Diários de próspero

Numa dramaturgia respeitamos o ethos dos personagens mas introduzimos umas buchas.
Não é treta, existem leis comuns. Olha, neste verso de Eluard, «há nos bosques árvores loucas por aves», surpreendemos uma boa parte da mecânica do cinema.
Será a altura de revelar aos amigos de Macau que a mais atrevida representante da literatura feminina luso-macaense viveu vários anos em Lourenço Marques, nos anos 40 e 50, e provocou escândalos
Já conheci almas de puro minério, tipos ruins e ufanos disso. Em África conheci o mal. Simples acaso, tive sorte na Europa e lá se camuflará mais o que aqui será exposto? É irrelevante, lidei aqui com o problema, desde situações de ostracismo a cenas de extrema crueldade que, tanto pessoal como profissionalmente, vivi ou presenciei.
17/03/2016 H oje somos hoje acossados por um novo tipo de ignorância: a dos que só sabem inglês. Mas desta vez dou a mão à palmatória: morreu um dos melhores poetas do século XX, Derek Walcott, de língua inglesa, nascido...
É o quarto telemóvel que me impinge desde que me sentei na esplanada. Não desiste. Já passaram na rua uma trintena de grávidas. Dois vendedores de dvds piratas esperam encostados à acácia que eu me levante para me acossar....
A descoberta dos sete exoplanetas semelhantes à Terra, com possibilidades de ter água, excitou meio mundo. Era uma descoberta que faltava à necessidade de descomprimir a solidão do homem no vasto, álgido, universo que nos rodeia.
Em Maputo existe um hotel, o Taj Mahal, onde os mictórios do bar se localizam exactamente por trás do balcão da recepção. E a porta de tal fétido lugar tem de há muito os gonzos enferrujados pelo que a primeira visão que algum hóspede pode ter, quando faz o registo de entrada ou pede a chave do quarto, será a de uma morcela que urina.
Morreu Tzevan Todorov, o búlgaro exilado em Paris, um humanista com intuições de valor.
Fui crítico de cinema vinte anos. Escrevi doze filmes. Mas nunca deixei de crer na realidade, nunca usei a imagem como escape.
Na primeira vez que aterrei em Maputo, em 1995, encontrei à entrada do Hospital Central um amputado, de ambos os pés, que vendia sapatos só de pé esquerdo.
As janelas roubadas: um esboço para um projecto que alia texto e fotografia, que achei num caderno, e adoraria concretizar com a minha filha Maria Leonardo (é dela a foto desta crónica).
Sete da manhã, vou buscar a minha filha ao aeroporto. Há ano e meio que não nos víamos.
Ibsen, o maior dramaturgo do século XIX, esteve vinte anos fora da Noruega e foi nesse período que se tornou uma estrela do teatro internacional.
Fechou a Barbearia Universal, na 25 de Setembro, em frente ao Banco de Moçambique. Desloquei-me para me sentar na sua cadeira junto à vitrina, pronto a entregar-me às mãos de fada do artista e embati no espaço devoluto e no papelinho de despedida de um dos gerentes.

Macau

Um vício (já o Henry Miller tem um livro intitulado Leituras na Retrete): nunca me enfio na casa-de-banho sem me munir de um livro sacado ao acaso da estante que, no corredor, lhe fica em frente.
Sempre tive a mola da ambição (ou da competição) avariada. Nunca quis subir num emprego, nunca quis ser chefe, nunca ambicionei liderar nenhum departamento, não me importo nada de perder às cartas (desde que não seja a dinheiro), só ganhei ao xadrez uma vez na vida, etc., etc.
Titula-se, no matutino O País, de Maputo: «Nakume (o Ministro da Defesa) ameaça de demissão comandantes que falharem metas», e lê-se no seguimento:«Ministro da Defesa quer que todos os ramos e unidades militares produzam comida para fazer face à crise que o país atravessa.
Já nem os animais são o que são. Aliás nunca foram o que pareciam: as sereias, por exemplo, pelo menos as originais, as gregas, nunca tiveram rabo de pescada. São mais harpias, com toscos troncos de ave e garras. Nunca consegui contar a verdade às minhas filhas.
Todos temos um talento escondido, que os outros detectam primeiro. O meu era fazer diálogos, diziam os professores na Escola de Cinema. Ao fim do segundo ano recrutaram-me para lhes fazer os diálogos dos seus filhos. Assim me tornei guionista, ofício de que vivi durante anos.
Não imagino se a Des-foto é invenção deles ou a imitação de uma vaga que pela primeira vez vi aflorar em solo moçambicano. A Des-foto organiza uma tensão na imagem: o sujeito aderiu à representação mas suspendendo-a, antepondo à sua imagem algo que a trunca.
A nomeação de Bob Dylan, indubitavelmente um grande artista, como Nobel não me provoca alergia mas não me alegra.