Hackear e Meditar

Quando a mãe olhou para o computador todo desfeito, pegou numa pá para bater no filho de oito anos. O computador tinha sido comprado a muito custo. Uma mãe solteira da classe baixa inglesa não ganhava para aquilo.

Dylan tinha chorado baba e ranho para que a mãe lhe comprasse aquele computador. Vê-lo despedaçado em várias partes foi para ela um grande choque que resultou num enxerto de porrada. Mesmo cheio de nódoas negras, Dylan passou a noite a pé. O computador estava de volta à sua forma original no dia seguinte. A partir daquele dia, a mãe nunca mais lhe bateu. Conheci Dylan já com 35 anos. Comprara uma casa perto de Coimbra e sediara a sua empresa de segurança digital em Portugal. Estava a vir de uma temporada na Suécia que se sucedeu depois uma temporada em Tóquio, mas o lugar que melhor conhecia era a baía de São Francisco. Foi ali que a sua empresa cresceu, no epicentro da fecundidade digital. Quis pôr-me a aprender programação em troca de aulas de português, mas já tenho muito em mãos a aprofundar o conhecimento das programações linguísticas às quais já me dedico. Então, decidiu ensinar-me a meditar.

Se nunca viram o Zuckerberg em retiros espirituais no Hawaii, é porque não andam atentos. De facto, nada como estar profundamente submerso no tecido tecnológico para reconhecer a importância de se ausentar dele. “É preciso manter sempre um sentimento de fundamentação (groundedness)”, dizia-me. Essa necessidade de sentir a materialidade do corpo como um alicerce que se equilibra com o campo da existência mental subjectiva, acabava por ser essencial. Meditar é um processo auto-regulatório da atenção. Executar funções cognitivas complexas corre melhor com menos cortisol no sangue. Não é por acaso que a grande indústria digital está de mão dadas com a neurociência – com nootrópicos a substiuirem os nossos psiquiatrizados receptadores de serotonina cuja fórmula não muda há muitas décadas. Optimização tecnológica é também optimização humana. É apenas natural que as mentes mais curiosas tentem compreender vias alternativas para problemas antigos e essa descoberta possa passar pela medicina preventiva de origem chinesa e indiana que tantas empresas em Silicon Valley estão agora a explorar.

Sobretudo, quando os fundos de investimento cientifico de grandes farmacêuticas ocidentais preferem perpetuar fórmulas ultrapassadas, por exemplo, de antidepressivos (tradozona?). Não é necessário ser-se apelidado de estúpido quando decidimos educar-nos sobre meditações oriundas do yoga, como a meditação transcendental e a meditação budista samatha. A relação entre a meditação e a diminuição de cortisol está comprovada em centenas de estudos fidedignos. Dylan não é um new age de rastas cheio de ametista ao peito. É CEO de uma empresa de segurança digital e hackeava computadores quando era pequeno. Agora, hackeia também a vida. Coloca em causa a nossa arrogância etnocêntrica em relação à supremacia da ciência ocidental e esse questionamento é uma tendência que veio para ficar. Todos devem ter acesso àquilo que a tecnologia de ponta produz em termos de saúde. E essa tecnologia passa tanto por vacinas anti-covid como pode perfeitamente passar pela revisitação dos benefícios da ashwagandha. Só se chega à verdade quando esta é permanentemente questionada. Continuemos a fazê-lo sem pudor e, acima de tudo, sem preconceitos.

9 Abr 2021

Quando eu queria ser um senhor

Quando tinha 15 anos queria intimamente ser um homem de setenta anos. Todas as pessoas que me eram apresentadas como sábias tinham essa característica. Eram sempre homens e, geralmente, idosos. A esta distância consigo ainda recordar o que era acordar todos os dias com vontade de ser um homem idoso. Não estava minimamente conectada à minha feminidade. Ser uma jovem mulher era o oposto daquilo que eu queria alcançar. Eu queria ser mais ou menos, o meu professor de sociologia, homem sábio com as suas grandes barbas como um Lao Zi ou um Aristóteles. Eu queria contribuir para o campo da psicologia como Freud, escrever como Eça, ter ideias como Sócrates. Era também uma altura em que não queria pertencer à minha linha cronológica. Nada que fosse contemporâneo me parecia inspirador. Tinha de voltar ao tempo de Salieri e ser um Mozart, voltar ao tempo de Verlaine e ser um rapaz homossexual que despertou algo de inexistente na poesia. Lembro-me de receber como elogio um comentário de um amigo poeta “tu escreves como um homem”. Eu, enquanto mulher, enquanto jovem, não tinha representatividade na ideia que me era passada de pessoa sábia e intelectual. Tive uma professora de português exímia que nos falava de Natália Correia mas foi só num programa de doutoramento que estudei Hanna Arendt. Antes disso, tinha amigos poetas que me chamavam Sylvia Plath ou na versão nacional Florbela Espanca. Ainda assim, todos os jovens aspirantes a poetas eram Rimbauds, podia ser um Rimbaud feminino ou masculino mas eram Rimbauds. Hoje em dia, dou por mim rodeada de um grande número de mulheres intelectuais. Há mais professoras no ensino superior do que professores e há um número impressionante de poetas portuguesas que atraem diversidade. Recentemente fui publicada numa revista grega acompanhada por poetas como Miguel Manso, Nuno Brito, Tiago Patricio, Luis Felicio. Mas também estou acompanhada por Beatriz Hierro Lopez, Andreia Faria, Tatiana Faia, Raquel Nobre Guerra e Filipa Leal. Para aumentar a diversidade e pluralidade poderíamos integrar autoras como Gisela Casimiro, Raquel Lima, Golgona Anghel, Luiza Nilo Nunes ou Lígia Reyes. A lista seria enorme de jovens poetas provenientes de diferentes contextos e o que importa realçar é a inspiração que essas mulheres são, não só para outras mulheres jovens ou menos jovens – porque não nos interessa o panegírico da juventude, tão embutido nesta realidade mercantilista – mas para a sociedade em geral. Um amigo em Pequim perguntava-me, no seu podcast, que conselhos poderia dar como escritora a um jovem homem neste momento. Segundo ele, muitos homens também se sentem desvalorizados em relação à sua representação entre meios essencialmente mais feministas. Falava-me de problemas como o sentimento de “invisibilidade” numa sociedade que prefere uma figura feminino como adorno. “Um homem nunca é motivo de atenção.” ou o facto do homem ser representado frequentemente como “perigoso” neste discurso. “Quando caminho na rua à noite, vejo mulheres que atravessam a rua, só pelo facto de eu ser homem”. Obviamente, não posso deixar de concordar com aquilo que ele reportava. Também nós já nos sentimos invisíveis quando queríamos ser algo que era, geralmente, um homem. Também nós éramos perigosas e por isso não podíamos votar. Nunca é demais exercitarmos a alteridade. Sem dúvida que uma educação para o humanismo e contra o medo deve sempre estar a par de lutas perfeitamente legitimas. Enquanto as mulheres oprimidas têm uma causa que lhes dá propósito, o homem contemporâneo sente um vazio existencial, tão sintomático do privilégio. Como sempre, disse-lhe, “o mais difícil é ser-se moderado(a)”.

19 Mar 2021

E depois de morrer?

E depois de morrer? O que nos dizem os filósofos?

Para Aristóteles a essência precede a existência, tornando simples a compreensão de uma existência imaterial do ego. Essa essência imaterial é descrita como ininterrupta, sem princípio nem fim, uma vez que não interage com o corpo perecível. Descartes concorda com Aristoteles na sua alegação de que o único ato realmente verdadeiro e que é produzido pela mente é o pensamento. Já Tomás de Aquino concebe a essência humana como uma forma simples, que não se consegue na adição de matéria e forma, existindo nela, contudo, uma estruturação de ato e potência concretizada pelo corpo. O ser estaria para a essência como o ato para a potência.

A chegada do positivismo lógico e, posteriormente, da neurociência, tornam a especulação sobre estes termos um terreno enlameado para a reflexão científica, considerando a experiência espiritual primordialmente ilusória.

Se quisermos espreitar o que os contemporâneos têm escrito sobre o assunto, vale a pena passar os olhos por John Hick. Hick tenta encontrar uma alternativa que não rotule a linguagem religiosa como ilógica. Hick considera a objeção da neurociência insuficiente. Argumenta que os próprios neurocientistas muitas vezes não têm a perspicácia filosófica necessária para interpretar as suas próprias descobertas científicas e que muitos filósofos estão excessivamente agarrados à racionalização, dando uma mera atenção simbólica às descobertas da neurociência, assumindo uma visão de mundo naturalista à partida. O resultado é que se assume praticamente como facto, que a neurociência provou uma visão da existência como meramente materialista quando na verdade as evidências são ambíguas. Para Hick, os seres humanos não foram concebidos num estado perfeito num ambiente idílico, mas sim num processo contínuo de criação e existência multidimensional em que o ser progride através da experiência da morte e ressurreição atravessando estados de imaturidade nas realidades inferiores, até se aperfeiçoar em dimensões sucessoras e atingir o estatuto de moralidade perfeita.

Tendo em conta a característica da potencialidade ligada à identidade passível de ser recreada noutras dimensões, Hick vai buscar uma noção de ligação corpo-mente ou corpo-espirito que se encontra em vários pontos com a concepção de Tomás de Aquino. É, no entanto, impossível não pensar nessa evolução multidimensional da alma sem pensar no que o legado do budismo no deixou. Também no budismo há uma transfiguração do ser na sua própria evolução que parte dos chamados reinos inferiores até à iluminação. Não existe, contudo, a possibilidade da manutenção do ego. Isto é, o ego cumpre a sua função de existência concebida pelo ato mas a sua abnegação torna-se parte de um desempenho essencial para a evolução da existência não material. É precisamente neste ponto do pensamento sobre a ressurreição que me apercebo de uma particularidade: a ressurreição é “praticável”. A ressurreição não é apenas um ato automático se pensarmos que podemos contribuir ativamente através da cognição e da experiência para um aperfeiçoamento do ser. A vantagem dessa prática é que esse aperfeiçoamento pode ser sentido nesta dimensão, à falta de clareza sobre a existência de outras. Estar presente e desapegar-se do ego porque perecível, é uma prática recorrente em grupos de pessoas das mais diversas áreas – da arte à ciência – que procuram viver com presença e com disciplina emocional, promovendo um maior entendimento do ato de existir e, dessa forma, facilitar a concretização de possibilidades. Esta prática da ressurreição interna torna-se assim mais concreta, um plano de trabalho, uma forma de estar. O trabalho interior vale sempre a pena mesmo que não saibamos que impacto pode ter em possíveis vidas futuras porque, mesmo que não ressuscitemos depois de morrer, podemos sempre encontrar alguém novo em nós todos os dias desta vida.

5 Mar 2021

O metro de Pequim

Entretinha-me a pensar se alguma vez iria deixar aquele local, se seria possível mudar complemente de circunstâncias. As metrópoles têm um poder atroz de nos sugarem para dentro e por dentro, parece impossível sair delas e parece impossível sair de nós próprios quando estamos nelas. As suas rotinas muito bem estabelecidas, o seu dia-a-dia optimizado com transportes públicos, salários, entretenimento, trabalho e lazer, boémia e cultura, soluções para todos os problemas. Uma cidade com vinte milhões de habitantes, altamente funcional. Gostava de caminhar na rua depois das minhas aulas com uma garrafa de baijiu e os phones nos ouvidos. Ouvia todo o tipo de porcaria de death metal a hip-hop caviar. Aquele cliché de querer sentir alguma coisa. Adorava a forma como olhavam para mim, como se olha para um carro a passar. Até pode ser um mazzerati novo – e havia vários por todo o lado – mas o interesse dura alguns segundos, fica-se a pensar naquilo, depois vê-se um monte de coisas completamente diferentes a seguir como scooters em contra-mão, dezenas de bicicletas acumuladas à entrada de um metro, uma senhora a vender batata doce assada. Uma estrangeira com baijiu na mão, a contemplar tudo, presente e simultaneamente alheada com a música nos ouvidos, a caminhar aleatoriamente. Gostava de caminhar sem saber para onde ia, nem norte nem sul, caminhar até não sentir as pernas, até suar debaixo do casaco de ski para as temperaturas inferiores a zero. Pergunto-me como me percepcionavam os transeuntes chineses, mas acredito que pensariam nesta imagem de mim durante dois ou três minutos, fariam um breve julgamento, voltavam aos seus problemas. Sim, a mega metrópole tem soluções para tudo menos para a indiferença abissal que é preciso cultivar para nela se sobreviver. Não se pode ter demasiada pena, não se pode ter demasiada inveja. É necessário um estoicismo de néon em edifícios gigantes prolongados no horizonte, infindáveis à vista. Os edifícios e depois o céu. Arranha-céus que são muralhas, não sei se estas também defendem o país das invasões estrangeiras, parece-me que fazem o oposto: convidam os foragidos a explorar a imensidão de possibilidades que ela apresenta. A reencontrarem-se ou a reconstruirem-se.

Todos os poetas que ali conheci escreviam longos poemas sobre o metro. Como é possível descrever uma mega metrópole sem se romantizar o metro de 618 km, um tráfego de 2180 milhões ao ano? A Jennifer tinha um trabalho poético só com frases em inglês das t- shirts do metro “Kate Moss and Pizza Slices”; “My ex died”; “Never say die, believe in yourslef”; “hang some”, etc. O meu trabalho poético “linhas de metro” tinha sido composto para uma performance com música e utilizava o metro para descrever o grupo de artistas underground que faziam parte do meu ciclo de amigos. Descrevia uma história de sedução. Falava de alguém ambicioso, que não se importava de recorrer a qualquer método para extrair das pessoas aquilo que pretendia, mesmo que isso passasse por seduzi-las e abandoná-las aos seus sentimentos.

Artistas que passavam por ali sem ali pertencerem. Era impossível não falar do metro. Depois de caminhar com o baijiu na mão, se estivesse completamente perdida, não tinha qualquer problema. Pegava no telemóvel e apanhava um didi para casa. Uma das estações de metro que apanhava com frequência tinha uma entrada com duas escadas rolantes nos dois sentidos: subir e descer. Por cima de cada escada havia um painel que indicava um visto verde, significava que era a direcção para descer para o metro e outro que tinha uma cruz vermelha, para não se ir distraidamente pela escada rolante que sobe em vez de descer. Esta estação em específico tinha um dos sinais avariados. Ambos os painéis tinham o símbolo de “proibido”. Um deles não era proibido. Todos os dias me entretinha a tirar fotos às pessoas que iam pelo falso “sentido proibido” a apanhar o painel e as pessoas a seguirem o seu caminho, ignorando os sinais vermelhos ou todos os painéis, vermelhos ou verdes, em geral. Parecia-me uma metáfora perfeita para a vida na China.

Confuso é um país com metade da população daquela cidade todo à beira-mar. Confuso é apanhar um pássaro de metal gigante que nos transporta para o outro lado do mundo, duas ou três vezes por ano. Tudo isso parece fantasia.

A mente prega-nos tantas partidas, que não seria de espantar se toda a memória fosse também outro truque. Percebemos perfeitamente a existência dos aviões que fazem voos intercontinentais, mas não conseguimos perceber o porquê da nossa própria existência. Somos como as oito horas do fuso horário que se perdem entre Pequim e o Porto e que ninguém sabe para onde vão. Por vezes penso que vão para o céu. Por cima das nuvens, há uma realidade onde estas oito horas ainda existem. Há uma parte de mim que acredita que alguém vive naquela dimensão, em meu nome. Fomos programados para ser livres, não deixar que a nossa geografia nos condicione, as nossas relações humanas não nos condicionem, as nossas crenças e valores não nos condicionem. Fomos programados para não ter forma e esse é um privilégio tão grande quanto a responsabilidade de navegar num mundo infinito sem nunca nos perdermos – o que é impossível. O metro vai sempre a abarrotar em hora de ponta mas o silêncio impera. Todas as manhãs somos uma massa homogénea optimizada na selva urbana. Não temos forma. Mas temos todos que chegar a algum lado.

19 Fev 2021

A calma de perder o controlo

Ultimamente, tenho lido os estóicos. Têm feito as vezes de um guia prático de sobrevivência em tempos onde a saúde mental de cada um de nós, apesar de cada vez mais vulnerável, tem que ser auto-tratada (consultas desmarcadas, escassez devido a procura, perigo de ir a hospitais).

Dizem que esta é a mais prática das correntes filosóficas. Efetivamente, o meu recurso a ela neste mapeamento de situações mentais não pode estar completamente errado. Muitos terapeutas reconhecem a contribuição do estoicismo para o desenvolvimento de terapias cognitivo-comportamentais. Muitas meditações aurelianas me faltam ainda para me conseguir auto-proclamar uma seguidora de Zenão de Cítio. Uma visão estóica fundamental do mundo que decidi assimilar prende-se com a aceitação total dos acontecimentos externos como não pertencendo a nenhuma forma do nosso domínio. Não há sobre esses eventos externos culpa ou forma de manter o controlo. É um princípio que se aplica à aleatoriedade dos acontecimentos humanos e naturais, em geral. Uma pandemia tem certamente uma origem investigável cientificamente mas tem também um caráter aleatório na forma como se manifesta e impacta as várias camadas de conjunturas em que cada um de nós se encontra individualmente. Temos de admitir: não somos nada bons a aceitar o que é aleatório. Sobretudo, se o fenómeno for extremamente incómodo. É mais fácil atribuir-lhe significado. Pode ser um significado simbólico ou espiritual. A natureza revoltada que nos veio dar uma lição. Pode ser um apontar de dedos – um “alguém está por detrás disto”.

Apesar da distância temporal a que nos encontramos da filosofia helenística sabemos hoje, mais do que ontem, que o universo provavelmente não é uma matéria estável, mas antes um arbítrio. Quem o diz é a física quântica. Ou seja, o único controlo exequível é aquele que ocorre nos nossos vários eventos internos. Não somos nós a olhar o universo, é o universo observa-se a si mesmo. Indiferentes a estas considerações sobre ego e universo, encontram-se as pessoas que procuram justificar eventos externos à luz de lógicas externas, nada fundadas na realidade mas antes na crença ou especulação. Há variantes de conspirações sobre este vírus para gostos diversificados. Que é transmitido pelas torres celulares do 5G, que foi criado pelo Bill Gates para depois lucrar com as vacinas, que foi criado pelas próprias farmacêuticas produtoras das vacinas. Que as vacinas têm microships do governo chinês ou americano (opção de escolha do vilão) para nos espiar e controlar. Que todos os políticos, jornalistas e profissionais de saúde nos ocultam tudo. Este tipo de necessidade de atribuir explicações ao desconhecido, surgiu antes da nossa realidade se tornar cyber-punk. Também em 1348, os flagelantes decidiram atribuir a peste negra aos pecados da humanidade e por isso formaram longas procissões em grupos de mais de quinhentos indivíduos cada que deambulavam pela Europa. Enquanto se chicoteavam, distribuíam pedaços de pele e sangue pelos caminhos que percorriam e, assim, contribuíam boçalmente para a uma aceleração da propagação da doença. Ou seja, na esperança de liquidar a dívida divina percepcionada, estas pessoas ajudaram a piorar a situação. Digamos que a ignorância e a vontade de agir não são a melhor combinação. O racismo e a xenofobia, tão em ascensão na Europa contemporânea, também não são fenómenos exclusivos de escuras cavernas virtuais. Durante o período da peste negra do século XIV, a comunidade judaica foi acusada de ter infetado poços com a praga de forma propositada. Dizia-se que se viam poucos judeus infetados. Foram perseguidos, torturados e linchados publicamente. Comunidades judaicas inteiras foram massacradas até à extinção em eventos como o que ocorreu em Toulun a 13 de Abril de 1348.

Apesar das inúmeras evidências da existência do absurdo na experiência humana, é difícil aceitar o que acontece como simplesmente aquilo que acontece. Aquilo que nos é externo e não controlável. Há, contudo, algo que podemos controlar. Os nossos eventos interiores. Se a necessidade de uma causa ou de uma atribuição de culpas é necessária para explicar o que não entendemos, há um trabalho interior muito importante a fazer e que pode perfeitamente ser feito em confinamento. Vazio existencial? Falta de causas pelas quais se agregar? Frustração?

Depressão? Medo? Reside no interior de cada um de nós a verdadeira razão pela qual não conseguimos aceitar o que nos foge ao controlo. Como os estóicos, deixemos que as revoluções que decidamos iniciar aconteçam primeiro dentro de nós. Isto para que não sejamos, novamente, flagelantes de pecados inexistentes.

5 Fev 2021

A lamechice de pensar

Quando o treino começa, o líder transmite a obediência regional com as palmas das mãos. Gritos de guerra tornam-se objetos duros pendurados na testa. Os objetos precipitam-se para se tornarem comestíveis. A procura do equilíbrio é a procura do terreno, olhos em forma de guardanapos para limpar o suor, para limpar o esforço físico e polir o ego. Qualquer terreno de visão é comestível quando se trata de alimentar o ego. Quantos hospitais habitam a nossa falta de amor-própio? Os outros têm de morrer e nós temos de sobreviver. Mesmo sabendo que isso é um mero acaso, é-lhes importante fazer disso bandeira. Os homens, duros, homens que se sabem defender, homens-muro onde não entra a lamechice do raciocínio. “É preciso alguém que diga umas verdades” diz um desportista para o outro. “É parar de usar palavras bonitas, é preciso ir-se direto ao assunto”. Homens-muro onde não entra a lamechice do pensamento. “É daqueles gajos que incomoda as mulheres” ou os homens fracos, pessoas com batom vermelho que têm ar de quem lhes deve dinheiro. A ferocidade da falta de propósito, o vazio da rotina, a vontade de outra coisa. Outra coisa qualquer desde que haja contenda. Treinam há anos e nunca estiveram numa guerra. Give me a cause to die for.

“Minorias étnicas é conversa de larilas”. Subitamente o desprezo por qualquer demonstração de inteligência. Homens duros onde não entra a lamechice da emoção. Conversa de mulher, muito articulada, à procura de vítimas nas vítimas, com pena dos pobres. Homens-muro onde não entra a lamechice da empatia. “Era pô-los a todos na garagem e vê-los transformarem-se em arco-iris nus”. “Era pô-los no hospital a salivar com as papilas vermelhas e alimentar só a ponta da língua”. Trabalham e outros não trabalham. Queriam a vida de outros mas os outros só podem ter a vida que têm, porque eles não a têm. Porque eles trabalham. Dignidade importada de existir sem estar presente. Centros de treino geridas por totalitarismo patriarcal. As vítimas não são os refugiados de guerra nenhuma. Precisam de atenção. As vítimas roubam-lhes a atenção. E são vítimas de exploração, arbitrariedades e violências. A fome de violência na crise existencial pousada nos sacos de pancada. As vítimas não são os refugiados de guerra nenhuma mas já que insistem, pode-se fazer uma guerra aqui. Se todos os sítios estiverem em guerra, já ninguém foge da guerra. Assim os impostos a serem usados de forma muito mais justa. Em armamento-esforço. O esforço de existir sem causas mas ser-se digno. Correr como quem tem poder. Um dia ouviram falar de interseccionalidades com as feminilidades e fizeram logo duzentas flexões seguidas. Homens que nunca cumprem regras porque são superiores a elas mas acham que a lei é para ser aplicada e a constituição alterada com todas as limpezas de um germofóbico. Libertam-se na atividade bélica porque o único confinamento necessário é o do horizonte. Todo o ódio acumulado numa falsa causa. Afinal, pensar é lamechas e idolatrar um tirano é transformar-se em tirano.

22 Jan 2021

Sem futuro para 2021

É possível estar-se genuinamente só quando se tem um passado? A infância, como laboratório da existência e o resto, aquele momento em que nos abjugamos porque socialmente estávamos alinhavados para a excursão. Moldados para as várias provações e apetrechados de conhecimento teórico. Seguir etapas, projetar ideias, praticar a constância na promessa de uma subsequente jubilação. Tenho novidades: nunca ninguém está preparado. “Estar preparado” não existe, não é estável. O que caracteriza o futuro, senão a quimera? O momento é unicamente tão sólido como as energias electromagnéticas – todo o corpo com temperatura maior que 276 graus negativos. O momento isolado do resto do tempo. Pode ser o passado ou pode ser o futuro, o momento pode ser o único que conseguimos percecionar porque ainda não encontramos as menores partículas fundamentais do Universo.

Nenhuma memória é igual ao presente daquele momento do passado. O passado não é o que recordamos mas sim o que recreamos. Há vários mecanismos de defesa do ego que nos ajudam a recriar o passado como forma de continuar. Confiemos neles. Aqueles momentos em que não queríamos o momento mas que no futuro se torna desejável porque o recordamos com lentes positivas. Aquilo que deixou mais marcas ou a forma como preferimos manter determinada reminiscência: intocável, limpa. Limpamos a recordação para a tornarmos mais estética.

Fantasiamos com o passado e isso é o futuro. O futuro é sempre uma fantasia. É uma aspiração impossível de concretizar, é aquela dose necessária de esperança que nos faz pensar que o agora não é só o agora, é também o que será. Esse sentido de futuro é quase nobre. Mas não é real. Todas as expectativas se elevam acima de nós só para não termos de enfrentar o que é já efetivo.

Como quem escapa. É errado escapar? Nenhum sentimento de transgressão nos vais libertar nem de nós nem do presente. Contudo, é possível estar-se mais consciente do momento, prestar-se mais atenção. É nesta simples ideia que podemos encontrar conforto.

Em 2020, todos nos sentimos sós. Em 2020, todos nos sentimos isolados a determinada altura. Por vezes, levou-nos perto da loucura. Não estamos sós enquanto existirmos, por muito que o vazio interior se possa parecer a um abismo. Uma ausência que parece tão concreta e sólida como a terra ou a gravidade. Devemos reconhecê-la, prestar-lhe homenagem, perceber que vazio é este que nos ocupa desta forma e nos leva à loucura. Quando chegarmos a alguma conclusão, teremos percepcionado que esse vazio está repleto de nós. Ele não se apodera de nós porque nós somos o universo. Repleto de projeções e expectativas, repleto de desejos em constante mutação que no momento em que surgem se parecem tanto com tarefas por concretizar. Não possuímos propósito porque já o somos. O único material corpóreo, palpável, tocável, físico e visível. Quando esse lugar desabitado passar por nós, falemos para ele.

Porque isso será o nosso próprio recheio atulhado, satisfeito e pleno. Quando nos ocorrer pensar que não temos futuro, respiremos. O sangue corre-nos nas veias, alheio a todas as nossas dúvidas. A respiração continua, a gravidade mantém-nos de pé. Este medo de cair é só porque alguém nos disse que um dia íamos voar. Não temos de o fazer. Pés na terra, olhos no mar. Somos tão expansivos como o oceano, mais onda, menos onda.

8 Jan 2021

Como tem passado?

“O sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão-de passar o amor e a dor, e todas as mais coisas, que não são mais que partes da vida?”
Fernando Pessoa, em Carta a Ophélia Queiroz – 29 Nov. 1920

 

Alguém passa à janela de sombra vazia. Pressinto a sua solidão. Os olhos que lhe cheiram a vento. Vai encarcerar-se mais cedo ou mais tarde, atrás da porta do quarto, no silêncio obrigatório dos divertimentos possíveis. Conheço gente assim. Pessoas trancadas que lêem cappucinos e bebem Cruzeiro Seixas. Gente incansavelmente alta que se estende para lá de si mesma para ver uma onda casual num mar permanente. Passam por elas madrugadas sem olfato. Por entretenimento, travam uma batalha com um peixe-mistério que se infiltrou na frota. Jantam as suas espinhas. Aquele quarto podia ser um poema mas é antes uma equação. Quantos óbitos se confirmam entre os recuperados? Vários webinars depois, o sol não parece menos contagioso do que ontem. Mas elas põe o coração de quarentena, reorganizam armários e lavam as mãos como quem lava os pés, como quem compreende o Inverno melhor do que os outros. E eu na fila de espera. Nós na fila de espera.

Sento-me à máquina de escrever para te falar do meu dia. Este novo dia no novo normal. Esquecer-me de palavras: também eu deixei a minha sombra vazia e abandonei paisagens. A minha paisagem é esta, uma rua perto do mar por onde passam transeuntes ocasionais. Outrora foi uma visão para a metrópole pós-punk que é Pequim, noutra foi uma pequena estrada de passagem em Lisboa, noutra era um campo em Braga. É novamente dezembro. Mês de fecho. Fazem-se as várias contas, as referentes a contabilidade e as referentes a outro tipo de acertos a prestar com alguma entidade ou connosco próprios. Este olhar nostálgico pertence a uma disciplina importante: auto-conhecimento. Eu sei, a palavra tornou-se melosa. Esta época moderna, demasiado pós-positivista para qualquer decurso minimamente hermético. Pouco fã de abstrações.

Não terei pudor em admitir que me dedico, também, ao auto-conhecimento. A todos os níveis. Avalio as minhas crenças e ações, as escolhas tomadas em alturas em que havia escolhas a tomar. Serei parte de uma lonjura imperativa ou estarei a desenhar um único trajeto? Penso, “não é relevante atribuir-lhe significado ou valor”. Começo antes por considerar a importância de me tornar mais íntima comigo mesma. Reconheço que parte da ansiedade exibida como forma de estar nas janelas contemporâneas, deriva da evasão. Os mecanismos que acreditamos serem a cura para ultrapassar, seguir em frente, fazer o que tem de ser feito, são tantas vezes, mera distração. O prolongamento inadiável da distração, que nos parece confortar, resulta antes em desconforto. Afinal, estamos desconfortáveis com a mera ideia de desconforto. Ou seja, mais prisão, menos prisão, não somos exclusivamente o que pensamos que somos. Resta-nos o abandono como exercício. O deixar para trás como mantra de dia-a-dia à hora do café. “Vai-se andando” “como se pode” e quem tem mais experiência disto de estar vivo sabe que tudo passa. Que importa se hoje deixo para trás algumas das percepções mais basilares da minha vida na última década? Alguém passa à janela e depois passa outra pessoa após algum tempo. Tudo passa. A crise, o desalento, o tédio, a indignação, as dores de cabeça, o cansaço, a falta de olfato e a solidão. Tudo passa. Até as pessoas.

3 Dez 2020

Rir para existir

O Arthur começou a rir-se aos três meses. Foi uma das suas primeiras formas de comunicação. Nessa altura, ainda não conseguia coordenar movimentos, não tinha força nas pernas, não percebia que tinha de fechar as mãos para agarrar coisas. Começava há pouco tempo a virar-se para olhar em direção às vozes que o rodeavam. O seu riso precoce derretia o coração dos seus cuidadores. Era quase interpretado como um sinal de gratidão perante o nosso esforço. O riso, perguntava-me, seria uma ferramenta genética de sobrevivência que fazia com que quem cuidava, tivesse mais prazer no processo, tivesse mais paciência?

Um riso é uma forma de despontar ligações, é um sinal de paz. É das ferramentas mais eficazes que possuímos na nossa expressão corporal para criar empatia. Mas o riso é também a compreensão de que, em determinado contexto, algo não bate certo, é absurdo e por isso é engraçado. Para filósofos como Platão, Aristóteles, Hobbes ou Descartes, o riso é essencialmente uma forma de superioridade. Rimo-nos de situações ridículas porque nos sentimos superiores a elas. Rimo-nos de pessoas que consideramos inferiores. Por vezes, rimo-nos até dos nossos líderes políticos ou ícones populares porque o humor é também uma forma de colocar em causa todos os que possuem alguma forma de poder. Freud, por sua vez, dizia que rimos para nos libertarmos do stress. Uma anedota costuma começar com uma situação de tensão que depois se resolve: “O que acontecerá se o Pai Natal morrer?”, “– Ele não estará mais em trenós.” As nossas expectativas fomentam tensão – porque o Pai Natal pode eventualmente morrer – mas logo de seguida percebemos que a situação apresentada não é válida porque, reduzindo-se a uma piada, não há nada a temer. É nesse momento que, segundo Freud, libertamos tensão acumulada. Henri Bergson vai mais longe na sua interpretação da função do riso. Para este, o riso é uma forma de manter a sociedade funcional. Bergson declara que qualquer tipo de mecanização do ser humano é uma forma de ameaça à existência.

Defende a durabilidade de um impulso vital baseado na fluidez das pessoas. Sem o humor, que coloca todas as formas de poder vigente em causa, não teríamos flexibilidade suficiente para questionar as narrativas vigentes. Para além disso, o humor absurdo, baseado em situações imaginárias extremadas, é também essencial para se compreender o que é estar à margem de qualquer contributo para o desenvolvimento social. Estes dois tipos de humor podem corrigir aquilo a que o filósofo chamou de “automatismo fácil dos hábitos adquiridos”, ou seja, seguir um hábito de forma automática, sem o questionar. Conduzir a existência através de tarefas que não requerem o pensamento, é mais característico das máquinas do que das pessoas.

Por exemplo, quando alguém age sempre da mesma forma, ou repete sistematicamente as mesmas frases, é fácil imitar essa pessoa. Quando outra pessoa imita essa, vai procurar o riso na audiência que conhece a pessoa imitada. A pessoa, ao repetir-se, tornou-se mecânica e o instinto humano é o de corrigir esse aspeto mecânico do nosso comportamento. Neste caso, segundo Bergson, através do riso.

Mas será essa a função do riso do meu bebé? Dificilmente ele se conseguirá sentir superior a algo. Muito menos poderá satirizar alguma figura do poder para a colocar em causa. No entanto, a teoria de Bergson pode ser aplicada a um bebé. O bebé consegue já reconhecer situações absurdas como caras estranhas e barulhos esquisitos. Também consegue libertar tensão através do riso quando eu finjo desaparecer atrás de um pano para logo reaparecer – afinal não desapareci, ainda estou ali e, tal como o problema criado pela possibilidade do Pai Natal morrer, a criança também se apercebe que eu não desapareci realmente. Um adulto que se aproxima muito do seu frágil corpo pode constituir uma ameaça – mas não quando ele percebe que ele só está muito próximo para lhe dar beijos na barriga ou fazer-lhe cócegas e, por isso, ele ri – libertando tensão.

Quando ele vê a mãe demasiado séria, durante demasiado tempo, decide sorrir e isso faz-me sorrir também. Com esse sorriso, o bebé está já a demonstrar a sua existência neste mundo irremediavelmente integrada numa comunidade, está a dizer-me “mãe, não estejas tão séria a trabalhar ou a pensar em algo, não caias na repetição desses hábitos mecanizados. Sê humana. Sorri para mim”.

Eu já suspeitava que o Arthur fosse um bebé erudito mas nunca pensei que andasse por aí a citar Bergson ainda sem falar! (Estão a ver o que eu fiz aqui?

19 Nov 2020

Desinfectar o almoço

Em 2020, a hora de almoço é uma oportunidade de reflectir sobre a casa. Olhar para os parentes à mesa. Indispensáveis evidências determinam quem é o mais velho, quem tem problemas pulmonares e assim sucessivamente. A fonte dos números dos mortos em Helvetica, vermelho com sombra. Tecto antigo, com fugas de água. Uma voz séria, língua de guerra, mensagens ajustadas. Olhar dramático perante as palavras monásticas. Conselhos, mas imparciais, todas as notícias são imparciais. Roland Barth e as mitologias esponjosas madrepérola entre o ovo estrelado e o arroz. Poseidon, que ninguém se meta com ele. Demasiado mar afundado atrás da pele. Trago, debaixo do braço, poesia épica e um panteão de deuses, mas não há melhor mitologia do que a da televisão à hora de almoço e, por isso, toda a mesa assiste concentrada, não se fala, como no fado ou em Fátima ou no futebol ao qual já não se pode assistir. Também os jornalistas se dedicam à compreensão da vontade dos deuses com oráculos, com os seus pivôs pitonisas.

Contam-nos fábulas que acabam, invariavelmente, em tragédia. O meu lugar na mesa não tem vista privilegiada para a verdade. Ainda assim, consigo ouvir os mitos que não estão a ser explicitamente assumidos: a formar, distorcer e reduzir a percepção do mundo. Signo, Significado, significante. Denotação, conotação – camadas e camadas de sentidos. Afinal, as histórias que nos são apresentadas são uma completa imparcial realidade, sem mediação. Aquela floresta a arder não existia antes de aparecer no pequeno quadrado. Percorro esta forma desinteressada de informar no olhar dos outros. A veemência da repetição. As cerimónias profissionais. As combinações entre bandeiras e TV. Os educadores, os hospitais, o controlo. O primeiro-ministro identificado pelos órgãos, os soberanos, claro e os da comunicação social. A pedagogia que me ocupa a morada na presença de traumas nacionais mesmo antes do trauma. Nacional, mundial. Se eu acho que a metodologia transforma a história em natureza? Antiessencialista, construtivista para os amigos. Sim, claro. Da semiótica à ideologia são dois pratos de carne. Imitações de brinquedos perigosos na banana com café. “Quando se recorre à semiótica para analisar a metodologia escondida nos media, esta mitologia é uma forma de entrar nas raízes da criação da realidade.” A estrutura da nossa cultura é o que a faz funcionar. Histórias ultra-simplificadas que contamos a nós próprios para manter a sociedade funcional. Navegamos a existência através de dicotomias mas as culturas não são opostas. O apertar de mão e a vénia cumprem exatamente a mesma função social. O cotovelinho e o bater de punho servem perfeitamente e são até mais globais. Somos uma expressão dos mitos e dos rituais da nossa cultura.

Quando a nossa cultura é o covid, não deixamos de ser a expressão de algo que aleatoriamente nasceu a 2 de Março de 2020 nas nossas coordenadas geográficas. Nascimentos espontâneos entre a dúvida e o comboio. Corridas regionais, tubos botânicos, máscaras na mobilia, desinfetar a carne cozinhada com poesia administrativa. Tudo para nos limpar, uma limpeza necessária. Estados de excepção colados aos textos.

Desculpa desiludir-te, não és tu que és uma pessoa muito consciente e responsável. Não são eles, somos nós. O Eu não dá forma ao mundo, o mundo dá forma ao Eu. Pelo sim, pelo não, usem álcool-gel para desinfectar o almoço.

5 Nov 2020

The Laowai fever

David trabalhava num gabinete de arquitetura na Califórnia mas decidiu trocar a terra da liberdade por outro tipo de liberdade mais individual numa terra menos livre. Como quem troca o bom tempo californiano por um frio seco na esperança de, mesmo assim, se vir a sentir mais quente. Após um divórcio doloroso, deixou as duas filhas adolescentes com a mãe por uns tempos e veio estabelecer-se em Pequim.

Costumava aparecer nos workshops bimensais de poesia que eu organizava com o Colectivo Artístico Spittoon. O homem de 43 anos vestia-se de forma sóbria, como quem estava habituado a trabalhar num escritório de arquitectos. Trazia sempre vários poemas para a devida sessão de análise, interpretação e crítica construtiva com o resto da comunidade literária que se juntava no internacional Zarah Café, na zona hip de Gulou. Eu seguia o David nas redes sociais mas não lhe era muito próxima. Os meses foram passando e o David começou a frequentar mais eventos sociais em Pequim, começou a praticar mais desporto – cross-fit, montanhismo, passeios conjuntos de bicicletas. Decidiu, a certa altura, criar a sua própria plataforma comunitária para encontros sociais com as mais variadas atividades entre os locais e os expatriados, estando ele no centro de toda a ação (e atenção). Faço scroll pelos momentos do Wechat. Vejo uma foto em que David tem o cabelo rapado dos lados e uma poupa punk pintada de verde. Veste apenas umas calças de desporto e um colete de pele. Faz o sinal V com os dedos e uma boquinha de peixe. Num dos vídeos está a rebolar por um monte e ouvem-se diversas vozes femininas com um inglês muito chinês a lembrarem-no do quão maluco e engraçado ele é. Riem-se, essencialmente. Filmam-no enquanto parece cair deliberadamente.

Noutro vídeo, David está a atravessar uma passadeira na zona de Gulou, movendo-se com as mãos enquanto eleva as pernas. David não é verdadeiramente o nome da pessoa que efetivamente conheci mas é definitivamente alguém real. David sofre de um dos fenómenos menos estudados na história da sociologia, tão pouco estudados que me permitem patentear o conceito altamente inovador na área. David sofre de “Laowai fever”.

Tal como o David, milhares de brancos ocidentais apanham esta patologia ao fim de alguns meses de China. Podem ser pessoas que se costumavam vestir na Zara mas que agora só compram roupa em lojas de moda coreana. Mulheres que subitamente só querem vestidos com folhos e canetas que cor-de-rosa iguais às que usavam na escola primária. Homens que não podem dispensar o fato de treino da Supreme e os óculos de massa grossa. Podem mesmo ser pessoas que, tal como muitos jovens chineses, decidem que preferiam ser coreanos, de uma maneira geral. Há muitas possibilidades. É uma passagem entre o normal para o excêntrico e este fenómeno psicológico, quase sociológico – porque de grupo – fascina-me. Há um processo mental que antecede a mudança drástica da forma de vestir, dos dedos em V e das selfies carinhas-de-peixe, mas esse processo é para mim, ainda, um enigma.

Para sistematizar a análise da mudança súbita de comportamento do “estranja” (laowai) teremos de partir de alguns pressupostos. O Laowai em questão quando chega à China parece ainda manter-se no estado em se encontrava e que antecede o rótulo de laowai. As transformações ocorrem gradualmente. Há várias hipóteses teóricas levantadas por curiosos observadores ao longo destes anos de abertura da China ao estrangeiro.

Depois de falar com alguns sujeitos do sexo masculino que se enquadram no perfil, cheguei à conclusão que estes se sentem “mais confiantes” desde que chegaram à China. “O nível de atenção que passamos a ter por parte do género feminino é uma grande influencia para melhorar os níveis de auto-estima.” diz um anónimo Laowai que entrevistei para este artigo. Mas será apenas o aumento de capital erótico proveniente do exotismo étnico justificação para tanta excentricidade? “Numa cidade com mais 20 milhões de habitantes, ninguém olha para ninguém. Há todo o tipo de pessoas. A mega metrópole faz-me sentir mais livre para ser quem realmente sou” – continuou. Uma espécime do género feminino afirmava, por sua vez “Gosto de me vestir como uma princesa. No ocidente, a mulher é muito sexualizada com roupas justas e decotadas”, “Não achas que a infantilização de uma mulher adulta é, também, uma forma se sexualização fetichista?” A esta questão ela não me respondeu. Lembrei-me de como os asiáticos eram, estatisticamente, os maiores fãs de Ariana Grande.

Será o choque cultural tão grande que deixa os estrangeiros confusos em relação à sua identidade? Será a solidão e o isolamento que os levam a criar dezenas de atividades? Será esta vida de expatriado um prolongamento da experiência Erasmus? Muitas perguntas, poucas respostas. Eu só vos aviso: o fenómeno está para ficar. Já o observo desde 2008. Quando eu voltar da China vestida de Sweet Gothic Lolita, não se surpreendam. É só uma pequena febre de alguém que vem de fora.

29 Out 2020

The Laowai fever

David trabalhava num gabinete de arquitetura na Califórnia mas decidiu trocar a terra da liberdade por outro tipo de liberdade mais individual numa terra menos livre. Como quem troca o bom tempo californiano por um frio seco na esperança de, mesmo assim, se vir a sentir mais quente. Após um divórcio doloroso, deixou as duas filhas adolescentes com a mãe por uns tempos e veio estabelecer-se em Pequim.

Costumava aparecer nos workshops bimensais de poesia que eu organizava com o Colectivo Artístico Spittoon. O homem de 43 anos vestia-se de forma sóbria, como quem estava habituado a trabalhar num escritório de arquitectos. Trazia sempre vários poemas para a devida sessão de análise, interpretação e crítica construtiva com o resto da comunidade literária que se juntava no internacional Zarah Café, na zona hip de Gulou. Eu seguia o David nas redes sociais mas não lhe era muito próxima. Os meses foram passando e o David começou a frequentar mais eventos sociais em Pequim, começou a praticar mais desporto – cross-fit, montanhismo, passeios conjuntos de bicicletas. Decidiu, a certa altura, criar a sua própria plataforma comunitária para encontros sociais com as mais variadas atividades entre os locais e os expatriados, estando ele no centro de toda a ação (e atenção). Faço scroll pelos momentos do Wechat. Vejo uma foto em que David tem o cabelo rapado dos lados e uma poupa punk pintada de verde. Veste apenas umas calças de desporto e um colete de pele. Faz o sinal V com os dedos e uma boquinha de peixe. Num dos vídeos está a rebolar por um monte e ouvem-se diversas vozes femininas com um inglês muito chinês a lembrarem-no do quão maluco e engraçado ele é. Riem-se, essencialmente. Filmam-no enquanto parece cair deliberadamente.

Noutro vídeo, David está a atravessar uma passadeira na zona de Gulou, movendo-se com as mãos enquanto eleva as pernas. David não é verdadeiramente o nome da pessoa que efetivamente conheci mas é definitivamente alguém real. David sofre de um dos fenómenos menos estudados na história da sociologia, tão pouco estudados que me permitem patentear o conceito altamente inovador na área. David sofre de “Laowai fever”.

Tal como o David, milhares de brancos ocidentais apanham esta patologia ao fim de alguns meses de China. Podem ser pessoas que se costumavam vestir na Zara mas que agora só compram roupa em lojas de moda coreana. Mulheres que subitamente só querem vestidos com folhos e canetas que cor-de-rosa iguais às que usavam na escola primária. Homens que não podem dispensar o fato de treino da Supreme e os óculos de massa grossa. Podem mesmo ser pessoas que, tal como muitos jovens chineses, decidem que preferiam ser coreanos, de uma maneira geral. Há muitas possibilidades. É uma passagem entre o normal para o excêntrico e este fenómeno psicológico, quase sociológico – porque de grupo – fascina-me. Há um processo mental que antecede a mudança drástica da forma de vestir, dos dedos em V e das selfies carinhas-de-peixe, mas esse processo é para mim, ainda, um enigma.

Para sistematizar a análise da mudança súbita de comportamento do “estranja” (laowai) teremos de partir de alguns pressupostos. O Laowai em questão quando chega à China parece ainda manter-se no estado em se encontrava e que antecede o rótulo de laowai. As transformações ocorrem gradualmente. Há várias hipóteses teóricas levantadas por curiosos observadores ao longo destes anos de abertura da China ao estrangeiro.

Depois de falar com alguns sujeitos do sexo masculino que se enquadram no perfil, cheguei à conclusão que estes se sentem “mais confiantes” desde que chegaram à China. “O nível de atenção que passamos a ter por parte do género feminino é uma grande influencia para melhorar os níveis de auto-estima.” diz um anónimo Laowai que entrevistei para este artigo. Mas será apenas o aumento de capital erótico proveniente do exotismo étnico justificação para tanta excentricidade? “Numa cidade com mais 20 milhões de habitantes, ninguém olha para ninguém. Há todo o tipo de pessoas. A mega metrópole faz-me sentir mais livre para ser quem realmente sou” – continuou. Uma espécime do género feminino afirmava, por sua vez “Gosto de me vestir como uma princesa. No ocidente, a mulher é muito sexualizada com roupas justas e decotadas”, “Não achas que a infantilização de uma mulher adulta é, também, uma forma se sexualização fetichista?” A esta questão ela não me respondeu. Lembrei-me de como os asiáticos eram, estatisticamente, os maiores fãs de Ariana Grande.

Será o choque cultural tão grande que deixa os estrangeiros confusos em relação à sua identidade? Será a solidão e o isolamento que os levam a criar dezenas de atividades? Será esta vida de expatriado um prolongamento da experiência Erasmus? Muitas perguntas, poucas respostas. Eu só vos aviso: o fenómeno está para ficar. Já o observo desde 2008. Quando eu voltar da China vestida de Sweet Gothic Lolita, não se surpreendam. É só uma pequena febre de alguém que vem de fora.

29 Out 2020

A forma mais correcta de encarar o mundo

O meu pai sempre me disse: primeiro eu, depois eu, depois os meus, depois os outros. Por vezes dizia-o com alguma angústia, outras em tom sarcástico. Outras vezes parecia ser mesmo a sua explicação do mundo. O meu pai, no entanto, não é completamente egoísta nas suas acções. O que o faz defender esta ideia? Parece que é a razão que o leva a essa conclusão. No entanto, no exercício do seu dia-a-dia, ele é bastante mais benevolente do que o que pensa de si próprio.

O amor exclusivo a si próprio e a defesa de interesses meramente pessoais, parece um modus operandis perfeitamente legítimo no pensamento contemporâneo. Por um lado, porque o capitalismo nos ensinou que tudo deve ser um meio para um fim e, por outro, porque a racionalização de toda a interpretação do real impera nos recursos argumentativos como possibilidade única. Isaiah Berlin criticava os filósofos do iluminismo por acharem que para todas as questões, mesmo as filosóficas, existia uma única resposta, que devia ser a correcta e à qual chegaríamos aplicando um método inteligível: a razão. Através da razão, seria possível descrever toda a realidade de uma maneira completamente coerente e organizada. Era uma concepção monista da realidade. Mas porque utilizo aqui o pretérito imperfeito, como que se este tipo de interpretação da realidade política e social estivesse já ultrapassado? Não nos libertamos tão facilmente da Jaula de Ferro de Max Webber enquanto a racionalização e o desencantamento do mundo forem o principal eixo de pensamento à volta do qual organizamos o mundo. Mas não precisamos de ser tão ocidentais e modernos.

Meng Zi (traduzido para Mêncio em português), já alertava para os problemas da excessiva racionalização. Proclamava a benevolência e a integridade da natureza humana – e é fascinante ver como era já tão preciso sobre o papel da construção social no desenvolvimento da natureza. “Aquele que não tem compaixão, não é humano. Contudo, o homem nem sempre consegue concretizar o seu potencial de benevolente. Está na natureza de um pessegueiro ter pêssegos, mas sem um bom ambiente, ele não os dará. Todos temos potencial para a benevolência e para a rectidão, mas devemos concretizar esse potencial para nos tornarmos completamente virtuosos.” (Meng Zi, 2A6, 6A10). O confucionismo é, no ocidente, mais conhecido pela sua conceptualização da organização social através da piedade filial. No entanto, a “virtude” e o ser “virtuoso” são conceitos operacionais fundamentais para o pensamento confuciano. Esta é uma perspectiva milenar que já se referia à necessidade de se encarar o outro com benevolência – não porque isso iria ser benéfico num cenário pós-morte, como no cristianismo – mas antes porque a natureza humana é benevolente e é essa é uma vantagem igualmente lógica para a sociedade.

Não sei se algum dia poderei apresentar o Meng Zi ao meu pai. Provavelmente, de entre os filósofos chineses, iria antes apresentar-um dos precursores do egoísmo ético, Yang Zhu. Meng Zi dizia sobre ele “Mesmo se ele pudesse tirar um fio de cabelo para proteger um império inteiro, não o faria”. (Meng Zi, 7A26) Yang Zhu, o filósofo do “cada um por si”, escrevia que todas as acções que beneficiam exclusivamente quem as faz são naturalmente éticas. Na realidade, Yang Zhu era apenas um naturalista que acreditava que qualquer forma de interferência com a vida alheia, poderia ser prejudicial para todos. Focar-se em si, não tentar ajudar ninguém, nem tentar magoar ninguém.

Por vezes, gosto de pegar na visão que as pessoas que me rodeiam constroem do mundo, com a sua longa experiência de vida que me ultrapassa, e começar a enquadrar aquela perspectiva em filósofos que eu tenha lido. Descubro que há sempre duas ou três directrizes variáveis onde se pode enquadrar qualquer afirmação mas não gosto de chegar a uma única e correcta resposta. Nunca fui boa nas perguntas de escolha múltipla porque conseguia ver muitas vezes várias respostas correctas e ficava confusa. Se alguém diz ser egoísta mas é na verdade benevolente, o mais sensato é abraçar o paradoxo e vê-lo expandir-se em todas as direcções. Provavelmente, é esta a forma mais correcta de encarar o mundo: não ter uma forma correcta de encarar o mundo.

9 Out 2020

A livre circulação de meio milhão

Não consigo regressar à minha casa em Pequim. As fronteiras estão fechadas desde Março. O único país a não deixar entrar pessoas com vistos de trabalho e autorizações de residência no Império, agora ao Meio, cheio de virtude, produção viral, agora pandémico. Lembro-me de quando era eu que lhes dava autorizações de residência e vistos dourados. Trabalhava em pequenas e médias empresas e era assim que eu falava disto aos amigos:

Há pessoas a imitarem biombos nas pequenas e médias empresas. Ocupam uma cabine mas não precisam de separador, partes de si são documentos na mão, fios de telefones controlados, sorrisos chapa cinco a felicitar clientes como doentes em recuperação. Quem compra, recupera. Da boca informativa circula sangue comum. Laranja é a cor do poder porque não usa farda. Estantes derretidas em arquivos, emoções por ordem alfabética. A administração acampa no edifício, sorriso administrativo na altura de usar a boca. Braços para agarrar folhas, dedos furados profissionalmente. Empresas que são expansões de objectos subjectivos com exemplos que sobem por folhas de excel em flash. Computadores inquilinos em secretárias baratas. O vídeo do Turismo de Portugal mas com legendas em chinês, ou lá o que aquilo é. O chefe-general pede uma reunião e o exército feminino senta-se com frio na sala de reuniões, onde o ar condicionado está a 16 graus.

O chefe-general está de fato. As mulheres de saia. Têm frio mas apanham balas de perdigotos como quem só não trabalha no Dona Maria porque é demasiado forte. O chefe explica: “Um círculo, dois SSss, um cliente chinoca, um edifício na baixa. A armadilha é a seguinte: queima-se-lhes as papilas gustativas na carrinha mercedes e põe-se os gajos num quintal. Não sabem onde estão. É Lisboa, claro.” Mas é no Montijo. A proprietária em stilettos rosa chanatos da feira (made in China) multiplica as comissões ou divide (made in China), não sabe ainda bem. Mas sabe que a ela ninguém lhe tira os órgãos num alçapão. Aqui, o alçapão é ela. A família chinesa trouxe os avós e os irmãos: vai haver negócio. A área bruta do quintal tem imensos benefícios fiscais e por isso o preço a pagar permite uma percentagem de retorno ao ano, pago de antemão pelo comprador. Tem que se inflacionar por causa da Caderneta Predial, obviamente. Mas isso pronto, é assim. O agente chinês traduz. Como se trata de um Edifício Classificado mais o marisco em Cascais, o agente precisa de uns 20% de comissão. Mas a proprietária tem na manga o Imposto do Selo. A ela não a enganam, tem várias leads. Foi o general que lhe disse. O exército vai operando, umas nas trincheiras, outras no acampamento. Há uma empresa de advogados premiados aberta trinta e oito horas por dia – não falha.

Tragam os avós, os primos, o Union Pay, dinheiro vivo de gente morta. O mercado imobiliário está à mesma altura da livre circulação no espaço Schengen. Ao fim de cinco anos, têm a cidadania, claro. Sim, claro. Ao fim de cinco anos. Quem compra, salva-se. Uma cabo-adjunta leva a família para o Casino enquanto a Coronel se reune com o agente secreto. “Vão comprar a quinta ou o edifício na baixa?” “Eles querem o edifício da baixa mas querem mudar a fachada.” “Não podem.” “Dizem que é velha” “É antiga!” “E aquele T3 no Parque das Nações?”

24 Set 2020