Doces, brinquedos e burros – Família, infância – Legendas sem Fotografias (11)

Recordações de C.

Aqui estou, menino muito bem-comportado, ao pé de um bolo. Sempre percebi isso: tinha de estar todo direitinho para comer o bolo. Se me portasse mal, não comia. É estranho como coisas tão insignificantes nos podem marcar para sempre, não é? Não sou demasiado sério, mexo-me muito, mas isto marca. Todo a gente com esta idade gosta de doces. Mas eu quase não comia porque me portava mal. Uma injustiça-
 
Recordações de C.
Nesta fotografia estão brinquedos – um avião e uma bicicleta estranha. Parece que estou – aqui menino – preparado para tudo, não é? Para levantar voo ou para sair rápido dali. Estou bem equipado. Mas não é verdade. Nunca me senti preparado para tudo. Há muito tempo que não tenho nem bicicleta nem avião. Não sei onde os deixei. Não os devia ter perdido de vista. Agora sinto isso – que, se precisar de fugir não tenho avião nem bicicleta, nem trotineta, nada. E se for a pé demoro muito (risos). Gostava desta bicicleta. Era uma bicicleta cómica. Andava mal, mas fazia-me rir (risos).
 
Recordações de C.
Esta foto em cima de eu, menina, em cima de um burro é a que me dá mais saudades. Se fosse possível, antes de morrer, pediria para subir para cima de um burro e dizia-lhe: agora vai para onde quiseres. Por mim, está tudo bem. E ele ia. 
Os burros são grandes animais, bem resistentes, bem amigos, bem espertos. Claro que, mais tarde, quando se tem dezoito anos, se pensa apenas em príncipes e princesas a cavalo, mas já não tenho idade para essas tontices. Para mim, ir de burro até à minha campa estava muito bem. Gosto muito desta imagem. Eu em cima do burro, com talvez sete, oito anos. Era pequenina, mas já sabia o que queria. É bom isso, não é?
 
 
a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

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