vão ser senão aquilo que são: desgraçadamente humanos. Desgraçadamente, porque foram educados para não ficar confinados à vida e acabam por se ver apenas com a vida, de um lado para o outro. Escreve Pregarç: “Alguma vez se fez a estatística destes desgraçadamente humanos? Importa fazê-la ou não? Julgo que se, numa cidade, a alegria for mais importante do que a tristeza, importa fazer este levantamento, importa pensar acerca deste assunto com seriedade. Não será preferível, a uma cidade, educar os seus jovens na aprendizagem do amor, da tolerância, da capacidade de se emocionar com o seu vizinho do lado ou com o seu vizinho da frente, ao invés da educação na arte? Não é preferível educar os jovens na aprendizagem de criar riqueza e de saber distribuí-la, ao invés da educação da arte?”

Este discurso algo alarmante visa a defesa de uma educação em modos específicos de entender a ética e a política. A defesa de uma educação na consciência da cidade, na consciência do outro, e não na alienação, mudará inevitavelmente a política, mudará radicalmente a consciência que temos de cidadania. Porque para a autora, a arte não é educadora, não traz em si nenhum bem para a cidade porque, escreve, “Não pensem que se pode educar os jovens apenas para aprender a apreciar, a admirar a arte. Pode-se educar alguém a aprender a admirar, a apreciar a arte e aqueles que a fazem, sem inculcar em seus corações um desejo de querer ser como eles? Pode-se educar um jovem a admirar o futebol e os futebolistas, sem inculcar nos seus corações o desejo de querer ser um deles?” Termina o livro por dizer que o nosso futuro pode depender do modo como vamos responder a estas perguntas, mas sem as colocarmos seriamente ou tentarmos responder-lhes, estamos seguramente a não querer importar-nos com o futuro das nossas cidades.

Precisamos de respostas políticas à arte, para o futuro, e precisamos delas hoje. À parte algum tom reacionário que o texto parece apresentar, não deixa de ser interessante seguir o percurso das reflexões de Pregarç e tentar nós mesmos contrariá-las, visto serem tão contrárias ao que usualmente pensamos. É, acima de tudo, um livro provocador.

4 Fev 2020

Uma asa do além

O filósofo espanhol Miguel de Unamuno viveu obcecado pela figura de Tomás de Taranto durante um período da sua vida, chegando a escrever vários pequenos textos que nunca chegou a publicar por razões misteriosas e que estiveram para vir a lume em dois volumes com o título “Uma Asa no Além – Volumes I e II”. Tomás de Taranto nasceu em Tavira em 1243, quatro anos depois de D. Paio Peres Correia ter conquistado o Castelo de Tavira e expulsado os mouros dessa cidade, e talvez seja por isso que ainda hoje se conheça muito pouco da sua vida e do seu pensamento filosófico e místico, que parece ainda muito dever aos árabes, e que nos anos da sua vida e subsequentes à sua morte deveriam parecer muito desviantes dos dogmas cristãos. De facto, os seus escritos, apesar de religiosos e cristãos eram considerados heréticos e este misto deve ter despertado a atenção de Unamuno, que sempre roçou uma asa pelo além. Mas Taranto não era descendente de árabes, mas de um comerciante do sul de Itália, que se casou com uma fidalga de Tavira e por aí ficou. O seu fascínio pela cultura árabe, segundo Unamuno, deve ter vindo da descoberta da tradução dos textos gregos antigos, especialmente dos estoicos. Livros que o pai lhe terá trazido numa das suas viagens marítimas e comerciais pelo sul de Espanha e norte de África.

Independentemente do indiscutível interesse desses textos, para mim este interesse de Miguel de Unamuno por Tomás de Taranto traz os seus melhores frutos se nos detivermos numa tentativa de compreender o que leva alguém a querer entender outro com mais profundidade do que propriamente o sumo que se retira de entender essa figura herética. No fundo, trata-se da reflexão – que percorre muitos desses textos – acerca do que é que nos leva até ao outro, mesmo que seja, não a milhares de quilómetros de distância, mas a um infinito de distância, que é séculos passados.

Unamuno, contudo, fascinado pela figura desse medieval português, salienta algumas passagens de Taranto acerca da diferença entre uma pessoa ética e uma pessoa boa, que reproduzo aqui: “Uma pessoa pode ser ética sem ser boa em sentido de afável; é o caso daquela pessoa que não tira de si para dar aos outros, mas jamais tiraria dos outros para dar a si. E uma pessoa boa (em sentido de afável) pode não ser ética; é o caso daquela pessoa que dá muitas vezes de si aos outros, mas nem sempre se comporta de modo correcto.” A pertinência da citação desta passagem, prende-se com o facto de nos mostrar que Taranto entendia o comportamento ético muito mais em sentido de não prejudicar o outro do que em fazer-lhe bem. Uma pessoa ética pode até nem dirigir a palavra a ninguém, ou em muito poucas ocasiões, ser aquilo a que usualmente se chama “pessoa fechada” ou antipática. Em outra passagem, lê-se: “Há muito mais ética no recolhimento do que na festa, no silêncio do que no canto.” E, quer se queira quer não, escutamos ecos do estoicismo. A ética, se não é dependente do recolhimento, é pelo menos sua vizinha próxima. Isso não basta, evidentemente, mas parece ser fundamental. Mas não seria por aqui que o interesse de Unamuno despertaria para as páginas deste português de Tavira, seguramente. Miguel de Unamuno refere acima de tudo o fascínio que a luz causava em Taranto, e são também estes os textos que mais me agradam. São muitas as páginas em que ele discorre acerca da luz de Tavira, do céu, das nuvens, como se de algum modo essa paisagem fosse a antecâmara de Deus ou, expressão feliz que usa num dos seus fragmentos: “uma asa do além”. O céu, que em português tanto pode ser metáfora do paraíso como o limite do planeta Terra – contrariamente à língua inglesa que distingue sky e heaven –, era para Taranto a unificação da natureza e de Deus, a síntese possível e visível da perfeição de Deus e da sua criação. O céu, para além do deslumbramento que causa, escreve Taranto, “lança a alma num desejo de mais que não encontra eco no mundo”.

Unamuno, que algumas vezes se refere a Taranto como “o português do céu”, sublinha que essa relação entre céu e terra, sagrado e profano, que ele considera privilegiada, foi comum às povoações costeiras do sul durante séculos, mas que encontra a sua expressão máxima na cidade de Tavira, com Tomás de Taranto.

7 Jan 2020

O sambista e a vaidade

Diniz, mulato à volta dos quarenta anos vivia na zona norte do Rio de Janeiro, em Vila Isabel, e ganhava a vida numa auto-mecânica do bairro, como pintor. Vida tranquila, mas que já tinha visto muita miséria. Perdeu pai e mãe em criança e teve de se virar muito cedo na vida. Chegou a Vila Isabel de carona, vindo da cidade vizinha, Duque de Caxias, e conseguiu se virar por causa do samba. Desde moleque que levava jeito para fazer samba. Para ele, samba era vida. E, no caso dele, o samba literalmente salvou-lhe a vida. Quase não pegou escola. Fez o básico, para saber ler jornal e enturmar as contas. Costumava dizer que os sambas que escrevia não vinham do estudo. “É a rua que dá samba.” Na verdade, para Diniz, quase tudo dava samba. Numa conversa, não raro se escutava Diniz dizer “isso dá samba”. E dava.

Muito cedo, o caso de Diniz chamou a atenção de alguns jornalistas. Um deles tentou convencê-lo a escrever umas estórias, botar isso em livro. “Vai que dá certo”, dizia para o sambista-mecânico. Mas Diniz rejeitou esse primeira investida, desconfiado. Pensou para si mesmo “posso não ter estudo, mas sei o suficiente para saber que não se faz aquilo que não se sabe; se eu nunca li livro, vou agora escrever um? Aonde é que isso faz sentido?” E assim continuou, de samba no pé e na mão, longe dos livros.

Mas jornalista quando encasqueta com uma coisa é como cupim na madeira, não descansa enquanto não corrói tudo por dentro. E um ano depois voltou a atazanar o sambista, que voltou a recusar. As investidas não cessaram e Diniz começou a ficar muito incomodado com aquilo. “Se você não sabe, porque não experimenta? Vai que dá certo”, insistia o jornalista. Mas Diniz não queria nem experimentar, nem que desse certo. Queria que o deixassem em paz com o trabalho na auto-mecânica e com o samba. No fundo, o que o jornalista queria, ainda que não confessasse, era oferecer-lhe os seus serviços como ghost-writer, quando Diniz percebesse que não conseguia escrever. O jornalista tinha entendido que Diniz tinha muitas estórias para contar, que poderiam virar livros e não só sambas. E queria fazer parte disso. Para o jornalista, o Diniz-escritor tinha sido uma descoberta dele, que não largava. Para que isso desse certo era preciso criar a necessidade em Diniz, fazer com que ele quisesse escrever, ou melhor dizendo, que ele quisesse aparecer como sendo escritor.

Mas daquele mato não saía coelho. De modo a forçar, e a adiantar trabalho, o jornalista inventou uma matéria a ser publicada no jornal acerca do sambista-mecânico, com autorização deste, mas onde acabou por acrescentar falas que nunca aconteceram, que Diniz nunca disse e nem sequer pensou. Nessa matéria do jornal, Diniz dizia que tinha alguma dificuldade em escrever porque acreditava que na origem da escrita de ficção estava o facto da vida se acabar mais cedo do que se imaginava. O problema não era que a vida acabava, mas que acabava muito antes do que se imaginava. Evidentemente, o termo “imaginava” não era usado por acaso. Era usado como provocação. Para Diniz, continuava o jornalista, só se sabe o que é a vida na primeira pessoa e a morte era imaginada através das mortes dos outros, que nos pareciam sempre cedo de mais. No fundo, o que ele acabava por dizer que Diniz dizia, ao fim de uma longa digressão a que aqui vos poupo, era que o medo de a vida poder não ter o tempo que se pensava ter, acabava por nos pôr a imaginar outras vidas. E era por isso que Diniz não escrevia. Acrescentava que para o sambista-mecânico escrever é ter medo da vida. No samba não há medo. Quem faz samba não se preocupa com a morte. É a morte que se preocupa com o samba. E tudo isto com detalhes do quotidiano de Diniz e duas boas fotos dele, uma na auto-mecânica e outra na roda de samba, além de mais duas do bairro, do barzinho do Juca e da mercearia do Leandro.

Quando leu a matéria, Diniz, ao invés de ficar chocado com as palavras que não tinha dito, ficou vaidoso. Nem aquilo fazia muito sentido e nem ele entendia bem. Mas se há algo que as pessoas estão dispostas a aplaudir é o que não entendem bem. As pessoas do bairro parabenizavam-no quando se cruzavam com ele, tinham gostado, do que Diniz dissera, do acompanhamento da vida do bairro e das fotos. “Que bem que ele fala. Poderia ser escritor de papel passado.” E foi assim que Diniz aceitou fazer aquilo que nunca fez e passar-se por quem não era.

A vaidade, essa, deu samba.

31 Dez 2019

Os animais e os outros

A noite estava quente como usual nos verões de Floripa e as conversas corriam soltas à volta das várias fogueiras, na praia do Campeche. Havia violões, batuques, cerveja e alegria. Numa das fogueiras, uma rapariga defendia ferozmente os direitos dos animais e a proibição de venda de carne, no que era apoiada pela grande maioria, todos vegetarianos ou vegan. A única voz discordante era a de um garoto argentino – apesar do sotaque falava muito bem português –, que ousava dizer que devíamos ser livres de escolher aquilo que queremos e não queremos comer. Apesar de ser uma postura aberrante para a maioria dos participantes à volta da fogueira, maioritariamente garotas, deixavam-no falar e até se riam. Muitas queriam contrariá-lo, queriam convertê-lo, queriam ser aquela que iria mudar um pouco o mundo ao mudar um homem. Tivesse o garoto as pernas tortas, os dentes fora do lugar e o corpo se parecesse com um eucalipto, há muito que a conversa tinha acabado. Mas o rosto e o corpo do garoto derretia corações, permitindo que o seu liberalismo fosse aceitável. “Argentino e comer carne, não podia ser mais cliché e sem graça”, dizia uma delas, fazendo rir todas as outras. Mas neste caso, no caso do Juan, era até engraçado.

Para mais, tocava sax tenor maravilhosamente. Para aquelas garotas – de várias idades – a música e a beleza desculpavam Juan estar no lado errado do mundo.

Entre umas melodias e uns sorrisos, dizia que as pessoas deviam ser mais tolerantes umas com as outras. “Imagina que vocês estão certa e eu estou errado! Apesar disso não deveriam ser tolerantes comigo?” Elas sorriam. Era um grupo grande, obviamente havia várias garotas com garotas, a quem a beleza de Juan não influenciava o juízo, mas só Andrea, a namorada de Yara, ousou responder a sério a Juan: “Você acha certo ser tolerante com terrorista?” Juan ficou perplexo e disse que não tinha nada a ver. Mas para Andrea tinha.

Para Andrea e para as amigas, que momentaneamente tinham deixado de pensar por causa de um palmo de rosto, de um corpo malhado. “Os animais são seres vivos que merecem viver e serem respeitados como nós.

O modo como os criamos e os matamos é mais do que bárbaro, é um ato terrorista. E você quer que eu seja tolerante com terrorista.” Juan continuava a não entender a comparação, continuava a não entender o que movia aquelas pessoas e disse: “Para você até parece que eu mereço menos viver do que um boi.” Ouve um silêncio, que fez curto-circuito na beleza. Juan acrescentou: “Parece que para você o mundo se divide entre os animais e os outros. Qualquer dia os animais também votam.”

O ambiente ficou tenso e foi Yara quem veio salvar o momento, abraçando e beijando Andrea. Yara compreendia o fosso enorme que separava Juan de todas elas, e que não era possível nem desejável continuar a conversa. O mundo de quem não come carne por razões éticas é completamente diferente do mundo de quem come carne e não considera a alimentação um acto ético.

Noutras fogueiras os risos e os cantos propagavam-se. À volta desta, uma das garotas começou a tocar e a cantar a canção estrangeira que mais conhecida na ilha, “No Woman No Cry”, de Bob Marley, fazendo com que todos cantassem junto e Juan acompanhasse com o saxofone. No final da música, com a conversa já esquecida, a cerveja mais bebida, a beleza do argentino voltaria a fazer efeito e a noite podia ainda salvar-se. Ninguém veio ali para fazer política. Não é por acaso que se chama a Floriopa a ilha da magia.

17 Dez 2019

Valdisney

Valdisney, cujo nome se deve a Walt Disney, mas cuja pronuncia do W se leu V, tem 28 anos e traz todos os dias a sua vida atrelada a uma carroça até ao mercado, por mais de dez quilómetros, carregada de frutas e legumes. Não há dinheiro para comprar um animal que faça o lugar dele. Quando leva para casa 50 reais de vendas é uma alegria, para ele e para a mulher, que fica a cuidar do Sítio e dos filhos, quatro, entre os nove anos – o mais velho – até aos 4 anos. Não chegou sequer a terminar o ensino fundamental, começou a trabalhar na roça com 13 anos. Conheceu a sua mulher, Thalita, aos 16, quando ela tinha ainda 14, e um ano depois casaram-se. Frequentam uma pequena igreja evangélica. Tirando os ensinamentos para o cultivo, na bíblia está tudo o que se precisa de saber.

O seu sonho era que os filhos estudassem, desde que não se afastem dos ensinamentos da bíblia. Gostava de conseguir dinheiro para pô-los a estudar numa das muitas escolas particulares que há no Paraná, onde se ensina o criacionismo. Estava convicto de que por muito que se saiba, se não seguirmos a palavra de Deus nada se sabe.

Todo o conhecimento é vão se não servir a Deus. Tinham um televisor, evidentemente só com os canais abertos, e mesmo assim não se via a maioria dos programas por serem considerados uma ofensa à palavra de Deus.

Deitavam-se cedo. Raramente se via luz artificial no casebre da família. Deitavam-se e acordavam com a luz do sol, ou quase. O frio do Inverno convidava a isso mesmo, mas durante o Verão ficavam no alpendre da casa a olhar as estrelas, a complexidade, o mistério de Deus, que tinha criado o escuro da noite e o pintalgado de pequenas luzinhas, para nos maravilhar, pensado naqueles que vivem sozinhos, arrastando um fardo maior do que uma carroça cheia de frutas e legumes.

Valdisney não bebia álcool, pelo que não frequentava o único barzinho do Lucas, único das redondezas. O seu tempo era para o trabalho, para a família e para Deus. Vivia no interior do estado do Paraná como se noutro século. Mas o que é um século ou dez para Deus? Para o homem dez anos é muito tempo, para Deus é menos que um sopro.

Valdisney era aquilo a que se chama um homem bom, um homem responsável por si e pela família, e não queria pactuar com um mundo sem Deus. Tudo o que fazia era por convicção, excepto carregar a carroça, que era por falta de dinheiro para comprar um animal que o fizesse por ele. Mas não se queixava desse infortúnio. Queixava-se da falta de Deus na vida das pessoas, quando testemunhava no mercado com alguns comportamentos. Um dia, ouviu alguém comentar que a tecnologia está a evoluir de tal maneira, a cada dia, que já nasceu a pessoa que não irá morrer. Riu-se e pensou para consigo, se Deus quisesse que não morrêssemos não havia morte. Os disparates que as pessoas inventam! Os disparates em que as pessoas acreditam! Parece até que Deus não pôs juízo em todos os homens… Riu-se e lá voltou para casa, puxando a carroça, com as frutas e os legumes que não conseguiu vender.

10 Dez 2019

Palestra na universidade

O homem tinha à volta dos cinquenta anos e era um destacado poeta do Rio Grande do Sul, embora não fosse conhecido no eixo Rio – São Paulo. A dimensão geográfica do Brasil tem destas coisas, que se agrava com a natural tendência dos humanos em se agarrarem aos grandes centros e ao que é mais conhecido.

O homem tinha chegado à cidade de Curitiba para falar de poesia, num evento criado por um dos jornais literários da cidade em conjunção com a universidade, onde decorria o evento. Começou por dizer: “Há poesia que nasce, não de uma relação profunda com a linguagem, mas de uma atenção profunda à melancolia da existência. É o caso dos poetas da dinastia Tang, na China.” Situou o período em que essa poesia ocorreu, citou alguns nomes de poetas e por fim disse que iria ler dois curtos poemas de Li Bai, que ele mesmo traduzira, “Entretendo-me” e “Sozinho Olhando a Montanha”:

“É impossível não olhar o vinho, a noite cai sem que me dê conta.
As folhas, descem do céu e cobrem-me as vestes.
Ergo-me bêbado e vou até à lua, no riacho.
Ao longe pássaros, sem que se avistem pessoas.”

Depois de ler o primeiro poema e de uma curta pausa, parecendo emocionado com a leitura, leu o segundo:

“Pássaros levam suas asas para longe,
Deixando uma nuvem no céu, que se afastará.
Ficamos sós, montanha e eu,
Olhando-nos frente a frente, sem fim.”

Fez uma pausa, escutaram-se os aplausos e ele disse: “É impressionante como um poema tão antigo” – estamos no século oito da nossa era – “e de uma civilização tão estranha a nós, mexe tanto connosco. Em ambos os poemas não há um verso que se destaque, não há gota de lirismo incendiário.” E riu-se, antes de continuar. “Mas no final de ambos os poemas não conseguimos evitar a melancolia. E é o nosso reconhecimento da solidão, que é descrita nos poemas, que espoleta essa melancolia. Em ambos, o poeta – o ‘eu poético’, como é de bom tom dizer – está profundamente só. No segundo poema perdido entre a montanha e o céu; no primeiro entre vinho e a lua, que é reflexo no lago. E se ligarmos os dois finais, amplificamos a solidão: ‘Montanha e eu, olhando-nos frente a frente, sem fim’ / ‘Ao longe pássaros, sem que se avistem pessoas.’ A melancolia espoleta, porque a solidão do poeta faz-se sentir em nós. A solidão que é o que nos resta, quando restar apenas uma nuvem no céu, que também se afastará. A solidão do poeta transforma-se na solidão do mundo, da existência, uma solidão que começa em nós, pelo sentimento dos poemas, e se expande muito para alem de nós. Até um não se sabe bem o que é, mas que dói. Estes poemas, sem versos marcadamente líricos, são máquinas perfeitas de fazer doer, de criar ou desenterrar dores, que nos eram estranhas ou estavam apenas adormecidas.”

Aquilo que o homem queria mostrar aos estudantes que ali estavam para o ouvir, resumia-se nesta frase, com que – meia hora depois – acabou a sua intervenção: “Num grande poema, a poesia nem sempre se encontra na mecânica dos versos.” Escutou os aplausos, agradeceu, respondeu a algumas questões e lá foi embora, de volta para casa, perto da fronteira com a Argentina, para junto dos seus animais e da solidão verdejante que o rodeava, convicto de duas coisas: que se sabe tão pouco de poesia quanto de si mesmo ou do mundo; e que temos o dever de partilhar todo o desconhecimento que sejamos capazes de anotar.

3 Dez 2019

Viver nos funerais

Denilson vivia nos funerais. Todos os dias lia os obituários dos jornais da cidade e dirigia-se aos lugares de culto, últimas homenagens ao morto, entregando frases de efeito em pequenos papéis, que ele mesmo escrevia. Eram frases como aquelas que vemos hoje nas redes sociais, com o objectivo de trazer conforto aos sobreviventes. Depois, no final, passava de novo com um boné, recolhendo algumas moedas que as pessoas lhe davam. Algumas delas, tão emocionadas com a frase que lhe tinha calhado, e por entre lágrimas e reconhecimento, acrescentavam ao gesto uma nota mais gorda, deixando escapar a Denilson um agradecimento mais efusivo.

Invariavelmente, ao fim do dia sentava-se nas cadeiras de plástico da roulotte da Samira, no bairro onde vivia, pedia dois pastel e uma cerveja com camisinha, e ali ficava deitando conversa fora com a dona da negócio.

Quando Samira lhe perguntou se não batia uma tristeza, estar sempre em contacto com o desespero dos vivos à beira dos mortos, Denilson respondeu que não. “E depois tem desespero e desespero, nê! Um funeral de criança tem sempre mais comoção.” Mas ainda assim, Denilson tirava de letra, estava imune à tristeza. Na verdade, contou a Samira que “Sempre tive uma alegria estranha nos funerais, que não sei bem explicar.

Desde criança. Nunca soube explicar, mas acho que é de saber que eu vou continuar aqui. De não ser eu que morro, entende? Nunca pensei muito nisso. Mas funeral me dá muita satisfação.” Samira largou um “eu, hem!” de desagrado e incompreensão e Denilson continuou bebendo a sua cerveja. Apareceu mais um cliente de pastel rápido e “refri”, que Samira atendeu, sem conseguir afastar da cabeça as palavras do amigo.

Parecia macabro. Morte é coisa sagrada. E Denilson parecia brincar com isso, não tinha esse direito. Não estava certo ganhar a vida com a tristeza dos outros e ainda se alegrar com isso.

Mas para Denilson, importante era encontrar um modo de pagar a vida. E, no caso dele, pagava a vida e ainda ganhava de brinde satisfação. E ele tinha culpa, se tinha prazer de sobreviver aos que morriam? Não pensava muito mais nisso, e embrenhava-se em mais frases de efeito que escrevia para comover os sobreviventes, de modo a darem-lhe uns trocos com que pudesse comer.

Ninguém sabe por que aqui anda, nem para onde vai quando morre, por conseguinte temos de ter proveito do tempo em que cá estamos. Viver nos funerais era, para Denilson, o que é para a maioria das pessoas uma vitória pessoal. Todos os dias se levantava para sentir esse frémito de sobreviver àqueles que jaziam no caixão entre as lágrimas dos outros. Não fazia mal a ninguém e havia modos muito piores de se ganhar a vida.

26 Nov 2019

O homem de Deus

Ninguém é ninguém. Só Deus é.” Gritava um homem com um megafone numa rua do centro do Rio de Janeiro, enfiado dentro de um cartaz que ostentava em letras garrafais, à frente e atrás, “Deus é, mais ninguém”. Todas as manhãs e todas as tardes, se não chovesse, ali estava aquela criatura na Rua dos Inválidos, que liga a Rua Frei Caneca à rua Riachuelo, junto à Lapa e à Praça da República. “Quem segue a si mesmo, segue o diabo”, continuava gritando pela rua. Muitas vezes, era com lágrimas nos olhos que gritava a salvação do homem. “Sem Deus, o homem caminha como um cego sem bengala, condenado a cair no abismo.” Dia após dia, durante anos, aquele homem vinha para a rua dos Inválidos caminhando e gritando para salvar o homem. Nada o demovia. Nem mesmo quando chegou a ser maltratado por moleques. Quanto a ser maltratado pelos olhares e piadas diariamente, já nem dava importância. A todos reagia com a benevolência e a compreensão que só existe no Novo Testamento.

Não se sabe bem qual é o seu nome, pois tal como Saulo que virou Paulo, também se dizia dele que antes de ver a Deus, era um outro homem, com outro nome e uma família, que deixou para trás, para pregar a palavra de Jesus. Levou a sério as palavras do Novo Testamento, no Evangelho de São Lucas, acerca da dificuldade de ser discípulo de Jesus, que para segui-Lo teria de deixar todos os laços humanos de filiação. Se não podemos saber o seu nome ao certo – embora se apresentasse como sendo Lucas –, aqui e agora, neste momento em que o vemos caminhar pela rua dos Inválidos, estamos diante de um homem com mais de sessenta anos, branco e magro, com cabelos grisalhos encaracolados, que desperta a ternura em quem consegue reparar nele para além das palavras, para além da sua compulsão pela salvação dos homens. Há neste homem uma fragilidade maior do que naqueles que passam por ele sem reparar ou olhando-o com escárnio. A segurança com que se move, derivada da crença inabalável em Deus, a fúria com que tenta salvar os homens, tem como fundo uma tristeza por este mundo onde se sente preso. É neste nosso mundo, sem grades que não sejam a gravidade e a esfericidade, que este homem cumpre a sua pena. E, enquanto a cumpre, tenta salvar os outros prisioneiros, abrir-lhes os olhos, mostrar-lhes que há vida para além do mundo.

Um dia, a vida fez com que aparecesse na mesma rua dos Inválidos um jovem, também dentro de um cartaz, como ele, embora sem megafone e sem usar a voz, passeando para trás e para frente a evidência do mundo, a retórica mais palpável da prisão em que Lucas diz que vivemos: “Mente Aberta SexShop / Os corpos também sonham”. Este rapaz, contrariamente ao cavaleiro da fé, não tinha nem segurança nem fragilidade, fazia de cartaz com pernas por um mísero salário, que a loja lhe pagava ao fim do dia. O seu andar não revelava a segurança da fé em Deus, mas a insegurança de um salário que não dava para viver condignamente.

Quando se cruzaram pela primeira vez na rua, o rapaz olhou Lucas com o espanto do prisioneiro que escuta alguém a falar da liberdade. O homem de Deus, por seu lado, engasgou-se, as palavras embrulharam-se e os olhos ficaram húmidos, como os campos de inverno no sul, cobertos de tristeza pela manhã. A vida vinha agora pôr a fé daquele homem à prova. Ao invés de lhe mostrar alguém a aproximar-se de Deus, a juntar-se a ele e a multiplicar a voz de Deus, a vida mostra-lhe alguém a promover o sexo, alguém a convidar os homens a descerem até à escuridão da carne.

Por um instante, que ainda não se sabe quanto tempo foi, o homem de Deus parou, calou-se, tentou entrever o céu por entre os prédios, como se escutasse uma palavra ou pudesse ver um raio fritar o céu. Suportou anos a fio a indiferença com que o trataram, os maus tratos, os impropérios e as gargalhadas atiradas pelos ignorantes, mas como suportar a fé ao contrário? Como suportar esta traição de Deus? Como não nos condoermos por aquele homem, ali, sozinho, triste, dentro de um cartaz de Deus, com as pernas magras paradas, o megafone sem som e lágrimas nos olhos, espelhando a tristeza que há no mundo? Talvez tenha sido aquele dia, o mais vulnerável da vida de Lucas; talvez num outro dia qualquer a propaganda da Sexshop, imitando o seu método, passeando dentro de um cartaz, não lhe causasse tanta afectação, mas a verdade é que depois desse dia nunca mais se viu o cavaleiro da fé na rua dos Inválidos ou em qualquer outra nas imediações. A evidência do corpo destruiu a inabalável crença em Deus. Lucas entendeu que a cegueira não tem cura e recolheu a fé para si mesmo, aceitando a injustiça da pena que cumpre no mundo como uma tarefa que tem de cumprir a sós. E quem se ria dele, sente-lhe agora a falta.

19 Nov 2019

O espelho retroactivo

Numa bela tarde de início de Primavera, junto a um bosque nos arredores de Curitiba, Jefferson e Tales conversavam no jardim da casa deste último, depois de um longo almoço. Conversavam sobre a vida e a morte, sobre amores perdidos e o que lhes faltava ainda fazer no tempo que esperavam ter de vida, rente que estavam dos cinquenta anos. Tanto o dono da casa como o seu amigo ganhavam a vida como publicitários numa empresa multi-nacional, acabando por passar muito tempo juntos no trabalho e, de quando em quando, também fora dele, embora cada vez menos, desde que Jefferson deixara de beber.

Durante o almoço, Jefferson bebeu coca-cola e Tales abundantemente cerveja. Terminado o repasto, o dono da casa abriu uma garrafa de cachaça, uma “Boazinha”, de Minas, que Jefferson identificou por dentro e por fora, e continuou a conversa. Bebeu uma, bebeu duas, bebeu três e quando se preparava para servir a terceira, o amigo disse-lhe que era melhor dar um tempo com a cachaça, levando Tales a perguntar-lhe: “mas agora tens alguma coisa contra o álcool, deste em pastor?” Com “coisa” e “pastor” pretendia atingir o amigo com uma pretensa falsa moralidade da parte dele. Mas Jefferson respondeu-lhe: “Não tenho nada contra o álcool, Tales, como bem sabes.

Ou por outra, tenho muito contra o álcool, mas é pessoal e não transmissível. Estou apenas a tentar que a cachaça não me roube o amigo. Em breve não serás tu que vais estar aqui à minha frente, mas um outro completamente diferente, que irá preferir a cachaça à minha amizade ou a mim mesmo.”

Jefferson sabia por experiência de muitos anos que a partir de um dado momento, fica-se refém do álcool. Aquele que não pára de beber, tudo fará para continuar a beber, a despeito da amizade ou de quem estiver com ele. Aliás, a partir de um determinado momento, ele vai preferir qualquer um que continue a beber com ele, a um amigo que não beba, porque na verdade a partir desse momento o que ele quer acima de tudo é beber e mais nada. O seu horizonte é não parar de beber até que não consiga beber mais… ou que outra qualquer razão o consiga levar para casa, para o chão da rua ou, neste caso, para a cama. Jefferson tentava evitar que esse momento acontecesse. Ele não tinha medo que isso viesse a acontecer, ele sabia que ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Sabia também que a sua conversa não iria fazer com que Tales parasse de beber, embora tivesse esperança que fizesse abrandar o ritmo com que bebia. Mas, infelizmente, Tales ultrapassara já aquele ponto em que não é mais possível ter mão nele. Tecnicamente não estava ainda bêbado, mas descontrolado, eufórico e erradamente ciente de estar certo de tudo quanto dizia, mesmo que o que dissesse fosse afirmar que não sabia. Um “não sei” que soava como se Sócrates saísse de um dos diálogos de Platão.

Tales acabou por acender um cigarro e ficar a olhar atentamente um bem-te-vi junto à churrasqueira, com uma enorme minhoca no bico, que ainda se debatia perante a proximidade do fim da vida. Parecia que o próprio pássaro fitava Tales, como se tentasse compreender a vida dele, ou apenas o que levara a estar agora ali à sua frente. Jefferson deu-se conta da reflexão do amigo e não o interrompeu, deixou-o estar, na esperança de que a destemida troca de olhares entre homem e animal produzisse algum efeito benéfico em Tales, até porque a observação dos pássaros era uma das paixões do amigo, partilhada por ele. Levantou-se e foi lá dentro, à cozinha, fazer café. Quando regressou à mesa, com o café, já Tales tinha voltado a encher o copo com cachaça, e mais do que uma vez, pelo que faltava de líquido na garrafa. Jefferson sentou-se à frente de Tales e serviu café aos dois. Acendeu um cigarro, ouviu o som da cachaça a cair de novo no copo e Tales começando a dizer coisas sem sentido, repetidamente. Jefferson percebeu que acabara de perder o amigo. Mas ao levantar-se da mesa ainda lhe perguntou, como quem espera um milagre na resposta, “Queres ir dar uma volta no bosque? Já viste algum pica-pau do campo, este ano? Já devem ter chegado…” Em resposta, ouviu num entaramelado “Quero que os pica-paus se fodam!”

Jefferson levantou-se e foi-se embora, sabia que nada mais havia a fazer. Ficar seria apenas ver-se como ele mesmo fora antes de deixar de beber. Quando deixou de beber, não passou a incomodá-lo nada estar sentado com alguém que bebesse. Mas era estar sentado com alguém que ficasse bêbado era-lhe insuportável. Essa pessoa tornava-se numa espécie de espelho retroactivo para uma imagem que ele mesmo nunca tinha tido de si mesmo e que agora vislumbrava como deveria ter sido. Este “deveria ter sido” não lhe fazia nenhum bem. “Eu era aquele”, dizia para si mesmo. E “aquele” não era ninguém, não era sequer o amigo à sua frente.

“Aquele” era um bêbado, um estranho a eles mesmos. O que lhe doía ver no bêbado era ver-se a ele mesmo antes, que até ao momento de deixar de beber nunca soube. Um “antes dele” que se corporizava pela primeira vez agora, ao assistir no outro aquilo que ele mesmo deveria ter sido.

Uma coisa é saber que se é bêbado, outra muito diferente é ver-se a si mesmo no outro bêbado. Todo o bêbado era para ele o seu passado. E como não era um passado que queria esquecer, mas um passado que não lembrava, abria-se assim inúmeras possibilidades que preferia não vir a saber. Possibilidades que eram instrumentos de tortura.

Perdeu-se na observação dos diversos pássaros do bosque durante algum tempo. E, no regresso, avistou e escutou um casal de pica-paus, como se aquele batimento na madeira da árvore fosse um despertador a lembrar-lhe que ainda tinha pela frente a tristeza de ter perdido o amigo.

12 Nov 2019

O rei do catete

Há pessoas que vivem como se fossem animais com sorte, como se fossem animais habitando um lugar onde não falta nem comida, nem fêmeas, e onde não há predadores, transformando-as assim em pessoas felizes. Aparecem no mundo, inexplicavelmente não pedindo nada, tendo muito pouco e sendo servidos generosamente pela vida. Na verdade, e para sermos rigorosos com o mistério, deve haver tanto de natural quanto de sabedoria. No Rio encontrei algumas destas pessoas.

Airton era um mulato vistoso, de 37 anos, com um quarto nos fundos de uma casa no bairro do Catete por onde passava muita garota, “o matadouro”, como dizia aos amigos. Passava algumas noites da semana no barzinho do Garibau, jogando sinuca. E entre uma e outra tacada bebia uma geladinha e botava discurso. Todo o mundo gostava do Airton. Papo fácil, generoso na atenção, pagava cerveja ou pinga a amigos, moderadamente, que não era trouxa, e arrasava as coxas das mulheres. Desde muito cedo que as mulheres gostavam de se deitar com ele, e assim foi levando a vida como Deus mandou, e Martinho da Vila cantou num samba. Se medíssemos a sua vida pelo que tinha, era quase um miserável. Mas se a medíssemos pela sua alegria, era um rei. Tinha feito mais estudos, à noite, que a maioria das pessoas da sua condição, e ostentava isso com algum orgulho. Virou-se para mim e disse: “E boto estórias num caderninho feito Machado de Assis, que vivia bem perto daqui, portuga.” Ia levando a vida, entre a oficina de bate-chapas, um ou outro livro que lia, as estórias que escrevia e as mulatas, que eram a sua perdição, e ele também a perdição delas. Vivia esperando fim de semana e Carnaval. “Como papai noel vive para a dia 25 de Dezembro, aqui o Airton vive para Carnaval.” E, no Rio, este festival tem muito mais dias que noutros lugares. Nessa altura, quase não dormia. Valia tudo para não fraquejar. Todo o tipo de estimulantes estavam valendo. “Cara, você me pergunta o que é o Carnaval para mim? Carnaval é o melhor da vida, quando o melhor do paraíso se junta com o melhor do inferno: vida sem trabalhar, calor, cerveja e muita sacanagem. Tem coisa melhor?” Um amigo dele tinha vivido uns tempos em Portugal e veio de lá muito decepcionado com o país. “Aquilo é frio que só pinguim aguenta, mulher é tudo fresca e nenhuma samba. Que adianta que não tem violência. Nem violência nem alegria. Não há cidade como o Rio! É a cidade maravilhosa. Bandido tem em todo o lado. Agora mulata assim, bundona, gostosa, sambando feito diabo em feriado de Deus, não tem em mais lado nenhum.” Esta convicção de Airton justificava a vida no Rio e desculpava o despautério de violência que grassava a cidade. “Me diga onde não tem violência! O próprio nascimento dá-se com a agressão do filho à sua mãe, cara. A verdade é que nossa vida está presa por um fio invisível. Nascimento e morte é um mistério. Minha mãe morreu bem jovem, de cancro, sem alegria, sem marido, só comigo do seu lado, que nada podia fazer. Pobre ou rica, morreria na mesma. Enquanto cá esteve é que tinha de fazer com que a sua vida tivesse valido a pena! Adianta viver com medo? Enquanto cá andamos temos o dever de procurar alegria. E se não há alegria, temos de inventar. Portuga, há lugar mais alegre que bunda de mulata sambando?”

Encaçapava a bola 8, sorria e pedia mais uma geladinha ao Garibau. “Esta noite ainda vou escrever estória.” Juntava as bolas na mesa de bilhar, ia junto à mesa encher o copo e percebia-se que a vida não tinha mistério. Airton não era o rei da selva, era o rei do Catete.

5 Nov 2019

Quando o futuro concorda

Quando Dilma Rousseff venceu as eleições para o seu segundo mandato e alguns dias depois houve uma manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, exigindo uma intervenção militar para derrubar o governo democraticamente eleito, Giovanni, que vivia em São Bernardo do Campo, na região metropolitana da mega cidade brasileira, percebeu que era o início do fim do Brasil. Pelo menos o início do fim do sonho mais recente, de um Brasil democrático, mais igualitário e valorizando a educação. Virou-se para, Alda, a sua mulher, e disse: “Amor, está na hora de fazer as malas. Vamos para Portugal.” Na verdade, desde uma viagem à Europa, cinco anos atrás, que Giovanni ficara a pensar na possibilidade de rumar a Lisboa. Tinha gostado daquela cidade pequena, charmosa, sem trânsito, onde os transportes funcionam, onde não há poluição e, principalmente, violência. Na cabeça de Giovanni, Lisboa era um paraíso. E se ficarmos nas comparações que ele fazia entre São Paulo e a capital portuguesa, não restavam dúvidas acerca disso. Só não tinha concretizado o sonho, porque o Brasil estava em franca melhoria. Via as pessoas mais desfavorecidas a poderem comprar casa, pela primeira vez na vida, a poderem frequentar a universidade e acreditava que finalmente o Brasil estava dando a volta por cima. Mas os acontecimentos mais recentes, fizeram-no ver com clareza o que ainda estava por vir. E o futuro, que a maioria das vezes se ri de nós, não iria desapontar o pessimismo de Giovanni. Na verdade, raramente o futuro desaponta o pessimismo.

O que era apenas um sinal no início do ano, tornou-se uma evidência em Dezembro, com o “impeachment” da Presidenta Dilma. Agora também Alda concordava com Giovanni: “É melhor irmos embora”. E foram. O filho continuou a estudar na USP, mas em breve juntar-se-ia a eles em Lisboa, para um mestrado em comunicação social.

A mulher, que tinha um salão de beleza, ficou um pouco preocupada. Uma coisa era ter gostado de Lisboa, da mordomia das férias, outra bem diferente era começar uma vida nova no país das padarias. Portugal, apesar de ser um país bonito, parecia-lhe um bocado provinciano. Tinha dificuldade em ver-se a viver ali. E depois aquele sotaque impossível, de comedores de vogais, desesperaria ao fim de uma semana. Vendo que Alda estava hesitante, preocupada com esta decisão, de modo a convencê-la Giovanni invocou uma máxima brasileira acerca das portuguesas:

“Lá, não vai ter falta de quem precisa de salão, meu bem, com tanto buço para fazer.” Alda sorriu com a piada, mas continuava apreensiva. O facto do filho já estar na universidade e de ter pensado em continuar a estudar no estrangeiro facilitava a decisão.

Giovanni não estava preocupado com o que iria fazer em Lisboa, venderia o seu bar em Pinheiros, para o qual tinha compradores, e logo pensaria no que poderia ou não fazer na capital de Portugal. Estava convencido de que deixar o país era o melhor, até porque em breve haveria uma debandada geral e Lisboa seria invadida por brasileiros. Os primeiros a chegarem teriam alguma vantagem. Mas Alda resistiu. Foi empurrando a decisão com a barriga.

O que era apenas um sinal no início do ano, tornou-se uma evidência em Dezembro, com o “impeachment” da Presidenta Dilma. Agora também Alda concordava com Giovanni: “É melhor irmos embora”. E foram. O filho continuou a estudar na USP, mas em breve juntar-se-ia a eles em Lisboa, para um mestrado em comunicação social.

Três anos depois, quando Jair Bolsonaro vence as eleições para a presidência no Brasil, com tristeza Giovanni diz para Alda: “Meu bem, olha quem chegou para me dar razão: o futuro. Não tarda, Lisboa vai pipocar de brasileiro.” Alda, que conseguiu abrir o seu salão, em Carcavelos, onde passaram a viver, abraçou o marido demoradamente. Percebia claramente que o futuro do Brasil já era.

Doía muito a Giovanni. À dor de ver uma vez mais o sonho de um Brasil “dar certo” adiado, juntava-se a dor de ter de ouvir os seus conterrâneos, em Lisboa, a defenderem “o Mito”, como passaram a chamar a Bolsonaro. Um dia, ao deslocar-se de “uber”, conduzido por um compatriota seu, ouviu-o dizer: “Você vai ver que Bolsonaro vai dar um jeito no Brasil. Você vai ver! O futuro vai me dar razão.” Giovanni seguiu o resto da viagem em silêncio, pensado que o futuro tem dificuldade em concordar com previsões optimistas. A experiência dizia-lhe que ele não funciona assim.

29 Out 2019

Aulas de teoria da literatura

David, que se lê Dávi, ensinava teoria da literatura na universidade de Araraquara, a mesma onde Jorge de Sena um dia ensinou, e costumava dizer aos seus alunos no início do curso, que literatura era tão importante para vida como respirar, e tal como respirar ninguém repara. Antes que alguém pudesse pedir uma justificação para essa afirmação, mostrava um pequeno vídeo no “youtube” – vinte e poucos segundo – onde se vê Paulo Leminsky numa sala de aulas, de pé, a dizer “O prazer de usar a linguagem é um dos prazeres maiores, junto com o sexo, comida, bebida e drogas. O uso da linguagem dá um barato fundamental ao ser humano.

Não é preciso justificar isso à luz de nada. Isso aí é que é fundamental, as outras coisas é que têm de se justificar.” Depois passava o link do vídeo, para que os alunos pudessem rever o vídeo em casa.

Escusado será dizer que ganhava a sala de aula logo no início. O sentido daquelas aulas era o exercício de aproximação ao barato fundamental do ser humano: a linguagem. Um aluno, daqueles que escrevem antes de ler, como quem fala antes de pensar, pergunta a Dávi se nesse caso a auto-ficção não seria o barato maior, visto o próprio fazer uso da linguagem a partir de si e inventando-se. Se a auto-ficção não é o que toda a literatura almejava alcançar, uma espécie de Meca da literatura. Dávi ficou um pouco em silêncio e depois disse: “Sabe, no Brasil a auto-ficção é um pouco diferente da dos outros países, porque se acentua mais o auto. E você deve saber também que no Brasil, de modo geral, auto é sinonimo de carro e não de ‘mesmo’ ou de ‘próprio’. Quem daqui é que não reparou na oficina da Avenida Portugal, que se chama Auto Reparadora, como se auto fosse de automóvel e não de ‘mesmo’. Nesse sentido, se pensarmos numa ficção automóvel, talvez tenha razão. De preferência cabriolet, com os cabelos ao vento.”

O garoto insistia: “Mas não é a auto-ficção uma literatura válida?” Dávi respondia: “Pode até ser, dependendo do caso. Mas o problema da grande maioria desse ramo da literatura é que faz com que jovens como você acreditem que têm uma vida para contar e que isso basta para ser literatura. A literatura é uma vida para inventar. Literatura não é contar o que lhe aconteceu, aquilo que sente ou julga sentir. O barato, a que Leminsky se referia, não é ser eu, mas ser outros.

A linguagem é uma droga que me permite ser outros. E ninguém começa a ser outro a escrever. É a ler que se começa a ser outro.”

A conversa acabou por ali. No dia seguinte, uma das alunas preferidas de Dávi, que já conhecia de outra disciplina que ensinava na universidade, latim, aproximou-se dele no bar. Há muito que Dávi sabia que Jú começara a ler muito cedo, com Monteiro Lobato, que ainda hoje adorava, depois leu o Proust, o Joyce, o Canetti, o Hemingway, o Guimarães Rosa, o Raduan Nasar, e mais recentemente Aldyr Garcia Schlee e Trevisan, uma lista improvável, para alguém tão jovem, embora fosse verdade, e estava agora a tentar escrever, sem que lhe ocorresse contar a sua vida. estudava ainda latim, ela e apenas mais um aluno. Mas o que ela queria dizer a Dávi é que as palavras de resposta ao seu colega fizeram-na compreender melhor o vídeo do Leminsky, que já conhecia da net e ainda não tinha compreendido bem. “Queria agradecer-lhe por isso, Dávi.”

Tinha já deixado o seu sorriso para trás, afastava-se de Dávi, quando este ousou perguntar, elevando a voz no bar: “O que é que você aprendeu mesmo, Jú?” Ela voltou-se, sorrindo, e respondeu: “Que a vida é sempre menos que a literatura. E que ser-se outros é sempre mais do que ser-se o mesmo. Acabei também por encontrar a justificação que há muito procurava para as minhas tentativas de escrever: é o preço que se tem de pagar por se ler tanto. Ainda que a conta nunca fique paga. Ainda que se escreva só para nós e nunca para um livro. O barato é ler.”

Acenou um adeus e lá seguiu bar afora com a certeza própria da juventude e o conforto de que tudo pode mudar mais a cada página do que a cada esquina.



22 Out 2019

A beleza do Rio

Rogério tinha 55 anos e era aposentado da companhia área Varig. Sem muitos luxos, mas vivia no bairro do Leblon a duas quadras da praia. Além de um bom papo acerca de samba e bossa nova, Rogério gostava da cidade do Rio e do time Fluminense, com a mesma paixão. Uma noite, um estrangeiro foi descuidado em dizer durante um jantar “Rogério, o Rio é lindo, mas para mim há outras cidades mais bonitas”. No dia seguinte, às 9 da manhã, Rogério estava à porta do hotel do cara, para fazer um tour privado pelo Rio, durante o dia todo.

Não aceitava que alguém pudesse pensar que existisse outra cidade mais bela do que a da sua paixão. O passeio começou pela Vista Chinesa, na floresta da Tijuca, de onde se avista, do cimo, grande parte da cidade: o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, a Baía de Guanabara, as praias de Ipanema e do Leblon, a Lagoa e Niterói. É realmente uma vista de tirar o fôlego. O estrangeiro agradeceu a Rogério e reiterou a sua posição: “A cidade é muito bonita, mas gosto mais de outras cidades”. Pra Rogério aquilo era o fim.

Pegou no cara e desceram até à Lagoa, até ao Leblon, Ipanema, Copacabana. Almoçaram no bar Veloso, onde Vinicius de Moraes escreveu “Garota de Ipanema” para João Gilberto tornar imortal com voz e violão, depois de verem passar a jovem Heloísa a caminho da praia. Rogério não desistia de tentar convencer o estrangeiro acerca da beleza ímpar do Rio e além de mostrar vários lugares emblemáticos e históricos da cidade, acabava-se em histórias sobre a cidade e suas personagens. O seu time acabava de ser campeão carioca, há poucos dias, derrotando na final o Volta Redonda, e ele comportava-se e conversava com os garçons e com os frequentadores do bar como se tivesse sido campeão da Copa dos Libertadores. Mas para Rogério era mais importante ser vencedor carioca do que de qualquer outra copa. E explicava: “Cara, aonde é que tu vai encontrar aqui no Rio um argentino ou um colombiano para tirar sarro dele, depois da vitória? Agora flamenguista, vascaíno, botafoguense é o que não falta!” E quando passava algum torcedor desses times, que ele conhecia, lá tirava ele sarro.

Depois do almoço atravessaram o túnel Zuzu Angel em direcção a São Conrado. No final do túnel, junto à entrada da Rocinha, dois bandidos com pistolas mandam-nos parar e sair do carro.

Com algumas coronhadas e gritos, exigiram que entrassem no porta-malas. Rogério tremia e disse que não entrava, que lhe dessem um tiro, mas que não entrava, tinha a certeza de que se o fizesse acabaria por morrer com falta de ar. Um dos bandidos não hesitou e disparou à queima-roupa no peito de Rogério. O estrangeiro, mais atónito do que com medo, como se estivesse a assistir ao que estava a acontecer e não a participar dos acontecimentos, entrou no porta-malas do carro. Fechado no escuro e na improbabilidade dos acontecimentos, pois de onde vinha isto só podia ser um filme, ouvia Rogério dizer que o Rio era a cidade mais bela do mundo. Pouco depois, escutava tiros, que deviam estar a ser trocados entre os bandidos e a polícia militar. O carro balançava mais que uma pequena embarcação em alto mar e não demorou a capotar. O estrangeiro acabou por desmaiar e só acordou num hospital, com poucos ferimentos, mas em estado de choque. Fizeram-lhe várias perguntas a que não conseguiu responder, não se lembrava do que tinha acontecido, nem como foi ali parar. Perguntou pelo seu amigo brasileiro, que lhe estava a mostrar a beleza da cidade do Rio.

15 Out 2019

A discussão política

A discussão estava acesa no Gaivota, botequim junto à praia do Campeche. Joel, guitarrista e vocalista de várias bandas na ilha de Florianópolis, teimava que “País Tropical” de Jorge Ben Jor era provavelmente o expoente da música brasileira. Aliás, dizia, toda a obra de Jorge Ben Jor é o Brasil traduzido em música. Nem Cartola, nem Adoniran Barbosa, nem Milton Nascimento, nem João Gilberto chegaram a esse nível, o de serem o Brasil. Virou a “jola”, pegou no violão e começou a tocar a maravilhosa entrada de “Chove Chuva”, continuando depois a cantar os primeiros versos da canção: “Chove Chuva / Chove sem parar” e foi por ali fora até “Por favor chuva ruim não molhe mais meu amor assim”. Fez uma pausa, pediu mais uma “jola” ao Caio e começou a tocar e a cantar “Mais que Nada”. À volta da mesa todos aplaudiram. Carlinhos, outro músico da ilha, que tocava vários instrumentos, teimava que Caetano era o músico mais brasileiro, porque a música do Brasil é feita de todo o estrangeiro, a música brasileira não é só a herança negra. Para ele, o disco “Cores, Nomes” era a pedra preciosa da música brasileira. Não era só a composição, a melodia, as letras, eram também os arranjos, onde o Brasil se encontra com o resto do mundo. “E nas letras, não precisamos de dizer Brasil, tropical, negro, para sermos brasileiros. A primeira música do disco é uma bomba total, mas a segunda – “Ele Me Deu Um Beijo Na Boca” – é um hino!” E pegou no violão do Joel e começou a tocar e a cantar, com a ajuda de todos nas precursões, com o que havia à mão. A meio da música Carlinhos cantava “Política é o fim // E a crítica que não toque na poesia / O Time Magazine quer dizer que os Rolling Stones / Já não cabem no mundo do Time Magazine / Mas eu digo (ele disse) / Que o que já não cabe é o Time Magazine / No mundo dos Rolling Stones / Forever Rockin’ / And Rolling // Por que forjar desprezo pelos vivos / Fomentar desejos reactivos?” Então parou e disse: “Estes versos valem uma literatura, por que forjar desprezo pelos vivos, fomentar desejos reactivos? Isto é política séria. E só por isso, tenho de dizer que a nossa discussão só faz sentido por estarmos a elogiar ambos os músicos, independentemente das nossas preferências. A grande música não tem segundos lugares, só primeiros. Jorge Ben Jor, Caetano, Cartola, Adoniran Barbosa são todos primeiros, independentemente da maior ou menor brasilidade.”

Estavam todos de acordo, evidentemente. Era quase tudo músicos, naquele boteco. Joel, que enrolava um baseado, disse: “Cara tu tocou na ferida, Caetano é muito político, a começar pelo ‘ele me deu um beijo na boca’ e o Jorge Ben Jor é mais religioso, mais total.” Carlinhos não acrescentou nada, partilhou o baseado com Joel e ficaram a ouvir a música de Milton Nascimento, “Maria, Maria”, que Caio pôs a passar, como que a dizer que na música há mais marés que marinheiros. E Milton cantava: “Maria, Maria / É o som, é a cor, é o suor / É a dose mais forte e lenta / De uma gente que ri / Quando deve chorar / E não vive, apenas aguenta”.

No final da música, e do baseado, deram ambos um gole na “Antarctica” e ficaram com aquele ar de quem entende que no Brasil não há música que não seja política, e que as preferências pessoais pelos músicos têm tanto do modo de pensar a cidade e o mundo. Olharam à volta, vendo a galera cantando e dançando com a música do Milton, e perguntaram, quem é que naquele boteco gostava mesmo de bossa nova? Provavelmente ninguém, ainda que pudessem gostar da melodia e respeitar a harmonia. Hoje, Carlinhos continua a ir ao boteco Gaivota e junto com Joel e Caio escutam, entristecidos, Chico Buarque cantar “Cálice”: “Pai, afasta de mim esse cálice / De vinho tinto de sangue”. Esta canção da década de 70 parece tão miseravelmente actual que acaba com a discussão sobre quem é mais brasileiro, se Jorge Ben Jor ou se Caetano Veloso.

8 Out 2019

A vida ao longe

A vida tem muitas variantes e no Brasil multiplicam-se mais ainda do que em Portugal. Marquinhos vivia numa chácara no meio do mato a mais de quatrocentos quilómetros a oeste de Porto Alegre, com a mulher e duas filhas. Andava mais de meia hora a cavalo para ir até outra chácara, para concertar ou negociar alguma coisa. Vivia de pequenos concertos que fazia em toda a região, para além de cuidar da criação e das hortas, junto com a mulher. Tinham patos, galinhas e inúmeros vegetais. Não criavam animais de maior porte, por ser mais difícil de manter. “Criar porcos é pra gente grande!”, dizia. O cavalo era o animal mais imponente da casa. Tinha três cachorros – antes foram cinco – que vigiavam a casa e o galinheiro, pois além dos gatos bravos também abundavam as aves de rapina. O maior problema, porém, eram as cobras venenosas, que atacavam os animais, tendo já matado dois cachorros que Marquinhos muito estimava. As filhas, uma de 13 anos e outra de 9, andavam mais de meia hora para apanhar um pequeno ônibus que as levava à escola. Quando era preciso fazer compras, Marquinhos atrelava uma pequena carroça ao cavalo e lá ia uma meia hora até ao pequeno mercado, junto a uma povoação com meia dúzia de pessoas e posto dos correios. Embora longe, a uns cinquenta quilómetros, as cidades mais perto eram Rosário do Sul e São Gabriel.

Marquinhos tinha 31 anos, sempre viveu por estas bandas e cresceu como um verdadeiro gaúcho, a cavalo, na pampa, como se diz no interior. Quando criança e jovem adolescente, chegava a ir com o pai em viagem até à Argentina e foi lá que, numa dessas viagens, conheceu Rosário, rapariga um ano mais nova, que se tornou sua mulher, regressando com ele para o interior do Rio Grande do Sul. A chácara aonde vivem é arrendada, não lhes pertence.

Marquinhos não teme ser despejado, mas se um dia tiverem de sair dali, não haverá falta de chácaras para arrendar, “o mundo é muito grande, e a pampa mais ainda”, dizia. “As pessoas não imaginam o que se consegue fazer com o céu azul por cima e um cavalo”.

Invariavelmente começava o dia, bem cedo, partilhando um chimarrão com a mulher, qualquer que fosse a estação do ano. O sabor líquido da erva quente e acre ajudava a reflexão. Por vezes, ficavam somente em silêncio olhando uma para o outro, como se tentassem descortinar quem eram, ou as diferenças em relação ao que foram, outras ficavam em sintonia com a paisagem lá fora, mas de modo geral falavam sobre a vida, sobre as filhas e o que tinham para fazer, partilhando a cuia. Marquinhos falava quase sempre como se fosse velho: “A casa não tem internet nem computador. Essas coisas modernas não nos fazem aqui falta. O que me fazia falta era um burro, para não desgastar o cavalo com a carroça.” Fez apenas a escola básica, mas gostava que as filhas pudessem ir mais longe. “Esta vida ao longe da cidade não é para gente nova.” Tinham um pequeno televisor que transmitia meia dúzia de canais e Marquinhos via que as filhas se entusiasmavam com a vida da cidade grande. “Aqui a vida não tem futuro, é tudo muito atrasado… eu gosto desta vida, e também não conheci outra, mas as meninas assistem a outras vidas pelo televisor e sentem vontade de fazer parte desse mundo.”

Nos seu dia-a-dia pouco havia para não fazer. Descansava ao domingo, sim, mas havia sempre o que fazer. Para Marquinhos viver era fazer alguma coisa. Não conseguia sequer imaginar uma vida parada, sentada a ler, a assistir televisão, a botar conversa fora. Consertava algo na casa, nas cercas, carregava algo de um lugar para outro, ia às compras, cortava lenha, plantava as sementes na terra, levava comida aos animais, ou então estava com a mulher e com as filhas. O tempo que ele considerava para ele, precioso, o seu tempo só, era quando saia a cavalo. Como dizia muitas vezes, com o céu azul por cima e um cavalo, ao longe, como gostava de dizer que era a sua vida.

24 Set 2019

A indiscernibilidade humana

Leonardo era um “habitué” do bar Academia da Cachaça, na Barra da Tijuca e fazia parte da equipa de roteiristas da Globo. Apesar de ter cursado engenharia mecânica, era apaixonado por filosofia e cachaça, e entre vários assuntos que dominava verbalmente com prazer, costumava discursar acerca da natureza humana. Começava quase sempre por contar a mesma estória de um homem que não distinguia um “doberman” de um “rothweiler”, mas gostava de cães, que não distinguia um acorde menor de um acorde maior, mas gostava de música, que ao comer, ou quando ia ao mercado de peixe, não distinguia um dourado de um namorado, mas gostava de peixe. Por fim, rematava: “Nós não precisamos de saber para gostar. Se para gostar fosse necessário conhecimento, ninguém gostava de ninguém. E o amor só existe porque se sabe muito pouco de nós e do mundo. É uma espécie de compensação. Já que não se sabe, pega-se no gosto.” E pedia mais um chopp e uma “Boazinha”. A cachaça era um dos assuntos preferidos e que dominava, mostrando com orgulho o cartão de “Notório Cachaceiro”, atribuído pela Academia da Cachaça a quem se destacava na apreciação dessa aguardente de cana, a quem conseguia distinguir as diferentes proveniências desse líquido e não a quem mais o bebia. Ao tempo, em 2005, o número do seu cartão era o 241, num universo de apenas 350 já entregues. Ter esse cartão, além de ser uma distinção, dava-lhe direito a um caldinho de feijão e uma cachaça à sua escolha – desde que não fosse a Anísio Santiago – todos os dias, gratuitamente. Acerca do assunto, dizia que havia duas famílias distintas de cachaça: “As que têm entre 38 e 39º de álcool e as de 42º a 45º de álcool. A diferença alcoólica faz com que sejam quase duas bebidas diferentes. Contrariamente ao que as pessoas julgam, as madeiras onde são envelhecidas não tem muita influência nesta diferença, embora de modo geral as cachaças com menos álcool sejam envelhecidas em carvalho, como as de Friburgo (Rio de Janeiro), e as com mais álcool sejam envelhecidas em jaquitebá e em bálsamo, principalmente em Salinas (Minas Gerais).” Ouvi-lo falar e mostrar as diferentes cachaças era um modo delicioso de ouvi-lo contradizer-se. Pois acabava sempre por acrescentar: “Quanto mais se sabe de cachaça, mais se aprecia”. O que levava sempre os seus camaradas de mesa a contrapor que isso era o que acontecia também com a música e com tudo o resto, que quanto mais se conhecia o assunto mais se apreciava. Mas Leonardo tinha resposta para tudo: “É claro que quanto mais se sabe, mais se aprecia, mas não é necessário saber para apreciar. E é isso que contrapõe a natureza humana à ciência. A vida não só não precisa de leis como elas atrapalham uma boa gestão da mesma. Saber de música ou de cachaça é a ciência que se pode ter na vida, é uma imitação de ciência, necessária para nos esquecermos de que não sabemos o que realmente importa: porque estamos aqui, quem somos, o que é esse tal de universo.” O que o atraía na cachaça, para além do sabor, era a natureza humana que encontrava em cada garrafa. Depois de uma pausa e enquanto terminava a “Boazinha”, dizia: “Nada é mais parecido com a incongruência do que uma boa cachaça!”

Leonardo era um bom camarada de mesa, ninguém contestava e todos apreciavam a sua companhia e os seus dislates. Aliás, ele mesmo não discordaria que uma boa mesa precisa mais de dislates do que de ciência. Chegava a uma hora da noite que se despedia, dizendo: “Galera, vão ter de me desculpar, mas agora vou para casa fazer o ódio com a minha mulher.” E lá ia, voltando sempre ao final do dia seguinte, religiosamente, para as suas cachaças e os seus dislates, que dizia darem-lhe mais saúde do que ir para o paredão ou para a academia.

17 Set 2019

Rosely e Julieta

A realidade encontra sempre várias formas de contrariar teorias e modos de pensar. Depois de Dilma Roussef, naquele que seria o seu segundo mandato, ter vencido Aécio Neves nas eleições para Presidente do Brasil, por uns escassos milhares de votos, parte da população brasileira veio para a rua exigir uma intervenção militar, de modo a depor Dilma e a instalar uma ditadura militar. Rosely, uma mulata alta e esbelta, de cabelo curto, com pouco mais de vinte anos e que trabalhava numa lanchonete na Rua Augusta, estava na Avenida Paulista junto com esse povo, gritando por uma tomada de posição do exército, que se fizesse alguma coisa, pois antes presa num regime militar, que livre numas eleições ganhas pelo PT, a “esquerdalha”, como muitos chamavam, e que se alargava para lá do partido dos trabalhadores.

O povo foi-se juntando na Avenida. E junto a esse povo havia jornalistas e fotógrafos de várias partes do mundo. Julieta, à beira dos trinta anos, era uma dessas fotógrafas, “freelancer”, activista dos direitos LGBT, que tinha vindo de propósito de Lisboa para seguir estes tempos conturbados do Brasil. Quando a câmara de Julieta captou Rosely, no meio daquela confusão de gritos e movimentos, não mais a quis largar. Julieta esqueceu a razão que a levara ali àquela manifestação e passou a fotografar exclusivamente a mulata. Não demorou a que Rosely se sentisse cativa da câmara. Demorou a perceber que era para si que elas olhavam, Julieta e a sua câmara, mas quando finalmente a fotógrafa lhe sorriu, devolveu-lhe o sorriso. Saíram da manifestação e foram para um boteco conversar. Julieta tocou em Rosely e esta descobriu em si sentimentos que desconhecia. Ainda antes da manifestação por uma intervenção militar terminar, já Rosely e Julieta estavam apaixonadas e se beijavam na boca, como que para salvar o Brasil, o mundo, o planeta, o ser humano. Rosely esquecendo os militares, Julieta esquecendo a continuação da presidência de Dilma. Julieta era a primeira mulher que Rosely beijava, o seu primeiro amor feminino. Agora, tinha a certeza de que sempre tinha sido lésbica, ainda que não o soubesse. A ironia de descobrir o amor numa manifestação pela intervenção militar não atrapalhou as contas dela em relação ao que pensava, embora agora a política se desvanecesse no corpo e nos sentimentos de Julieta.

Duas semanas depois, a fotógrafa regressa a Portugal com a promessa de tudo fazer para que Rosely se mudasse para Lisboa. Rosely, apaixonada como nunca tinha estado na vida, pensava o tempo todo na viagem sobre o Atlântico. Finalmente Julieta conseguiu um trabalho para Rosely e esta comprou o bilhete de avião, minutos depois. Por “skype”, a mulata ia dizendo, dia a dia, “faltam vinte dias para chegar à tua boca”, “faltam quinze dias”, etc.. À chegada ao aeroporto, Julieta esperava o seu amor com um enorme ramo de flores silvestres e um beijo demorado. Um beijo que tentava apagar a distância e o tempo que estiveram sem se encontrar.

Os dias em Lisboa foram passando, com ambas a viverem o idílio amoroso em casa da fotógrafa portuguesa. No Brasil, esse lugar tão longe da boca de Julieta, Dilma foi demitida e Temer assumiu o seu lugar. Na cerimónia de posse, um sinistro deputado do Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro, evocou a memória do torturador de Dilma Roussef, no tempo da ditadura militar, que o deputado dizia não ter sido de ditadura, mas de heróis que salvaram o país do comunismo. O Brasil cai num dos seus momentos mais tenebrosos. Começara entretanto também a operação Lava-Jato, que desmontava uma enorme teia de corrupção na esfera política e empresarial. A violência aumenta exponencialmente em todas as cidades do país, causando um novo êxodo dos brasileiros em direcção à Europa e aos EUA.

Ao longe, Rosely vai esquecendo a política do Brasil. Ao fim de três anos, o amor não desvanecia, mas começava a ter a competição das saudades de São Paulo, da família, dos amigos, de um determinado modo de se estar o mundo, que é tantas vezes difícil de ultrapassar ou esquecer. Apesar do amor, Rosely entristecia. Julieta sugere que ela tire uma semanas de férias e vá a São Paulo visitar a família.

A visita de Rosely ao Brasil coincide com a campanha eleitoral e com a facada ao candidato à presidência, Jair Bolsonaro, na cidade de Juiz de Fora. Aquando do episódio, que se torna planetário, pelo menos transatlântico, a troca de mensagens entre Julieta e Rosely tornam-se amargas e rapidamente espaçadas. As amantes estavam claramente em lugares opostos da barricada: a brasileira defendia o candidato, a portuguesa atacava-o, apesar de lamentar o sucedido. Julieta começava a temer que Rosely não regressasse a Portugal. A política, a febre de mudança, de que o Brasil vai finalmente dar certo, grassava a sociedade brasileira, transversalmente. E Bolsonaro, apoiado pela bancada evangélica e a extrema direita encarnava o símbolo dessa mudança. Para Julieta, Bolsonaro não defendia valores, atacava valores, sendo o direito à diferença o mais importante. Apesar de inexplicável, Julieta estava certa, o seu receio tinha fundamento. Mas não foi só Rosely que saiu em defesa de Bolsonaro, figuras importantes da defesa dos direitos LGBT também o fizeram, e publicamente. Um dia, Julieta recebe uma mensagem de Rosely, que diz: “Meu amor, meu país precisa mais de mim que tu. Vou ficar.

Tenho de adiar o amor. Até sempre, Rosely”. Não sabemos se ainda continua a acreditar que é com Bolsonaro que o Brasil vai mudar, que vai dar certo, mas podemos imaginar que Julieta pense – ainda que possa não ser verdade – o quanto o seu amor era pequeno. Quando, entre amigas, Julieta tentava explicar a razão pela qual a sua amada a deixara, ninguém entendia. Num mundo como o de hoje, como entender que uma mulher troque o amor por Jair Bolsonaro?

10 Set 2019

Antes asno que me carregue

O início da vida musical de qualquer músico, que quase sempre se confunde com o início da consciência de si mesmo, é marcado pela tentativa de ser outro que não ele. Todo o jovem músico imita os seus ídolos e, mais do que ser como o seu ídolo, quer ser ele.

Acontece com todos os géneros musicais, sem excepção. Jorginho tinha sido um tremendo guitarrista rock, na sua juventude. Entre os 14 e 18 anos arrasou Curitiba com os seus solos e com as suas bandas “cover”. Desde o início que imitava na perfeição Eddie Van Halen, arrastando legiões de garotos aos seus shows, que estavam sempre cheios. Chegado à idade adulta, Jorginho começou a dedicar-se ao jazz, deixando o rock de lado. Mas cedo percebeu que era muito difícil viver de tocar jazz no Brasil e teve de começar a dar aulas, maioritariamente a garotos que queriam tocar rock. Com vinte e três anos, depois de várias tentativas de viver do jazz, percebeu claramente que no Brasil não podia dedicar-se a esse estilo musical a tempo inteiro. E, em relação ao rock, também só podia continuar profissionalmente se fizesse parte de uma banda “cover” ou “tribute”. O normal é passarmos do outro a nós mesmos, como músicos, deixarmos de imitar aqueles que nos ajudaram na aprendizagem. Mas não foi o que se passou com Jorginho. Depois de um período de juventude em que imitava os outros e de um período do início da idade adulta em que aprendeu a linguagem do jazz e começou a ter a sua própria “voz”, a ser ele mesmo musicalmente, Jorginho voltou atrás e ingressou numa banda que iria fazer com que passasse novamente a imitar os outros: ingressou na “Hot For Teacher – Van Halen Tribute”. O nome dava aos fãs da banda Van Halen um claro aviso de que tocava apenas os temas da primeira fase, com David Lee Roth na vocalização. Quando foi às audições, Jorginho arrasou. Muitos diziam que fechavam os olhos e era como se o próprio Eddie Van Halen estivesse ali a tocar. O problema é que não bastava tocar como Eddie, era preciso parecer-se fisicamente com ele, vestir-se e mover-se em palco como ele. A aparência não era um problema, nem o vestuário, embora implicasse ter de usar cabeleira, assim como todos os outros elementos da banda. O maior problema era os movimentos que tinha de imitar. Jorginho quase não se mexia, contrariamente a Eddie, que saltava, corria e atirava-se para o chão, enquanto tocava, embora nos pequenos palcos onde a Hot For The Teacher ia tocar não houvesse o risco de ter de correr. Jorginho percebeu que o que estava ali em causa não era apenas tocar a música na perfeição, mas ser uma “autêntica” imitação do outro. Passou mais horas a ver Eddie em palco, a estudar os seus movimentos, os gestos, do que a praticar as músicas, que ainda sabia de cor. Os shows foram aparecendo. Não só no estado do Paraná, mas por quase todo o Brasil. A primeiras cidades fora do estado foram Florianópolis e Porto Alegre, mas rapidamente se estenderam a Belo Horizonte e São Paulo. Os Hot For The Teacher corriam o país como se de uma banda de originais se tratasse. Passado um ano, com a divulgação e o sucesso que tiveram logo desde o início, principalmente por causa de Jorginho e do vocalista, que também imitava autenticamente David Lee Roth – e são esses que os fãs que não são músicos ou aprendizes mais reparam – chegavam a ter quatro e cinco shows por semana, o que fazia com que todos eles passassem a viver uma vida que não era a deles. Durante o dia, já nem despiam as roupas que usavam no palco. Viviam como se fossem não a Hot For The Teacher, mas a própria banda Van Halen. Chegaram mesmo aos canais de televisão, onde actuavam e davam entrevistas.

Numa dessas entrevistas, Jorginho dizia que este fenómeno só era possível porque no Brasil se valorizava muito o Rock, que nunca era visto como algo do passado, mas sempre presente. Referia-se evidentemente às cidades grandes do sul e centro do país. No fundo, disse, “o que fazemos não é muito diferente do que fazem os músicos de jazz e de música clássica ao tocarem e gravarem composições passadas; toda a música, seja qual for o estilo, também vive de reinterpretações”.

Na verdade, Jorginho sabia que não se tratava de reinterpretações, mas de cópia. E, para quem não era fã dos Van Halen, estas imitações autênticas eram uma aberração. Se a vida de um rocker de modo geral é uma vida fora da realidade, a vida destas imitações era duas vezes fora da realidade. Não estavam só fora da realidade, cada um deles estava fora de si mesmo. Eles não eram aqueles que eram os outros, mas aqueles que eram a imitação dos outros. Jorginho, que queria ser músico de jazz, sabia bem disso, apesar das entrevistas que dava, dourando a pílula. E quando num dos programas de televisão alguém lhe perguntou porque fazia aquela figura ridícula, a imitar uma outra pessoa – referindo-se ao modo de vestir, à cabeleira e ao comportamento em palco – respondeu em modo de provocação: “é melhor do que ser caixa de supermercado ou ralar num Mcdonald’s”.

E provavelmente estava certíssimo. Talvez seja preferível ter uma doce vida de imitação do que o inferno de uma autêntica. Aqui, qualquer português se vai lembrar da “Farsa de Inês Pereira”, de Gil Vicente: “Antes asno que me carregue do que cavalo que me derrube.” Ao que parece, antes de se tocar tem de se comer.

3 Set 2019

Você tem máquina lava-louça

Flávia e Yara eram amigas há quase trinta anos, desde os tempos da universidade, e viviam ambas no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Apesar do lugar privilegiado e de viverem de rendimentos consideravam-se pessoas de esquerda. No tempo da ditadura militar estavam do lado dos estudantes, do lado do Chico – que era uma espécie de santo – do lado do Caetano e do Gil. No final do ano de 1968, sentiram profundamente a dor desses jovens músicos, que foram presos por mais de dois meses por alegado desrespeito à bandeira e ao hino nacional, num show no Rio, junto com os Mutantes (banda onde cantava Rita Lee). Mais tarde tiveram de partir para Londres para não serem presos novamente. Foi-lhes dado a escolher: ou o exílio ou a prisão. Ficou também claro de uma vez por todas, para elas, que o país tinha sido sequestrado pelos militares, que tinham assaltado o poder em 1964.

E Flávia e Yara, apesar de patricinhas, filhinhas de papai, choraram junto com os jovens estudantes e com os músicos. As patricinhas apesar de privilegiadas, ou talvez mesmo por isso, entendiam que a liberdade acabava ali. O país deixava as suas cores tropicais e passava ao cinzento militar.

Os anos passaram e o Brasil viu um pé rapado virar presidente do país, nas urnas. Flávia e Yara viviam a euforia de uma liberdade, de uma procura de justiça e igualdade apenas sonhada nos tempos de estudantes. Encontravam-se com frequência num boteco do bairro e falavam com alegria. Conheciam tudo de música brasileira, a boa música brasileira, como é apanágio de um bom carioca, e não poucas vezes se punham a cantar este e aquele samba, esta e aquela música do Chico e do Caetano ou alguma bossa nova, que lhes lembrava a infância. Evidentemente, criticavam abertamente o crescimento do funk nas favelas e da violência da cidade maravilhosa.

Mas a música doía-lhes mais. Flávia dizia: “Imagine que deixávamos de aprender música e que só se ouvia no mundo funk e sertanejo!” Yara concordava que o mundo caminhava para a fealdade. O fim da música era o fim do mundo, fim do universo. Era preciso ir às favelas ensinar música às crianças, pagar-lhes para isso, se preciso fosse. O dinheiro deveria ser usado para promover a beleza, o bem-estar, a igualdade. “Aconteceu o mesmo nos Estates com o jazz”, voltava Flávia. “Você lembra do filme de Tim Burton, “Marte Ataca”?”, perguntava Yara e continuava sem esperar resposta, “Então, você lembra que os marcianos morriam todos com a música de Tom Jones? Um dia, os humanos vão morrer todos com a música feia que hoje se faz.”

Entre estas conversas e a recordação de algumas canções, passavam as tardes de Inverno. Depois pediam a conta e ia cada uma para as suas casas. Conversavam pela internet com amigos, viam alguns sites, ouviam música, assistiam a algum filme e iam dormir. Na tarde seguinte, voltavam ao boteco para conversar sobre música, a decadência do mundo e de como o novo presidente era uma lufada de ar fresco em toda esta podridão.

Mas nem só de revoluções e de teorias para uma mudança do mundo viviam aqueles encontros. Muitas vezes as conversas aconteciam pela berma da vida, pelo quotidiano. O preço das coisas no mercado, o custo das empregadas, as novas dietas. Tanto Yara quanto Flávia tinham empregada interna, a tempo inteiro, em casa. Eram elas que faziam tudo, desde preparar o café da manhã (pequeno almoço), o almoço e o jantar, arrumar a casa, lavar a roupa, estender, passar a ferro, levar o cachorro a passear, etc.. Tratavam as empregadas como se fossem da família. Um familiar que faz tudo o que é preciso fazer para que elas nada façam. E este familiar, embora tivesse direito a um dia por semana dormir na sua casa, na favela, nem sempre assim acontecia, pois poderia dar-se o caso de precisamente nessa noite haver um jantar lá em casa e o familiar ficava a trabalhar sem ir ver a família, os filhos. O salário? Era pouco, mas justo. E depois se o familiar precisasse de medicamentos, podia usar os lá de casa. Não faltava nada ao familiar. Afinal de contas, não podemos esquecer que Flávia e Yara eram de esquerda.

Nessa tarde de Inverno, num Agosto chuvoso e 20°, Flávia queixa-se de que a sua máquina lava-louças quebrou e vai ter de gastar uma nota preta noutra. Yara ficou um pouco quieta, incrédula e pergunta: “Você tem máquina lava-loiça?” Agora foi a vez de Flávia ficar surpresa: “Ué, você não?” Yara pede mais uma dose de pão de queijo e responde: “Eu não! Imagina! Então, o que é que a minha empregada depois fazia o dia todo? Assistia novela?”

27 Ago 2019

Uma profissão que não precisa de treinar

Valdemar era baixista profissional “freelancer”, no Rio de Janeiro, casado e com dois filhos. Trabalhava para vários estúdios e acompanhava cantores em shows. Nos tempos de folga, que eram poucos, no boteco do Ademar, entre um chopp e outro, queixava-se que a mulher não entendia o seu trabalho. Não era por questões estéticas ou técnicas, ela não entendia o que é ser-se instrumentista. Arlinda não entendia a sua profissão. Quando a mulher chegava do trabalho, do seu salão de beleza, e encontrava Wal a ouvir música ou a tocar o seu instrumento, imediatamente se queixava dele estar de bobeira, em vez de ajudar em casa. Para Arlinda, trabalhar era quando Val ia para o estúdio ou para os shows e recebia dinheiro. Em casa ninguém lhe pagava, nem para tocar e muito menos para ouvir música. Apesar de Val dizer continuamente que ouvir música era parte do seu trabalho, assim como tocar em casa, que era fundamental, Arlinda não queria saber desse papo furado. Não entendia que grande parte do trabalho de um músico é feito sem receber dinheiro. Treina-se anos para tocar alguns minutos em cima de um palco, umas horas a gravar num estúdio. Arlinda dizia: “Você pode treinar quando estiver no estúdio ou quando passa o som antes dos shows”. Aquilo era tão absurdo para um músico, que Val ficava sem resposta. Era como se alguém dissesse para um nadador de competição “você pode treinar no aquecimento, antes da prova”. Arlinda trabalhava muito, é verdade, e cada minuto do seu trabalho era pago. O treino que ela teve foi antes de começar a trabalhar. Aí, sim, não recebia dinheiro, treinava. Depois, quando começou a trabalhar, primeiro como empregada e depois como patroa, acabaram-se os treinos. Todo o tempo da sua vida era a sério, a facturar. Arlinda não conseguia entender como é que alguém que era profissional, competente a executar a sua profissão, tinha de continuar a treinar. Pior ainda: como é que ouvir música fazia parte do seu trabalho. “Ouvir música é diversão ou vagabundagem, não venha cá com trabalho, quem quer você enganar?” E não adiantava que outros colegas de profissão atestassem com Arlinda, que era assim com todos. “Músico rala mesmo”, diziam, “trabalha a semana toda e recebe ao sábado”.

Se formos a tentar entender o modo de pensar de Arlinda, ela não estava errada de todo. De facto, os músicos deveriam ser pagos para ouvir música, assim como para treinar, o que aliás acontece com aqueles que fazem parte de orquestras, onde o salário que recebem paga as horas de treino diárias que fazem, que são bastante mais do que as que tocam em palco. No seguimento deste modo de pensar, um amigo de boteco metido a filósofo, o Celso, dizia-lhe: “Não é Arlinda que está errada, nem você, Val, o que está errado é o mundo. O mundo quer beleza, mas não imagina o trabalho que a beleza dá. Quer beleza, mas não quer pagar. E sabe por que isto acontece, Val?

Porque se julga que beleza é como mulher bonita, aparece no mundo por obra e graça do Espírito Santo.” Mas Val não entendia bem o seu amigo. O que o preocupava era o estado em que a sua relação com Arlinda estava, pela incompreensão dela com a sua profissão. O problema dele era fácil de equacionar: como é que vai fazer com que a sua mulher perceba que tocar e ouvir música em casa é parte do seu trabalho?

Depois desta última conversa no botequim, Val saiu em viagem com uma banda e passaram-se meses sem que alguém botasse a vista em cima dele. Como se diz no Brasil, o que engorda o boi é o olho do dono. Meses sem dar as caras em casa, para mais com a relação no estado periclitante em que a tinha deixado, quando regressou a Arlinda tinha outro. Val teve de deixar a casa nessa mesma noite.

Quando regressou ao boteco e contou o que lhe tinha acontecido, o metido a filósofo perguntou se o outro era empresário, se tinha um emprego estável, se era um cara de responsa. Val respondeu: “O cara é ator pornô!” Celso deixa escapar a sua estupefacção: “Pô, ator pornô, Val?”

Este respondeu com a indiferença dos condenados, abanando os ombros: “Ué, é profissão que não precisa de treinar.”

20 Ago 2019

Ao contrário das bruxas

Há pessoas que, a despeito da pouca idade que têm, revelam um sábio conhecimento da vida, um modo verdadeiramente prático de viver, como se tivessem um ouvido absoluto para a vida. Nos antípodas disto encontramos pessoas com idade avançada que continuam surdos, que continuam a viver como se estivessem afinados, embora a melodia que cantem esteja muito longe disso. Jeito para a vida é um talento com que se nasce ou não. E cada um é p’ró que nasce.

Larissa era uma jovem muito bonita, de 20 anos, que cursava marketing numa faculdade em Floripa e fazia parte de um jovem grupo amador de teatro, com o qual colaborei algum tempo.

Não tinha relações com homens ou mulheres, tinha ficantes. Ficava com quem, quando e onde queria. Estava podendo, como diziam as amigas. Mas o que a levava a viver deste modo devia-se mais à sua convicção acerca do amor do que à beleza que tinha. Dizia que se um dia sentisse aquilo que as outras pessoas chamavam amor, certamente iria mudar. Mas, até lá, vivia com o que tinha e com o que sabia. O que sabia é que as pessoas tendem a complicar a vida e afastava-se dessa possibilidade como o bêbado de um salão de chá.

Larissa entregava-se aos ensaios no teatro com muito empenho e entreajuda, sempre disposta a colaborar em tarefas que lhe pediam, para além da representação. O seu comportamento na faculdade era semelhante. Muito simpática com todos e sempre com um sorriso no rosto. Era a imagem perfeita da felicidade. Naturalmente, ainda que ela não se importasse com isso, a inveja chovia continuamente sobre ela. Ou pela sua beleza, ou pela sua simpatia, ou pelo modo concentrado com que se entregava a todas as tarefas que fazia. Podia não ser a melhor, mas empenhava-se em tudo. Também nunca se ouviu dizer mal de ninguém. Acreditava que dizer mal era subtrair-se à vida: “Quando falo mal de alguém não estou em mim, na minha vida, estou no outro, e para mais num outro que não gosto; é perda de tempo, porque perda de mim ou de algo ou alguém que gosto; dizer mal é prosa de futebol no boteco”. Tinha sempre uma capacidade de simplificar as equações que muito me espantava. Uma amiga, a brincar, dizia que Larissa tinha nascido com um “simplificador” instalado. E não era difícil acreditarmos nisso.

Um dia, Larissa chegou aos ensaios de teatro com um rapaz e apresentou-o como sendo o seu namorado. Ficou todo o mundo alarmado e olhando o rapaz como se ele fosse o Messias. Só faltou tocarem-lhe, abrirem-no por dentro para verem o que fazia dele tão diferente. Perguntas não faltaram, claro, tanto a Larissa quanto ao Messias. Um exagero que nem o inusitado da situação caucionava. O rapaz estava visivelmente embaraçado, enquanto Larissa continuava simpática como sempre. Dizia, sorrindo: “Gente, não assustem o meu homem, que ele vai pensar que eu só conheço louco e logo logo vai fugir de mim”.

Não passou muito tempo, um mês, mês e meio, quando alguém pergunta a Larissa pelo Messias e ela responde que acabaram. Porquê? A única resposta que se obteve foi esta: “Se não é simples é porque é complicado.” À distância, isto é, não sendo nenhum dos elementos envolvidos na relação, consegue-se ver perfeitamente a resolução certa para a equação. Podemos imaginar muita coisa que pode ter levado Larissa a dizer aquelas palavras: privação da sua liberdade, uma tentativa de Messias fazer dela quem ela não é, dificuldade com o horário dele, ou simplesmente querem fazer do tempo livre constantemente coisas diferentes. Mas a melhor resposta deu a Larissa uma semana mais tarde, depois de um ensaio de teatro, quando se falava sobre o amor:

“Olha, gente, não é que eu não acredite, mas é ao contrário do que se diz das bruxas: eu acredito no amor, mas que não o há, não o há.”

13 Ago 2019