Qualquer coisa, felicidade – Família, infância – Legendas sem Fotografias (5)

Recordações de C.

1 – Porto, 1949

Esta é a tal fotografia polémica. Nesta data, a L. esteve no Sá da Bandeira com uma peça em que fazia de bailarina. Convidou um corpo de baile de profissionais. Á direita está a minha mulher, as duas da esquerda são as suas irmãs e que a que tem gola de pele é bailarina. Clara qualquer coisa.Desculpem. Não me lembro do nome. Somos todos qualquer coisa. Com o tempo, perdemos vários nomes e ficamos João, qualquer coisa, Clara, qualquer coisa. Eu sou o Carlos qualquer coisa para algumas pessoas, de certeza, que estão agora a ver fotografias onde por acaso apareço eu. E isso também me arrepia: pensar que, em algum lado, neste momento, estão a ver uma fotografia em que eu apareço. Que direito têm elas de me ver se eu não estou presente e nem sequer sabem quem eu sou? Não gostava de ser Carlos qualquer coisa para ninguém. Mas sei que sou. E ser Carlos qualquer coisa já nem é assim tão mau. Podia ser só qualquer coisa que estava para ali na fotografia. Ser Clara qualquer coisa ou Carlos qualquer coisa, não é mau, não é mesmo nada mau.

Recordações de P.

1 – Casino de Espinho, casamento da prima D., 1968

Eu com os meus pais. Nunca fui muito feliz. Não me lembro onde estamos… é estranho isso: não sei onde estamos, mas sei onde eu estava. Estava num sítio em que não era muito feliz. Gostaria muito de ter saído desse sítio. De ser fácil sair desse sítio. Seria bom que que bastasse levantar-me e começar a andar para sair desse sítio onde estava infeliz. Mas não é assim que as coisas acontecem. Fartei-me de andar e não saía do mesmo lugar. Deve haver um movimento qualquer que é capaz disso. Alguém que aprenda a voar, por exemplo, e saia por cima, sem ninguém ver. Mas eu só aprendi a andar. Dançar é só uma forma de andar aperfeiçoada. Acho que vou ficar neste sítio que não sei onde é, entre os meus pais, para sempre. É como se não tivesse saído desta fotografia. É estranho, não é?

 

a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

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