Elegância e Imagens – Família, infância – Legendas sem Fotografias (7)

Recordações de P.
Fotógrafo de rua, P. e pais, 1955, Rossio. 

 

Estamos elegantes. O rossio era um sítio elegante. Para irmos a certos sítios precisávamos de estar elegantes, pois se não estivéssemos não nos deixavam entrar. Nunca mais me esqueci disso. Se estás feio, não entras. Se estás bonito, entras. Vejo uma certa crueldade nisto, mas não sei explicar porquê. Sempre percebi que a elegância era importante e que isso abria as portas mais complicadas. Uma espécie de abracadabra. Os feios e mal vestidos não sabiam pronunciar abracadabra. Não encontravam a palavra certa para pôr de lado um obstáculo. Eu sempre senti que tinha essa palavra certa. Não sei qual é. Claro que não é abracadabra. Até pode não ser nenhuma palavra, pode ser apenas um silêncio qualquer e um gesto certo. Mas sempre senti que tinha esse poder. E que outros não. E isto não me deixava orgulhosa, o que é estranho. Por vezes, ficava mesmo envergonhada de sentir que era elegante e que por isso entrava em sítios que outras pessoas não entravam. É estranho isto. Gostava de não ter aprendido a palavra abracadabra. Mas os meus pais ensinaram-me a fazer abracadabra desde cedo. Não sei se foi uma prenda deles, se foi um castigo qualquer. Mas não posso ser injusto, eles queriam defender-me.

Recordações de C.

Estive sempre rodeado de mulheres. Isso tem importância. Nas fotos quase que não se vêem outros meninos nem homens graúdos. As imagens só apanham o que está na realidade, não é? Não podem inventar. A minha cabeça pode inventar, até a minha memória pode inventar. Mas a fotografia não. Gostava de ter outras fotografias, mas não tenho. Posso inventar ou mentir, mas não tenho muito jeito para isso. Já passou. Estas imagens já passaram, já não existem. Prefiro assim.

a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

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