Doze haiku para Abril  

Haiku na cidade moderna.
Abril, doze sínteses. O olho tenta ver.
 
1.
o copo vazio 
dá sede
– viajante
 
2.
gentileza 
com pressa
– grosseria
 
 
3.
pesa demasiado 
na mochila
– o oráculo 
 
4.
o estrondo
não chega 
ao ouvido concentrado
 
4b
estrondo 
é silêncio 
– ouvido concentrado
 
5.
engenheiros desenham 
uma mulher nua
– pausa nos números
 
6.
os imortais 
inventam 
um jogo lento
 
7.
o ébrio acorda
– encontra sapatos
mas não os pés
 
8.
o comboio chega
à estação
– os corações partem
 
9.
estica os lábios 
e cala-se
– beijo
 
10.
mãos com vinho 
tocam 
na árvore verde-clara
 
11.
aprendeu a assobiar
para ter companhia 
do cavalo
 
12.
um cego 
encontra
um amigo

23 Abr 2021

Flores e ninguém no quarto – Mulheres de Itália (25)  

Hesperia põe água nas flores e diz que elas só quando são afogadas é que respiram.
Honesta fala nos ventos fortes que só destapam as saias das mulheres que têm amantes.
Hugolina diz com o seu modo atabalhoada de falar que vem aí um bombardeiro americano para destruir à bomba o vírus de que toda a gente fala.
Higinia está a secar a roupa e a queixar-se da falta de sol.
Honor tem aerofobia e cada vez que escuta o som de avião grita como se a tivesse a pisar.
Humbalda embirra com o namorado da irmã.
Hilaria está constantemente a abrir a janela e a fechá-la como se a casa precisasse de respirar a um certo ritmo, e a abertura e o fecho das janelas fossem essenciais para isso.
Honorata diz que se pusermos muita água no sangue, o sangue ganha uma cor sem interesse nenhum.
Humildad reclama na lavandaria do bairro porque uma das suas camisas brancas está agora completamente rosa.
Hilda diz que é a paciência que faz os escravos. Sem paciência, não havia escravatura, diz – e é muito aplaudida.
Honoratas faz uma careta ao espelho a imitar o lábio descaído da sogra.
Hildeberta está a ver fotos de moinhos antigos e a estudar as muitas formas de o vento se tornar útil.
Honoria está com dores de barriga e diz que não é do período.
Jacaranda põe a mão no coração para contar as batidas provocadas pela sua ansiedade.
Jamila não conhece aquele caminho e por isso está, ao mesmo tempo, a olhar para a frente e para trás para ver se ninguém a segue.
Jazlyn terminou agora mesmo um discurso na faculdade e é muito aplaudida por algumas pessoas que sabe que a detestam.
Jacinta é cega desde nascença e por isso já se habituou àquelas pancadas do joelho nas mesas.
Jane interpreta um texto de grego antigo e tem um lápis de bico grosso na mão.
Jazmín escreve um e-mail que termina com a frase: vai à merda!
Jacqueline diz em voz baixo, estou grávida. Mas não há mais ninguém no quarto.

16 Abr 2021

Os filmes, as moscas, o vento – Mulheres de Itália (24)  

Hermilda elogia o filme que não teve paciência para ver.
Helen limpa os dedos dos pés com vinho do porto e canta o hino de Itália de uma maneira que nenhum amigo percebe.
Henedina limpa com um pano o pó por cima da fotografia dos pais.
Herminia diz que a virgindade é um centímetro quadrado e ri-se muito.
Hermione desenha um pénis no quadro sem ninguém ver.
Hildegarda está no hospital com tubos no nariz e na boca e de repente pensa que ela própria é um sistema de canalização autónomo e que, por uns tubos, passa a morte, e por outros passa a vida.
Horacia aperta mais o casaco porque está cheia de frio.
Hermisenda põe sapatos altos e empina o rabo para o espelho.
Hildegunda tem um termómetro na mão e está assustada com o número que viu.
Hortencia tenta perceber quanto valem mil dólares modernos em antigas liras italianas.
Hermogia está de braços cruzados à espera de que os médicos lhe digam que o pai morreu.
Hipodamia está inerte, mas a enfermeira diz que não está morta.
Hortensia acaba de matar uma mosca com a fotografia do casamento dos pais.
Hermosa quer mudar de vida depois de a tempestade passar, mas pensa que, se a tempestade passar rápido, ela não vai ter tempo para mudar de vida.
Hipólita está na rua e pensa que se ficar mais três noites fora de casa entra de certeza na estatística italiana dos vagabundos.
Hospicia tranca-se dentro do quarto e grita que vai engolir a chave para que a mãe nunca mais entre ali para lhe espiar o diário.
Hersilia estuda a órbita de um planeta e diz que, quando a pandemia passar, o céu vai ficar mais claro e certamente os telescópios vão encontrar mais um outro planeta qualquer que estava escondido.
Holda perdeu o telemóvel e está aos gritos por ele como se o telemóvel tivesse ouvidos ou fosse uma criança pequena.
Huberta partiu a bacia numa queda estúpida, mas está bem mais preocupado com os seus pulmões.
 

9 Abr 2021

Pestanas, Caramelos, Nuvens – Mulheres de Itália (23)

Haidée diz que a única coisa interessante que tem no rosto são as pestanas longas.
Helena fala da lei da oferta e da procura e diz que quando tudo isto passar vai encontrar um namorado barato. 
Henoch está a ouvir Jimmy Hendrix e a tocar guitarra com as mãos na barriga.
Hélene olha para a unha do dedo mindinho e pensa que tem de cortá-la antes de a mãe chegar.
Henriqua toca no piano uma música infantil, mas as mãos de setenta anos já tremem.
Hannah começou a escrever um diário e na primeira página escreveu: quero morrer. 
Helga está com dores de barriga.
Heráclida diz que é preciso manter o futuro fora das conversas de família.
Haydée dá nome aos caracóis do jardim antes de os pisar.
Helia tem sangue na urina pelo terceiro mês consecutivo.
Herendiaria está a olhar para os pés e a pensar que não tem para onde ir.
Hebe bebe uma cerveja e finge gostar.
Heliana dá aulas de música e diz aos alunos que têm de transformar os sons desagraveis em sons agradáveis e que isso inclui as palavras.
Herlinda está a chorar porque o pai lhe tirou os caramelos.
Hedda está a pensar em Carlo enquanto Januario diz que a ama.
Heliodora começa aos berros em frente ao espelho para perder energia até ao marido chegar.
Hermelinda olha para a radiografia e diz que aquele osso largo da bacia não é o seu.
Hedy está a treinar salto em altura, mas o que ela queria era que o pai não tivesse morrido.
Heloisa tem uma voz estridente que até irrita os pais.
Hermenegilda tem algo escondido nas mãos.
Heidi está a inventar novas palavras com Jeanette. Uma delas é: cabrahumana, tudo junto.
Helvecia não sabe mexer nos comandos da televisão.
Hermia diz que a imundície está agora até nas nuvens.
Heladia está a correr para chegar a tempo ao almoço gratuito dos sem-abrigo.
Helvia está à janela a chamar nomes a uma pessoa que não conhece.

26 Mar 2021

Cartas e Empurrões – Mulheres de Itália (22)  

Giuliana está a pensar que é genial mas tem três anos.
Giulitta está a raspar, com uma espátula, o nome do marido no anel de ouro. 
Giuseppa está a subornar o pai fingindo que se ri muito com as anedotas dele.
Giuseppina acerta o tom de voz para não denunciar o seu desprezo por aquela menina pobre que entrou na sala. 
Giusta usa pela primeira vez saltos altos e fica com uma bolha enorme no pé-direito e não percebe porque é que o pé direito é diferente do esquerdo.
Glenda está pela primeira vez a pôr a língua na boca de Giulio.
Gloria chama à mãe burra burra burra, três vezes seguidas para ela não esquecer.
Godeberta está a pensar que o que leva debaixo da camiseta é mesmo dela e não é algodão para encher o sutiã como algumas colegas usam.
Godiva está a olhar para uma carta que recebeu quando tinha dezoito anos, carta que só repetia como ela era bela e por isso começa a chorar porque já não tem dezoito anos, tem oitenta.
Grazia caía muitas vezes ao chão porque a sua colega Diletta a empurrava por pura maldade.
Graziana diz que é necessário encontrar a dose certa de disciplina para acalmar aquela menina “que não se sabe comportar com o fracasso”.
Graziella diz que a morte naqueles meses parece monocórdica e má e não sabe dizer porquê.
Greta diz a enfermeira-chefe que foi abandonada pelo marido pela segunda e última vez.
Griselda diz logo que sim àquele rapaz e fica muito excitada.
Guenda repreende a jovem Fiorella e diz que há ali velhos mais inteligentes do que ela e que os velhos nem sempre vão ficando mais parvos com a idade.
Guendalina tem uma pele que brilha de forma intensa e que a envergonha porque ela quer passar despercebida.
Gundelinda aproxima o nariz de um pêssego bem maduro e respira-o como se o pêssego fosse uma droga.
Hada cai da cadeira diz: foda-se.

19 Mar 2021

A tribo mínima

1.
Uma estação de caminho de ferro abandonada.
O comboio não se esqueceu do caminho nem explodiu com uma bomba qualquer, simplesmente desapareceu com a simples modernidade. Ou com a mudança de direcção do comboio.
Já não passa aqui, as linhas rectas conduzem-no para outro lado.
Um casal come no chão, entretanto. Nesse chão estranho.
Um piquenique no chão porque sabem que ali não vai passar o comboio. É seguro.
Cada um, de cada lado, como se os carris fossem o lençol metálico colocado na terra para este piquenique triste.
Mas este lençol jamais será de novo levantado, a não ser pelos ladrões que já não querem saber que aquele ferro antes foi estrada – e como a memória tem valor baixo no mercado, o ferro, por onde passava o comboio, passa a ser simples ferro e a ter o seuvalor em peso.
Não importa a função daquilo que não funciona, mas o peso.
 
2.
Não importa a função daquilo que não funciona, mas o peso.
O peso dos mortos, o mais terrível peso daquilo que já não funciona, daquilo que já não tem funções – espaço, corpo do morto onde os órgãos se calaram e ficaram imóveis.
É a memória humana que faz, do peso dos mortos, o grande peso afectivo. O mais valioso dos pesos puros.
O ferro também pesa, sim, mas não da mesma maneira.
 
3.
Sempre se soube isto. Um forte humano sozinho vale por uma vasta tribo fraca.
Leio que há um movimento cultural sul-coreno, chamado honjok, que “elogia a vida solitária”.
Honkoj significa “tribos de um homem só”.
A ideia é que o prazer da existência seja canalizado para o isolamento. 
Criar “solitários de sucesso”, diz um especialista em honjok.
Prioridade “para uma vida interior” em detrimento de uma vida virada para fora. E o fora são os outros.
Quando três destes humanos se juntam, estão ali, em pouco espaço, três tribos de um homem só.
A grande tribo mínima: um.

12 Mar 2021

Notícias do céu e da terra (intervalo)

1.

Uma notícia terrível: “Falta de comida leva ursos a atacar túmulos na Rússia.”

2.

Os ursos são animais que parecem quase peluches para meninos ingénuos quando estão deitados ou sentados em modo paxá de preguiça, mas subitamente assustam, e muito, quando se levantam mesmo que em modo meio desastrado e trôpego como quem acabou de dormir seis meses seguidos devido ao cansaço ou à pura indiferença em relação ao mundo.
São, então, nessa altura, quando se levantam, os bípedes – mesmo que temporários – mais largos que existem; pelo menos na psicologia humana, porque transformam todo o seu peso de quilos em peso que ameaça dar o abraço de que tanto se sente falta nestes dias, mas não assim –  um abraço de urso de onde não se regressa, quase semelhante a um abraço de despedida entre dois humanos que sabem que jamais se irão ver de novo.
Com o urso a síntese é esta: ele dá um abraço a um moribundo e o moribundo és tu.

3.
A largura e o comprimento não são apenas uma questão métrica e quantitativa.
A largura de um urso é dez vezes maior do que a sua largura medida por fita amarela e métrica.
Um urso aumento de potência e envergadura pelo susto que provoca em ti o puro pensamento nele.
O tamanho da ameaça do mundo depende do teu medo, claro.
O susto aumenta, portanto, a largura, o comprimento e a altura do mundo que nos amedronta.

4.
Há muitas notícias, no céu e na terra. Uma do céu, para compensar:
“Uma equipa de cientistas usou um pequeno foguete lançado pela NASA para estudar a natureza de um tipo indescritível de nuvens que brilham no escuro, criando uma artificialmente.”
Nuvens que iluminam a noite, “nuvens mesosféricas polares” que “se formam no final da primavera e no verão nos polos norte e sul”.
A natureza faz o que alguns poemas românticos anunciavam séculos atrás.
Imagino uma noite em que uma nuvem ilumina os passos de alguém, luz natural e nómada que não deixa os meninos, nem os humanos desesperados, demasiadamente no escuro. De noite, as nuvens salvam.

5 Mar 2021

Um intervalo para notícias do mundo

1.

Um amigo, Jonathan, disse, com o seu sarcasmo habitual, que se deveria fazer o seguinte: nos países em que os mais velhos ficam para mais tarde, em vez de os vacinar, uma simples proposta – um programa de televisão lindíssimo, com muito décor azul e muitos vermelhos distribuídos por um néon saltitante e um concurso, claro; e aí colocar braços, bem jovens e politicamente belos, a serem vacinados em directo, entre chamadas telefónicas que atribuam por sorteio uma vacina por cada 10.000 velhotes, e talvez assim a morte diária destes cidadãos praticamente obsoletos seja suavizada pelo belíssimo entretenimento público. Morrer em plena festança efusiva, como aconselhavam antigas escolas gregas, disse Jonathan. Fica a proposta.
E os mais velhos, entretanto, perguntam, a cada manhã que passa: e hoje a vacina dá a que horas, na televisão?

2.

Há países com 78 excepções ao confinamento. Uma pergunta filosófico-contabilística: a partir de que número de excepções uma coisa deixa de ser a coisa que é?

Em termos concretos, diz o meu amigo Jonathan, a partir de que número de excepções – quinhentas? seiscentas? – e, passando pelo meio-confinamento, pelo oitavo de confinamento, pelos cinquenta e dois avos de confinamento, etc. – a partir, então, de que número de excepções, dizia, um confinamento deixa de ser confinamento e passa ser o seu exacto oposto, o convite para uma saída, o convite para a rebaldaria completa?

3.

Numa notícia recente, fala-se de um italiano de oitenta e um anos que não foi autorizado a visitar a sua mulher no hospital e por isso trouxe um banco de madeira e colocou-se na rua em frente ao hospital a tocar um acordeão/concertina e a cantar uma serenata.

Não há voz mais triste no mundo, nem voz mais forte no mundo, do que a voz de um italiano de oitenta e um anos que não foi autorizado a visitar a sua mulher no hospital e por isso trouxe um banco de madeira e colocou-se na rua em frente ao hospital a tocar um acordeão/concertina e a cantar uma serenata.
Canção circular. Voltar a repetir como um mantra.
Não há voz mais triste no mundo, nem voz mais forte no mundo.

26 Fev 2021

Mulheres de Itália (21) – Insectos, cocaína, música

Ilustração de Ana Jacinto Nunes

 

Galatea coleciona insectos há muitos anos, mas a cada sirene de ambulância que passa fica com vontade de atirar toda a colecçãopela janela.
Gaudenzia ouve a sua ginecologista a fazer uns sons estranhos com a boca.
Gelsomina tem um cancro e está a sorrir para o filho de cinco anos que acabou de entrar no quarto.
Geltrude está a fazer ginástica.
Gemma tenta fazer sons excitantes, mas está entediada e imagina que o marido foi transformado num material que só tem peso.
Generosa está a sublinhar um livro com um lápis staedler B 1.
Genesia diz a uma cliente gorda que ela está muito elegante.
Genoveffa revolta-se com o que ouve na televisão.
Germana diz à mãe que não fala com ela até ela ser inteligente.
Gertrude está a treinar ballet no quarto porque a escola está fechada.
Ghita está a enviar uma fotografia sua nua para um rapaz do Brasil.
Giacinta está a gritar com o pai para as colegas verem.
Giada está a correr sozinha no parque e tem um fato de treino preto bem apertado no rabo.
Gigliola está nas urgências a gritar que uma velha passou à frente do filho.
Gilda estuda a forma de locomoção dos cavalos quando estão a ficar velhos.
Giliola veste cuecas azuis, mas depois arrepende-se.
Ginevra pega no estetoscópio mas percebe que o homem jámorreu.
Gioacchina tem quarenta anos e não encontra um namorado em lado nenhum.
Gioconda mexe nos papéis antigos de uma gaveta do pai e encontra lá uma fotografia que lhe mete nojo.
Gioia está cada vez a gostar mais de Jesus.
Giorgia consome cocaína e assim, pensa ela, ficará até ao fim, aandar em círculos até ser uma velha demente com o nariz bem vermelho.
Giovanna quer que o namorado se cale e segure no saco que ela trouxe para vomitar.
Gisella sente que comer se tornou há muito secundário.
Giuditta pensa que deveria ter dito ao pai que não interferisse na sua vida.
E Giulia está a dançar ao som da música Dance Monkey.

19 Fev 2021

Hino de Itália, os avós, as anedotas

Mulheres de Itália (20)

Filippa está no quarto de Esterina a olhar para a bandeira vermelha que ocupa toda a parede.
Filomena está a chorar, mas o pai diz-lhe que chorar não corrige os erros de ortografia, mas estudar sim.
Fiordalisa abre o envelope que tem as análises.
Fiore está a pensar que não tem nada a ver com os problemas de Edvige.
Fiorella fala com os seus velhos do lar como se fossem todos surdos e dementes.
Fiorenza põe o hino de Itália a tocar na vitrola antiga.
Flaminia está rouca por tanto gritar o nome da mãe, mas não é isso que a vai fazer ressuscitar.
Flavia lava os dentes na casa de banho enquanto imagina o que Claudio estará a fazer na outra casa de banho.
Flaviana promete atravessar de joelhos todo o passeio do bairro caso o seu marido se salve.
Flora arrotou, mas o namorado não ouviu.
Floriana escolhe a máscara mais cara da loja e diz que nem na guerra a vão obrigar a vestir mal.
Floridia olha atentamente para o mapa de Paris, mas está completamente perdida.
Florina está tão excitada que não quer parar de pensar na sua mão e na vagina de Degna mas ao mesmo tempo tem vergonha porque no ecrã agora estão a mostrar um homem tão magro e tão maltratado que ela deveria estar a chorar e não estar excitada como está.
Foca está a acabar uma pintura que lhe encomendaram.
Fortunata está há meses na aplicação e só lhe aparecem homens velhos.
Fosca ri às gargalhadas com a anedota da amiga Loretta.
Franca diz que não tem avós e que os velhos devem deixar os mais novos passarem à frente na porta.
Francesca tem sapatos novos mas está com uma dor de barriga tão grande que nem se lembra que tem pés.
Fulvia diz a Franca que a lentidão é uma forma de poluição.
Gabriella gargareja e diz que está outra vez quase a morrer, mas já ninguém liga.
Gaia gosta da blusa branca que Leonia vestiu.

5 Fev 2021

Mulheres de Itália (19)  

Ester limpa o espelho mas sabe que isso não adianta.
Esterina tem um namorado americano e diz-lhe via skype que se ele não muda de nacionalidade ela começa a namorar com outro.
Eufemia está aos gritos ao telefone com o pai.
Eufrasia está a ouvir o som da urina a cair na sanita e está a acompanhar esse som com estalidos da boca.
Eugenia está a abrir um site pornográfico enquanto diz que já tem dezoito anos.
Eulalia dá um beliscão ao filho e diz-lhe ao ouvido como se fosse um segredo para ele nunca mais esquecer: és muito burro, tu és muito burro!
Euridice está entediada a ouvir música clássica ao lado do pai que está entediado a ouvir música clássica ao lado de Euridice.
Eusebia é enfermeira e diz que nas últimas manhãs têm sido assim, e que é preciso interná-la rapidamente.
Eutalia diz que está a ser perseguida na internet, mas isso não parece ser razão para se fechar à chave no quarto.
Eva não sabe onde termina a sua mão e começa a do namorado e está contente com isso.
Evangelina está no hospital a receber oxigénio.
Evelina é cega mas percebe que quem a conduz pela mão no passeio é um homem bonito.
Fabiana está a morder as costas do amante para a mulher dela reparar.
Fabiola diz que o filho só vai à escola se antes a professora de inglês for despedida.
Fatima diz ao marido que os últimos anos com ele têm sido melhores do que os primeiros.
Fausta começa a chorar ao ler uma reportagem no jornal.
Federica ajeita as cuecas enquanto ninguém vê.
Fedora está a tentar pôr um rádio antigo a funcionar e diverte-se com os sons de rato que saem dali.
Felicia estuda a página 456 do Direito administrativo.
Felicita acabou de abrir o frigorífico.
Fernanda estava com pressa, mas tropeçou e partiu o tornozelo.
Fiammetta acabou de morrer, mas no hospital estão a olhar para outro lado.

29 Jan 2021

Mulheres de Itália (18) – O caderno, a autoestrada, o futuro

Elvia está a ouvir Dalida e não pára de rir às gargalhadas com a história de um coxo que Jesus não o curou.

Elvira faz festas ao seu gato enquanto vê pela janela uma nuvem em forma de zepelim alemão.

Emanuela sempre que diz a palavra futuro engasga-se e começa a tossir, e por isso está em frente aos pais a dizer a palavra futuro muito devagar como se fosse gaga ou como se a palavra estivesse armadilhada.

Emilia aproxima-se do professor e diz que o ama.

Emiliana gravou o som da sirene da ambulância e está a fazer uma composição sonora em que a sirene faz de soprano.

Emma está a conduzir muito rapidamente na autoestrada e o filho olha, assustado, para o velocímetro como se estivesse hipnotizado.

Enimia tem sessenta anos e acabou de vestir uma saia bem curta e enquanto se olha ao espelho repete três vezes não não não.

Enrica dá um beijo na boca a Filippa e diz-lhe que não está apaixonada por ela, mas sim pelo irmão dela.

Eracla vê as notícias e aponta no seu caderno o número de mortos da pandemia nos dez países de que gosta mais.

Ermelinda chama nomes à máquina de lavar roupa que não funciona e bate com força no vidro até a mão começar a doer.

Ermenegarda pinta os lábios de um vermelho bem vivo enquanto decora os nomes de todos os ossos da perna e repete muitas vezes a palavra perónio como se fosse um tantra qualquer.

Ermenegilda diz a Carlo que está apaixonado por um Carlo mas é por outro Carlo e depois ri-se muito com ao ar baralhado do rapaz.

Erminia acabou agora mesmo de dar uma aula de ciências pelo computador e como domina mal o programa não tem o som desligado quando repete duas vezes a palavra Puta.

Ernesta tem a carta de condução caducada, mas agora pouco adianta porque o carro está destruído e ela deve ter partido uma perna.

Ersilia acabou de se levantar.

Esmeralda acabou de se deitar.

Estella grita mas não sabemos porquê.

22 Jan 2021

Mulheres de Itália (17)

Ambulâncias e pés feios

 

Ebe ouve o barulho estridente de uma ambulância e em vez de fechar os ouvidos fecha a boca porque não quer gritar.
Edda está ao lado dos pais no sofá e finge ter fome e mexer na barriga, mas de facto está a tocar ao de leve no sexo.
Edelberga está com raiva porque na escola ninguém sabe ainda o seu nome.
Editta está a fazer a planta transversal da futura casa do filho, mas este ainda tem um ano e mal gatinha.
Edvige diz a Fiore que o pai já foi proibido de entrar em casa pela mãe e pela polícia.
Egizia toca pela primeira vez na terra e como domina ainda mal a linguagem diz: puta para a terra como se isso fosse uma palavra bonita.
Egle diz a Federica que as convicções são para atirar pela janela fora quando se está com medo e quando se quer encontrar um namorado depois dos quarenta anos.
Elaide está paranoica à procura de uma luva debaixo do sofá, mas a luva não está debaixo do sofá.
Elda está nua em cima da cama, de costas, com joelhos e mãos em cima do colchão, a pensar quando é que isto acaba?
Elena abre a torneira da água da casa de banho para o namorado não ouvir os seus intestinos.
Eleonora está a jogar ao jogo do galo no hospital, mas sabe que vai morrer.
Elettra sai em bicos de pés para não perceberem que ela vai sair de casa e nunca mais vai voltar.
Eliana abre a persiana, mas o dia está tão escuro que quase nada muda no seu ânimo.
Elide está a falar via zoom, mas a internet não está boa por isso ela grita de tal maneira que fica rouca.
Elimena abana a cabeça a Daniela e diz que ela agora chorou bem pior do que da última vez.
Elisa insulta o político que está na televisão, e desenha no ecrã uns cornos na cabeça dele com uma caneta que comprou ontem e lhe disseram que é mesmo adequada para escrever em ecrãs.
Elisabetta tenta aprender latim, mas as sirenes das ambulâncias não a deixem concentrar.
Elisea olha para os pés pequenos e feios e pensa que preferia manter os pés pequenos e feios, mas ser mais alta uns centímetros.
Ella ouve Deanna dizer que a dor é mais forte do que a curiosidade e apetece-lhe beliscá-la para ela deixar de ser parva.
Eloisa começa a gritar no chuveiro de uma maneira que lembra o filme Psico do Hitchcock.
Elsa quer visitar a mãe que está no hospital, mas dizem-lhe que a mãe já não está no hospital e ela não percebe se foi mudada se morreu.

15 Jan 2021

Mulheres de Itália – 16

Diana está fascinada pelo colchão do amante e diz-lhe que só trai uma outra mulher porque gosta do colchão dele.
Dianora censura Franca por não ter deixado passar à frente aquele casal de velhos e diz que podiam ser os avós dela.
Diletta continua a ser má e gosta de empurrar as pessoas para o chão mesmo que não seja fisicamente.
Dina foi com o pai, que é três vezes do tamanho dela, ver as fundações de uma casa que estão a construir no sítio onde o pai há muitos anos costumava jogar futebol.
Diodata insiste que Deus existe e Constanza insiste que não – e como não estão de acordo decidem lançar os dados para ver quem tem razão.
Dionisia foi atropelada há uns segundos por um carro que ia a grande velocidade.
Doda está fascinada com um elástico vermelho e puxa-o até aos limites e ri-se muito.
Dolores acaba de foder com um colega do pai.
Domenica tem a miniatura de uma igreja em cima da caixa da pílula que começou a tomar ontem.
Donata tem uma noite de folga e telefona a três homens, mas dois não atendem e o outro diz que está ocupado.
Donatella dá uma palestra sobre o conceito de tirania, mas só consegue pensar no velório da mãe que foi ontem.
Donna diz à sua filha V. que se ela não abandonar o islamismo vai envergonhá-la e sair, ela mesmo, a mãe, para a rua com a saia mais curta que encontrar.
Dora faz um esforço enorme para sozinha mudar a posição da cama porque não quer dormir com mais nenhum homem com a cama no mesmo sítio.
Dorotea está a fazer uma dieta e diz que não quer nem balanças nem espelhos nem o olhar de nenhuma mulher à volta.
Druina enquanto urina sorri para o namorado e diz: estás a ouvir? É bonito, não é?
Dulina esta ajoelhada na igreja, e na oração pede para que o marido se cure do cancro.

8 Jan 2021

Mulheres de Itália 14

Cosima está preocupada com algo que não sabe bem o que é, mas não consegue deixar de estar constantemente a olhar para trás como se estivesse a ser perseguida.
Costanza insiste que Deus não existe e Diodata discorda, abanando muito a cabeça e a repetir sim sim sim Deus existe.
Crescenzia está a estudar as obras do músico Satie e usa um martelo para fazer sons no caixão da funerária do primo.
Cristiana converteu-se a uma religião estranha, em que as máquinas estão no centro da adoração.
Cristina está no velório do pai e está tão distraída a pensar no encontro que teve ontem com N. que acabou de piscar o olho ao padre.
Crocefissa está a ouvir uma música em que um homem que diz que é um perdedor e pede, por favor, para o matarem.
Cronida está a espreitar pela porta meio entreaberta e tenta perceber o que estão a fazer os pais na cama.
Cunegonda aprende a dizer asneiras em esloveno porque tem um namorado esloveno e quer impressioná-lo de forma negativa. 
Cuzia amassa o pão com as mãos sujas de óleo e olha repetidamente para trás para ver se ninguém a vê.
Dafne tem dois amiguinhos homossexuais e finge namorar com um para que os pais deles não percebam nada.
Dalida faz um esquema no papel, onde explica como é que a energia dos planetas e em particular da lua vai directamente para a sua vagina e para o seu clitóris.
Dalila anda em bicos de pés do quarto para a sala onde estão os pais porque assim acha que vai crescer mais depressa.
Damiana esfrega a cabeça com um champô vermelho e vem-lhe a imagem de que o champô é feito do sangue menstrual da mãe.
Daniela subitamente começa a chorar e depois pára e pergunta ao encenador se lhe pareceu bem.

11 Dez 2020

Mulheres de Itália

Cleo dança ao pé coxinho o twist and shout simulando só ter uma perna.
Cleofe abriu a janela e está a chamar nomes ao Presidente da República, mas nem sequer sabe o nome dele.
Cleopatra é a primeira passageira a entrar no autocarro e hesita. As coisas fáceis sempre a baralharam.
Cloe está a aprender a atar os atacadores, parece um labirinto de fios mas são só dois.

Clorinda experimentou três batons diferentes com três cores bem diferentes e tem ao lado um guardanapo que parece agora ser um objecto de um atelier de pintura.
Cointa acabou de bater no carro da frente e a sua primeira lição de condução acaba como acabou o seu casamento.

Colomba puxa a saia para cima mal sai do prédio, mas da varanda a mãe está a ver e vai contar ao pai.
Concetta está no quarto 36 e grita muito e fala um italiano que não se percebe.
Consolata está a ler uma história de quadradinhos do Astérix e tem a sua mão esquerda dentro das cuecas, junto ao sexo.

Cora está a rever as gralhas da sua tese de mestrado sobre a forma como os instrumentos de percussão foram aparecendo na Europa e pensa que, da primeiro página à última, tudo é perfeitamente inútil.
Cordelia está descontente com a linha recta que faz com a cocaína e farta-se de rir com a ideia de fazer uma circunferência que a obrigue a sair do sítio.

Corinna está ao lado de Cordelia e também sente que ela suga com as narinas a cocaína numa circunferência perfeita que não tem início nem fim.
Cornelia lê um verso de que fala de um remédio que cura a tosse e a tristeza.

3 Dez 2020

Mulheres de Itália

Caterina vê um documentário sobre o Holocausto e faz palavras cruzadas ao mesmo tempo.
Cecilia atira os dados para cima da mesa e já decidiu que se calhar um número par ela dorme hoje com Marco, se calhar ímpar dorme com Claudio.
Celeste faz cálculos de matemática para perceber quanto aço é necessário para o portão da casa dos pais.
Celinia tem sete anos e faz Bum com as bochechas como se fosse uma menina bomba. Tem visto documentários malucos e quer imitar aquilo que não percebe.
Chiara entra na carruagem de comboio e diz ao revisor que não tem bilhete porque é anarquista, e depois pergunta-lhe se ele não se sente frustrado pelo emprego que tem.
Cinzia está prestes a subir para a balança e expira muitas vezes com uma enorme força porque acredita que assim vai ficar mais magra e Gregorio vai gostar mais dela.
Cirilla ensina italiano básico a dois meninos ingleses e ensina propositadamente um erro para se vingar do pouco que a mãe dos meninos lhe paga.
Clara vestiu pela primeira a vez mini-saia e acredita que assim o pai vai finalmente olhar para ela e ralhar com ela e impedi-la de sair.
Claudia está a ler a sina a uma colega da escola e finge estar diante da mão da amiga como de um ecrã da televisão e diz repetidamente para inspirar confiança: estou a ver tudo muito claro, mas enquanto diz isso vai pensando naquilo que vai inventar para a amiga ficar convencida de que ela tem poderes sobrenaturais.
Clelia está a sair da cama descalça; acabou de fazer amor com o namorado e ele ressona e ela não pode deixar de rir quando associa aquele som a um porco com um rosto bem bonito, o mais bonito da universidade. Um corpo de porco e um rosto lindo, é isso que Clelia tem na cabeça e por isso ri muito sozinha enquanto abre o frigorífico quase vazio.
Clemenzia está de joelhos a rezar ao lado da cama da avó que está cada vez mais doente. E como já não reza há muito tempo engana-se na oração e mistura o Pai Nosso com a Avé Maria, mas no meio da oração pensa que o importante é a sua boca não parar de fazer som; pensa que quando ela parar de fazer som a avó vai morrer e por isso Clemenzia não pára de rezar, não pára de rezar, não pára de rezar, não pára de rezar, não pára de rezar…

26 Nov 2020

Mulheres de Itália

Capitolina está deitada enquanto lhe fazem a depilação. Queria pensar noutra coisa, mas não consegue, e como vê mal debruça-se muito sobre si própria porque ela quer ver tudo como se estivesse no cinema.

Carina está na aula de grego e diz sinfonia em grego e fica contente porque lhe ensinaram que, entrar em sinfonia em grego, significa concordar com outra pessoa.

Carla está a dar indicações ao serralheiro sobre como ele deve fazer a janela, e como ele não percebe bem a língua, Carla faz muitos gestos e quem a vir de fora pode pensar que o serralheiro é surdo.

Carlotta está contente a cozinhar para o marido, e a pensar que não devia estar a gostar de fazer aquilo porque já fez vezes demais.

Carmela tem um bilhete para nova Iorque de avião num envelope, dentro da gaveta, e olha para ele todos os dias como se fosse o retrato de um namorado.

Carmen está a cortar as unhas num banco junto à sanita.
Carola está a chamar nomes a Domenico e a dizer-lhe: és um maricas, não sabes o que é uma mulher.

Carolina acabou de ter relações sexuais com o amigo do namorado e está a sentir-se estranha por não estar arrependida. Mas quando ela se está a vestir, é ele que começa a chorar.

Casilda está a fazer uma tatuagem e como não quer que ninguém perceba pede ao tatuador para só fazer meia cruz suástica. Um traço horizontal, um vertical maior, e depois outro horizontal. Quando fizer dezoito anos faço o resto, pensa Casilda.

Casimira está a cantar na igreja e está tão contente por o pai também ter vindo que até se esquece da letra da canção e por isso fica o resto da melodia a abrir a boca a fingir que está a dizer alguma palavra.

Cassandra vai chegar de novo atrasada e está a pensar que talvez diga que o avô está outra vez doente.
Cassiopea pede aos alunos que repitam correctamente a pronúncia em inglês. E está tão farta deles que diz para repetirem a palavra stupids bem devagar e de forma correta.

Catena está a fazer jogging com Cordelio mas o que queria é que ele fosse seu namorado.

19 Nov 2020

Mulheres de Itália

Bibiana está em coma na cama do hospital, mas percebe que os filhos estão a repetir o nome dela para perceberem se ela está a ouvir. Ela faz toda a força para mexer um dedo, mas não deve ter conseguido porque os filhos continuam a repetir o seu nome no mesmo tom.

Bice está com uma amiga a fazer símbolos fálicos gigantes nas mesas da sala de aula.
Brigida é uma escultura consagrada, mas há meses que só consegue comer pão e ver programas de televisão estúpidos. Está a sempre a repetir ao marido que não está deprimida.

Brigitta está ao lado do Presidente na reunião a fazer uma cara séria para mostrar que é responsável e está atenta, mas tem uma enorme dor nos pés por causa dos sapatos novos. Não sabe se vai aguentar a dor, mas não os pode tirar naquele momento.

Bruna está quase a entrar no avião e leva na mão esquerda um terço que, apesar da vergonha, nunca larga. Os meus dedos é que precisam disto, não é a minha cabeça. Não é para rezar, diz Bruna como se pedisse desculpas a alguém.

Brunilde acabou de se queimar, ao tirar um bolo de laranja do forno, e diz foda-se, tão alto, que o pai se levanta da mesa, vira as costas e vai para o quarto.

Calogera está a fazer palavras cruzadas e as últimas duas que escreveu foram: carteiro e revolucionário; e por isso está a pensar se a melhor actividade para um revolucionário não será mesmo a de baralhar as moradas todas.

Calpurnia depois de virar a esquina, olha para todos os lados, abre um botão da camisa e puxa a minissaia um pouco mais para cima. Olha depois para trás como se tivesse acabado de cometer um crime.
Camelia está a jantar com o marido e a pensar que já não suporta vê-lo comer e ficar depois com restos de carne nos dentes.

Camilla está com raiva do irmão mais velho e parte uma garrafa de vidro e ameaça cortar-lhe os testículos se ele voltar a persegui-lo quando ela sai com um amigo.

Candida está a tentar acabar a tese de mestrado sobre o artista Robert Morris e pensa que se o tivesse conhecido talvez lhe tivesse dito para ele fazer uma caixa onde coubesse um corpo gordo como o dela e não apenas caixas para corpos magros como o dele.
Capitolina está deitada enquanto lhe fazem a depilação.

12 Nov 2020

Mulheres de Itália

Belina está na primeira aula de côro mas quase não olha para a partitura porque está a olhar para todo o lado a ver se Benignachega. Ela não quer cantar, quer é ser amiga de Benigna.
Benedetta está deitada na praça a fingir que dorme para perceber se o namorado, enquanto ela dorme, vê o telemóvel e manda mensagens para alguém que ela calcula que é uma rival e por isso fecha os olhos só oitenta por cento e os vinte por cento que ficam são os mais importantes pois assim ela vê tudo e pode depois chamar nomes e dar-lhe um estalo como já deu uma vez e não se arrepende.

Beniamina está com os olhos excitadíssimos a apertar com força o braço esquerdo com um elástico enquanto Acacio a ajuda, mas vai ser Beniamina a espetar a agulha e em pouco tempo a heroína vai colocá-la KO e ela só diz, sem parar: preciso disto, preciso disto, preciso disto.

Benigna está farta de Belina e por isso hoje não vai ao coro e decidiu até ir por outro caminho para a escola. Já lhe bloqueou o telefone e quando a vir vai dizer: és uma chata.

Benvenuta dá um murro no multibanco quando vê o papel com o saldo e magoa-se tanto na mão que começa a correr para ninguém a ver a chorar.

Berenice está a fazer a miniatura do teatro da cidade e diz que acredita na voodoo e como não foi aceite como actriz naquele grupo vai espetar agulhas na miniatura do edifício do teatro para que ele expluda e mate todas as pessoas lá dentro.

Bernadetta está a dançar com Domenico a música Imagine de John Lennon e a apalpar-lhe o rabo para as amigas verem que Domenico é dela e não da Carola.

Betta está sozinha na casa de uma amiga a tentar ligar a televisão, mas são dois comandos e ela não percebe nada do funcionamento daquilo. Irrita-se tanto que esconde um comando de maneira a que a família da amiga nunca mais o encontre.

Bianca ri-se às gargalhadas com o gesto de Calpurnia a falar do tamanho íntimo de um amigo comum. Ri-se tanto que até fica mal-disposta. Nunca estiveste com ele?, pergunta Calpurnia. E depois ri-se de novo.

5 Nov 2020

Mulheres de Itália

Azelia está a correr na rua a grande velocidade e tem um saco de plástico na mão.
Azzurra tem três anos e está a tentar apanhar uma formiga sem a matar, mas já matou muitas porque os seus dedos ainda não são hábeis.
Babila tem as calças em baixo e sentada na sanita lê a “Origem das Espécies” de Darwin e ri-se às gargalhadas, não se sabe bem porquê.
Bambina brinca com as suas amigas adolescentes e finge caminhar como uma modelo acentuando o movimento das ancas para o lado. Tem pouco peito e por isso estica a blusa e diz: isto sou eu quando for uma mulher e tiver um marido parvo.
Barbara discute com uma colega de trabalho, mas por vezes leva a mão à barriga porque tem uma úlcera e não está curada. Hesita entre chamar um nome feio à colega ou à dor que tem na barriga.
Bartolomea tem uns binóculos para observar pássaros para a sua empresa, mas usa os mesmos binóculos para espreitar uma adolescente que vive no prédio em frente e que se despe todos os dias à mesma hora para tomar banho.
Basilia acaba de arrotar à frente do namorado e fica muito corada e pede desculpa, e mesmo se o namorado se ri e diz que não tem importância, ela fica desorientada e cada vez mais vermelha e, subitamente, começa e gritar de uma forma descontrolada como se estivesse com medo de alguma coisa.
Bassilla está a trazer da cozinha um copo de água para o avô que está cego, perdeu a memória e que grita com todos e a insulta: Puta, Bassila, puta!
Batilda joga ténis, mas magoou-se no pulso e agora está a dizer a uma amiga que por causa disso desde ontem aprendeu a masturbar-se com a mão esquerda mas que não está contente.
Beata tem quarenta anos, um cancro, e quando entra na sua empresa obriga todos os funcionários a levantarem-se à sua passagem e a dizerem: bom dia, Senhora.
Beatrice adormeceu e vai faltar ao primeiro dia de trabalho. Vai ser despedida por causa disso e a mãe vai dizer-lhe: sempre foste muito pior que a tua irmã. Ela vai rir dessa frase mas não a vai esquecer.

29 Out 2020

Mulheres de Itália

Azelia está a correr na rua a grande velocidade e tem um saco de plástico na mão.
Azzurra tem três anos e está a tentar apanhar uma formiga sem a matar, mas já matou muitas porque os seus dedos ainda não são hábeis.
Babila tem as calças em baixo e sentada na sanita lê a “Origem das Espécies” de Darwin e ri-se às gargalhadas, não se sabe bem porquê.
Bambina brinca com as suas amigas adolescentes e finge caminhar como uma modelo acentuando o movimento das ancas para o lado. Tem pouco peito e por isso estica a blusa e diz: isto sou eu quando for uma mulher e tiver um marido parvo.
Barbara discute com uma colega de trabalho, mas por vezes leva a mão à barriga porque tem uma úlcera e não está curada. Hesita entre chamar um nome feio à colega ou à dor que tem na barriga.
Bartolomea tem uns binóculos para observar pássaros para a sua empresa, mas usa os mesmos binóculos para espreitar uma adolescente que vive no prédio em frente e que se despe todos os dias à mesma hora para tomar banho.
Basilia acaba de arrotar à frente do namorado e fica muito corada e pede desculpa, e mesmo se o namorado se ri e diz que não tem importância, ela fica desorientada e cada vez mais vermelha e, subitamente, começa e gritar de uma forma descontrolada como se estivesse com medo de alguma coisa.
Bassilla está a trazer da cozinha um copo de água para o avô que está cego, perdeu a memória e que grita com todos e a insulta: Puta, Bassila, puta!
Batilda joga ténis, mas magoou-se no pulso e agora está a dizer a uma amiga que por causa disso desde ontem aprendeu a masturbar-se com a mão esquerda mas que não está contente.
Beata tem quarenta anos, um cancro, e quando entra na sua empresa obriga todos os funcionários a levantarem-se à sua passagem e a dizerem: bom dia, Senhora.
Beatrice adormeceu e vai faltar ao primeiro dia de trabalho. Vai ser despedida por causa disso e a mãe vai dizer-lhe: sempre foste muito pior que a tua irmã. Ela vai rir dessa frase mas não a vai esquecer.

29 Out 2020

Mulheres de Itália – 7

Argelia está perto de uma avioneta avariada e toca na chapa como se o toque das mãos dela fosse suficiente para ressuscitar o motor da máquina.

Arianna está a estudar matemática e por vezes acaricia o sexo do namorado que está distraído a jogar.
Armida está na janela tapa um olho com a mão para ver se o mundo lá fora muda.
Artemisa tem um bebé à sua frente a gatinhar e está a ver um documentário sobre a ida à lua.
Asella está ao lado de Artemisa e diz que os astronautas deviam ter andado assim, a gatinhar, na lua.
Asia está também presente e responde que sim, os astronautas devem sempre gatinhar num planeta novo porque é assim que fazem os bebés quando nascem.

Assunta deixou a torneira aberta de casa de propósito para ver se o namorado repara e faz alguma coisa.
Astrid está a nadar numa piscina vazia, são dez horas da noite e ela nada muito porque está a ficar deprimida e água faz-lhe bem.

Atanasia está a ler um artigo sobre morcegos e a comer um snack.
Aurelia está a dançar uma música reggae com o namorado, Paolo, e está a pensar que quando este for embora ela vai rapidamente telefonar ao Giorgio para ele vir porque ela está muito excitada e ela e o namorado já deixaram de sentir desejo.

Aurora está consertar o manípulo de uma janela porque com o calor a janela faz falta para entrar o vento e para se gritar por socorro se for necessário.

Ausilia faz palavras cruzadas e vê que a palavra morte se cruza com a palavra elevador e por isso fica com medo de entrar num elevador para sempre porque acredita que as palavras cruzadas são os novos oráculos.

Ausiliatrice tem dezasseis anos e pela primeira vez está a experimentar uns sapatos de pontas de bailarina e como estão muito apertados ela aproveita para dizer à mãe de forma provocadora que não quer ser bailarina, mas sim prostituta.

Ave tem noventa e dois anos e a mão treme muito, mas ainda tem voz suficiente firme para dizer ao filho que ele é um incompetente como já era quando tinha seis anos.
Aza acabou de morrer. Foi um acidente estúpido.

22 Out 2020

Mulheres de Itália 5

Ancilla é advogada e tenta resolver ao telefone mais um problema complicado entre vizinhos. Ela sabe que quanto mais tempo durar a má vizinhança mais ela vai ganhar dinheiro e por isso alonga a conversa e finge gostar das anedotas que o ingénuo cliente conta não percebendo que mais uma anedota é mais tempo que ele vai pagar no fim.

Andromeda sobe para cima de um banco porque disse que viu um rato, mas Andreo garante que não era um rato mas um outro bicho qualquer. E diz que um dia vai haver no mundo uma inundação de ratos e essa expressão assusta-a ainda mais e ela começa a gritar.

Angela tem um ar duro e pesado e está debaixo de um motor a confirmar se as válvulas foram roubadas ou envelheceram. Tem óleo na cara e cospe para mostrar que é igual a qualquer outro bruto que está por ali.
Angelica está vestida de bailarina, mas o vestido tem mais de vinte anos e ela já nem cabe nele, nem sabe os passos.

Anita diz ao irmão Cralo – que tem dois anos e não entende nada – que quer mudar para Paris no próximo ano, que já não aguenta Itália e que quer começar uma vida nova e ter um namorado francês.

É mais fácil ter um namorado francês, se viver em frança – diz ainda ela ao irmão que não percebe uma palavra.

Anna lê o jornal e sorri para Alberti. E diz: as notícias estão sem sentido. E depois diz ainda: Vou começar a ler as frases de trás para a frente a ver se, em vez de desastres e mortes, surge algo melhor.

Annabella lê uma carta antiga da mãe e descobre que o pai não é aquele que está na sala há muitos anos, não é aquele que agora está há muitas horas a arranjar as cordas do violino para ela tocar.

Annagrazia está no pátio e chama puta a uma amiga que está no primeiro andar e que se escondeu atrás da janela.

Puta, puta, puta.
Quem rouba o namorado de Annagrazia já sabe que não vai dormir bem durante muitos meses.
Puta, puta, puta, repete Annagrazia.

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15 Out 2020