Fios invisíveis

Biblioteca, Grândola, sexta, 16 Julho

O Luís [Cardoso] lá foi contar ainda uma vez das mulheres da sua vida – a mãe que se desdobrou em mais mãe de onze além dos onze iniciais, a namorada que foi ao encontro das balas assassinas – afirmando assim e sem quebrar o mistério a força das vozes femininas no seu romance-poema, romance-rio. Omnipresentes, quase invisíveis, comme d’habitude. Acabo de saber que quem lhe lança a pergunta, em acto de apresentação, e há muito o lê daquele modo íntimo como só a tradução, a Catherine Dumas assinará recensão para a Colóquio Letras.

Dá-se a reunião bem acompanhada em dia quente, neste espaço novo, que contém rios no coração dos muros, por haver ali uma belamente desarrumada exposição da Ana [Jacinto Nunes], na qual se incluem as ilustrações que abrem aquela «sonata para uma neblina». Esquecendo as salas, exemplo de uma arquitectura fechada sobre si, ignorante de funções e destinos, ali se encontram dezenas de rostos em pose. Gosto do jornal que diz ao que se pode ir, sujando as mãos, com singeleza, sem contar em demasia. A pintura da Ana, para captar a vida, surge sempre irrequieta, como que inacabada, a caminho de outra coisa, o gesto do pincel em busca da forma exacta das suas personagens, esculpidas na cor e respectivos movimento e temperatura, mulheres e animais, abraçando-se, quebrando fronteiras, celebrando nevoeiros. Um jazz no qual o tecido pode ser instrumento. Invariavelmente, os rostos olham-nos, desafiam-nos para diálogo em fluxo, fonte brotando da fronte. Oiço dos vários quadrantes que só somos na mistura com o natural. Nasceste da cor e a ela voltarás. Aqui e ali, as peças de cerâmica sublinham isso mesmo pois abrigam raízes, fazendo nascer do barro cortinas de verde, bambus onde se escondem os ventos, outros verdes esguios que podem bem dar pássaros. «Entre nuvens e papiros», assim se chama a mostra e no nome se (des)arruma o assunto.

 

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 17 Julho

A propósito: a SOS Racismo lançou um «Dicionário da Invisibilidade» contendo, além de belos retratos do André [Carrilho], uns bons milhares de entradas, com proveniências e autorias diversas, para «abrir uma brecha para a discussão e alargamento de horizontes sobre a questão da invisibilidade». Podem discutir-se os critérios, talvez demasiado abrangentes, e em qualquer lista sobra (não digo) ou falta sempre alguém (aqui sim, Natália Correia, exemplo exemplar). De qualquer modo, fica apresentada uma multidão de ladrões de fogo, que nas várias áreas e geografias, se entregaram, se entregam a uma causa, alargando horizontes. Seiscentas e tal páginas que dão bom princípio de conversa. Gosto de encontrar, logo abaixo de Tina Modotti, uma entrada para o Maçarico (1960-2014), nome que vestia o Vitor Ribeiro de nascimento. Era, fica escrito, traficante de sonhos.

 

Paço da Rainha, Lisboa, terça, 27 Julho

No diário fingido, que o são todos, esfregam-se mãos cuspidas para decidir caminhos nesta «rua da estrada»: enfrentar os mortos que nos interrompem os dias ou fugir pelo não. Folgo em ter amigos entre os que escavam obituários nos jornais e entre os que possuem as chaves dos portões de cemitério. Acabaremos todos por sair impressos naquelas páginas, em certo sentido, uma folha vibrante do quotidiano, a outra lençol de amargura na bainha da cidade.

Assim de atraso levo meses, mas que fique escrito que não pode passar sem lágrima o Vasco, o Otelo [Saraiva de Carvalho], o [Roberto] Calasso e o Pedro Tamen, assim por junto e sem sentido. Começando pelo fim, o poeta que foi, sem deixar de o ser, tradutor, editor e até administrador, vai faltar-me como orquídea cuja morte não apagará a culpa. Deixar de regar, de puxar o sol, talvez de soletrar em direcção da suprema elegância merece castigo. Falhei por não o ler mais, apesar do inevitável. Ergo mão que nem pelo gesto atingirá o leitor dos mitos e assim. Calasso contém o movimento das rochas, também no lugar de boas vistas do editor. Celebrando sem parar o movimento líquido do pensamento que se ergue das linhas correndo para o mar. Levantar a mão não arranca raiz. E nisto me encontro no dizer em desenho do Vasco, que compunha corpos explodindo. Dizer pelo nariz é bufar e por aí vai o comentador de ideias despenteadas, a quererem deixar a invisibilidade. Vai onde? Vai de encontro. Lá longe, pá, ergue-se o Otelo. Eu que sou das margens, apesar dos geómetras-vigilantes de algibeira se enganarem nas medições míopes, vou directamente ancorar no destruidor das âncoras. O que nos aproxima de casa não impede o voo. Ele foi quem apontou, por momentos, maneira de fazer do cais uma nuvem. Ou melhor, disse apenas que, para lá do aparente, o impossível estava ali: tomai e comei. Os quatro que partiram agora ajudariam a explicar. Ou a perguntar, que não há melhor maneira. Apontador de mitos, um, a desfazer a lápis no minuto pelo outro, se fosse caso disso, enquanto aquele gizava a logística do golpe e o poeta consertava sapatos e a luz. «Por cave deserta/ entram hábitos e ruídos/ verdes montanhosos, cascata/ um rio de água de Verão.// Estou só eu e o martelo/ e a minha mão opressa/ ou estará não sei que mundo/ com a palavra ou sem ela?// E eis-me então adivinho/ dos mistérios que atravessam/ a janela onde perpassa/ a luz que mal me ilumina/ e é o sal do meu pão.»

 

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 31 Agosto

A Patrícia Mamona voando fecha de boa maneira este dia pontado de intensidades. Resolvi entrar em «Pústula», outro perturbador filme de filmes da Bárbara [Fonte], exposto na Galeria da Casa Molder. Pendurado na parede velha, que a Bárbara pinta com a câmara, dando a ver sucessivos nascimentos, na ligação com a figuração clássica, a da dor sobretudo e à volta do religioso, essa encenação do essencial. A artista desenvolve uma liturgia em torno da natureza, da natureza das coisas. Nos interstícios do que passa e do que fica, do que se fixa e do que mexe, no corpo, na paisagem, na mescla líquida de um e outra. Vem depois o peso e as maneiras de o vencer. O vento que contém os fios que erguem o volúvel, o insustentável. A mulher voa («paralítico» do filme, algures na página e a sair dela). Vai acontecendo o arfar denso da lentidão ao limite, que cose os fragmentos da quase narrativa. Cada livro contendo pinturas faz-se espaço do sagrado. São momentos duros, rasgados e agrestes, beleza em carne viva, imagens fortes que ecoam em nós, por muito tempo e nos vários tempos do desperto e do sonhado. A cada um importa voltar e revoltar, como missal para nos explicar as cicatrizes de cada dia, o tule que se faz fumo, um fio de sangue branco leitoso que se puxa das chagas, dos mamilos antes de correr pelo negro, desperdiçando alimento, talvez vida. A casa é ruína, lugar de repouso das próteses, arrumo das naturezas mortas, o deitado que pode ser morte, raiz, mas também antena procurando céus. As lágrimas que foram areia, são agora fitas, fitas que não escorrem, para sempre brilhando esvoaçantes. E depois, ainda prolongamento de si, um enxoval de vestidos-prisão, a banheira e a água feita roupagem. A vida é crosta na nossa pele. A terra, lá fora, enxovalha. Há que a sentir com o corpo todo. Só com o corpo todo se penetra neste fascinante trabalho de inquietações. Daqui ninguém sai vivo. Da mesma maneira.

4 Ago 2021

Mão Dita e por dizer

Horta Seca, Lisboa, quarta, 14 Abril

Abrimos as janelas de cada dia para nos queixarmos do tempo, assim ele nos fosse exterior. Portanto, tenho as minhas razões de queixa. Cada passo dado, cada gesto emitido, cada esforço, as ideias arrancadas pétala por pétala de uma flor por existir, tudo participa no coro de tragicomédia que traz à cena A Grande Avaliação. Sempre detestei exames, antes de perceber que passamos a vida na navalha da examinação. Talvez o momento e o movimento que atravessamos seja agravadamente mais de balanço por tanto conter de desequilíbrio.

Uma vez mais a pretexto de festival, no caso o 5L que se anuncia para Lisboa nos primeiros dias de Maio, depois da falsa partida de 2020, preparamos outros dois volumes da colecção Mão Dita. Nascida por lembrança e insistência do Luís [Carmelo], que acabou por criar a Nova Mimosa para dar resposta cabal às suas ânsias, pretendia ser versão portátil e laboratorial, ensaio súbito, recolha do volátil da voz alta, chamada para tema e trepidação. O grafismo, muito discutido com a Luísa Barreto sublinharia isso mesmo, com os dois pontos de arame e uma capa de intervenção plástica sem mancha de tipografia, sem guilhotinar as sobras que resultam da dobra dos cadernos.

Testámos logo limites com as 82 páginas do «Tratado», do Luís, que chegou a ser finalista do Prêmio Oceanos, com a erudita abordagem corsária dos grandes textos. «Nunca houve inveja do futuro/ na linguagem das aves […] Nunca houve passado/ na linguagem dos homens». O grande leitor enfrenta espelhos e fantasmas, desdobra paisagens e alinha as invenções. Fôlego assim talvez desminta as premissas, mas um laboratório pode ter correntes de ar…

Mais alinhado com as intenções, Felipe Benítez Reyes fez pequena antologia dos seus poemas que tinham partido ao encontro da sombra de Pessoa. A ela voltamos com a tradução para cabo-verdiano da Ode Marítima, pelo José Luiz Tavares – quem mais teria o atrevimento? –, ele que exilou o mar dos seus versos de ilhéu. «A, tudu kais é un sodadi di pedra!/ I óra ki naviu ta sai di kais/ I dirapenti ta odjadu ma abri un spasu/ Entri kais ku naviu/ Un angústia risenti, n ka sabe pamodi, ta toma na mi,/ Un nébua di sintimentu di tristeza». («Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!/ E quando o navio larga do cais/ E se repara de repente que se abriu um espaço/ Entre o cais e o navio,/ Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,/ Uma névoa de sentimentos de tristeza».)

A dita colecção quis-se ainda hall de entrada. Faça favor, Liliana S. Ribeiro, com as perversas arrumações, da infância, da paixão, das varandas, dos objectos. Entre, Ana Freitas Reis, trazendo forte «Cordão» ligando a universo no qual as palavras possuem carne e portanto física, peso e alcance. Avance sem medos, João Rios, aquele que usa o sarcasmo para descascar os verdetes da História, sem deixar por isso de recolher das marés restos e sujidades do quotidiano. Foi o único a assinar dois títulos e em pleno lançamento do segundo apercebeu-se que havia datas redondas por celebrar. Apesar de faltar mesa às preparações onde nos temos encontrado permitiu com mais facilidade aquilatar da pujança do sopro. Está para mesmo depois do intervalo, esta singela celebração de mais um quarto de século a respigar. «nenhuma idade / é mais sólida/ que as ruínas da casa».

A esta listagem dos novos soma-se agora os velhos, amigo e poema, resgate também de edição perdida há décadas nos dentes da engrenagem. «As Portas de Santo Antão», do mano Luis [Manuel Gaspar], atira-nos para pedaço perdido da alma da minha cidade, bastando para tanto que nos atravessemos neste delírio de atenções, ao lugar, à palavra, às sobras, às ruínas. Seremos bailarinos, acrobatas, nadadores, trolhas, esfaimados e clientes mas sobretudo observadores. Seremos rima e cartaz e tudo e mais alguma coisa. Até Lisboa, a que nunca existiu a não ser entre nós. «Há milhões de criaturas,/ Homens, mulheres e petizes,/ Que dão saltos e pinotes/ E arrebitam os narizes// Numa algazarra medonha, / Procurando a direcção/ Que os leve sem demora/ Às Portas de Santo Antão.»

O Nuno Viegas [algures na página, uma hipótese de capa não escolhida, para não retirar surpresa e para acrescentar valor a este cantinho de licores], que põe humor nas cores, interpretou bem o caos criador. Junta-se a uma galeria que inclui as cores e interpretações de Pedro Proença, José Barrias, Pedro Pousada, Eugénia Mussa e Francisco Vidal.

Em 2018, no voluminho #01, guilhotinado por engano consuetudinário, a Inês [Fonseca Santos], senhora de várias madrugadas – que, aliás, foi assinalando durante o confinamento com leitura diária do céu que lhe assiste –, não se atreveu a vaticinar que acabaríamos todos em uma «Suite sem vista». Bom, suites para os mais bafejados, assoalhadas interiores para a maior parte. A rapariga aguarda que nem cerejeira o desabrochar violento da esperança. Anseia pela colheita, outra além da da solidão, da do tédio. Ia tocando o sangue e Deus, assim como teclas de instrumento. No corpo, como na cama, de olhos abertos. «A rapariga possuía metade da vida./ Estava demasiado velha para a fuga:// regulava a temperatura das palavras/ como quem copia com os dedos// o tom do coro da missa, em si menor.// A rapariga respirava fundo na suite sem vista, recordava:/ a vida inteira, cronométrica, a vida inteira //como quem copia com os dedos o ritmo / da pessoa errada.» A rapariga e nós com ela.

21 Abr 2021

Cadáver esquisito

Cândido dos Reis, Cacilhas, quinta, 8 Abril

 

Do banal em estado puro. Desces a inclinação das Flores cruzando memórias que perpassam. Encolhes os ombros, ias trocar saudações, evocar brincadeira antiga, arrepio dolente, desejo celebrado, mas mandam as regras que não te interpeles a ti próprio nos cruzamentos. Dá-te por contente se continuares a ter tento nos desdobramentos de ti. Pessoa, que deu nome a pharmácia além do mais, não ficaria mal em medicamento. Não avie o genérico, tome de oito em oito horas 7 miligramas de Pessoa, em comprimido ou suspensão oral, vai sentir alívio imediato nas dores das várias cabeças, nas ânsias das mínimas metafísicas, na aspereza prática das articulações dos mega-processos dos quintos dos impérios. Mundos inteiros se erguem e despenham para um se tornar pessoa.

Para os que atravessam o rio nas tormentas do habitual, não deve sobrar sentimento sobre sensação, ponte de romantismo, mas perguntas-te de cada vez por que não o fazes mais e a despropósito. Não custa nada, o bilhete que te muda este chão que pisas tardando em estender-se horizonte, granito polido a que se seguirão as ondas penteadinhas a beijar a quase escotilha antes dos múltiplos pavimentos da outra banda, tantas peles. Puta privilégio, adivinhares nas costas a cidade-fêmea dispersa, com os seios multiplicados a acolher as carícias do rio. E no cais movente onde atracas demoras a erguer o olhar para que o deslumbramento te tome com lentidão máxima.

Sem parar, que não o permite a esparsa correnteza dos cruzadores. As calças sujas da frente contam histórias, a boazona espalha indiferenças com intenção, as rotinas do Gingal estão desde cedo dispostas, abertas à interpretação, a voz a vender ao saco, que fruta?, que vitualha? Abancas na borda acertada de afluente, perpendicular ao Tejo, ilha por entre subidas e descidas, que arrastam olhares e comerciam a matéria dos dias.

Estranhas o xadrez posto nas mesas, singelos monumentos à inteligência e ao jogo . Estranhas o que parece sino descido da torre para badalar nas escadas da igreja que deve ser matriz desta aldeia. Baloiça o negro, mas os teus pesares são mais negros que o dito.

Estás sentado à mesa para acertar detalhes últimos de projecto que tem tudo a ver com torres e cavalos e bispos e peões em movimento desconcertante. Alguém que sabe abrir os segredos de certas substâncias, combinar levezas e amargores, o líquido e a luz, ou seja, um aprendiz de feiticeiro que também sacrifica à leitura resolve fazer a mais perigosa das jogadas: e se? O João [Brazão], sabendo do interesse de alguns autores pelas inesgotáveis matizes da cerveja e do que se esconde no gesto de beber em comunidade, desafia-os para um cruzamento. «Cadáver esquisito», receita surrealista para a criação ilimitada, será doravante também nome de bebida com muito para contar. Cada um dos seis rótulos do volume primeiro terá um conto, iluminado com a ironia do Nuno [Saraiva] e com design abrangente e delirante do Marko [Rosalline], que vai ao ponto de querer documentar o processo completo em busca essência da criação. Foi dos primeiros a surpreender-te com o lume da paixão e logo grande cicerone das tradições e dos sabores. Muito antes dos ventos da moda, o mano Luís [Afonso] fez da saudosa «Vemos, Ouvimos e Lemos» lugar de peregrinação, tal a diversidade de experiências que oferecia, rimando com os livros e o mais. Pertence-lhe a descrição do néctar, a servir em garrafa de 0,75 litros e logo adoptada pelo mestre cervejeiro: «um pouco turva, com tons de âmbar claro e uma espuma cremosa e persistente. Além de um sabor de estilo belga, com notas de especiarias e banana, aroma e amargor do lúpulo, num final seco». O embaixador Afonso [Cruz] transformou a artesanal beberagem em causa, literária e filosófica, dando-lhe mais sabor e profundidade. O explorador das estepes do pensamento, que palmilha por todos os meios existentes e por ele criados, Luís [Carmelo] usa a pequena garrafa como bordão e báculo. Outro que a manobra que nem bússola, também no afã de descobrir continentes, reacender vulcões ou matar a sede é o Valério [Romão]. Quando foste a Curitiba ao encontro do Paulo [José Miranda], entre o aeroporto e a sua casa tiveste curso acelerado com degustação e versos. Aliás, a estada tornou-se afinal viagem ao coração do universo, a que só se acede por estes degraus. O amargor nunca mais se reduziu a amarguras ou amargos de boca. O sexto conto coube-te a ti, que pouco mais sabes que beber. Cada um na sua garrafa e todos em livro, não podia ser outro o modo. A força da coincidência por a morte rainha desta partida, antes ainda de encontrado o nome. Pormenor para futuras conversas. Vai aqui na página um retrato à la minute do caos de onde surgirá o apuro e a vertigem. Diz o João ao Marko, parece que chocaste de frente contra uma parede e entornaste todas as garrafas.

Um almoço é orquestra sentada. Puxa aí o embondeiro aqui para a cantina. Umas horitas para ajustar o pretexto do afazer, a ele voltaremos que nem refrão que se enxota e não pára de picar. Não deixam de desfilar mais uns quantos, desaguando-te no peito profundezas e desabafos: és antena desatinada tendo por base um convés. A terra será morena, a pescaria infrutífera, o amor dorido, o desafinanço irritante e Deus que se atrasa. Atenta no lábio antes do sopro, dos dedos na corda, no que locomove a peça no tabuleiro. Sim, a cadência é de onda.

Já a pisar a volta, no quiosque de afogados e de marinheiros ainda encontras velho conhecido desaparecido em combate com quem riscas mais outro projecto no cabo do revólver, talvez bisnaga vira-bicos. Depois o sol põe-se a desenhar âncoras nas palavras e nos gestos dos que por ali cirandam como piões de destinos desatinados. Trata-se agora de lavrar as pequenas ondas. E subir a rua de regresso. Que «amargosto» trazes da outra banda.

14 Abr 2021

Vil e apagada tristeza

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 6 Abril

Lisboa – que nunca foi de se esplanar ou jardinar e perdeu aquela maneira de se viver cidade nas praças-catedrais que são os grandes cafés – está sentada no meio da rua a celebrar a Primavera do seu descontentamento. Os indicadores postos em gráficos e nas opiniões médicas que governam as nossas vidas de doentes por acontecer mandaram entreabrir. A impaciência empurrou portas, janelas e postigos, afinal forma de abrir no fechado. Dizem que seremos salvos pelo tamanho do intervalo, da interrupção do toque e da conspiração. O mundo parece disco riscado e o mais provável será o regresso à casa de partida que arrisca coincidir com a prisão. Exagero, claro, excepto para os mais velhos, que perderam as migalhas de autonomia e estão arrumadinhos em casas-forte de acrílico. E a da Gadanha anda em azáfama tamanha que arrisca esquecer-se de um ou outro que a chama em tonitruante silêncio deixando de comer. Queima esta coisificação dos nossos queridos velhos.

«Atentava naquele turvamento de palha-de-aço pousado em mãos ambas: curiosas formas têm as nuvens de arder. Tivera sucedido em papel desenhado e o aludido ganharia o desconchavo que as partículas em suspensão assumem quando se dá a ver o pensado. Naqueles espelhos enxertados em céu são sempre múltiplos os estratos, o roçagar das quase esferas expandindo-se em inquieta imperfeição, com rugas e refêgos a cambiarem de lugar, o ténue brincando com o sombrio. Atravessam as configurações das coisas como se fossem atalho. Brotam das paredes e acorrem a colhê-las com a palavra salitre. Se o azul perdura no lápis-lazúli, as nuvens reencarnam nas trufas: assim se deixam alcançar. Está em vias de extinção a arte que reivindicava a sua captura e domesticação, que parece sobreviver tão só na prerrogativa dos zangados. Vil e apagada tristeza, esta do bom tempo estar condenado a ser sem nuvens.»

Por causa do «Diário das Nuvens», tenho tido os dias contados. Com este acabado de passar pelos seus olhos, leitor, faz oitenta que começámos a brincadeira do toma lá nuvem, mete-lhe partículas dentro e vai estendê-las na rede a corar. Tal o cão com o seu invejável afinco atrás da causa, pus-me atrás das palavras. As leves soltam-se, as pesadas estrumam. Muitos destes poemas em prosa brotaram, pétala e espinho, copa e raiz, das tonalidades que cada palavrinha de nada pode conter. Atentemos na palavra coisa: parece nuvem de tanto lhe caber. O desgaste da oralidade, mas também as fendas que suscita, deram uma ajuda neste trabalho oficinal. Ficam por arrumar várias ferramentas como a repetição ou o neologismo metido a martelo. Tenho que lhes pintar a sombra na parede para que conheçam o sítio de repouso. Por falar em genética, a cidade e a casa cruzaram-se nas atenções. Certa canção diz que a casa é onde dói mais. Esta cidade dói-me no peito. Devia dizer como alguém próximo nos diz: não te metas na minha vida, não entres em mim. Já vai tarde. Outras criaturas suscitadas ficam por ora em sossego, por junto com mais obsessões de trazer por casa. A proximidade forçada não significará ossatura de domésticos frankensteins, colagem de avulsos. Valeu pontos também o ensaio, aquilo que se dá quando alguém pega no objecto procurado com energia e inteligência repetidamente treinadas, evita as investidas de cada um para lho roubar ou impedir progressão, e passa o risco. Em outra disciplina cumpre-se na tentativa de atirar projéctil de peso bem medido além da linha, o conjunto circunscrito à secção de uma circunferência por completar. Jamais pensei que a geometria, mais ou menos descritiva, se tornaria companheira. Passei a vida a traçar linhas de terra invariavelmente sujas, portanto dignas de punição.

Falando sério, devo obrigadar o João [Francisco Vilhena], por me ter oferecido este esbelto álibi para o torpor em que me fui deixando cair. Leituras prementes, projectos exaltantes, afazeres solenes, nada brilha no nevoeiro. Para cumprir a regra do jogo, ele mais comprido, que eu cumpridor, interrompemos hoje a cadência jornaleira.

Continuaremos ao sabor de apetites e com mais uns quantos filmes (os quatro já atirados ao ar pulsam em https://abysmo.pt/diario-das-nuvens-de-joao-francisco-vilhena-e-joao-paulo-cotrim/) e manda o inevitável que, além de prolongamento expositivo, pensemos em livro. Para variar, o chão está cheio de ideias, mas na neblina anda-se meneando as mil cautelas como a centopeia. É enorme a tentação, aliás costumeira, de erguer castelos nas nuvens.

Não foi desta que escrevi sobre as perspectivas, os enquadramentos, as sequências significativas e os acentuados agravamentos que o João foi fazendo, mas troquem, na penúltima, escultor por fotógrafo e temos um dia feito.

«Houve tempo. Houve tempo em que os escultures eram errabundos, passageiros até da passagem. A vida por inteiro em estaleiro, palácio agora, catedral na passada, palheiro e serrania, aqui como ali. Pegavam no barro, davam rosto ao medo e partiam. Assim com o mármore e o prazer, o lioz e a alegria, o bronze e a fúria, o ouro e o amor, a água e o espírito. Enfim, a matéria e a mão, puxada da mente. Esculpiam em movimento o que fica, mas sem reduzir fatalmente essas formas à estatuária. Ou desconsiderando os fins últimos: as altitudes se certas na determinação fazem-se portáteis e os bolsos armam-se casa. O atrito estica os homens que andam com as suas dedadas até se tornarem coordenadas condenadas ao enleio. De compridos, cumpriram o seu tempo. Cumpre agora o teu. Perplexo.”

7 Abr 2021

Delirium tremens

Horta Seca, Lisboa, sexta, 26 Março

Diz a velha sentada na borda na cama do hospital sem chegar com os pés ao chão, antena sem ligação à terra: são muitas as frases por que passa um homem. No exacto instante – eu morra já aqui na medicina legal fazendo haiku se não foi assim, pelas alminhas da minha mãe, que tinha pelo menos duas além da da mulher a dias de quem ela gostava bué, pela saúde dos meus filhos que nunca tive e por isso morreram saudáveis – passajou uma mudança de sexo que mal a ouviu logo se engasgou. Não havia intensivista nos arredores pelo que teve de ser o quebra-gelo a descalçar a bota. O voluntarismo não resolveu o problema dado a dita ser alta e de atacadores, ou seja, o tempo passou naquele fascinante manuseio entre cirurgia, fala de surdos e truques com cartas. Anunciava-se a desdita, alguém afina a navalha, ninguém afia a voz. O fado é um drone com baterias de longo alcance. Posto isto, que não nas redes, o sexo em vias de sintonizar identidades ia ficando roxo pascal, tipo vindo de sangue de boi a caminho do amarelo de nódoa negra pisada, não tenho presente o pantone. Era grave. Uma gravidade agravada pelo peso dos protagonistas e por não estar pronto o directo para o programa da tarde, perdeu-se a oportunidade, que rolou redonda em câmara lenta para sarjeta. Em câmara lenta era mais emocionante, em câmara lenta tudo se faz, em mais e melhor.

A velha pigarreava para aclarar a deixa, velha queixa, querida gueixa. Não te esqueças onde vais, um perigo em contexto hospitalar, onde se perde gente à toa. Alguém lhe daria a atenção devida, mas era de morte: os sucedidos não paravam de se suceder com sucessível sucesso. Fugiram protocolos de psiquiatria em debandada psiquiátrica.

Quem o diz em voz alta ou alta voz? No segundo piso, afirmou o tarado dos diálogos de séries de horário nobre e grande público, ou grande pobre em erário púbico. Não me fodas, a plateia não cresce por mais que a regues, respondeu o marado da ontologia. Isso é noutro serviço, insistiu o primeiro, o do segundo piso, em cena típica de parada e resposta, que, cá está, convém dar-se no rés-do-chão das novelas de cordel. Neste entretém, sem contar com os que arrefeciam já o mármore frio, faleceram para lá de muitos. O esquecido sexo que queria apenas meter a mudança de genitais deixava-se ir abaixo.

Entretanto e tão pouco, a velha, ainda e sempre ela, golfava ininterruptos ditados. Uma vida não vale nada, mas nada vale uma vida. Que pode uma mulher trespassada pelos balões de fala fazer? Que pode uma trespassada fazer com a mulher que fala pelos balões? Pode a haste do balão fazer de falo na fala? Quem tem balões para fazer a fala confessar uma mulher? Impasse. A imagem congelava sem apelo nem agravo, que os corredores são longos e o conselho de ética hesitante, em ética hesita-se mais e melhor: sacudida como a folha de cantos redondos do velho raio-xis a despir o esqueleto ou pendurada tal o ícone búlgaro da virgem tão mexicana que os chineses não conseguem refazer em plástico. Não me desminta, interveio logo o imagologista de seta de rato na mão, por causa dos pontos de interrogação no relatório.

O trabalho que dá encontrar umas boas setas de saltear – armou-se agora este que se assassina, perdão, assina, e se espelha, perdão, espalha estas linhas em bom. Tom de tonto. Trabalho obscuro e solitário, mas que alguém tem que fazer, o de montar serifas nas bordas derrapantes das letras para facilitar a literatura de viagens e, quando muito, a escala. De cerveja escaldada tem o gato medo.

Enfermeira ao piso, enfermeira a fazer-se ao piso. A voz off estava mais on que a governação. Voltava a haver razões para tanto. Na secção das partes, em concreto a das próstatas a prazo, havia alegria em demasia, não eram trocos, mas circunstância agravante. Depois das raspadinhas, naquela hora dava-se por iniciado o período fatal dos lançamentos de algálias presas. O vídeo-árbitro não se conseguia entender-se, nem em debate aceso com a escola de Frankfurt, acerca da dosagem certa de urina para se considerar grande penalidade.

O início é sempre a melhor maneira de começar, disse alguém ao expirar. Temos que promover a senhora a Velha e pôr-lhe fim. Vede bem, tanta palavra gasta para maiúscular um vê. Conspiração dos mais gastos pulmões haviam armadilhado a supracitada vítima com subterfúgios de alto gabarito, cultivados por junto nas caixas dos bichos de seda e nas gavetas de metal com gatilho das redacções esfumaçadas do final dos meados do século passado, mal passado, enfim, em sangue. As caveiras são agora ímans de cores folgazonas de pôr nas superfícies alisadas, as das geleiras como as dos gavetões da morgue. Um desrespeito. Diz o despacho que a despachou: a Velha sentada na borda na cama do hospital sem chegar com os pés ao chão, raiz a perder ligação ao céu, A-da-gadanha é morta de morte matada, embebedada, embebida, muito dada, contas feitas, tão só emprestada. Volta a ser grave demais para ser verdade. Portanto, passível de Inquérito, aguardente mais universal que o proverbial canivete, boa até para as varizes se esfregada. Ponto final apocalítico, que a mordedura da moral da história contém raiva: beija as mãos de que se alimenta.

31 Mar 2021

Prova de vida (bis)

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 13 Março

 

É raro ver a mão por si só. Dançarina, agita-se à frente do peito, prolongamento dos olhos, alargando a área de influência da voz. Ferramenta, fecha-se em força, desmultiplica-se em função, alicate, bisturi, seringa, chave, bandeira. Instrumento, vai a cada canto do palco e do sopro e das cordas. E assim com os corpos, aquele de que faz parte ou alheios, para tocar e, portanto, aumentar. Ou repousa por sobre partes outras, recolhida às axilas, à timidez e conforto dos bolsos. Tem que se apanhar distraída, cansada, como que desarticulada, de um lado veias, do outro linhas. Vejo-as a sacudir o pó do álbum e deixo-me vaguear até ao tédio fatal.

«O meu pecado era não ter dezoito anos. A norma não permitia o desejo. E o senhor de azul não parava de o repetir. Que não, imensas eram as desculpas e os lamentos para tudo ser resumido e concluído num «não». Redondo. Não podia entrar no bloco de granito branco. Que não e pronto. Na Biblioteca Nacional só podia entrar depois de ter aqueles anos cumpridos. Foram tiros na minha curiosidade. Recolhi à timidez e desci os degraus, entre anjos de saber. Há-de haver algures um nome para os «guarda-lombadas». Guarda-livros é para quem neles guarda números. Anjo-da-guarda também não se aplica, que esses evitam acidentes. Tendo os livros alma, serão as bibliotecas céu ou inferno? No Campo Grande há um enorme purgatório cheio de almas penadas.

Durante oito ou nove séculos, artistas e santos, campónios e burgueses comeram a poeira daqueles caminhos, pintaram aqueles ícones, construíram e reconstruiram aquelas paredes, fecharam-se sob a ocupação otomana, abriram-se aos ventos da Renascença Nacional Búlgara, padeceram as proibições comunistas, acolheram o seu fim.

Durante oito ou nove séculos, ressoaram os sinos pela floresta que esconde o Mosteiro de Rila, e sem por isso afectarem o silêncio prenhe dos santuários. Cerrada a porta principal, o mosteiro torna-se castelo inexpugnável. Mas a entrada fundamental não se fecha. Os peregrinos acedem aos manuscritos e anotam-nos. É cedida passagem ao povo que aí se perde nas hagiografias pintadas do fundador, o eremita S. João. Anjos, somos todos anjos.

Qualquer um pode tocar as iluminuras. Qualquer um pode trazer pó das lombadas nos dedos. Qualquer um pode abastecer-se de metáforas para o caminho. Ou ler, livros d’alma que por lá não vi outros.»

Alma minha, revista Ler

«Falta, portanto, uma etiqueta para o bom encontro dos seres amantes. Nada de transcendente, uma conversa tu-cá-tu-lá sobre as geografias respectivas do corpo e prazer. Fora da cama, enfrentando a ignorância sem temores nem culpa. Lá dizia um doutor norte-americano que a libertação sexual significa o direito a saborear todas as partes do corpo, o direito de fazer carícias proibidas civil ou religiosamente, o direito a ser sensual e exuberante em vez de mecânico e solene. (…)

A intimidade exigida para o sexo oral é tal que raramente se encontra fora de uma relação amorosa. Por isso, dizem alguns, quando a aceitação do outro é alcançada torna-se subitamente a expressão última do amor. Pouco importa se o figo é comido da maneira correcta ou vulgar, descritas na versão de Herberto Helder do poema de D. H. Lawrence, «Figos» (ed. Assírio & Alvim): “A maneira correcta de comer um figo à mesa/ É parti-lo em quatro, pegando no pedúnculo,/ E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante rósea, húmida, desabrochada em quatro espessas pétulas./ Depois põe-se de lado a casca/ Que é como um cálice quadrissépalo,/ E colhe-se a flor com os lábios./ Mas a maneira vulgar/ É pôr a boca na fenda, e de um sorvo aspirar toda a carne.”»

Sexo oral: A maneira correcta de comer um figo, revista Cosmo

«Para que serve o sono senão para dar à alma uma oportunidade de preguiça? O descanso é a miséria do futuro, mas o trabalho é a ocupação dos tristes. O sono é uma derrota. De olhos abertos, quando os outros dormem é a máxima para os que, mesmo quando os candeeiros se apagam, lhes basta os mínimos para se conduzirem pelas ruelas obscuras. (…)

A vida sabe ser um enjoo e daí que os vómitos mais fundos, mas também os mais fecundos, sobre a humana condição surjam nas navegações noctívagas. A sensação amarga de nos cuspirmos é uma metáfora do desejo. É tanta a vontade de abandonarmos o navio-corpo ou a viagem-vida que nos surpreendemos com a energia do rasgo, com a força que parece vir do nosso centro mais profundo, mas que é só estômago. A digestão dos dias também parece arrotar nos sonhos, mal a luz se ausenta para parte certa.

Por tudo isto, e mais alguma coisa, a noite é, como só no feminino, a suprema surpresa do amor, o sopro perfumado da inspiração, a mais fina concentração, a mais impossível das possibilidades. Por tudo isto vos digo que a noite está em vias de extinção.»

Crónica, revista Tango

«Os marinheiros, a base da pirâmide hierárquica, caçam a ferrugem por todo o lado e, viagem após viagem, pintam cada centímetro quadrado, ocupam-se com milhentos serviços de manutenção numa luta inglória contra os elementos. Não se consegue, todavia, evitar tédio. Nem para os que procuram aprender as subtilezas da língua das correntes (que vão sempre para algures) ou do sentido dos ventos (que obrigatoriamente vêm de algures).

O mar é nisso traiçoeiro. Atrai porque dono de belezas mil, senhor de encantos misteriosos, para , tendo-nos à mercê, nos castigar com o tempo, uma paisagem de aparência sempre igual, um ritmo sincopado, hipnótico, que nos maça o corpo e adormece a alma.»

Sem destino, revista Grande Reportagem

«Se soubesse desenhava um mapa. Mas esse é o meu segundo desgosto, não ter ainda aprendido a desenhar. E muito menos mapas, que pedem rigor na concepção, firmeza no traço, poesia na maneira de passar ao papel os caminhos e as montanhas. Se soubesse compunha assim uma viagem. Só que esse é o meu primeiro desgosto: não aprendi ainda música. Estive já em África, o que pode ser considerado um princípio, mas não consegui mais do tamborilar, sem nunca desenhar mapas nem compor viagens. É por isso que, nos momentos fáceis, mas sobretudo naqueles em que viver pesa e cansa, a música desenha horizontes e das montanhas pouco mais que pó nos passos de quem anda.

Carnet de routes, revista Ícon

«Flop Traz consigo, do inglês, o som de sólido mergulhando em líquido, ainda que sem estardalhaço. De tanta queda ter dito, flop tornou-se, também na nossa língua cheia de trapos alheios, fracasso ou insucesso. Quanto maior for a subida, mais brutal a queda. A gravidade da observação aplica-se a certa operação policial que, com estardalhaço e brutalidade, caiu pesadamente no abuso e na ineficácia. Flop possui a suavidade da brincadeira com pedras saltitantes à beira-mar. Fracasso contém a culpa do vidro partido ameaçando cortes e sangue. Prefiro fracasso.

Boca de incêndio [dicionário minúsculo para perceber o que dizem por aí as palavras], jornal Expresso

24 Mar 2021

Prova de vida

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 13 Março

Na discussão ininterrupta entre o peso e a leveza, a cadeira parece-me um dos mais notáveis argumentos. Assim como o bater de asas do colibri, só o debate nos sustenta. Dir-me-ão que a posição de lótus fará bem a ligação entre terra e céu, mas não encontro nisso construção. Não existimos sem extensões do corpo e a cadeira dá-nos um chão que ir permite ir longe mantendo raízes. O automóvel foi construído para definirmos bem sentados a paisagem. A casa é uma garagem de cadeiras. Sento-me na primeira fila para ver o espectáculo imersivo da meia idade. Sem querer, elefante, salto de nenúfar em nenúfar.

«As ruas que descem são perigosas. Nada de mais, apenas inclinação. Os montes subidos também continham a sua dose de risco, cenário exacto para o Castelo. Sustenha-se a respiração. Uma navalha esculpia na terra como uma tatuagem aquele exemplo de clássica arquitectura militar. A conquista havia tinha que se rasgar com percursos unidos pelas armas que se espetadas na terra. Contavam apenas as que ficavam hirtas e vibrantes. Grande aventura, ter uma navalha na mão no meio dos montes para a atirar com força e gritos. Os gritos são indispensáveis. Nem tínhamos que jogar bruto, mas aí aliviava bastante. Contra um árbitro, que segurava a cabeça do primeiro e por isso se chamava mãe, um grupo enfileirava-se de costas dobradas, cabeça debaixo das pernas do da frente, enquanto o outro grupo saltava de joelhos nas costas. Quem não aguentasse, perdia. Quem não aguenta, perde. Não é diferente fora das histórias: gritar ajuda. Doía mais o círculo dos calduços por causa do silêncio imposto. No meio de uma apertada roda de estátuas proibidas de mostrar os dentes alguém se mexia como doido. Se parasse oferecia a nuca à fortíssima palmada anónima. Se vislumbrasse o autor, caía ele no buraco negro. Não era fácil trocar de abismo.»

Desportos radicais, A história devida, programa Antena 1

«Os textos têm um princípio. E os dias também. Aqueles começam por uma letra, estes por um raio de sol. O universo começou, nem sei se se por acaso ou por necessidade, com um bang. Noutras versões foi um verbo e um sopro. Mas tudo traz um princípio, ainda que tosco. Além do gosto, há princípios que trazem hesitações e despudores. Alguns contêm esforço e sacrifício, quase partos. Com dor. É caso nas utopias. Como o é num ou noutro desejo, até neste pequeno querer fazer: pois ele há princípios de coração, princípios de mão, princípios de cabeça.

Crescer além do momento principal é ainda, e sobretudo, trocar uns princípios por outros, escolher uns quantos e alimentá-los. Evitando que se suicidem contra a luz. Serão os fins principalmente desgostos? A minha colecção sem fim de pequenos princípios não me dá resposta.»

Dedo na ferida, jornal Combate

«A arte pura é exibicionista, gosta que a vejam, não se realiza sem que uns poucos a admirem. É verdade que nem sempre se despe, pois ama a sedução tanto como o mistério. E joga ao gato e ao rato com o que sente e dá a sentir, com o que vê e dá a ver, com o que mostra e dá a esconder. Mas nem todas as artes são exibicionistas.

Na classificação das artes há uns lados de sombra onde se abrigam, ao fresco, aquelas disciplinas tão indisciplinadas e movediças que escapam às supremas etiquetas e às grandes hierarquias do gosto e da sensibilidade. São menores ou impuras, mas nem por isso deixam de se atravessar no nosso caminho. Até se instalam para ficar nos nossos modos de ver e de experimentar as coisas. Como algumas insidiosas melodias que não nos deixam o ouvido, há pequenos momentos visuais que nos paginam os dias, que os arrumam logicamente ou os desarrumam poeticamente.»

Crónica, TSF

«O país Lisboa possui a luz da tolerância e nele convivem há séculos as mais díspares religiões e comércios e corpos e cores. No Martim Moniz, nas suas arcadas e recantos, mora um mundo inteiro. Ali à volta encontram-se passagens directas para os mais distantes lugares: China, se procurarmos bem por entre imitações; África, no cabeleireiro de carapinhas; Goa, num certo restaurante de tentações picantes, ou o Absurdo, no hospital das bonecas. Lisboa ainda acredita na infância.»

Passagens de nível sem guarda, revista Up

«No país da amizade não há tribunais, mas também não há mapas. A primeira coisa que um amigo faz é abrir a porta, a segunda é ouvir. As perguntas só chegam depois, e serão todas passadas pelo crivo da sinceridade. O amigo está sempre lá e acolhe antes de opinar, cada um da sua maneira muito própria. O amigo fará tudo pelo amigo, mas não fará necessariamente aquilo que o amigo quer, mas o que a amizade lhe manda. A razão é simples: não podemos viver a vida através dos outros. Sem ter vivido alguma coisa nada tenho nada para trocar e é disso que falamos quando falamos de amizade: de partilha. Nenhum amigo evita os problemas, ninguém tem as soluções que precisamos. Ajudam a perceber os problemas, o que é meio caminho para encontrar as soluções.»

As ocasiões são para os amigos, revista 20 anos

«Mal o mundo suspire de cansaço, eis a hora certa. Pouse-se o rosto na coxa como um cair de tarde e admire-se. Não basta sonhá-la, como se nunca tivesse existido; não interessa invocá-la, resgatando-a aos confins da memória ou às páginas de um livro; não serve sequer vê-la: temos que a dizer, devemos escrevê-la. Só assim entramos nela iverdadeiramente. (…) Neste endereço se encontra a suprema alegria de jogar com os sentidos, não apenas os cinco, mas os outros que desaguam nesses como marés, aquilo que fomos ou o que estamos para ser, o que preferimos esquecer e apagar. Está tudo ali, na cona de Picasso, que pintava com o caralho.»

A cona de Picasso, jornal Lux Frágil

17 Mar 2021

Nefelibata de trazer por casa

Horta Seca, Lisboa, quarta, 3 Março

O motorista a mirar-me no retrovisor deve ter pensado, mas nada disse. Talvez tenha aumentado a tolerância aos desvios da normalidade, desde que confinados aos comportamentos da burguesia tele-transportada, bem entendido.

Lá ia indo eu de polegares e indicadores a enquadrar com imaginada câmara lambendo as paredes do percurso em longuíssimo travelling. Os olhos da alma das cidades, os acessos aos bens e ao mal, as passagens para o grande circo do gozo, as montras estão todas fechadas. Cada uma com o seu modo de assinalar a suspensão ou o encerramento: o pó, os papéis, os jornais que ainda servem para cobrir e vedar, muros a murmurar um digno volto já ou tão só o abandono do que se lixe. Devia ter continuado às voltas e nem me lembrei da câmara do telemóvel. As realizações na cabeça ficam sempre melhor.

A estranheza continuará a marcar o dia assim que as mãos tocam no «Salazar, i w godzinie jego śmierci» (ed. Timof Comics). O grafismo está de tal modo semelhante que parece erro de sintonização, um piparote no cocuruto e talvez aparecesse em húngaro ou russo ou filipino. Ganhou leveza com a troca de papel, mas até prefiro o relato sem brilho. No final, acrescentam-se páginas de tradução e enquadramento de alguns dos materiais de que nos socorremos para evocar momentos concretos, sobretudo jornais, que ainda hoje servem para nos dizer de ontem. O título ganhou o «e» que o aproxima da fórmula da velha oração, ou seja, perdeu o que se pretendia com o «agora, na hora da sua morte». A biografia condensava-se no instante derradeiro que o leitor irá desvendando. Ao que se somava a ideia, optimista, bem sei, de sugerir que estava na altura de desligar a assombração permanente do ditador. Ao contrário de outras produções literárias, tardamos a mastigar e digerir a nossa História de maneiras que não sejam apenas este tão contemporâneo quanto redutor agitar de bandeiras ou implodir de estatuária. Insistem depois os editores polacos na tradicional dicotomia entre desenhador e argumentista, que o Miguel [Rocha] e eu sempre recusámos por redutora em relação à complexidade destas parcerias criativas, em que ambos escrevemos com imagens. Vai-se notando alguma evolução, mas se até custa a entender a alguns dos nossos melhores investigadores… Diverte-me aqueloutro facilitismo na apresentação da contracapa que coloca a novela «no Top 3 da banda desenhada histórica portuguesa», abrindo-me a curiosidade de saber quais seriam os outros e com que critérios se punham uns em cima dos outros para chegar ao topo. A biografia velha de décadas dá-me como jornalista e deixa-me, como de costume, melancólico, afinal a mais constante das vocações.

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 6 Março

A parada e resposta do Diário das Nuvens dura há 50 dias. Se soubesse extrair uma raiz do quadrado diria que nunca antes tinha estado tanto tempo a escrever ininterruptamente. Se me ficasse pela leitura faria melhor ao ecossistema, mas perdoe-se o mal que faz pelo bem que (ainda) sabe. Celebrámos a brincadeira com uma antologia em versão lençol que me pôs logo a sonhar com variações na pele de Lisboa: https://abysmo.pt/diario-das-nuvens-de-joao-francisco-vilhena-e-joao-paulo-cotrim/ O entusiasmo promete para já variações mais fílmicas, mas a brincadeira tornou-se caso sério. Surgem reacções comoventes, onde cada peça se revela espelho ou consolo. Além da partilha de interesses e trabalhos artísticos em torno destes fascinantes habitantes dos céus. Para celebrar a data redonda atropelei a regra e olhei por breves instantes para o miradouro (junto vai a visão correspondente do João [Francisco Vilhena]). As nuvens também se avistam umas às outras.

«Pare, escute, olhe. Na passagem de nível sem guarda que se atravessa, a paragem passou a ser um sexto sentido muito. Nas camadas superiores está posto trânsito dos diabos. As raivas que se condensam em rangentes nuvens dentatas não respeitam nada. Ao passo que as robustas saudades acumulam-se pacientando pela queda do sinal verde na passadeira vermelha. Os enxames de cristais de gelo circulam indiferentes em contra-mão. Andam praí a cuspir nuvens da boca para fora. Vai daí a locução própria do nível informal atrai cada vez mais praticantes. É vê-los equipados com desvelo a velar zelosamente pela nuvem de palavras. Um toque dá acessos e conta as vezes. Atracção fatal pelo artificial, a dos fazedores de chuva. Uma gaze mais não é senão nuvem feita tecido trocando consolo pela tintura do sangue. E quem chamou nuvem turva à primeva ecografia, primeira Eva?»

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 9 Março

Perto tem morrido gente, mas também alguns nascimentos se anunciam e nisso sopra leveza. Vem grávido este livro cujo lançamento será gravado hoje, mas para acontecer mais adiante no âmbito do Ronda, o festival de poesia de Leiria (o novo normal bem tenta fintar o tempo). Por estar na colecção Mão Dita, por ser poesia, além do primeiro neste «famigeradano», abre ainda janelas primaveris no coração pesadote da abysmo. «Cordão», de Ana Freitas Reis, com capa de Eugénia Mussa, diz como quem dança que o corpo «é um evento apaixonado» e que faz parte do mistério, que a mulher não abdica do seu papel principal, que ainda há lugar para o espanto e o assombro, que Deus faz parte da fauna e flora, que a investigação maior do mundo só pode ser feita pela palavra, ainda que condenada ao fracasso. Canta ainda muita música. Transbordemos portanto, que nem «Pégaso»:

«Só o que gera salva / E tudo o que nasce deixa buraco,/ o fino corte da beleza.// Não seremos nunca o pássaro afinado./ Porque o corpo é água viva/ e todo o movimento/ é duelo contraditório.// O jogo é deixar transbordar/ atravessando o corpo./ O campo empírico/ tem um modo próprio de pulsar.// Sobram-nos suspiros sob a cintura./ Por instantes liberta-se/ o fardo empoleirado aos ombros/ dando um salto que não depende/ do porte do cavalo.”

10 Mar 2021

Ceci n’est pas une cronique

Santa Bárbara, Lisboa, 2 Março

 

Assim não sucedeu, embora esteja bem entalado entre o plausível e o possível (escolha o incauto leitor no que se segue onde aplicar a afirmação). Estou a minutos da linha morta para a entrega da crónica. E os assuntos alinhavados entediam-me mais que as urgências movediças das quais não consigo erguer-me sem me afundar mais. Considero-me portanto bastante morto. Nisso terá o leitor pouco interesse, deve acontecer a todos, a prostração de boneco de trapos disponível para que a vida brinque de vudu a espetar as suas agulhas reluzentes nos órgãos onde dói mais, olho aqui, coração além, entre unha e dedo, nas partes ou na coluna, enfim convergindo tudo cheio de nervos na massa guardada na caveira. [A entrada ilustra-se com o suspense afogueado pela cavalgada dos passos dedilhados de «La Calavera», um dos instrumentais Elliot Goldenthal para a banda sonora de «Frida»: https://www.last.fm/music/Elliot+Goldenthal/_/La+Calavera]

É a vida que nos mata. Andava às voltas há dias com conto para o qual mandei chamar a Velha, que trataria de fazer o que bem faz. Teria, pelo menos para mim, o rosto que Posada deu a Catrina, entre nuvens de pó, de talco, de terra batida ou outros activadores de memória. Chapéu de largo espectro, continente de ponta a ponta, sobre cabelos há muito esquecidos até do branco mas enlaçados, acolhendo plumas e rendas, luxúrias vegetais e enigmas do aprazimento, abrigando o tremendo sorriso. Um jogo de contornos a armadilhar com sombras e ocos a luz. Natureza morta escavada nos ocos da tinta, recordação do peso no papel. [Nota a desenvolver, dizem os camones que na natureza aprisionada pelas telas há ainda vida, «still life».]

Estava armadilhado a pensar no óbvio com que a cena se me apresentava, mesmo a preto e branco, quando chegou a estapafúrdia diva Astrid Hadad, coberta pelas cores mais populares, no seu álbum extraordinário «Vivir Muriendo», a cantar a plenas vozes Fernando Rivera Calderón [https://youtu.be/c31Euk7dQpI]: «Al verla cerré mis ojitos/ Y tieso yo me quede/ Desnuda y un poco uraña/ Dejo a un lado su guadaña/ Se metió conmigo a la cama y yo solo pude asentir/ Y entonces que llega la vida/ Y me descubre en la movida y se siente tan herida que yo me quise morir/ Y es que estaba tan despechada, tan furiosa y confundida/ La muerte ni me hizo nada/ A mi me mato la vida/ Y es que estaba tan despechada/ Tan furiosa y confundida/ La muerte ni me hizo nada, a mi me mato la vida».

Vá lá um desgraçado acabar na cama a dança com esqueletos, esse querido mínimo denominador comum, a ruína que fica da carne que passou, a memória que certas tradições encheram de alma! A vida apanha-nos em pleno comércio de seduções e mata-o, atirando-a para os braços da Outra. Ironias do fadestino. Copos ao alto.

Na perspectiva cubista, para mim a de Juan Gris, soma-se recorte de jornal, caixas de medicamentos, chamadas insistentes, envelopes por abrir e umas linhas que são cordas e, de novo, afiadas e firmes de espetar. Toca o telefone.

Não costumo, mas a este companheiro atenderei sempre. Diz que a morte do Ferlinghetti lhe interrompeu a audição do «Le Grand Macabre», do Ligetti, e não distingui a causa da aflição, se o apagamento do velho sábio, se a paragem forçada. «The world is a beautiful place/ to be born into/ if you don’t mind happiness/not always being /so very much fun/ if you don’t mind a touch of hell/ now and then/ just when everything is fine/ because even in heaven/ they don’t sing/ all the time// The world is a beautiful place/ to be born into/ if you don’t mind some people dying/ all the time/ or maybe only starving/ some of the time/ which isn’t half so bad/ if it isn’t you.» Só que a morte dos outros, portanto a vida, também nos mata.

A cada penoso acordar, nunca o entorno pareceu tanto argumento e cenário espremido entre o gongórico e o operático, versão tragicomédia de trazer por casa e sair só para desafiar confinamento. Hesito entre a farpela de maestro surdo ou na de encenador cego, mas opto pelo fato-de-macaco e continuo a esbracejar sem alcançar as mil ferramentas suspensas contra o próprio contorno colorido. A vida espeta-nos contra a própria sombra. No «Macabre» do György conseguem matar não apenas a sede de sangue mas a própria morte com vinho, «esse elixir da vida, que do sangue só tem a cor», diz Topor, que criou versão daquele universo apocalíptico e vestiu os seus habitantes. Os ajudantes da morte, sempre de caveira posta, são seres de múltiplos tentáculos, com patas de lagosta, cruzamentos genéticos de insectos e outros delírios fantásticos, que se sentaram agora aqui à minha beira fazendo desaparecer o gato. Contas feitas, a visão torporiana do macabro que mais me impressiona surge com alguma pacatez: uma criança está aprisionada pelas costelas e clavículas do esqueleto sorridente. O esgar da criança não é sorriso. Frida Khalo deu vida também a uma «Niña con máscara de la muerte», na qual a dita máscara parece continuação das nuvens no céu. Nem nessa, nem na outra posta no chão o fácies diz alegria. Só na flor que a miúda tem na mão, embora cortada.

Assim não se terá passado, mas não estranho encontrá-lo encaixado entre o dito e o feito. Oiço um roçagar de transparências e deduzo que seja o gato a voltar para confirmar que ainda há vida para cá da janela. Era apenas mais um fantasma, mas para atacar o ilusionista. Para que me tomem por sério, ainda que não seja crónica para tanto, apenso prova de Eugène Thiébault.

3 Mar 2021

Cá dentro do lá fora (bis)

Santa Âncora, Lisboa, um outro dia qualquer de Fevereiro

Continuamos a andar aos papéis, mas façamo-lo com galhardia, o mais longe possível da idiotia, também ela contagiosa, que usa os hinos da resistência para cuspir na cara do próximo. A liberdade, para o ser cabalmente, contém a possibilidade de maus usos. Logo na primeira vaga, a Sara [Baliza] soprou bons ventos com «a rapariga que salta à corda» (que recolhemos aqui: https://torpor.abysmo.pt/video/a-rapariga-que-salta-a-corda/ e continua agora em https://www.facebook.com/hashtag/araparigaquesaltaacordaii). Teria gosto em ver a Ana nesta sua celebração à banal esperança no canto dos telejornais, ao lado dos manipuladores da língua gestual. O minimal repetitivo canta a resistência e afasta o tédio. As vozes mínimas de uma cidade (quase) em silêncio, a variante límpida dos lugares, a cadência da corda a chicotear do chão, o sorriso da miúda que pula, nesta simplicidade pulsa uma força inesgotável. Confesso que acredito.

Dom Nuno Viegas, que se pinta com gosto, entendeu por bem fotografar-se «dia sim dia sim», quase sempre a sós, quase sempre sentado, portanto com banco, vasos, tocos, duas manchas no tablado, ferramentas, uma porta, portanto em recanto exterior da sua casa-atelier (https://www.facebook.com/media/set/?set=a.4061386283902092&type=3). São mais de 300 momentos em que a luz dança com as cores das fatiotas, as expressões interpelam a nossa maneira de ver, o rosto fala com as mãos, o conjunto, enfim, desenhando filme sobre o tempo que faz. Em nós. No exacto oposto da grandiloquência, um pequeno nada, saudação aos mortais que desajusta perspectivas, que interpela com sorriso-lâmina. Sem sair da dele, fez-se quotidiana visita cá de casa.

Detecto e saúdo a luxúria da descrição, seja do que existe como do imaginado. Para quem passa a vida lendo, como os portugueses, parece difícil de acreditar, mas o real suscita muito. Quieto, tenho-me alimentado com o andamento de cosmovisões como a do António José Caló (os filmes e as sequências fazem mais sentido no instagram: https://www.instagram.com/antoniojosecalo/, e além desta dupla que roubei pode ver-se aqui pequena antologia: https://torpor.abysmo.pt/fotografia/um-passeante/). De telemóvel em punho, não converte a cidade em ruína arqueológica, mas tornou-se caçador-recolector da devastação da travagem brusca da paisagem: as composições do inesperado, a profusão de traços, o recorte do confuso, a loquacidade do chão, a suprema atenção ao pormenor. Não me canso de flanar com ele nestas passagens.

Falta aqui uma musiquinha, como falta ao Joaquim Rodrigues (https://www.facebook.com/profile.php?id=100008812306711) um canal, youtube ou quejando, que facilitasse o acompanhamento deste seu imparável e esclarecido programa de rádio, obediente apenas ao seu gosto. Talvez deva ser tal e qual, gotas salgadas do grande oceano música. Por estes dias virou atenções para a chason française, ou mais ou menos (exemplo exemplar para desmemoriados como este que se subscreve: Albert Marcoeur, Se souvenir, verbe pronominal (https://youtu.be/eihzC893iYk). Uma fonte inesgotável, com comentários irónicos, ideias fortes, e, de novo, uma lúbrica atenção ao detalhe. Noto agora que ando sempre à procura de velhos meios, jornal, televisão, rádio, para chegar a estes fins.

(continua)

44, Rua do Alecrim, Lisboa, 18 Fevereiro

Ainda é cedo para alinhar perdas e ganhos, se os houve, no livro-desrazão desta pandemia. Na roubalheira generalizada de vidas e do viver roubou-me a possibilidade de acompanhar em documentário o fechar das portas da Campos Trindade. Conservarei muitas imagens em lugares e modos que ainda desconheço, no velho sentido de “nascer com”, o que ali se deu vezes sem conta no acanhado dos últimos anos. Ia chamar-se «44, Rua do Alecrim», celebrando a redondez dos quarenta e quatros anos de porta aberta. Apesar de ter sido por um triz, o filme não acontecerá, mas ninguém nos tira, a mim, ao Nuno [Miguel Guedes] e ao protagonista, Bernardo [Trindade], as longuíssimas conversas de namoro em torno do amor, que é como quem diz amizade. E dos fios ténues e consistentes com que se entretecem as famílias. Na apresentação que fizemos para convocar parcerias e boas-vontades, escrevíamos: «a pergunta que nos interessa, entre tantas possíveis, é esta: os livros são seres vivos? Existe quem ache que sim e faça disso prática e louvor. A história que se quer contar é um desses exemplos, onde o valor é mais importante do que o custo; onde o destino é de facto determinado mas por uma única lógica, avessa a mercantilismo ou ignorância. E essa lógica é a do coração misturado com o saber, combinação única e rara. Mas praticada. E com provas em papel e palavra.» Estou certo que arranjaremos maneira mais portátil de voltar ao assunto. É que «a história que queremos contar fala de vida. Do que fomos, do que somos e com sorte do que poderemos ser. E é por isso que a resposta à pergunta colocada é fácil: sim, os livros são seres vivos.»

Voltámos pela última vez às salas vazias, agora enormes. Um destes dias a fachada completa ̶ nome, porta, montra, painel de azulejos ̶ será abrigada, com ironia, por mãos amantes de coleccionadores. Voltámos e forçámos a alegria de mudar de pele, que «o lugar dos livros não se esvai enquanto tiver por mapa um livreiro»:

uma livraria tem por objecto o roubo dos raios e relâmpagos
a sala nua que nos despia não alcança nem sombra nem brilho

as palavras ecoaram dessabendo onde pousar no que iam dizendo
saudades de quando no desarrumo os sentidos se desmultiplicavam
os amadores que costumavam reconhecer páginas e lugares
como em casa ou no corpo
desconheciam agora onde pôr as mãos
sem arriscar largar os olhares uns dos outros
derivavam à tona das areias movediças
a tornar quadrados os metros
medos

daqui só se sai vivo reaprendendo a deslizar sobre as páginas
lágrimas.

24 Fev 2021

Cá dentro do lá fora

Santa Âncora, Lisboa, um dia qualquer de Fevereiro

Não terá sido sonho, dos de acender vigílias, menos ainda pesadelo, dos de pesarem na respiração. Foi só vaga ideia, discutida ainda assim naquela base do tóxico «e se?», que logo tende a transformar-se em pueril «não és homem não és nada!». Passados tantos anos quase dói esta relembrança. Era para ser jornal impresso de distribuição gratuita sobre a internet, mais carta de navegação que outra coisa qualquer, um diagrama em progresso, quanto muito manual de instruções ou relato de viagens. Desvantagens de nativo da floresta de fibras do papel em caçada aos pixeis. Como fixar o movediço? Ou melhor, para quê? Desconfiança do imaterial, talvez. Fascínio por mapas, com certeza. Nestes dias de nojo habitável, se custa aguentar as jeremíadas dos clássicos-médios abrigados e alimentados e ligados pela tomada do umbigo, também se encontram nos territórios do entrelaçamento motivos de alegria.

Entra aqui a banda sonora das próximas linhas, projecto velho de mais do que uma década. Tudo começa na pele do tambor. Kutiman, nome de guerra do israelita Ophir Kutiel, resolveu que se podia tocar com pessoas, mais do que instrumentos e sintetizadores e a panóplia completa do deejaying contemporâneo. Foi com uma batida que se atirou ao oceano imenso dos vídeos do youtube, o maior dos espelhos. O resultado foi este magnífico atravessamento das gentes e vozes próprias: http://www.thru-you-too.com/#!/ A improvável orquestra produz música dançável e até comovente, mas os cenários, as roupas, as situações, as origens, enfim, as partes em que queiramos partir a obra fazem do conjunto um dos mais brilhantes testemunhos da época. E inspiradores, que sacrifico com facilidade ao entusiasmo.

A doença da pandemia vai tendo gravosas consequências, mas a criatividade ainda nos insufla. Será mais respiração boca-a-boca, mas ainda assim. O Lux Frágil (https://www.facebook.com/luxfragil), navio que soube sempre viajar atracado, foi dos pioneiros na reinvenção dos encontros. Mas nos últimos dias produz um dos inúmeros diários que infestam o éter. Nem me preocupei com a autoria, que acaba sendo o lugar. Portanto aquele que se assina, é o L. e produz as mais elegantes e bem humoradas piscadelas de olho ao humano sob quietude obrigatória. Os pés que dançavam agora arrastam-se. «Dia 409 de 2020. podes fazer um cocktail, podes fazer um molotof, não podes fazer um cocktail molotov; podes fumar e podes beber, podes fumar antes de beber, não podes fumar depois de beber; podes cruzar-te com o amor da tua vida sem sair de casa, não podes sair de casa à procura do amor. // a vossa casa é o vosso mundo. a minha voltará a ser.» A cada leitura estou na varanda de copo na mão em boa companhia.

O aforismo desde tempos imemoriais que se vem fazendo meio de transporte. O Rui Vitorino Santos (https://www.facebook.com/rui.v.santos.5) há meses que arranca páginas do seu caderno, mas que se tem revelado um bairro enorme, que digo, uma cidade. Anda na contrafacção de selfies de figuras diversas da urbanidade, que se dizem em pose. Cada corpo apresenta-se com apêndice, a fala como membro. Imagem a figura que diz: «Estou neste momento empenhada num projecto pessoal que conto lançar no dia do meu aniversário». (Outro exemplo na página). Mais melancólica que cómica, desenha-se por ali uma sociologia da afirmação, corpos quase sempre nus em entrega e encenação. O que queres ser quando continuares do mesmo tamanho?

O Filipe Homem Fonseca tem tido uma vida cheia e vertiginosa, donde estas «Memórias da Lua Lenta» (https://www.facebook.com/media/set/?vanity=fhfonseca&set=a.10157828636158208). Em hilariante delírio está sempre a cruzar-se no tempo e nos espaços com estrelas desse lugar extraterrestre chamado pop. Extrema atenção à oralidade, a invocação do que está condenado a não existir para além do presente, um levantamento arqueológico que no fundo lá no fundo é de pesos pesados em ambiente sem gravidade. «O Rod Stewart lembrou-se de fazer uma caracolada no intervalo das gravações do videoclip do “Sailing” em Peniche, e o Paul McCartney, que estava lá de férias, desatinou porque achava um desperdício estar-se numa zona pesqueira a comer caracóis. Ligou-me a perguntar se eu podia passar com a carrinha pão de forma à porta da pensão onde ele estava hospedado para carregar dois quilos de petinga e ir ter com o Rod. No caminho, começou-me com a conversa de que o Everton tinha sido roubado pelo árbitro mas eu disse-lhe: “Eia, Paul, se é para falares de bola, ficas já aqui.” Parei à beira de uma estrada de terra batida e ele foi-se embora, todo ofendidão. Mas deixou a petinga. / Fui ter com o Rod Stewart e estivemos a comer caracóis e a beber rosé até às tantas. Acabámos por adormecer todos, eu, o Rod, e a equipa de filmagens, nas traseiras da pão de forma. / Com a petinga fizemos omoletes na manhã seguinte, foi o nosso pequeno-almoço. Eram dois quilos, ainda se estragou peixe.» O culto da personalidade tem os dias contados. Aqui.

(continua)

17 Fev 2021

A linguagem esquecida dos móveis

Santa Bárbara a pensar nas Janelas Verdes, Lisboa, domingo, 31 Janeiro

Ícone patético, «Ecce Homo» mantém-se enigma fulgurante. O seu criador (chamam-se mestre) é desconhecido e conhecem-se umas quatro variantes, nisso se perdendo a ideia peregrina de original ou cópia. Os veios da madeira permitiram datações mais aproximadas de uma realidade que até interessa pouco. No rectângulo não está uma representação de Cristo, cumprida a via-sacra, instantes antes da crucificação. Um ícone tem a potência de evocar o que representa, ali manifesta-se uma forma de santidade. Uma presença. A banalização da palavra tornou-a emblema, quando muito símbolo. Assim como patético na correnteza da língua deixou algures de ser móvel de afectos, algo tocante, que provoca dó, piedade, tristeza.

Neste umbral entre o humano e o divino, encontra-se a inteireza do indivíduo. Os olhos ocultos pelo panejamento branco permitem que cada qual neles se reveja. A humana condição: sangrada por espinhos que tudo atravessam, a pele como pano sobre o esqueleto marcada pelos castigos, as mãos atadas ao pescoço, agir e respirar presos na escravidão de desígnios indomináveis. Os lábios assentes em extrema tranquilidade. Afinal, levanta-se no horizonte a possibilidade solar da auréola, a escapatória do sagrado ao alcance do homem comum. Esta promessa da alegria não se detecta com facilidade. Exige a nudez da entrega.

A exposição «Almada Negreiros e os painéis», a cargo do Simão [Palmeirim], revelou dois extraordinários originais do mestre conhecido. Um aplica a trama de fios leitores ao «Ecce Homo», em recriação inesgotável na minúcia. O outro (aqui na página) diz-se estudo geométrico e revela sem cessar a essência. Ondas concêntricas nascem de 9 círculos, tantos os meses da gestação, a multiplicação por três das sagradas trindades, por exemplo, Pai, Filho e Espírito Santo. «Ecce Homo» cumpre jornada que abre para o infinito. Como pedras atiradas ao lago dos nossos dias, as ondas continuam a reverberar. Não nascemos para sofrer.

Santa Bárbara, Lisboa, quarta, 4 Fevereiro

Ao que parece, existe em papel e tudo a versão polaca de «Salazar, Agora na hora da sua morte», novela de sombras e fogos-fátuos que compus com o querido Miguel [Rocha], de quem tenho imensas saudades, avivadas agora com estes trânsitos. Ninguém como ele extrai dos cardos matéria de nos encher de alegria. O objecto, que atravessa uma Europa a passo de caracol, está a ter fortuna crítica, dizem. A ponto de suscitar viagens que parecem o horizonte: quanto mais nos aproximamos, mais elas se afastam. O que chegou, entretanto, foi a altura de reeditarmos esta ida com volta ao esqueleto do armário, isto é, às ossadas do fantasma que se imaginou nação. Pensou-se encarnação de país, mas estava só com a sua arrumadinha esterilidade. Aquela nossa visão encheu-se de cadeiras de todas as formas e feitios. O poder não conhece descanso, apenas desânimo.

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 6 Fevereiro

Com o esvair da luz na tarde chuvosa veio-me estranho desejo de mobiliário, desconfio que suscitado por ter plantado raízes no sofá. Encontraria conforto no mero beneficiar da madeira, cheiro e aparas, a visão do caos a arrumar-se. Assalta-me com tudo, entalhes e cola branca, determinado objecto, reflexo no corpóreo da mais gasosa abstração: uma mesa. Desde que sem utilidade, anã e desnivelada, feita de restos e de madeiras diversas, descomposta, mas capaz de se encher de gavetas e compartimentos ocultos. E que se tenha de pé.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 7 Fevereiro

Esta atenção diária às nuvens, a partir da colheita do João Francisco [Vilhena], por vezes do próprio dia, com enorme variante na proximidade à mais fantasiosa imagem do real, tem produzido irónico desacordo. Na vez de proporcionar escape, marca-me com o ferrete do concreto, lembrete do irresolvido que se acumula. A suposta leveza ganha corpo de âncora, a jaula está feita de transparência. Mas o jogo tem de continuar. Apesar de tudo, é momento consumido na liberdade mais absoluta, ainda que a melancolia ou o absurdo, velhos parceiros, insistam em sentar-se à mesa. A perspectiva dispersa-se pelas mais variadas direcções, muita vezes para o miolo das palavras e a iridescência dos sentidos, mas nunca se dirigiu às nuvens. Ao vigésimo terceiro dia, o saque do fotógrafo apresentava-se épico e resolvi levantar os olhos, encontrando estampada ali a justificação para o que vamos fazendo. Não foi dado a ler nas entregas quotidianas, por estar fora de tom, a olhar para onde não devia Os manifestos trazem a língua de fora na mania de se anunciarem tonitruantes. 
«Sinais minúsculos nas dobras da pele, as asperezas fazem parte. Pedem toques no panejamento que tornem cabal a experiência do ver. E daí alcançar a soma, o complexo. Do micro ao macro, estão como nas velhas fotografias sem fazer nada. Ao óculo parece-lhe ter capturado o momento, fixou-o no âmbar do olhar. Mas desassossegado. No coração da aparência revolvem-se lavas abrasadoras, fossas abissais, alísios, suões. Os sucessivos cambiantes locomovem-se sobre a sua própria irrequietude, mastigando-se na potente auto reflexividade, o sépia da memória aconchegando-se à epiderme do negro que contém tempestades, um quase branco a deixar-se brilhar nas ascendentes passagens de tom. Tecidos esculpidos em mármore. Análogo se está desenrolando com o peso, pinceladas de preto agravadas no baixo, âncoras pardas, que não evitam o drapejar das massas logo acima. Logo será distinto e de igual e feliz modo indiferente, inútil, mas por agora acontece uma inesgotável meditação acerca da vizinhança. Dos corpos, dos seres, até das palavras. E da pele, poroso passadiço, senhora da proximidade, movediço miradouro de ver ao perto. As nuvens indicam em contínuo o lugar do observador, o da conversão. Uma exigência de entrega plena ao ficar. Pairando, se for o caso. Absorvendo até à saciedade, tão só existindo, pulsando, emitindo-se. Ignorando-se por completo de modo a ser inteiro.”

10 Fev 2021

Dead line

Santa Bárbara, Lisboa, podendo bem ser (uma) Cidade do México, 31 Janeiro, que talvez seja 1 de Novembro

 

A morte está na ordem do dia. Sepultada na campa rasa de lugares comuns, que o chão vai ficando empapado com esta imorredoura opinião miudinha, parece ser a influencer da moda. Uma aparência de importância, portanto, que desaprendemos, com bastante higiene, de com ela lidar. Nunca o soubemos fazer à maneira mexicana ou de New Orleans, mas ainda assim houve tempos em que nos entrava casa dentro, família dentro, olhos e ouvidos dentro. O rito está entregue a estranhos, talvez até o luto.

Aqui há atrasado, em plena primeira vaga do atraso de vida, estava em rica conversa dançante com o querido Manuel [San Payo] à roda dessa linhagem arrepiante da Dance Macabre, e memória puxa desenho (é dele o retrato da dansa ansiada que vai na página), verso puxa música e tombamos no samba. Podia lá ser de outro modo, ainda que haja bandas sonoras para cada gosto e outros tantos desgostos. A gama de tambores, o agogô e o repique, o chocalho e o reco reco, o pandeiro e, sobretudo, a cuíca. Os instrumentos ritmistas parecem ter sido arrancados ao corpo humano, pelo que a batida minimal e circular vem bombada do coração às mãos para ribombar na pele antes de se desfazer em sangue na melodia e na voz. Ou então são mas é do quotidiano, restos de lixo sujeitos à afinação dos que sofrem rindo. Ou vice-versa, que daria bom tema. Interessa-me para o caso este que se evola de episódio concreto às alturas do mais aplicável genérico, o de género humaníssimo. Nasce da vida do lutador-bailarino baiano, Besouro Cordão de Ouro, que canta, via Elis Regina, Baden Powell e Paulo César Pinheiro (versão comovente aqui: https://youtu.be/7-KFwAaEC90), o desejo de ser enterrado no quinhão natal, regresso ao útero, portanto. «Quando eu morrer, me enterre na Lapinha/ Quando eu morrer, me enterre na Lapinha/ Calça, culote, palitó almofadinha/ Calça, culote, palitó almofadinha». Isto não ia lá sem sabedoria de arrastar o pé para ganhar balanço e voar. Mais que a culote, comove-me a almofadinha, suavidade de colo para a cabeça. «Vai meu lamento vai contar/ Toda tristeza de viver/ Ai a verdade sempre trai/ E às vezes traz um mal a mais/ Ai, só me fez dilacerar/ Ver tanta gente se entregar/ Mas não me conformei/ Indo contra lei/ Sei que não me arrependi». O lamento que se erga e vá à vidinha da narração cantada, que me deixe ficar aqui a bater copo na mesa, talvez dançando com a amiga do peito tristeza. «Sai minha mágoa, sai de mim/ Há tanto coração ruim/ Ai, é tão desesperador/ O amor perder do desamor// Ah, tanto erro eu vi, lutei/ E como perdedor gritei/ Que eu sou um homem só/ Sem saber mudar/ Nunca mais vou lastimar». Um homem só, despojado de mágoa e tristeza. Homem de um pedido só.

Amanhã será o Jorge Dias de Deus, hoje foi o António Cordeiro e pouco antes o Carlos Antunes. Relâmpago e tenho sala feita campo santo. Não diria que macabramente dançam, mas está instalada a cavaqueira. Uma imagem puxa poema, as partículas um céu estrelado, a página de jornal o saxofone, o pó da pedra um jardim, e por aí fora. O Richard Sala está divertido a sacar esboços para a ilustração final, ou talvez esteja só à procura de clássicos do terror. O Ernesto Cardenal está indignadíssimo, cheio de memórias à sua volta, e o Carlos com ele. Começaram um manifesto qualquer, não tenho a certeza. A pobreza incomoda para além da vida. O Cordeiro, cansado de vilões e de casacos de cabedal, concorda e propõe-se encenar algo em torno das raízes. O Eduardo Lourenço levantou os olhos mal ouviu a palavra, sorriu e escapou-se-lhe uma ideia sobre fronteira e outra sobre a incerteza. A Maria Velho da Costa, a pensar em rap, discute Deus com o Lee Konitz, provocando toques de inveja ao ensimesmado Harold Budd. Nisto o Cruzeiro Seixas pergunta alto e com sotaque angolano acerca dos padrões nas samakakas. O Melo e Castro ajeitou os óculos e continuou a acrescentar poemactos ao Cara lha mas. Se há obra inacabada é essa das colunas.

A Maria de Sousa traduziu e acrescentou um ponto, mas o John Le Carré topou-a. Não havia mistério que lhe escapasse, achava ele que não dominava a física quântica. O Cutileiro voltou a perguntar se ela não queria posar. O Nikias Skapinakis também não se importava. Quem ria muito era o Dias de Deus, talvez não tanto por causa da astrofísica, nem por causa dos trocadilhos com o nome. O Rubem Fonseca tinha uma receita de feijoada para afinar com o João Ubaldo Ribeiro, que era morto mais antigo e entrou de penetra. O Robert Fisk não pára de falar de oliveiras e carvalhos com o Gonçalo Ribeiro Telles, que bem tentou puxar as novas traduções do T. E. Lawrence para o terreno. O Vicente Jorge Silva deu um encontrão ao Sean Connery, que só estava ali a parecer que tinha saído de um filme. Andava à procura, aos gritos, do Maradona, não se via em lado nenhum, devia ter ido lá dentro. O Manuel Resende, via-se que divertidíssimo, não queria que me pusesse a dizer em voz alta «Os Mal Armados»: «Aqui estamos no tempo dos mal armados/ Em hotéis internacionais de todo o mundo/ Historiadores à la minuta enquanto outros/ Fazem história de improviso//Camarada coração bomba metalo-mecânica de pontas/ eriçadas/ Camarada peixe camarada pássaro camarada cartaz camarada/ São Tiago do Chile//Ali onde se ergueram apenas umas palavras/ Ergueu-se o exército de calá-las// Os mortos já estão mortos/ Empurram a terra até ao inferno». Não acaba assim, o poema, mas estes dias talvez eles nos estejam a empurrar para o inferno. No fundo, só queria que um camarada me ensinasse a tocar cuíca.

3 Fev 2021

Conta-fios

Horta Seca, Lisboa, sexta, 8 Janeiro

Não sei bem o que pensar sobre o assunto. O encontro do editor com o autor começa sempre por um texto, mas a expectativa está em que o autor entre nesta casa para a habitar. «Nós não somos do século d’inventar as palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século d’inventar outra vez as palavras que já foram inventadas.»

Custa-me trazer para o assunto a palavra trabalho, uma palavralha, mas disso se trata, além dos textos e das suas potencialidades, interessam-me trabalhar com autores para nasçam criações que seriam diferentes sem esse encontro. Daqui mais se poderia desdobrar, assim escadote extensível. Nisto me afasto dos caçadores de tesouros que por aí proliferam. Terão o seu lugar no ecossistema literário, claro, mas procuro outras madrugadas. Uma inesgotável produtividade somada à ânsia de ver papel impresso, faz com que as gavetas transbordem para todas as chancelas e mais uma. Na poesia não há lugares, está visto. E um logótipo pouco mais é. Enfim, o Herberto sofreu ao ler nas suas capas Porto Editora na vez de Assírio & Alvim, mas o homem era excepção. O mais curioso, digamos à falta de melhor palavra, acontece quando a justificação assenta no facto de a abysmo ser editora de casos difíceis.

Aqui te deixo este objecto desafiante, mas vou ali publicar o habitual. Depósito de complicações, não me parece mal como apresentação. Não sei bem o que pensar, mas tomo nota da perturbação que estes trânsitos me causam.

Talvez seja natural, por estes dias de fragmento e ruína, atirar tijolos o mais depressa possível a quantas janelas se possa.

Janelas Verdes, Lisboa, domingo, 10 Janeiro

Está um frio como há muito não se via. E uma luz como há muito não a sentia. As manhãs são mais esplendorosas nesta colina expectante, comentando à vez com o Tejo as passagens, do tempo e das mercadorias, as diferentes velocidades, a rima dos degraus de uma escadaria ignorada pelos nossos filmes e as solipas de uma linha férrea que desenha este contorno com que o oceano beija a cidade. Este museu não podia ter escolhido melhor porto para atracar.

Fujo das famílias deliciadas com o sangue que brota do «encontro» das civilizações e vou ao encontro do Simão [Palmeirim] na Sala do Tecto Pintado, para me emaranhar com ele no Almada que pensa. O original que se mostra é o pensamento, o resto são maquetas, uma exposição de reversos, da carpintaria que sustenta a arte. (Minto, há dois originais absolutamente fascinantes, de tal modo que hesito no rumo do texto. O gozo que me dá este titubear…)

Fiquemos, por ora, com o «retábulo imaginado para o Mosteiro da Batalha». A história de «Almada Negreiros e os painéis» tem as facetas de diamante, mais perspectivas que prisma, e, se nos metermos com ela pelos becos da vida e da morte, nuances de roman noir. Três putos e um século na casa dos vinte entram no museu e, perante, meia dúzia de velhas tábuas fazem uma aposta: estudá-las, autopsiá-las, enfim, fazê-las suas. Amadeo de Souza Cardoso e Guilherme de Santa Rita acabaram não tendo tempo. Almada usou o dele para decifrar o enigma da criação artística. Enquanto a praticava. A vanguarda rasgava épocas para descobrir raízes nos primitivos. O estudo enquanto duradoira obsessão. Fora isto policial e tratava de disparar sobre esta moralidade que agora assomou. O caro António [Valdemar] reconta bem os meandros, que, aliás, o envolvem, no catálogo. A entrada no debate de lava da nossa historiografia da arte nasce de pormenor, o chão que as figuras pisam. Se aplicada lógica geométrica, o movimento das circunferências e dos triângulos haveriam de nos levar longe, a certa capela de mosteiro onde encaixar aquelas personagens e várias outras, em narrativa que, ainda por cima, poria no centro aquele perturbador e irradiante Ecce Homo. Quando, no fim da vida, ergue o painel Começar, à volta do qual construíram a Gulbenkian, Almada confirmava o eterno retorno: a sua vida estava toda ela cheia de inícios, de invenções de Dias Claros. «Há palavras que fazem bater mais depressa o coração – todas as palavras – umas mais do que outras, qualquer mais do que todas. Conforme os logares e as posições das palavras. Segundo o lado d’onde se ouvem – do lado do Sol ou do lado onde não dá o Sol./ Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o Universo./ As palavras querem estar nos seus logares!»

Eis-me aqui basbaque a mirar os bastidores de uma ideia. Só que estes esboços, com reproduções fotográficas à escala, montados em madeira e depois percorridos por fios de várias cores são ainda, além de ferramenta, obra em si. Vibrante. Atravesso o corredor feito de passagens entre as salas até ao Tiepolo, saudei o general do mar (se tivesse que ser general queria ser do mar, só para cavalgar a revolta das ondas) e dei-lhe costas para vislumbrar a maravilhosa cama-de-gato que Almada aplicou sobre os painéis para descobrir as mais insuspeitas relações, entre números e gestos da geometria, entre objectos de nada e posições de mão. Chamou-lhe com delícia «estudo em fio», como deveriam ser todos, e pouco importa agora que seja mapa de descoberta. O encantamento não pára um instante e chama-nos de longe, fazendo-nos atravessar poses e afirmações, lugares, palácios e paisagens, nuvens e pesadelos, esperanças e demónios, seres das mais geométricas carnes e formas pensantes ou não, evocações e narrativas. Vem, parece dizer a estrela sob o tecto pintado, que aqui se oferece a vera explicação de tudo. Pega nos números e arrisca dar esses passos de funâmbulo sobre cada um dos fios. Este caminho há-de ser diagonal sobre plano. «Há systemas para todas as coisas que nos ajudam a saber amar, só não há systemas para saber amar!»

Esta exposição está ligada por um fio a outra, na Capela do Fundador, no Mosteiro da Batalha, de igual composta pela mão conhecedora do Simão. Estas curadorias são também elas performance. Ainda está para uns meses, mas não sei se a pandemia me permitirá ir lá pôr os olhos. Entretanto, antes de regressar à luz ajoelho perante o Ecce Homo, agora a ignição do estudo a linha do Almada. Voltarei.

Alecrim, Lisboa, quarta, 13 Janeiro

O Bernardo [Trindade] resolveu mudar de pele e encerrar, 44 anos volvidos, o 44 da Rua do Alecrim. Cidade que perde faróis desta altitude arrisca naufragar, quebrando casco nos penhascos da desmemória, da ignorância, da cegueira. Vezes sem conta fui espectador. Da luxúria que se arrumava nas estantes e nos recantos, nas gavetas e na memória narradora do senhor da casa. Livros em toda a sua extensão, de capa encerada a guarda colorida, desdobráveis e ilustrações, cunhos a ouro e compartimentos secretos, incunábulos e uma floresta cerrada e luminosa de tipografia. E depois mapas, pautas, cartazes, dedicatórias, cartas, bilhetes, fotografias, documentos fulgurantes, restos de nada, pequenas esculturas e largas pinturas. Do jogo de sedução entre aquele que anseia e o seu procurador. Entendi os modos como um negócio pode ser elevado a bela arte, com elegância e extrema generosidade. E humor. Aqui se misturavam os tempos em dança vertiginosa de alegria e descoberta, a de certos rostos à vista do objecto do desejo. Vezes sem conta fui espectador da vida nesta loja onde ela brotava que nem fonte. Esta noite vi ainda a tristeza ser tratada como deve ser. E depois, Bernardo, está nos livros, que o aprenderam das velhas voltas do mundo: a cada noite sucede um dia.

20 Jan 2021

Fata_listas

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 1 Janeiro

Não faço lista de desejos. Tenho estranha relação com o dito, tal qual a metáfora. Se esta me leva a lugares, estabelecendo ligações, abrindo perspectivas, desdobrando possibilidades, mas no fingimento da transparência, de aproximação a um qualquer centro, uma verdade, nesse mesmo movimento me distrai. Há metafísica suficiente em não pensar em nada. No desejo não encontro degrau para chegar ao real, para transfigurar o volátil em palpável. Se mastigado com tempo e sentidos, o desejo desdobra-se fim em si mesmo e exige múltiplos cuidados e leituras. Portanto, faço listas dos afazeres que teimo em descumprir, mas não dos movediços desejos.
Estou certo que na contagem dos dias que agora recomeça entrarei nas areias movediças da criação partilhada com o André da Loba. A imagem que aqui se tatua pertence a um projecto de revisitação da tira desenhada, buscando nexos entre o desenho livre e o aforismo selvagem, uma gramática das formas em movimento, posta a palavra na cadeira do espectador a dizer por dizer.

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 2 Janeiro

As fatais listas dos melhores do ano, aqui e ali, incluem o «Aaron Klein» e «Os grandes animais». Também está frio e até choveu. Não sei se há neve nas terras altas. Amigo [querido] tem a mania de ilustrar as conversas com livros, pelo que durante o fechamento me atirou habitante das listagens, «Chuva Miúda», de Luis Landero (ed. Porto Editora). Não será mau romance, com excelentes observações, frases de bom tom, fino recorte dos protagonistas e uma competente gestão dos tempos da narrativa. É uma história, que se pretende dura, ou melhor, céptica na visão da família que não saberemos nunca como ser nem deixar de ser. Uma história que talvez seja de consolação, como as que o narrador pensa durante os pensamentos da Aurora, personagem que começa por parecer viver apenas nas palavras dos outros: «que haverá na narração que tanto nos consola das culpas e dos erros e das muitas penas que os anos vão deixando à sua passagem?» Cansou-me sobremaneira a omnipresença do narrador, inescapável, por certo, mas que não precisava tornar-se ferramenta voraz, eléctrica chave que abre tudo para pôr explicações e conclusões nas fendas. O mesmo querido [amigo] pôs-me nas «Viagens», de Olga Tokarczuk (ed. Cavalo de Ferro), que me tinha escapado por entre confusões, mediatismos e certa alergia ao corrente. Também por aqui se dá basto consolo e histórias de ver ao espelho, com princípio meio e fim, não sei se por esta ordem. Para bem dos nossos pecados, acende pensamentos que brilham por muito, faz canções, dá início a outros tantos romances, recorta notícias da banalidade, faz dos pontos de interrogação mapa onde coloca corpos e tempo, não se cansa de fazer e refazer bibliotecas. Está também em várias fatalistas, de prémios até. Não me quero armar em canonista, que não tenho carta de pesados, mas interessa-me mais o que entrega labirinto na vez de porta. Por bem desenhada que esteja na parede.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 3 Janeiro

A vizinha gruta de Ali Babá recebeu umas velhas novidades e lá colhi, puxado pela capa com título desenhado tão viva e modernamente que parecia impresso ontem: «50 anos de poesia portuguesa: do simbolismo ao surrealismo», de um algo destratado João Gaspar Simões, e inserido na colecção/editora movimento que me desperta curiosidade a cumprir. Sem surpresa, encontro por aqui ideias, prenhes de dados e conhecimento, com que dialogar. No essencial, Gaspar Simões defende que o simbolismo teria marcado de modo indelével a produção poética nacional, atacando-o, mastigando-o, celebrando-o, reinventando-o, no balanço do a favor e do contra. Os poetas do surrealismo «iam direitos ao absoluto, resolviam de uma só vez o enigma da alquimia medieval. O poeta é por assim dizer o demiurgo que refaz dentro de si mesmo os segredos essenciais do universo.» Nesse pólo oposto do simbolismo, depois de sustentada digressão, por nomes, movimentos, publicações, temas (onde o amor figura com destaque), acaba o ensaísta por detectar convergência paradoxal. «Esteticamente, afinal, o século XX viveu, e continua a viver, pelo menos no domínio da poesia, das grandes descobertas dos poetas que no final do século XIX conferiram à criação poética prerrogativas de conhecimento absoluto.»

Sobra ainda da leitura uma lista de poetas que passaram entre os pingos da chuva radioactiva dos cânones, seja qualquer for a origem do dito, academia ou mediania. Será talvez triste para quem o não entenda, mas este jogo de escondidas torna-se, com o tempo, motivo de alegria para quem queira atrever-se. (Entrando nos alfarrabistas.) Eis um caso, distinto, por só agora deixar a obscuridade das gavetas. José Rui Teixeira, que já havia trabalhado como poucos a figura do morador da Horta Seca, Guilherme de Faria, tratou agora cuidado extremo o seu companheiro, António Hartwich Nunes, personagem a justificar curiosidades, não apenas pela ilustre filiação. «O Livro de Ónio» (ed. Cosmorama) reúne a poesia de alguém que a praticou toda a vida, como o desenho e a pintura, sem assumir as inerências da condição: «fui poeta sem querer e, sem querer, continuo e continuarei a sê-lo». Um mote essencial, não apenas na sua relação com o suicidado Guilherme, está no mote-enigma: «Sonhei um sonho tão velo,/ E foi pior para mim…/ Agora para esquecê-lo,/ Gasto a vida até ao fim.» Amor, Deus e uma solidão, que talvez só o humor alivie, traçam aqui singela paisagem de almas. «Só comigo fui;/ só eu sei quem sou./ Mas eu senti tudo,/ tudo me falou.// Tudo passa e move;/ tudo é já no fim./ Mas a morte é vida/ a chamar por mim.»

Não será a modéstia encantatória do Levi [Condinho] a afastá-lo das atenções merecidas. Valorizamos demais a presença no palco. E para vestir o fato do poeta há que caber nas várias peças do bem parecer, gravata de maldito incluída. Levi está bem na penumbra, praticando os malabarismos de uma arte poética que independe das leituras: «Perscrutar os veios da matéria/ seus nexos sons perfumes/ íntimas substâncias copuladas pela língua/ inventar o Verbo que invente a negação/ da profaneidade da palavra/ que autómatos nos move sobre escarpas.» A Húmus fez «Colheita serôdia» de inéditos e dispersos. (Poucos poetas se ficam hoje por uma casa, quase sempre para responder ao apelo magnético da amizade, nem tanto por razões programáticas. Não vem daí mal ao mundo. Na área da música, mais do que bandas de formação fixa, vemos projectos com irrequietos e permutáveis interpretes.)

Até ao começo do século, injustamente acusado de novo, o poeta continuou a cultivar como jardim este ao redor dos acordes, dos nadas, do pequeno e médio Deus, de leituras, das memórias, talvez da morte. E pássaros, corvos e melros. E árvores, sobreiros e choupos. «Ciclo fechado em perpétuo devir/ vertigem medida em tempos certeiros geometria perfumada».

6 Jan 2021

Das vidas da vida

Horta Seca, Lisboa, terça, 10 Novembro

 

Atravessamos tempo e lugar de nós mais ou menos cegos, nuvens pesadas a fazerem-se chão duro de palmilhar, vidro moído, areias movediças, pântanos sulfurosos; ao nível dos olhos instalou-se nevoeiro compacto de nos tirar horizonte, as bússolas ora baças ora em doida rotação; no entorno aquele vociferar contínuo de bandeiras misturado com o sussurrar de desgraças íntimas, a fome a morder calcanhares, o inesperado anunciado em relatórios dos serviços de inteligência a insistir que nada nos está nunca garantido, portanto. Quantas palavras serão precisas para dizer continuar?

Este texto não saiu do lote dos atrasados, dos em falta, dos ardentes. Veio de uma das muitas crises que a crise vai desovando, e estava longe de imaginar, quando conheci final e pessoalmente o Luís Cardoso há um ano redondo, que estaria agora nesta dança com ele. Gentil, desde o primeiro momento. «O plantador de abóboras (sonata para uma neblina)» envolve-nos a partir da primeira palavra-frase, possui ritmos de encantamento, leva-nos aos cenários mais ásperos como aos de seda, faz-nos trocar de pele com personagens fortíssimas, mulher, homens, e nelas incluo fauna e flora, burro, ganso, café, abóboras, rosas.

Sem nunca cometer o pecado do óbvio, sem tentar explicar, demonizar ou até descrever, mas assumindo a delicadeza do mistério vai fundo nas teias do colonialismo, como a aguarelar até a dor. Na linhagem ancestral dos grandes contadores, tudo se oferece com simplicidade líquida, de rio a rumorejar para humedecer os diálogos, para lavar o sangue, para desenhar destinos. Ergue-se devagar para dizer dessoutro doloroso processo de depuração que desembocou em país. Conta-nos de Timor, e assim não haverá outro livro, por só agora acontecer. Timor nasce neste livro. Nada mais que uma história, mas, digo eu, sem peso, nem conta ou medida, que fará História. Não há países sem pessoas, e acompanhámos, ao longe mas com intensidade, quantas se perderam para que Timor Lorosae o fosse. Como não há nações sem literatura, sem textos fundadores, rios e montanhas, marés e árvores, mão e pensamento, vontade e esforço, gestos de semear, de rasgar, de acariciar, de erguer, passos e visões. Tudo acontece por causa da gente vivíssima que aqui habita, que morrerá jamais graças ao laborioso discorrer do autor. É de crises feita a nossa paisagem, a íntima e a outra. Jamais deixaremos de andar sobre brasas, de atravessar tempestades, de nos perdermos na floresta, de olhar cada rosto da violência, de tratar o medo por tu. É a puta da vida. Seja ela maior do que a própria vida. Há que dizê-lo cuspindo nas trombas da vida: cresce e aparece! Assim afastaremos a morte, ainda que por brevíssimos instantes. Desabafo tonto: nenhuma lição se retira dos livros.

Ou melhor: o editor tira, sim. O modo como as figuras maiores deste romance andavam pelo meio das plantações, como habitavam as casas, as varandas, pegavam nos livros, se vestiam e despiam, mas também como tocavam na vida animal e vegetal, sugeriram-me de imediato a Ana [Jacinto Nunes] para pintar as portas e janelas do habitual na nossa colecção (a da capa, aqui na página). Devo confessar, com tanto desacerto a acontecer-me, que assisti em delícia ao resultado do seu encontro com o texto. O que parecia primeira proposta, revelou-se esboço e depois nova série e outra ainda, cada uma trazendo olhar distinto, em investigação de leitor a reler, a detectar o pormenor de um olhar, um sobrolho a carregar-se, sempre o rosto como palco. A escolha estava feita, mas a Ana continuou a ler com o corpo todo no papel. Se dúvidas tivesse acerca das potestades que se escondem nestas páginas estavam desfeitas a pincel.

Sequeiro, Lisboa, sexta, 13 Novembro

Acolho a nefasta memória deste dia com almoço que só não é como antes, porque a nova normalidade tende a expulsar-nos dessas maneiras de ser. Vivi nos bastidores de alguns textos, por estes dias. Alguma dor os habita, por tratarem da matéria de que somos feitos. Deixemos para depois. Quero trazer o registo contabilístico de conversas acerca da construção do texto, prazer, portanto.

Prosa, primeiro. O Joaquim [Paulo Nogueira] surpreendeu-me com romance que força os limites dos mecanismos narrativos, de recusar a reflexão sobre a forma, nem excluir o que lhe interessa, também no teatro, desconfio, a aproximação à vida, sabendo que será inevitavelmente outra coisa, que nunca a agarrará.

Como em trabalho de dramaturgia, vi-me a empurrá-lo para o risco, para o entusiasmo, para o fulgor. Conhecemo-nos há muito em contexto de trabalho vivificador na direcção da não-violência. Reconhecemo-nos agora pondo as mãos na violência.

Depois a poesia, que me atirou para as órbitas da infância, esse astro escaldante. O José Ricardo [Nunes] vem amadurecendo volume com afã de jardineiro, atentíssimo à dimensão dos canteiros, ao convívio das espécies, ocupado a distribuir as luxúrias, sem maltratar as daninhas. Incluiu os astronautas e foi isso que me pôs a voar. Mas a partilha de leituras no lugar fresco da generosidade, a trocar truques para excitar a cor do antúrio ou garantir que o carvalho atravessa o verão, na caça ao advérbio ou aos anti-climax, nos alinhamentos que servem o baixo contínuo, na perseguição do título justo, permitiu-me a mim ver mais. Sobre a cosmonáutica e o arrastar dos pés.

Horta Seca, Lisboa, quinta, 26 Novembro

Não se entra impunemente nos livros de José Emílio-Nelson. Deviam mesmo ser proibidos, garantindo assim as leituras que merecem. Ao «Putrefacção e fósforo», que me é dedicado ferindo o meu pudor, que quase sangrou agradado, segue-se «Coração Cru», intervalados com os desenhos libertinos da Bárbara [Fonte]. Libertinos, não tanto pela abundante e convivente genitália, mas pela absoluta liberdade no redesenho dos corpos. As obsessões tocam-nos ou deixam-nos, entram e saem. Uma delícia, se quereis saber. O voluminho contém a energia do mais potente explosivo, somando reflexão erudita, prosa poética, versos, momentos de puro teatro. Um índice pontiagudo com o qual assinalar a pele dos temas mais excruciantes da nossa vida conventual, portanto doce e castigada. Habitamos os corpos como lugares do sagrado, mas saberemos qual o lugar neles para a oração? Nenhum sabor, por acre ou pestilento, está excluído. Não conheço ponte mais virtuosa e desafiante que nos ligue ao absoluto. A partir da inevitabilidade marmórea do cadáver.

Horta Seca, Lisboa, sexta, 27 Novembro

Puxo duas semanas e sento-me. Nos ares rodopiam os bumerangues: lista de traduções a pulsar na direcção de várias línguas, com o Arno Schmidt à cabeça, uma ideia de texto que me queima, as conversas na margem de Deus, as micro-narrativas com o André [da Loba], o velho infanto-juvenil também com ele, a confirmação do documentário sobre livraria onde o antigo vem à tona respirar, o projecto de puro gozo a partir da cerveja, aquela colecção nova a celebrar a memória, e, por falar nisso, a investigação sobre os passos dados por Jean Moulin em Lisboa, as possibilidades entusiasmantes que chegam a cada almoço pausado há séculos e os primeiros traços firmes no desenho associativo das editoras independentes. Fuga para frente, mas às arrecuas.

1 Dez 2020

Nocauteado

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 24 Outubro

Acredito sem verificar no que me diz em dedicatória o seu director, José Carlos Marques: a «DiVersos» é a única revista de poesia a lançar-se aos nossos olhos, sem interrupção, há mais de 24 anos. Cada edição sabe-me a água fresca, no seu modo simples de, alheada aos modismos, recolher vozes das mais díspares geografias, em estilos diversos, tratando temas que vão da padaria aos números, e que não se ficam pela contemporaneidade. No número 29, a páginas 113, na versão brasileira de Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira, mora poema de Niels Hav (Dinamarca, 1949) que ecoou nesta minha idade média: «Incapaz de achar uma resposta». Começa por, encontrando-se «sozinho na luz cintilante/ com a simples verdade», seguir com toada avaliadora. «Eu devia ter feito tudo diferente,/ isso é fácil de perceber./ Geralmente eu estava nocauteado,/ preocupado com as tarefas mais triviais,/ preso em preocupações banais sobre dinheiro/ ou me sentindo exaltado por apenas existir.» Enumera depois o seu gasto do tempo com insignificâncias, as do quotidiano. Até ao regresso à luz inicial. «Muitas vezes desconsiderei fazer coisas mais úteis/ a fim de reflectir sobre o mistério,/ na esperança de captar um pensamento/ ou a articulação adequada num devaneio.// Era comigo mesmo que estava em guerra?/ Olhar a verdade nos olhos/ é tão insuportável quanto encarar/ o sol. A verdadeira insanidade/ parece normal.»

Horta Seca, Lisboa, quarta, 4 Novembro

Soubera eu sonhar e teria construído em imagens profusas e barrocas uma casa, que ainda assim haveria de ser modesta e instável, em constante mutação, azulejo ou parede trasnfigurado ecrã, sem sombra de linhas rectas. Portanto, organismo respirador, com colunas de casca e seiva e modos têxteis de acolher os corpos. E as ideias. Certo salão, à entrada do qual se pintaria «Inferno», palavra que também se ouviria sussurrado nem sei de onde nem por quem, ficaria reservado para as intenções, essas aves-projecto que vislumbro agora imóveis em pleno ar. Às vezes espreito da porta, sem ânimo para transpôr o umbral, e temo muito tocar-lhes, o que conseguiria com facilidade, pois não sei se voariam como todos anseiam e eu desejo ou se se quebrariam logo ali em milhares de fragmentos. Por inabilidade minha, perderam a qualidade do movimento e são, vistas daqui e agora, âncoras no céu. Ponho-me a contá-las pelos dedos e logo me transfiguro em granito e peso, obstáculo irredutível onde me fecho. Não sei se os conseguirei recuperar todos, se passarão a detalhe pintado em trompe l’oeil, a fingir paisagem. Arrisco ainda quebrar o fio frágil que me liga ao outro que aguarda em ânsias.

Soubera eu sonhar e estaria, como vou estando, a testar a elasticidade de outro ramo da mesma casa-árvore colorindo folha atrás de folha, que depois planto na linha que me sustenta em dificuldade à espera que pegue. Manda a botânica que dali nascesse, em vez de enxertada, mas não funciona assina na natureza do sonho. Sem me livrar do medo, insisto em atirar bumerangues, vários e ao mesmo tempo, de assustadoras dimensões, recolhendo ao mesmo tempo e em malabarismos de muitas mãos incontáveis possibilidades de formatos múltiplos. As folhas rodopiam com os ventos passantes soltando cores, de dia como de noite.

A casa suspira, sugerindo que se alimenta tão só de pensamento e de palavra. Mas na cave, onde laboraram as mais sinistras preocupações, reina enorme confusão de silêncios sepulcrais e bússolas partidas. Sento-me e ajuízo se não deveria acordar. Estivera eu a dormir.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 8 Novembro

Telegrama final, por enquanto. Ponto. Sabia do teu cansaço. Não fui a tempo de continuar aquela conversa sob as arcadas de Alvalade que durou até pintares a noite do teu habitual. Todos os teus céus eram negros, mesmo quando tinham cores. A tragédia era o cenário certo para convocar os corpos compósitos de restos, ruínas de carne e sangue, que misturavam cada plano oferecendo-lhes equilíbrio e consistência. Levaste à cena as explicações de como nos erguermos do lodo para ver ao longe. Ninguém homenageou melhor a realidade (ilustração na página). Ponto. Soube agora da tua morte, à beira dos números redondos, Cruzeiro Seixas. Convém rir da cabalística com os dentes todos. Mas tudo vai piorar. Pouco a pouco as formas deixarão de saber como acasalar. Os olhos perder-se-ão cegos no vazio. As mãos inchadas do tanto por escrever vão usar inadvertidamente os aparos para furar as nuvens e soltar apenas o sopro da tristeza. Os braços da liberdade perderão a força com que seguravam as chaves. As chaves, sempre elas irão gritar bem alto a sua eterna orfandade. Ponto. Dizem-te o último, mas desconfio que foste dos primeiros. Os que conseguem ser ao acabar levam consigo o âmbar da singularidade. Mas deixam sinais. Ponto.

Alecrim, Lisboa, quinta, 19 Novembro

Encontrando-me a correr atrás de uma das tais possibilidades com prazo de validade, passo mais tempo no meio de livros que o venceram, ao tempo. Amiúde queima-me as mãos uma qualquer preciosidade radioactiva por esta ou aquela razão: os modos de ser objecto, o fogo das gravuras, a raridade, a força de um fragmento, o pedaço de papel esquecido pelo leitor. Hoje, chegou inesperadamente à Livraria Campos Trindade por um daqueles acidentes do afecto, «A Morte na Raiz», de Bernardo Santareno, de 1954, com dedicatória. Deliciámo-nos com ligeireza no comentário ao volume de generoso formato, imaginámos razões para a interrupção na leitura, deixadas virgens tantas páginas, ou na estranha gralha que trocou em título o último pelo primeiro amigo. As datas andam desbotadas pela insanidade e só no dia seguinte o Bernardo [Trindade] reparou que naquele exacto dia o autor faria 100 anos. Que muda uma coincidência?

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 21 Novembro

Não sei se deram por isso, que não lhe encontro tanta diferença, mas o Público rearrumou-se. Deliciosas têm sido as reacções à mudança de lugar do Bartoon, do mano Luís [Afonso], da última página para a vizinhança das páginas de opinião no miolo. O provedor foi chamado à prosa e suscitou as explicações do director: que foi ali que nasceu, que «a visão do país e do mundo» tem mais a ver com opinião do que com a ludicidade do fecho, afinal início para tantos. Estranho que não se perceba a diferença entre cartoon e tira cómica, mas arrume-se na gaveta da desatenção crónica. Sento-me com prazer a saborear a relevância que a pequena tira tem na identidade do jornal. Ainda vai havendo leitores.

24 Nov 2020

A ver o mar e comboios

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 18 Outubro

 

Para onde quer que atire os olhos, para o branco no alcatrão a dizer bicicleta, seta de sentido ou jogo da macaca, para o verde farfalhudo e inusitado da colina, o fragmento recortado de castelo vindo de nenhures para desaparecer, a quadrícula espelhada e funcionária do prédio público, o candeeiro torto, a voluta do puxador no móvel sinuoso, as lombadas hieráticas, enfim, a experiência interior, o resultado acaba sendo o mesmo: vejo-me um belo condutor de paragens de autocarro. De tão quedo, chego até a pensar que vou a lugares.

Horta Seca, Lisboa, segunda, 19 Outubro

Dou por mim a fazer malabarismos com a brasa, a batata quente e o fragmento de lava em está feita a editora, isto enquanto avanço no fio da navalha. Olhar para o abysmo provoca a queda, há que seguir em frente, mesmo sem vislumbrar sítio, lá no horizonte, onde ter pé. Talvez a vida fosse sempre assim, e acreditássemos que os planos tornavam os dias mais sólidos. Nunca assim foi, jamais será. Desato, portanto, a disparar projectos em todas as direcções da frente. Alguns são ideias antigas, de puro interesse pessoal, outros procuram responder às circunstâncias. Disso falaremos adiante, desde que o chão, mesmo entretecido de nós por desatar, não me escape.

O essencial da noite acabou sendo a amizade, mas discutia-se como passar para imagens em movimento uma mudança de pele. E de lugar. A cidade encolhe, a pensar que cresce. E impiedosamente amachuca papéis, destrói monumentos, sacrifica íntimas correspondências com os múltiplos passados. Não voltaremos a ser os mesmos. Tenho brincado com os fins do mundo que vão acontecendo no entorno de cada um, mas percebo agora que se trata disso mesmo. Não estamos entre parêntesis, o caminho risca-se em linhas compostas de três pontos. No carro que me deposita em casa, as vozes da rádio levaram-me a outros tempos, quando a crença ainda fazia parte das ferramentas. Custou-me a adormecer.

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 20 Outubro

A generosa insistência do último moicano da tribo da carta manuscrita Tiago [Manuel] trouxe-me a beira-mar, tão rica de cambiantes que parece aquele ouro de cobrir peitos de Viana. Luísa Dacosta, também nesta recolha diarística de «Um Olhar Naufragado» (ed. Asa), descreve como ninguém os múltiplos mares, que aquele atlântico não é sempre o mesmo. «O mar é hoje uma ondulação quebrada de espelhos a reflectir o sol e um céu, alto e claro. Entre céu e mar há como que um balão de luz, transparente, bola de sabão, não irisada. Duas velas, ao longe, dão-me asas e tornam-me gaivota.» Em cada lugar que visita há-de descobrir um rio ou a subtileza das orlas marítimas. «Mar achãozado, sem ondas. Azul clarinho. Quieto, na tarde morrente. Um campo de água, semeado a miosótis.» A volúpia da descrição também a aplica à flora, mais riqueza deslumbrante, a contaminar o vocabulário, jardim de palavras que soube cultivar com esquecida mestria. E à casa, a grande da infância. «Manhã de névoa, perfurada pela ronca, que é para mim um som de búzio e infância. À beirada, a areia tem já um tom quente e solar, mas as águas, quietas, da maré vaza estão prisioneiras da névoa e dos penedos, onde as gaivotas, aninhadas, parecem nenúfares, brancos, de corolas fechadas. Não há linha de horizonte, nem apelos de longe. Só este chamamento, doloroso, constante e incansável.» Passo a mão pelo veludo do detalhe exposto e acuso o toque.

O mano Tiago, na ilustração que abre o volume (algures na página), desenhou rosa cercada por ondas de espinhos, espelhando os tons sensíveis destas páginas líquidas. A morte e a dor são presenças dialogantes, nunca afastadas nem pelas manifestações de afecto, ou pelas retribuições da comunidade escolar, e, sobretudo, dos seus leitores infanto-juvenis de várias idades. Na maré da atenção vem os amigos, a pintura, a actualidade política, os seus autores, Pessanha e Cecília Meireles. (Macau também aparece com a alegria do bom acolhimento, ou não fosse a casa do seu poeta.) E o feminino visto de muitos ângulos, sobretudo os mais negros, tendo o homem por qualquer coisa entre sombra e assombração. A infância desponta a cada frase, irrigando a palavra, que brilha no orvalho, na nuvem, na cor. E a dor, ainda ela.

A relação com os editores está representada tão só na versão amarga, causada pelos inevitáveis atrasos, pela desatenção, agravamentos da sensação partilhada amiúde de que era escritora ignorada. A entrada de um certo 15 de Outubro anuncia: «os livros não irão aparecer! Como me explicou o novo director do departamento, já estava esgotado o lote das saídas. De resto não tinha sido ele a contactar-me porque só há pouco tomara conta do cargo e não fazia parte da programação que tinha elaborado. Além disso era uma autora pouco vendável (não estava em causa a qualidade, claro) e não havia nada a fazer. Há quanto tempo a vida vinha a escorraçá-la e a bater-lhe?» Muito comum na sua prosa, este atravessar da primeira para a terceira pessoa, como que a afastar-se de si para se ver melhor. Luísa Dacosta pagou o preço de ser autora para as infâncias, preconceito que afasta os bem pensantes de cada época, e que, neste caso único, escondeu obra única que se mantém requintada como manhã de litoral. «O meu livro caiu no silêncio e na indiferença», escreve. «Ninguém noticiou. Ninguém disse, ainda, nada.» Ninguém ainda nada parece ser o exacto quotidiano da edição.

Horta Seca, Lisboa, quarta, 21 Outubro

Peguei sem querer no livrinho e logo senti o inverso. Diálogos cortantes a empurrar vertiginosamente uma narrativa de personagens inteiriças, sem sombra de banalidade. Surpresa em texto adulto, que, não sendo sobre nada, cresce à volta do ser mulher, mãe, voz e figura. Talvez gato a rasgar palco com as garras. «Um Tigre à Porta da Sé» (ed. Nova Mymosa), da Mónia [Camacho], obrigou-me a desligar o telefone até saber o que ainda não descobri da cantora marroquina que deseja mudar de pele, de país. Ser daqui. E faz de uma estação de comboios o seu lugar. Para mal dos nossos pecados, contém ainda chefe de estação perplexo, jornalista embeiçado e polícia filósofo. «Todas as vidas têm, num qualquer canto, um jardim. Um oásis. Mas em alguns casos é preciso semeá-lo primeiro. Era isso que ia fazer. / O mundo dobra-se ao meio quando é preciso.» Estou capaz de acreditar, um instante que seja.

28 Out 2020

Andar sobre as águas

Palácio Pimenta, Lisboa, domingo, 11 Outubro

 

Ignorando as recomendações sanitárias, visito a Feira Gráfica, versão novo normal de exposição de edições e sob o lema-manifesto, «continuar a editar!». A luz quente e precisa da tarde parece partir das salas do Pavilhão Branco, salomonicamente distribuídas pelo gosto e critério dos curadores, Emanuel Cameira, Filipa Valladares, Gonçalo Duarte e Xavier Almeida. «Os dois verbos que compõem o título – continuar e publicar –, quando juntos, supõem aliás duas tomadas de posição: a de não desistir e a de zelar por.» Perto de uma centena de projectos e presenças, ainda que não incluam tudo o que mexe nos interstícios, confirmam uma vitalidade que mastiga aos limites o objecto-livro, e nele absorve a ilustração, o desenho, a fotografia sob a batuta de design autoral forte. Como robusta se faz a afirmação (política, cultural, das muitas diferenças), apesar de aqui e ali ceder a modismos invariavelmente bacocos. Da abysmo constavam, escolhidas pelo Emanuel, as ilustrações do João [Maio Pinto] para «Os Grandes Animais», e as do Rui [Rasquinho] para «Aaron Klein». Além do rasgado retrato de Ramón pelo Rui [Garrido] – peça número 13, como não podia deixar de ser. Uns dias antes, participei em (quase) debate sobre os «constrangimentos e oportunidades» de publicar nestes tempos de pandemia. Nada de muito novo, até porque há anos fervemos em crise, neste país que, além de não ler, detesta os livros e o que eles significam. Projectos como este dizem-me que, apesar das diferenças e dos insultos, há quem teime em tocar a reunir as vozes e os instrumentos na banda da aldeia.

Horta Seca, Lisboa, terça, 13 Outubro

Na monda de qualquer texto costuma surgir flor orvalhada. No caso, na preparação dos fragmentos dedicados à investigação da natureza e outros problemas gerais, com o mano António [de Castro Caeiro], deparo-me com esta dúvida, farei parte dos do Teatro de Dionísio ou instalou-se o mau tempo nas nossas existências? «Porque são os artistas do Teatro de Dionísio, o mais das vezes, pessoas da pior espécie? Porque não tomam parte, de maneira nenhuma, daquilo que faz sentido ou da filosofia. Porque passam a maior parte das suas existências com as exigências da sua arte e porque passam tanto tempo em situações fora de controlo, por vezes até em grandes aflições. Ora tanto a perda de controlo como as aflições são elementos que constituem a precariedade.»

Casa da Cultura, Setúbal, sábado, 17 Outubro

Antes que nos voltem a fechar, fui à beira Sado, margem de tantas casas, respirar imagens. Até final de Novembro, por ali acontece mais uma edição da Festa da Ilustração, desta (quase) sem a minha intervenção. Logo cedo e na ressaca do ano passado, achei melhor excluir-me das tarefas de alinhamento e desafio, de arranjo e reclame. As contas de cinco edições fixaram uma fôrma que nem ela precisa de mim, nem eu preciso que me agrave o cansaço de fazer tudo e mais alguma coisa. Ou mais alguma coisa na vez de tudo.

Que melhor maneira de começar do que pela surpresa? Na Casa da Avenida aparcou a homenagem ao João [de Azevedo], na qual se incluem os seus derradeiros originais, telas que ilustram meia dúzia de contos (quase) eróticos de Fernando Cabral Martins. «Taxi» (ed. Estuário) esteve para ter edição da abysmo, mas estacionamos muito e conduzimos devagar, sem portanto conseguir dar resposta veloz à maior parte das chamadas. Nem sempre me lembro de avisar que preciso antes construir o veículo em que nos deslocamos.

Perdi já corridas imperdíveis, mas também ganhei paisagens ficando quieto. Certo é que me deslumbraram, mais do que no antes visto, estas passagens dos corpos nos pequenos paralelepípedos em movimento, cores fortes, perspectivas rasgadas, representações fluidas como as águas onde a vida se inscreve. Quem vai ao volante quando nos atravessamos em andamento?

Disse o mapa que o percurso deveria continuar para outra Casa, a irreconhecível da Cultura, contaminada pela doença dos tol(d)os que atacou a cidade com um decorativismo de vómito. Logo na montra se percebe que algo mexe no miolo. «Esta exposição só acontece na cabeça de cada um. E a cada dia, na Casa, o panorama do visível mudará. Estas formas estão vivas. À maneira de André da Loba (desenho algures na página), se recortasse em madeira colorida as palavras, para que explodissem em potência e clareza, depois de formas, traria de novo fluidez e somava-lhe luxúria. Mas seria difícil manter as letras quedas sem que logo começassem a recombinar-se: luxidez, luximas, formúria, formidez, fluimúria, fluxúria.» O André, nesta encantada «Chius, rangidos, frufrus», «expõe um laboratório onde apresenta, pela primeira vez com esta dimensão, os resultados da sua tentativa de compreender as estruturas da vida. A evolução destas formas conquistaram caminho sobre todos os terrenos como só a correnteza da água sabe fazer. Também no concreto da sua profissão, onde foi aplicando um vocabulário pessoalíssimo a cada solicitação, parecendo resposta libertária à sua própria intuição e curiosidade, sem os condicionamentos que a prática da disciplina impõe. Em pano de fundo, um degradê. A subtileza deve representar-se assim, em suaves mudanças de tom, a começar no deslumbramento da descoberta inicial, aquela que muda a maneira de ver. (…) Cada ser, cada cor reflecte luz e pensamento em distintos comprimentos de onda. André da Loba criou uma oficina de escuta permanente. Não sei como ouve melhor, se com a mão, se com os olhos.»

Levam-nos os passos à Lapsos, onde se recolhem «Ilustradores Ilustrados», vistos e revistos pelo João [Francisco Vilhena], e assim apresentados por este vosso criado: «Usando a sedução para fazer desaparecer a máquina, capturou retratos memoráveis dos criadores de irrequietas visões. Além do lado documental, que conserva fragmento de movediço tempo, cada ilustrador ilustrou-se. Com obsessões e fantasias, personagens e vultos referenciais, leituras e materiais do seu trabalho, simples estados de espírito. Vinte anos depois, oito desses autores, foram convidados a continuar o diálogo. E o fotógrafo voltou a estender a identidade como cenário, assombrando o tema com imagens-fortes: um pai faz-se papel de pintar, alguém acaricia um gato como se fosse a cor, um cachimbo torna-se ferramenta de investigação do olhar, há quem se veja apanhado em rede de atacadores dos sapatos-caminho, ela usa as unhas para desenhar gritos, ele afirma-se caçador de vírus, e por perto está o encantador de serpentes. Uma cartola parece conter as ideias que fogem de quem brinca com elas. Mesmo quando se esconde, o rosto apresenta-se enquanto palco maior. Os elementos são aparentes distrações, afinal atalhos para o essencial. Gente que não sabe andar sem um lápis.»

No extremo da avenida, encontram-se o fulgor de Thomaz de Mello, mais um resgatado, pelo Jorge [Silva], ao pó do esquecimento. Estas recolhas são caixas de fósforos, coisa minúscula, mas que, risco após risco, iluminam múltiplos aspectos de obras que se voaram explícitas abaixo do radar, em artes aplicadas aos quotidianos mais anónimos, mas que teimam em fixar-se nas nossas memórias de meninos, que assim se cristalizam perante estes bonecos. Perdi-me em «Os Lusíadas» compostos que nem espelho daqueles anos de sessenta e setenta em que a noite não impedia a dança.

Subimos à Gráfica, ruína ainda virgem e a tremer de potencial, memória industrial na carne da cidade, onde bem se emparceiraram a «Ilustração Portuguesa» e a «Prata da Casa», recolhas colectivas que se são faróis de enorme e diversa energia. Como se o miradouro vizinho abrisse vistas e horizontes ali, sob os ecos das máquinas de multiplicar palavras. E possibilidades.

20 Out 2020

Respirar fundo

Horta Seca, Lisboa, quarta, 30 Setembro

Aumenta com bruteza a lista dos meus mortos, íntimos de aqui longe. Não trouxe cada um, e razões havia, para evitar fazer destas entradas portas de cemitério, obituário constante. Neste ano miserável ficaram por evocar Pierre Guyotat e Rubem Fonseca e Claire Bretcher e Richard Sala e Maria Velho da Costa e Ernesto Cardenal e Juan Marsé. Ponho, em loop, a macieza de Juliette Gréco (1927-2020) de Bonjour Tristesse, ela que me foi mulher e cidade, promessa e acesso, voz e intensidade. «Tu es mon seul amour/ J’ai trop de faiblesse/ Pour te quitter/ Bonjour tristesse.» O sussurro de bons dias soa a conto de encantar os medos, um nada de conforto, pequeno sol de cada dia. O beijo da tristeza nem sempre morde. E assim trago mortos. Ou nem tanto assim, que estes souberam dar nós no tempo.

Quino (1932-2020) foi celebrado com justeza e em vida, raro caso de encontro de talento e popularidade. O seu desenho era rico e claro, mas tal clareza era de mil tons, alguns de profundo negrume. Foi extraordinário cronista do parvo quotidiano. Enfrentou deuses e demónios, escolhendo para maior o dinheiro, o negócio, o capitalismo. Mostrou, como poucos, o rosto da pobreza. E do seu espelho maldito, a riqueza. E da humana miséria, a dos sem sonho. Chicoteou com proverbial bonomia cada um dos poderes, pequenos e grandes.

Mistério, para mim, como consegue a mais extrema severidade sem perder a doçura. Tal como faz sínteses visuais onde se esconde grande complexidade. A política e a burocracia eram, mais do que alvos, objectos de fina análise. O bom humorista é cientista social, desenha ao microscópio. Execrava a censura, as milhentas com que ajardinamos as nossas cidades. Não se devia dar bem com o ar dos tempos, e não falo de poluição. A Mafalda esteve sempre por perto, daquele modo de único de ser tão crucial como o oxigénio sem ar de coisa importante. Por cada fase adolescente a bandeira foi um desenho de Quino, mas os ícones caem com facilidade das paredes porosas. O meu amor de sempre, e que de cada vez que me beija faz manhã, nublada, mas manhã, outro não é que o absurdo. Recordo um pequeno homem de chapéu de coco, mala clássica cruzando o viajante com o vendedor ambulante, em frente a um pedaço de linha de caminho-de-ferro esperando de olhar no vazio alinhavado pelo horizonte. Ou aquele, com todos os detalhes de classe média, outros dos seus queridos objectos, a sonhar-se no tecto espelhado tal e qual, sono profundo da sobrevivência mediana. (Outro exemplo, algures na página). O essencial sobre o essencial para nosso bel-prazer e não menos inquietação.

Espelho d’Água, Lisboa, segunda, 5 Outubro

Associámo-nos à Nova Mymosa para, por estes dias deslassados, marcar regressos lançando, presencialmente e via online, doze livros que deviam ser treze (claro!). No que à abysmo/arranha-céus diz respeito, ficou-nos a faltar «A Grande Dama do Chá» e o Fernando [Sobral], por força de circunstâncias que também afastaram alguns mais. A doença faz-se convidada destas nossas horas, e de mão dada o medo.

Antes dos três títulos que aguardavam lançamento em Lisboa desde Fevereiro, o Paulo [José Miranda] fez o favor de uma leitura do meu mínimo «Navalha no olho», que dediquei à Isabel, por todas as razões e mais uma: «Pudera/ o meu dia ser/ uma peça só/ de alegria/ o teu corpo:/ em que parte/ me encontro/ neste relâmpago?» Assinalou o leitor-maior dois «elementos enganadores», no título e no uso das palavras obscenas, pois, segundo ele, não se trata de livro surrealista nem de poesia erótica-satírica. Estou bem capaz de discordar, mas é preciosismo. Uma vez publicado, o gosto do autor deixou de ser chamado, mas agrada-me a classificação do José Emílio-Nelson: cubista. «Um olhar que se nega a abordar o acto sexual como ideia de realização plena, e o refere de diferentes ângulos num mesmo plano envolvidos.» De qualquer modo, o encontro do corpo e da palavra, das várias peles da língua, brilhando no olhar do Paulo sensibilizaram-me. «Há no livro a devolução do sentido às palavras que banalizamos e do modo como elas agem sobre nós, os corpos. À força de tanto banalizar, os corpos já não reagem às palavras e estas esqueceram-se de si mesmas. Neste sentido, é um livro político, como todos os livros que se debatam com a falência do sentido das palavras e com a falta de acção que isso carrega. O corpo e a palavra estão, e seria realmente assustador se nos déssemos conta disso, a ficar esvaziados de sentido. Assim, foder, subentende-se, não é um exercício espiritual, mas um exercício de salvação. Este livro alerta-nos para esta nossa situação através de um lirismo invejável, ao arrepio do que parecem ser os nossos dias.»

«Cálice», do Luís [Carmelo], que na tarde se deu a ler mais duas vezes em verso livre, «Adius», do Vasco [Gato], e «Aaron Klein», do Paulo, foram atravessados nas respectivas alegações pela assombração da relação entre vida e literatura, da impossibilidade de uma sem outra.

Em «Cálice», a viagem à memória, e que a usa como meio de transporte, servirá para reconstruir a figura do pai, afinal um lugar. «Desde a Poética de Aristóteles», afirma Miranda, «que sabemos que a poesia é precisamente este território móvel entre o sonho e a possibilidade, isto é, não um comboio em andamento, mas escrever num comboio em andamento, onde o presente passa depressa e, à medida que a viagem se alonga, o passado se torna mais apetecível. Alguns séculos antes de Aristóteles, Heraclito disse panta rhei, tudo flui, tudo é devir. Com este tudo flui, queria dizer que estamos junto com todas as coisas num tapete de tempo. O tempo leva-nos. Tudo flui. O mundo, o universo é um comboio imparável.»

Tenho para mim que «Adius» devia ser lido que nem comédia de enganos, se virmos nisso apenas exercício de destilada ironia. O escritor como personagem parece prometer romance de carácter diarístico mas será atravessado por sucessivos planos, espelhos que o rasgam e baralharão os modos e lugares da escrita.

Vasco pôs o narrador a afirmar que Vasco escreve: «não acho que a escrita tenha de obedecer a essa regra de ser a digestão da própria vida. No caso deste livro, foi de facto uma imagem forte que me impeliu, sem nada que a ligasse à minha história de vida». Ao ler para a assembleia as primeiras páginas do livro, em curioso efeito espelhado (ainda ele!), o que nelas se diz ali aconteceu: «A sala permanece em silêncio. A leitura demorou o tempo de trinta, quarenta pessoas se aperceberem que não conviria aplaudir, não conviria agir como se fosse um livro e fosse possível celebrá-lo».

E tudo acabou em paroxismo com «Aaron Klein». Com agudeza, escreveu a Rita [Taborda Duarte], que não pôde estar também por causa da sombra, que «sendo ficção, este livro é, também, um tratado, um ensaio, sobre o humano, a maldade, a ética, a lucidez da infelicidade, também sobre a responsabilidade, sobre a comunicação e sobre a literatura, numa dobra borgesiana acerca do que é a ficção e do que é a vida dentro e fora da literatura, da ficção. (…) É na lâmina da navalha da ficção, se quisermos no rebordo da página afiada, que nos fere o dedo, ao folheá-la, que nos apercebemos que a ficção é afinal vida e real. E Helder Macedo, a sua interpretação da personagem de Aaron, mas também seus poemas, o seu conhecimento ensaístico, tudo é convocado para o limbo que indistingue o que está dentro e fora do livro, dentro e fora do real.» Ora Helder, bem como outra personagem-maior, Ricardo Ben Oliel estavam presentes. E dialogaram com o seu autor. Palavra tangível, espanto lúdico, literatura em acção. Em directo, também na rede. Sem rede.

6 Out 2020

Respirar fundo

Centro Cultural, Lisboa, quinta, 10 Setembro

Não escreverei a palavra que se insinua. O dia começou com gesto que me faz chorar apenas de um olho, o mais próximo da narina sujeita à prospecção da vareta com cabeça de algodão, no lado oposto com que outra me vasculha o lado de lá do céu-da-boca. Está uma daquelas manhãs indistintamente belas dos romances, e os reflexos nos equipamentos de guerra química não alteram em nada o sabor do dia.

A rotina do mundo inteiro virou teste, não temos por onde chorar. Ou antes, enxaguemos as lágrimas mecânicas, filhas de nenhum sentimento, antes de recolocar a máscara e seguirmos em frente. Atentos ao pôr dos pés.

Horas depois vejo-me em pleno «Diário de uma Pandemia», exposição de muitas páginas, repartidas por cinco partes, da novíssima associação de fotojornalistas CC11, que até me desafiou para escolher e comentar algumas primeiras da nossa tão pouco entusiasmante imprensa. A poeira ainda não assentou, os ventos varrem a cidade com mais vozes e medos além dos habituais no verão alfacinha, e os olhares já se vão cristalizando em testemunho brutal. Mal entramos e o cansaço reencontra-se em instalação que amplia ao exagero os noticiários sobre a Covid-19 e as várias emergências do estado em que fomos ficando. Isto antes de nos perdermos em 90 das mais de 600 fotos oriundas do «Everydaycovid», projecto criado no instagram por Miguel A. Lopes e Gonçalo Borges Dias, que foi recolhendo as diárias deambulações de 119 fotojornalistas. Segue-se o trabalho dos correspondentes estrangeiros, as tais primeiras páginas e a subtil instalação da Luísa [Ferreira], «Claro e Escuro. A dimensão do que nos foi acontecendo está patente no ambiente tonitruante que por ali se respira. Não falta carga simbólica, homem só com bandeira, as farmácias e os hospitais feitos palco, a coreografia dos novos gestos pó-de-talco, toques de cotovelo e zaragatoas.

Uma parede ergue-se enorme com os retratos simples e pujantes que Rui Oliveira fez a profissionais de saúde, gente com marcas, das máscaras e do cansaço, da apreensão e da dúvida. Não arrisco dizer que está lá a realidade toda, até por sentir falta de alguma sujidade, algum desfoque, enquadramentos mais movediços, mas estarão muitos ângulos do sofrido. A Luísa multiplica as maneiras de ver, chamando a atenção para detalhes, aqueles do chão, ou os da hesitação, estes de súbito habituais de não sabermos o que fazer com as mãos. Ou por onde ir.

Horta Seca, Lisboa, sexta, 18 Setembro

O que desatámos a fazer com o telemóvel será auto-retrato? Ou papel de forrar as paredes em que nos vamos encerrando no labirinto do quotidiano? Nesse espelho contínuo não paramos de simular uma alegria de beijos suspensos, frios, paralíticos que nem cinema parado. Falta-nos ar. O volume 05 da importante colecção PH, dirigida pelo Cláudio [Garrudo], saiu dedicado a José M. Rodrigues, senhor de obra irrequieta que se apresenta em retrospectiva mínima, cronologia invertida que parte do presente para chegar aos anos 1970, como que a querer confundir partida e chegada, nascente e foz. Tem muitas pontas por onde se pegue, esta maneira de rasgar perspectivas. Aliás, creio que um dos seus lados mais desafiantes está na multiplicações de linhas a perseguir, de horizontes a alcançar. Sigamos a da sombra do corpo na parede de papel. Não é a primeira foto que vemos, mas é a que abre a série (algures na página): ao baixo e a cores, declinadas da madeira, duas sombras sobrepostas projectam-se sobre canto de parede tintado com textura miúda e pontuada nos extremos superiores por duas molduras vazias, se não contarmos o reflexo de outras tantas molduras. Cartões de legenda em branco brilham paralelos aqueles fragmentos de objecto comum. A figura está de costas e acentua o rasgo onde a superfície se desdobra em fenda. Eis sublime auto-retrato do fotógrafo: sombra perdida na fronteira dos reflexos, imagens aplicadas em superfícies que se espelham dizendo, a um tempo, matéria densa de construção mas volátil assim a espessura da luz. Pode a fotografia existir sem lugar que a revele? O corpo do artista pode ser ecrã. Quase nas últimas páginas, as do início do percurso, em clássicos quadrado e preto e branco, pedaço de parede forrada de motivos florais sobre o qual assenta moldura com reflexos desfocados do mesmo motivo. Por não ser uniforme, a luz permite que o chiaroscuro vá revelando as subtilezas, as marcas da natureza morta, do tempo. De súbito, rasgada pelo enquadramento, uma tomada. A presença eléctrica do humano faz-se flor, vivifica a matéria inerte. De igual modo, o espelho dialoga com o espectador, quando vemos o objecto torna-se distinto. Outro século agora, de novo ao baixo e a cor, com a paginação em dupla página acentuando a cadência. Sobre fundo hipnótico de florões com dominância de roxos, com vibrações distintas, do muito vivo ao esbatido, parece tombar uma moldura barroca que acolhe foto de mulher vestida sobre a relva, de pose e olhar oferecidos. A parede há-de estar erguida, mas ao alto entrega-se um corpo deitado em chão de ervas. O fotógrafo revela deitado sobre o seu objecto e expõe quase sempre ao nível dos olhos. A fotografia será sempre janela excessiva rasgando a possibilidade de dimensões e narrativas. Esta investigação do José M. sobre a pele do mundo passa por inúmeras texturas e matérias, muitas águas e rochas, mas encontra constância nesta tentativa de fazer da parede, do papel, ou seja, do suporte também ele substância, carne. Há ainda outra onde o corpo do artista se sobrepõe sobre costas de cadeira e o fundo outro não é senão parede com tomada de vários canais, eléctricos, telefónicos, de antena? E nisto desembocamos em presente mais próximo, para já a mais perturbadora das fotos aqui incluídas. Cor, ao baixo, impressa ao alto na ímpar. O artista está arrumado ao canto de duas paredes com frescos emoldurados por sancas de gesso, encimadas por fios eléctricos de cores distintas e colocados também sobre florão pintado no início do tecto que se deixa ver. O enquadramento propõe um desequilíbrio dinâmico que faz do centro o artista de olhos fechados e boca aberta, sorvendo ar. Enquadram-no paisagens campestres com grande presença de céu e azul, de água, visões irreais de um bem-estar composto para o olhar. O fotógrafo respira ou diz em voz alta? Na página par, acontece correspondência, a modos que curto-circuito. No negro puro rasga-se um pequeno rectângulo com homem de costas, a mesma camisa aos quadrados da seguinte: o fotógrafo no estúdio em trabalho de revelação? Ali respira-se luz. O corpo do artista, o seu rosto, pertence a esta pele do mundo que se prolonga, que tatua as construções, a natureza paisagem íntima, que assombra os muros. O olhar, como a luz, define superfícies, estabelece contactos e possibilidades. O fotógrafo, como a sombra, está em todo o lado. O ar é a grande razão de ser.

29 Set 2020

O palco dos olhos

Santa Bárbara, Lisboa, quarta, 26 Agosto

Descobri há dias carta velhíssima de décadas na qual me apontavam indomável vontade de fazer acontecer. O tom era elogioso, mas esta inclinação parecia também assustar a minha correspondente. Sobressaltado fiquei com a constância da pulsão logo comprovada com uma lista de projectos, ensaiados, começados, participados, abandonados, esquecidos, até cumpridos. Para quê? Para cansar o animal? Qual deles me define? De que fujo? É chegada a altura de arquivar outro. Há catorze anos, não se chamava ainda «Spam Cartoon», mas «Mundo a seus pés». A ideia tida, à mesa, desconfio, com o André [Carrilho], e à qual se somaram depois a Cristina [Sampaio], o João [Fazenda] e o José [Condeixa] era simples, como insistíamos em apresentá-la: «micro-filmes de 30 segundos que comentam temas de actualidade à maneira de um cartoon editorial, em lógica auto-conclusiva de gag.» Sem palavras, acrescento.

Mas com imprescindível sonoridade. «O eixo em torno do qual tudo gira é a síntese, no desenho como no argumento: impacto máximo com meios mínimos.» Conseguimos, nos programas de apoio aos filmes de animação, o impulso inicial para apurar a ideia achando que o resultado bastaria para convencer um canal de televisão, ou que tornaríamos o conceito viral. O desenho de humor tinha que se mexer. Afinal, o comentário político, sobretudo na imprensa, vive uma das piores crises da sua história e corre o sério risco de parar.

Adiante. Depois de promessas não cumpridas e falsas partidas, descobrimos a enérgica confiança do António José Teixeira, primeiro na SIC Notícias, depois na SIC, até que acabámos na RTP3, no lugar que nos parecia o indicado, um telejornal. Na sonoplastia, o Philippe Lenzini substituiu o José e o João precisou do tempo que nisto gastava. Entrou o Tiago [Albuquerque]. De início, a criação era bastante comunitária, mas a dinâmica dos prazos (semanais) e a exiguidade da equipa, foi reduzindo ao mínimo essencial essa partilha.

Cabia-me o papel de produtor, cada vez mais alheado. Discutimos muito e quase nada. Divergimos talvez de menos. Aprendi bastante, sobretudo nas gradações do olhar, na redução dos corpos ao mínimo, de como o movimento nos muda e afecta até a forma de contar. Não vivem nas antípodas, a criação e a produção, mas o «Spam Cartoon» não precisa de mim para acontecer. Devo gastar tempo a pensar nos modos e propósitos de fazer. De me fazer.

Horta Seca, Lisboa, terça, 8 Setembro

Varsóvia continuará na névoa das histórias, não arrisco aceitar o convite para acompanhar a edição polaca de «Salazar – Agora, na hora da sua morte» (ed. Parceria A. M. Pereira), com que enfrentámos há uns bons 15 anos, o Miguel [Rocha] e eu, o sinistro fantasma (algures na página). Gostaria de desvendar as razões do interesse local em personagem tão do fadário nacional, esperando que não resultem do furor autoritário que volta a atravessar o mundo. Estas respostas aos tormentos de qualquer sociedade são maneira desesperada de pôr pensos rápidos em pernas partidas, e à martelada. Revisitei a novela gráfica e não saí desgostado, confirmei mesmo que pede reedição, com ligeiros acrescentos. Em dias de constante avaliação, reconheço neste projecto um dos mais desafiantes e compensadores que me foi dado experimentar. A preparação logo se fez visita guiada, um tudo nada obsessiva, a um painel de personagens complexas e inquietantes, a uma riquíssima floresta de icónicas imagens, portanto, à identidade deste país, desembocando no fecundo diálogo com o Miguel, que obedeceu tão só à mais delirante criatividade, em raro entendimento. Com a condescendência amigável de Antónia Maria Pereira, guardiã de casa editora tão cheia de espectros. Seguiu-se o lançamento, pontuado por episódios de espanto um pouco por todo o país, menos Santa Comba Dão, e apenas por nunca termos sido convidados. A perturbação gerada pelo protagonista-tema, abordado em bd, e longe do libelo panfletário, gerou situações que mereciam ser contadas; como a quente sessão no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, onde uma dúzia de militantes vociferaram a estranha incapacidade em aceitar a inteligência do ditador, ou a comovente de Baleizão, que de súbito se tornou catarse colectiva de período doloroso. Sem esquecer, ainda que tenha perdido para sempre as exactas palavras, a calorosa apresentação do [Manuel António] Pina, em Gaia, para dois ou três gatos pingados. Ou a primeira, dessa em salão nobre à pinha, no Ministério das Finanças, no Terreiro do Paço, lugar para sempre assombrado.

Coelho da Rocha, Lisboa, quarta, 9 Setembro

A casa de Pessoa reabriu toda arrumadinha e fomos visitá-la guiados pela gentileza da sua directora, Clara Riso. Em tempos de tempo estendido, embricado, enlaçado, a exposição do autor que se fechou sobre si para abrir mundos não será permanente, mas de longa duração. Quer isto dizer que este modo de dispor vida e obra terá olhares hóspedes que habitarão, não o quarto interior, mas o das janelas para a rua. Interior e no lugar do coração será sempre a biblioteca, com o seu alinhamento de lombadas mergulhando ramos no oxigénio ou abrindo raízes em térrea profundidade, interrompidas aqui e ali por duplas significativas, a de «Reflexões sobre a Língua Portuguesa», de Francisco José Freire. Ou a da folha de rosto dedicada de «Príncipio», da Esfinge Gorda. Notas a lápis a prolongar leituras até ao corpo do poema. Esta floresta jamais será do esquecimento. Até por estar livre e devidamente na rede (http://bibliotecaparticular.casafernandopessoa.pt/). Este andar bombeia sangue entre o cima dos heterónimos e o baixo da biografia, se for o caso, nuvens em cima e aquíferos abaixo. Nesta nova maneira de dizer Fernando há um relâmpago chamado Almada. O rosto de Pessoa foi Almada quem o fez. As caras não se lhe fixavam nem no espelho, que ele bem tentava em cartões de visita, em cartas astrológicas, em missivas variadas. Almada foi o único a apanhá-las. Somos recebidos naquele cubo onde a luz obedece a um para desenhar o outro à mesa e chapéu, pose real de caneta e cigarro, tinta e fumo, as muitas dimensões do futuro que era, afinal, a sua casa. Isto se tempo fosse futuro. Há ainda estudos para inscrições dos heterónimos na pele da cidade, mas o que me apanhou foi o retrato a lápis de um primeiro olhar, o de 1913, no exacto ano em que se encontraram. Não se sabe de outro retrato feito em vida do poeta e este terá sido ao vivo, olhos nos olhos. Talvez por isso, Pessoa está vivíssimo e desalinhado, próximo de um real por haver.

De olhar estranhamente sereno. Não distingo o que nasce da vida do que vem da obra. Ao lado, brilha o exemplar de «A Invenção do Dia Claro», relido por acaso durante a travessia do deserto, um dos momentos em que o poeta se fez editor, em que escreveu leituras com o concreto do objecto, ele que era bastante dado ao prático, pelo menos de cabeça. «O preço de uma pessoa», escreve ali aquele que pinta, «vê-se na maneira como gosta de usar as palavras. Lê-se nos olhos das pessoas. As palavras dançam nos olhos das pessoas conforme o palco dos olhos de cada um.”

22 Set 2020