A morte, o colo – Família, infância – Legendas sem Fotografias (4)

Recordações de C

1 – FUNCHAL, 1936

O menino vestido de branco sou eu, com o meu primo M, já falecido. Foi médico militar, esteve em Goa. Alguém me ofereceu um carrinho que era um boi e o calmeirão do meu primo foi-se lá meter, mas eu como sou muito forte… O carrinho servia para levar carga e cimento, mas eu levei o meu primo lá em cima. É estranho ver a fotografia de um menino que já morreu, morreu bem mais tarde e velho. Assim ficam os tempos todos baralhados na cabeça. Às vezes penso que as imagens deviam ser proibidas por causa disso. Enganam os olhos e bem pior: parece que querem enganar o tempo. Mas eu sei que não conseguem. Fingem que enganam o tempo, mas não conseguem. O meu primo foi médico militar e já morreu, como disse. Aqui ainda é um menino. Ainda não sabia nada. Agora também não sabe nada, de certeza. Não é depois de morto que se aprende. É estranho isto, morrer e estar aqui à frente ainda miúdo, numa imagem. Não gosto de ter medo, mas às vezes tenho mesmo medo das imagens. Como se elas fossem uma maldição. Quem for fotografado vai morrer. Qualquer coisa desse tipo. Será que hoje há alguém no mundo que não tinha sido fotografado? Não sei. Mas acho isso mesmo: quem não foi fotografado não vai morrer. É a minha crença, tenho direito a ter uma. As imagens das pessoas que morreram deviam desaparecer, evaporar-se das películas.

2 – Funchal, 1946
Claro que o mais fortalhaço sou eu, com os meus 3 irmãos. As minhas irmãs ainda estão vivas, o meu irmão já faleceu.
Gosto da composição. Estou lá em cima. E formamos um triângulo. Um triângulo com quatro irmãos. É estranho, mas é assim.

3 – Porto, exposição colonial do Porto 1934
Sou eu e com uma senhora que eu não sei quem é. Quem organizou esta exposição foi o Capitão G., e que fez o que era costume nessa altura: os jardins zoológicos humanos.
É tão estranho isto, estarmos no colo de alguém que não sabemos quem é. Não caímos ao chão, mas não sabemos quem nos salva. Não é estranho?

a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

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