Os nove bares magníficos de Hong Kong, para alguns

Nove dos bares que a Drinks International distingue como os 50 melhores da Ásia encontram-se em Hong Kong (18%). Singapura mostra igualmente nove casas neste conjunto, uma parcela que ajuda a promover a feroz competição que entre as duas cidades se mantém a vários níveis. Tóquio ocupa o terceiro lugar com oito. Seguem-se Bangkok (6), Seul e Taipé (4), Xangai (3), Jacarta e Manila (2) e Kuala Lumpur, Tainan e Pequim (1).

A criteria que subjaz a esta selecção já aqui foi isolada a propósito de um artigo semelhante mas de alcance global. Repete-se:

Supremo é a qualidade das bebidas misturadas, nuclear numa altura em que a regressada moda do cocktail mostra uma vitalidade que já teve no passado e uma propensão experimentalista que é nova. Muitos dos membros da Academia são bartenders e a maior parte dos elogios recai sobre a qualidade dos cocktails.

Uma parcela muito importante é dedicada à hospitalidade, o que não é a mesma coisa que serviço. É a capacidade de fazer o cliente ocasional ou regular sentir-se bem vindo e acarinhado.

Muito elogiada em bares desta classificação, é o constante apuramento ou reinvenção dos cardápios e a atenção dispensada aos pormenores: o gelo, a música, o serviço, a ambiência.

A distinção atinge-se ainda quando um bar exibe uma oferta generosa de uma bebida particular, whisky ou, por exemplo, gin ou rum.

Os nove bares magníficos de Hong Kong situam-se todos (o que é suspeito) na ilha de Hong Kong e, com excepção do Lobster e do Mahalo, respectivamente em Admiralty e em Wanchai, ficam todos em Central, a pouco mais de cinco minutos a pé uns dos outros.  Deve lembrar-se que numa cidade como Hong Kong estão constantemente a abrir bares novos e que acompanhar de um modo compreensivo todos os seus movimentos seria impossível, ou, no mínimo, perigoso. São, por ordem da distinção que a Drinks International faz, os seguintes:

Lobster bar and Grill (4º lugar na classificação geral dos bares asiáticos). Estamos em terreno firme. Basta entrar no Lobster – que é um bar contíguo a um restaurante – para perceber, pela movimentação dos funcionários, eficientes e simpáticos mas que não interferem na esfera do cliente, que estamos num bar de hotel a sério (fica no Island Shangri-La).

Não tendo uma lista muito extensa de cocktails (e não tendo praticamente cocktails especiais) prova que não se trata dum sítio da moda mas de um sólido bar de hotel com anos de vida. O resto da lista é extensa e bem preparada, a dos vinhos – que já de si é generosa – podendo ser completamentada com a do Restaurante Petrus. A lista em si é um primor, com escolhas rigorosas e perfeitamente informadas. Nos vinhos fortificados encontramos 2 Pineau des Charentes, 8 Portos, 4 Jerez e 3 Madeiras.

A cerveja à pressão, como acontece no Captain’s Bar do Mandarin, é servida no mais fresco dos continentes, em tankards de metal. Muito importante: abre às 10 da manhã, tem zona de fumo em terraço e um balcão muito acolhedor. Nota máxima no género.

Quinary (6º). Traz consigo a fama de alguns dos seus mixordeiros e distingue-se pela mistura molecular. Tudo o mais, retirado da minha fraca experiência, não me seduz – da decoração ao acolhimento, num lugar aberto à rua, sem que se permita intimidade. Mas, lembre-se, os cocktails, cerca de vinte, são de qualidade superior. É uma embirração particular.

The Pontiac (19º). Apresenta-se com a pretensão de ser um bar de bairro, amável e barulhento. É famoso e fica num lugar, no Soho, bem conhecido. Um bar de tipo Americano com bartenders intrusivos, no bom sentido do termo, muita animação e pouco decoro. Do cimo do balcão algumas das serviçais entornam espíritos na garganta dos clientes. No fim tudo parece um pouco inofensivo.

Honi Honi (29º). Este é um cocktail lounge tiki. Em Macau não há. Um bar tiki é um bar de inspiração polinésia, pleno de ícones, coisinhas de palha e arbustedo. Pode ser irritante mas os cocktails, que tendem a ser um pouco diferentes, de sabor tropical, têm uma clientela certa e vêm em continentes exóticos. Tem zona exterior e muitas almofadas. Faz parte de um package bem identificado e repetitivo.

Stockton (31º). De aspecto muito clássico e britânico, de luzes baixas, dedica especial atenção aos cocktails, que não são muitos mas são calorosamente pensados. Tem comida que anda em volta do peixe e do marisco. Tem várias regras e fica-se com a impressão que se esforçam demasiado. Tem muito uísque. Se a precisão de bebida se centrar na ideia de um bar confortável e conservador mas que ofereça bebidas da moda, o Stockton é imbatível.

Zuma (39º). Fica no Hotel Mandarin/Landmark (não no antigo e primeiro Mandarin onde existe um bar, o M, recipiente regular de elogios nesta página e que tem qualidade mais que suficiente para figurar nesta lista). Este Zuma é um Izakaya Contemporâneo. Não será preciso acrescentar muito mais. Desenho contemporâneo mas sem ousadias que entusiasmem, muito amplo, bom para grupos. Tem muito saké e muitos cocktails, uns 40, muitos deles com esta bebida japonesa. Sendo um izakaya também tem comida, maki, espetadas, etc. A sua superfície não permite, no entanto, a experiência íntima de um pequeno izakaya de bairro. Isto é uma coisa grande e urbana, com música quase alto. Tem um longo balcão, bom, e espaço para fumo no andar inferior. (só abre às 5).

Ori-Gin (44º). Um pouco difícil de definir. Quase 40 cocktails, incluindo uma mixórdia encantadora, criada por Antonio Lai, com vodka e sumo de yuzu – chama-se Dusk & Dawn. É um bar pequeno, aberto à rua, num lugar muito central (Wyndham Str., 48), a cerca de 15 segundos do Stockton. Especializa-se, como o nome indica, em gins – conta com cerca de 85 gins diferentes. Tem uma rede superior ao balcão que o distingue mas não causa particular frisson. Note-se que mesmo sendo um pequeno bar tem uma lista generosa e muito cuidada nas suas escolhas.

The Envoy (45º). Fica no Hotel Pottinger, uma estalagem de luxo suficiente e construção recente. É um bar de hotel, pretencioso mas bom. O pessoal de misturas leva a cocktalia demasiado a sério mas as mixórdias são excelentes. Mais de 25 são de assinatura, presumo que grande parte delas em vasilhame bastante precioso. A obsessão com a inovação é um pouco infantil mas o resultado final justifica uma visita. A zona de balcão é muito atraente e britânica e à medida que se penetra mais profundamente no The Envoy alcança-se, uma vez mais, uma surpresa: um terraço delicioso. É também um restaurante.

Mahalo Tiki Lounge (47º). Outro tiki (da mesma empresa do Honi Honi), este o que fica mais longe do centro, em Wanchai. É num 29º andar. Esta posição elevada permite que o terraço, onde se pode fumar, ofereça uma boa vista. Não é muito irritante e tem boa vibração. Oferece, como é normal, muitos cocktails (senão não figuraria nesta lista) com base de rum. Mesmo quem não mostra inclinação por tikis pode frequentar este sem medo – não exagera nas plantas, nas palhinhas e nos ídolos de madeira – e reconciliar-se com o seu lado polinésio. O Zombie é um excelente cocktail e a Senhora Letícia uma companhia (que fez um dia no Hotel Mandarin de Macau em Julho deste ano) a frequentar.

Nota 1: O leitor, avisado, sabe que o melhor bar do mundo não é o que faz melhores cocktails mas aquele em que melhor se sente, pelo que estas considerações devem ser tomadas como uma apreciação de uma lista com características próprias – obsessivamente centrado nos cocktails. Nenhum dos meus bares preferidos de Hong Kong, com a possível excepção do Lobster, figura nesta lista. Não é surpreendente.

Nota 2: Tristemente, nenhuns destes nove bares apresenta o menor arrojo no seu desenho, tal como acontece com os que vão aparecendo em Macau. Permanece o ar britânico do The Envoy e do Stockton, a estética Tiki tropicalóide do Honi Honi e do Mahalo, o desenho muito cuidado mas pouco ousado do Zuma e do Lobster, que são lounges de restaurantes, o desinteressante (decorativamente) Quinary ou o aspecto Retro-Industrial-Roqueiro do The Pontiac. O Ori-Gin tenta mas, a nível do desenho, pouco mais é que simpático.

Nota 3: Abriram este ano de 2016 em Hong Kong dois bares desenhados pelo relutante noctívago Ashley Sutton, conhecido pelos bares que concebeu em Bangkok. Os de Hong Kong chamam-se Ophelia (em Wanchai) e The Iron Fairies (Soho).

25 Out 2016

A R.A.E.C. (Região Administrativa Especial do Caos)

Urbanisticamente, Macau nunca evidenciou tantas deficiências. Não há praticamente zona nenhuma da Taipa e muitas de Macau e Coloane que não estejam em obras. Algumas delas têm anos de vida. O pó, a sujidade, a inconveniência e a fealdade acumulam-se. A poluição do ar e a poluição sonora são um mal constante e em várias áreas do território (em jardins com crianças) há um permanente cheiro a diesel. A zona em redor do aeroporto, primeiro local de contacto com a cidade para um número significativo de turistas, há anos que está um nojo. A zona das Portas do Cerco é um caos. O Terminal Marítimo Provisório da Taipa é um sítio de Terceiro Mundo.

Ninguém parece perceber nada do que se passa e a confusão é total. A operação dos transportes públicos revela total incompetência, sendo sem qualquer dúvida a pior rede de transportes públicos de uma cidade rica que eu conheço. Não é preciso pensar muito para se perceber a razão de tudo isto: total provincianismo e ignorância pura.

O que é o desenvolvimento? Não vale a pena estar a arranjar canteiros se não há flores. Macau não está mais desenvolvida, tem mais carros e motas, mais residentes, mais turistas, mais hotéis, mais cuspo, mais casinos, mais lojas de joalharia e parece maior. Mas os hospitais são os mesmos que havia há 25 anos; aumentou o número de escolas e de estabelecimentos de ensino superior mas a má qualidade é a mesma de sempre; o sistema de transportes (táxis e autocarros) é muito pior e a qualidade do ar deteriorou-se 100 vezes.

Há muito mais actividade económica mas a administração (chamar-lhe governo seria um elogio que não merece) não faz nada (ou faz mal) há décadas. Quem tem feito é a Galaxy ou a Wynn, a Sands ou o senhor Ho.

Sejamos claros: nos últimos quinze anos concluiu-se um projecto com decência: a ponte de Sai Wan; terminaram-se desastrosamente dois: a nova universidade (desastroso porque teria sido a oportunidade ideal para o regime mostrar cultura e ter contratado um arquitecto a sério e ter deixado obra singular e de referência) e a habitação social em Coloane (modelo inultrapassável de desprezo total pelos mais desfavorecidos); e falharam-se redondamente 4: a nova biblioteca central, o novo hospital das ilhas, o metro de superfície (anedota total 1) e o Terminal Marítimo da Taipa (anedota total 2). Que se tenham tentado apenas sete é sinal de imensa pobreza.

O centro da cidade, que poderia ser dos centros urbanos da Ásia Extrema mais bonitos e com um potencial de charme imbatível, é uma feira pobre e, em termos comunitários, uma terra de ninguém, inteiramente abandonada à ganância e à falta de cultura. A pedonização de vastas áreas centrais em Macau e na Taipa tarda em chegar e o carro particular continua a ser a peça mais importante deste pesadelo, reflexo de uma mentalidade com 30 anos de atraso.

Nos cruzamentos a polícia, muito incompetente, obriga os peões, idosos e crianças, a correr entre carros mesmo durante o seu tempo legítimo de atravessamento; metade dos condutores usam os telefones durante a condução; muitos não usam cinto de segurança; crianças pequenas usam o banco da frente como se vivêssemos em 1950; a quantidade de condutores, profissionais ou não, que permanece com o motor ligado quando parado é criminosa e a polícia (a não ser que aqueles miudinhos de azul não sejam polícias) não deve sequer perceber o que se passa.

Ninguém parece ter a mínima noção do valor da promoção da ideia de comunidade e não se faz a reutilização de edifícios já existentes para mistos de habitação e recreação. Não se faz porque os responsáveis administrativos não sabem fazer.

O meu projecto preferido neste momento, à falta de outros, é a passagem de peões circular construída junto ao Venetian que vai ligar . . . o quê . . . a quê? Será utilíssima a uma pessoa que esteja no City of Dreams e se queira deslocar à bomba de gasolina que se encontra numa das saídas desta cómica instalação urbana para comprar cigarros ou um gelado de chocolate e baunilha. A ligação para o lado do Venetian faz-se de modo muito mais conveniente por outra via. As outras saídas não servem para absolutamente nada. Se na bomba de gasolina não houver gelados de chocolate e baunilha isto vai ser um problema.

Há duas hipóteses para a construção desta parvoíce: ou se trata de uma instalação de intenção artística demasiado cara ou é produto de total incompetência e falta de visão.

Falando de projectos mais a sério o mais giro neste momento é a ponte entre Hong Kong e Macau/Zuhai. Concebida numa altura, febril, em que se pensava que a província de Guangdong, junto a Macau e Hong Kong, seria uma zona de olímpico crescimento fabril é, agora que as fábricas começaram a fechar e a China começou a deixar de interessar, a bridge to nowhere, um pouco como a ligação ferroviária entre Hong Kong e Cantão (Cidade de Guangzhou). Não é difícil perceber porquê. Da perspectiva de um residente de Hong Kong que razão o levará a querer ir a Cantão? Fazer o quê?

Assim, o governo da RAEHK e a administração da RAEC não param de nos divertir: na primeira não conseguem fazer um comboio para uma cidade onde ninguém quer ir, na segunda, em 15 anos, não conseguem fazer um comboiozinho ligeiro, não conseguem fazer um hospital e não conseguem fazer um terminal marítimo. Em esforço conjunto não conseguem fazer uma ponte que, de qualquer maneira, não serve para nada. Felizmente que não é a administração que constrói casinos e hotéis senão só tínhamos um.

Mercer Quality of Live Rankings 2016

Acho que não é inútil relembrar quais os critérios que a Mercer usa para classificar as cidades que lista como as melhores cidades para expatriados. Lembre-se que esta existe precisamente como instrumento para medir a qualidade de vida em cidades que receberão profissionais (e suas famílias) de outros países e que tipo de compensação deve ser atribuído aos profissionais em situações de risco. Serve igualmente às administrações das cidades. São critérios cujo cumprimento, no entanto, interessam igualmente a residentes.

São levados em conta 39 factores, agrupados em 10 categorias (tradução própria):

  1. Atmosfera política e social (estabilidade política, crime, cumprimento da lei, etc.).
    2. Atmosfera económica (regulamento cambial, serviços bancários).
    3. Atmosfera sócio-cultural (acesso a órgãos de comunicação social, censura, limites às liberdades pessoais).
    4. Considerações médicas e de saúde (serviços e provisão médica, doenças infecciosas, esgotos, remoção de lixos, poluição atmosférica, etc.).
    5. Escolas e educação (nível e disponibilidade de escolas internacionais).
    6. Serviços públicos e transportes (electricidade, água, transportes públicos, congestionamento de tráfego, etc.).
    7. Recreação (restaurantes, teatros, cinemas, desporto e tempos livres, etc.).
    8. Bens de consumo (acesso a produtos alimentares e de consumo diário, carros, etc.).
    9. Habitação (mercado de arrendamento, equipamentos domésticos, mobiliário, serviços de manutenção).
    10. Ambiente natural (clima, registo de desastres naturais).

Tentar aplicar esta bitola a Macau seria doloroso. A primeira cidade da lista de 2016 é Viena, como acontece há sete anos. Seguem-se Zurique e Auckland, como em 2015. Singapura, a primeira cidade asiática e de matriz não ocidental, em 26º. Lisboa aparece em 42º lugar, antes de Chicago e Nova Iorque, e Tóquio, a melhor cidade da Ásia, ocupa o 44º posto. Hong Kong surge em 70º e Taipé em 84º. A última desta lista em que as considerações sobre a segurança são nucleares é Bagdad, em 230º posto. (dados recolhidos entre Setembro e Novembro de 2015).

20 Jul 2016

Melhores cidades grandes da Ásia Extrema

1. Tóquio – um mundo próprio, cosmopolita, enorme, futurista, excelente oferta de tudo, muitos parques e jardins, livrarias, exotismo. Tem a língua mais bonita do mundo. Muitos dos pequenos bairros da cidade oferecem uma vida tranquila, quase aldeã. A modernidade traz um efeito enganoso, o de se esquecer como o Japão, também nas grandes cidades, é um país bestial e tribal.
Poucas cidades transmitem um sabor irreal como Tóquio e a completa impossibilidade de a compreender é o seu grande mistério. O sistema de transportes internos ou para fora da cidade é impecável (o Shinkansen tem uma média de atrasos de 6 segundos). É perfeita para fanáticos por comboios e para fanáticos de tudo, de unagi a bakushi.
Contras: bastante fria a nível do contacto humano, em geral cara.

2. Hong Kong – futurista, excitante, com muita gente, muito boa oferta de comida e bebida, rede de transportes muito eficiente, uma população suficientemente contestatária para criar frissons, abundância de dim sum. Muito mais excitante que Singapura.
O sistema de vias pedonais elevadas e a interligação com espaços comerciais e de trânsito e metropolitano é um pequeno sonho modernista (ver o livro Groundless City). Muitas ligações aéreas internacionais. Permite um tipo de vida ilhéu recatado ou em versão frenética de grande metrópole. Fica-se com a impressão de que aqui tudo é possível.
Contras: um pouco claustrofóbica, muito poucos espaços verdes no interior da cidade (mas muitas zonas protegidas no exterior), habitação cara mesmo longe do centro.

3. Taipé – cidade jovem, bons cafés e muito fácil acesso a montanha e costa, actividade artística, excelentes livrarias, boa qualidade de vida, muito segura e relaxada. Bom sistema de transportes. Várias zonas muito atraentes e com produtos de qualidade. Habitantes muito generosos.
Contras: pode ser um pouco aborrecida e não é particularmente bonita em certas áreas. Muito poucos espaços verdes grandes dentro da cidade.

4. Osaka – muitos restaurantes e bares, uma cultura do prazer da mesa (ou apenas balcão) e da conversa difícil de ultrapassar. Não recordo outra cidade onde, pelo fim da tarde, haja tantas pessoas a comer e a beber em pequenos estabelecimentos. Produtos de altíssima qualidade. Sistema de metro suficiente e eficiente. Há uma certa descontracção geral. Boas lojas, comida excelente. Extremamente perto de outros lugares de interesse, como Nara, Kobe, Koyasan, Ise e Quioto.
Contras: um pouco provinciana e insular, como é geral no Japão – com excepção de Tóquio. Poucos espaços verdes (ao contrário de Tóquio).

5. Singapura – tudo perfeito a nível de infraestruturas, muito verde (mesmo muito verde, o governo apostou-se em tornar Singapura na primeira verdadeira Cidade-Jardim), excelente comida (e acessível), zona central de aspecto moderno com muitos arranha-céus. Segurança. Cafés, restaurantes e lojas de Little India muito atraente. Muitas ligações aéreas internacionais. A gestão do trânsito afasta qualquer possibilidade de caos
Contras: aborrecido, administração paternalista e controladora. Não tem a vibração de grandes metrópoles como Hong Kong ou Tóquio.

6. Kuala Lumpur – cidade pequena com aspecto moderno, muitos locais de entretenimento, transportes bons, tudo num espaço pequeno e fácil de negociar. Tem uma atmosfera tropical mas arrumada. Hill Stations perto e praias boas no resto do país. Alojamento e comida ainda com preços muito acessíveis.
Contras: imediatamente por baixo do seu aspecto moderno esconde-se uma sociedade conservadora e provinciana. Regime político muito controlador, imprensa pouco livre. Talvez um pouco claustrofóbica por ser pequena.

7. Hanói – bonita, muitos edifícios coloniais, a zona antiga continuando, apesar do turismo, muito atraente. Um caos benévolo. Boa comida, muito fresca. Um povo interessante e interessado, aberto a ideias novas.
Contras: pobre, a confusão, fumo, poluição, sujidade podem cansar sérios desconfortos a longo prazo. Burocracia e as inevitáveis e dificilmente contornáveis inconveniências do comunismo, repressão.

8. Seul – cidade moderna, com várias bolsas de conforto. Tem os confortos do inverno, bons produtos, boas lojas, bons cremes de pele, casas de chá. Esqui perto. A internet mais rápida do mundo.
Contras: mentalidade muito fechada. Por vezes, de repente, percebe-se a extrema ruralidade de tudo aquilo.

9. Fukuoka – Muito calma e junto ao mar, de atmosfera muito atraente. A ilha de Kyushu, onde se situa, oferece muitas oportunidades de passeio. Produtos de alta qualidade, desejo municipal de tornar a cidade num sítio moderno, com muitos sítios para bicicleta e um comércio local sedutor. Muita atenção à arquitectura.
Contras: apenas ser um pouco pequena demais.

10. Bangkok – exótico num sentido quase violento do termo, muita gente, excitante, população misturada, comida de rua excelente e diversificada. O rio que a banha é um pequeno mundo em si, caótico e belo, cinematográfico. Muitas ligações aéreas internacionais e bons hospitais.
Contras: várias zonas pobres, maus cheiros, sujidade. A sua intensidade pode cansar ao fim de algum tempo. Muito grande, não muito fácil de atingir certos sítios. Neste momento tem um regime muito autoritário e problemas de liberdade de imprensa.

11. Manila – cidade grande, uso do inglês estendido. Há, em várias zonas, uma sensação excitante de perigo. Um povo único, brutalmente extrovertido. Toda a longa zona da baía, até ao forte de Intramuros e ao Hotel Manila poderia ser das mais bonitas da Ásia.
Contras: muito pobre em certas áreas, a confusão, fumo, poluição e sujidade podem cansar sérios desconfortos a longo prazo. A língua e a comida não oferecem razões para grandes entusiasmos. Não é uma cidade muito segura.

a) Não visitadas: Rangoon, Jacarta, Bandar Seri Begawan, Pyongyang.
b) Cidades de países muito pobres, como Birmânia, Laos, Camboja, Mongólia, não oferecem condições suficientes a não ser a uma vida de recolhimento e contemplação.
c) Cidades segundas como Busan ou Kaohsiun, não são suficientemente atraentes.
d) Países como a Tailândia e Filipinas têm apenas uma grande cidade, sendo a segunda relativamente pequena.

14 Jun 2016

A propósito de Magris e da Hungria

Numa entrevista a Claudio Magris publicada recentemente num jornal português perdeu-se uma boa oportunidade para perceber como o autor de Danubio julga os transportes que se operaram nos últimos anos em algumas das regiões sobre que o seu livro paradigmático se debruça.
Se a importância que atribui aos espaços públicos onde se pratica a preguiça e a reflexão não deixa de ter lugar na conversa que se reproduz, uma preguiça e um exercício de reflexão que se terá transformado nas cidades contemporâneas em que se instalaram hábitos mais utilitários, menos presente está a reflexão sobre o que aconteceu às cidades ou vilas onde se passou de um regime de ditadura a um de democracia.
Lembre-se que Danubio foi publicado em Milão, pela primeira vez, em 1986, poucos anos antes das transformações que libertaram vários países do que se chamava a Europa de Leste da forte influência soviética que se impôs após a Segunda Grande Guerra. Ler Danubio hoje, no que respeita às páginas que se debruçam sobre a Eslováquia, a Hungria, a Roménia e a Bulgária (que correspondem a cerca de metade do livro, seguintes às que falam da Alemanha e da Áustria) levam-nos a um universo ao mesmo tempo muito longínquo e muito próximo.
Também se fala, e bem, da periferia como o lugar da “separação, mas também do encontro. Na periferia, há um conhecimento do centro maior do que o que existe no centro sobre a periferia” – afirma Magris durante a entrevista, reflexão que se pode aplicar também a países, como Portugal ou a Finlândia, onde existe um interesse pelo centro que não é necessariamente recíproco. Ou mesmo – acrescenta – “um conhecimento e um sentimento dos valores comuns mais fortes do que no centro. Por outro lado, o grande perigo da periferia é o de se considerar o mais autêntico da nação, por serem zonas onde se pensa que esse sentimento nacional está ameaçado. É nesse contexto que nascem os nacionalismos das zonas periféricas”.
Esta resposta poderia ter sido tomada como plataforma de partida para perceber melhor e aprofundar o que se passa hoje em países como a Hungria ou a Polónia (que por razões geográficas não entra na discussão danubiana) onde o nacionalismo e a opção pelo isolamento são cada vez mais fortes. Começa por se fazer – mas não se explora suficientemente esta linha – ao referir a obsessão de alguns destes países em escolher o isolamento e a protecção insegura da sua identidade em detrimento da abertura e da tolerância, um processo com raiz na tentativa de preservar a identidade própria em face da hegemonização imposta durante o período de influência soviética. Magris refere o fosso existente entre a Constituição húngara e a dos países da U.E.
É precisamente a Hungria que me interessa, como exemplo de fechamento e, mais interessante ainda, como exemplo de um país onde a um período de abertura que se seguiu a um de extremo enclausuramento que durou várias décadas, entrou numa fase de apetência por uma nova face de autoritarismo (como na Polónia) – algo que se não deu nos países do sul, Portugal, Grécia e Espanha, que nos anos 70 (74 e 75) rejeitaram regimes autoritários para nunca mais voltar a desejá-los. Não existem sequer em Portugal ou Espanha significativos grupos de direita que mostrem uma propensão nostálgica pelo autoritarismo.
O primeiro texto do capítulo que Magris dedica, em Danubio, à Hungria, chama-se At the Gates of Asia?, o que demonstra a condição periférica que o autor lhe confere, uma que se acentua num país onde a língua tem poucos pontos de contacto (ou nenhuns) com as dos países do centro ou as dos países circundantes. Esta é uma terra em que nos inícios do século XX existe um sentimento de despertença do Ocidente Europeu: “The West has rejected us, so we turn to the East”, uma terra cuja história demonstra um fervoroso nacionalismo que se funda, ironicamente, a partir da sobreposição de inúmeras camadas de invasão e mistura, matrizes formativas do particularismo magiar em que se inclui o elemento asiático – tatar, turco (mais de 150 anos de ocupação), cumano ou pechenegue.
O estado comunista impõs-se de modo paternal, reservando-se o direito de controlar todos os níveis da sociedade e suprimindo liberdades políticas, mesmo que a Hungria tenha sido (eu ainda me lembro) um dos regimes mais distantes de Moscovo de entre os que a U.R.S.S. controlava, constantemente alternando entre períodos de maior e menor autoritarismo.
Ao ler Danubio sentimos como este mundo (que forneceu ilimitado material ficcional), que parece distante, está, afinal, tão próximo de nós.
Na prática o período comunista sucedeu-se a um regime igualmente autoritário (que se inicia, como em Portugal, nos anos 20), o do período de Horthy, Almirante dum país sem mar, aliado de Hitler mas de um nacionalismo rigoroso que não poupou dissabores também à comunidade alemã húngara (que depois de 1945 foi violentamente perseguida).
De fins da Primeira Grande Guerra até 1989 são mais de 60 anos de regime musculado, primeira como ligado à União Soviética, depois como regime de direita e de novo sob domínio soviético após o Segundo Conflito Mundial, uma sucessão de Terror Vermelho-Terror Branco-Terror Vermelho.
A Hungria hoje, a Hungria de Orbán, é um país onde se tenta re-escrever a história de acordo com uma agenda nacionalista (um sinal de extremo perigo), um país membro da O.T.A.N. (assim como a Turquia e a Polónia) e da U.E. onde a xenofobia e a concentração de poderes se exibem sem vergonha, onde o primeiro-ministro, mais uma vez sem pruridos, proclama o desejo de construção de uma democracia iliberal non-Western e admira abertamente Vladimir Putin, onde a imprensa não é livre, onde a lei eleitoral foi alterada de modo a favorecer o seu partido, onde os tribunais têm cada vez menos independência e onde o primeiro ministro faz o que lhe apetece.
Se Viktor Orbán não tem mostrado hostilidade directa contra os judeus e os ciganos, a necessária condenação dos grupos que o têm feito não tem sido devidamente convincente. Paralelamente, o Primeiro-Ministro parece mostrar simpatia por alturas da história da Hungria em que se esta dominava território hoje pertencente a países vizinhos. Tudo isto num país que se revelou como um dos mais abertamente adversos ao domínio soviético durante a época da Cortina de Ferro.
Se Orbán, Erdogan, Netanyahu ou Kaczynski estão no poder é porque há uma vasta base conservadora popular que se identifica com as suas propostas. Tem sido difícil ao eleitor urbano supostamente mais sofisticado e educado entender esta gigantesca força silenciosa que não faz barulho na rua mas apoia em massa (basta votar) propostas políticas musculadas e rejeita liberalismos modernaços.
É aqui que se coloca a questão de saber se existe neste poderoso grupo uma força conservadora nostálgica ou uma força fraca que necessita de um poder forte que não questiona, que olhe por eles e que garanta um modelo de ordem que parece – a este complexo mental – não existir nas sociedades ocidentais liberais. Assim, como li algures num artigo cuja proveniência não recordo, o novo autoritarismo nasce também daquilo que no Ocidente parece ser uma falta de autoridade e um excesso de liberdades. O que em Portugal se chama: ela-havia-de-ser-minha-filha-a-ver-se andava-assim-na-rua.
Pensar na falta de tradições democráticas não ajuda a explicar as histórias de sucesso de Portugal, Espanha e da Grécia onde estas não sofrem (ou sofreram nestas últimas 4 décadas) qualquer ameaça significativa.
Acrescenta-se a esta parcela a da exportação de modelos autoritários bem planeados. Os países poderosos que hoje se auto-propagandeiam sem receio como crescentemente autoritários, a China ou a Rússia, têm vindo a criar um modelo que legitima, aos olhos de outros, como a Turquia, muitos países africanos ou os países da Ásia Central antigamente sob o domínio soviético, uma opção que limita as liberdades e a independência do sistema judiciário e se afirma paternalisticamente como dura mas necessária.
A esta necessidade cola-se um poderoso aparelho de propaganda nacionalista que ao liberalismo ocidental pode parecer bacoco e provinciano. Orbán tem elogiado a China, a Rússia, Singapura e a Turquia como modelos.
Falar do modo sistemático e obviamente muito bem planeado como a China tem tentado exportar o seu modelo (sedutor porque inclui crescimento económico e afirmação internacional) seria matéria para outras linhas.

7 Jun 2016

As Mil e Uma Noites, Miguel Gomes, 2015

No início do primeiro dos três filmes constituintes de As Mil e Uma Noites o autor, augusto, quase austero mas também com um sorriso sacana fininho no canto dos lábios, levanta-se da cadeira onde se encontra, num café, dá uns passos tímidos e, de repente, foge. Pois não. Qualquer um faria o mesmo que Miguel Gomes se se visse confrontado com semelhante desafio. Tentar fazer um bonito filme (as palavras são do próprio, não há aqui nada de inventado) e ao mesmo tempo acompanhar a situação de Portugal durante um ano de obrigação de um regime de extrema austeridade em que quase todos os portugueses empobreceram, não é tarefa que se inveje. Como poderá o maravilhoso e o belo fazer justiça às injustiças e às imposições que os filmes relatam ?
Contar umas histórias e não outras, tratá-las com afecto mas sem esquecer a solidez metálica necessária à crítica e à melancolia, juntar muitas figuras lembrando que a realidade é mais estranha que a ficção e que esta é indispensável ao cinema para que este possa continuar a surpreender, a irritar e a maravilhar como se fosse um conto oriental não é tarefa para qualquer um.
O que é certo é que se o Miguel se tivesse deixado seduzir mais pelas sagas nórdicas ou pelo Beowulf, pelo Decameron ou pelos Contos de Cantuária, mesmo com a carga de problemas que se propôs mostrar, o seu filme seria muito menos solar. O filme será mais inquieto, desolado ou encantado? É os três. A responsabilidade de juntar tudo isto dá, realmente, vontade de fugir.

Não sei se pensou nisso mas ele que fique a saber que os seus contos são encantadores, pela sua sinceridade e por não se saber muito bem onde é que ele nos levará a seguir (como acontece com Tabu) e pela sua recusa em ser apenas amargo durante 6 horas. Provavelmente Miguel Gomes não sabia muito bem em que direcção seguia, mas isso nunca foi impedimento para que se alcance o encanto.
Não esqueçamos que o primeiro dos filmes, O Inquieto, começa com uma demonstração de maravilhamento perante a dimensão de um estaleiro. Começa-se pelo espanto. A figura que o demonstra afirma, com humildade, que nunca pensara que tivesse tanto para aprender. Todos aprendemos aqui, o realizador, os seus colaboradores e nós.
Não esqueçamos igualmente que seguinte à história dos comerciantes e dos governantes cheios de tesão, onde a Senhora Ministra das Finanças pouco mais pode fazer que exibir um rubor pouco convincente, se apresenta uma outra verdadeira em que se julga o comportamento de um galo que canta a desoras – o primeiro episódio num setting de luxo meridional understated, na zona de Cascais, e o segundo num rural interior com bombeiros, fogos postos e GNR’s – Resende, Distrito de Viseu.
Tudo isto já se passa no enquadramento das histórias que Xerazade conta ao Rei para que este não a mande matar e a diversidade dos lugares onde as histórias se passam (onde elas se passam e o que elas evocam segundo a nossa experiência) será uma constante ao longo dos contos das noites.
Ia-se rir . . . porque não há ninguém que creia numa coisa destas – afirma uma das personagens do episódio do galo. . . . foi ali a vizinha do lado que mandou o galo para tribunal. Felizmente que há um juiz (o primeiro de dois) que ainda percebe a fala dos animais, o que permite que o galo se defenda. Não é apenas o português e o galês (língua dos galos) que é falada nestes filmes, e a diversidade dos lugares e da luz é acompanhada pela diversidade das línguas onde apenas uma vez – no episódio dos tesudos em que os portugueses confrontam os responsáveis europeus pela imposição do regime de austeridade – existe necessidade de tradução. Neles encontramos também o francês, linguagem gestual, o inglês, o alemão, o mandarim por 3 vezes, uma estranha língua escrita das mensagens de telefone móvel e até, no segundo filme, o silêncio de um refinado filho da puta em fuga da GNR (outra vez) em cujo episódio não falta uma cena paradisíaca bastante desarabizada mas ainda assim muito pasoliniana, com belas mulheres jovens nuas e um assado acompanhado de vinho.
Este episódio não culpa directamente ninguém mas no seguinte, o da Juíza, todos parecem ter sido destinados pela necessidade a serem culpados de alguma coisa – um dos episódios mais humorísticos (e não posso deixar de pensar que este é um registo que dificilmente se traduzirá com sucesso para outras línguas) e que não nos prepara para o que encerra o segundo filme, o chamado Os Donos de Dixie, muito suburbano, em total contraste com o lugar do julgamento e os montes agrestes onde se esconde o já referido sacana, de seu nome Simão “Sem Tripas”.
Não sei porque razão mas, como acontece em Tabu, tudo isto me parece imensamente moderno e inventivo mas, ironicamente, não estava à espera de outra coisa.
Sai-se de As Mil e Uma Noites e de Tabu a pensar que nunca se viu nada assim. Junta-se o mais hippie de todos os quadros, o do início de O Encantado, o terceiro filme, em que Xerazade quer viver verdadeiramente, fora dos limites do palácio, com o dos passarinheiros habitantes do antigo bairro da Musgueira em Lisboa num registo comum aos dois e que parece natural. Neste quadro, assim como em Os Donos de Dixie, Miguel Gomes mostra uma capacidade que distingue igualmente Pedro Costa e que me parece perder-se na estilização do seu último filme, Cavalo Dinheiro – a de transformar a banalidade numa cerimónia quase operática, uma coisa que Manoel de Oliveira sabia fazer e que César Monteiro não fez porque não quis.

31 Mai 2016

A falha

Numa edição recente do Financial Times aparece um artigo de David Tang sobre as piores cidades do mundo chamado Are these the world’s worst cities?. Macau figura nele e na fotografia de maior impacto, entre as várias que ilustram o texto, vê-se a zona do Grand Lisboa. Estas linhas não vêm especificamente em condenação do artigo de Tang mas em condenação da aceitação, por parte do FT, e de outras publicações mais ou menos especializadas e/ou de créditos formados, de incluir artigos mal feitos.
A melhor maneira de avaliar a qualidade de um guia de viagem é ler a edição que diz respeito ao sítio onde vivemos. Como exemplo, o guia Lonely Planet, em edições antigas, listava como restaurantes a patrocinar em Macau nomes absurdos e de interesse gastronómico muito duvidoso. Hoje em dia já não é assim e parece, no geral, equilibrado e feito com profissionalismo.
O mesmo se pode fazer com artigos de viagem, constantes em revistas da especialidade, sobre cidades ou países que conhecemos bem. É divertido identificar os erros e o modo como nós, os residentes, somos retratados. Em certos retratos de Lisboa todos os seus habitantes andam de eléctrico, cantam fado e comem Pastéis de Belém diariamente enquanto lamentam a perda do Império.
Menos agradável é pensar que artigos sobre cidades ou países que nos propomos visitar são escritos com a mesma leviandade ou a mesma carga de ignorância. O conselho que este vosso servo dispensa é o de que se deve mandar os articulistas todos à merda.*
Em Dezembro de 1999, vários jornalistas portugueses aterraram em Macau para cobrir a transferência de soberania do território para a R.P.C. Foi muito divertido e esclarecedor. Muitos deles juntavam-se ao fim do dia num bar/café da cidade – que hoje em dia é muito mais bem frequentado – e eu percebi que, ao fim de dois dias, todos eram especialistas de Macau. Achei que esta gente dos jornais e da rádio era uma gente extraordinária.
Por outro lado não se pode esperar que um articulista, cronista ou repórter possa, em uma visita de 4 ou 5 dias, munir-se de material que rivalize com o que um residente possui.
O que David Tang diz está bem, Macau tem uma quantidade imensa de sítios pirosos e imensamente feios, maioritariamente construídos após 1999, edifícios que espelham a instalação – acarinhada pela administração local – de uma ganância sino-americana sem limites no mau gosto e no desprezo pela cidade e seus residentes.
Não poderia estar mais de acordo. O edifício do Grand Lisboa, dentro e fora, é horrível. A parte do Cotai que se estende do Galaxy ao novo Studio City é um pavor de mau gosto e baixa qualidade de construção e algumas das unidades hoteleiras que estão em fase de acabamento, por trás do City of Dreams, são uma adição de horrores.
O que está menos bem é que Tang não diga que há ainda lugares em Macau que mantêm um charme próximo ao que terá tido há 30 anos, que há uma geração nova em Macau que tem introduzido subtis alterações positivas no comércio local e que se tem mantido um conjunto histórico que é único na Ásia.
As duas primeiras coisas ele não diz porque não sabe e a terceira não diz, sabendo-o, porque quer mostrar irritação. Sir David sabe perfeitamente que entre as cidades da Ásia Extrema onde permanece um conjunto monumental sincrético ou de matriz ocidental, como Malaca, Jacarta (o centro histórico abandonado), Penang, Xangai, Bandung ou mesmo Hong Kong, Macau é um exemplo superior.
O que é menos bom, e quem leu coisas escritas por Tang não estranha, é que este insista, pedantemente, na ideia de que Manila ou Bangkok deveriam ser parecidas com Viena ou Florença, exactamente da mesma maneira que Eduardo Prado Coelho (que tem obra e provas dadas em outras áreas, ao contrário de David Tang) se queixou de Macau por não ser mais parecida com Paris (… aquilo que é o encantamento parisiense (ruas com belíssimos cafés com espelhos e madeiras) não existe por estas bandas). Ainda hoje faz rir, mesmo àqueles que, como eu, deploram a falta de esplanadas (cafés já há, mesmo que não haja nenhum antigo).
O artigo de Prado Coelho, que já estava bastante debilitado na altura, é um exercício de desonestidade por parte de um nome com provas dadas na sua área de especialização mas que para ganhar uns cobres escreve apressadamente para um jornal (o Público) que aceita placidamente as suas linhas mal informadas porque se trata de um nome famoso.
Fica a consolação de que a Macau que ele queria ter encontrado (e como português teria de ser um cenário nostálgico e passadista à In the Mood for Love) existe e continua bem pastosa e húmida como no filme. Que ele não a tenha visto é culpa dos que não lhe mostraram essa parte da cidade. Tal como Tang, também EPC gosta da palavra hordas: Que é que eu fui descobrir? Milhares de chineses que invadiam o hotel em hordas ruidosas. De que estava ele à espera? De milícias curdas?
Sir David, que não precisa do dinheiro, devia estar quieto ou entretido com os seus trapinhos saudosistas, cuja filosofia espelha o provincianismo dos artigos que por vezes exporta num jornal que não o devia publicar, e que há bem pouco tempo se desembaraçou de modo pouco airoso de um cronista como Harry Eyres, autor da informada coluna The Slow Lane, enquanto mantém, sem sinal de vergonha, The Fast Lane, da autoria de Tyler Brûlé, talvez a coluna mais inútil e vazia de interesse para o mundo de que me lembro.
Estas linhas não são em defesa de Macau, onde a completa ignorância, infantilismo, provincianismo, falta de visão e de gosto das fracas almas que a têm administrado a transformaram em grande parte (falo da parte turística) num cacófato composto por obras intermináveis, ausência de arte e esplanadas, edifícios completamente pacóvios, lojas de sabonetes e relógios, um sistema de transportes públicos caótico, altos níveis de poluição – demonstração de uma completa falta de sentido de qualidade de vida.**
Um dos prazeres de escrever para um jornal é o de dizer mal, o de exibir a irritação ou a indignação junto de um público vasto, e qualquer articulista sabe que por vezes este desejo irresistível e saboroso de maldade faz esquecer o rigor. Felizmente que assim é, a favor do excesso. David Tang exercita-o com gosto, é pena que este se não complemente com mais rigor. Fiquei com muita vontade de ir a Leeds.

* Num livro publicado pela Lonely Planet chamado The Cities Book: A Journey Through the Best Cities in the World, que lista 200 cidades, Macau aparece em 121° lugar, depois de Copenhaga. Nele diz-se que os habitantes de Macau gostam de prazeres simples, such as smoking a pipe or having their palm read in Mediterranean-style cafés filled with caged birds. Também informa que a viagem para Hong Kong leva 4 horas (o livro não é muito antigo) e que entre as principais exportações de Macau se conta mobiliário de ráfia, moedas antigas e cigarros especializados. Nas páginas dedicadas a Hong Kong diz-se que os seus habitantes têm muito orgulho nos sucessos da China.

** Uma cidade que não tem um museu de arte a sério (o M.A.M. é uma anedota) e que em vez de trazer ao público local exposições ou peças de Baselitz, Richter, Anselm Kiefer, Baldessari, Barceló, Tapiés (houve há muito tempo, no Fórum), Paula Rego, David Hockney, Kapoor, Muniz, Abramovic, Beuys, Twombly, Koons ou Ai Wei Wei traz um pato de borracha só pode ser objecto de irrisão. Acrescente-se que o mesmo se passa em Hong Kong. Se vários destes nomes aparecem exibidos em galerias é por razões comerciais e não porque haja uma vontade da administração local de as mostrar aos residentes. Proponho que o Pato fique, permanentemente, em companhia dos Patos Bravos que o trouxeram.

17 Mai 2016

Bares novos: St. Regis e Premiere

Este será o último artigo que integra uma apreciação e lista de bares de hotel de Macau. O assunto é fastidioso. Algumas das falhas que nesta selecção se descobrem são falhas que indicam insuficiências, de tipo rural, que são endémicas à cidade e cuja resolução se não vislumbra.
A primeira prende-se com a continuada inexistência de um único bar em que o desenho mostre a mais pequena ousadia no seu modernismo. O mesmo defeito estende-se aos hotéis do território, a esmagadora maioria dos quais – com a pequena excepção do Altira e do Mandarim e talvez do Hyatt – vergados à necessidade de um gosto pacóvio e renitentes à educação das massas. Pergunto-me o que acontecerá ao edifício em construção desenhado por Zaha Hadid, recentemente falecida.
Admita-se que esta falta de atrevimento no desenho pode ser uma propensão generalizada na Ásia, uma que em Macau se combina com a focalização num tipo de turismo de massas pouco educadas. Também neste sector quem acaba por sofrer as consequências da ignorância e do provincianismo é o bebente residente.*
A segunda razão que torna os bares de Macau entediantes é a relutância da população local em frequentá-los. Existindo locais onde a oferta de bebidas e o serviço é mais que suficiente, estes tornam-se inúteis se continuarem vazios e sem animação. Há vários lugares em Macau em que as listas e a proficiência dos mixordeiros não fica atrás do que se pratica nos melhores lugares do resto do planeta.
Relembra-se o conceito de proximidade, lido em Triumph of the City, de Edward Glaeser. Este aplica-se a uma concentração social promotora da troca de ideias e do avanço de projectos. Em Macau persiste a resistência à frequência dos bares antes das refeições, a desejada proximidade não se cumpre e a estagnação ou a regressão substituem-se ao avanço.
No novo The St. Regis bar, no hotel do mesmo nome, identificam-se facilmente as falhas que aqui se expõem. Este é um lugar com um conjunto muito decente de bebidas, um que mostra profissionalismo, não só na escolha destas como na dos preparados que com elas se podem conseguir. Os barmen de serviço que conheci são muito competentes e o resto do pessoal muito simpático e de olho vivo e interessado. O balcão é atraente, de tamanho médio e altura capaz e aparece fronteiro a um painel autorizado por Gil Araújo relativo à coexistência harmoniosa dos chineses e dos portugueses em Macau ao longo dos anos (a sério). A zona de cadeiras é confortável e própria, quase elegante, e ao fundo existe uma área mais íntima, The Vault, que se utiliza para funções próprias ou para uso regular.
Uma das vezes que o frequentei estava vazio, e em conversa com umas das funcionárias não me pareceu que houvesse muitas excepções. Numa outra, a uma sexta-feira, a zona de mesas estava cheia e com bom ambiente. A sala The Vault recebia um grupo grande.
A frequência é a razão que mantém o bar do Hotel Star World em primeiro lugar da minha lista de preferências – a existência de um público regular. Admita-se igualmente (uma conversa que já tive com um empregado do Bar Azul, no Hotel Four Seasons) que a localização pode ser factor determinante na popularidade do bar do décimo sexto andar do Hotel Star World.
Mas o que distingue o bar do St.Regis, carregado de boa vontade, de vários outros bares de hotel que se oferecem no território? Por enquanto não muito, para lá de uma genuína vontade de agradar e uma HH atraente em termos de preços. O serviço é tão bom como nos melhores. Este bar compete com o do Ritz-Carlton? Sim, compete no sentido da qualidade da oferta e do serviço própria a hotéis de alta gama. Mostra uma especialização numa bebida muito popular, o Bloody Mary.
O bar Premiere fica num complexo turístico de gosto duvidoso e materiais de construção baratos, o Studio City. O bar continua a tendência de todo o complexo. O Premiere é apenas um lounge aberto aos corredores e não mereceria sequer aqui menção não fossem os barmen bastante competentes e interessados. Tem uma lista excelente, vasta, mas só a obrigação de uma visita ao complexo justifica que se patrocine o Premiere e não outros bares que ficam na mesma área.
Encontra-se a uso público o bar China Rouge, no Complexo Galaxy, antes limitado à entrada de sócios. Mantém a geografia anterior que é mais a de um clube do que a de um bar e tem uma banda. Siga-se a sua carreira. Não o incluo na lista por não saber se está aberto para bebidas ante-prandiais.

1. Whisky bar, Hotel Star World – O que tem mais animação. Localização central. Taxa muito favorável de retenção do pessoal de serviço. Tem uma lista longa para lá da que o cliente normalmente recebe. Tem uma varanda muito boa.
2. Ritz-Carlton bar and Lounge, Hotel Ritz-Carlton – Bom nível de bebidas mesmo que não em quantidade. Pequena especialização numa bebida, o gin (20 diferentes), dá-lhe um rosto próprio. Abre às 10 da manhã, pormenor importante num território em que muitos dos outros bares de hotel só abrem pelas 5 da tarde.**
3. Macallan, Galaxy – Excelente serviço, boas bebidas feitas por barmen muito competentes e hospitaleiros num ambiente estranho a Macau. Lista de uísques inultrapassável, penso que mais de 400, coloca-o no terceiro lugar (isto o que o distingue).
4. St.Regis bar, Hotel St.Regis – Ainda em rodagem, uma ementa bastante completa e mixordeiros de qualidade, uma sentida vontade de agradar e uma pequena especialização em Bloody Mary. Pode subir de posição. Abre ao meio dia. Apreciado em cima.
5. Convívio Agradável, Hotel Sofitel, Ponte 16 – Excelente serviço e sentido de hospitalidade, bebidas de qualidade. Não é longe do centro. Muito feio mas muito acolhedor (eu não acredito que o kitsch seja a manifestação do mal). Por baixo da fealdade, que é quase comovente na sua inocência, nota-se a qualidade Sofitel.
6. Bar Azul, Hotel Four Seasons – Expressa desejo por um desenho próprio, boas bebidas, próprio para um encontro íntimo, injustamente desconhecido.
7. Vida Rica, Hotel Mandarin – Boa qualidade de serviço, fica num dos 2 hotéis de Macau que não é piroso e tem vista. Tem promovido eventos próprios, não só com provas de vinhos mas com mixologistas convidados – o que o traz a uma posição mais favorável.
8. Cinnebar, Hotel Wynn – tem espaço exterior, staff competentíssimo e amável, boas bebidas, excelente ginger margarita.
9. Lan, Hotel Crown Towers – Este bar cai vários lugares, vítima brutal das intermináveis obras que afligem a parte oeste do City of Dreams. Encolheu consideravelmente e já não tem janelas nem o pé direito quase gótico que o tornava amplo. Segundo o pessoal de serviço, em breve (?) ganhará novo espaço em que se inclui uma parte exterior. Se desce apenas para sétimo lugar é porque mantém a mesma lista e uma outra apenas de vinhos de mesa que é das melhores de Macau.
10. Heart, Hotel Ascott – Tem um terraço de sedução imbatível, o melhor entre estas entradas. Tem uma lista curta e sem grande imaginação. Excelente para grupos. A melhorar à medida que vai ganhando experiência.
11. 38 Lounge, Hotel Altira – tem vista e varanda, exibe vontade de mostrar desenho, fica num dos 2 hotéis de Macau que não é piroso.
12. Windsor, Hotel New Emperor – Tem um longo balcão e localização imbatível, no centro da cidade. As misturadoras, de Taiwan, eram muito simpáticas.
13. Premiere, Studio City – Sítio feio mas com uma lista longa e bem feita (está na internet). Bons barmen.
14. Cristal, Hotel Wynn Encore – desenho próprio, sofás confortáveis, excelente ginger margarita (partilha lista com o Cinnebar).
15. McSorley’s Ale House, Venetian – Não tem figurado nesta lista mas tecnicamente é um bar de hotel, mesmo que completamente aberto a um corredor feio e a massas barulhentas. Tem 17 marcas de cerveja. O resto é enfadonho, igual a tantos outros bares de temática irlandesa de desenho encomendado a uma empresa que os replica por todo o mundo.
16. Aba, Hotel MGM – não bem um bar, mais um espaço aberto junto de uma praça mas onde se conseguem bebidas boas e um serviço de simpatia e competência mais do que suficiente. Larga escolha de vinhos.
17. Lyon’s, Hotel MGM – pouco que se recomende para lá de ter um balcão enorme e ser relativamente central.

A. Relembre-se que existem em Macau alguns bares/lounges de átrio de hotel que preenchem com suficiência necessidades de bebida, lugares de conforto e extrema conveniência, alguns mesmo de elegância decente. Noto, por ordem não muito rigorosa de preferência, os dos hotéis Mandarin, Okura, Banyan Tree e Marriott. O bar circular do Sheraton também é bom.
B. Existem igualmente vários bares de piscina espalhados pela cidade.
C. Vários restaurantes de hotel, como o Aurora, o Copa ou o Portofino, têm agregados bares.
D. Noutra nota (não de bares de hotel) informe-se que têm aberto na zona norte da cidade (obrigados a esta escolha pelo preço das rendas) vários barzinhos de sabor local que podem vir a transformar esta área, anteriormente pouco associada ao sector.

* também não noto uma vontade contrária em Hong Kong, admitindo uma pequena excepção no Ozone (Ritz-Carlton, cuja lista é praticamente igual à de Macau). Aliás, este é um caso paradigmático. O mesmo hotel Ritz-Carlton (pertencente ao gigantesco grupo Marriott) decidiu fazer em Hong Kong uma estalagem de aspecto moderno, mesmo que não muito ousado, mas em Macau escolheu uma moldada ao pobre gosto presidente, em tons pseudo-imperiais frios (gosto duvidoso que se repete em Kuala Lumpur e em Cantão).

**alguns dos bares sitos em hotéis têm listas que se encontram acessíveis na internet. Recorde-se igualmente que certos bares têm listas de bebidas (por vezes comuns a outros serviços do hotel) mais vastas do que as que imediatamente se oferecem aos clientes.

19 Abr 2016

Cervejas III, preços e modas

Hoje, dia 17 de Março, Dia de Saint Patrick, serve como desculpa para rodear a promessa de não compor mais um aborrecido artigo sobre cerveja.
Anda a beber-se menos cerveja. As grandes marcas de bebidas, poderosíssimas, têm nestes últimos anos bombardeado os consumidores com a promoção de bebidas brancas até há bem pouco tempo consideradas proletárias. A recente promoção do gin, do vodka, do rum, da tequila e mesmo do whiskey norte-americano é um grande fenómeno de marketing. Esta poderosa onda publicitária faz esquecer que se trata, basicamente, de destilados simples.
A esta tendência inventada pelo grande capital do álcool vem associada a dos craft spirits, bebidas brancas de pequenas marcas, que ilustra uma propensão contemporânea do primeiro mundo de rejeição das grandes marcas em favor de produtos locais e supostamente preparados com mais amor. Note-se que tal não acontece com bebidas mais complexas.
Alguns destilados étnicos menos conhecidos, como o soju, a cachaça ou algumas aqua vitae, passaram igualmente por uma fase de promoção social e lançamento alargado. Esta moda alegre acompanha a do renascimento do cocktail, do clássico ao orgânico ou ao molecular.
As bebidas mais sérias, como o whisky, o brandi ou o armagnac, menos permeáveis a modas porque precisam de tempo para crescer, tornaram-se um grande negócio quando os asiáticos começaram, finalmente, a beber a sério.
No mundo da cerveja, em que permanece o monopólio das lager pertença de grandes marcas desinteressantes, como a Heineken (marca directamente responsável pelos milhões de litros de cerveja de baixa qualidade que se bebe por todo o mundo, uma tendência relativamente recente e que resulta de um titânico golpe publicitário) ou a Carlsberg, insinuou-se mais ou menos timidamente a tendênca da craft beer que tem vindo a ter uma expressão cada vez mais perigosa em alguns mercados. Nos E.U.A., o maior mercado do mundo de cerveja e o segundo maior a nível do consumo, a craft beer tem uma cota muito grande.
Mas o dia do santo irlandês* não consegue esquecer que o consumo de Guinness, uma cerveja irlandesa exemplar e ligada às comemorações do dia do santo, tem, nos E.U.A. e na Grã-Bretanha, decaído significativamente nos últimos 6 anos. Não é apenas esta marca irlandesa. Desde cerca de 2010 que o consumo de cerveja tem vindo a diminuir na Grã-Bretanha, na Irlanda e em vários países da Europa, vítima da competição do vinho e de bebidas brancas simples promovidas a um estatuto respeitável.
Não estou a brincar. Há menos procura, a competição por parte de outras bebidas é feroz, o consumidor está mais sofisticado e o acesso a certos mercados é cada vez mais difícil. O mercado norte-americano estagnou, o alemão, francês e o do Reino Unido retraiu-se. Na Ásia, que bebe cerca de 30 a 35% da cerveja de todo o mundo, os números têm também vindo a baixar.
GoEuro é um sítio de planeamento de viagens que oferece índices de preços de produtos e serviços que interessam ao turista – transporte em geral, trânsito urbano, alojamento e alimentação.
Exemplo: o índice dos hotéis mostra uma média de preços que inclui alojamento em 150 cidades – de hotéis de 5 estrelas a hostels. Os três lugares mais caros são Nova Iorque, St. Moritz e Macau (mesmo que se note que nesta última cidade o preço dos hotéis de 5 estrelas seja muito mais acessível que em muitas outras). As mais baratas são Sofia, Bulgária, Hammamet, na Tunísia e Tirana, na Albânia.
Junta-se um índice minucioso de médias de preços em Airbnb (a Madeira é o segundo lugar mais barato); em estabelecimentos de 5 estrelas (Punta Cana o mais caro); de 1- 4 estrelas (Macau o quarto mais caro depois de N.Y., St. Moritz e Miami) e em hostels (Macau em décimo oitavo entre os mais caros).
A parte dedicada aos transportes, comboio, avião e autocarro, é muito interessante. Em Portugal os transportes são mais caros do que em países em que estes são melhores, como a Alemanha, o Canadá, a Suécia, os E.U.A. ou a França.
O índice da cerveja, que é o que verdadeiramente nos interessa, incide sobre 75 cidades. Mostra preços médios (1.) em supermercado, (2.) em bares e conclui (3.) com uma média. Acrescenta-se (4.) uma média anual de consumo per capita em litros e (5.) uma média anual de despesa per capita.

1. (em supermercado) Os sítios mais baratos são Sevilha (4.1 mop. Sempre preço médio por garrafa de 33cl. a partir daqui), Belgrado e Manila. Os mais caros são Oslo (27.5mop), Moscovo e Tóquio.

2. (em bar) Mais caro: Hong Kong (86.7 mop), Genebra e Tel Aviv. Mais barato: Bratislava (17.7 mop), Deli e Kiev. Todos a Bratislava este Verão, fica na Eslováquia.

3. (em média) As mais caras vendem-se em Genebra (50.4 mop), Hong Kong (49.2 mop) e Tel Aviv, e as mais baratas em Cracóvia (13.2 mop), Kiev e Bratislava. Outras cidades onde é caro beber cerveja são Oslo, N.Y., Singapura e Miami.

4. (média de litros anuais per capita) Onde se bebe mais é em antigas cidades comunistas, Bucareste (133 litros), Praga, Cracóvia e Varsóvia. Se pensarmos que a China e o Vietname mostram consumos muito elevados de cerveja pode estabelecer-se uma relação entre o comunismo e esta bebida.
As cidades, entre este grupo de 75, onde o consumo per capita é mais baixo são o Cairo (4 litros), Deli e Abu Dabhi. Em Belgrado, Ho Chi Minh, Berlim, Frankfurt e Toronto também se bebe muito.

5. (média de despesa anual per capita) Onde se gasta mais dinheiro por ano é em Helsínquia (12.300 mop/ano), Sydney e N.Y.. Gasta-se menos no Cairo (199.6 mop/ano), Deli e Bali.
Como já aqui foi dito em artigo de 2013, em Macau continua a não haver, com excepção do McSorley’s, que fica dentro de um centro comercial de péssimo gosto, um bar de hotel em que a selecção de cervejas não seja miserável. O único avanço nota-se no aparecimento, em alguns deles, de cerveja branca de marcas de ampla distribuição.
Ao invés, abriram vários bares e lojas pela cidade em que a cerveja é a bebida nuclear. Já aqui se falou em alguns deles. Acrescente-se um na Rua da Erva chamado Agora, uma loja sita no Pátio de São Lázaro, junto de umas escadinhas por que se acede ao bairro de São Lázaro, que oferece espaço para sentar e beber, e o muito bem equipado bar Prem1er que fica no centro da Taipa.

* Que se comemorou, pela primeira vez, em Macau, com vários eventos. Na parada alusiva, muito internacional, participaram grupos de diferentes matrizes culturais: um rancho português, uma grupo de jovens asiáticas em jeito de espanholas, um grupo local de dança irlandesa, um de rock e um de street dance, uma associação local de Dança do Dragão e do Leão, um coro e solistas de uma escola internacional e até um grupo de 4 pipers chineses da Polícia de Hong Kong, tudo agraciado pela presença da Lord Mayor de Dublin, Críona Ní Dhálaig.
Quem quiser saber mais sobre a Irlanda pode começar por ler o estimulante livro de Bede, A History of the English Church and People, uma obra de referência, escrita no século VIII, que logo no Livro I, Capítulo I, em que se fala da ausência de cobras na ilha da Irlanda (mesmo que Bede não atribua este sinal de pureza à acção do santo, como a lenda que o tornou famoso). Toda a ilha é retratada em termos das suas qualidades paradisíacas, não muito agreste de clima e abundante em leite, mel, vinhas, peixe, pássaros, veados e cabras.

22 Mar 2016

Gorgani

Regresso ao romance de Gorgani seduzido pelo gosto das romãs e pelo contraste entre o vermelho e o branco, símbolo de uma beleza que foi depois renascentista e de uma técnica poética de abuso do contraste. Mas tudo isto é muito anterior, o romance em si, do século XI, e o tempo pré-islâmico em que se passa esta saborosa e misteriosa história de amor persa.
Vis é a mulher que causa toda esta perturbação e não é de admirar pois seria difícil de imaginar mulher mais bela que esta princesa persa, alvo de um amor que ainda pode haver mas que já não se pode escrever. A focalização nesta figura feminina, que é a mais importante e a mais interessante da história, não se repete em outros romances que a este tradicionalmente se associam.
Numa altura em que transformações no relacionamento entre o Irão e o resto do mundo parecem ganhar um fôlego imprevisto há pouco tempo, contribui-se com esta chamada de atenção para um dos livros mais importantes da medievalidade médio-oriental (escrito entre 1050 e 1055), certamente conhecido na Europa desde muito cedo.
Assim se dispensa um pequeno acrescento ao que do Irão cada vez mais nos chega em expressão plástica, musical e, principalmente, cinematográfica. O cinema iraniano é hoje um dos mais importantes dos oriundos de países com capacidade de produção não muito alargada, um que tem, através do concurso dos grandes festivais internacionais, chegado a um público vasto.
Aqueles que à história deste país têm dedicado alguma atenção não deixam de admirar a continuidade do seu poderio cultural, espelhada na importância do persa como língua de cultura durante o império otomano, falada pelas classes educadas – assim como o árabe se utilizava como língua própria ao serviço religioso – e na influência que a sua arquitectura, música, poesia e arte da iluminura lançaram sobre o império.
Mas o famoso romance de Gorgani precede tudo isto e esta antiguidade será, hoje, uma das suas delícias, a que se acrescenta saber que a história inicial, coligida por 6 eruditos, é mais antiga ainda.
Pouco se sabe sobre a vida de Fakhraddin Gorgani, apenas que terá escrito este longo poema de amor sob o patrocínio de Amid Abul’l Fath Mozaffar, comandante de cidade de Isfahan no período entre 1050 e 1055, e que proviria da cidade ou da área de Gorgan, a este do Mar Cáspio.
No poema, Ramin, Vis e Mobad, as figuras principais deste mito de alternância que se desenha através de um triângulo amoroso, deslocam-se frequentemente entre locais que ficam perto da cidade de Gorgan. Este é também um poema de constantes deslocações e de indefinição dos resultados do amor, com muitas reviravoltas e situações inesperadas. Mas nada é tão intenso como a beleza de Vis, o seu corpo de cipreste.
O interesse por histórias passadas no período pré-islâmico é um interesse alargado no Irão no século XI, uma nostalgia que não impede que, no entanto, haja várias referências e figuras que sejam já islâmicas.
Shahnameh (Livro dos Reis, que conta a história do Irão e do Zoroastrianismo – ou Zoroastrismo – até à islamização), de Ferdowsi, é um poema épico composto quarenta anos antes de Vis e Ramin em que a nostalgia pelo mundo pré-islâmico (anterior ao século VII), em que o Irão atravessara uma época de inigualável esplendor, é um dos seus brilhos próprios.
O mundo de Vis e Ramin remonta ao século III a.c.*, e a estranheza de alguns dos costumes que se exibem na história – como o do casamento inicial de Vis com o irmão – que remontam às dinastias iranianas antigas em que o incesto era prática comum, é uma estranheza que contribui para a riqueza do romance.
Que Gorgani se não tenha deixado impressionar negativamente por este costume – numa altura em que já não se praticava – é um bom indicador de como através dele acedemos a um mundo perdido.
A mais voluptuária sobrevivência zoroastroanista do poema consiste (esta uma das suas grandes seduções) na importância dada ao prazer. É constante a descrição de tempo destinado à caça, ao pólo e a festas onde o álcool é presença abundante – associado não só aos guerreiros mas também aos amantes.
O vinho é uma das peças fundamentais da descrição do prazer de que os amantes usufruem e aparece associado às partes em que os festejantes atravessam um período de felicidade. O poema, muito longo, alterna momentos de fortuna e de miséria mas o vinho aparece como elemento da expressão do prazer sentido nos momentos de euforia. Quando os dois amantes se conhecem, Vis e Ramin, e depois do primeiro encontro sexual, seguem-se dois meses de luxo e de prazer.
O prazer do sexo não é também um prazer escondido. A ama de Vis, uma figura fundamental para a urdidura de alguns dos nós mais densos do romance, a par das 3 centrais de Vis, Ramin e Mobad, não lhe esconde que este é um prazer de que se não pode fugir depois de experimentado: And you don’t know how vehemently sweet/The pleasure is when men and women meet;/If you can make love just once, I know that then/You won’t hold back from doing so again (trad. de Davis, p.121).
Os deleites do amor, do vinho, da caça, do pólo e da faustosa vida de corte vêm envolvidos por um estilo sumptuoso e florido que é comum ao estilo de peças gregas e latinas contemporâneas, e se esta consideração aqui se faz é como complemento da ideia de que Vis e Ramin poderá ter influenciado directamente uma das obras fundamentais da medievalidade europeia – a história de Tristão e Isolda.
Foi, aliás, através da teoria que defende esta possível influência que cheguei ao poema persa. Esta inscrever-se-ia num conjunto de outros possíveis pontos de contacto entre manifestações da literatura islâmica medieval e da literatura medieval (e de transição para o renascimento) europeia não-islâmica como, por exemplo, em Dante ou na lírica trovadoresca. A literatura que sugere a ligação de Tristão e Isolda a Vis e Ramin é vasta e tem origem em estudos de finais do século XIX, mas trazer aqui uma discussão das suas minudências seria fastidioso e desapropriado. Baste notar-se que as inúmeras semelhanças convidam a que se estabeleça esse paralelo.**
A propensão que no poema se encontra, de elogio do prazer, longe de qualquer crítica ao comportamento adúltero desta extraordinária figura romanesca que é Vis, não tem, no entanto, paralelo na subsequente literatura persa. Segundo Dick Davis, as personagens femininas do romance persa tornam-se cada vez menos carnais para se tornarem cada vez mais moralistas e, por fim, místicas.
O estilo florido parece por vezes comprazer-se numa longa languidez e quem procurar no romance um desenvolvimento narrativo fluido encontra, ao invés, quadros que valem por si só, quadros que têm um valor episódico. A sucessão de quadros líricos que atrasam a narrativa é uma das suas características fundamentais, que não agradará a todos e que promove uma disposição contemplativa.
Nesses episódios descobre-se a sua sedução principal – a extrema riqueza das imagens associadas ao amor, à guerra (mas há poucas cenas guerreiras), à tristeza, ao ódio, à música, à descrição da natureza ou à beleza feminina, muitas das quais certamente bem codificadas e de reconhecimento fácil para os leitores da altura***.
Descobre-se também a extrema importância dada aos poderes quase mágicos da oratória, o poder do discurso que consegue transformar o sentimento e os intentos das personagens, como é o caso da ama de leite de Vis e Ramin (que é a mesma), cujos poderes oratórios mágicos (que acompanha outras magias) ajudam a modificar o comportamento de algumas personagens, ou o caso do discurso de Ramin que, de outra feita, move a própria Ama: (…) “Who knew,/My lord, that you had such a tongue in you? (trad. de Davis, p.90).
Tão importante como o poder do Amor: When love has chosen you, your only plan/Is to accept its rule as best you can (trad. de Davis, p.100), é a consciência da fugacidade da vida: But joy is mixed with grief, as we draw breath/Life leads us all, inexorably, to death (trad. de Davis, p.37). Ou: Life lasts two days, and then, Vis, we depart-/Man’s life is like a roadside inn, and we/Soon leave this lodging for eternity; (trad. de Davis, p.93).
Também importante é a descrença no livre arbítrio que desculpa o comportamento de Vis e de Ramin: De leur mères toux deux n’étaient pas encor nés (…) que déjà le destin avait réglé leur sort et fixé par écrit leurs actes successifs (trad. de Massé p.35)

* estas informações retiram-se da introdução que acompanha a tradução para inglês de Dick Davis, de 2008, Vis and Ramin, e da tradução para francês de Henri Massé de 1959, Traductions de Textes Persans publiées sous le patronage de l’Association Guillaume Budé, Le Roman de Wîs et Râmîn.

** tanto no que respeita à versão de Béroul como a Cligès, de Chrétien de Troyes. A edição francesa a que em cima se alude inclui uma introdução que começa precisamente por lembrar como a após a divulgação de Le Roman de Wîs et Râmîn, no século XIX, se notaram de imediato as semelhanças com Tristan et Iseut. São várias as páginas que se dedicam a estas correspondências.

*** no fim do volume da tradução de Dick Davis oferece-se um apêndice onde se mostram algumas das comparações que se fazem a partir do corpo humano: coral, lábios; cacho de uvas, cabelo ondulado; mel, a doçura dos lábios; uma chave e um cadeado, os órgãos sexuais masculino e feminino; lua cheia ou o sol, rosto; entre muitas outras.

Ramin vive no espaço ocupado pelo Velho.

8 Mar 2016

Viena

Aexposição que se mostra no Museu de Arte de Macau, com pintura e desenho austríacos do século XIX e XX, vem chamar a atenção para uma cidade com características peculiares – Viena. Quase oriental, quase engolida pelo império otomano, cujos avanços teve de recusar várias vezes, capital de um país de um protagonismo envergonhado é, como poucas, o que se pode chamar uma cidade de cultura.
Tem mais de 100 museus, 70 teatros e 4 casas de ópera, um gigantesco orçamento dedicado às artes e uma tradição musical riquíssima a que se associa Mozart, Haydn e Beethoven, mais tarde Mahler, e os compositores da excitante Segunda Escola de Viena. Escuso-me ao elogio da frivolidade famosa do complexo da opereta e da valsa, mas convido o leitor a procurar o gigantesco programa da temporada de 2015/2016 da Wiener Staatsoper para se entender o que é uma verdadeira cidade – de dimensão média – de cultura.
Muitos outros nomes aparecem associados a Viena, como os de Klimt, Max Oppenheimer, Kokoschka, Hundertwasser ou Egon Schiele, assim como Sigmund Freud e Joseph Breuer, Wittgenstein, Kurt Gödel, Karl Krauss, Stefan Zweig ou Hermann Broch. Da música à literatura, da pintura e da arte performativa à matemática, da filosofia à psicanálise, não há campo do saber e das artes em que os seus habitantes se não tenham distinguido.
Mas é do hipnótico livro de Claude Magris, Danúbio, que extraio uma nostalgia erudita, utilíssima para o conhecimento da zona europeia interior que este rio atravessa, uma zona de contacto entre o mundo germânico e eslavo, sítio de impérios ocidentais e orientais e zona de intenso cruzamento de povos de proveniências muito diversas.
O livro de Magris, cujo original em italiano se publicou em 1986, apresenta-se da seguinte forma: uma viagem de 400 páginas ao longo do Rio Danúbio, desde a sua fonte (fonte de incertezas) até à foz no Mar Negro. Pelos sítios onde passa, Magris seduz-nos com histórias sobre figuras que por lá viveram e histórias que por lá se deram. Referir com justo pormenor a enorme diversidade de assuntos de que se trata no livro do erudito italiano seria fastidioso. Baste notar que das suas reflexões se extrai uma sensual e melancólica imagem do interior da Europa e uma exaltação da monotonia que encontramos em alguma literatura alemã (área de especialização de Magris) do século XIX, por exemplo em Fontane. Não é apenas a política, as guerras, os amores, a geografia, a poesia ou os cafés, mas também uma intensa nostalgia.
O Danúbio, por oposição à ligação que o Reno mantém com a figura germânica de Siegfried, símbolo solar da pureza e da virtude, é o símbolo do Reino de Átila, do reino europeu oriental e internacional, germânico, magiar, eslavo, judeu, mas também grego e otomano.
A data da sua primeira edição precede de 3 anos a da queda do muro de Berlim e as transformações que marcaram desde então a Europa de Leste. Se não contém essa actualização, o livro oferece uma útil última visão da vida na Eslováquia, Bulgária, Roménia ou Hungria durante o fim do período de influência Soviética directa.
Magris dedica muitas páginas a Viena, a primeira das quais a propósito do poeta sem casa que gostava de quartos de hotel e de postais – Peter Altenberg, frequentador das mesas do Café Central (o título do quarto dos nove capítulos do livro) que recebiam, por esta altura também a visita de Trostski, nos anos 80 certamente menos afligido pela insensibilidade do turismo de massas que vitima hoje a capital da Áustria, entre muitas outras cidades.
Nestes espaços barrocos o vienense cumpriria o destino de se saber figurante da grande representação que é a vida e lembrar que “as coisas acontecem do modo que acontecem em parte e principalmente por acaso, e que poderiam perfeitamente acontecer de modo diverso” (uma ideia repetida mais à frente a propósito do economista Schumpeter).
Uma das constantes do livro em questão é a visita a moradas famosas. 19 Kundmanngasse é a da casa construída por Paul Engelmann para Wittgenstein. Outro lugar de visita privilegiada são os cemitérios, como aquele em que está enterrado Schoenberg e onde o autor do livro acompanha, durante uma noite, Herr Baumgartner, uma das três pessoas cuja missão é a de abater, no cemitério, faisões, lebres e coelhos que perturbem a sua apresentação ao público.
Não faltam histórias de valor passional, como a que ligou amorosamente Maria Vetsera ao Príncipe Rudolfo da Áustria e que terminou tragicamente em Mayerling em 1889, uma história que continua a causar interesse e teve versões no cinema. Magris debruça-se especialmente sobre o livro que a mãe da infeliz apaixonada escreveu depois da sua morte, pleno de pormenores macabros e de um desejo férreo de manter o pundonor da família.
Uma história passional a que Magris também dedica umas páginas para o fim do capítulo em que se detém em Viena, é a de Elisabeth da Áustria, prima de Ludwig da Baviera, mais conhecida por Sissi ou Sisi (mãe do Príncipe Rudolfo a que se alude em cima). Mulher de Franz Joseph, morreu também violentamente em 1898, assassinada por um anarquista italiano, depois de uma existência ansiosa e avessa à sexualidade e às crueldades e inconveniências das obrigações de corte. Magris fala da sua poesia e da solidão, nostalgia e reacção contra a corte que desta se desprende.
A dada altura, refere-se que o poeta Wolfgang Schmeltzl compara Viena a Babel porque nela se ouve falar hebraico, grego, latim, alemão, francês, turco, espanhol, boémio, esloveno, italiano, húngaro, holandês, sírio, sérvio, polaco e caldeu.
Difícil seria escapar à menção da ameaça otomana. O autor italiano fá-lo a propósito de uma exposição comemorativa do cerco otomano e batalha de 1683, em sua opinião um dos grandes encontros frontais entre o Oeste e o Este, onde figura menção às tropas otomanas e ao seu gosto pelo fausto em geral mas também às tendas opulentas que albergavam as 1500 concubinas do Grão-Vizir, cuja cabeça, perdida em Belgrado mas posteriormente resgatada, permanece no Museu de História de Viena.
As histórias de Magris são muitas delas histórias de guerra, e a propósito da do cerco muçulmano o autor não deixa de chegar à situação dos gastarbeiter turcos e da sua condição na sociedade alemã dos anos 80, considerações que têm hoje, passados quase 30 anos, uma desconfortável actualidade. Fala de escolas em que praticamente só existem alunos turcos e nenhuns alemães e das fricções que esta situação cria. O parágrafo relevante termina assim: “Our future will depend in part on our ability to prevent the priming of this time-bomb of hatred, and the possibility that new Battles of Vienna will transform brothers into foreigners and enemies”.
O desejo turco por Viena é um desejo que incorpora a ideia de um império que una a componente romana e muçulmana, um desejo não de conquista mas de complementaridade, uma discussão que volta a ter pertinência nos dias correntes.
No Café Landtmann, um intelectual vienense intento em iluminar as relações entre o mundo ocidental e os países de leste chama a atenção para uma palestra que Lukács deu na cave do mesmo café por volta de 1952. Exilado em Viena, cidade por que não nutria particular estima, via-a como a cidade de uma Angst contemporânea, um lugar de falhanços.
Os judeus são uma presença constante na história da capital austríaca* e no livro de Magris, seja através da noção de um povo de extrema adaptabilidade a qualquer lugar, um povo da Lei e do Livro que renasce após a destruição; quer na visita que faz à 7 Gentzgasse onde o historiador, crítico e poeta Egon Friedel se suicidou, atirando-se da janela, antes da chegada da Gestapo; na visita que faz ao velho cemitério judaico, na 9 Seegasse; ou na que dedica à 35 Rembrandstrasse, a casa onde Joseph Roth viveu em 1913, e a propósito de quem aproveita para lembrar uma nota dominante que define Viena e a Mitteleuropa, assim como a obra novelística de Roth – a melancolia. Nas suas palavras a propósito da morada deste refere: “a tristeza dos internatos e dos quartéis, a tristeza da simetria, da efemeridade e do desencanto.”
Também manifestações artísticas contemporâneas de Magris o seduziram o suficiente para sobre elas se debruçar, como a actividade vanguardista do Wiener Gruppe a que, no entanto, não parece estender grande simpatia, ou a história de Anna Augustin, uma criadinha de 14 anos torturada durante um ano e morta pela sua patroa, Josefine Luner, cujos retratos se exibem no Museu do Crime.
19 Berggasse. Noto em Magris um fascínio por moradas. Esta é a de uma casa onde Sigmund Freud viveu e manteve consultório. Nela encontramos de novo a melancolia, a melancolia paternal da existência de um homem gentil assim como o seu amor pela ordem e pela simplicidade.
15 Schwarzpanierstrasse, o local onde até 1904 se erguia a casa onde morreu Beethoven, a mesma onde, na noite de 3 para 4 de Outubro de 1903, Weininger se suicidou com um tiro no coração, o mesmo Otto Weininger de que já aqui se falara nestas páginas a propósito de Geschlecht und Charakter (Sex and Character).

* Freud, Otto Weininger, Mahler, Schoenberg, Karl Krauss, Max Oppenheimer, Hundertwasser, Joseph Breuer, Joseph Roth, Stefan Zweig e Hermann Broch são de origem judaica. Wittgenstein tinha também um ramo judaico na família.

23 Fev 2016

A propósito de águas

Após semanas de angustiante espera saíram as listas da Drinks International dos melhores e mais trocados – nos melhores bares – espíritos, cervejas e águas do ano. Uísques, gins, vodkas, águas tónicas e não, até champagnes e cervejas merecem atenção.
Interessam-nos de sobremaneira as águas porque uma leitura das escolhas do ano revela vários nomes que se encontram com facilidade no território. Infelizmente o mesmo não se pode dizer das águas tónicas, uma vez que em supermercados e outras lojas do território se continua a encontrar apenas uma ou duas marcas aborrecidas.
O Relatório Anual oferece dois tipos de consideração por cada bebida: Best Selling Brands e Top Trending Brands, a primeira baseada no número de garrafas vendidas (repito, nos melhores bares de acordo com a D.I.) e a segunda baseada em nomes que estão na moda e que têm sido muito pedidos. Marcas da moda numa altura em que tudo está na moda.
A Fever-Tree é não só a mais vendida das águas tónicas como é a mais encomendada. Está na moda, não há nada a fazer. A Schweppes é a segunda mais vendida e a Fentiman’s a terceira (considerada por alguns como tendo um sabor intenso que interfere demasiado com os espíritos a que se adiciona). As mais in-fashion são a Fever-Tree, a Fentiman’s e a Schweppes. A Q Tonic, menos doce e menos calórica, (é uma questão de gosto) também está muito bem classificada.
Em Macau há Fever-Tree no bar do Ritz-Carlton, pelo menos. Na minha opinião, insisto em afirmar que o Gin Tónico é uma bebida muito simples e que se alcança domesticamente com facilidade. Basta o Gin de que se gosta, uma confecção correcta do gelo feito no dia com uma água pouco mineralizada, água tónica com bom gás, bom limão e uma disposição positiva.
A escolha das águas minerais espelha também (como aliás as escolhas de todas as bebidas) o poder das grandes marcas internacionais, a sua capacidade publicitária e de distribuição, um capitalismo aquífero. A marca mais vendida e mais in-trend é a San Pellegrino.
Nada tenho contra a San Pellegrino e o seu alto teor de sulfatos, uns brutais 549 mg por litro (por exemplo: Badoit 40; San Benedetto 5) ajudam a combater excessos alcoólicos ou gastronómicos, um auxílio de alto preço. Mas é pena que da Itália, onde existem, caso inultrapassável, mais de 600 marcas de água – para além de ser o país que mais a consome – não cheguem aos bares e mesas domésticas muito mais marcas para além desta vencedora, da Acqua Panna (a minha água lisa preferida) e a San Benedetto.
No Japão existem mais de 450 marcas de água mas não há nenhuma que se tenha imposto no mercado, possivelmente porque não é bebida que seja reconhecida no próprio país como importante.*
As mais vendidas nos melhores bares do mundo, segundo a Drinks International são: 1. San Pellegrino, 2. Acqua Panna, 3. Perrier, 4. Evian, 5. Vichy, 6. Fiji, 7. Mountain Valley, 8. Hildon, 9. Antipodes e 10. Strathmore. Destas apenas a 7 e a 10 tenho a certeza de nunca ter visto em Macau.
O mercado é muito flutuante. Há muito que não vejo à venda duas das minhas águas preferidas, ambas alemãs, a Gerolsteiner e a Apollinaris. A Antipodes existia no O.T.T. mas não sei se permanece.

Nota importante: Como já aqui foi dito em artigo exclusivamente dedicado a águas a propósito de livro de Mascha: “no território(…)vivemos abençoados, protegidos, pela presença de um número decente de excelentes águas portuguesas, da das Pedras à Vidago ou à Carvalhelhos”. Águas lisas há muitas.
As águas no topo da moda são: 1. San Pellegrino, 2. Perrier, 3. Acqua Panna, 4. Antipodes, 5. Fiji, 6. Mountain Valley, 7. Topo Chico 8. Vichy 9. Hildon e 10. Evian.

Outras notícias: 1. Dos Champagnes indicados como os mais vendidos e mais requisitados do ano praticamente todos se encontram com facilidade em Macau, marca da eficácia da distribuição e garantia de alegrias vastas. Esta categoria ilustra à perfeição a diferença entre marcas mais vendidas e marcas na moda, up-trending em bares do momento: A mais vendida, a Moët & Chandon, não figura sequer no grupo das 10 mais requisitadas nos bares mais na moda.
Na cerveja a Carlsberg é a terceira mais vendida mas nem aparece na segunda lista. A Peroni é a primeira das duas listas. As escolhas de cerveja espelham a predominância (ainda) das lagers, uma tendência com uma história relativamente curta, modelo perfeito de como 2 ou 3 marcas conseguiram impor a nível mundial uma preferência por um tipo de cerveja muitas vezes desinteressante. Como é que alguém pode beber Carlsberg ou Heineken é um profundo mistério. As japonesas estão bem representadas e aproveite-se para lembrar que não há cervejas japonesas más.
Os 3 Top-trending uísques são japoneses, um exemplo revelador de como uma boa distribuição, alta qualidade e paciência transformam o mercado.
Ketel One, Grey Goose, Absolut, Stolichnaya, Belvedere, Aylesbury Duck, Zubrowka, Beluga e Ciroc são os vodkas que figuram nas 2 listas. Apenas grandes marcas internacionais.
2. A D.I. apresenta igualmente a lista dos melhores cocktails clássicos do ano, o primeiro dos quais é um Old Fashioned, seguido do Negroni, Manhattan, Daiquiri, Dry Martini, etc., até ao número 50, um tiki com rum e cognac.
Os mais atentos terão reparado que se deslocaram a Macau, ao bar do Hotel Mandarin, num fim de tarde, 2 mixordeiros conhecidos do bar Please Don’t Tell de Nova Iorque, figurante da lista dos melhores bares da D.I., já aqui também apreciada. Apresentaram 6 cocktails clássicos que não desiludiram.
3. Abriu recentemente, para lá do bar do Hotel Ritz-Carlton e do bar do Hotel-Residências Ascott, ambos aqui descritos, um bar no Hotel St.Regis, não revisto ainda. As fotografias prometem um bom sítio.

* Michael Mascha, autor do atraente livro sobre águas Fine Waters, já aqui revisto, estima existirem umas três mil marcas de água, 50% das quais italianas, japonesas, alemãs ou francesas.

2 Fev 2016

Marketa Lazarová, Frantisek Vlácil, 1967

Marketa Lazarová é o melhor filme que conheço que mais desconhecido parece das massas. Não encontro muitas pessoas que o tenham visto ou que sequer dele tenham ouvido falar. Não que essa ignorância me perturbe, antes pelo contrário. Se há algo que Markéta nos ensina é a permanecer impassíveis no cimo de um cavalo, bem armados, prontos a dispensar o golpe a quem cometer a imprudência de nos melindrar.
Markéta arrasta-nos – brutalmente, desde o seu início invernoso belo a preto e branco – para a Idade Média. Numa história de contornos nem sempre bem definidos, seguimos os movimentos de vários grupos: um bando cruel, o dos Kozlík; os homens de Lazar, mercador medroso, pai da voluptuosa e virginal Lazarová; o regimento leal ao Rei e um grupo de alemães.
É um daqueles filmes – são poucos os que o conseguem – que nos podem levar a pensar que, afinal, o cinema é uma arte para levar a sério e não apenas um entretenimento mais ou menos artístico para adolescentes ou intelectuais preguiçosos.
A história passa-se no século XIII mas a sua estética é ousada, modernista, mesmo vanguardista – sem chegar nunca ao abstraccionismo. Os planos em câmara subjectiva e alguns zooms são particularmente eficazes. Não há nenhum outro filme de Frantisek Vlácil que mostre a tal ponto esta escolha experimentalista, uma que poderá ter sido promovida pela sua passagem pelo Czechoslovak Army Film Studio, onde se praticava um cinema (não ficcional) com estas características e pela sua ligação às artes plásticas.
O próprio Vlácil confessa que chegou ao cinema um pouco por acaso (enquanto cumpria o serviço militar) e que os seus interesses primeiros se encontravam mais perto das artes plásticas, da arquitectura e da música. E também da literatura. Quem quiser pensar no realizador checo como um poeta que usa o cinema não deixaria de cair nas boas graças do autor.
Certamente que no vivíssimo romance de Vladislav Vancura*, que serve de base ao filme de Vlácil, este encontrou inspiração visual. O próprio nos fala (num pequeno documentário) da sua dificuldade em encontrar textos para os seus filmes quando a sua preocupação é tão fortemente visual e não narrativa.
Não ter frequentado escolas de cinema nem partir para o cinema através de uma apetência por ele permite uma originalidade e uma frescura que outros, poluídos pelo amor que lhe dedicam, não exibem. O amor pode originar a fraqueza.
Se pensarmos que Vancura realizara alguns filmes de metragem longa informados pela estética vanguardista soviética podemos aqui identificar uma herança. O filme de Vlácil estrutura-se em vários quadros que espelham as opções narrativas, nem sempre de leitura fácil, do romance de que partiu. As loucuras são semeadas ao deus-dará é a primeira frase do livro.
Para além destas circunstâncias, o ambiente estético da altura era propício ao experimentalismo. Mesmo que Markéta se não inscreva naturalmente no movimento da nova vaga checoslovaca, esta é uma época de ousadias. Sedmikrásky/Daisies, de Chytilová (já aqui admirado) é de 1966, assim como o enigmático, cómico e perturbador Ostre sledované vlaky/Closely Watched Trains. Do mesmo ano de Markéta é o famoso Hori, ma panenko/The Firemen’s Ball, de Milos Forman e de 1969 é um filme também há pouco tempo cronicado nesta página, Spalovac mrtvol/The Cremator, de Juraj Herz.
Sem querer estar a procurar demasiadas semelhanças entre o livro (de difícil adaptação pela sua arrogância narrativa) e o filme, note-se que a velocidade de um é a velocidade de outro. A vantagem do filme reside também no modo excêntrico como usa o som, por vezes autónomo em relação à imagem – como se nos quisesse assustar.
O bando Kozlík é um bando de bestas, um bando canídeo, vestido de peles e com uma crença profunda no poder da força. A sedução de Markéta Lazarová começa por ser a sedução do golpe mas passa por muitas outras, carnívoras, sexuais, religiosas, católicas e pagãs (as melhores) e paisagísticas. Até tem freiras e o destino primeiro de Markéta, antes da violação e da sua conversão ao amor por Mikolás, filho preferido do bandido, é o convento.
É raro um filme de época atingir este nível de autenticidade. Quem estiver interessado poderá tentar saber em que condições de obsessiva clausura e imersão Vlácil manteve os seus actores. No fim das quase três horas que dura é difícil de afastar esta sensação de imersão total. Andrei Rublev causa um transporte semelhante mas o de Markéta é muito mais físico e muito mais brutal. Pensar em muitos outros filmes passados na mesma altura só pode causar irrisão.
Se a violência do regime autoritário sob que se vivia na Checoslováquia nos anos 60 tem par neste filme não sei. O que interessaria é saber se é possível que a arte produzida sob um regime totalitário (e especialmente uma arte de massas como o cinema) não é sempre uma referência à clausura que aquele impõe. O que é certo é que Vlácil mais não conseguiu reunir o dinheiro e condições de liberdade que lhe permitissem fazer um filme semelhante.
Quando as tropas do Capitão leal ao Rei atacam a fortificação de Kozlík, sob o olhar atento do frade, quem decide os destinos do homem não é Deus mas a guerra, a força bruta. Troça-se de tudo como o Capitão troça do alemão que é suposto proteger e ajudar a recuperar o filho.
“mein sohn, mein sohn”, diz o estúpido do velho quando o vislumbra, branquinho e amaneirado, junto da paliçada dos bandidos sujos e vestidos de peles e armados para matar. – Deves ficar sabendo, velho alemão, que o teu filho, o Conde Kristián, se apaixonou por uma das filhas do bandido, Alexandra coberta de sujidade, cabelos emaranhados e sacerdotiza de amores pagãos, assim como Markéta, filha de Lazar, e assim Lazarová, não resistiu aos encantos de Mikolás Kozlík. Um filme de bandidos, é o que é.
E o último filme de Alexei German? Trudno byt’ bogom/Hard to be a God, 2013, baseado num romance dos irmãos Strugatsky.

* Markéta Lazarová existe em tradução portuguesa, feita directamente do checo por Anna e José de Almeida, editora Quidnovi.

19 Jan 2016

Hotel

Passava mais tempo do que o necessário dentro de quartos de hotel, aproveitando até ao limite as promessas que ia buscar às suas necessidades e aos seus medos mas principalmente às suas leituras. Ao contrário do que outros faziam (tinha ouvido várias histórias ao longo dos últimos anos), nunca ficava no mesmo quarto mesmo quando repetia um hotel.
Ser hóspede de hotel é um pouco como ser actor. É fácil de perceber porquê, não vale a pena estar a tentar explicar. Preparar a água para o banho, mudar o canal de televisão, fazer chá ou deixar a roupa espalhada pelo chão do quarto de uma maneira ritual e diversa da que se pratica normalmente.
Talvez uma das seduções do hotel seja a de se fazer o mesmo que se faz todos os dias em casa mas de modo diferente e com muito mais liberdade. Por essa razão é que um quarto de hotel é o melhor lugar para se ler poesia, sem distracções, como um equivalente adulto de uma cabana numa árvore ou o lugar escondido por baixo das escadas junto das vassouras.
Ser hóspede de hotel pode ter uma vantagem inocente, a de nos sentirmos praticantes de uma pequena fraude sem consequências. E porque é aí que se fazem ou podem fazer muitas coisas, como os escritores podem ser, como diz Cláudio Maggris em Danúbio, uma falsificação de si próprios, projectando o pronome “eu” noutra pessoa (Capítulo 2, O Danúbio Universal do Engenheiro Neweklowsky, 14. De Lauingen a Dillingen).
-Este é também, e fora provavelmente para ele, o lugar do adultério, uma das ficções que nos foram obrigando a viver.
-Uma outra ficção que o uso de um hotel faz disparar são histórias de pessoas que aparecem mortas em quartos de hotel, o que tem um mistério inventado porque lá é muito fácil inventar mistérios. É aí que o quarto se transforma numa cripta. Para matar alguém é melhor fazê-lo num quarto de hotel ou de uma pensão do que numa casa particular.
-Sonhara que alguém o fora procurar ao quarto quando já lá não estava.
-Usa-se também como sítio para praticar o desenraizamento, que pode ser consequência de um acontecimento sério ou um desejo turístico de olhar pela janela e sentir as luzes em baixo, indistintas.
Para a prática turística do desenraizamento pode ler-se um livro de Herta Müller. Reisende auf einem Bein/Travelling on One Leg seria uma boa escolha já que Irene, recém emigrada de um país que nunca é nomeado mas que os leitores de Müller sabem qual é, sente e mostra constantemente uma desadequação no país que a acolhera. Der Mensch ist ein großer Fasan auf der Welt/The Passport, também pode ser útil porque fala de uma partida adiada mas finalmente conseguida.
Claro que um hotel tem muito que ver com uma viagem ou o desejo de uma. É impossível não pensar no jovem Dedalus de Joyce. There was a book in the library about Holland. There were lovely foreign names in it and pictures of strange looking cities and ships. It made you feel so happy.
Imagine-se ser condutor de um táxi e começar o dia sem saber onde se vai. Começar por ir ao norte da cidade. Depois a uma estação ferroviária antiga com torreões finos, num sítio difícil de parar e largar o cliente. Para onde irá ele? Uma passagem por um hospital velho a precisar de reparações. Ao pequeno almoço não imaginaria nada disto. Durante o dia não há passageiros para espectáculos, vestidos a rigor para a ópera ou o teatro. Compton Street, St. Peter’s and St.Paul’s Primary School, please, de manhã. 77, De Gusto, Charlottenstraße, bitte, à hora de almoço ou de jantar.
Uma das grandes vantagens é a da fugacidade da visita não permitir que se acumulem emoções que poderiam mais tarde dar origens a nostalgias sólidas. O hábito é um vício difícil de deixar e assim permite-se a criação de uma desordem, mesmo que esta obedeça a uma ordem de uma memória ou de uma moda.
Começava agora a sentir um fascínio por aquelas pessoas que nunca viajaram, que viveram toda a vida num mesmo país ou numa mesma região, algo que lhe seria impossível reproduzir. Começava a sentir um fascínio por quem, durante décadas, encontrara sempre o mesmo cheiro ao preparar-se para dormir e poderia continuar na perfeição a cumprir todas as suas tarefas domésticas se por qualquer razão perdesse a visão.
Bruce Chatwin tem um livro assim. Todos os outros são passados num lugar diferente e são uma viagem, mesmo que não sejam livros de viagens. Mas On The Black Hill é sobre dois irmãos gémeos que passam toda a sua vida em Gales, of all places, que também é o sítio onde cresce Austerlitz, o herói do livro de Sebald com o mesmo nome. Se por coincidência se lerem os dois livros, o País de Gales nunca será a mesma coisa para nós e é por isso que um hotel é um pouco como uma língua estrangeira que se desconhece totalmente ou se percebe mal, cheia das vantagens cautelosas dos malentendidos e das relações fugazes.

12 Jan 2016

A beleza das cidades. Happy City.

Por alturas da publicação nestas páginas de um artigo que chamava a atenção para as insuficiências que impedem um usufruto mais confortável da cidade, numa edição de fim de semana de um jornal inglês de longa história, subtil influência e cor salmão, saía um artigo sobre a beleza das cidades.
Esta prende-se muito com a sua personalidade e o seu rosto próprio. Há cidades que têm monumentos históricos, como Praga, Dresden ou Londres. Outras, em grande número porque foi difícil recusar este apelo que não é meramente económico, situam-se junto a rios ou mares, como Lisboa, Istambul ou Sidney e tornou-se lendário a elas chegar por via poética.
Umas, como Tóquio, Hong Kong, Berlim ou Nova Iorque, além da água, tremem pela sua frenética vida financeira, artística, económica e cultural.
Ao primeiro critério, que é de imitação impossível e de subtração insensata, só acedem as cidades que tiveram a sorte de manter a sua monumentalia. É o que acontece com Macau. O segundo, de ordem puramente geográfica, de impossível reprodução. O terceiro constrói-se mas apenas em locais onde se promoveu durante séculos (mesmo que poucos) um espírito empreendedor que encontrou solo para prosperar.
Em Macau causa interesse lembrar que quase todas estas circunstâncias ocorrem, mas de um modo tímido, quase imperceptível e inconsequente. Há rio, ou mar, mas sujo. Manteve-se um conjunto monumentário não só decente como único em toda a Ásia de exemplos chineses, europeus e sincréticos.
Não existindo actividade cultural que a distinga, a cidade montou-se em torno de uma actividade lucrativa mas um pouco absurda – o jogo. Não existem muitas cidades assim, que vivam exclusivamente da fortuna daqueles que resolvem jogá-la. É fácil fazer o exercício que nos permita ver com clareza o absurdo de tudo isto: a região administrativa especial em questão gera receitas altas (mesmo que mais baixas que há 2 anos) porque fica com o dinheiro dos outros. Tornou-se, deste modo, numa cidade arranjada em torno do turista e não do residente.
Esta mecânica sublinha uma vocação que já aqui se identificou nestas páginas, uma tendência absorvente e côncava.
O que seria de esperar é que a esta circunstância côncava que o morcego da entrada do Hotel Lisboa e o desenho da moeda local tão bem exemplificam, fosse acompanhada de uma administração adulta e com visão.
O livro de Charles Montgomery, Happy City, ensina que é inegável que por vezes a transformação se dá impulsionada pela visão de uma pessoa, como se aprecia na história de Enrique Peñalosa, o conhecido ex-presidente de câmara de Bogotá cuja visão serviu de inspiração para várias municipalidades. O que se salienta nas duas Regiões, de Macau e Hong Kong, é a total ausência, há várias décadas, de um governante com a mínima visão.
Estima-se que o visionário presidente de câmara tenha influenciado mais de 100 cidades. Jacarta, Deli, Lagos e Manila introduziram melhoramentos inspirados no seu exemplo.
Pequenos acrescentos podem servir interesses vastos da população, como a limitação do acesso de carros privados a certas zonas da cidade, a criação de vias para bicicletas (centenas de quilómetros no caso de Bogotá), parques, praças para peões, bibliotecas, escolas e um sistema de transportes públicos decente. A motivação básica de Peñalosa centrou-se em combater a ocupação da cidade pelo automóvel privado e permitir que os residentes usufruíssem dela de uma maneira mais limpa.
No princípio do século XX as ruas da cidade pertenciam ainda à comunidade e o automóvel privado não passava de uma anormalidade facilmente contornável. Aos poucos esta situação começou a mudar e o automóvel, por trás do qual se montaram interesses económicos poderosos que ainda persistem, reclamou cada vez mais espaço e mais velocidade à medida que o transporte público, os ciclistas e os peões foram sendo empurrados do espaço público que era a rua. Este movimento tem um nome: Motordom. Ainda vivemos nesse modelo, se bem que as coisas estejam a mudar um pouco em várias cidades da Europa, América e Ásia Extrema.
O Alcaide de Bogotá tornou-se, em pouco tempo, numa cidade conhecida pela falta de segurança e pela poluição, num herói. De acordo com o seu plano, e como nos mostra Montgomery com entusiasmo, a cidade tornara-se mais feliz. “Peñalosa has become one of the central figures in a movement that is changing cities around the world” (pg.2).
Central ao seu projecto foi a ideia de que a cidade deve ser inclusiva, a de que a cidade deve ser para todos – o que se consegue criando espaços públicos de qualidade, não prometendo o impossível à população e criando um entusiasmo pela elevação do status social de hábitos anteriormente associados exclusivamente à pobreza (como o uso da bicicleta ou do transporte público).
Uma cidade onde existam menos diferenças sociais (como Copenhaga) elimina com mais facilidade o stress associado à consciência de que se é ostensivamente mais pobre que os outros – um problema crescente nos Estados Unidos da América, mostra-nos Montgomery, e certamente crescente na Ásia, onde o contraste entre os que têm (e ostentam) e os que não têm (mas vêem outros ter, o que aumenta o nível de desconforto social e stress) é cada vez maior.
Pg.250 – “American cities have actually been getting more segregated by income class for the past three decades”.
Para lá do senso comum provou-se que um contacto directo e persistente com a natureza, sob a forma de jardins, parques ou simples ajardinamentos, tem um efeito benéfico sobre os residentes a nível do seu bem estar mas também a nível do seu comportamento. A privação da natureza leva mais rapidamente ao cansaço, à agressividade e até ao crime e esta deve estar presente não apenas em parques ou jardins, que podem ser de acesso mais difícil, mas o mais possível integradas na malha urbana. Tem de haver proximidade.*
Não se pretende dizer que a distracção e o lazer constituem medida única para o avanço do bem estar mas este deve ser complemento importante de um ambiente em que se propicia o avanço profissional, uma escolha diversa de oportunidades que tragam sentido ao quotidiano e um sistema que tolere e proteja de modo inequívoco escolhas alternativas ou desprotegidas de vida.
Um dos pontos mais interessantes por que Montgomery se estende tem que ver com a importância da confiança por oposição à importância de considerações materiais. O modo como nos relacionamos com os outros habitantes da cidade deve criar uma rede de confiança nas pessoas e instituições que rodeiam o residente, seja a polícia, o governo ou os vizinhos e amigos. O relacionamento com os outros é mais importante que o ganho material. Não poderia faltar o exemplo dinamarquês.
O caso chinês é paradigmático (como se aponta no Capítulo I). Se o acesso a bens de consumo aumentou de um modo nunca visto, o mesmo não se passa a nível da satisfação com a vida, um padrão que se descobre em muitos outros países.
No terceiro capítulo o autor demonstra como um quotidiano ligado a grandes ligações diárias por carro esvaziam a componente social da vida urbana e tendem a criar desconfianças nas pessoas e no sistema.
Outro paradigma de construção recente aparece ligado também a um indivíduo – Lee Myung Bak, o presidente de câmara de Seul que ousou demolir quilómetros de viadutos numa área de imobiliário de alto preço para que o rio Cheonggyecheon reganhasse luminosidade natural. Hoje é uma zona naturalizada com arbustos, relva, zonas de água, pássaros e peixe. Não foi esta a única intervenção significativa do presidente de câmara (2001 a 2006) que veio depois a ser eleito presidente do país.
No que respeita ao valor da convivialidade Happy City sublinha uma constante interessante. A de que as pessoas muito rapidamente se adaptam a inovações assim que descobrem as suas vantagens, muitas das quais tendem a criar modos de pôr as pessoas em contacto em espaços públicos (e mesmo que estas possam encontrar uma resistência inicial, como acontece, por exemplo, com alguns planos de pedonização ou redistribuição de fluxos de tráfego).
Montgomery, para o fim do livro, chama a atenção para um fenómeno que parece vir contra a eficácia do redesenhar das cidades de modo a torná-las mais inclusivas. Quando o centro da cidade e algumas das suas zonas mais degradadas começam a tornar-se mais atraentes os preços sobem e os habitantes dessas zonas podem-se ver obrigados a abandoná-las. Se o autor não insiste muito nisto é porque Happy City é mais um livro sobre design que sobre políticas sociais. Aconteceu em Vancouver, em Bogotá e em Melbourne. Em Hong Kong há exemplos muito recentes. Em Kreuzberg, em Berlim, tentou travar-se esta gentrificação. Mais uma vez, o que se deseja é uma política de inclusão e uma cidade pensada pelos seus habitantes.

* Curiosamente este é um dos termos chave de um livro de Edward Glaser já aqui apreciado, Triumph of the City, onde, no seu elogio à cidade, se encontra copiosamente a referência à proximidade física permitida pela cidade vertical e o efeito que esta tem na sociabilização, no excitar da circulação e na criação de ideias, da inovação e da criatividade. Montgomery mostra-se mais inclinado para um modelo entre a cidade vertical e a cidade horizontal, como se lê no Capítulo 6 – intitulado How to be Closer (“If you search hard enough for places that balance our competing needs for privacy, nature, conviviality and convenience, you hand up with a hybrid, somewhere between the vertical and the horizontal city”. pg.139). Não parece haver diferenças no modo como ambos entendem a cidade vertical como a opção mais verde.

29 Dez 2015

Heart bar e lista

No segundo andar do Ascott, estalagem de abertura recente e causadora de fracos entusiasmos, abre-se um amplo bar de zonas diversas com balcão e espaço para multidões. Chama-se Heart.
Umas grandes portas anunciam um terraço de dimensões consideráveis, com várias zonas de sofás próprios à bebida e ao convívio em ambiente de luzes mornas, lânguidas, predisponentes a indecências.
A sua administração parece deficiente. Não houve uma abertura pública a sério. Ninguém conhece o sítio e os corredores e elevadores que nos levam ao bar parecem ter sido abandonados.
O menu tem pequenos erros e nas suas prateleiras exibem-se muitas bebidas que não constam da ementa que é, no mínimo, para um sítio desta dimensão, ridícula. Apenas contém 2 ou 3 entradas para cada categoria: cervejas (uma checa), vinho tinto ou branco, champagnes, espíritos, cocktails (muito poucos e escolhidos sem imaginação, acho que 3), e um tíbio etc.
Não há melhor sítio ao ar livre que o Heart, nem nenhum outro bar de hotel em Macau consegue receber grupos grandes como este pode vir fazê-lo. Tendo testemunhado a ineficiência do serviço estremeço, divertido, ao pensar no que aconteceria se os serviçais aqui empregados se vissem confrontados com uma invasão de massas sedentas. Aqueles não parecem perceber muito bem o que se passa à sua volta.
Há cerca de três semanas, a propósito da competição da Drinks International que elege o melhor bar do mundo, notou-se que esta eleição toma como critérios principais a qualidade dos cocktails, a sua constante re-invenção, a hospitalidade ou a oferta generosa de algum tipo particular de bebida, como acontece com o uísque no Macallan. Nenhum destes requisitos se atinge no Heart. Não há neste desaproveitado bar bebida nenhuma que se não alcance facilmente em casa, mas não existem, em Macau, sítios que possam receber ao ar livre como este poderia fazê-lo.
Sendo assim, a antiga lista de bares de hotel, conseguida nesta página em inícios de 2015, sofre ligeira alteração. Perde duas entradas e ganha outras tantas:

1. Whisky bar, Hotel Star World – balcão longo, bebidas generosas, excelente varanda, uma geografia variada, staff simpático, competente e com vários anos de serviço, dos únicos bares de Macau em que há uma clientela habitual e ruidosa – marca que o traz a primeiro lugar. Tem uns snacks muito decentes e boa localização. Há noite enche-se de clientela local. Contras: decoração de uma banalidade exemplar.
2. Ritz-Carlton bar and Lounge, Hotel Ritz-Carlton – Bom nível de bebidas mesmo que não em quantidade. Pequena especialização numa bebida, o gin, dá um rosto próprio. Os mimos que o pessoal de serviço presta demonstram dedicação séria. Design conservador mas com personalidade. Abre às 10 da manhã. Contras: é longe.
3. Macallan, Complexo Galaxy – excelente serviço e hospitalidade, boas bebidas feitas por barmen muito competentes e hospitaleiros, talvez os melhores de Macau. Balcão único, curvo e confortável. Invejável lista de mais de 400 uísques de diversas origens. Pode encomendar-se comida do restaurante italiano contíguo. Contras: temática deslocada em Macau, com lareira.
4. Lan, Hotel Crown Towers – uns janelões muito bem lançados, bom serviço, desenho cuidado, pé direito altíssimo. Por vezes tem pianistas japonesas. Generosa carta de vinhos. Contras: não tem balcão. Para algumas pessoas ou desígnios poderá ser demasiadamente aberto ao lobby do hotel. Encontra-se presentemente junto de intermináveis obras, o que lhe diminuiu consideravelmente o apelo.
5. Convívio Agradável, Hotel Sofitel, Ponte 16 – Excelente serviço e sentido de hospitalidade, bebidas de qualidade. Não é longe do centro e tem 2 mesas com vista triste para a Avenida Almeida Ribeiro. Tem comidas. Contras: coitadinho, é tão feioso que é quase cómico.
6. Bar Azul, Hotel Four Seasons – expressa desejo por um desenho próprio, boas bebidas, próprio para um encontro íntimo, injustamente desconhecido. Contras: muito vazio, ambiente triste, excepto em dias de prova de vinhos que se cumpre, habitualmente, às sextas-feiras.
7. Windsor, Hotel New Emperor – tem um longo balcão e localização imbatível, no centro da cidade. Há noite acolhe uma fauna muito local. Contras: tem 3 anos e parece que tem 13, decoração inspirada no Centro Comercial Imaviz, em Lisboa.
8. Heart, Hotel Ascott – Só figura nesta posição porque tem um terraço de sedução imbatível. Contras: ementa muito fraquinha e serviço deficiente. Não parece ter clientes.
9. Cinnebar, Hotel Wynn – tem espaço exterior, staff competentíssimo e amável, boas bebidas, excelente ginger margarita. Contras: o tipo de freguesia, demasiado aberto ao corredor do hotel que o acolhe.
10. Cristal, Hotel Wynn Encore – desenho próprio, sofás confortáveis, excelente ginger margarita (partilha lista com o Cinnebar). Tem um candelabro do século XIX. Contras: tipo de freguesia, demasiado aberto ao exterior.
11. Vida Rica, Hotel Mandarin – boa qualidade de serviço, fica num dos 2 hotéis de Macau que não é piroso, tem vista e sofás muito confortáveis. Contras: construído em profundidade torna-se desconfortável navegá-lo. É irritante, ninguém sabe porquê.
12. 38 Lounge, Hotel Altira – tem vista e varanda, exibe vontade de mostrar desenho, fica num dos 2 hotéis de Macau que não é piroso. Contras: não tem balcão, tem problemas de iluminação e uma atitude indecisa.
13. Lyon’s, Hotel MGM – pouco que se recomende para lá de ter um balcão enorme e ser relativamente central. Bom para um copo solitário de fim de tarde ao balcão. Contras: quase tudo.

Nota: O Crystal Piano bar, Galaxy – tinha balcão convidativo, vista junto dos seus janelões, staff muito acolhedor e Saketinis amorosos. Já não existe. Penso que o Jaya, no Hotel Sheraton, também já não recebe.

17 Nov 2015

The Ritz-Carlton Bar & Lounge

Aminha impressão da imagem Ritz-Carlton, em geral, não é favorável mas é baseada em escassos exemplos. Não conheço muitos. O de Cantão e o de Kuala Lumpur exploram uma propensão demasiado conservadora para o meu gosto. O de Hong Kong, de desejo amodernado, recolhe mais o meu favor, não total. O seu bar Ozone, sito no 118° andar, para além de oferecer uma vista inédita, demonstra uma dedicação generosa (mas não particularmente ousada) à bebida. O antigo hotel, em Central, era clássico e sóbrio, fininho.
O de Macau não poderia senão adaptar-se ao gosto local. Mas nada disso obsta a que, como já tantas vezes aqui foi dito, no meio das dúvidas que o gosto regente impõe, a oferta não seja de excelente qualidade.
O que me aborrece é que continue a não haver em Macau um único bar de hotel em que haja uma ousadia contemporânea que, acrescente-se, o de Hong Kong também não cumpre com distinção. Não se espere igualmente uma clientela arrojada nas suas ideias, desejos ou aparência, antes o amolecimento habitual. Hier findest du keine Anita Berber. Cumpre-se em pleno a maldição de Auden.
Este bar do Ritz-Carlton tem, no entanto, uma bondosa vantagem sobre muitos outros bares de hotel de Macau (e de repente estou a lembrar-me dos bares dos hotéis Wynn, Wynn Encore, Star World, New Emperor, Four Seasons): abre às 10 da manhã para as bebidas individuais e serve bebidas misturadas a partir das 2 da tarde. Inclino-me, contudo, a concordar parcialmente com uma das suas funcionárias que me confessou que ninguém pede cocktails às 10 da manhã.
O seu desenho, pouco aventureiro como se esperava de um Ritz-Carlton em Macau, contém algumas boas surpresas. Entra-se para um salão de pé direito muito alto e com uma iluminação sóbria situado num 51°andar. As paredes exibem revestimentos em madeira e, por trás do balcão, abre-se, com estrondo, uma grande superfície em vidro cujo efeito diurno ainda não recebi. O balcão, longo, mostra-se muito confortável, oferece um indispensável foot rail e os bancos altos têm um pequeno amparo que previne quedas para trás.
Deixo um elogio à escolha de recusar abusar da sua situação num 51° piso e de se refugiar num recolhimento que a sua banda – felizmente quase imperceptível – nunca ousa ferir.
Este bar é longe para quem parte de Macau. O mesmo acontece com, por exemplo, o Bar Azul, o Lan ou o Macallan. Mas, como acontece com este último, em que a oferta de mais de 400 whiskys e whiskeys promove deslocação própria, o bar do Ritz-Carlton merece também uma viagem particular.
O que ele introduz é uma não muito ousada mas suficiente especialização em gin: 17 marcas diferentes, provenientes da Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e Escócia. Estes podem combinar-se segundo receita do próprio cliente que tem à sua escolha 9 flores, especiarias ou frutas diferentes e 5 marcas diferentes de água tónica.
O resto do cardápio não causa grandes surpresas e é muito parecido como o do bar Ozone, a instalação de Hong Kong da mesma marca hoteleira: poucos champagnes, 11 chás diferentes, 9 cocktails de assinatura, 7 clássicos, uns 5 mocktails, os espíritos habituais, algum vinho, a habitual escolha banal de cervejas e, marca importante de intenções sérias, uma dedicação muito bem cumprida ao gelo.
Recordo que o Ozone, em Kowloon, mostrou de início uma inclinação para o gin, com cerca de 6 entradas diferentes. Desconheço se esta se mantém. Estamos num universo onde não se podem esperar grandes surpresas. Começa a ser evidente que não será em hotéis que aparecerá um bar de características excepcionais no que pertence à excepcionalidade e rotatividade das bebidas e à hodiernidade do seu desenho.
Pode dizer-se que o gin, e especialmente o gin tónico, ganhou uma fama que aborrece, que esta oferta de 17 marcas não causa grandes frissons e que um gin tónico é uma mistura que se alcança com facilidade em casa. É verdade. Mas este conjunto de marcas pode ser utilizado para martinis secos não em lista mas já intensamente desejados, ou em outras misturas.
Como seria de esperar, o nível do serviço e o sentido de hospitalidade é elevado e o bar percorre-se sem percalços com a ajuda pronta e muito profissional do pessoal de serviço (que não me parece conter staff local). Como tal, a pequena especialização gínica, o cuidado no desenho (mesmo que conservador), o serviço, a hospitalidade e a dimensão imperial das suas paredes e dos corredores que levam às casas de banho e aos elevadores e a um outro espaço de lounge a uso, aconselham visita.
Por enquanto parece que este lugar escapou à maldição que percorre a maioria dos bares das albergarias de Macau: a ausência de clientela. Resta ver se permanecerá em roteiro ou se a sua frequência não passa de uma moda.
Na próxima semana, acrescentar-se-á a estas fúteis linhas uma apreciação do bar Heart, sito no Ascott, e uma reformulação da lista de bares de hotel que se apresentara aqui há cerca de um ano. Tendo desaparecido o Crystal Piano bar e o Jaya (penso), continuamos reduzidos a 13 pobres instalações.

(continua)

10 Nov 2015

O melhor bar do mundo

Os 412 membros da Academia votaram. O melhor bar do mundo é o Artesian (1C Portland Place, Regent Street, London, UK.).*
O leitor não deve, desta feita, temer aborrecidas listas de bares, estatísticas e números. A apreciação da competição que levou à escolha do Artesian serve apenas para perceber o que é que anima esta eleição.
No fundo, o mais importante é dito logo no início da longa relação que explica todo este processo: in the end a great bar is one people enjoy visiting. O meu bar preferido em Hong Kong é de uma banalidade atroz mas é um sítio onde me sinto muito bem e em cujo balcão descanso de longas viagens. Ter um bar preferido é uma grande vantagem de vida. Não haver em Macau um que esteja à altura é uma insuficiência tíbia que diz muito sobre as escolhas que no território se praticam.
Os votantes têm origens muito diversas, não apenas em cidades de bebida como Nova Iorque, Londres ou Sidney mas também Hong Kong, Dubai, Cidade do México ou países como o Camboja, o Líbano, a Malásia ou o Quénia.**
Os lugares constantes da lista são de muitos tipos: bares de hotel, bares tiki, bares de hostels – como o intrigante Broken Shaker, em Miami Beach – velhos bares de bairro, speakeasies, ou lounges. Muitos deles são relativamente recentes, o que interessa a um lugar, como Macau, em que tudo o que tem de ver com bares e hotéis é muito recente. Aqui não permanece, como já foi dito muitas vezes, nenhum antigo bar de hotel. Assim, esta lista não sofre de um mal global frequente neste tipo de classificações – a nostalgia.
Os factores mais importantes (e esta é a definição que mais interessa fazer) são fáceis de determinar. Supremo é a qualidade das bebidas misturadas, nuclear numa altura em que a regressada moda do cocktail mostra uma vitalidade que já teve no passado e uma propensão experimentalista que é nova. Muitos dos membros da Academia são bartenders e a maior parte dos elogios recai sobre a qualidade dos cocktails.
Uma parcela muito importante é dedicada à hospitalidade, o que não é a mesma coisa que serviço. É a capacidade de fazer o cliente ocasional ou regular sentir-se bem vindo e acarinhado, algo que, em Macau, se consegue no Whisky bar do Hotel Star World, no Macallan ou no pouco conhecido Rendez-vous, no Sofitel.
O Artesian alcançou a primeira posição, pela quarta ou quinta vez, por aliar a qualidade das misturas a uma generosa hospitalidade e à qualidade que de seguida se indica.
Esta, muito elogiada em bares desta classificação, é o constante apuramento ou reinvenção dos cardápios e a atenção dispensada aos pormenores: o gelo, a música, o serviço, a ambiência. No The Dead Rabbit (bar que preenche o segundo lugar, sito em Nova Iorque), também conhecido pelos seus cocktails, a ementa – que tem 64 entradas – muda todos os anos, um processo que leva cerca de 5 meses a apurar. Serve 3500 cocktails por semana.
A dedicação dá resultados: 9 horas por dia dedicadas à preparação de ingredientes por vezes comprados às 5 da manhã é o que acontece no bar Nightjar, em Londres (3º classificado da lista). Plâncton, tinta de chocos e pólen de abelha fazem parte de algumas das misturas. Não há, em Macau, nenhum bar que possa alcançar o luxo da constante renovação das misturas – nem há clientela que o justifique.
A distinção atinge-se ainda quando um bar exibe uma oferta generosa de uma bebida particular, whisky ou, por exemplo, gin ou rum. Em Macau distingue-se a oferta de mais de 400 whiskys e whiskeys do bar Macallan e pouco mais. O mesmo se passa no The Baxter Inn, sito em Sydney, o primeiro da Australásia e sexto em geral. ***
O The Baxter Inn tem aquilo que no artigo se chama uma alta staff retention rate (taxa de retenção do pessoal), a capacidade para manter o mesmo grupo de trabalhadores durante muito tempo, uma vantagem que encontramos, por exemplo, no Whisky bar do Hotel Star World, em Macau. Mas, ao contrário do que acontece localmente, sinal nuclear de uma verdadeira dedicação à bebida e ao convívio que distingue também Hong Kong, o bar de Sydney enche todos os dias da semana.
No que pertence à geografia que nos é mais próxima, os países ou regiões que figuram na lista são Hong Kong (com o Lobster e o Quinary, respectivamente em 18º e 39º lugar, o segundo dos quais conhecido deste cronista que nele apercebe só uma boa oferta de cocktails. Não apercebe sinais hospitaleiros. Abriu em 2012 e é conhecido pelo empenho na mixologia molecular), Singapura (o 28 Hongkong Street em 7º lugar e o Manhattan Bar em 35º) e Tóquio (High Five, 13º lugar****).
Desilusão: em nenhum destes 50 bares (como acontece em Macau) se nota um desejo de oferecer um desenho arrojado, verdadeiramente contemporâneo. Predomina a madeira. O Manhattan Bar, em Singapura, é o exemplo perfeito deste irritante anacronismo. Data de 2014 mas segue o desenho de um bar nova-iorquino do século XIX, altura em que os frenesins do consumo de cocktail começaram a impor-se. A persistência deste tipo de escolha prova que é isto que os seus patronos desejam e demonstra a tendência da Drinks International – que não parece dar muito peso à intrepidez do desenho. Já se afirmou isso à exaustão a propósito do que se passa em Macau.
Uma possível excepção é o Buck & Breck, em Berlim. O dono, Gonçalo de Sousa Monteiro, tende a valorizar a consistência e a não mudar muito a oferta pelo que esta tendência, muito generalizada, sendo definidora não é obrigatória. O desenho é íntimo mas mostra alguma audácia.

* veja-se a página da internet da Drinks International.
** além de votantes em 24 países europeus. 15% dos votos vêm da Ásia. Mas não há que esconder a verdade: a maior parte dos lugares escolhidos tem uma envolvência anglo-saxónica. Londres e Nova Iorque figuram em destaque. A Austrália, como se sabe, dedica um amor firme aos bares, neste árido continente se encontrando alguns dos bares mais interessantes do mundo, inclusivamente a nível do seu desenho.
*** em Macau existem bares agregados a hotéis que têm menus mais extensos (por exemplo de vinhos de mesa) mas que permanecem desconhecidos dos clientes menos habituais ou menos atentos.
**** o High Five, no entanto, fechou no passado mês de Setembro. A Drinks International informa que o bar, sempre cheio, não era suficiente ao número de bebentes que o procuravam. Abrirá outro, sempre sob a orientação de Hidetsugu Ueno, ligeiramente maior mas continuadamente íntimo.

27 Out 2015

A propósito de alguns filmes africanos II

Estas linhas continuam umas que se dispensaram a semana passada sobre alguns filmes africanos francófonos. Falou-se de alguns filmes de Ousmane Sembene e de alguns filmes africanos dos anos 80 que recolheram, à altura, merecido favor internacional.
Filmes como Yeelen e Yaaba ajudaram a fixar uma imagem rural e tribal do cinema africano. Vários filmes senegaleses dos anos 60 e 70 ajudam-nos a perceber, através das suas sedutoras histórias urbanas, que, felizmente, nem sempre assim é.
Eu gosto particularmente de um filme senegalês de 1973, Touki Bouki, de Djibril Diop Mambéty. Nele encontramos, como em Xala (de Ousmane Sembene) o à-vontade de quem sabe, com impecável segurança, demonstrar uma forte crítica ao modo de funcionamento do país e a situações pessoais através de um tom sarcástico e superficialmente despreocupado.
Apenas um nível elevado de sofisticação satírica permite esta adequação de um tom humorístico e auto-crítico a este tipo de matérias. O distanciamento irónico de Touki Bouki não é muito diferente do que Ousmane usa com habilidade em Xala e Mandabi e afasta-se da imagem tribal e rural que se veio a associar ao cinema africano.
A trama é simples. Um casal tenta reunir dinheiro para poder emigrar para Paris. É impossível não estender a Mory e Anta, os arrogantes heróis desta história, todo o nosso apoio e simpatia. Assim como Xala, este é um filme urbano e gingão, excelente exemplo de como o cinema africano desta altura não merece o paternalismo e a condescendência com que foi tratado quando, nos anos 80, se tornou mais conhecido. Apetece pensar que quem viu este cinema não conhecia o que se passara nos anos 60 e 70.
Mais ousado narrativamente é o curto (56 min.) Badou Boy (bad boy), de 1970, também de Djibril Diop Mambéty. O genérico não engana, estamos perante um objecto do tempo, uma espécie de documentário/ficção nouvelle vague onde o protagonista é um rapaz de rua em fuga de um polícia obeso e bonacheirão. Estamos igualmente longe de uma história lamechas sobre um rapazinho pobre, o tom é agressivo, urbano e cool.
Outra metragem curta de Mambéty é a comovente La Petite Vendeuse de Soleil, de 1999, o seu último filme, pouco mais de 40 minutos de retrato de um cidade confusa e cheia de animação e sol. A mistura das linhas urbanas de cor e de som de La Petite Vendeuse de Soleil, agressiva, serve de lição a algum cinema de boas intenções mas murcho que hoje se pratica.
Sili, a rapariga que protagoniza a história, comove e causa afecto. É parecido, no seu programa, com Badou Boy, e excita no espectador não a pena mas uma admiração firme e combativa. Trata-se assim de uma história que rejeita a imobilização resultante da mera compaixão mas que promove, ao invés, um impulso criativo activo.
Sili é uma pequena pedinte, aleijada, de cerca de 10 anos, que é hostilizada por um grupo de rapazes que vendem jornais. Sili impõe-se dedicando-se corajosamente à mesma actividade que eles. La Petite Vendeuse de Soleil (Soleil é o nome do jornal) causa uma disposição activa e revolucionária.
O realizador maliano Abderrahmane Sissako realizou 2 filmes, respectivamente de 2006 e 2014, Bamako e Timbuktu, que interessam a estas linhas porque são exemplos de dois filmes africanos que alcançaram reconhecimento internacional recentemente. Pode-se dizer-se sem grande erro – continuando um propósito mais bondoso que académico – que ver os filmes dos dois realizadores senegaleses aqui admirados, Ousmane Sembene e Djibril Diop Mambéty, dos dois malianos Abderrahmane Sissako* e Souleymane Cissé e do burquinense Idrissa Ouedraogo, constitui uma introdução fértil ao pouco conhecido cinema africano.**
Bamako é uma engenhosa encenação. Um filme genial na construção que se atinge, de um discurso em que paralelamente se faz desfilar um conjunto de acções e magníficos rostos locais e um tribunal contra o sistema que perpetua no Mali, e em África em geral, a fome, a pobreza e a corrupção. Os culpados são o F.M.I., o Banco Mundial, a Dívida e George Bush, mas também a administração local. É uma queixa exemplar, cujo grito se compõe tanto dos argumentos apresentados em tribunal como de gestos do quotidiano. O engenho consiste na forma como se fundem.
Os medos ocidentais da emigração e do terrorismo e a morte e exploração de inocentes são também temas deste tribunal. Bamako causa uma disposição ousada e excitante.
Timbuktu está muito bem embrulhado, as paisagens são bonitas (na Mauritânea?) e a indignação que se pretende promover cresce sem grandes violências mas com firmeza. No entanto, não mostra uma construção surpreendente, como acontece com Bamako e é, assim, mais esquecível.
Elogie-se a recusa de cair na tentação de estender a apresentação do absurdo a um nível que entre em choque com o tom suave do filme.
Permanece em Timbuktu (penso em Bamako) uma sensibilidade aguda no retrato das emoções e das acções simples do quotidiano, mas confesse-se que, conhecendo Bamako, esperava um filme mais ousado e mais surpreendente e não um que se pode fundir num gosto internacional giro. Estou certo que são muito os defensores deste filme bondoso e de ousadias tonais. Timbuktu causa uma disposição contemplativa e amolecida, longe da combatividade que Bamako promove.

* Abderrahmane Sissako nasceu na Mauritânia e emigrou cedo para o Mali. Vive em França. O filme, Timbuktu, é considerado mauritâneo.

** O autor destas linhas não desconhece o fenómeno Nollywood mas sobre ele não sabe discorrer. A Nigéria é, depois da Índia, o segundo produtor mundial de filmes.

21 Out 2015

Mais listas

Agora é a Suíça. O país mais feliz do mundo. Promessas quebradas. Prometera não me deixar seduzir mais pela tentação de comentar listas de cidades e países, uma moda irritante e inútil que, no entanto, encerra atracções classificatórias indesejadas mas irresistíveis.
Contudo, estas linhas diferem das que aqui se escreveram sobre as listas da Monocle, da Mercer e da EIU, Economist Intelligence Unit, pois utiliza considerações que se tecem, num artigo do FT, em torno de um hábito classificatório percebido como demasiado economicista ou cujos critérios excluem vantagens menos materialistas. O artigo em questão chama-se Why “happy” is boring.
A Monocle não deixa de, em todas as edições da sua lista, chamar a atenção para cidades excluídas (por razões que se prendem com a criminalidade ou o sistema de transportes ou poluição) mas que mantêm atracções suficientes para uma vida largamente agradável. Pense-se em Londres, Istambul, Beirute, Nápoles, Naha ou Buenos Aires.
Quem diz que a Suíça é o país mais feliz é um relatório da O.N.U. (World Happiness Report 2015)*. É um país rico, seguro, bonito, não faz guerra e, acrescenta o articulista, os comboios andam a horas. Países como a Islândia, Noruega, Dinamarca e Canadá andam perto. O Togo não se recomenda.**
Esta não é apenas uma lista anual de uma revista, mas um relatório de 170 páginas que inclui artigos como How Does Subjective Well-being Vary Around the World by Gender and Age, How to Make Policy When Happiness is the Goal (um dos mais interessantes, numa altura em que vários governos, a nível mundial, tentam perceber mais especificamente do que é que as pessoas precisam para lá de bons hospitais e comboios a horas) ou Neuroscience of Happiness (que se prende com a mecânica da satisfação).
Mas John Kay, autor do artigo em questão, mostra-se desde o início incomodado com todas estas escolhas. A lista de cidades da EIU centra-se demasiado em cidades que têm o inglês como primeira língua ou em que o inglês é falado correntemente, como Helsínquia, e a lista da Mercer inclina-se para cidades de língua alemã, como Zurique, Viena ou Dusseldorf.
Dusseldorf ? Deve ter sido aqui que John Kay se sentiu verdadeiramente incomodado, o suficiente para equacionar algumas destas escolhas com uma qualidade que nem todas as pessoas apreciarão – o aborrecimento. Não há maneira de disfarçar o aborrecimento que se desprende de lugares como Toronto, Adelaide ou Zurique.
Se o artigo em questão se desvia da classificação de países para a de cidades é porque na sua base está a ideia de que a uma cidade, ou país, não bastam infra-estruturas e serviços de alta qualidade para a tornar atraente.
Cidades artificiais, como Chandigarh (desenhada por Le Corbusier) ou Brasília (Niemeyer) são bons exemplos de como o gosto de viver não se prefabrica. Foi só a partir dos anos 60 que se começou a perceber de modo sistemático e actuante que a aplicação de modelos demasiado racionalistas (e não testados) e de larga escala ao planeamento urbano não é suficiente para criar qualidade de vida. A importância da intimidade é um fenómeno relativamente recente. Pense-se igualmente em Naypyidaw, um esplendor do vazio.
Na região temos o exemplo de dois lugares que se vêm permanentemente como competidores, Singapura e Hong Kong. Singapura é inegavelmente mais igualitária, mais limpa, mais organizada, mais verde e mais bem equipada a muitos níveis, mas Hong Kong é inegavelmente mais excitante, mais imprevisível e mais atraente a muitos níveis. Na edição de 2010 da lista da Monocle coloca-se na capa a seguinte questão: Where would you rather live: A cosy capital or a chaotic cosmopolis? Ou seja, com algum exagero, Rio de Janeiro ou Camberra?
Não há fórmulas que sirvam a todas as cidades, como não há fórmulas que sirvam a todos os países. Se alguns critérios são desejáveis por todas, segurança, qualidade dos serviços de saúde e de educação, transportes, ar e água, abundância de espaços verdes, oferta artística e gastronómica e um modo de vida tolerante e inclusivo da diferença, exemplos apenas, cada lugar adequará estas necessidades à sua realidade e, sobretudo, deverá promover um ambiente criativo e internacional que experimente soluções próprias a cada caso.
O aborrecimento, contudo, pode ser o resultado de um conjunto de circunstâncias que os habitantes de muitos países ou cidades gostariam de atingir. Como se aponta no artigo do FT, a vida em Myanmar, no Zimbabué ou na Síria não é aborrecida mas os seus habitantes provavelmente gostariam que fosse.
O exemplo de Hong Kong é, de novo, útil. Se a nível de infra-estruturas e serviços esta é uma cidade de primeiro mundo, parte do seu encanto vem daquilo que nesta cidade é caótico e confuso (ao contrário de Singapura). Nela encontramos um pouco de tudo, inclusivamente um grito que por vezes não entendemos, profundamente local e não domesticado.
Tudo isto explica um pouco o enigma de Macau, um lugar onde se vive relativamente bem porque é uma cidade pequenina e tem uma face histórica difícil de reproduzir, mesmo que os sectores dos transportes e tráfego, saúde, educação, cultura, ambiente e espaços verdes, telecomunicações e habitação social sejam um desastre total.

* Está disponível na internet, assim como as duas edições anteriores, de 2012 e 2013, e nele o leitor poderá encontrar, com minúcia, todos os critérios e considerações que informam o relatório.
** O primeiro país da Ásia Extrema é Singapura (24º lugar), Taiwan aparece em 38º lugar e Hong Kong apenas em 72º (is boring better?). Entre os 10 países mais felizes contam-se o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia e 7 países europeus ricos de tamanho médio: Suíça, Islândia, Dinamarca, Noruega, Finlândia, Países Baixos e Suécia (Excitante?).

6 Out 2015

Cervejas II

D[/drocap]e vez em quando tem de se falar de cervejas – sem fazer referência à colorida antiguidade da sua história, que se tornou, pela insistência, uma grande maçada e não mudou. A internet tem a vantagem de nos poupar à repetição do que é fácil de encontrar por todos.
Em Macau, o consumo de cerveja tem vindo a tomar contornos um pouco diferentes e só essa transformação – que é subtil, nada bombástica, note-se – causa estas linhas.
A transformação dá-se na oferta de certos supermercados ou casas mais especializadas. Nos hotéis e nos restaurantes, em geral, não tenho notado, infelizmente, grande vontade em diversificar significativamente a escolha, apenas uma estagnante ignorância e falha de vitalidade, permanecendo teimosamente em lista as aborrecidas marcas de sempre.
O consumo de algumas dessas marcas continua a ser causa de perplexidade. Quem é que consegue ainda pedir uma Carlsberg, uma San Miguel ou uma Heineken nos tempos correntes, lagers praticamente sem sabor e sem qualquer carácter?
Numa passagem coberta, na Taipa, que entronca com o Jardim Cidade das Flores, abriu uma microscópica loja de intenção intrigante que vende roupa de criança e algumas cervejas, frutadas e não. É um conjunto muito diminuto mas que merece comovida visita. Em baixo, mal se vendo, há umas garrafas de Franziskaner.
Na Avenida Sidónio Pais, perto do lugar onde com ela entronca a Avenida Ouvidor Arriaga, existe uma lojinha também perdida na sua vocação, que vende um conjunto de umas 8 cervejas, algumas frutadas, onde se contava, até há pouco tempo, uma excelente St.Peter’s Organic Ale em bonita garrafa.
Por vezes, em alguns supermercados, encontram-se cervejas belgas, japonesas, francesas, alemãs ou australianas que há pouco tempo não existiam em Macau.
Continua a não existir, no entanto, na cidade (que se saiba), um bar especializado em cervejas. O McSorley’s só merece referência porque a oferta é, em geral, muito fraca. Terá uns 18 nomes em cartaz.
Acontecimento de grande alcance para o curto mercado local foi a abertura do estabelecimento Beer Collection, uma diminuta loja situada numa pequena rua, Travessa das Hortas (?), transversal à Estrada da Areia Preta.
Nela se encontra um número considerável de marcas de variadíssimas proveniências em que se nota uma insistência em nomes belgas mas onde se disponibilizam outros de proveniências mais alargadas, como a Espanha, a Itália, a Nova Zelândia, o Japão (até Karuizawa), etc. Número considerável aqui quer dizer umas 40 ou 50. Seria fastidioso estar a fazer listas. Além disso, os nomes em stock variam muito consoante o seu escoamento e encomendas. Há um sítio na internet.
Além das cervejas (e de cidra e ginger beer) está disponível um conjunto decente de vários tipos de copos para tipos diferentes de cerveja. Mais importante é aperceber no semblante dos jovens que animam a loja gosto e entusiasmo pelo que estão a fazer (só abre das 17.00 às 01.00h). No exterior consegue-se um pequeno espaço para experimentar alguns dos produtos em oferta.
Na envergonhada secção que a loja Marks & Spencer dedica a produtos alimentares oferecem-se habitualmente umas 5 ou 6 cervejas engarrafadas a pensar nesta conhecida loja inglesa. Não é uma oferta particularmente aventurosa mas nela costumam estar incluídas algumas porters, ales, pale ales e até uma cerveja de centeio, a Battersea Rye.
Toda esta conversa tende à conclusão de que o melhor lugar para beber cerveja é em casa e à confirmação de que continua a não haver restaurantes ou bares onde a oferta não ultrapasse uma ignorante banalidade. Há, no entanto, alguns pequenos restaurantes (em geral de atmosfera jovem) em que se conseguem algumas cervejas belgas e japonesas – estas menos conhecidas em Macau mas de larga circulação em Hong Kong ou Singapura como a Coedo ou as bonitas Hitachino.*
Em Hong Kong existe, compreensivelmente, um conjunto de bares onde o consumo de cerveja é levado a sério. A moda da craft beer, em guerra contra a ditadura das aborrecidas grandes marcas intercontinentais, tem contribuído para o alastrar desta tendência alegre.
Na cidade vizinha existem, pelo menos, 8 pequenas companhias produtoras de cerveja, fazendo lembrar que a Macau Beer não tem conseguido a expansão e o brilho que merece e tem permanecido numa obscuridade triste e estagnante. O mesmo se pode dizer de Macau, onde, ao contrário de Hong Kong, persiste uma firme reacção rural contra a qualidade de vida urbana.
A mais antiga companhia cervejeira de HK, a Hong Kong Beer Co., foi fundada em 1995 mas as outras sete que conheço são de fundação recente. Este ano abriram três.
Tap. The Ale Project, em Mongkok; The Globe e The Roundhouse, no Soho; The Bottle Shop, (loja) em Sai Kung e The Crafty Cow, em Sheung Wan, são alguns dos nomes de lojas ou bares que se distinguem. Há outros, cujo nome não retenho, espalhados pela cidade – por Kennedy Town, Tai Hang, Causeway Bay, Wanchai, etc.
O marketing que tem andado associado à nova moda das cervejas tem utilizado o argumento do acompanhamento de comida com cervejas – o que banalizou um dos termos mais enervantes da restauração actual, o pairing. No rótulo dos nomes que o Marks & Spencer dispensa (que são concebidos para a loja) inclui-se uma pequena informação sobre o tipo de comida que determinada bebida deve acompanhar.
Assim, no rótulo de uma Yorkshire Gold, para lá da lista de ingredientes, de indicar que é própria para vegetarianos, que não deve ser servida muito fresca, que não deve ser consumida por mulheres grávidas, que os homens não devem consumir mais de 3-4 unidades de álcool diariamente e as mulheres 2-3, e de outras indicações inúteis e indesejadas, indica-se, por fim, que se trata de uma cerveja indicada para acompanhar pratos leves como peixe, marisco, galinha ou salada.
A partir de que altura é que começámos a ser tratados como estúpidos? Uma Organic Scottish com Heather Honey fará bom par com tagine de carneiro, couscous e vegetais mediterrânicos grelhados.**
Todo este enervante nannying, que convoca desejos de consumir 30 unidades por dia, não ingerir qualquer alimento e destruir esquadras de polícia e atacar civis indefesos, não faz esquecer que a diversidade de marcas e tipos de cerveja que se encontra em Macau, não sendo ainda totalmente satisfatória, já serve a singelas experiências e ao acompanhamento de refeições.

* no Japão há cerveja para crianças, sem álcool, algo impossível de publicitar na Europa ou na América. Kodomo no nomimono – bebida para crianças.

** enquanto continua a não ser obrigatória, em qualquer continente de bebida alcoólica, qualquer indicação do valor calórico.

15 Set 2015

The Assassin, Hou Hsiao-hsien

Perdera um pouco o rasto a Hou Hsiao-hsien. Millennium Mambo (2001) pouco mais me parecera que um exercício incerto, perdido numa bruma incerta e sem o pneuma dos filmes de Hou dos anos 90 e, particularmente, dos anos 80. Three Times (2005) pouco fez para descontinuar essa disposição.
Flight of the Red Balloon (2008), que pode ser o melhor filme de sempre, evitei ver a todo o custo: um asiático em França é meio caminho andado para o disparate (sendo a grande excepção Love and Bruises, 2011, de Lou Ye, um realizador responsável por muitos filmes importantes para a formação de um gosto do século XXI – só tenho pena de não gostar de praticamente nenhum).
Não vejo nos filmes de wuxia de Zhang Yimou, Ang Lee, Tsui Hark, Chen Kaige ou John Woo (faço uma pequena excepção, muito pequena, para Dragon/Wu Xia de Peter Chan), filmes que lançaram o género globalmente, motivo para grandes entusiasmos. Tenho dificuldade em ver, para lá de uma vontade pornográfica de agradar a todos, algo de substancial ou de pessoal nestes grandes projectos ruidosos, ansiosos de cumprir os requisitos de uma globalização que funciona porque se atinge com efeitos fáceis.
Por todas estas razões, e umas difíceis de identificar, não esperava nada de The Assassin, nem muito nem pouco, e certamente nenhuma surpresa.
Este parece planeado de forma a contrariar a formulação com que filmes como Hero; Flying Tiger, Hidden Dragon; Red Cliff; The Promise; Seven Swords ou House of Flying Daggers têm vindo lentamente a cristalizar o género do filme de artes marciais.
Se o que The Assassin oferece de novo não é suficiente para criar um brilho ofuscante, é suficiente para ajudar a acreditar na sobrevivência do género para lá de uma formulação destinada a um mercado de massas completamente incaracterístico e anódino que transformou o wuxia num género deslavado e, curiosamente, muito semelhante a algum cinema americano.
Um outro exemplo desta formulação, mais amolecida que arrogante, é The Grandmaster, de Wong kar-Wai, o modelo perfeito de como facilmente a decadência se insinua num autor anteriormente capaz de filmes sedutores e pessoais (e, inclusivamente, de um wuxia intrigante, belo e hipnótico, Ashes of Time, valoroso porque fora do seu tempo, o melhor western noodle ou wuxia spaghetti de sempre – ou o único).
Não é de estranhar que após um filme completamente vazio, como é The Grandmaster (que fora antecedido de um filme patético, My Blueberry Nights, um desastre total) pouco se tenha ouvido falar de Wong kar-Wai. Estas coisas têm um ritmo próprio.
As águas paradas em que Hou Hsiao Hsien caíra com Millennium Mambo e Three Times, e de que se salvou com The Assassin (Flight of the Red Balloon, repito, não vi) são as águas em que Wong kar-Wai ainda parece encontrar-se.
A banda sonora de The Assassin é diferente das dos filmes em cima referidos. A música é quase inexistente e nunca é intrusiva, rejeitando o efeito fácil com que é usada nos outros. O mesmo se passa com as imagens, muito menos agressivas e muito menos manipuladoras. Não há, como é costume nos wuxia recentes, cenas com muitos figurantes, grandes cavalgadas ou barulho. É um filme sem truques de qualquer espécie, quase envergonhado em mostrar e praticamente sem imagens geradas por computador (que são, hoje em dia, ainda ridículas).
Este é o programa do filme, e é a tentativa em permanecer humilde que o distingue. As imagens de interiores não conseguem, no entanto, desviar-se suficientemente da tentação da composição histórica gira. Hou Hsiao-hsien consegue, mesmo assim, distanciar-se do tipo de imagens vazias da maior parte dos filmes de artes marciais de Zhang Yimou, Ang Lee ou de alguns de Chan Kaige. Este filme tem muitas coisas que os outros não têm: humildade e bondade. É fácil de acreditar nele (ao contrário do que acontece com um exercício oco como The Grandmaster) – até na sua suave sensualidade.
The Assassin tem a beleza gentil de um quadro inacabado, não apenas através da singeleza da sua história mas através do tom quase suplicante que demonstra. Espera-se com ansiedade um novo wuxia de Hou Hsiao-hsien um pouco menos envergonhado e com um pouco mais de ousadia – o que não é o mesmo que barulho. É prova de que é possível fazer wuxia sem demasiado ruído, assim como Ashes of Time é prova de que é possível fazer um wuxia contemplativo e quase psicadélico.
O tom intimista resulta também do enquadramento das cenas de interior, que contêm espaços reduzidos (não há grandes salões, salas de audiência ou pavilhões), e uma rejeição por uma sumptuosidade fácil a que os outros não resistiram. Não admira que fora da Ásia Extrema vários espectadores se tenham deixado encantar por este exotismo chinês fino (o que não quer dizer que não se tenham também deixado levar pelo exotismo extremo de outros projectos de objectivos mais claros).
Ao invés, as cenas de exterior são de uma finura crua e céus deliberadamente menos trabalhados que contrariam a minúcia no tratamento dos interiores. É nas cenas de exterior que o filme mais se liberta, mesmo que seja nos interiores que a sua intriga se urde. São estes céus que fazem lembrar, sem nostalgia mas com esperança no futuro, nos céus infinitos e livres dos filmes taiwaneses de King Hu.

8 Set 2015

Internet

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Seria difícil de imaginar, há duas décadas, as vantagens que a internet nos traz hoje em dia como acompanhamento de leitura. Relembro este avanço, comovido, a propósito da leitura de um livro de W.G.Sebald, Austerlitz.

No seu início descreve-se um quadro de Lucas van Valckenborch, um pintor flamengo do século XVI, em que umas figurinhas patinam no gelo em Antuérpia. Em segundos a internet oferece-me o quadro, em tamanho decente e pormenor suficiente. Vejo, entre muitos patinadores, a senhora de amarelo caída no gelo e o senhor de calções vermelhos que a ajuda a levantar-se, burgueses contentes e um grupo entretido em volta de uma fogueira.

Logo de seguida consigo ver fotografias da grandiosa Estação Central de Antuérpia onde se passa o início da história de Sebald e onde nunca estive.

Alguns dirão que os seus livros contêm fotografias porque existe neles uma necessidade imensa de mostrar e eu não poderia estar mais de acordo, mesmo que esteja enganado. Estas fotografias, abundantes, acabam por marcar ainda mais intensamente a profunda solidão que envolve as figuras que Sebald examina nos seus livros de uma maneira que só a fotografia consegue fazer.

Os seus livros são como fotografias porque estas, ao mostrar, com rigor, acabam por nos transmitir a impossibilidade de ver verdadeiramente. Sabemos, ao ver as fotografias que os seus livros exibem e ao ler as suas ideias sobre os mecanismos da memória, que a garantia de permanência e realismo que a fotografia parece oferecer não passa também de uma ilusão.

Por outro lado, as explicações de Sebald são de uma clareza ofuscante, os objectos, edifícios, paisagens e impressões oferecidos com extrema delicadeza, mas também com extrema precisão. Isso acontece, por exemplo, na descrição do cemitério de Piana, na Córsega, no texto Campo Santo que dá o título a um dos seus livros.

Esta mecânica poderia levar-nos a pensar que a escrita é mais eficaz na representação do passado que a imagem fotográfica, ou indicar para a relativa ineficácia de ambas.

Uma das malandrices que Sebald nos oferece é uma que de início passa quase despercebida, e se tal acontece é porque existe uma mestria difícil de igualar: a quase total inexistência, em alguns textos, de parágrafos. O texto Campo Santo, por exemplo, não tem nenhum e em Austerlitz há longas passagens construídas da mesma maneira.

Austerlitz, a figura protagonista do livro com o mesmo nome, é-nos mostrada pelo autor muito detalhadamente, com uma bondade que não consegue disfarçar a admiração que aquele lhe causa. No entanto, quanto mais nos é mostrado mais nos convencemos da inutilidade da demonstração.

Milan Kundera (em The Art of the Novel) fala da ilusão do presente: “There would seem to be nothing more obvious, more tangible and palpable than the present moment. And yet it eludes us completely. All the sadness of life lies in that fact. In the course of a single second, our senses of sight, of hearing, of smell, register (knowingly or not) a swarm of events and a parade of sensations and ideas passes through our head. Each instant represents a little universe, irrevocably forgotten in the next instant.” *

Em The Emigrants Sebald conta-nos a história de quatro homens cujos destinos sofreram vários tipos de desajustes devido aos acontecimentos da Segunda Grande Guerra e à perseguição que vitimou os judeus durante os anos 30 e 40.

Termina com a descrição crua de umas fotografias tiradas no gueto de Litzmannstadt, estabelecido em Lodz em 1940. A última é a fotografia de três mulheres de cerca de vinte anos, entretidas no trabalho de fazer carpetes. “interrogo-me sobre como se chamariam estas mulheres – Roza, Luisa e Lea, ou Nona, Decuma and Morta”. E depois o silêncio.

Foi também Sebald que me fez voltar a Bruce Chatwin, outro autor que se mostra obsessivo em mostrar. Regressei ao autor inglês através de uma referência directa não a si próprio mas ao seu biógrafo, Nicholas Shakespeare. Lembre-se que Chatwin tem cinco livros de ficção, todos passados em lugares muito diversos: Patagónia, País de Gales, Austrália, Benin e Checoslováquia. Shakespeare percorreu todos esses lugares em busca do seu Chatwin, e é esta viagem que Sebald elogia.**

No livro What Am I Doing Here, que reúne vários tipos de pequenos textos este espalha-se pela União Soviética, o Benim, os Camarões, Hong Kong, Paris, o Peru ou o Afeganistão.

A sua obsessão pelo nomadismo, que o leva a teorizações não aceites por todos, tem uma semelhança grande em alguns dos textos de Sebald, onde as histórias que neles se revelam implicam quase sempre uma deslocação – muitas vezes forçada.

Em What Am I Doing Here, conta-nos que encontrou em Werner Herzog uma pessoa que partilha com ele a ideia do valor sacramental de caminhar e o seu valor como actividade poética que pode curar os males do mundo e continua contando um episódio ilustrativo desta crença: quando, em 1974, Herzog soube que Lotte Eisner estava a morrer, dispôs-se a percorrer a pé, através de um inverno rigoroso, a distância entre Munique e Paris “confiante de que poderia, de certa forma, curá-la através da sua caminhada”. Quando chegou ao apartamento de Eisner esta recuperara e viveu durante mais dez anos.

O entusiasmo que os livros de Chatwin suscitam é um entusiasmo juvenil e o rosto do próprio Chatwin nunca abandonou esse brilho entre o do adolescente e o de um sério diletante.

O que não conheço em Sebald é a confusão de alguns textos de Chatwin (em Songlines), uma escrita aos tropeções, uma obsessão por compreender algo que claramente nunca conseguiu perceber e muito menos sistematizar. Mas serviu para ir ver na internet o que é um dasyurus geoffroii e pensar na nomadização e nas origens da humanidade.

Outra vantagem da internet (este pequeno passeio começou por aí) prende-se com o acesso imediato a imagens animadas e/ou música. Nunca ouvira falar de Kevin Volans antes de ler o elogio que Chatwin lhe estende num dos textos constantes de What Am I Doing Here. A leitura do texto sobre o compositor sul-africano enriquece-se rapidamente porque a internet disponibiliza várias das peças deste compositor que estudou com Stockhausen e de quem eu nunca ouvira falar.

* retirado do monumental livro de Gardiner, John Eliot, Music in the Castle of Heaven, 2013.
** ver Sebald, W.G., “The Mystery of the Red-Brown Skin”, em Campo Santo.

1 Set 2015

Cinco melhores cidades da Ásia Extrema, Monocle

APublicou-se de novo a lista das 25 cidades com melhor qualidade de vida da revista Monocle. Ao contrário do que sucedeu em anos anteriores, não valerá a pena alargarmo-nos pelas suas minudências, um pouco repetitivas de ano para ano e origem certa de pequenas indignações e médias irritações.
Exponha-se de novo a ideia de que seria cruel comparar administrações urbanas a sério com as tentativas infantis da administração local de fazer algo de útil.
Uma que não consegue fazer um metrozinho de superfície ou um terminal marítimo não merece elevação a termo de comparação.
Mas vale a pena perceber o que é que cinco cidades asiáticas fazem bem para que mereçam inclusão neste grupo de 25. São elas Tóquio (1º lugar geral), Fukuoka (12º), Singapura (13º), Quioto (14º) e Hong Kong (19º, logo após Lisboa e antes de Amesterdão).
Das outras, 15 cidades são na Europa, 2 na Austrália, 1 na Nova Zelândia, 1 no Canadá e 1 nos E.U.A.
Deve também lembrar-se que as cidades distinguidas pela Monocle podem ser, para alguns leitores, cidades demasiado arrumadas e pouco vibrantes (sem a excitação de sítios como o Rio de Janeiro, Istambul, Beirute ou Roma), uma disposição que atinge resultados quase risíveis na classificação da O.C.D.E., que elege Camberra como vencedora.
Esta é uma revista que não esconde favoritismo para com certos lugares, a Escandinávia, a Suíça, o Japão ou Portugal.
Portugal é, para esta publicação, um país giro. Lisboa foi a cidade escolhida, em Abril deste ano, para a realização de uma conferência sobre qualidade de vida, promovida pela Monocle, aquela que foi a primeira de sempre. A capa do número de Julho/Agosto é uma fotografia tirada em Santiago do Cacém e é no Alentejo que foram tiradas as fotografias das páginas de moda deste número. No seu interior encontra-se um artigo sobre o Porto e o seu Presidente da Câmara em que se sublinha a ideia da renovação de edifícios antigos para uso como habitação social e como modo de combater os efeitos mais perniciosos da gentrificação.
No entanto, por muito irritante que seja, a Monocle centra os critérios de classificação das cidades em torno de uma ideia de bem estar onde pormenores como a hora de abertura de lojas, o número de horas de sol ou a tolerância para com estilos de vida diferentes são importantes. Isto acontece em contraste com outras classificações que se centram demasiado em considerações económicas (como a lista da Mercer, de que já aqui se falou, ou a da EIU – Economist Intelligence Unit).
Este ano, para além das considerações em cima referidas, dá-se particular relevância à qualidade da rede de transportes, à limpeza das ruas, aos espaços verdes, à facilidade na abertura de pequenos negócios (uma obsessão monocleana), ao respeito pelo património, ao modo de tratamento dos idosos ou a uma paisagem urbana que permita, através da sua diversidade, que o sol atinja as ruas e banhe a populaça.
Conhecendo as cinco cidades asiáticas que a classificação deste ano distingue, não posso deixar de concordar com a justeza da sua escolha (apenas desejar que Taipé melhore o suficiente para entrar nesta classe).
Numa altura em que mais de metade da população mundial vive em cidades, assiste-se com entusiasmo a um debate centrado na deslocação de poderes dos governos centrais para os governos locais. A libertação da cidade dos governos centrais só pode ajudar à qualidade da governação.

Tóquio – Curiosamente, aquilo que a Monocle distingue é um paradoxo que me surpreendeu quando da primeira visita a esta cidade: o de que à sua gigantesca dimensão se junta a possibilidade de um estilo de vida saudável e tranquilo. Com muitos jardins e parques, 225 bibliotecas públicas, 131 museus, 335 ecrãs de cinema, 587 galerias de arte, 1383 livrarias independentes, uma rede de transportes públicos acessível, pontual e limpa e uma oferta de restauração surreal (4617 restaurantes novos no ano passado/Melbourne 18) pode-se ser muito feliz em Tóquio.
Junte-se o facto de ter sido há pouco considerada a cidade mais segura do mundo e uma oferta extraordinária de lojas e bares – para além de uma quantidade gigantesca de lojas com produtos de elevadíssima qualidade e de todos os tipos.*
Tóquio é uma prefeitura metropolitana que inclui 23 special wards. Na prática, aquilo a que chamamos Tóquio é um conjunto de “23 pequenas cidades” – para além do resto que constitui a grande área metropolitana. No interior de muitas dessas wards, que incluem districts famosos como Ginza, Ikebukuro, Harajuku ou Ueno, pode levar-se uma vida quase aldeã, em pequenas ruas com pequenas lojas que se percorrem facilmente de bicicleta. “its heartstopping size and concurrent feeling of peace and quiet” é a frase que a Monocle usa para ilustrar o paradoxo de Tóquio. Recordo que na minha primeira viagem a Tóquio, em Ikebukuru, passados dois ou três dias, já vários lojistas me lançavam saudações amáveis.
Curiosamente, o preço médio da renda mensal de um apartamento com um quarto é de apenas 720 euros (Zurique €2000 e Hong Kong €1700. Fukuoka €470 e Berlim €530).

Fukuoka – A cidade com mais elevado crescimento no Japão é uma cidade afortunada. Há vários anos que o seu governo apostou na modernidade e diversidade da arquitectura – o que lhe confere uma atmosfera experimentalista.
Situada junto ao mar, não muito longe da montanha, com um clima favorável (e uma população amável e descontraída) e sem a arrogância de outras cidades japonesas, esta é uma escolha óbvia. Exibe, no conjunto das 25 cidades, o preço mais baixo para aluguer de um apartamento com 1 quarto (€470). O preço médio de venda de um apartamento com 3 quartos é de €145.200 (ou seja, MOP1.225.000).
Tem 173 livrarias independentes (HK tem 50) e, posso confirmá-lo, uma disposição meridional tranquila e acolhedora.

Singapura – As qualidades mais marcantes de Singapura são por demais conhecidas. Juntem-se-lhe um aeroporto que acolhe mais de 300 voos internacionais (apenas Amesterdão a ultrapassa), uma taxa de 60% de reciclagem dos seus lixos, a melhor das cinco asiáticas (Estocolmo mais de 90%/Paris apenas 15%), 258 galerias de arte e um clima agradável todo o ano.
Sendo a primeira cidade jardim da Ásia, tem sido feito um esforço grande para a tornar atraente a nível da oferta cultural, mesmo que este esforço por vezes tropece em censuras infantis. É, como qualquer outra destas cidades extremo-orientais, muito segura.
Tendo-lhe sido dedicado um artigo inteiro não me estendo sobre o formidável jardim que o governo decidiu criar junto ao mar. Esta mancha imensa marcará o nível de vida dos seus habitantes para sempre.

Quioto – Esta é uma cidade modelar. Com muitos jardins e templos, pode tornar-se um exemplo num debate que tem ultimamente inundado jornais e revistas: o da qualidade de vida em cidades onde o turismo se tornou uma actividade com uma presença demasiado intensa. É o caso de Amesterdão, Macau, Lisboa (a cidade europeia com maior crescimento turístico), Hong Kong, Barcelona ou – o paradigma mais assustador – Veneza**. São cidades onde o excesso de turismo cria uma crescente insatisfação na população residente e onde os seus governos terão de fazer escolhas radicais para que se não comprometa ainda mais o nível de vida dos seus residentes.
Ao contrário (completamente ao contrário porque aqui os residentes, esquecidos e desprezados, são reféns do turismo) do que acontece em Macau, em Quioto tem-se conseguido encontrar um equilíbrio.
Esse equilíbrio traduz-se na plantação de mais árvores e na ordenação do tráfego (em Macau reina a confusão generalizada, um misto de provincianismo e total ignorância baseado na reticência em pedir ajuda exterior).
Ter mais de 200 museus e mais de 280 livrarias independentes é um auxílio comovente na promoção da qualidade de vida.

Hong Kong – Por que é que em Hong Kong há 55 jornais diários? Em Auckland e Portland (a única cidade dos E.U.A. que costuma aparecer nesta lista) só há um. Eu sei que o que me agrada em Hong Kong é a oferta. De restaurantes (no ano passado abriram 1500 restaurantes novos), de bares e de lojas.
E, agora, de arte. Esta é a grande transformação por que passaram, na última década, Singapura e Hong Kong. A Art Basel HK é a maior feira da Ásia. O West Kowloon Cultural District será um ponto de atracção novo para a cidade. Ao contrário do que acontece em Singapura e nas cidades japonesas, a juventude de Hong Kong mostra-se cada vez mais inovadora e contestatária e se esta era uma cidade vibrante por outras razões esta razão da contestação veio dar-lhe um brilho novo. Quem não estiver satisfeito tem à sua disposição 180 voos internacionais, muitos deles intercontinentais.
Várias zonas da ilha de Hong Kong mostram uma vitalidade e criatividade a nível do pequeno comércio – independente do gosto internacional imposto pelas grandes marcas – que a tornam particularmente atraente para a revista Monocle, que reserva muitos dos seus elogios para pequenas empresas de vestuário, design, mobiliário, restauração, etc.
Tai Hang e algumas partes de Wanchai, para além de Kennedy Town, que tem agora estação de metro, são exemplos perfeitos de um estilo de vida urbano que permite também um sossego quase aldeão, um estilo que recebe o favor constante desta revista.
As cidades japonesas são, no entanto, imbatíveis na oferta deste tipo de modelo: cidades grandes e modernas mas extremamente bem equipadas a nível de transportes, espaços verdes, qualidade excelente de todo o tipo de produtos, hospitais, livrarias, bibliotecas, restaurantes, bares, pequeno comércio, vias para bicicletas e limpeza, e onde se mantém, para quem o desejar, um estilo de vida tranquilo.

* uma imagem que marca indelevelmente o turista é a de grupos de crianças de cinco ou seis anos a deslocarem-se sozinhas para a escola através dos meandros aparentemente labirínticos da gigantesca metrópole que é tudo menos ameaçadora.

** pela primeira vez, em Veneza, se pensa num sistema de limitação do número de turistas ou de acesso a certas áreas. Em Barcelona suspendeu-se o licenciamento a novos hotéis, pensões e apartamentos privados. A lista de monumentos e lugares em que o número de turistas se tornou excessivo é longa: Monte Evereste, Machu Picchu, Angkor Wat, as Galápagos, Bali, etc.

21 Jul 2015

Schoenberg e Bartók, por exemplo

Falou-se aqui das óperas que têm sido representadas em Macau ao longo da história do F.I.M.M. Adiantou-se que seria prático à iluminação dos espíritos e ao conforto das almas apresentar outro tipo de repertório.

Para lá do F.I.M.M., integrado no Festival de Artes ou na temporada de espectáculos do C.C.M. poder-se-ia optar por mostrar ao público algumas óperas do século XX ou XXI.

Lembrei-me de Erwartung e de O Castelo do Barba Azul, respectivamente de Schoenberg e Bartók, porque existe um artigo de Edward Said sobre um programa duplo, em Nova Iorque, que incluiu estas duas óperas – arranjo que não é invulgar uma vez que são sensivelmente da mesma época e exprimem um universo semelhante.

São dois úteis modelos pois trata-se de peças com um conjunto mínimo de cantores. Erwartung tem apenas uma cantora e a peça de Bartók apenas dois. Posso acrescentar que são duas das minhas óperas preferidas do século passado.

Intercale-se uma pequena nota. Von heute auf morgen, de Schoenberg, a sua única ópera cómica e a primeira obra a utilizar o sistema de 12 tons, tem cerca de uma hora e pede apenas 4 cantores. Glückliche hand, do mesmo compositor, um drama com música, é uma pequena peça de cerca de vinte minutos dividida em 4 cenas que pede apenas um barítono e um coro de seis homens e seis mulheres.*

(Moisés e Arão, a outra das 4 óperas de Schoenberg, é um caso completamente diferente, uma obra em 3 actos – o último incompleto – com um conjunto “normal” de cantores e um coro que implica uma produção de maior peso).

Tanto Erwartung como O Castelo do Barba Azul são peças subtilmente sedutoras pelo que escondem no seu negrume e na sua melancolia. Na peça de Schoenberg nunca percebemos bem o que se passa e qual a responsabilidade da mulher na morte do homem que esta encontra na floresta. Será que este existe ou é ele apenas uma expressão dos tormentos da mulher?

O enigmático Barba Azul acompanha a sua recente mulher ao longo dos corredores do seu lúgubre castelo que, como a peça de Schoenberg, se situa num lugar indeterminado e dominado pelas trevas. A mulher da obra de Schoenberg não tem nome, é apenas die frau/a mulher.

A esta sedução do desconhecido junta-se uma outra – a da sexualidade. Pelos corredores sinistros do castelo do Barba Azul e pelos recessos nocturnos da floresta de Erwartung demonstra-se uma sexualidade enigmática, por vezes fria, por vezes muito excessiva e expressiva.

O gosto pela e o estudo da psicologia (que tem origens num complexo científico, intelectual e artístico em que a cidade de Viena teve um papel nuclear) tornara-se por esta altura uma moda que se estendera ao cinema, ao bailado, à ópera e a outros campos das artes. O mundo misterioso e sedutor da sexualidade, assim como o estudo dos sonhos e do subconsciente informam intensamente este período.

Qualquer destas duas óperas pode ser vista como a descrição de um sonho (Schoenberg diz que Erwartung é uma espécie de pesadelo) em que a sexualidade tem um papel importante.

Erwartung foi apenas representada em 1924 mas havia sido composta em 1909**, nove anos depois da publicação de Interpretação dos Sonhos, de Freud, e de vários outros estudos do mesmo autor, e três anos depois de um controverso livro do filósofo austríaco Otto Weininger (que se suicidou aos 23 anos) sobre sexualidade chamado Geschlecht und Charakter/Sexo e Carácter.

Elektra, de Strauss, estreada em 1909, ano da conclusão de Erwartung, é uma ópera que tem sido igualmente apreciada através da perspectiva psicanalítica. É a época do triunfo da psicanálise, de Freud e de Breuer.

Existe literatura que oferece uma interpretação de Erwartung que liga o texto desta peça directamente a um caso clínico específico – referente a uma paciente que seria parente da autora do libreto – constante em Studien über Hysterie (1895), de S. Freud e Josef Breuer.

Exprime-se um compreensível fascínio por um mundo que se revelara aos poucos nos finais do século XIX e ao longo dos inícios do século XX. Esta é uma obra que tem uma longa carreira de representações até aos dias de hoje e que ilustra à perfeição a inclinação anti-realista, anti-naturalista, simbolista e expressionista que impregnava o grupo de Schoenberg em particular, enquanto demonstra o clima cultural geral prevalente na Áustria e na Alemanha no início do século XX.

O palco e o canto, a ópera e o drama para música, são veículos modelares para a transmissão da transcendência, do misterioso, da sedução labiríntica do interior do indivíduo e do universo dos sonhos e da sexualidade.

Alerte-se que à solista desta peça de Schoenberg se pede um esforço maior. Uma produção com uma cantora que não esteja à altura pode trazer resultados desagradáveis. No entanto, garantida a qualidade, é difícil não nos deixarmos seduzir pelo tormento expressionista desta mulher solitária que parece (nada nesta peça é claro) tentar encontrar, na escuridão da floresta, respostas para o destino do seu amante e do seu amor.

O Castelo do Barba Azul tem seduções semelhantes, um lugar sinistro e soturno onde se cria a expectativa de um desfecho funesto.

A recém mulher do Barba Azul, Judite, pede ao seu marido que lhe abra as 7 misteriosas portas que se encontram no castelo. Por trás de cada uma delas há objectos, jardins, um lago de lágrimas, etc., cobertos de sangue, testemunhos do passado do Barba Azul, um que Judite parece conhecer e querer obsessivamente confirmar, um passado escuro e enigmático sobre o qual Judite, através do poder do Amor, tenta lançar uma luz redentora. Paralelamente, é a sua obsessão em desvendar que a chama ao inevitável engolimento. O Barba Azul, por sua vez, abandona-se, sem conseguir resistir, ao apelo do destino.

Ao aproximarmo-nos da última porta aumenta a tensão da peça, uma de infinitas possibilidades cénicas.

A música, tonal, é sempre misteriosa e inquietante, de uma cor lúgubre e labiríntica. Exige também um esforço grande para os intérpretes que durante cerca de uma hora não param de cantar – praticamente não há partes unicamente orquestrais.***

A extrema concentração em apenas um pequeno episódio da história do Barba Azul (ao contrário do que acontece com Ariane e o Barba Azul, de Dukas, estreada em 1907) ajuda a manter intacto o desassossego que caracteriza a peça, um pouco como acontece com Erwartung, cuja curtíssima duração cria uma focalização feérica, fortemente obsessiva.

Se estas são duas óperas bastante conhecidas muitas outras se compuseram no século XX e XXI de apresentação desejável. Sem Strauss, Schoenberg, Alban Berg, Debussy, Janacek, Hindemith, Krenek, Britten, Henze, Birtwistle, Stockhausen ou John Adams é impossível compreender a evolução de um género musical que tem vindo a ganhar uma importância cada vez maior. Estimo que o número de óperas compostas no século XX e XXI seja, no mínimo, entre 850 a 900.

* foi notado num dos artigos anteriores que existem, nos séculos XX e XXI, muitas óperas de curta duração.
** um ano de brilhos, em que Schoenberg compôs, no Verão e no início do Outono, além de Erwartung op. 17, as Três Peças para Piano op. 11 e as Três Peças Orquestrais op. 16. Duas das óperas mais interessantes deste período, ousadas e enigmáticas também, Salomé e Elektra, de R. Strauss, respectivamente de 1905 e 1909, são testemunho de como a herança cromática wagneriana sofria constantes re-valiações e de como o retrato de mulheres em situações de extrema perturbação carrega uma extrema sedução.
Hofmannsthal estava a ler Studien über Hysterie (1895), de Freud e Breuer, quando escreveu Elektra (cf. 2005, The Cambridge Companion to Twentieth-Century Opera, Ed. Mervyn Cooke, pág.48), um fio intelectual que chega naturalmente a Erwartung.
*** existe uma versão filmada, de 1963, realizada por Michael Powell, muito datada cenicamente (e por isso interessante) e interpretada por Norman Foster e a bela Ana Raquel Satre.

7 Jul 2015