Somos muito egoístas, não somos?

Família, infância – Legendas sem Fotografias (8)

Recordações de P.

Feira popular, P. e pais, 1950, casa dos espelhos. P. está de saia em frente a espelhos que a multiplicam.

Somos muitos e esta foto assusta-me. Somos pessoas a mais. Eu ali não sei o que me assustava mais, se ver que eu não estava sozinha, que tinha muitas irmãs, mas que eram falsas, que só existiam ali, no espelho…ou se me assustava ainda mais ver os vários pais e mães que tinha à minha volta, também reflectidos pelos espelhos. Agora penso a olhar para isto: será que conheci bem a minha mãe e o meu pai? Penso agora se o que eu via deles não era uma destas imagens falsas, de espelho. Onde estava o meu pai? Se calhar, a família é um pouco isto: estamos na feira popular, numa casa de espelhos, e vemos centenas de imagens dos nossos pais e nossas. Por vezes, para resistirmos a tudo, agarramo-nos a uma imagem da nossa mãe ou do nosso pai e ficamos com ela, como se fosse a única. Por mim, isso está muito bem. Vejo pouco diferença entre uma imagem e a coisa verdadeira. É como nesta fotografia, é difícil dizer exactamente onde está o meu pai. Ou onde está a minha mãe. Por isso, eu vou escolher a imagem que quiser. Aquela que me deixar mais confortável. Todos fazemos assim, quando somos crianças e depois quando crescemos. Não há mal nenhum nisso. Temos de escolher a imagem que nos acalma mais. Não a imagem que nos dá mais pesadelos. Todos temos de nos defender, não é?

 

Recordações de P.

P. e prima A. (morreu neste ano em que estamos). Aqui à frente dos pastéis de Belém, 1956.

Quantas pessoas morreram este ano? Muitas, não foi? Mas a minha prima morreu mais. Nós somos muito egoístas, não somos?

 

a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

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